Notas iniciais
Boa leitura!

- Eu quero falar com a Dra. Santana Lopez.

O homem moreno de cabeça raspada se apoiava com graça no balcão de atendimento do hospital. Ele usava calças jeans, uma camisa branca amarrotada e um sobretudo preto. Tudo nele gritava policial, principalmente o sorriso escancarado. O detetive Noah Puckerman usava seu charme como uma ferramenta de trabalho, assim como o distintivo e a arma presa no coldre.

- C-c-claro! Eu vou chamá-la – gaguejou a enfermeira Sugar, antes de se dirigir ao microfone do sistema de alto-falantes do hospital. – Dra. Lopez. Dra. Lopez. Favor comparecer à recepção.

- Obrigada – respondeu o detetive com sua voz mais açucarada e uma piscadela. – Eu vou esperar por ela ali.

Santana ouviu o chamado do alto-falante e imaginou que o detetive responsável pelo caso de Sarah devia estar esperando por ela. Fazia pouco mais de uma hora que havia falado com ele pelo telefone e fora vaga o suficiente para que ele precisasse procurá-la primeiro, antes de falar com Brittany.

Inconscientemente, a médica ajeitou os cabelos negros no rabo de cavalo apertado e alisou o uniforme hospitalar e o jaleco branco. Pela primeira vez, ficou feliz por estar usando aquela roupa azul larga. Ela a fazia parecer profissional.

- Sugar. Quem quer falar comigo?

- É aquele policial ali. O careca gostosinho.

A latina se virou na direção do dedo apontado de Sugar, revirando os olhos. A enfermeira parecia um gato no cio e já havia sido repreendida pela chefia mais vezes do que Santana conseguia se lembrar. Mas ela era uma boa profissional, excelente com os pacientes, e, por isso, todo mundo olhava para o outro lado quando ela babava por alguém na sala de espera.

Santana caminhou na direção do detetive, endireitando os ombros e dando passos lentos e deliberados. Ele parecia simpático, agradável, aquele tipo de policial que tem um interesse genuíno pela justiça e pelas pessoas. Mas o instinto de proteção de Santana andava com a carga máxima desde que ela colocara os olhos em Brittany pela primeira vez e ela se reservava o direito de desconfiar de todo mundo que se aproximasse da dançarina.

- Detetive?

- Oi, doutora. Prazer. Detetive Puckerman – o homem se levantou, oferecendo a mão para um cumprimento.

- Dra. Lopez – apertou a mão estendida rapidamente. – Por favor, me acompanhe.

Médica e detetive caminharam em silêncio, enquanto Santana os guiava até uma sala de reuniões. Era um cômodo raramente usado pela equipe e ela precisava de um momento de privacidade com o policial antes de levá-lo para o quarto de Brittany.

Depois de se certificar de que a sala estava realmente vazia, Santana escancarou a porta e fez um sinal para que o detetive entrasse. Uma enorme mesa de madeira ocupava a maior parte da sala, cercada por dez cadeiras de couro. Uma tela de projeção estava posicionada na parede oposta à porta e um aparador com água e copos se situava na parede lateral.

Noah Puckerman não esperou por um convite e tomou uma das cadeiras. Santana se dirigiu ao aparador e se serviu de um copo d’água. Ela precisava de um momento para respirar fundo, organizar seus pensamentos e reconstruir sua melhor pose profissional. A médica deixou que o frio do copo diminuísse um pouco a velocidade com que seus pensamentos corriam em sua cabeça. Assim que sentiu a respiração voltar para o ritmo normal, Santana virou-se para o detetive e tomou a cadeira em frente a ele, do outro lado da mesa. A ironia da barreira física que ela impôs entre eles não passou despercebida por Santana e colocou um sorriso discreto em seu rosto.

- Obrigada por ter vindo tão depressa, detetive.

- Apenas fazendo o meu trabalho – respondeu com um sorriso largo. – No telefone você mencionou alguma coisa relacionada ao assalto de ontem.

Santana sabia muito bem que não tinha entrado em detalhes ao telefone. Ela não queria trair a confiança de Brittany e achava que a própria dançarina precisava contar a história. Por mais que doesse.

