Mais uma noite no abrigo. O primeiro abalo sísmico após dois anos da última passagem do Titã acabou por arrebentar grande parte de nossa cidadela. Centenas morreram em desmoronamentos e incêndios, mas nada além do que já não vimos anteriormente.

Faço parte do Segundo Batalhão de Reconhecimento Pós-Desastre. Claro que a pergunta ecoa agora: e o primeiro batalhão? Morreram. Sem mais nem menos. Foram engolidos por uma nuvem de destroços, não tinham equipamento de proteção. Então criou-se a versão dois ponto zero deles, no caso, eu e mais alguns, chuto uns quinze ou vinte. As fotografias dos mortos ainda estão penduradas aqui nesse cubículo de concreto subterrâneo, para nos lembrar de que não somos invencíveis. Como se eu já não soubesse.

Meu equipamento pesa. Não querem perder mais pessoas, somos pouquíssimos agora. Não podemos correr o risco de sofrermos um cerco com poucas pessoas para fazer frente à qualquer invasor. Cada alma é sagrada nesse momento, e nós somos aqueles que vão encarar a morte de frente. Minha máscara de gás é um pouco apertada, e os filtros atrapalham ligeiramente a minha visão. Respiro com dificuldade, mas estou seguro que eu não irei sufocar na superfície. O casaco é grosso, estou suando como se não houvesse amanhã, mas não podemos beber água. Se bebermos muita água e cairmos em algum lugar, ficará mais difícil de sairmos dele.

Termino de amarrar a bota e todos os membros do Batalhão se posicionam, em duas longas colunas, frente à uma porta reforçada de aço que lidera a um corredor estreito. Quero acabar logo com isso, mas parece que será um longo dia. Me levanto com certa dificuldade e me aproximo deles. Estamos nervosos. Não sei como isso irá começar nem acabar. O tenente, no início de uma das colunas, recebeu a confirmação para nos mover para avançarmos. O som das botas marchando preenche o ambiente. Entramos. A porta atrás de nós fechou-se, e ouvi ela sendo trancada. Estávamos isolados. Não tenho amigos nem conhecidos aqui, estou espremido como uma sardinha em uma sala minúscula e ficando sem ar. Está tudo muito escuro, não consigo enxergar nada. O oficial acabou de ordenar para que liguemos as lanternas. O barulho das luzes se acendendo se prolifera. Meu coração está batendo muito rápido. Minha boca acabou de secar. Meu coração parece que vai saltar.

Colocamos nossas mãos um no ombro do outro. À nossa frente, um portão com várias travas de segurança estava iluminado. Subitamente, a primeira tranca da porta se abriu. Um estrondo acaba de atravessar o corpo de todos. Estou apertando a minha lanterna, enquanto a outra mão aperta o ombro do soldado adiante de mim. As minhas luvas estavam encharcadas de suor, e mal começamos a missão. Minha mala começa a pesar, todo aquele equipamento de resgate para apenas encontrarmos corpos. Pelo menos é o que os veteranos do Primeiro Batalhão diziam. E o que me preocupa nisso? Eles estarem mortos.

A segunda tranca se abriu. O rádio no meu peito está começando a sofrer interferências. Acredito que o de todo mundo está assim. Como eu sei? O incessante grito em baixa frequência está aterrorizando todos na sala. Eu não escapo desse “todos”.

“Não quero ninguém entrando em quaisquer buracos. Vocês já sabem o que pode acontecer.” – O tom de voz macabro do tenente era realçado pela máscara que usava. Eu não sei se eu devo sentir mais medo do exterior do que dele. Nem ao menos sabia o seu nome.

Intermináveis segundos estão me afligindo. Falta apenas mais uma para sairmos daqui. Fecho os olhos e respiro. A terceira tranca se abriu com uma rajada de vento, resultando em um forte estalo metálico. Levei um empurrão de, ao menos, duas mochilas ao meu lado. Todos se assustaram, inclusive eu. Uma ventania invadia a sala, seguida de uma densa névoa de fuligem e destroços que rapidamente tomaram nossas visões. Sentíamos a força do vento juntos, abaixamos nossos rostos, tentando usar os capacetes para qualquer tipo de ameaça que poderia vir com o vento, enquanto tentamos ficar na mesma posição, mas não estamos conseguindo! Estamos sendo empurrados! Ouço as vozes ao meu redor, mas não entendo nada! O que eles estão dizendo? O quê? Não estou escutando!

E tudo parou, sem nenhum aviso. A pressão do exterior se igualou à do interior. O ar é muito mais pesado, sinto dificuldade em respirar. Vejo apenas os fios de luz dos meus companheiros desconhecidos. A interferência parou. O tenente, que vou chamar de “Nente”, começava a transmitir as ordens.

“Eu vou presumir que todos estejam bem. Eu sei que esta é a primeira missão de todos vocês, mas não podemos voltar agora.” – Sua voz parecia muito mais confiante do que antes — “Entendam que agora estamos mais bem equipados que a última equipe.” – Suspirava como se estivesse sem ar — “Irei acender um sinalizador verde, e quero que todos sigam ele. Não precisam responder, vamos poupar as poucas torres de transmissão que sobraram.”

