How to move on

3 Capítulo 2 - Cidade nova, vida nova...(?)


Estou sentada em cima da mesa da pequena cozinha da nossa casa. Mamãe quer que eu a ajude a montar o quebra-cabeça em cima da mezinha. Ela verifica a porta da sala toda hora por meio da porta aberta da cozinha. Eu sei que ela está preocupada, assustada, mas não entendo. Seria por causa do papai? Tento começar a montar o quebra-cabeça. Estou mexendo nas peças, tentando decifrar seus segredos quando, de repente, ouço a porta da sala da pequena casa ser empurrada com muita força. Não posso sequer pensar no que está acontecendo antes de estar nos braços da mamãe. Mamãe me leva para o pequeno depósito da cozinha e fecha a portinha atrás de mim. Pelos olhos dela, sei que, se tivesse espaço, se trancaria lá também. Com a porta fechada às minhas costas, não consigo ouvir nada. Os gritos são abafados pelo meu choro, não sei o que eles estão discutindo. Não consigo parar de soluçar, sentia que algo iria acontecer, mas o que uma garota de 4 anos poderia fazer? Pareciam ter se passado séculos até que meu choro fosse a única coisa que conseguia ouvir. Nada de gritos. Nada de palavras. Nada de barulhos estranhos. Devagar, abro a porta do depósito. No momento em que vejo a cena, sei que ela ficará para sempre em minha memória. Mamãe está sentada no chão, encostada na parede, com seu braço esquerdo sangrando. O sangue escorre lentamente pelo chão da cozinha, mas meus olhos estão focados no papai. Ele está sobre a mamãe, com uma garrafa quebrada em sua mão direita. Lembro-me de ter ouvido algum vidro se quebrando, mas não imaginei que fosse uma garrada de...que? De cerveja? Talvez. Mamãe tinha me dito que papai era perigoso quando voltava com garrafas de cerveja. Na parte quebrada da garrafa havia sangue. Aquilo me fez tremer involuntariamente. Olhei nos olhos do papai e os vi refletindo a mesma coisa que os meus : medo. Papai estava com medo de mim? Eu ainda não parei de chorar quando vou em direção à mamãe. Papai sai correndo da cozinha quando me ajoelho ao lado dela. Ela está me pedindo alguma coisa, mas não consigo processar o que é. Só consigo chorar e tremer. Quando ela percebe, começa a fazer carinho no meu braço e a falar algo como ''Vai ficar tudo bem.'' Ficamos assim por um tempo até que ouço o barulho de uma porta se abrindo. Papai sai do quarto e começa a correr pela sala em direção a porta. Corro até ele, gritando. Eu sabia que ele ia embora.

—Papai, papai! Volta!

Mas ele é muito rápido. Já está fechando a porta quando chego até ela. Tento abri-la, mas é inútil, está trancada.

—Papai, volta! Papai!- Grito batendo na porta. E então finalmente ouço o que mamãe queria dizer quando ela grita. Ela me pede pra pegar o telefone. Pego e levo pra ela, que agora está sentada em uma das cadeiras da cozinha. Depois, corro para o quarto que era dela com o papai, subo na cama deles e começo a chorar novamente. Chorar, soluçar, chorar. Chorar, soluçar, chorar. Chorar, soluçar, chorar. Fico assim até esquecer o que aconteceu e dormir.



Acordei de repente ao som de Cry Baby, da Melanie Martinez. Tive o sonho de novo, esse é o único de que me lembro, sempre. Acredito que seja porque realmente aconteceu, pois eu nunca lembrei de outro sonho antes, não com tanta clareza. Sonho com isso sempre que me acontece algo ruim ou não durmo bem. Parece que é algo tentando me avisar que eu ainda posso, que ainda tenho a capacidade de chorar. Mas se eu realmente fosse chorar a cada merda que me acontece, meu toque de despertar não seria tão irônico. Desde o dia que um idiota bêbado atropelou minha mãe quando ela foi ao mercado, tento não demonstrar meus sentimentos. Eu sabia que poderia ter chorado mais desde o momento em que uma única lágrima escorreu pelo meu rosto quando me deram a notícia. Porém, em vez de chorar e me ensopar totalmente com meu próprio choro, eu me fechei, fechei meus sentimentos em um lugar à parte do mundo, onde, eu pensava, apenas Beatriz, minha melhor amiga, poderia conhecer. Mas mesmo a Bia nunca saberia o poder da raiva e angústia que estavam guardados em mim. Depois dos meus 11 anos, quando minha mãe morreu, prometi a mim mesma que nunca mais choraria por bobagens. Não vale a pena. Acabei incorporando ao extremo essa promessa, ao ponto de não chorar nem se quiser. Então não sei o que estava pensando quando me abri para o Gustavo, eu sabia que ele era um babaca. Ok, ele não sabe de nada da minha confusão sentimental, mas eu me permiti gostar dele, como eu gostava de Bia. Hummm... Como um amigo...