- É o que parece. Ontem, nós admitimos uma paciente, Brittany. Ela tinha alguns ferimentos simples, mas parecia bastante assustada. Arredia, mesmo. Nem a nossa psicóloga de plantão conseguiu descobrir alguma coisa sobre ela.

O detetive olhava a médica nos olhos. Ele tinha seu bloco de anotações e uma caneta em cima da mesa, mas não fazia menção de anotar nenhuma informação. Toda sua atenção estava voltada para a mulher morena do outro lado da mesa. A intensidade do olhar dele deixou Santana desconfortável em sua cadeira.

- Hoje, quando ela acordou, nós conversamos e ela se abriu um pouco mais. Pelo que eu pude entender, ela pode ter sido testemunha do assalto de ontem. Por isso, eu pedi para a o senhor me encontrar aqui. A paciente ainda está bastante fragilizada e nós achamos recomendável que ela dê seu depoimento aqui no hospital. Pelo menos por agora.

- Nós? – perguntou com uma sobrancelha erguida, a curiosidade estampada no rosto pela primeira vez.

- Sim. Eu e a Dra. Tina Cohen-Chang. Ela é a psicóloga que conversou com a Brittany na noite em que ela foi admitida. Eu falei com ela ao telefone um pouco antes de falar com o senhor.

- Então, ela não estava presente quando a Brittany contou sobre o que aconteceu ontem?

- Não. A Dra. Chang não está de plantão hoje.

- Mas você conversou com ela assim mesmo?

Santana começava a se sentir desconfortável diante daquela conversa. O detetive estava ali para conversar com a Brittany e saber mais sobre o que tinha acontecido durante o assalto da noite anterior, mas a médica sentia como se a natureza da sua relação com a loura estivesse no foco da investigação. E era exatamente não ter certeza da resposta a essa pergunta que deixava a latina tão inquieta.

- Fui eu que trouxe a Brittany para o hospital, ontem. E, desde então, ela desenvolveu uma espécie de ligação comigo. Não sei explicar muito bem, mas parece que ela confia em mim.

- Onde você a encontrou? – o detetive percebeu o desconforto da médica e achou melhor voltar para um tópico mais objetivo.

- Eu tinha saído para uma caminhada, por volta das dez. Eu estava perto do Parque Robb, quando a Brittany praticamente me atropelou. Eu vi que ela estava ferida e a trouxe para cá.

A morena notou que o detetive começava a anotar alguns detalhes no bloco de anotações a sua frente e aquilo a tranqüilizou. Aquela parte, negócios, ela conhecia. Com aquilo ela podia lidar.

- Os ferimentos não eram sérios – a médica continuou, lembrando-se da noite anterior como se tivesse acontecido um mês atrás –, mas ela não deixava ninguém se aproximar dela. A cada pessoa que entrava no quarto, ela dava um pulo da maca. Esse comportamento pareceu bastante estranho e, por isso, nós chamamos a Dra. Chang.

- Mas ela não conseguiu descobrir nada?

- Exatamente. Ontem, tudo o que ela falou era que se chamava Brittany Pierce e que ela dá aulas de dança.

Um brilho acendeu o olhar do detetive enquanto ele fazia mais anotações numa folha em branco.

- E por que não há um outro psicólogo acompanhando o caso? Já que vocês ficaram tão preocupadas com ela?

Era exatamente a pergunta que Santana temia. Como explicar para aquele detetive que ela não queria que mais ninguém chegasse perto de Brittany, com medo de que ela pudesse se partir em milhares de pedacinhos bem na sua frente? Como responder àquilo e ainda manter a pose de profissionalismo que ela estava se esforçando tanto em manter?

- Diante das reações dela ontem, nós achamos que introduzir outra pessoa poderia agravar o trauma. Por isso, a equipe autorizada a entrar no quarto está reduzida ao mínimo. Hoje, apenas eu e uma enfermeira temos autorização. A equipe da psicologia está ciente do caso, mas monitorando à distância. E a Chang está de sobreaviso. Se for necessário, ela estará aqui o quanto antes.

Santana sentiu-se satisfeita com a resposta. Não tinha contado nenhuma mentira e conseguira preservar a intensidade do instinto de proteção que Brittany despertava. Definitivamente, um gol de placa.

