Notas iniciais
CAPITULO 2 NEGADA PAH PUM. Reler isso me faz lembrar que eu costumava escrever mt bem... é nostalgico :,)

Cinco e meia da manhã, presumiu Liniste, quando o sol lhe atravessou os cabelos e pálpebras, cutucando seus olhos. Realmente não queria abri-los, mas do que adiantava se a claridade já rompera suas barreiras?

Foram onze minutos até reunir determinação o suficiente para se levantar uma hora antes do normal, mas menos de cinco segundos olhando para a janela que havia deixado aberta, por descuido, ou cansaço, na noite anterior. O sol queimava suas retinas ainda sonolentas.

Seguiu em direção ao banheiro, após desativar o despertador, e aproveitou a silenciosa sensação de não ter Vesel cantando no chuveiro. Chegou e trancou a porta, dando de cara como espelho, que se posiciona logo ao lado da porta, encimando a pia de ceramica simples. Encarou seu reflexo por oito segundos, refletindo sobre como sua mãe amaria seu cabelo bagunçado de recém-acordado, e sua irmã acharia cômico, enquanto ele se sentia profundamente irritado. Tomou um banho quente de sete minutos e quarenta e três segundos; Se ficasse por mais tempo, não sobraria água quente para sua mãe e irmã, mesmo o mesmo estando agradável, e ele sonolento.

Ao voltar ao quarto, trocar de roupa e arrumar o material do dia na mochila, olhou o despertador para observar o número 06:03 piscando em vermelho, então se dirigiu a cozinha, na intenção de ajudar sua mãe na confecção do café da manhã da família.

Vazia, esta era a condição da cozinha. O que era estranho, desde que sua mãe levantava as seis. Decidiu adiantar seu café, até sua mãe chegar, então cortou uma manga e comeu.

Seis e dez quando a havia terminado, e a mulher não aparecia. Dirigiu-se ao seu quarto, e, no momento que abriu a porta, Pax saiu em alta velocidade à cozinha, ato que antecedeu o som de mastigação da ração, vinda do cômodo. A televisão permanecia ligada, mas o copo d’agua estava vazio na cômoda, e a cartela de remédios mais leve do que deveria. Suspirou e, depois de se assegurar de que a mãe estava bem, decidiu deixá-la descansar, fechando a porta com cuidado, para não produzir barulho e, consequentemente, acordá-la.

Partiu para o quarto de sua irmã e, ao vê-la, teve a impressão de que estava na mesma posição que a deixara, na noite passada. Tirou-lhe Eucalipto e, com suas patas, deu leves toques nos olhos e nariz da pequena. Ela acordou sorrindo e, com um salto –que assustou Liniste-, agarrou Eucalipto e lhe encheu de abraços e beijos.

—Bom dia, Maninho! –Bradou com felicidade, e o garoto se impressionou com tamanha animação logo de manhã, mas respondeu ao desejo – E a mamãe?

—Descansando. Decidi deixa-la dormindo, então cuidarei de você hoje, se não tiver problema. –A garota negou com a cabeça, vestindo um sorriso ainda maior – Pro banho, então.

E, no corredor, se dividiram. Os sons da fritura, vindos da frigideira que Liniste impunha, com ovos e bacon, acompanhava a cantoria de Vesel, do banheiro, ao cantar uma música infantil qualquer. O garoto se sentiu profundamente incomodado, mas permaneceu quieto. Após prontos, ele despejou a comida num prato e levou-o, junto a um copo de iogurte, ao quarto de sua mãe, e deixou-nos na cabeceira de remédios, colocando os mesmos, que ocupavam seu espaço, dentro da gaveta que se localizava logo abaixo, depois de ponderar muito sobre o assunto; quando acordasse, ela poderia comer.

