Notas iniciais
Muuuuuuuito obrigada pelos comentários e pelos parabéns de vocês. Foi um presente de aniversário muito legal!!!
E agora, vamos ao capítulo...

Brittany esperava por Santana dentro do apartamento revirado. Ela estava sentada num banco, bem ao lado da janela que dava para a sua rua. A dançarina se revirava no assento e suas pernas não paravam quietas, enquanto seus olhos azuis escaneavam o espaço entre as duas esquinas, esperando o momento em que o carro preto que ela conhecera brevemente iria fazer a curva.

Quando ela finalmente identificou o carro de Santana entrando em sua rua, a loura abandonou seu posto de observação e correu na direção das escadas. Os dois andares foram vencidos com facilidade pelas pernas longas e Brittany abriu a porta do prédio no mesmo momento em que a médica terminava de subir os degraus.

As duas se encararam por um átimo de segundo antes que Brittany jogasse os braços ao redor do pescoço da morena. O movimento repentino quase jogou Santana no chão, mas ela conseguiu recuperar o equilíbrio e abraçou a loura de volta. Uma das mãos da médica subia e descia pelas costas de Brittany, sentindo a coluna destacada contra a pele. A outra estava perdida nos cabelos louros da garota, entrelaçando os fios nos dedos morenos.

Santana não sabia o que dizer para Brittany, então deixou que seu corpo falasse por ela. Apertou mais a garota contra o peito, sentindo o descompasso da respiração dela, os soluços que sacudiam o corpo esguio, as lágrimas que começavam a molhar a manga da primeira camiseta que tinha encontrado. A situação toda era surreal demais e a única coisa que Santana conseguia fazer era abraçar Brittany. Era a única coisa que ela queria fazer naquele instante.

As poucas pessoas que passavam pela rua calma reparavam nas duas mulheres abraçadas na frente do prédio. Normalmente, esse tipo de atenção incomodaria Santana. Ela não era afeita a demonstrações públicas de afeto e detestava ficar sob o holofote. Mas ter o corpo de Brittany colado junto ao seu, roubava toda a concentração da médica. Santana nem pensava, apenas sentia. Para ela, naquele instante, apenas as duas e suas respirações existiam no universo.

Depois do que pareceram semanas, Santana percebeu que os soluços de Brittany tinham cessado e que a respiração da loura estava um pouco mais compassada. A morena, então, colocou uma das mãos em cada um dos ombros da dançarina e a afastou levemente, apenas o bastante para que pudesse olhar no fundo dos olhos dela. Brittany permanecia com as mãos presas à nuca de Santana, enquanto a médica secava as últimas lágrimas que ainda desciam pelo seu rosto, sem desgrudar seus olhos. Era como se uma força invisível prendesse o olhar de uma no da outra. Elas mal piscavam, com medo de perder a conexão.

A garganta de Santana era feita de areia quando ela conseguiu finalmente falar.

- Acho melhor a gente entrar.

Brittany aquiesceu em silêncio, os olhos ainda marejados, e deixou os braços caírem ao lado do corpo. Ela caminhava lentamente, como se suas pernas pesassem toneladas, e Santana a seguiu de perto. Ela não tinha muita certeza se a dançarina seria capaz de suportar o próprio peso por muito mais tempo.

Santana fechou a porta atrás de si e o barulho do metal batendo ecoou no hall deserto, tão alto quanto um tiro. Brittany se assustou com o som e se virou para trás, encarando Santana como olhos arregalados e assustados. Cada pelo do seu corpo arrepiado. Ela tremia, visivelmente.

- Calma, foi só a porta – a voz da médica era baixa, mas ainda assim reverberava nas paredes do ambiente. – Está tudo bem.

- Eu...eu não quero subir.

- Não tem problema. A gente pode ficar aqui mesmo.

A dançarina sorriu um sorriso tímido para a médica e caminhou na direção da escada. As duas se sentaram no segundo degrau. O espaço era estreito e elas podiam sentir o corpo da outra pressionando contra o seu e uma onda de calor invadindo suas peles. Não era uma avalanche de sentimentos, era apenas o reconhecimento de alguém ao lado, fazendo companhia, respirando o mesmo ar e desacelerando seus corações. Logo, Santana tinha a mão de Brittany entre as suas. Nenhuma das duas sabia quem tinha iniciado o movimento, mas parecia certo estarem ali, de mãos dadas.

- Desculpa – a voz de Brittany não passava de um sussurro e Santana certamente não a teria escutado se não estivesse tão perto dela.

- Desculpa pelo quê?

- Por ter te ligado, ter feito você vir até aqui desse jeito, depois do seu plantão. Acho que eu só te dou trabalho, né?

