How To Mend A Broken Heart
8 Capítulo 8
Notas iniciais
Quando o plantão entrou na última meia-hora, Santana sentiu seu corpo lentamente sucumbir à exaustão; seus músculos pareciam enrijecidos, os movimentos mais lentos e as pálpebras pesavam toneladas. Apesar disso, seu cérebro não dava sinais de que fosse desligar em nenhum momento próximo. Deitada novamente no desconfortável sofá da sala dos médicos, ela repassava mentalmente – pela centésima vez, ou talvez mais – os acontecimentos das últimas horas. Desde o encontrão na rua até o desabafo de Brittany, nada escapava da revisão de Santana. A maneira como a dançarina estava assustada e como ela parecia se acalmar na presença da médica. O jeito como ela agarrava sua mão em busca de conforto e a coragem silenciosa que ela vira nos olhos azuis durante a conversa com o detetive.
Tinha sido uma noite tumultuada e Santana sabia que não havia nada que ela precisasse mais do que descansar. Pra valer, dessa vez. Numa cama de verdade e com um cobertor pesado sobre o seu corpo.
Pensar na própria cama era relaxante e Santana quase podia sentir o calor do quarto. Mas, junto com essa sensação, um peso assentou no peito da latina, roubando seu fôlego. Ela demorou alguns segundos tentando reaprender a respirar. Quando finalmente conseguiu forçar o ar pelas narinas até os pulmões vazios, ela entendeu a conclusão que seu corpo tinha alcançado antes de sua mente: terminar o plantão e sair do hospital significaria provavelmente nunca mais ver a dançarina loura de olhos azuis cor de céu; nunca mais ver Brittany.
Santana sabia que não havia motivos para segurá-la no hospital por mais tempo. Seus ferimentos eram superficiais, seu pânico inicial tinha sido solucionado, a pancada na cabeça não apresentara nenhuma complicação e ela passara bem a noite. Essa última parte, Santana garantiu, visitando o quarto 3 sempre que possível. Só para ter certeza de que ela estava respirando; e dormindo; e coberta; e bem; e protegida; e segura. Só para sentir, mais uma vez, seu peito se expandir mais um milímetro e sua respiração ficar um pouco mais fácil.
E, agora, ela tinha que se conformar com a ideia de que seu plantão chegava ao fim e que ela não mais veria Brittany. Claro que ela podia dar seu número de telefone para a garota, mas com qual motivo? Ou então, ela podia procurar o número de Brittany na ficha dela. Mas, qual seria a razão que ela poderia ter para ligar para uma paciente que já recebera alta?
Um pensamento perdido atravessou o raciocínio de Santana e ela sorriu quando se lembrou de que Brittany teria que voltar lá para tirar os pontos e o gesso do pulso. Seria muito fácil para ela dar um jeito de aparecer, casualmente, no hospital no mesmo momento. Claro que Brittany podia decidir fazer aquilo em qualquer outro hospital e a ideia de passar o dia por ali, esperando por uma pessoa, pareceu esquisita demais até para Santana. Ela se sentiu como um daqueles perseguidores de celebridades, que pulam muros e invadem propriedades.
Não. Ela não faria nada daquilo. Ela tinha orgulho demais para se prestar àquele papel. Mas a ideia de não se encontrar mais com Brittany fazia com que ela questionasse a utilidade de tanto orgulho correndo em suas veias. Até ali, ele tinha mais atrapalhado do que ajudado.
Aqueles pensamentos estavam deixando a médica inquieta. Santana não conseguia entender por que não encontrar mais com uma paciente a incomodava tanto. Claro que Brittany não era uma paciente comum, mas ainda assim, era só uma paciente. Ou, ao menos, era assim que Santana achava que deveria pensar.
Ela se remexia no sofá sem encontrar uma posição confortável para o corpo, já que a cabeça trabalhava incansavelmente. Quando desistiu de ficar deitada, ela ouviu a porta ranger nas dobradiças. Atreveu-se a abrir apenas um dos olhos e o que viu do lado do batente fez com que ela parasse no meio do movimento que fazia, congelada entre deitada e sentada.
- O que é que você está fazendo aqui?
Um par de olhos a encarava por cima de profundas olheiras roxas. Quinn Fabray parecia cansada, como se fosse ela a estar terminando um plantão naquele momento. Ela deixou um suspiro fugir dos lábios antes de fechar a porta às suas costas. Quando se voltou novamente para Santana, esta já estava completamente sentada e alerta, uma sobrancelha levemente levantada, reforçando a pergunta que permanecia sem resposta.
