Liniste teve um sono inquieto, tendo, pela primeira vez em muito tempo, um sonho — no qual não se lembrava mais, assim que acordou. Não foi acordado pelo som dos violinos, nem pelo desagradável sol, batendo em seu rosto. Foi algo muito pior: Vesel escalara sua cama e sentara-se em suas costas (a final, dormia de bruços), olhando o garoto de perto, como que esperando que ele acordasse. Depois de certo tempo, o peso incomodou o garoto, que acordou, virando-se rápido, na intenção de descobriu o que lhe incomodava, sabendo que algo estava ali, mas desconhecendo o que.

Na virada, que foi um tanto brusca — estava assustado, a final-, a garotinha cairia se não

fosse pela mão do irmão, que agarrou seu pulso antes que escorregasse para fora da cama. Sua expressão de preocupação durou dois segundos, antes de sua neutra retornar, ocupando seu lugar habitual. Sentou-se, cruzando as pernas, enquanto Veselia se ajeitava nos joelhos, à frente dele, sorridente. Levaram cinco segundos no total, até que ela quebrou o silêncio:

—Bom dia, maninho! –Ela bradou, com animação, batendo palmas.

—O que faz aqui?

—Eu vim trazer seu café da manhã, é claro! –Ela desceu da cama e, seguida de Pax, saiu do quarto em três segundos, retornando em um minuto e treze segundos, com um prato nas mãos.

Havia, no prato, ovo mexido e um pedaço de pão francês cortado de forma desajeitada, e ele pode ver, pela cor –e pelo cheiro- que os ovos estavam queimados. Na mão da garotinha, havia um copo, do que imaginou ser o yogurt de sua mãe, pela cor rosada e o cheiro doce que ela deixava no ar.

Examinou o prato por onze segundos, enquanto a garota o estendia sorridente, esperando uma reação.

—Vesel, eu não como ovos de manhã. –Disse Liniste, depois de seis segundos, rasgando o ar silencioso com suas palavras secas e roucas; acabara de acordar, e sabia que, da maneira que acordara, o mal humor o perseguiria por todo dia, e isso não seria uma nuvem negra que ovos e yougurt poderiam espantar. – e eu não gosto de yougurt, também.

Bastou apenas dois segundos para uma reação: O sorriso que pendia no rosto da garota deu lugar a uma expressão de decepção, enquanto os braços que estendiam ambos, prato e copo, abaixavam lentamente.

—Não vai comer? –Indagou ela. –Tudo bem se não quiser, Pax ficaria contente em fazê-lo, eu acho...

—Eu vou comer. –Esclareceu Liniste, pegando o prato e o copo das mãos da garota, enquanto se levantava e, num percurso de treze segundos, seguiu para a cozinha, acompanhada da garota e cachorro, que ansiava por sua comida matinal. –Mas pergunte-me do que gostaria, da próxima vez, e me acorde de uma maneira mais agradável.

—Tudo bem! –concordou, com um grande sorriso, que novamente brilhava em seu rosto – Desculpe-me por causar transtorno, é só que estava tão animada! Não pude esperar você acordar!

Enquanto indagava porque a garota estava tão feliz, olhou para o relógio de parede, localizado na sala; Cinco e quarenta era o que ele indicava.

Duvidando da informação estampada no relógio, olhou para a janela: O sol lentamente se levantava, mas seus raios ainda estavam fracos e o céu, escuro. Olhou, então, para a cozinha: vazia, a não ser por uma louça tremendamente exagerada para a quantidade de comida produzida, e uma boca de fogão que permanecia ligada.

Demorou quatro segundos para chegar à conclusão: Não fora sua mãe que fizera o café da manhã, com o auxílio de Veselia.

Ela o fizera sozinha.

