Eu apenas respiro. Já fazem mais de cinco horas desde que ouvimos a última transmissão do Lobato-4. Sinceramente, achamos que eles estão mortos, não temos muitas esperanças. O Quartel-General tentou várias vezes comunicar-se com eles, mas não receberam nenhum sinal, nem o de SOS, nem o de despedida. Seus rastreadores pararam de funcionar, eles simplesmente sumiram do mapa.

Paramos em frente à muralha. De acordo com o nosso conhecimento, os homens-fuligem surgem apenas na primeira noite após o tremor primário. Durante os tremores secundários, é mais provável que você seja engolido por uma cratera ou morto por alguma coisa aleatória. Cerca de trinta pessoas haviam sobrevivido à primeira noite. Alguns esquadrões perderam seus homens para a embolia pulmonar, para a asfixia e para as quedas. Dois feridos retornaram ao abrigo, o resto foi abandonado para morrer.

O rádio apitava: o tenente estava falando. Sua voz com aquela máscara de gás nos liderava para dentro de umas das dezenas de brechas que haviam surgido na muralha. Nosso objetivo era averiguar se era possível reconstruir as falhas, e se haviam saqueadores por perto. Tendo isso em mente, dois esquadrões já começaram a subir a muralha por escadarias de emergência ao longo dela, empunhando alguns rifles que a cavalaria nos trouxe... Esqueci de falar da cavalaria? Pois bem, conseguimos salvar alguns cavalos após o Primeiro Tremor, eles nos ajudam a arar a terra para o cultivo e cavaleiros auxiliam na patrulha da cidade durante os períodos de paz.

Ok, voltando ao assunto. Um muro de dez metros de altura, feito de concreto puro circula essa cidade. Durou o quê? Uns oito anos? Para derrubar um monstro desses, tem que ser um maior ainda. Algumas nuvens negras ainda rondavam o céu, como se fossem sentinelas de um péssimo presságio.

“Lobato-1, comigo!” – Gritava o tenente pelo rádio. Me apressei para passar dentre os mortos-vivos que estavam na minha frente e me deparei com algo bizarro: Uma cena digníssima de um filme de monstros gigantes, para dizer o mínimo. Fios elétricos se chacolhavam e soltavam faíscas, restos de vigas e armações dependuradas caíam aos poucos, e o concreto rachado como se fosse o recheio de um pão eram os sinais que o titã que passou por aqui não estava de brincadeira. De acordo com que adentrávamos naquela fenda, eu escalava com cada vez mais cuidado uma pilha de destroços, que variavam de cacos de vidro até restos da muralha. O esquadrão estava obviamente cansado, mas ainda tínhamos muito trabalho pela frente. Pularei a parte das averiguações, caro leitor, mas um dos “engenheiros” (Não tínhamos engenheiros formados na cidadela) havia dito que seria “irreparável”.

“Ótimo, simplesmente ótimo” – Resmungava o tenente. O fato de que estávamos expostos a qualquer tipo de gente mal intencionada era realmente algo preocupante. O bate papo entre o Quartel-General e o Nente eram frequentes, ainda que não conseguíamos entender pelo uso constante de códigos considerados de Alto-Padrão, coisa que apenas os oficiais sabiam. Mas mesmo que não soubéssemos o que estavam falando, o clima era de preocupação. Normalmente após o primeiro ou segundo tremor secundário, bandos de saqueadores costumam atacar e exterminar populações inteiras atrás de água ou comida. Pelos relatos, no último ataque, houveram cem desses grupos atacando uma grande cidade ao noroeste de onde estamos. São poucos os sobreviventes da cidade.

“Você acha que eles vão vir após os tremores?” – Perguntava um dos soldados enquanto a noite caía. A alguns metros daquele monte de entulho, a fogueira era a única fonte de luz naquela paísagem devastada. Meu equipamento já havia me incomodado tanto noite passada que mais uma com ele não faria diferença. Ninguém ameaçava responder à aquela pergunta. Nenhuma balbucia. Não queriam trazer um mal presságio. Apenas olhavámos as chamas dançando. Aguardavamos para sermos enviados para sermos dispersos em patrulhas ao redor da cidadela. Já havia treinado com uma pistola e um fuzil antes de ser enviado pra cá, não era um dos melhores, mas já conseguia fazer algo. Não que eu seja inseguro, mas talvez eu apenas tive aquela performance por estar em um ambiente adequado para que todas as minhas habilidades funcionassem perfeitamente... Olha, não sei.

Subitamente, um tremor nos atinge. Tudo balançava. Nas muralhas, os soldados se seguram, enquanto ela despedaça-se com o pouco que lhe restava. Aquele tremor era muito mais forte que um secundário. A fogueira está se desfazendo, tamanha é a força desse evento. Preciso me afastar dos muros, eles estão se desfazendo! Estou correndo. Tropecei! Ai, não! Agarra os cabos! Se segura, porra! Merda! Não, não, não! E quando me vejo, caí em uma das falhas. Bati a cabeça muito forte, mesmo com o capacete.

Pisco uma vez. Estou com muito sono.

Pisco duas vezes. Tudo ficando mais escuro.

Pisco três vezes. Preciso ficar acordado.

Pisco quatro vezes.

Não há uma quinta vez.

Acordo. Estou deitado em meio ao nada. Não há luz. É um lugar completamente fechado. O silêncio é tanto que ouço o meu sangue percorrendo o meu corpo. Cada célula, cada batida do coração, cada piscar de olhos. Não tenho noção de onde estou. Bato as mãos ao redor de mim, o chão é frio e duro... Como uma rocha. Não pode ser. Tento me levantar. Começo a ficar zonzo, minha visão não detecta nada. Meus braços se esticam como as de um equilibrista na corda mais fina e bamba de sua carreira, e começo a andar. Meus passos ecoam. O ambiente é grande e muito abafado. Ouço um tremor. Cesso. Um suspiro veio da imensidão, parecia estar se movendo... Para a minha esquerda, talvez?

“Eu sei de tudo e mais um pouco.” – Dizia uma voz macabra, em um tom de voz como se estivesse em um discurso de retórica, enquanto aquele som parecia se multiplicar milhares de vezes na imensidão de seja lá onde diabos eu estava. Meu sangue congelou. Seja o que fosse, sabia que eu estava lá.

“Eu sei também que você duvida de mim. Saiba, caro Aleks, que eu sei sobre o passado, o presente, e o futuro. O futuro é sombrio, mas o presente é pior.” – Ele sabe o meu nome.