- Eu não consegui dormir, então...
- Então você resolveu vir passear no hospital? Conta outra, Fabray.
Quinn tinha as costas apoiadas na mesa redonda que tomava o centro da sala. Ela evitava o olhar de Santana, subitamente interessada no piso.
- Bom, eu realmente não consegui dormir – falou novamente, sem erguer o olhar.
- Essa parte eu já tinha percebido. Suas olheiras já estão quase na metade da sua cara. Definitivamente, esse não é o seu melhor visual. – As duas deram uma risada fraca antes que Santana continuasse. – Sério, agora Q. O que você está fazendo aqui?
Santana observava a amiga com atenção enquanto ela parecia procurar palavras para responder. Aquilo não era comum para Quinn e era isso que estava deixando Santana mais inquieta do que antes. A latina nunca tinha visto a amiga sem palavras. Na verdade, Quinn era a única que conseguia acompanhar Santana numa batalha de insultos e provocações, e isso tinha se tornado mais uma das peculiaridades da amizade delas. Mas agora, vendo Quinn abrir e fechar a boca várias vezes sem emitir nenhum som, Santana não sabia o que fazer.
Quando os olhares das duas se encontraram, Santana teve todas as respostas num segundo. Quinn olhava para ela com um misto de cuidado, carinho e preocupação que Santana nunca tinha visto naqueles olhos. Era como se Quinn quisesse abraçá-la à distância. E, para falar a verdade, Santana se sentia um pouco mais calma diante daquele brilho, um calor confortável crescendo em seu peito.
- Eu fiquei preocupada, S.
- Preocupada com quem? Com a Brittany? – Santana já sabia a resposta, mas precisava de tempo para reordenar seus pensamentos embaralhados.
- Não, Santana. Eu sei que ela estava em mãos mais do que competentes – Quinn sorriu timidamente antes de prosseguir. – Eu fiquei preocupada com você.
- Comigo? Por quê?
A pergunta não tinha o desafio velado que Quinn esperava. Santana realmente não sabia por que alguém estaria preocupado com ela, principalmente naquela situação. Essa percepção fez com que Quinn se adiantasse e se sentasse no sofá ao lado da amiga, o corpo virado, encarando fundo os olhos castanhos.
- Porque eu vi como você se preocupou com essa menina. Por que eu vi a conexão maluca de vocês duas, ontem, quando ela mal me deixou encostar nela, mas se agarrava a você como se a vida dela dependesse disso. – Quinn fez uma pausa antes de continuar, com a voz ainda mais suave. – Porque eu conheço você e porque eu ouvi na sua voz como a história dela mexeu com você. Muito mais do que como médica. Por isso.
Um silêncio carregado tomou conta da sala. Quinn tinha terminado o discurso que ensaiara no caminho até o hospital e sabia que precisava deixar a amiga digerir o que tinha acabado de falar. Ela conhecia Santana e sabia que a latina tinha uma habilidade assombrosa de fugir dos próprios sentimentos. No campo médico, ela era uma profissional exemplar. Mas quando se tratava de suas habilidades emocionais, Quinn a descreveria como uma adolescente. Sentindo com toda a intensidade possível, mas fugindo de qualquer envolvimento real mais profundo. Para a morena, era mais fácil fingir que as coisas não a afetavam. Era mais fácil usar uma máscara dura todos os dias, porque se as pessoas vissem aquela fachada vezes o suficiente, talvez elas acreditassem naquela mentira. E se elas acreditavam, então, talvez, Santana acreditasse também.
Mas Quinn conhecia Santana bem demais para não perceber que as estruturas da fachada durona tinham sido abaladas. Era impossível para a loura não perceber como a amiga olhava para Brittany com mais doçura, como seus olhos se suavizavam quando mirava nos da outra, como sua voz se quebrava de preocupação. Como, mesmo agora, caindo de cansaço, seu primeiro pensamento era sobre o bem estar da garota que ela mal conhecia. Claro que esse era o trabalho delas, colocar o bem estar do paciente acima de todas as coisas, mas tinha alguma coisa a mais ali e Quinn sabia disso. Só o que ela não sabia é o que esse algo a mais significava para Santana e essa era a parte que mais lhe assustava. Conhecendo o histórico da amiga, Quinn não tinha a menor ideia do que a latina faria com aquele sentimento.
