Humanidade: Extinção

7 Capítulo 7 - Regresso


A situação é um tanto quanto desnorteante. Vamos averiguar. Estou com dois seres de outra dimensão, com um preso no meu braço e o outro pelado, enquanto estou sendo ajudado por algum motivo por um titã de nome Atlas que desejava a destruição da humanidade mas que agora quer salva-la. Fato é que o Edmund não se manifesta desde que terminei a sopa, e olha que já faz horas. E aquela mulher metade raposa metade humana, se posso dizer que ela é isso, está neste momento fazendo alguma coisa da qual eu desconheço, mas provavelmente esta se dedicando a fazer nossa refeição pelo cheiro horrível aqui do lado de fora.

Enquanto fico sentado aqui, observo que a região na qual estou é completamente diferente. A grama aqui cresce. Há arvores ao fundo da paísagem, e o cenário é o de um campo. O céu azul é completamente o oposto do escuro que cobria nossas cabeças na cidadela, e a temperatura é aconchegante, assim como a cabana. Olho para a minha mão calejada, e vejo uma formiga andando. Há quanto tempo eu não vejo uma formiga? Anos, talvez? Começo a rir, enquanto levanto-a e mexo os meus dedos, vendo suas antenas balançando e suas patinhas correndo para não cair. É tão engraçado ver um outro ser que não fosse um cavalo ou os poucos animais de rebanho que tínhamos. Abaixo cuidadosamente, e a deixo descer. E lá vai ela, se engraçando pelas folhas, pronta para contar a aventura que acabou de vivenciar com um humano.

Enquanto isso, estou com as costas apoiadas na cabana, sentado, coberto pela sombra do telhado. Essa paísagem está me deixando com sono, talvez eu tire uma sone- Ai! Mas que porra é essa? Jogaram água em mim! Olho pra cima e... É a mulher raposa. Encaro ela por alguns segundos, e vejo uma jarra de ponta cabeça em suas mãos.

“O meu nome é Sofia. Pare de me chamar de “mulher raposa”. Não mereço esse nome.”

Ainda não me adaptei à ideia de que eu estou com seres de outra dimensão que são capazes de ler minha mente. Talvez eu nunca me adapte, mas a questão agora é o motivo pelo qual ela fez isso.

“Venha, o almoço está pronto.” – Isso talvez explicasse o motivo.

Me levanto com calma, ensopado, e me dirijo para dentro. A porta de madeira range de acordo com que a abro, e logo em seguida fecho-a. Tiro a camiseta e a deixo pendurada na maçaneta da porta para secar. O cheiro de vômito me guia até a sala, onde um prato similar à sopa que tomei antes me aguardava. A So... Sofia, certo? Certo. Enfim, estava sentada logo do outro lado da mesa que apoiava os nossos pratos. Sento de frente para ela. Suas orelhas levemente relaxadas indicavam um enorme fascínio comendo aquela comida estranha. Ela finalmente havia deixado de ficar despida. Estava com um vestido lilás longo, aparentemente de linho. Por um momento, observo ela. Voltando sua atenção para mim com calma, ela me faz voltar a atenção novamente para a minha comida.

Tenho que evitar de me perder nas minhas ideias assim, posso gerar resultados catastróficos com isso. Foco. Mergulho a colher que fora colocada do lado direito daquela tigela, e vejo ela ser engolida pela gosma que foi formada com seja lá quais foram os ingredientes. Acho que vou ficar sem comer por essa tarde. Talvez eu devesse falar o que eu acho da comida, mas seria de certa forma rude. Provavelmente devo apenas falar que não estou com fome. Sim, é melhor... E quando me dou conta, ela já havia comido tudo. Nem uma gota sequer havia sobrado.

Com uma gagueira, começo a balbuciar o meu elaborado plano de última hora.

“Herm... E-Eu acho que não estou fome...”

Uma expressão de irritação surge repentinamente em seu rosto. Levanta-se com um único impulso, jogando a cadeira para trás e fazendo um estrondo ao se apoiar na mesa. Pegou então o prato, sem dizer uma palavra e abandonou o cômodo, indo em direção à cozinha balançando o seu rabo. Devo ressaltar que me assustei com esse movimento brusco.

“Você é burro mesmo hein, Aleks.” – Ecoou a voz em minha mente. Olhei para o meu pulso, e os olhos de Edmundo surgiam daquela peça de minerais.

“Esqueceu que ela tem acesso ao que você pensa? Ela detesta que reclamem da comida dela. Sempre que for pensar em uma crítica, pense longe dela.”

