How to move on

5 Capítulo 4 - Como ser um cupido em uma balada: seja direta


Me olhei no espelho.

—Adorei essa calça, Bia. — Passei a mão na calça preta de couro, que ficava justa em minhas pernas. — Comprou onde?

—Em uma loja do shopping. Qualquer dia te levo lá. — A cidade só tinha um shopping, mas ela me falara que era bem completo.

Bia estava com uma meia calça preta, um vestido rodado azul escuro, e salto de mesma cor. Seus cachos caiam volumosos sobre os ombros e a maquiagem estava impecável, destacando seus grandes olhos pretos. Eu estava com a calça de couro, uma blusa e um sapato de salto vermelhos e uma jaqueta preta.

—Bom, é uma baladinha bem simples, mas sempre lota. Tenho certeza que você vai adorar a Stars Light.

Bia tinha razão. Era uma baladinha pequena, mas muito cheia, tive que me espremer entre as pessoas para chegar ao bar.

—Nem tá quente aqui, né?- Bia riu da minha cara; tirei a jaqueta.- Já tô suando.

Ela teve a decência de tentar não rir e me dirigiu a pior frase do universo:

—Eu avisei.

Bufei. Peguei minha carteira falsa, que dizia que eu tinha 19 anos, e entreguei ao cara que veio me atender. Ele mal olhou pra carteira, seus olhos estavam focados em mim.

—Já sabe o que quer, senhorita?- Ele sorriu. Eu, hein. Mal cheguei e já tô sendo cantada? Ou seria coisa da minha cabeça? Além disso, demorei bastante para ter uma carteira falsa, e detesto que não chequem minha não tão verdadeira maioridade. Percebo aí ele ainda espera minha resposta.

—Ah. Não.- Ótima coisa para se dizer. Nossa, como é horrível conviver comigo mesma, ás vezes. O cara riu e me passou o cardápio de bebidas.

—Quando decidir, me avise.- Ele piscou e foi para o outro lado do balcão, sem nem olhar pra Bia. Opa.

—Quê isso aí, já tá seduzindo os caras, Belle?

—Eu sei lá o que aquele cara tava querendo. Coitado.

—Ah, vai, ele é bonitinho. Parece o Jared Padalecki.

—Você tá louca!- Eu disse, rindo.- Exceto pelo tamanho do cabelo e cor dos olhos, ele não tem nada a ver. Nem é tão alto, também.

—Você acha que eu tô ligando? Preciso te lembrar por que a gente veio aqui? Anda, escolhe isso aí logo que eu não vejo a hora de chamar aquele menino aqui de novo.- Ela fez toda uma cena para imitar a piscadinha do cara que me atendeu, o que me fez rir.

—Já decidi, mas nunca que eu chamo ele aqui de novo!

—HEY, Jared, decidimos!- Ela gritou mesmo! Ela gritou pro cara que nem conhece chamando ele de Jared. Ela chamou um cara aleatório de Jared, sem saber seu nome. Nem é louca não, pô. Imagina.

Jared, que de alguma forma sabia que era o Jared, se encaminhou até nós. Ah, não é possível que ele vai ficar me olhando assim sempre que eu decidir beber. Ele é bonitinho, mas sei lá. Pedimos nossas bebidas e, novamente, Jared só olhou pra mim. Suspiro.

—Qualquer outra coisa, é só me chamar.- Ele sorriu.

Bia e eu fomos para a pista com nossas bebidas. Hum, eu adoro essa música. Em algum momento entre uma música da Rihanna e um funk, percebi um cara perto do bar me encarando. Não era Jared, por incrível que pareça. Com os milagres que minha lente me proporciona, consegui ver direitinho as características dele. Seu cabelo era castanho claro, quase igual ao meu, curto. No escuro parecia apenas castanho, mas quando as luzes o alcançavam, ele ficava loiro. Hum... Talvez eu não seja tão exigente assim...

Enrosquei meu braço no da Bia e a puxei para onde o rapaz estava. Opa, alarme falso. Que bom que trouxe Bia, pois agora sei quem ele realmente estava observando. Ele já tinha passado da cota de olhares casuais, estava definitivamente encarando ela. O lado bom: ele fazia o tipo dela, o maxilar forte, muito bem malhado, alto. O lado ruim: poderia ser um psicopata; mas ninguém pensa esse tipo de coisa em uma balada. Bia se deixou levar, mesmo sem entender nada, toda leve devido à bebida. Paramos bem em frente ao cara, os olhos da Bia finalmente ganhando foco. Hum. Bom, ser direta. Certo. Olhei pro cara. Lindos olhos, a propósito.

—Eai, cara?- Eu disse, levantando as sobrancelhas. Ele riu. Olhei pra Bia; ela estava completamente focada agora, um sorrisinho surgindo em seus lábios.

—Oi...- Ela disse, meio grogue ainda.

—Olá, linda.

Ele nem tava prestando atenção em mim, então decidi ir dançar sozinha, antes que Jared me visse perto do bar de novo.

—Você fica bem aqui, Bia?- Não pude evitar o sorriso de satisfação.

—Muito bem, sim.- Bia já estava perdendo a linha com os braços do cara. Fui para a pista rindo.

Eu e a Bia chegamos em casa por volta das três da manha, muito exaustas para falar de qualquer coisa que fizesse sentido. Só quando entramos na casa que fui capaz de ouvir meu telefone tocar. Me desesperei tentando atender rápido, antes que a Flávia acordasse, e acabei nem vendo quem me ligava. Suspiro. A cobrar. Era o Gustavo. Se eu tivesse visto o identificador de chamadas, saberia que haviam mais de 30 ligações perdidas dele, iniciadas à meia-noite. Ninguém merece.

—Que foi?- Eu disse, subindo a escada como uma condenada, com os saltos na mão.

—Be...lle...Ooi amoorr...- Nossa, ele tava pior que eu. Bêbado. Ai, vai a merda, Gustavo, quero dormir!

—Querido, você tá começando a me encher o saco. Por favor, para de ligar! Preciso. Dormir...- Pensando bem, eu talvez estivesse tão sonsa quanto ele.- Por que você só me liga quando tá chapado, Gustavo? Que...- Bocejo.- ...Saco. Para.

Desliguei e deitei de roupa e tudo na cama de cima.

Esses momentos com Bia são incríveis. É quase como se eu conseguisse esquecer tudo. Quase. É possível agir como se nada de ruim jamais houvesse acontecido comigo, é possível me divertir. Mas sempre sinto a lembrança de tudo ali, na beirada, pronta para ressurgir.

Acordei suando. Quatro da manhã. E o pesadelo ainda na minha cabeça.

Notas finais
"You're starting to bore me, baby Why'd you only call me when you're high?" Why'd you only call me when you're high - Arctic Monkeys
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.