Pôs o prato e o copo na mesa, dirigindo-se para cozinha, desligando a boca do fogão e ligando a pia, colocando algumas panelas e pratos sujos, de molho, na esperança que o trabalho que teria, limpando a louça, se restringisse, ao menos, na metade. Fez tudo isso e voltou, em vinte e três segundos, sendo observado por uma Vesel preocupada: Deixara seu irmão zangado? O que fizera de errado? As perguntas invadiam sua cabeça que, como se cheia, e quisesse aliviar seu peso, tentava eliminar algumas lágrimas, que a garota prendia com dificuldade.

Liniste ajoelhou-se na frente da irmã e, com as mãos estendidas, pediu para ela estender as suas. Atendendo ao pedido, receosa, a garota olhava diretamente para ao rosto do irmão, esperando entender seus sentimentos e intenções através da expressão facial, mas, como sempre, esta era neutra.

Como esperado, O garoto achou queimaduras de óleo e cortes, provocados pela faca que cortara o pão que posicionava-se em seu prato, e em outro, que fora posto na frigideira com manteiga, supostamente, para sua mãe.

A garota sentiu-se envergonhada, com seu rosto quente e vermelho, mas a reação do garoto lhe foi inesperada: Soltou-lhe uma mão, e posicionou-a na cabeça da irmã, deixando a garotinha confusa.

—Isso foi perigoso, Vesel. –ele falou- Da próxima vez que quiser nos agradar, a mim e à mamãe, leve-me uma fruta, e eu lhe ajudo a preparar o café dela. Obrigado pelo gesto, eu aprecio as intenções, mas sei fazer meu próprio café, tudo bem? –ele levantou- vou comer agora, pode ir ao banheiro e me trazer a bolsinha com bolinhas amarelas? Eu agradeceria.

Com um grande sorriso, vendo a oportunidade de seu útil novamente, a garota saiu correndo. Agora eram seis e treze, e o garoto nem precisara olhar no relógio para concluir esse fato. Sua cabeça doía de contar tantos segundos e minutos, e soltou um suspiro longo e merecido. Olhava para o prato em sua frente e provou os ovos extremamente salgados. Com desgosto, comeu-os, em homenagem à irmã.

Quando ela voltou, foi acompanhada da mãe, que olhou para Liniste temerosa, como se lhe devesse algo. Ele apenas desviou o olhar e aceitou o abraço da irmã, enquanto colocava a bolsinha em cima da mesa.

—E aí? Está bom?

—Salgado, e você queimou eles. –a garota ficou cabisbaixa – mas, se quiser, lhe ensinarei como cozinha-los. Eu não vou beber o yougurt –ele o entregou para a mãe, que pegou, também, o prato com o pão com manteiga, já duro e frio, e sentou-se, bebendo-o – m

Mas mamãe o apreciará. Agora, mostre-me suas mãos...

—Não! –gritou Vesel, se afastando rápido, quando o garoto tentou tocar-lhe as mãos. Liniste a examinava, e a mãe a olhava exaltada, com os olhos arregalados. Quebrou o silêncio após sete segundos–Eu faço. Consigo, eu juro! Volte a comer, por favor, e não se preocupe comigo. –falou, com determinação, pegando a bolsinha e sentando-se no sofá, espirrando qualquer spray nas mãos e limpando o excesso com gaze, como fira sua mãe fazer uma vez.

Liniste e Danielle trocaram um olhar por menos de dois segundos, antes de voltar a comer, num silêncio constrangedor, até para uma família.

Danielle acabou seu café e, quando estava prestes a lavar a louça, Vesel chegou à cozinha rápido, oferecendo-se para o serviço. A mãe olhou para Liniste, em busca de auxilio, e este acenou com a cabeça, numa ato que dizia que devia dar permissão à garota fazer a tarefa. Talvez assim, satisfeita com seus resultados, Vesel voltasse ao normal.

Danielle ficou por perto, auxiliando e ensinando como se deve lavar a louça, e Vesel parecia mais concentrada que nunca.