- Não tem problema. Mesmo. Eu fiquei feliz que você tenha ligado. Não que você tenha tido motivos para ligar, claro! Mas que você...

O sorriso que se espalhou no sorriso de Brittany calou a voz de Santana em sua garganta. Ela não estava fazendo sentido e suas frases estavam saindo todas atravessadas, mas Brittany entendia o que ela queria dizer e isso bastava. A médica apertou de leve a mão que guardava entre as suas e as duas caíram novamente num silêncio cúmplice.

- Acho que eu preciso ligar para a polícia – Santana achou que Brittany parecia um pouco mais tranquila, embora seu olhar ainda permanecesse perdido.

- Eu liguei para o detetive Puckerman do caminho. Ele já deve estar chegando.

Os minutos se arrastavam enquanto elas esperavam pelo detetive. Pela primeira vez em muito tempo, Santana não tinha nenhum pensamento concreto em sua mente. Ela era toda sensações: o frio do piso da escada, o calor que vinha do corpo ao lado e a invadia, a pressão que a cabeça da dançarina exercia sobre seu ombro, o som da respiração de Brittany, o toque daquela mão entre as suas. Há muito tempo, Santana não se sentia tão em paz.

A confiança é uma coisa engraçada, pensou Brittany. Há dois dias ela nem conhecia a médica, mas agora, eram apenas as mãos morenas segurando a sua que a mantinham firmemente presa a terra. A lembrança dos últimos acontecimentos ainda boiava em sua mente como se ela tivesse feito parte do jogo cruel de um sádico, mas a mulher que ela mal conhecia e que tinha corrido para ficar ao seu lado sem maiores perguntas tinha a capacidade de afastar essas memórias. A loura não sabia porquê e não estava disposta a questionar, mas todos os seus instintos afirmavam que ela podia confiar em Santana.

O detetive Puckerman chegou ao endereço de Brittany cerca de dez minutos depois da médica. Ele subia as escadas de acesso ao prédio falando ao celular e, quando Santana ouviu sua voz, ela largou a mão de Brittany e se levantou, encarando a porta que dava acesso à rua. Se ela já não estava muito satisfeita em ter que explicar para o policial o que estava fazendo ali, explicar as mãos entrelaçadas seria muito pior.

A dançarina entendeu a deixa e se levantou, sorrindo para Santana enquanto caminhava na direção da porta. Do outro lado, o detetive terminava de falar ao telefone quando focalizou a loura que o esperava.

- Boa tarde, Brittany.

- Boa tarde, detetive. Entra.

Os dois entraram no prédio e se juntaram a Santana. Um silêncio pesado se instalou entre eles enquanto esperavam pelo elevador. A médica notou que o detetive alternava seu olhar entre as duas mulheres, certamente tentando entender o que a médica estava fazendo ali. E antes dele. Por outro lado, Brittany parecia alheia aos dois. Ela encarava o mostrador acima da porta do elevador, acompanhando o ponteiro decrescer com o máximo de atenção. Qualquer coisa que desviasse sua cabeça do apartamento que ela encontraria dois andares acima.

A porta do apartamento de Brittany estava fechada, mas a fechadura tinha sido arrombada. O detetive estudou o estrago por um momento antes de calçar luvas e entrar no ambiente. Brittany seguia atrás dele, olhos baixos, e Santana teria preferido ficar do lado de fora. Ela sentia que conhecer o apartamento da dançarina daquele jeito seria uma invasão brutal de privacidade, mas, ao mesmo tempo, alguma coisa dentro dela dizia que ela não podia deixar a loura sozinha. A médica alcançou a dançarina quando ela atravessava o batente e pousou rapidamente uma das mãos nas costas da outra. Era o máximo de contato que ela podia se permitir na frente do policial.

O breve contato com a médica significou mais para Brittany do que qualquer abraço ou declaração. Olhos azuis penetraram fundos nos olhos castanhos e a dançarina não conseguia distinguir todas as emoções que ela lia ali. Tinha preocupação, cuidado, mas tinha muito mais. Era como se o peito de Santana fosse pequeno demais para o tamanho de seus sentimentos e um pouco vazasse pelos olhos. Algo dentro do peito de Brittany se derreteu e um sorriso enorme brotou em seus lábios. Santana achou que a loura a sua frente devia ser feita de sol e soube, naquele instante, que ela faria de tudo para ver aquele sorriso mais uma vez.

- Brittany, por que você não me conta o que aconteceu?

A voz do detetive arrancou as duas da espécie de transe em que elas se encontravam. Santana deu um último sorriso de encorajamento antes que a dançarina se voltasse para o policial, piscando algumas vezes antes de conseguir reunir seus pensamentos.