Por algum motivo, me sentia mais tranquilo após essa transmissão. Um pequeno clarão verde próximo do portão apareceu em meio à paisagem negra do corredor. A marcha começou, e eu ia junto. As botas faziam um eco que parecia ser ínfimo, e enfrentávamos o primeiro degrau da escadaria. Muita calma, com calma. Isso. Conseguimos passar da primeira escada. Agora a segunda. Isso. Quase tropecei. Eu nunca imaginei que botas fossem tão pesadas. Fui puxado para trás, o soldado atrás quase caiu. A terceira. Acho que alguém caiu, ouvi um urro de dor. Olhei para o lado, e com dificuldade, enxerguei a coluna ao lado com três homens jogados ao chão tentando levantar. Definitivamente alguém caiu. Limpei meu visor o máximo que consegui. Engoli a pouca saliva que eu tinha. Estiquei a minha perna, deixando metade do meu corpo para dentro e a outra para fora. Respire fundo. Vamos avançar agora.

O ambiente macabro está me congelando as bolas. Congelando não, me cozinhando. Está muito quente. Entrou suor no meu olho, ardência. Virei o caolho da equipe por alguns segundos. A neblina diminuiu abruptamente. Eu ouvi outra queda. Não importa. Estamos no centro de nosso lar. Acabei de pisar em algo que acabou que se esmigalhou... Merda... Era um crânio humano. Seu corpo carbonizado está me dando ânsia de vómito, não posso mais olhar. Desviei meu olhar para algo pior do que o cérebro em minha sola. As casas ao nosso redor estão despedaçadas, e alguns focos de incêndio ainda assombram a periferia. O chão de paralelepípedo está completamente desencaixado, como um enorme quebra cabeças desmontado. Eu consigo ver várias rachaduras enormes no solo, temo o que possa acontecer se alguém cair em uma delas. Pensei que estivesse pronto para qualquer calamidade, mas não estava. As colunas ainda continuavam marchando para fora do abrigo.

Um céu de tempestade cobria nossas cabeças. Os raios solares não conseguiam atravessar as grossas nuvens. Nossa única fonte de luz eram nossos amáveis trambolhos que chamamos de lanternas. Nente acabou de jogar no chão o sinalizador e pisoteou ele... Selvagem. Começamos a nos organizar em linha em frente ao oficial. Pedi licença a alguém com o sangue AB negativo... Não sei se posso confiar nesse cara, ainda mais que o seu identificador está enrolado no pescoço... Odeio esse tipo de gente que finge ser militar. Bati o olho na multidão que se aglomerava aos meus lados, e acho que me enganei na contagem inicial. Não temos apenas vinte pessoas aqui, tem pelo menos quarenta. Cacete, de onde surgiu tanta gente? Eu não vi tudo isso lá embaixo. Esse visor certamente deve estar me atrapalhando.

Um leve murmuro estava surgindo. Meu coração parou. Nente acabou de dar um grito mandando todos calarem a boca. Por desgraça, eu acabei me assustando. Esse sangue AB negativo ao meu lado riu da minha reação... Mereço isso.

“Calem a boca!” – Num tom de voz de dona de casa surtada – “Vamos nos dividir em esquadrões. Se dividam em até no máximo quatro pessoas por esquadrão. Eu não sou o pai de ninguém, então cuidem uns dos outros, eu vou escolher a dedo quem vem comigo, e o resto se vira.” — Humilde. Também não gostaria que ele fosse meu pai. — “Todos os esquadrões se chamarão “Lobato”, e deverão ser seguidos por um número que eu irei dar. O meu será o Lobato-1, e o resto, quando formarem seus quartetos, venham até mim para receberem seus números.”.

Oh não... Ele acabou de esticar o seu dedo e está o direcionando para mim. Não, por favor não. Como ele está me achando aqui atrás de todo mundo? Não quero ir com alguém que pisoteia um sinalizador como se fosse uma cobra pronta para matar alguém. Escolha qualquer um menos eu... Não... Não... Merda. Puta. Merda. Seu dedo parou em mim. O AB negativo se afastou. O soldado do meu outro lado também.

“Você, está no meu esquadrão. Qual o seu nome?”

Estou com tanto desejo que não seja eu que eu não quero nem ao menos responder... Não me force a responder, Nente.

“É surdo por acaso? Qual o seu nome, soldado?”

Suspirei. Estava me recompondo aos poucos. Que tipo de casti-

“Soldado!” – Gritou como se eu fosse um cachorro.

O cara que se enforca com o identificador me cutuca – “Ele tá falando com você” – Obrigado Einstein, acho que se não fosse por você eu não teria percebido.

“Aleks, senhor. Aleks Lacerda.” – Falei. Desembuchei. Satisfeito, tenente?

“Pois bem, irei lhe chamar de “Surdinho” a partir de agora.” – Filho da puta.