Notas iniciais
Realmente... Não acreditei que eu consegui escrever esse capítulo tão importante em tão pouco tempo. Espero que gostem tanto quanto eu gostei de escrever ele.

Do vazio, surgiu uma esfera com uma tímida labareda. O crepitar de seu fogo fazia com que o som de meu organismo não ficasse solitário. Ela se move como se estivesse brincando comigo.

“Siga-me” – Dizia a voz. Pois bem, não havia muito mais para onde ir. A luz então começou a se dirigir lentamente para trás, o que dá pra notar por ela ficar menor aos poucos. De acordo com que ela se afasta, o ambiente parece ficar cada vez mais gélido, como se estivesse sendo abandonado. Começo a andar, um pouco tonto ainda, mas nada demais. Me aproximei da esfera. Ela está realmente quente, mesmo que não pareça. Eu sinto o clarão dela iluminando todo o meu rosto.

Ela apagou. Tentei procurar um motivo, mas não havia. Ela simplesmente apagou. Ai, cacete. Dei um passo para trás. A esfera, antes em chamas, se tornou um ponto branco.

“Encoste em mim” – Balbuciou. Que escolha eu tinha? Minha mão se aproxima. A luva parece esquentar à medida que eu alcanço-a. Estou com medo. Estou tremendo. Se isso quisesse me matar, já teria o feito há muito tempo. Lambo os meus lábios e engulo seco. Suspiro e, finalmente, encosto.

Ah!

Meu Deus, que luz! Não estou enxergando nada. Ela está abaixando. Meu Santo Pai, que lugar lindo. É uma paisagem onírica. À minha frente, um pasto verdejante até onde a vista alcança. Um céu azul como o mar sem nenhuma nuvem encobre a minha cabeça. É um belo dia ensolarado e bate-me uma refrescante suave brisa. Olho para mim. Estou nu. Mas que merda aconteceu com as minhas roupas? Acho que as minhas roupas são a última das minhas preocupações. “Não seja tímido” – Falava a voz. Não sabia ao certo de onde vinha, apenas sabia que ela estava me observando. – “Vá até a árvore”. Árvore? Que árv- Eu não tinha visto aquela árvore ali. Ela simplesmente surgiu em meio à pastagem. Da minha visão periférica, vejo aquela esfera, agora como uma fonte de luz, se movimentando até lá de forma meiga.

Sigo. Alcanço a árvore. A grande copa dela oferece uma enorme sombra. É tranquilamente possível tirar um bom cochilo aqui embaixo. Mas algo estava faltando. Olho para os lados, e vejo a esfera adentrando entre os galhos até sumir. De repente, vejo as folhas se movimentando, como se houvesse algo lá. Minha respiração aumentou um pouco. Será que a esfera havia tomado outra forma?

Mas que droga é essa? Isso não faz sentido nenhum. Isso só pode ser uma alucinação da queda. Não me chame de louco, mas vou lhe dizer exatamente o que estou vendo. Um primata está tentando descer dos galhos, mas há algo errado com ele. Ele parecia estar perdendo os pelos, como se estivesse doente. Ele desceu. Pisei para trás. Não ouso fazer um ruído. Ele se coça. A coluna dele parece estar se alongando e forçando-o a ficar cada vez mais de pé. Seu rosto está mudando. Seus braços e pernas estão se esticando, e a sua expressão é de quem não liga. Eu ligo. Eu estou completamente aterrorizado. Ele... Ele... Ai, meu Deus. Ele se tornou um ser humano. Sim, um ser humano. Sem cabelo, forte, e com uma expressão neutra. Piso novamente para trás, e minhas costas acertam em cheio algo maciço. Meu corpo se nega a realizar o movimento, mas a minha mente força. Viro o pescoço. Me deparei com o que parecia ser uma casa.

Como uma casa surgiu do chão, sem nem ao menos fazer barulho? Não haviam explicações. Voltei minha visão para tentar ver o homem que havia surgido, e dele, haviam mais dez iguais, todos agora de roupa. A paísagem aparenta estar mudando. Cada vez que eu mudo o foco do meu olhar, surgem mais coisas: Prédios, fábricas, ruas, avenidas, lojas, pombos, tem até um cachorro aqui. Há muita gente na rua, todas passando por mim, me ignorando. Tudo o que se imagina em uma cidade Pré-Tremor.