Eram seis e trinta e dois quanto Liniste chegou ao banheiro, com a intenção de tomar banho. Mal se olhou no espelho, mas sabia que, provavelmente, estava com olheiras e o cabelo desarrumado, além de uma expressão arrasada. Demorou oito minutos e vinte, pensando em muitas coisas ao mesmo tempo, e desejando que não estivesse pensando nelas. Sua cabeça pulsava, enquanto os pensamentos corriam, numa velocidade que chegava a enjoar o garoto: Sua mãe estava cabisbaixa, e provavelmente se culpava por tudo que estava acontecendo, Vesel determinou que devesse ajudar nas tarefas domésticas da casa, e não desistiria até conseguir e, Liniste sabia, não podia fazer nada para mudar algo no momento.

Sentiu-se impotente, enquanto enxugava o cabelo, olhando para o espelho. Voltou direto para o quarto e se arrumou, demorando cinco minutos, talvez por desânimo ou o fato de ter quinze minutos inteiros, apenas para sair de casa. Com o material pronto e nas costas, eram seis e cinquenta e cinco, e ele podia ouvir o som da televisão ecoar na sala, e o garoto imaginou que a irmã se arrumava no cômodo, vendo televisão.

Na esperança de cerrar o som fora, Liniste fechou a porta. Sentou-se na cama, e dois minutos haviam passado. Mergulhou o rosto nas mãos e, com elas, o esfregou, passando a mão no cabelo logo após. Sentia-se incomodado, principalmente, porque tomara café, e então o banho. Nunca fizera isso, e nunca faria novamente.

Levantou-se, pegou a mochila e tateou a prateleira, em busca de livro que havia entregado à Joy no dia anterior. Com um suspiro, entendeu porque ele não estava ali. Foi em direção à porta, e quando ia fechá-la...

—Bom dia! –Disse Danielle, olhando para Vesel.

—...E boa aula! –ela disse, logo depois, sorrindo, já pronta com seu uniforme e mochila de rodinhas, esperando a mãe ficar pronta.

—Bom dia. –respondeu Lin, baixo.

A caminho da escola, passando por uma banca de jornal, parou, e suspirou, antes de voltar a andar — não queria chegar atrasado. Ele não estava irritado, zangando ou nada do gênero, mas se sentia cansado, e a cada minuto que ficava longe de casa e da família, sua preocupação aumentava.

Chegando à escola, depois de um trajeto de sete minutos e quatorze segundos, olhou pelo muro, e viu Joy, sorrindo sozinha, olhando para o livro enquanto seus olhos passeavam pelas páginas, e uma caneta girava em seus dedos; passou longe, indo em direção à sala, nem que precisasse esperar na sala, sozinho... Sim, era isso que ele queria: ficar sozinho, por cinco minutos, pelo menos.

Passou pelos corredores, evitando olhares, reconhecendo a voz das pessoas e desejando que elas nem sequer o percebessem. Por este motivo, não sentiu os olhares em sua nuca, ou os sussurros em sua direção que, a cada dia, eram mais raros de se ouvir; Era só um garoto estranho, e nada mais!

Depois de dois minutos, apenas andando, aventurando-se pelos corredores que desejava evitar, chegou à porta de sua sala que, ele se tranquilizou, não estava trancada. A sala estava vazia, silenciosa. As janelas abertas, mas nada além da forte luz as atravessava. Ficou sete segundos na porta, apenas apreciando o que ele gostava de pensar ser uma tela em branco, uma caixinha vazia, que muitos pensariam algo como “e pronta para ser preenchida”, mas Liniste gostava dela mais assim.

Andou até as carteiras localizadas mais ao meio – nem muito à frente, mas bem afastado do sujo e barulhento fundão -, colocando sua mochila ao seu lado, no chão. Isso levou um minuto e onze segundos, e pegar o fichário e o estojo mais vinte e quatro segundos. Apreciou o silêncio por trinta segundos, contados, e, por isso, foi interrompido por sentir seu cérebro pulsar. Não tinha seu livro, logo, teria que distrair-se com outra coisa: Começou a fazer rabiscos aleatórios no caderno.