Santana estava sentada na outra ponta do sofá, mas poderia estar em outro hemisfério que não faria muita diferença. Seus olhos negros estavam perdidos e ela não encarava nada. Era como se estivesse contemplando alguma coisa que não estava ali naquela sala.
Tudo o que Quinn tinha falado era verdade e ela sabia, em algum nível molecular e primitivo. Mas ouvir outra pessoa dizer aquelas verdades em voz alta fez o coração de Santana acelerar no peito da médica. Ela não podia negar que ela e Brittany tinham uma conexão estranha e forte. Ela não sabia nem definir aquela conexão, mas sabia que ela existia e que era tão real quanto o sol que começava a invadir o ambiente pela fresta da janela. Ela sabia que Brittany se sentia mais calma quando estavam juntas porque ela mesma se sentia assim na presença da loura. E não fazia sentido em tentar minimizar o quanto ouvir o desabafo dela, ver a tristeza e a dor gravadas em cada lágrima, tinham afetado sua tranqüilidade.
Santana podia admitir tudo isso a si mesma, era uma tarefa simples. O que ela não conseguia fazer era determinar o que aquilo significava. Era como se ela estivesse na frente de uma porta e soubesse que do outro lado ela iria encontrar todas as respostas para as perguntas que há muito tempo ela nem se ousava perguntar. Mas ela estava congelada, enraizada no chão sem conseguir se mover. Ela olhava para a porta, via o brilho que escapava por baixo da madeira, esticava a mão para tocar a maçaneta, mas não conseguia alcançar. A porta continuava no mesmo lugar, a encarando, a desafiando a abri-la e descobrir o que havia do outro lado. Seus braços eram curtos e, de repente, pareciam pesar toneladas. Até a própria ideia de levantá-los era exaustiva e Santana achou que era melhor desistir. Se fosse para ela saber o que havia do outro lado, não poderia ser tão complicado, certo?
- Não sei onde você está querendo chegar, Fabray.
Quinn podia ver a máscara de Santana se recompor. Lentamente, o brilho orgulhoso voltava aos olhos negros e aquele breve relance de uma Santana receptiva, doce e preocupada começava a se desfazer no ar, como o formato de uma nuvem durante uma ventania. Os sentimentos ainda estavam lá, Quinn tinha certeza, mas enterrados sob ainda mais camadas de autoproteção e orgulho.
- S...
- Quinn, você está certa, eu me preocupo com a Brittany. Assim como eu me preocupo com todos os meus pacientes. É o meu trabalho, o nosso trabalho. Você devia entender isso.
A última frase da morena era quase um apelo, um pedido para que a amiga deixasse o assunto de lado. A intensidade do que estava se formando dentro dela a assustava e Santana ainda não estava pronta para cutucar aquela massa disforme de sentimentos.
- E eu entendo, Santana. Você sabe que eu entendo – Quinn falava com voz de mãe, doce e zelosa ao mesmo tempo.
- Então eu tenho certeza que você vai entender que eu estou exausta e que tudo o que eu quero nesse momento é terminar o meu plantão, deitar na minha cama e dormir, certo? – Quinn concordou e Santana olhou de relance para o relógio; ela já podia fazer tudo aquilo. – Na verdade, eu vou começar a fazer isso nesse exato momento.
Santana se levantou, encerrando a discussão. Seus sentimentos não eram de domínio público para serem debatidos por outras pessoas. Mesmo que essa pessoa fosse uma das únicas que podia chamar de amiga.
Ela caminhou até o armário que tinha seu nome escrito no alto e o abriu, o barulho da porta de metal ecoando na sala silenciosa. Enquanto resgatava as roupas que tinha usado na noite anterior, Santana podia sentir o olhar de Quinn queimando as suas costas. Ela sabia que a amiga ainda não estava convencida e que ela voltaria àquele assunto em algum momento. E Santana achou que tudo bem. Talvez quando Quinn voltasse a falar sobre aquilo ela já tivesse conseguido entender e classificar seus sentimentos. Talvez ela não estivesse mais sob o feitiço da loura que dormia no quarto 3. Talvez ela nem visse mais Brittany depois daquele dia.
