Humanidade: Extinção
3 Capítulo 3
Notas iniciais
Rez a lenda que o primeiro batalhão encontrou algo macabro após o Terceiro Tremor. Seres humanos que não conseguiram alcançar o abrigo mas que, de alguma forma, conseguiram sobreviver. As altas temperaturas, os tremores, incêndios, a alta pressão atmosférica e a passagem em si de um titã obviamente não rendem algo positivo. O boato se manifestava de boca em boca nos estreitos corredores daquela favela que chamam de “Último refúgio”, um monte de barracos no subsolo fedendo a merda. Me dá nojo só de lembrar que já passei meses trancado lá.
Enganam-se os romancistas que pedem por um apocalipse para se tornarem os mocinhos, para terem chances com garotas de colegial. Esse novo mundo é hostil, tanto da natureza quanto dos próprios homens, e não vai ser um adolescente, crente de que vai conseguir matar um exército inteiro com uma metralhadora, sem nunca ter pego em uma, que irá mudar a catástrofe atual.
Erguendo pedaços de madeira quebrada para tampar as janelas, tento me relembrar de como os veteranos do antigo batalhão citavam esses “Homens-Fuligem”... Merda, esse daqui estava pesado. Preciso de panos... Vou usar o meu cobertor. Pronto. Está tudo tampado. Olhamos uns para os outros, aguardando alguma ordem. Tudo está no mais duro e insensível dos silêncios. É óbvio que algo de errado paira ao nosso arredor.
Todos estamos perto das janelas. Com um tom de voz baixo, mas o suficiente para se fazer ouvido, o tenente comenta.
“Não se mexam. O barulho do piso pode atrair-los. Se quiserem olhar pela janela, abram apenas o espaço para um olho. Nada mais.”
E ele se senta, abraçando as suas pernas, enquanto restos de vergalhões jazem ao seu lado. Já me disseram que a curiosidade matou o gato, mas eu talvez seja uma exceção a essa regra. Meus dedos correm pelos panos. Pouco a pouco, a Lua preenche uma faixa de luz branca sobre o meu único olho que ousa se esgueirar pela brecha. O vidro sujo e trincado atrapalha um pouco a minha visão, mas nada que me impeça de enxergar o lado de fora. Estou ouvindo barulhos. Não consigo identificar o que são, mas parece que estão vindo dos escombros logo em frente. Alguma coisa está me chamando a atenção do outro lado da rua. Uma parte do entulho está rebuliço, como se algo estivesse querendo sair. Não consigo sentir o meu corpo. Meus pés não se movem: as botas viraram âncoras içadas ao mar. E daqueles destroços, eu juro, está se esgueirando um braço. Não leitor, não estou em um surto psicótico. Eu quero parar de ver, mas não consigo. Sinto medo. Um medo diferente do que eu senti na hora de sair do abrigo. Eu-
“Aqui é Lobato-4! Pre-Precisamos de reforços! Estamos sendo-“ Viro minha cabeça para ver o que está acontecendo. Estão gritando em pânico pelo rádio. O tenente o desliga desesperadamente. Seu rosto denuncia uma reza silenciosa para que o som não tenha vazado para fora do quarto. Engulo seco. Nos entreolhamos. A situação não estava de acordo com o planejado. Qual seria o motivo pelo qual o Lobato-4 não procurou abrigo? Será que os seus relógios não estavam com o alarme ligado? Minha respiração está mais pesada. Nente arruma os seus óculos de proteção como se estivessem tortos. Um tique nervoso? Talvez nunca saberemos. Talvez. Mas agora isso era o de menos.
Meu pescoço está travado. Eu não consigo girar com velocidade minha cabeça, sinto dor. Escorrego meus dedos novamente pelos trapos que tampam a janela. Meu olho se esgueira, e minha pupila se contrai. O braço sumiu. Mantenho-me por alguns segundos focado para a paisagem imóvel. Ele não estava lá. Seja o que fosse, já havia saído. Será que ouviu o rádio? Me viro cautelosamente, e com o canto dos meus olhos, vejo se alguém está observando algo anormal. Seus rostos pálidos e suados não denunciam nada. Volto-me para a minha sentinela. A cidade está quieta. As nuvens não se mexem. Apesar de um esquadrão correr risco, não há nenhum sinal disso. As ruas silenciosas se espalham pela profundidade de minha visão. A muralha que nos protege das outras vilas luta pela sua sobrevivência, com brechas em vários pontos de seu extenso corpo. Me enganei. Um risco de luz vermelha acaba de emergir próximo da muralha. Uma envergonhada explosão preenche a inexistente sanidade que pairava no ar. Dispararam um sinalizador, e provavelmente eram os membros do Lobato-4.
“Não há martir que os ajude agora.” – Subitamente dizia o tenente – “Os líderes dos esquadrões estão cientes dos riscos a essa hora. Ninguém vai ajudar-los.”
Com seus olhos fechados e seus braços cruzados, o tenente esticava a sua perna, alongando-as. Os outros três homens olhavam-no como uma platéia assiste impotente à um grave acidente circense. “Não podemos deixar eles morrerem, senhor. Temos que contactar os outros esquadrões para que ofereçam abri-“ — e um deles era subitamente interrompido pelo oficial – “Eu abro a porta e deixo você ir. Todos os outros já desligaram o rádio como nós fizemos. O Quartel General deve estar guiando eles agora, mas as chances são pequenas. Nunca conseguimos saber como agem essas porras desses bichos. Além disso, eles pareciam estar usando as máscaras de oxigênio, devem estar em uma zona de contágio ainda.”.
Calma leitor, não volte. Eu não expliquei sobre as zonas de contágio. Não ainda, e nem vou explicar agora. Eu sei que você já está atolado de informação. A vida é feita de momentos, e o momento atual é a cara inconformada do homem diante da resposta. Não nos restava muito mais a não ser aguardar pelo duro e sangrento amanhecer.
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