Colocava leite na tigela cheia de cereais multicoloridos quando Vesel lhe chamou o nome. Ao chegar ao local do chamado, encontrou uma Vesel enrolada numa toalha, com certa vergonha, e molhando o chão todo. Ela dizia que não conseguia vestir o complicado uniforme escolar sozinha, ainda, ela enfatizava, com destreza. Seguiram para o quarto da garota, onde suas roupas foram postas com sucesso, e lhe foi dito que também haveria de pentear seus cabelos, então, sentaram-se no tapete, com formato de flor, posicionado no centro do quarto.

—Ai! Dói! –reclamava a pequena.

—Não doeria tanto se não estivesse tão embolado -ele finalou a frase com mais um puxão, e Vesel reclamou alto. ("desculpa", ele murmurou, mesmo sem soar nem um pouco arrependido) -, e não embolaria tanto se não fosse tão cumprido.

—Eu sei... Mas todo mundo tem cabelo cumprido! –ela lamentava.

—Eu não tenho cabelo cumprido.

— Claro que não, bobo! –riu, deixando o garoto um tanto confuso com o motivo.

Agora eram sete da manhã, deixando a garotinha com dez minutos para tomar café e partir, então, ela o fez, sempre reclamando que o cereal amolecera por ficar mergulhado no leite por tanto tempo, e que tinha textura de vomito. Quando terminou, Liniste não tardou a lavar toda a louça, enquanto deixava Vesel se divertir com Pax. Secou os pratos, as mãos e pegou seu livro de bolso encima da estante, colocando-o na mochila e chamando pela garota, já na porta. Partiram, com um breve “até logo” à Pax, que lamentava sua saída.

Deram somente algum passos quando Vesel, com suas mãos pequeninas, agarrou o mindinho de Liniste, ato que, à esse ponto, já virava um habito entre os irmãos, desde o nascimento da pequena, na verdade: Ele tinha sete anos, as paredes muito esterilizadas do hospital refletiam a luz forte que era apontada para as duas mulheres na cama a sua frente; sua mãe, e sua mais nova irmã. Impressionou-se que a garotinha estava sorrindo desde já. Lembrou que sentira uma mão pesando em seu ombro, e ao olhar para cima, o homem com cabelos iguais aos seus, e os olhos de Vesel, o encarava. Desviou o olhar rapidamente, causando o mesmo a dizer que, se fosse homem, devia encará-lo, e que sua nova irmã seria, para sempre, sua responsabilidade. A mulher, muito fraca, que carregava uma recém-nascida nos braços, pediu para o homem parar, convidando o garotinho a chegar mais perto, e este, o fez, mesmo intimidado com todo esse peso nas costas. A garotinha o recebeu com um riso, e logo se agarrou seu mindinho.

Nesse momento, Liniste pouco se importava se era homem ou deixava de ser, mas prometeu que aquela garotinha seria, para sempre, sua responsabilidade mais preciosa.

—Eu vejo com o meu olhinho... Algo verde. –Dizia ao garoto, trazendo-o de volta ao presente, uma Vesel ansiosa.

—Folhas. –respondeu o rapaz, e a garota negou – mas são verdes!

—Mas não é o que eu vejo!

—Não pode ver folhas?

—Tudo bem -ela se divertiu -, então eu vejo com o meu olhinho algo verde e redondo! –o garoto olhou em volta, procurando. –Rápido, rápido! Vai sair de vista! –apressou.

—Aqueles limões? –Apontou.

—Ding dong! -Comemorou a garota. –Vai, sua vez.

—Eu vejo algo... –olhou em volta, a procura de algo – com penas.

—Hum... –ela procurou, antes de olhar para uma árvore, e ver um pássaro voar para longe – Ali! O passarinho! –Apontou, e Liniste concordou com a cabeça. –Eu sou boa!

Depois de doze minutos, chegaram à escola de Vesel, que lhe abraçou e contou, a quem tivesse mais perto, pelo tempo que Liniste não saia do campo de visão, que aquele era o “maninho” dela. Seguiu para sua escola, demorando mais cinco minutos, tendo um tempo- três minutos -, antes das aulas, para ler.