Esquecera como a sensação era boa.

Liniste sempre amou a arte, o desenho, a representação mais simples de palavras. Como uma criança que morava no meio do mato, e sempre teve a inabilidade de se expressar bem, usava os desenhos, ou rabiscos infantis, para mostrar o que lhe fascinara; De um pássaro colorido, que cantava uma melodia semelhante às canções de ninar que lhe eram contadas quando bebê, à flores silvestres estranhas, que o faziam imaginar quantas abelhas já haviam pousado nela, dada a sua beleza.

Os lírios eram as que mais o fascinava, e sempre trazia um ou dois desenhos de um lírio para os pais quando voltava de seus passeios matinais, que ele mesmo propôs, e seguia-os diariamente.

Porém, eles eram apenas rabiscos.

E ele tinha que ser perfeito.

Era o que seu pai pensava.

Na idade de seis anos, entrou em um curso de desenho. Não reclamou. Na verdade, fico muito feliz; desenhar era sua paixão. Em um ano, por causa de sua dedicação, incentivada pelos pais, de maneiras diferentes, progrediu muitíssimo, e seus rabiscos passaram a ser rascunhos brutos.

Aos onze anos, quando Veselia já os acompanhava por pouco menos de quatro anos, porém, teve que abandonar o curso, com muito pesar. O problema era que a família estava mergulhada numa crise terrível, e todos os privilégios foram cortados, inclusive a eletricidade, logo, tanto a geladeira como chuveiro, por exemplo, eram a gás.

Liniste não continuou com a prática, pois não sentia forças para continuar, não tinha a determinação ou vontade de continuar. E tudo perdeu sua cor.

Ao fim deste pensamento, que levou cinco minutos e quarenta e sete segundos, as pessoas começaram a entrar, e a professora já estava em sala, enquanto um delicado e sombreado lírio enfeitava a última folha de fichário do garoto.

Resolveu guardar o desenho para si, pois o lembrava de uma época boa de sua vida.

A aula continuou monótona, como sempre, e era a hora do recreio.

Liniste olhou em volta, e percebeu que, seguindo os muros, o jardim ia além do que ele era capaz de ver.

Seguiu por eles, raspando suas mãos nas bordas ásperas acinzentadas, observando o verde da grama e o balançar das árvores, mas a grama não era muito bem tratada, e as árvores, quase sem folhas.

Com tristeza, percebeu que o muro se estenderia para mais árvores e grama, até, novamente, fechar o caminho. Parou e observou, por dois inteiros minutos, até começar a pensar em algo peculiar, para um garoto como ele: “e se o muro não estivesse aí?” “se no lugar dele, houvesse algo além?”.

Parou e estranhou, percebendo o quão sem nexo era esse tipo de pensamento, afinal, do que ele servia? O muro estava ali, e não tinha nada além.

Virou-se, em direção ao pátio barulhento e cheio, depois de resistir à tentação de puxar seu caderno, lápis, sentar-se à borda do muro e passar a desenhar lírios.

Andando, ainda, rente ao muro, avistou George, o guardião do portão, e, depois de um minuto e dez segundos refletindo, foi perguntar-lhe algo que o havia incomodado desde o começo do dia.

—bom dia. –foi como o saudou.

—Ah, rapaz, é você! –Ele recebeu-o, sorridente, e lhe apertou a mão – Tem o passe contigo?

—Não planejo sair. Não hoje. –Esclareceu, e o homem ficou confuso. Após perguntar se o homem vivia há muito na cidade, e receber uma afirmação, o garoto, finalmente, questionou: Sabe dizer se aqui perto há algum campo?