- Eu tive alta do hospital hoje de manhã e vim direto para casa – Santana notou que Brittany omitiu como ela havia voltado para casa. – Eu descansei um pouco, almocei, vi TV. Nada fora do normal. E aí, eu resolvi ir ao supermercado. Eu devo ter demorado uns trinta, quarenta minutos, no máximo. Quando eu voltei, foi isso que eu encontrei.

O sorriso triste no rosto de Brittany fez o coração de Santana se apertar dolorosamente. A médica tinha que lutar contra uma vontade enorme de correr até ela, abraçá-la e arrancá-la dali. Mas, na frente do detetive, essa não parecia a melhor ideia. Santana achou melhor caminhar pelo espaço.

- Quando você saiu, Brittany, você notou se tinha alguém estranho na porta, algum carro diferente?

- Não, eu acho que não.

- E na rua? Alguém te seguiu? Ou parecia muito interessado em você?

- Não. Eu não reparei nada.

- Detetive, você está achando que isso tem alguma coisa a ver com o assalto?

Santana tinha tentado se manter de fora da conversa entre os dois, mas quando ela percebeu a direção das perguntas do policial, seu estômago deu um nó.

- É uma possibilidade, doutora – o detetive olhava para Santana tentando decifrar o interesse dela no assunto. – Esse não é dos bairros mais tranqüilos, mas parece uma coincidência grande demais alguém entrar no apartamento da Brittany logo depois de ela ser testemunha de um assassinato.

- Eu não acredito em coincidências.

- Nem eu, doutora – ele e Santana trocaram um olhar de entendimento antes que ele se voltasse para a dançarina novamente. – Brittany, você notou se alguma coisa sumiu?

- Eu não consegui olhar direito, mas... – Brittany caminhou até a estante que ocupava a maior parte da sala. – Uma das minhas fotos, ela não está aqui. É a única coisa que sumiu aqui da sala.

- E que foto é essa?

- Sou eu, na porta da academia. Eu e o Mike, o outro professor.

- Brittany, tem alguém que tenha motivo para fazer isso? Inimigo, ex-namorado?

- Não. Eu cheguei na cidade tem menos de dois meses. Eu não conheço ninguém além do Mike. A minha única outra amiga era a Sarah.

As últimas respostas de Brittany tinham atraído Santana como um imã. A cada palavra era como se um elástico envolvesse o coração da médica, apertando até que ele quase não conseguisse bater. Santana não raciocinava quando estacou ao lado da loura, uma mão pousando no ombro alvo, apertando de leve.

- Detetive?

- Eu vou chamar a equipe forense. Se essa invasão realmente tiver alguma relação com o outro caso, ele pode ter deixado alguma pista para trás. E eu vou colocar uma viatura aqui na porta, mas como essa pessoa sabe onde você mora, acho que você não deve ficar aqui. Você tem onde ficar?

- Acho que eu posso ligar para o Mike, mas...

A voz de Brittany morreu quando pensou no amigo. Ela e Mike se conheceram há cinco anos, durante uma competição de dança. Eles eram adversários, mas isso não impediu que eles se tornassem amigos ao longo dos anos. Quando a academia em que ela dava aulas fechou na mesma semana em que ela terminou seu namoro, foi para Mike que ela ligou. Ela precisava de um novo começo e era isso que ele tinha garantido quando ofereceu uma vaga como professora na academia que ele tinha montado. Brittany sabia que ele não se recusaria a ajudá-la, mas ela se sentia um pouco culpada por arrastar aquela confusão toda para a vida dele.

- Ela pode ficar comigo.

Os dois olhares surpresos que Santana recebeu refletiam seus próprios sentimentos. Ela não sabia de onde tinha surgido aquela frase e não sabia o que o detetive iria pensar sobre aquilo, mas quando ela notou que o ombro que estava embaixo da sua mão relaxou um pouco, ela soube que tinha feito a coisa certa.

- Você tem certeza, Santana? Eu não quero invadir a sua vida, nem nada.

- Claro que eu tenho certeza. Não tem o menor problema.

- Mas...

- Brittany, eu também cheguei na cidade tem pouco tempo. Eu sei bem o que é não conhecer muita gente. Me deixa te ajudar?

A médica tinha um olhar tão doce que Brittany perdeu as palavras por um momento. Presa novamente dentro daqueles olhos castanhos, a dançarina pensou que em nenhum lugar no mundo ela se sentiria tão segura quanto ao lado de Santana.

O mesmo sorriso aceso com a luz de um milhão de lâmpadas voltou ao rosto alvo e Santana ficou feliz com a decisão que tinha tomado. Mesmo que não fosse a coisa mais certa para sua sanidade mental, era o mais certo para a loura a sua frente. E isso bastava.