O pátio estava cheio, então Liniste nem se afastou do portão; Seguiu pelo muro até um ponto sem sol, e lá se acomodou, pegando da mochila seu livro, e pôs-se a ler.

Até que uma voz chamou sua atenção.

—Ah, Lin! Ainda lendo esse livro?

Ele olhou para o alto, somente para contemplar Joy, de pé em sua frente, focada em seu livro, enquanto bebia uma caixinha de toddynho. Ao ver o garoto a olhando, sorriu brilhantemente.

—Meu nome é Liniste. –ele corrigiu, confuso.

—Ah, Lin é seu apelido... Eu inventei... Agora mesmo, eu acho. –Ela explicou, ajoelhando-se na frente do garoto.

—Mas... Meu nome é Liniste. —Repediu, ainda confuso.

—Eu sei, mas é muito longo! –reclamou, com os olhos fechados como se refletisse –Li-nis-te. É complicado, também, mas gosto! Jo-an-ne... Joy! Mais fácil, né?

Refletiu sobre o assunto, até que, novamente, fora interrompido.

—Então, já imagina o que vai acontecer com a protagonista? –ela perguntava animada. –Será que ela fica com o Carlos?

—Eu sei o que vai acontecer com ela. –respondeu, se impressionando; ela, se fato, estava lendo de cabeça para baixo, desde que estava em sua frente. – E Carlos é seu irmão.

—O que?! –ela se sobressaltou, apoiando-se sobre o livro, tentando ler mais. – Mas... Eles se beijaram! E dormem na mesma cama... Né?

—Parte é para enganar seu perseguidor, Juan, que era obcecado por ela, então, ela concluiu que, se ele achasse que ela já estivesse comprometida, ele desistiria, desde que, quando seu irmão começou a dormir com ela, por causa dos pesadelos que estava tendo, ela parou de ouvir barulhos de câmera pela janela.

—Intenso! –ela bateu palmas, animada –Espere, conte-me do início, por favor!

Ao invés de fazê-lo, também porque só tinham mais um minuto e meio até o início das aulas, e o garoto não queria se atrasar, ele estendeu o livro a ela, confundindo-a.

—Mas! Você está lendo-o, não é? –preocupou-se, resistindo à tentação de pegar o livro, que lhe parecia tão interessante – Ah... Você sabe o final, não é...? Espere, como você sabe o final? –Indagou.

—Já li este livro mais vezes que posso contar, não tem problema em pegá-lo.

—Por quê? –perguntou ela, desta vez, enquanto examinava a capa do livro que, finalmente, pegara.

—Eu gosto da história.

Ficaram calados por seis segundos, e Liniste tinha, agora, menos de um minuto, e passando, logo, fez menção de levantar.

—Esse livro... É sua forma de escapar da realidade? –questionou Joy.

—Não há como escapar da realidade...

—É claro que dá! E, pode nem perceber, mas esse livro é, definitivamente, seu portal para uma realidade distinta, sua realidade... –Ela falava, sonhadora, olhando para as árvores, com as folhas balançantes pelo vento frio que batia, a pesar do sol da manhã.

Meio minuto até as aulas.

—E há outras maneiras de escapar da realidade, sabe, cada pessoa tem a sua. –Concluiu a garota, e Liniste olhou para os adolescentes no pátio.

—Me dê exemplos. –Pediu, na intenção de entender o que a garota falava, desde que não o fazia, e isso o deixava ansioso.

E ele odiava a ansiedade.

Ela falaria, mas um som alto ecoou, e Liniste reconheceu como os sinos.

Zero minuto até as aulas.

Suspirou, e virou para a entrada da escola, castigando-se mentalmente.

—Obrigada, Lin. –Agradeceu Joy, antes de acenar, sorrindo, perto o suficiente para não precisar bradar, como fizera na despedida anterior.

Liniste não se virou, contentando-se em acenar, mesmo de costas, antes de adentrar o prédio da escola.