—Há sim, rapaz. –Respondeu, quase imediatamente – No topo daquele morrinho, que é revestido por um tapete natural verde, há um campo florido. –Indicou, apontando.

—Muito bem, agradeço.

—Não precisa ser tão formal, jovem. –recomendou o homem, com um olhar quase de pena, que Liniste não percebeu, pois já se afastara.

A conversa tirara certo tempo, que o garoto não contou, deixando-o desconfortável, então, se afastou rápido, receoso de estar atrasado ou algo do gênero.

Passou pela árvore, a árvore, e, instintivamente, olhou-a. Viu Joy, sentada, à sua sombra, com o livro nas mãos, porém, quase a adormecer, até avistar Liniste, e exaltar-se. Quase se arrependeu de tê-la procurado, mas, ao receber apenas um aceno, com um sorriso acolhedor, Liniste tranquilizou-se, e logo não se lembrava mais se havia respondido ao gesto, enquanto passava, novamente, pelas fileiras de armários.

Ao término das aulas, ia a caminho da biblioteca, mas parou, ao meio do corredor principal, antes de dirigir-se à saída. Com a colina na mente, seguiu o sol, pelas ruas desertas, às depressões, antes de começar a, gradualmente, subir. No topo, cansado – não estava acostumado a exercícios físicos -, descansou sua mochila no tronco de uma árvore, e, por alguns minutos, que Liniste sentiu passar rápido como segundos, apreciou a vista: O topo da colina era todo coberto pela sombra da árvore de copa grossa, na qual ele estava sob, e, logo abaixo, havia rosas e tipos diferentes de plantas, antes de, perto de um pequeno riacho, que corria sem pressa, ele avistar os Lírios. Descendo a colina, em direção ao rio, teve cuidado ao pisar, para não esmagar nenhuma das mais bonitas flores, que iam de margaridas a rosas. Passou a mão suavemente nelas, e pensou, por pouco tempo, em tirar os sapatos e senti-las. Chegou ao leito, e calculou que, talvez, a agua bateria em seus joelhos, no máximo. Abaixou-se, e mergulhou os dedos nas águas gélidas, assustando peixes que nadavam tranquilos por perto. Distraiu-se, tirando as pétalas de uma rosa amarela próxima, e vendo-as ser preguiçosamente levada pela correnteza. Depois, levantou-se, voltando para a árvore de copa larga, olhou para trás. Involuntariamente, sorriu de lado, e sentou-se perto do tronco, tirando o material necessário da mochila.

Depois de todos os deveres de casa concluídos, olhou o horizonte e viu o por do sol; Laranja. Numa mistura de cores quentes, o céu parecia derreter, e Liniste ficou encantado como o céu podia pintar tão bem, com tantas cores diversificadas, apenas com o sol e sua luz. Logo, o calor que o havia envolvido, confortando-o como num abraço, foi espantado como numa brisa fria, pois lembrou-se de casa, antes de levantar-se e dirigir-se a ela: Não tinha tempo livre, e sua família o esperava.

Desceu a colina e andou nas ruas em direção ao pequeno apartamento, no qual chegou em meia hora e treze segundos.

—Estou em casa. –Avisou, ao cerrar a porta.

—Bem-vindo... –dizia, mecanicamente, a voz de Danielle, que o olhava em súplica.

Entendendo o olhar, Liniste olhou em volta, tentando avistar o problema, e percebeu a ausência de Vesel, que chegou correndo, assim que ouviu o irmão entrar: Saiu da cozinha.

—Bem vindo, maninho! –Ela bradou, abraçando-o, e o garoto quase cai – Eu tomei banho e coloquei a roupa, sozinha! Veja! –E deu um giro, exibindo a roupa larga, com alguns botões soltos, e o cabelo embolado.

—Tudo bem, Vesel, mas esqueceu alguns botões, e deixe arrumar o seu...

