A primeira noite fora do abrigo. Os ventos gelados da madrugada tomaram o ambiente. A máscara já não é mais necessária, guardei ela em minha mala. Rondamos destroços e ruas completamente apagadas da história, e não encontramos ninguém vivo, apenas corpos. Todos estão dormindo, e eu estou acordado, do lado de fora do prédio, sentado e falando sabe-se lá Deus com quem.

O chão empoeirado e um pouco sangue seco são os meus companheiros por ora. O cheiro de carne humana queimada surge em algumas rajadas de vento. Não há nada além da morte a se admirar aqui. Olho o meu relógio. São três da manhã – a hora morta. Se Deus me deixou, os demônios não fizeram o mesmo. Tenho certeza.

Enquanto nas piores situações, pego alguns pedregulhos soltos pelo chão, analisando-os. Minha mão suja de fuligem e terra impregna tudo o que eu encosto, como se fosse uma marca de minha existência, um carimbo de meu caminho. Parei para pensar um pouco durante o dia... Desde o Terceiro Tremor, tudo está ficando cada vez mais acelerado, digo, os eventos que os Titãs vem causando. O Segundo Grande Terremoto aconteceu oito anos após o Primeiro. O Terceiro, por algum motivo, aconteceu cinco anos depois, e o Quarto, três anos... Agora estamos no Quinto, dois anos. Minha memória é tão confusa sobre o Primeiro Tremor, que sinto uma agonia quando tento retornar à ele. Óbvio, todos sofreram traumas daquele dia. Minha mente se recusa a resgatar essas memórias.

Vamos pensar em outras coisas. Mesmo sendo tão tarde, não sinto o cansaço. Apoio uma das minhas mãos em minha perna esticada, enquanto que, com a outra, pego uma garrafa d’água de dentro da minha mochila. Doze horas sem beber nem uma gota. Contados. Intermináveis segundos calculados. Aquelas gotas de suor que me lembravam da minha sede. Minha garganta está queimando. Abro-a, bebo metade dela e a guardo de volta na mala. Meu rosto está sujo de poeira e fuligem, e a minha jaqueta, as botas e a calça dispensam comentários. Não aguento mais usar essas coisas pesadas. Estou suado, elas já estão fedendo. Todo esse fedor me fez acordar. Três caras fedendo à rato morto num quarto fechado, aliado ao cheiro de morte que circunda a cidadela não trazem uma boa noite a ninguém. As nuvens estão se dispersando rapidamente. Agora a Lua finalmente está visível. O que só conseguiamos enxergar com a ajuda de lanternas e o diabo a quatro é iluminado pela natureza, a mesma que nos destruiu. Rio. Engraçado. Ela nos ajuda em um momento, e nos massacra n’outro. Uma espécie de genocídio calculado.

Sabe, pensando agora, eu apenas vi um Titã. Durante um dos poucos momentos que eu me lembro do Primeiro Tremor, eu me lembro de ver, de relance, no horizonte, um ser mais alto que que qualquer montanha que eu já havia visto, e era completamente negro... Parecia ser feito de pedras. Isso é tão surreal que comigo falando vocês vão me achar um esquizofrênico, mas não estou mentindo. Essa foi a única vez que eu vi um, e me lembro mal e porcamente do momento. Suspiro. Passo a mão em meu rosto, olhando pro lado. Meu olho está queimando. Talvez seja pelo sono que eu rejeito, o sono sem cansaço, o sono espiritual. Claro que vocês se perguntam o que é esse tal de “sono espiritual”, eu explico.

Quando uma alma sofre demais em um curto espaço de tempo, você se encontra diante de uma situação em que o espírito está exausto, e, assim como quando uma bateria de um aparelho fica exausta, sem carga, claramente o resultado será o desligamento deste. Seguindo essa linha de raciocínio fatal, esse tal “sono espiritual” é quando você não sente mais a vontade de se manter vivo, pois a alma é o esqueleto do homem. Dito isso, está claro que tenho tendências suicidas. Mas não se espante, leitor, não desejo finalizar essa história com uma corda enrolada em meu pescoço.

Um som surge de minha mala. Os despertadores tocam. São cinco horas da manhã. Eu não esperava que já fosse se passar cinco horas! Merda, odeio esse calafrio. Preciso entrar logo na estrutura, apagar a fogueira e me abrigar. Rápido. Cadê a porta pra eu fechar? Aqui. Vamos, sobe logo essa porra dessas escadas, você não tem tempo. Entrei no quarto. Nente, e... Os outros dois.

"Acordem! Já são cinco horas!"

O tenente acorda com a expressão do mais puro terror em seu rosto. Não diz nada, apenas se levanta, enrola seu saco de dormir e acorda os outros dois, os quais não faço a menor idéia de quais sejam os nomes. Apesar das palavras serem poucas, o sentimento é único e universal para todos: Os Homens-Fuligem estão se levantando.