Passando pelos corredores, mesmo com pressa, reparou em várias pessoas fazendo o mesmo trajeto, porém parando para pegar material nos armários que enfeitavam as paredes; Todos os alunos que entravam na escola, seja por bolsa, o concurso ou a simples matrícula, recebiam o convite para usar os armários, tendo, apenas, que pagar uma renda mensal pela utilização dos mesmos. A circular com a proposta nunca chegou às mãos de sua mãe, pois Liniste sabia que este ia ser mais um motivo para culpar a si mesma: não ter recursos para pagar a utilização mensal de um armário, mesmo as mochilas tendo excesso de peso.

Percebeu, também, que um grupo de, aproximadamente, quatro garotos, cercava um só, de aparência miserável e de dar pena. De imediato, sem parar para pensar muito no assunto, Liniste presumiu que os quatro resolviam assuntos de contrabando, dada a aparência abalada do garoto, e o sorriso de satisfação dos quatro que o cercavam.

Ao chegar à porta de sua sala, abriu-a cautelosamente, procurando não fazer demasiado barulho. O professor estava em sala, sentado em sua mesa, organizando o que provavelmente era um roteiro de aula, tendo a chegada de Liniste, junto a de muitos outros alunos, passando despercebida; Metade da classe se encontrava presente, deixando o garoto com uma liberdade reconfortante de escolher o próprio lugar e evitar o máximo de atenção, mas, ainda sim, conseguir enxergar o quadro e escutar o professor com clareza.

No final de sua aula, às oito e vinte, antes de partir com suas coisas, o professor escreveu um trabalho no quadro, um trabalho de pesquisa, seu conteúdo e data de entrega, que Liniste pôs-se a copiar. Enquanto o fazia, o professor continuava a falar, explicando que, para dividir o tempo de apresentação em dois, fariam o trabalho em duplas, pois trios seriam demasiados bagunçados. Após esperar tempo o suficiente para a euforia da turma baixar, explicou que sua dupla seria a pessoa localizada diretamente abaixo seu nome na chamada. Ignorando as reclamações, começou a falar os nomes das duplas, até que Liniste ouviu o seu e ficou atento; Lino Emosewa foi o nome que ouviu.

O nome de Liniste era um tanto famoso, então, o garoto esperava que sua dupla, ao menos, o encarasse, assim, saberia quem era o mesmo; o problema, é que boa parte da turma o encarou, provocando uma reação automática do garoto, que olhou para a folha imediatamente abaixo, e fingiu escrever algo, enquanto terminava o rascunho de um coala, que havia começado no inicio da aula.

Quando os sinos soaram, anunciando que a hora do intervalo havia chegado, Liniste, após se dar conta que não tinha nada para levar ao pátio –entregara seu livro a Joy, mais cedo- dirigiu-se a porta, percorrendo um corredor diferente do de mais cedo, que levava ao pátio no interior da escola, não ao externo.

Andava sem pressa, quando, surpreendendo-o, foi jogado e batera em alguns dos armários que, anteriormente, estariam localizados a sua direita. Um garoto mantinha-o prensado no mesmo, e ninguém ao redor achava estranho; como ele, anteriormente, no dia, olhavam-no e desviava o olhar logo após. Mais três garotos cercavam o primeiro.

O garoto que o abordara era esguio, tinha os cabelos muito espetados, na cor negra e olhos levemente puxados. Em sua orelha pendia uma diversidade de brincos e pircings; seus companheiros não eram muito diferentes.

Quando falou, sua voz, quase cantada, prendeu a atenção de Liniste: A final, queria entender porque estava naquela situação.

—Você esta bem mais calmo, novato, do que achei que ficaria! Para um bad-boy, você não é tão durão, eh? –zombou, causando a risada coletiva do resto do grupo, menos de um deles.