- E quando foi que a Brittany contou para a senhora o que aconteceu?

- Hoje, pela manhã. Eu fui verificar como ela tinha passado a noite e eu aproveitei para perguntar mais uma vez o que tinha acontecido. Ela parecia mais calma e, por fim, ela acabou me contando sobre o assalto ao consultório. Ela e a recepcionista eram amigas e ela testemunhou o assassinato.

O detetive soltou a respiração com força. Aquilo era uma excelente notícia para o andamento do caso, mas ele detestava pensar que alguém tivesse que ter visto a cena tão de perto. Ele juntou as pontas dos dedos no queixo, pensando em tudo o que sabia sobre o caso. Naquele momento, Santana pensou que ele não parecia um policial. Ela conseguia ver nos olhos grandes do homem uma ponta de preocupação e ela sabia que, internamente, ele estava se debatendo entre ficar contente em ter uma testemunha ocular e saber que alguém tinha visto tudo aquilo. A médica achou que sua primeira impressão estava realmente certa e relaxou um pouco na presença dele.

- Eu queria conversar com a Brittany. Ela está acordada?

- Claro. Eu levo o senhor até lá.

- Obrigado.

Os dois se levantaram e caminharam em direção à porta. Mas, antes que Santana pudesse girar a maçaneta, ela ouviu o policial limpar a garganta atrás dela.

- Antes de a gente sair, doutora, eu gostaria de fazer mais uma pergunta.

- Claro.

- Se você conheceu a Brittany ontem, apenas, por que é que ela confia tanto na senhora? Desculpa, mas é que me pareceu um pouco estranho.

Santana deixou uma pequena risada escapar da garganta. Ele não era o primeiro a pensar aquilo, mas, certamente, tinha sido o primeiro a usar aquelas palavras. Ele olhava para ela desconcertado.

- Não se preocupe, detetive. Eu mesma me pergunto isso desde ontem. A Dra. Chang disse que tem a ver com o fato de eu ter sido a primeira pessoa a cuidar dela depois do fato ou coisa parecida. Mas a verdade é que essa é uma pergunta que eu acho que só a Brittany vai poder responder.

- É, eu acho que sim.

- Vamos então?

- Depois de você.

***

O clima no quarto 3 era Antártico. Brittany estava sentada na maca, com as costas muito eretas e as pernas dobradas e cruzadas. Ela parecia observar algo que não estava exatamente naquela sala enquanto brincava com um dos botões do casaco de Santana. A médica achou que ela parecia cansada e sentiu seu coração despencar no peito.

Ao lado da cama, o detetive Puckerman observava Brittany. Com mais de dez anos de experiência de trabalho policial, ele esperava pelo melhor momento para começar a entrevista. Ele sabia que se Santana estivesse certa, a loura sentada à sua frente seria uma peça fundamental para descobrir quem tinha assassinado aquela garota na noite anterior. Mas ele não queria arriscar sua sorte forçando uma testemunha a falar antes da hora. Descobrir o momento ideal era uma arte – e ele costumava ser excelente nela.

Brittany procurou Santana no quarto. A médica estava postada ao lado da porta, observando a interação entre a dançarina e o detetive. Ela se sentia responsável por aquela situação de alguma maneira e estava pronta para interferir se fosse preciso. A vantagem de ser a médica responsável por Brittany naquele momento, é que ela tinha a desculpa perfeita para isso.

Quando o olhar das duas se encontrou, elas trocaram um sorriso discreto. Era sutil, mas Santana podia jurar que tinha visto Brittany relaxar um pouco os ombros. Puckerman também reparou e decidiu que aquele era o momento pelo qual estava esperando. Aquela testemunha não estaria mais relaxada do que aquilo tão cedo. Ele limpou a garganta, chamando a atenção das duas, antes de começar:

- Brittany, você tem certeza de que quer fazer isso hoje? A Dra. Lopez me disse que você deve ter alta amanhã de manhã e eu posso esperar mais um dia para tomar o seu depoimento.

