How To Mend A Broken Heart
9 Capítulo 9
Notas iniciais
Boa leitura!
A cena parecia congelada, suspensa no tempo. Santana e Brittany se encaravam na frente do hospital como se o resto do mundo não existisse, apenas elas, seus sorrisos e uma enorme vontade de se perder naquele olhar.
Santana estava casualmente encostada numa das ambulâncias estacionadas, polegares enganchados nos bolsos do jeans escuro e os cabelos negros finalmente soltos. Sob o sol daquele início de manhã, os fios pareciam absorver cada raio e Brittany poderia jurar que eles eram feitos de seda. Uma vontade enorme de enroscar os dedos naquele mar escuro atravessa o corpo da dançarina e ela precisa enfiar as mãos nos bolsos do casaco antes que ela faça alguma besteira.
Quando a médica vê o sorriso no rosto angelical da loura, ela sabe que tomou a decisão correta. Depois de sua conversa com Quinn, Santana saiu rapidamente do hospital, tentando se afastar o máximo da fonte desse nó no estômago. Mas ao entrar no carro que tinha abandonado no estacionamento alguns dias antes, ela não conseguiu sair do lugar. Depois de ligar e desligar o motor algumas vezes, Santana arrancou a chave da ignição, jogou-as em cima do banco do carona e gritou. Era um berro arranhado, uma tentativa desesperada de liberar tensão através de suas cordas vocais.
Com os braços jogados ao redor do volante e a testa apoiada bem onde fica a buzina, Santana se concentrou apenas em sua respiração por alguns minutos. Era tudo o que ela podia fazer naquele momento. Com o movimento de inspirar e expirar o ar viciado de dentro do carro controlado, a médica se encarou longamente no espelho retrovisor. Depois de encher os pulmões com o máximo de ar que conseguiu, ela sabia o que fazer. Trancando novamente as portas, Santana caminhou com passos apressados até a porta do hospital. Ela não podia correr o risco de Brittany ir embora antes de vê-la mais uma vez.
E agora ela se encontrava na saída do prédio, encarando mais uma vez os olhos azuis que tinham invadido sua mente. No caminho, Santana tentou pensar em alguma coisa minimamente inteligente para dizer, alguma coisa que pudesse justificar – para si mesma – porque ela estaria ali, parada, esperando. Mas, vendo o sorriso que se abria no rosto pálido da outra, Santana esqueceu toda razão. Aquilo era motivo suficiente.
A sirene de uma ambulância que se aproximava chamou a atenção de Santana e a trouxe de volta para a terra. Girando a cabeça para os lados, ela podia perceber vários de seus colegas passando por ali, olhando para as duas com curiosidade. Brittany continuava sorrindo para ela e Santana precisava tirar as duas dali. Rápido.
- Então? Quer ou não quer a carona?
- E como você pretende me dar uma carona? A gente não veio para cá de taxi? – Brittany tinha um brilho divertido nos olhos e um resto de sorriso ainda brincava em seus lábios. – Porque eu me lembro claramente de um taxi.
- Sim, a gente veio de taxi. Mas o meu carro está no estacionamento.
- Por quê?
Santana percebeu que suas tentativas de sair dali rapidamente estavam sendo frustradas pela curiosidade da garota. Mas ela tinha um sorriso tão adorável no rosto que a médica não conseguia se irritar ou não responder.
- Eu terminei o meu último plantão exausta e achei melhor deixar o carro aqui.
- Médica, responsável e minha super-heroína particular? Mais alguma coisa que eu deva saber?
Uma gargalhada ecoou no ar. Algumas cabeças se viraram na direção das duas, mas Santana nem se importou. Há muito tempo ela não ria daquele jeito. Era...revigorante.
- Acho que isso cobre o principal. A não ser que você queira incluir motorista nessa lista.
- Até que não é uma má ideia. Eu ia ligar para um amigo, mas ele ia me encher de perguntas e eu não to afim disso agora.
- Compreensível. Vamos?
- Vamos.