O mais baixinho, com o cabelo enrolado e castanho, se pronunciou:

—Não enrole, Lino, não temos tempo! –Liniste, ao ouvir aquele nome, começou a prestar ainda mais atenção- E, se um professor nos vir por aqui...

—Nah, já fizemos coisas piores, e não fomos pegos. Relaxe um pouco, nanico. –e, se voltando à Liniste, sorriu – Mas, eu gostaria de acabar rápido aqui... Percebo que tu é um garoto muito... Concentrado. Mas, veja só, eu não sou! –E fez uma expressão de lamento – Aposto que não quer uma medíocre nota e reputação no primeiro trabalho qualitativo de história, ou quer? –ele fez uma pausa, como se esperasse que o garoto respondesse, mas, como esse ficou calado, continuou: -Estava pensando; você tem a concentração suficiente para metade da classe, então, por que não faz o favor de partilha-la, e fazer o trabalho sozinho, camarada?

Liniste ficou surpreso, e somente o encarou, com a mesma expressão neutra que não se abalara nem com a chegada do grupo.

—Ah, não se preocupe comigo, fofinho –e deu dois tapas de leve na bochecha de Liniste, como que querendo que ele acordasse – Eu posso assinar o meu nome, direitinho no lugar onde ele é destinado, sim?

E, sem pensar muito, Lin apenas afirmou com a cabeça, antes de falar “claro”, sem alterar sua expressão neutra.

—Ooh, ele fala! –zombou o mais distante dos garotos, que usava os cabelos para o alto; produto de muito gel, Liniste pensou.

—Bom garoto! –elogiou Lino e, empurrando, com força, Liniste de volta aos armários, se afastou, enquanto ria – Aberração...

Esperou vinte e dois segundos, somados à conversa, que demorara quatro minutos, deixando-o com dezesseis minutos de recreio, nos quais não fazia ideia do que fazer.

Chegou ao pátio, e lhe sobrava quatorze minutos, então, decidiu sentar-se num dos bancos mais isolados, que não possuía mesa, no qual algumas pessoas liam, outras mexiam no celular e outras, ainda, escreviam em pequenos cadernos. Observou grupos de estudantes, reparando, logo, num pequeno grupo de garotas, que falavam mais alto e exageradamente. O grupo possuía três jovens, sendo uma delas a garota que o derrubara no dia anterior. Após três minutos, observar a hipérbole delas enjoou o garoto, então, olhou para um grupo que andava e falava com todos, de forma extremamente educada e divertida. O grupo recebia diversos olhares positivos e todos os paravam para conversar sobre algo. A observação levou cinco minutos. Observou, então, o grupo que o abordou mais cedo, novamente, falando com um adolescente de aparência miserável e necessitada, que suava –provavelmente frio, pois o clima estava ameno – e, Liniste reparou, parecia gaguejar. Três minutos se passaram, e o garoto resolveu ir à sala, não antes de parar no banheiro, e então, num bebedouro.

Faltavam dois minutos quando chegou à sala, ainda vazia.

A professora chegou logo após, com um breve “bom dia” ao garoto, que retribuiu com um aceno de cabeça. Os sinos não tardaram a tocar e os alunos a ocupar a sala, como formigas.

A aula seguiu, e Liniste sentia que atraía ainda mais olhares, que continuara a ignorar.

Quando, novamente, o sinal batera, e estava na hora do almoço, Liniste saiu com certa pressa, e seguiu pelo corredor no qual andara pela primeira vez naquele dia, novamente, reparando nos armários muito rabiscados nas paredes. Ao chegar ao pátio externo, avisou ao supervisor do portão que havia de buscar sua irmã na escola e, uma hora, voltaria. Após uma ligação, para quem Liniste presumiu ser o diretor, pro qual sua mãe dera permissão ao garoto de sair da escola no horário que desejasse, por imprevistos que podiam acontecer na família tão instável, o monitor, finalmente, abriu o portão, liberando o garoto.