Eu tenho que manter isso na minha cabeça. Se bem que é bem capaz dela saber que apenas vou pensar alguma coisa sobre ela longe dela, e talvez ela se afaste de mim, e... Bem... Ela é tão bonitinha... Não quero ela longe.

“Aleks, ela é louca. Confie em mim. No Limbo, ela era completamente pirada. Não comece a cogitar a se apaixonar por ela, ela está apenas nos ajudando por ordens do Atlas.” – Retrucou Edmundo.

Ele estava certo. Ela não parece ser uma pessoa muito amigável. Todas as vezes que eu a vi ela estava com a cara fechada e pouco comunicativa. Talvez sentisse falta de sua casa verdadeira, ou da história que foi obrigada a deixar para trás pela nossa ganância que despertou os Titãs. Mas ainda assim, eu não sou um culpado direto pelas ações de meus semelhantes, além do mais, foi Atlas quem abriu a entrada entre as nossas dimensões, não a minha pessoa.

“Você não acha que seja isso?” – Pergunto.

“Talvez sim, talvez não. Fato é que eu não sei. Não consegui ficar tão próximo dela para alcançar esse tanto de intimidade. Posso lhe afirmar que ela é uma pessoa difícil de se interagir, só.” – Seus olhos rolaram para a direção na qual ela foi, esbugalhando-os antes de falar – “Merda, ela ouviu a nossa conversa. Boa sorte aí, campeão!”

Senti o meu corpo travar enquanto Edmundo escondia-se. Com dificuldade, virei a minha cabeça na direção na qual ela havia saído. Aos poucos, ela começou a aparecer, e então parou na entrada entre a cozinha e a sala onde estavamos. Seus olhos vermelhos me fitam sem se mexer. Nunca senti um clima tão tenso quanto esse. Ela decidiu vir até mim. Deus meu. Passo a passo, o chão anuncia sem cerimônia que ela está se aproximando. A madeira range, e a sua expressão não muda. Engulo seco. Chegou próxima de mim. Parou. Mas ainda continua me encarando. O que será que ela vai fazer? Pegou a cadeira logo ao meu lado e sentou-se, colocando as mãos entre as pernas. Eu ainda estou sentado, com a cabeça virada para o lado, tremendo.

“Se você não gostou da sopa, eu faço uma comida melhor.” – Disse, num tom de voz carismático, enquanto sorria.

Eu não sei o que responder. Eu estou tão envergonhado que sinto o meu rosto cozinhar. Ela é tão linda. Esse vermelho claro que tinge sua íris me acerta em cheio. Os cabelos tão bem cuidados, e a sua pele... Eu não consigo responder, leitor. Travei. Eu simplesmente não consigo entender como ela conseguer ser tão linda. E esse sorriso? Ai, meu Deus, será que ela está lendo os meus pensamentos? Puta que pariu, será que ela sabe que eu gosto dela? Edmundo, onde você está, caralho! Não me deixe sozinho!

“Você é tão fofo.” – responde ela com uma risada. Suas bochechas estão levemente coradas. Será que ela...?

“Me comuniquei com Atlas.” – Surge a voz de Edmundo do Inferno – “Ele está afirmando que o tempo de recuperação do nosso menino acabou. Ele deve partir.”

“Oras...” – Responde Sofia. A tristeza era óbvia em sua voz. Agora, ao invés do sorriso, tinha um rosto triste -“Se é assim, nos vemos mais tarde, Aleks.”

“Mas... Você não vem com a gente?”

“Vou aparecer nos momentos oportunos, querido.” – Ria ela, enquanto tentava tapar a boca.

Ela me chamou de “querido”? Então ela está-

“Aleks, hora de acordar.” – Dizia uma voz similar à da esfera.

Uh? Como as- E num piscar de olhos, não estava mais na cabana. Olhei para os lados, e me deparei com um ambiente igual ao que cercava a cidadela. Estava de pé. A terra é visivelmente seca e negra. Do céu, chove fuligem. O ar é pesado e quente como uma chama selvagem. Estou de volta com todo o meu equipamento de proteção. Sujo, encardido e fétido. Tento me orientar. Olho ao meu redor, e, ao fundo, o que eu mais temia havia acontecido. Não é possível. Cambaleei por um instante. O choque é muito forte. Apenas pode ser uma miragem. Uma esfera com luz própria acabou de aparecer flutuando na minha frente.

“Sinto muito pela sua perda. Tive que te resgatar.” – Dizia a voz masculina com um eco.

Estou de joelhos. Meus olhos se enchem de lágrimas. Aquela era a cidadela que eu tanto defendi. Meu sangue e meu suor por ela. Toda a minha história e a minha existência estavam nela. Não mais. Ela agora estava em chamas.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.