Santana começa a se virar, mas é obrigada a parar no meio do movimento quando vê Brittany dando um pulinho no mesmo lugar, antes de começar a saltitar na direção da médica, mãos nos bolsos do casaco e um sorriso enorme no rosto. Naquele momento, Santana podia jurar que a garota tinha engolido o sol e que agora ele brilhava no rosto dela. Era impossível olhar para aquele sorriso e não se animar também. Brittany era contagiante.
Para a tristeza de Santana, o apartamento de Brittany fica no contra-fluxo do trânsito da manhã e elas demoram menos de vinte minutos para chegar no prédio. Durante o trajeto, as duas conversaram sobre tudo e descobriram que seus gostos não coincidem em absolutamente nada – música, cinema, TV, livros, viagens. É como se elas fossem pólos opostos de uma pilha, mas, mesmo assim, a conversa fluía com naturalidade.
Há muito tempo Santana não se sentia tão a vontade para conversar com alguém. Alguém que não a conheça e que não tenha nenhum tipo de conceito prévio formado sobre ela; alguém para quem ela pode se reinventar e criar uma Santana nova, perfeita, sem passado, sem problemas. Mas, apesar dessas possibilidades, tudo o que ela mais quer é ser ela mesma por alguns minutos. Como há muito tempo ela não consegue.
Ela se pega gargalhando das caretas de Brittany, soltando o volante porque falar apenas com a voz já não é suficiente, contando histórias embaraçosas do período de faculdade, elevando a voz para defender seu gosto musical, ouvindo histórias sobre a infância da loura e dividindo algumas das suas. E quando as duas param em um sinal vermelho, Santana vira o corpo no banco para poder olhar para Brittany enquanto ela fala alguma coisa sobre a última competição de dança de que ela participou. Mas ela poderia estar falando russo que não faria a menor diferença para a morena. Santana estava perdida no brilho adolescente dos olhos da outra, que iluminavam o carro com a potência de milhares de lâmpadas. A buzina do carro de trás arrancou a latina do universo paralelo em que ela se encontrava e ela colocou novamente seu carro em movimento, sorrindo envergonhada e agarrando o volante com mais força do que necessário, até seus dedos ficarem brancos.
Quando o carro em que estavam entra na rua de Brittany, a loura indica para Santana seu prédio e a médica para o carro do outro lado da rua. Olhando pelo vidro do carro, ela vê um prédio baixo, de cinco andares, revestido de tijolos aparentes e sem porteiro. Os apartamentos parecem ser pequenos e a vizinhança não é das melhores, mas Santana pensa que ela não é a pessoa mais adequada para julgar. Afinal de contas, ela mora em um hotel há alguns meses.
- Está entregue, senhorita.
- Obrigada, Santana.
- Foi só uma carona, Brittany. E nem me tirou tanto assim do caminho.
Santana ainda tenta manter o clima brincalhão que reinou durante o trajeto, mas alguma coisa mudou nos olhos de Brittany. Eles estavam sérios, escuros, como quando as duas conversaram no hospital. A médica se mexe desconfortável no banco.
- Eu não estou agradecendo só a carona. Eu estou agradecendo tudo o que você fez por mim. Por ter me levado para o hospital, por ter cuidado de mim, por ter me ouvido e por ter me dado essa carona. Eu sei que você fez bem mais do que só o seu dever profissional. Muito obrigada mesmo.
O sorriso que Brittany ofereceu deu um nó na garganta de Santana. Ela fazia aquilo, simplesmente ser grata por alguma, parecer tão fácil e natural, que a médica sentiu alguma coisa derreter dentro dela. Um calor se espalhou pelo rosto moreno e ela tinha certeza de que estaria extremamente vermelha nesse momento se não fosse o seu tom de pele. Às vezes, ter sangue latino tem as suas vantagens.
A dançarina notou o desconforto da médica e achou melhor encerrar por ali aquela conversa. Santana não parecia disposta a reconhecer que realmente fizera muita coisa, mas Brittany se sentia melhor por ter agradecido.