Aquele último pensamento fez com que ela fechasse a porta do armário com um pouco mais de força do que o necessário. Ela parou um momento, encarando o próprio nome e a fileira de armários, respirando fundo e se recompondo antes de se virar novamente.
Quinn observava cada movimento que Santana fazia e quando viu que a morena parou por um segundo depois de fechar a porta do armário, achou que talvez ela estivesse pronta para falar, que ela só tivesse precisado de alguns minutos a mais para se abrir. A loura se sentou mais ereta no sofá, preparada para conduzir uma conversa em potencial, mas o que viu quando a amiga se virou fez com que seu peito se curvasse em si mesmo. Santana nunca lhe parecera tão dura na vida. O maxilar apertado, uma veia do pescoço saltando de tensão e os olhos um pouco mais apertados do que o natural. Quinn podia ver a força com que ela agarrava as roupas que carregava, como se elas fossem substitutas de algo que ela queria muito estrangular. Aquela não era mais a Santana que ela tinha visto quando chegou, ou que tinha ligado para ela algumas horas antes, ou que ela tinha visto com Brittany quando elas chegaram no hospital. Aquela era Satã Lopez, como algumas pessoas da equipe chamavam a latina quando eles achavam que ela não estava ouvindo. Na verdade, Quinn achava que a amiga até gostava do apelido e, às vezes, fazia alguns comentários para ser digna de sua reputação. Mas só às vezes.
- Santana?
A morena já tinha alcançado a porta do banheiro quando ouviu o chamado. Ela virou apenas a cabeça, erguendo uma sobrancelha. Era um desafio e Quinn sabia.
- Eu devo dar alta para a Brittany daqui a uma hora mais ou menos. Se isso te interessa.
O olhar de absoluta confusão de Santana foi suficiente para Quinn ter certeza de que tinha feito a coisa certa ao fazer aquele comentário. A latina parecia não saber o que fazer com aquela informação e, para a outra médica, essa opção era melhor do que a armadura rígida que ela usava segundos atrás. Quinn abriu um sorriso e saiu da sala, deixando para trás uma Santana desnorteada.
***
Santana não saberia dizer quando tempo ela ficou dentro do banheiro, encarando os ladrilhos sem realmente enxergar nada. Mesmo sozinha, ela não deixava nada transparecer no rosto moreno, mas por dentro... por dentro ela estava uma bagunça. Naquele momento, sentada na louça fria, Santana sentia como se um vendaval tivesse passado por dentro dela e tirado tudo do lugar. De repente, ela não sabia mais onde estava seu coração, porque ele parecia bater em todo lugar, pulsando tão perto da pele que ela tinha medo que ele pudesse saltar a qualquer momento. Os pulmões ainda estavam reaprendendo a complicada tarefa de respirar e, de vez em quando, ela precisava conscientemente puxar o ar para dentro com um pouco mais de força. Ela parecia uma daquelas mães ensinando os filhos a andar, soltando as mãozinhas pequenas aos poucos, incentivando o bebê a dar só mais um passo, só mais um.
Mas o pior não era seu coração espalhado, ou seu pulmão esquecido, nem mesmo o estômago que parecia ter absorvido todo o resto que havia dentro de seu corpo numa bola única, maciça, pesando seu corpo para baixo. O pior de tudo, mesmo, era não entender o que estava se passando na sua cabeça. Santana se olhava no espelho e reconhecia o rosto que a encarava de volta, mas era como se seus pensamentos tivessem sido seqüestrados e substituídos pelos de uma estranha. Por mais que ela tentasse, ela não conseguia entender seus pensamentos. E isso a deixava ainda mais incomodada. Porque ela precisava de certezas, de planos. Santana nunca soube deixar as coisas acontecerem, descobrir no caminho. Ela precisava entender o que era isso que estava acontecendo com ela. Ela precisava saber.
***
O sorriso de Brittany parece ligado à porta do seu quarto. No mesmo instante em que ouve o barulho do trinco sendo girado, ela sente como se seu rosto fosse se dividir em dois. Brittany não sabia muito bem porque a simples possibilidade de ver Santana do outro lado da porta a deixava tão feliz, mas o sentimento era tão bom – principalmente depois de tudo o que ela viu – que ela não se preocupava muito em entender. Melhor sentir.