Olho para mim, e estou vestido. Uma camiseta básica branca e uma calça esportiva preta. E quando volto meus olhos novamente para a frente, a árvore havia sumido. Havia um enorme buraco no seu lugar, e a pequena esfera flutuava sobre ele. Chuto que eu devo me aproximar dela. Alcanço a beirada e olho para baixo. Da parede daquela passagem só de ida pro Inferno, todos os minérios mais valiosos estavam lá, encrustados na paredes que se dirigem até a escuridão. Não consigo ver o final. A esfera então adentrava, e sumia de minha visão.

“Este sou eu.” – Ecoava daquele rombo na terra. – “Somos mais antigos que vocês. Viemos de um período em que não havia nenhum ser. Em que o que vocês chamam de Terra era uma bola de lava. Concordamos em coexistir com a vida que se formava. Nos mantemos dormindo durante as eras, para não causarmos nenhum dano à vocês. Apenas queriamos viver. Mas a ambição de sua raça trouxe consequências até para nós. Vocês esgotaram tudo o que poderíamos oferecer. Colocaram a vida de milhares de seus semelhantes em risco para terem suas fortunas. Vocês não merecem a vida. A vida não merece vocês." — E subitamente, ele parou de falar.

Eu... Estou assustado. Isso daqui está muito além de ser uma alucinação. Ah! Tem algo muito grande me empurrando! Caralho! Fui jogado pra dentro do buraco! Estou caindo, puta que pariu! Socorro! Olho para os lados em busca de algum lugar para me agarrar, e começo a ver o que parece ser uma mina em funcionamento, como se alguém tivesse fatiado uma para que se conseguisse ver os túneis. O vento ao meu arredor é forte, e a entrada por onde eu caí fica cada vez menor. Mas eu consigo enxergar esses túneis como se eu estivesse parado. Milhares de homens e mulheres sobem e descem essas trilhas subterrâneas, todos sujos e suados, e aparentemente cansados. De repente, tudo à minha frente sobe, como se uma folha de papel sendo puxada. Agora, a cena são de trabalhadores desesperados. Os gritos que me arrepiam a espinha percorrem os meus ouvidos, enquanto eles correm do que parece ser um desmoronamento. Tudo fica escuro, e o destino deles é claro.

Um enorme ruído começa a vir do fundo. Olho para baixo, e não consigo identificar, apenas sei que está vindo com muita velocidade. Preciso de proteger. Me encolho em posição fetal, e deixo apenas uma fresta para o meu olho. O barulho cada vez mais alto. O ar cada vez mais veloz. Me preparava para o impacto. É agora. Recebo um empurrão para cima, mas não saio do lugar. Minha respiração está mais ofegante. O meu coração bate mais rápido. Que diabos de alucinação é essa? Leitor, temo dizer o que estou vendo. São... São almas. A aparência delas assemelha-se à de uma pessoa perturbada. Entre elas, o que parecem ser detritos e pedras sobem juntos.

Não entendo o que está acontecendo. Pisco. E de repente, estou naquele mesmo ambiente escuro do início. A esfera volta a aparecer na minha frente. Dessa vez, não fazia nenhum movimento brincalhão, apenas se manteve lá, parada, me observando.

“Tenho uma tarefa para você.”

“E qual seria?” – Decidi responder.

“Salvar a humanidade.”

“E como eu faria isso?”

“Lhe dei um presente. Olhe para o seu braço.”

Levanto meu braço direito com calma, até alcançar a frente de meu rosto. É uma espécie de carvão que cobriu parte do meu antebraço até o meu pulso. Não me acarreta nenhum problema de mobilidade, apenas pesa um pouco. O que é isso? Parece que alguns farelos estão caindo sobre a minha pele. Estão... Estão se espalhando. Bato neles para tentar tirar eles de mim. Eles estão cada vez mais rápido. Por quê eu não consigo tirá-los? Eles estão alcançando meu ombro! Me joguei no chão. Eles estão no meu rosto! Socorro! Argh!

“Você não é especial para eles. Mas para mim, você é.”