How to move on
4 Capítulo 3 - Nova cidade, velhas amigas
Notas iniciais
O sorriso que cresceu em meu rosto foi enorme. Desde que a Bia se mudou, raramente conseguíamos nos ver. Todo o pouco tempo que tínhamos juntas era importante. Temos sido confidentes, melhores amigas e irmãs desde que nos conhecemos, e não foi uma dose de distância que mudou isso.
Sorri, espremendo os olhos para seu cabelão preto de um cacheado perfeito, que pulava junto com ela. Um dos lados ruins de ser míope e ter muita preguiça de colocar as lentes: essa era a única característica dela que eu identificava nessa distância.
Corremos para os braços uma da outra de forma quase eufórica. Nos abraçamos, desajeitadas por causa das bolsas, como se fôssemos um casal apaixonado se encontrando no aeroporto. Ok, rodoviária, no caso.
— Belle, te juro que quase não lembrava mais do seu rosto!- Revirei os olhos e me dirigi ao redor, gesticulando com os braços:
— Vejam, pessoas, apreciem o drama gratuíto da melhor amiga do mundo!
Efeito esperado: Bia riu. Sua risada me fez sorrir de forma genuína, sem melancolia, algo que não consegui fazer em nenhum momento durante as últimas semanas. Enrolei meu braço no dela e nos dirigimos em direção às minhas malas espalhadas no chão.
—Alguma novidade? Como que o Gu tá?
Boa pergunta. A última ve que chequei o celular, estava desesperado, vendo que todas suas mensagens estavam sendo visualizadas e a falta de resposta era puramente opcional. Tentava se convencer de que, se não tinha sido bloqueado, ainda tinha alguma esperança. Suspiro.
—A gente terminou.
—O que!? Quando? Que diabos ele fez? — A suspresa em seus olhos pretos era quase tão grande quando sua fúria homicida. É uma melhor amiga, mas tem instintos de mãe.
—Nicole. Ontem.
—Filho de uma puta, babaca sem coração, desgraçado, ordinário... — Bia recitou mais de 30 ofensas em pouquíssimos segundos, o que fez com que ela me olhasse revoltada quando terminou, sem fôlego, só porque eu estava rindo.
—Você acabou de descobrir que seu namorado te traiu e está aqui, rindo de mim! Juro que as vezes é impossível entender você.
—Calma aí, Eminem, não tenho culpa se você decidiu ser uma rapper e não me contou. — Gargalhei, e dessa vez Bia se juntou a mim.
Rimos juntas, indo em direção ao ponto de táxi.
—Em casa você vai me contar todos os detalhes. — Ela piscou pra mim e entramos no táxi.
O táxi parou em frente à uma casa de aparência rústica, de dois andares. A tia Flávia nos esperava ao lado da porta de madeira, com um sorriso no rosto. Saí do táxi e fui abraçá-la.
—Muito bom te ver de novo, Isabel. Será um prazer te ter aqui em casa por mais tempo, como a filha que sempre considerei.
—Tia Flávia, não sei como te agradecer!
—Só sinta-se em casa, meu bem.
O taxista deixou minhas malas na soleira da porta e se despediu. Bia agarrou minha mão e me puxou para dentro da casa.
—Você vai adorar seu quarto! A gente pintou as paredes de azul bebê e o teto de preto, tá tudo totalmente conceitual! Praticamente fizemos uma constelação no teto, um "céu particular".
Ela não me deixou respirar enquanto não estivéssemos no quarto, até que me falou que iríamos dividí-lo.
—É realmente incrível. — Olhei ao redor do quarto que elas prepararam para mim. Não poderia haver no mundo pessoas que me acolheriam tão bem quanto essas duas.
—Eu sei! Eu estava plenamente satisfeita com o meu quartinho, mas assim que o seu ficou pronto, não resisti. Desculpa. — Ela fez cara de cachorro sem dono.
—Será um prazer dividir o quarto com você, relaxa.-Eu disse, rindo da sua tensão. — Mas a cama de cima é minha!
—De jeito nenhum! Imagina o que vai sobrar de mim se essa cama quebrar?!?! Você vai me esmagar, olha meu tamanho! — Fuzilei aquele um metro e meio de gente com os olhos.
—Você. Tá. Me. Zoando? Tá me chamando de gorda na cara dura mesmo!?
Bia tentou conter o riso. Tentou. Peguei meu travesseiro, que viajou comigo na minha mão, e arremessei contra ela. Ela pegou o travesseiro no ar e apertou os olhos.
—É guerra.
Em algum momento da bagunça, a mãe dela apareceu na porta e levou uma "travesseirada" aleatória na cara. Não conseguimos não rir da cara pasma que ela fez, até que se juntou a nós.
—Ok, eu me rendo! — Bia se afundou na cama de baixo da beliche, eu e a tia Flávia a seguimos, cansadas.
—Garotas, vocês quase me fazem sentir como uma jovem novamente. — Ela suspirou. — Vou preparar o almoço.
Tia Flávia desceu as escadas e nós fomos atrás para pegar minhas malas.
—Então...- Bia começou. Quando ela hesita assim, normalmente se trata de questões delicadas. Hum...Gustavo.
—Não foi nada demais Bia. Você já sabia que eu nunca senti muito mais por ele do que o que sinto por você.
—Ei, não vem com essa pra cima de mim, quer levar uns tapas? De-ta-lhes!
Eu ri e subimos com as minhas malas conversando. Guardamos minhas roupas no guarda-roupa gigante feito para nós duas, enquanto eu detalhava a maior estupidez que Gustavo já havia feito na vida.
—Bom, não se preocupe com esse merdinha.-Ela disse quando eu terminei.-Hoje vamos sair para encher o rabo de cerveja.
Não pude evitar a gargalhada.
—Você sabe que a gente tem 16 anos, certo?
—Você sabe que existe carteira de identidade falsa, certo?- Ela me tacou alguma coisa, com um sorriso malicioso na cara, que tive que pegar no para evitar que caísse.
—Mas como é que você fez uma carteira falsa pra mim?- Não conseguia parar de rir.
—Minha mãe tinha o xerox.- Ela piscou pra mim e riu. Não acredito que a Bia fez isso!
—Bia, já disse que te amo?
—Já, mas gestos valem mais do que palavras.- Começamos a descer as escadas para ir almoçar.- Que tal me deixar fica com a cama de cima?- Eu ri e saí correndo escada abaixo com as mãos nos ouvidos.- Por favoooooooor...
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