Mas do outro lado da porta não é Santana que Brittany vê e ela sente seu sorriso murchar. A Dra. Fabray fica parada ao lado da porta por um breve segundo, dando a sua ocupante a chance de reconhecê-la e se acostumar com a ideia de que ela será examinada em breve. Depois do que aconteceu assim que a garota foi admitida no hospital, e sem Santana para acalmá-la, Quinn acha que não toda precaução é bem-vinda.
- Bom dia, Brittany. Lembra de mim? – Quinn tem certeza de que a felicidade em sua voz soa falsa, mas é o melhor que ela pode fazer.
- Bom dia. Lembro sim. Dra. Fabray, certo?
- Isso. – Um silêncio incômodo se instala no quarto e Quinn acha que é melhor fazer seu lado profissional falar mais alto antes que a amiga preocupada faça alguma besteira. – Como você está se sentindo?
- Melhor. Os pontos coçam um pouco, mas a Santana... Quer dizer, a Dra. Lopez disse que é normal, então...
A médica sorri diante da intimidade com que Brittany usa o primeiro nome da latina. A sensação de que ela tinha acertado ao pensar que a dançarina realmente tinha mexido com a amiga a enche de orgulho. Santana podia se esconder de muita gente, mas não de Quinn.
- Ela tem razão, é normal coçar um pouco. Bom, fora isso, eu recebi os resultados de todos os seus exames e você está ótima. Pronta para ter alta?
- Acho que sim... – a voz de Brittany não passa de um sussurro, enquanto seus olhos passeiam pelo quarto, com medo de focalizar na médica a sua frente, como se ela pudesse ler seus pensamentos através de suas retinas.
- Você não parece muito animada para sair daqui.
- Eu estou, é só que – Brittany deixa a frase suspensa no ar enquanto pensa em alguma coisa que possa justificar sua tristeza repentina e a necessidade quase incontrolável de ver a outra médica, a que fazia seu peito inchar de tranqüilidade. – É que eu preciso devolver o casaco da Dra. Lopez. Ela ainda está no hospital?
Depois do que Quinn acabou de presenciar na sala dos médicos, ela acha difícil. Ela gostaria de pensar que a pequena informação que ela despejou, logo antes de deixar Santana sozinha com seus pensamentos, pudesse ser suficiente para fazer a amiga esperar mais um pouco e, pelo menos se despedir de Brittany, mas ela não tem certeza e não acha justo encher a garota de esperanças. Não depois do que ela passou.
- Eu acho que não. O plantão dela já acabou.
- Ah...
- Mas você pode devolver quando vier tirar os pontos. Quem sabe não é no mesmo dia de plantão dela?
- É, quem sabe?
Quinn se apressa em terminar os últimos procedimentos antes de liberar Brittany. A tristeza no olhar dela é evidente e Quinn não tem muita certeza de como lidar com aquilo. Logo, ela já deu as últimas instruções para a dançarina, entregou a receita dos remédios e combinou um prazo para ela voltar. Tudo bastante profissional, não fosse um aperto crescendo no peito da médica.
Brittany termina de se arrumar lentamente, como se ela estivesse dando a Santana um pouco mais de tempo para entrar pela porta. Ela não sabe o que gostaria que a médica fizesse caso aparecesse ali, realmente, mas Brittany gostaria de olhar para os olhos castanhos quase negros mais uma vez. Mesmo que fosse para uma despedida.
Quando ela finalmente percebe que Santana não vai aparecer no quarto no último minuto, não importa quanto tempo ela demore para amarrar o cadarço de cada tênis, Brittany suspira resignada e sai. As luzes do corredor, mais fortes do que as de dentro do quarto, incomodam seus olhos por um momento, mas ela logo acha o caminho até a saída. É estranho percorrer esses corredores agora. Parece que foi há tanto tempo que ela passou por ali, apoiada em Santana como se seu peso fosse demais para suas pernas.
O casaco da médica está pendurado em seu braço direito quando ela alcança a porta principal. Um vento gelado entra pela fresta lateral e Brittany decide que é melhor vestir. Suas próprias roupas não são apropriadas para o frio que faz lá fora e ela tem certeza de que Santana não se importaria. Afinal de contas, ela mesma é quem tinha emprestado.
Ainda ajustando a roupa em volta do corpo, Brittany abre a porta e sai para dentro do ar gelado daquela manhã sem olhar em volta. Ela está terminando de abotoar o último botão, quando uma voz conhecida invade seus ouvidos:
- Achei que você fosse precisar de uma carona.
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