—Rapaz, espere! –Liniste voltou (tinha andado apenas poucos passos, que contou como seis) – você me parece responsável. Mostre-me isso da próxima vez que precisar sair, ou a qualquer monitor. –e entregou a ele um tipo de cartão, com “PASSE” em grandes letras. – agora se apresse, e volte antes do horário, para não me dar problemas!

Afirmando com um aceno, o garoto distanciou-se, seguindo em direção à escola de Vesel, que o esperava no pátio, correndo com os amigos, que Liniste contou como mais de sete. Sorriu de lado, observando a irmã correr em sua direção, com um grupo de crianças atrás.

—Maninho! –ela pulou em seu colo e o garoto, assustado, quase caiu. –Viram? Ele é meu irmão! Não é?

—Sou. –todas as crianças mostraram interesse pelo irmão da garota, que era tão grande.

—Ele não parece nadinha com você!

—Você cozinha mesmo, tio?

—Por que você não sorri?

—Por que você age como a mãe da Veselia? Vocês não tem mãe, não?

Após ouvir comentários que, pessoalmente, Liniste achara estúpidos, entrelaçou seu mindinho com o de Vesel, que o seguiu assim que sentiu o toque, se despedindo dos seus amigos com gritos e o acenar com a mão livre.

—Sabe, todos gostam de você! –comentou a garotinha, no meio do caminho.

—Não me conhecem...

—É! Mas eu contei todas as coisas legais que você faz, e agora todo mundo gosta de você! Contou sobre mim para seus amigos? –perguntou uma esperançosa e radiante Veselia.

—Infelizmente, não tenho ninguém para contar algo sobre você.

—Ah... –Liniste se sentira mal, por não poder retribuir o afeto da irmãzinha, até que ela diz, com um grande sorriso: -Mas se tivesse, o que diria?

—Diria que seu nome combina com você –respondeu, se referindo à tradução de “Vesel”, que significa “alegria”-, e que você é uma garotinha energética e feliz que faz muita bagunça no quarto, para eu limpar depois.

—Não diga isso! –ela se assustou, e o garoto só olhou para um prédio, no qual estavam passando, e que vinha muito barulho – ah, é aqui o maninho estuda? –ele afirmou- É grande!

—Acredito que para abrigar todos os alunos. Entenda, são muitos.

—Muitos quanto?

—Mais de cem.

—Ooh! –expressou, surpresa, e, após dois segundos, olhos, envergonhada, para o irmão – Quanto é que é isso?

—Dez, dez vezes.

—é muita gente!

—Foi o que eu disse.

Vesel, até o caminho de volta para casa, conseguiu inventar uma desculpa para ser carregada nos ombros de Liniste, dizendo que seus pés estavam cansados pois tivera aula de educação física. De primeira, Lin negou, mas, ao ver o rosto da garotinha se fechar numa expressão lamentável, a pegou pelas costas, surpreendendo-a, e colocara-a em seus ombros. Não era forte, e Vesel não era esguia, logo, tiveram que parar algumas vezes para Liniste descansar (ou para a pequena pegar algumas flores nas árvores mais baixas, e prendê-las no cabelo do irmão).

Chegando em casa, Liniste colocou Vesel no sofá, que foi imediatamente “atacada” por Pax, que nela subiu e começou a lamber seu rosto freneticamente. Não sentiu cheiro de comida, nem ouviu ou avistou sua mãe na cozinha, então dirigiu-se ao seu quarto, em menos de dez segundos.