Mas agora que vou sair da cidade, não pretendo olhar pra trás. Minha casa está totalmente vazia para minha mudança, essa noite dormi sobre um edredom que vou levar na viagem.

Quando eu tinha 10 anos, um ano antes da minha mãe morrer, Bia mudou de cidade, foi para uma ao lado da que nós tínhamos passado toda a nossa infância, e é para onde estou indo hoje. A mãe dela, a Tia Flávia (a chamo assim desde sempre, uma vez que não tenho tios e ela era como uma tia deveria ser para mim), permitiu que eu fosse morar com elas até que eu tivesse como me virar (apesar de ter me tornado emancipada, não tenho parentes próximos e nem como continuar a conduzir minha vida escolar se for obrigada a ter um emprego). Tia Flávia é uma advogada bem sucedida e divorciada. Bia quase não fala com o pai dela e não parece querer falar.

Ainda deitada, peguei meu celular para ver as horas. 09:30, o horário do meu terceiro despertador. O ônibus que tenho que pegar sai da cidade 10:45.

Levantei da minha cama improvisada e cambaleei até o banheiro, ainda com sono. Antes de escovar os dentes, me apoiei na pia e me olhei no espelho. Meus olhos estavam cansados e o cabelo, desgrenhado. Minha cara estava amassada de sono e eu ainda tinha restos de maquiagem no rosto. Suspirei, de mau humor. Lavei meu rosto e escovei os dentes, não ia tomar café da manhã aquele dia.



Depois de enfiar o edredom na mala e trocar de roupa, dou uma volta pela casa. As malas já estão prontas e a casa, vazia. Passo por todos os cômodos reprimindo memórias tristes e me focando nas felizes. Ainda assim, a sensação de melancolia não me abandona um segundo sequer. Vou para a cozinha, onde muitas vezes ajudava minha avó a preparar o almoço enquanto ouvíamos música (minha avó tentava ser o mais ativa possível). Passei pela sala onde ficávamos sentadas no sofá sempre que chovia muito e ficávamos sem energia, tomando um chá e jogando assunto fora com velas acesas. Vou até o quarto que era dela, onde deitávamos na cama e comíamos bolinhos de chuva, falando sobre como as minhas matérias na escola eram insuportáveis. Ela era minha melhor amiga, quando não tinha Bia. Mas agora a casa estava vazia. A cama grande que ocupava quase o quarto todo não estava ali. O sofá não estava ali, a mesinha que costumava ficar no centro da pequena sala também não. Nem o tapete que escondia o piso mal-tratado. Tudo que estava na casa foi vendido ou levado pra minha nova casa, a casa da Bia.

Peguei as últimas coisas que estavam no quarto e fui em direção à porta. Arrumo uma confusão com a chave, mas logo a porta já está trancada e eu estou do lado de fora. Me viro para casa que parece uma casinha de Barbie e que sempre fora da minha avó. Ela tinha um tom claro de rosa e era bem pequena, mas cheia de lembranças.



— Adeus, lar – Digo dramaticamente.



A viagem foi tranquila e passou rápido, mas não deu pra descansar muito com as inúmeras mensagens no whatsapp que Gustavo insistia em me mandar. Não li nenhuma. Ia deixar tudo naquela cidade pra trás, tudo que me magoou; o meu pai ter me deixado, a morte da minha mãe, a morte da minha avó, a traição, tudo. E iria cumprir minha promessa. Faria tudo que queria e tudo que pensava eu iria dizer.

Quando cheguei na minha nova cidade, já fui logo pegar minhas malas. Não tive tem nem tempo de colocar minha bolsa no ombro quando ouvi uma voz que reconheceria em qualquer lugar, chamando por mim.



— Belleee!!!!! Aqui!!! – Gritou Bia, do outro lado da rodoviária, acenando as mãos descontroladamente para que eu visse onde ela estava.

Notas finais
I'm not the way that I used to be I took the record off repeat It killed me but I survived And now I'm coming alive Fifth Harmony - Miss Movin' On