- Bom acho que eu já vou subindo.
A médica sorriu para ela e, esticando-se até o porta-luvas, pescou um bloco de papel e uma caneta. Ela rabiscou apressadamente alguma coisa, arrancou a primeira folha, dobrou e entregou para Brittany.
- Meu telefone. Se você precisar de qualquer coisa, pode me ligar.
- Pode deixar.
E, sem anúncio, Brittany plantou um beijo na bochecha de Santana. Foi um beijo rápido, apenas um breve roçar de lábios, mas o suficiente para enviar uma onda elétrica pelo corpo da médica. Santana sentia a pele que havia sido tocada queimar e algo borbulhava dentro do seu corpo. Era uma boa coisa ela estar sentada, porque ela não tinha certeza se suas pernas seriam capazes de sustentar seu peso depois daquele beijo.
Quando a médica conseguiu virar o rosto, Brittany já tinha a porta aberta e uma das pernas do lado de fora do carro.
- Tchau, Santana.
- Tchau, Brittany.
Santana acompanhou com os olhos a graça dos movimentos de Brittany enquanto ela dava a volta pela frente do carro e atravessava a rua. As pernas dela eram longas e seus passos largos e leves. Quando já estava no meio da rua pouco movimentada, Brittany virou-se para onde Santana ainda estava estacionada e caminhou na direção do carro. As duas se olhavam profundamente nos olhos e Santana sentiu a garganta secar. Tudo o que ela conseguiu fazer foi abrir o vidro e se preparar para o que Brittany poderia querer com ela.
- Seu casaco, Santana. Quase que eu fico com ele.
Brittany sorria, com o casaco numa das mãos, enquanto Santana mal conseguia resmungar alguma coisa em resposta. Quando a médica conseguiu formar um pensamento coerente, a dançarina já estava do outro lado da rua, subindo a escada na frente do prédio.
Antes de fechar a porta, Brittany acenou para Santana e mergulhou na escuridão do hall. De onde estava, a morena não conseguia mais vê-la, mas seus olhos permaneceram grudados na porta por onde Brittany tinha sumido. A médica respirava devagar, com movimentos deliberados, tentando diminuir a velocidade dos seus batimentos cardíacos e resgatar um mínimo de coordenação motora para chegar ao hotel sem causar nenhum tipo de acidente.
Do lado de dentro do prédio, Brittany subia as escadas até seu apartamento aos pulos, dois degraus por vez. Ela morava no segundo andar e raramente usava o elevador. Ao abrir a porta, ela mal teve tempo de trancá-la atrás de si, antes de correr até a janela. Uma voz pequenininha tinha sussurrado uma coisa em sua cabeça entre o primeiro e o segundo andar e ela tinha que conferir. Puxando a cortina levemente de lado, Brittany sorriu ao constatar que estava certa.
O carro de Santana ainda estava estacionado na porta do seu prédio.
***
Santana não tem a menor ideia de como ela voltou ao hotel sem assassinar nenhum poste. Sua cabeça não estava concentrada no trajeto e ela mal se lembra do caminho que fez. Tudo o que ela conseguia ver era o sorriso de Brittany e os olhos da loura, colados nos seus, enquanto ela voltava para devolver o casaco. Tinha alguma coisa naquela garota que atraía Santana como um imã, mas a médica não queria admitir.
Garantindo a si mesma que aquilo era tudo fruto da sua mente exausta, Santana praticamente abandonou o carro na entrada do hotel, sem nem se preocupar em desligar o motor. Algum dos manobristas cuidaria daquilo. O que ela precisava agora era de um longo banho quente e de algumas horas de sono. Quando ela acordasse, tudo estaria como antes.
O hall do hotel estava relativamente vazio e Santana conseguiu alcançar rapidamente os elevadores. Normalmente, ela teria parado na recepção para perguntar por recados, mas hoje ela tinha pressa. O som dos saltos dos seus sapatos contra o piso ecoava pelo ambiente enquanto ela esperava o elevador.