Ao chegar, encontrou-a na mesma posição que a deixara. Aproximou-se, tocando-lhe o peito e, quando sentiu sua respiração e o bater do coração, tranquilizou-se. Saiu logo após, fechando a porta, e colocando uma lasanha pré-descongelada (por ele mesmo) no micro-ondas. Doze minutos se passaram, deixando o garoto com meia-hora para voltar a escola, e a lasanha estava pronta. Cortou-a pela metade, colocou-a num prato e observou enquanto Vesel comia, para impedir que a mesma se queimasse ou fizesse sujeira. Quatorze minutos se passaram, e o garoto pôs-se a lavar a louça, secá-la e colocar num desenho qualquer na televisão, o que levou mais quatro minutos, deixando-o com doze para chegar à escola, no qual o trajeto demorava sete. Pediu a Vesel que não incomodasse a mãe, a não ser por uma emergência, ou podia ligar para o número da escola, que estava grudado na geladeira, por um imã. Tinha dez minutos quando partiu, após um último pedido de cuidar da casa e repor a ração de Pax, caso acabasse, deixando Vesel um tanto orgulhosa de si mesma, por receber tantas responsabilidades de “gente grande”, como ela dizia.

O percurso à escola não foi acompanhado de nenhum imprevisto, logo, chegou com três minutos de vantagem, e mostrou o cartão ao monitor de antes que, descobriu, o nome era George. Seguiu à sua sala, num percurso de dois minutos, encontrando-a parcialmente preenchida, desde que faltava apenas um minuto para os próximos períodos. O sino tocou, informando duas horas da tarde, e todos já estavam em classe, logo, o professor pôs-se a falar.

Às cinco, foram liberados, e Liniste, mesmo preocupado com a irmã, resolveu procurar pela biblioteca da escola e fazer seu dever de casa antes de partir, planejando sair, também, antes de escurecer. Subiu diversas escadas e passou por diversos corredores, demorando dezessete minutos até, de fato, encontrar a biblioteca naquela escola, cuja estrutura, realmente, era imensa.

Ao entrar, sentou-se na mesa mais afastada, apesar de visualizar apenas treze estudantes, e a bibliotecária. Quando acabou o dever de casa, eram seis e três, então, na intenção de devolver o livro de biologia que pegara de uma das prateleiras empoeiradas, e sair logo, guardou as coisas e foi ao corredor que entrara mais cedo, contudo, parou, no inicio dele. O choque se deu ao encontrar uma garota ruiva, com os cabelos cacheados lhe caindo no rosto, sorrindo sozinha, enquanto lia o livro de bolso que o garoto bem conhecia, sentada no meio do corredor. Recuou, deixando o livro com a bibliotecária, a fim de evitar o encontro, que tomaria boa parte do sue tempo, que lhe lançou com olhar de desgosto, antes de pegar o livro, e Liniste pôde partir, ouvindo as reclamações da mulher, que murmurava algo relacionado à preguiça.

Seis e dez quando saíra da escola, e seis e dezessete quando chegara em casa. Abriu a porta e, antes que pudesse sequer fechá-la, quase foi derrubado por uma Danielle aos prantos, enquanto Vesel os observava, preocupada, do sofá.

—Oh, Liniste! Perdoe a incompetência da sua mãe! –ela implorou, soltando-o e limpando os olhos, que não paravam de escorrer –Por que não me acordou? Te dei tanto trabalho, você não devia ter feito isso tudo por minha causa! Me sinto tão impotente...

—Não é necessário lamentar, eu fiz o que fiz por vontade própria, simplesmente. –ele explicou, sentando-a no sofá, onde foi abraçada por Vesel, o que fez a mulher explodir em mais lágrimas.

Ficaram assim por dois minutos e meio.

Queria acalmá-la, mas, de nenhuma maneira, podia dizer-lhe onde estavam seus remédios; ele controlaria suas doses, a partir daquele momento. Depois de quarenta e cinco minutos de pra reflexão, no que devia fazer, foi à cozinha, onde as sobras de uma omelete esfriavam, e preparou um chá quente para a mulher, que o bebeu entre soluços, antes de tirar a xícara de perto da boca e, simplesmente, lamentar, cabisbaixa:

—Que Deus salve esta família quebrada...

Notas finais
Eu sou terrivel com sobrenomes então eu só escrevi "Awesome" ao contrário, pq o Lino se acha o rei da cocada preta e eu sou mt egraçada ha...ha....h... ...