—E mamãe me ensinou a fazer macarrão, então eu fiz o jantar. Sente-se, vou te servir! –Interrompeu-o a garota, correndo para a cozinha e trazendo o prato e copo d’água com dificuldade.

O garoto sentou-se, a contragosto, e olhou para a louça na pia. Sua mãe percebeu o olhar sutil dele, e levantou-se, para fazer a tarefa.

—Não! Eu sujei, logo, devo lavar! –Ela foi em direção à mãe e a empurrou de volta no sofá, repetindo “descanse”, antes de dirigir-se, novamente, à cozinha.

Liniste comeu em silêncio, observando cada movimento de Vesel, e preferiu deixar a informação do campo florido para uma situação menos desconfortável.

—O macarrão está bom, mas errou no tempero do molho por pouco. –Disse Liniste, após terminar, indo lavar a louça, e sendo interrompido por Vesel, que repetia “eu faço!” – Estou orgulhoso, na verdade, mas deixe-me fazer da próxima vez, e então, você me ajuda e, gradualmente, aprende.

—Não tem problema, posso aprender sozinha. –Ela sorriu, mais do que usualmente.

Liniste parou, contou cinco segundos, ajoelhou-se ao lado de Vesel e lhe beijou a testa.

—Obrigado pela refeição, e por se esforçar tanto. –e, na altura dela, aproveitou para fechar os botões que pendiam desajeitados – da próxima vez, não hesite em pedir ajuda, para que, gradualmente, aprenda a maneira correta de fazer as coisas; aprender rápido, mas da maneira errada, é tão inútil como não aprender.

— Você já fez muito por mim, é minha maneira de retribuição. –Explicou ela, lhe beijando a bochecha, antes de correr para a sala e beijar sua mãe, também – agora, eu vou dormir.

—Já, minha filha? –Indagou a mãe –Mas ainda não começou o programa das oito... Ficarei assistindo sozinha? –Lamentou a mãe, sarcasticamente, tentado convencer a filha.

—Sim. Amanha acordarei cedo, então tenho que estar preparada! –Ela disse, determinada – Não precisa vir, Maninho, eu posso fazer sozinha. Boa noite! – E saiu do cômodo, subindo as escadas.

—Vesel não está agindo normalmente... –Sussurrou Danielle, para o filho, assim que ele sentou-se ao lado dela, para fazer-lhe a companhia que a garota normalmente fazia, receosa de que a garota talvez ouvisse.

—Obviamente. –Concordou – Provavelmente culpada. Você faz muito por nós, e eu faço muito por vocês, mas Veselia é apenas uma criança, não é capaz de fazer muito, e acha que deve retribuir nessa relação.

—Claro, a culpa é toda minha! Como sempre é. Eu sou a desgraça para esse lugar... –Lamentou-se, trazendo uma almofada ao rosto e afundando seu rosto nele, como se sufocando a dor, a culpa, e o ressentimento de que nada melhorasse, ou viesse a piorar.

— Por favor, não faça isso. –Pediu o garoto – É do que menos precisamos no momento.

—Tem razão. Perdoe-me filho. –E deu um sorriso doce, com uma falsa calma, que achava que era do que o filho precisava, além de ser tudo que ela podia dar. –Ficará comigo, até o final do programa?

—...Até o final. –Respondeu, pois pensou que aquilo era o que, no momento, mais precisavam.

E pensando por dois minutos, abriu a mochila e tirou o fichário em dez segundos, abriu e tirou uma página em três, entregando a folha à sua mãe.

E esta, ao ver o lírio, tão bem detalhado, tão cuidadosamente trabalhado e tão bem feito, chorou. Não de tristeza, não de felicidade, apenas de nostalgia, talvez remorso, ou saudades, mas a mulher ria entre lágrimas, abraçada com o filho, que lhe acariciava os cabelos.

Era aquilo que, no momento, mais precisavam: Lembranças boas.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.