O quarto que ela ocupa há cinco meses no décimo andar do hotel está frio quando Santana abre a porta. Ela estende a mão pela parede, acendendo as luzes e aumentando a temperatura do termostato. A cama está perfeitamente arrumada e as roupas devidamente dobradas em cima da cômoda. Não há nada fora do lugar, mas há algo de asséptico no ar.
Quando Santana voltou para a cidade, ela sequer cogitou a possibilidade de morar na casa dos pais enquanto procurava por apartamento. Segundo ela disse para Quinn uma vez, ela já não tinha mais estômago para agüentar viver naquela casa. Além disso, com sua rotina maluca de médica de emergência, era mais prático morar num hotel e não ter que se preocupar com arrumação e comida. Mas, como todas as novidades, aquela também já tinha se desgastado e Santana começava a se incomodar com o ambiente árido e sem personalidade em que vivia.
Ela largou a bolsa em cima do balcão que separava a área da mini-cozinha e caminhou diretamente para o banheiro. Antes de se despir, Santana parou por um momento na frente do espelho, observando o próprio rosto e estudando com a ponta dos dedos o local em que Brittany havia depositado um beijo mais cedo. Se ela fechasse os olhos, ainda era capaz de sentir o calor na pele.
A água do chuveiro era quente e Santana deixava que caísse pelo corpo arrancando um pouco do cansaço dos músculos. Depois do último dia e meio, era um alívio necessário. Quando sentiu que seus olhos já não mais obedeciam o simples comando de ficarem abertos, a médica desligou o chuveiro, secou o corpo e se jogou na cama. Estava tão cansada que nem se deu ao trabalho de se vestir. Apenas embrulhou-se no cobertor pesado e deixou-se escorregar pelo estado de sonolência em que se encontrava.
Alguns minutos depois, um barulho insistente ecoou pelo quarto. Santana achou que devia estar imaginando coisas e tentou voltar a dormir, mas o barulho continuava, cada vez mais alto e claro. Quando sua mente finalmente terminou de acordar, a morena reconheceu o toque do seu celular. Ela abriu um dos olhos e, pela claridade que entrava pela janela, determinou que devia ter dormido bem mais do que alguns minutos. Já devia ser quase fim de tarde.
Como o barulho continuava, insistente, Santana desistiu de ignorá-lo e agarrou a coberta, atravessando o quarto até onde tinha abandonado a bolsa. Ela podia sentir a vibração do aparelho através do couro e demorou alguns segundos até que seus dedos sonolentos conseguissem pescar o telefone de dentro da bolsa.
No visor, estava iluminado um número que ela não conhecia. Santana ainda considerou a possibilidade de não atender e voltar a dormir, mas uma onda de inquietação tomou conta do seu corpo e ela apenas pressionou o botão que responderia à chamada e colou o aparelho à orelha.
- Alô.
- Santana? – a voz do outro lado estava carregada de lágrimas e medo e todo o sono que a médica sentia abandonou seu corpo no mesmo momento.
- Brittany?
- Santana, entraram no meu apartamento. Entraram no meu apartamento.
Brittany começou a tentar falar entre soluços e Santana já não conseguia entender as palavras que chegavam até seus ouvidos. Ela sentiu os joelhos cederem um pouco diante do choque, mas logo se recompôs, caminhando pelo quarto reunindo suas roupas, enquanto mantinha Brittany atenta ao telefone.
- Você está bem? Você está machucada?
- Não, eu estou bem. Eu saí por uns minutos e quando voltei, alguém tinha entrado no meu apartamento – uma nova onda de lágrimas chegou aos ouvidos de Santana e ela sentiu seu coração apertar. – Eu não sabia para quem ligar e eu achei seu telefone no meu bolso e...
- Você fez bem, Brittany. Eu chego aí em vinte minutos.
Santana era puro instinto quando agarrou suas coisas, fechou a porta do quarto e voou até o elevador. Tudo o que ela conseguia processar naquele momento era sua necessidade de proteger Brittany.
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