- Não, está tudo bem. Eu prefiro fazer isso logo – ela tentava demonstrar coragem através do sorriso forçado, mas tudo o que Santana conseguia ver eram os olhos cheios de lágrimas.

- Ótimo. Podemos começar, então?

Brittany apenas sacudiu a cabeça para cima e para baixo, incapaz de articular qualquer palavra enquanto sua garganta se fechava em volta dos soluços que ela tentava engolir. Santana achou que era melhor sair dali antes que ela expulsasse o detetive.

- Acho melhor eu sair e dar mais privacidade a vocês – falou já com a mão na maçaneta.

- Não! – A voz de Brittany saiu um pouco mais alta do que ela tinha planejado e Santana congelou no mesmo momento. – Fica aqui comigo. Por favor.

As palavras de Santana se perderam quando ela viu a expressão no rosto de Brittany. A mistura de medo com urgência deixou cada músculo do corpo da médica em alerta. Ainda assim, ela tinha que tentar manter uma postura profissional e se lembrar do que estava acontecendo ali, naquele momento. Por mais que ela tivesse autoridade ali, Brittany ainda estava dando um depoimento sobre um assassinato e a médica achou que a decisão cabia ao detetive. Ela podia apenas esperar que ele decidisse o que ela mais queria.

- Eu não sei, Brittany. Acho que essa é uma decisão do detetive Puckerman.

- Detetive – ela se voltou para o homem com a face decidida –, eu quero dar o meu depoimento logo, mas só se a Dra. Lopez estiver aqui.

Santana achou graça quando ouviu o título e sobrenome na voz de Brittany. Não parecia muito natural. Ela até que gostava de ser chamada pelo primeiro nome pela jovem. Desviando os olhos, a médica e o policial trocaram um olhar por um segundo, como se aquela reação de Brittany confirmasse tudo o que Santana havia contado para ele alguns momentos antes.

- Detetive, a decisão é sua. Mas, de qualquer maneira, legalmente eu não posso falar a respeito de nada do que a Brittany me disser. Ela é minha paciente e o sigilo médico-paciente vale. Tudo o que eu já conversei com você foi com o consentimento dela.

Brittany deu um sorriso de agradecimento para Santana, alívio tomando conta de todas as suas feições. Ela se sentia mais tranquila ao saber que a médica estava do seu lado. Mesmo que ela fosse profissionalmente obrigada a se preocupar com a dançarina, Brittany sentia que a conexão entre elas era maior do que isso.

- Bom, acho que você já sabe da história toda mesmo, então não vejo grande problema. Só peço, Dra. Lopez, que você não interfira.

Santana puxou uma das cadeiras, se sentando próxima à cabeceira da maca. Ela e o detetive se sentavam em lados opostos da cama e quando ela se acomodou, os dois trocaram uma espécie de olhar cúmplice. A médica sabia que aquela situação não era comum, mas agradecia pela sensibilidade dele. Era bom ser surpreendida positivamente por alguém. Ela não estava acostumada com aquilo.

Quando Santana ouviu a voz de Brittany começar a contar os acontecimentos das últimas horas, a médica deixou que sua mão pousasse no joelho da dançarina. Era um pequeno gesto de conforto, o único que sabia naquele momento. Santana pensou ter visto um pequeno sorriso surgir no rosto da loura quando tocou sua pele, mas teve certeza de que devia ser apenas uma impressão.

Como Santana já conhecia aquela história de cor – ela tinha perdido a conta de quantas vezes repassou em sua mente as palavras de Brittany –, a médica resolveu se concentrar na mulher ao seu lado.

Ela observava os olhos azuis, agora um pouco cinzentos; a sombra de uma cicatriz pequena bem aonde os cabelos louros começavam a nascer; as sardas espalhadas displicentemente pelo nariz e pelas bochechas; uma pinta no canto do olho esquerdo; a maneira como ela sugava o lábio inferior quando se perdia em seus pensamentos; o jeito como os finos dedos dela pareciam brincar com o casaco de Santana para aliviar a tensão; uma cicatriz esbranquiçada no joelho ao lado do indicador da médica; os hematomas espalhados pelas pernas; a facilidade com que ela se sentava com as pernas cruzadas, parecendo uma criança grande.

Os pensamentos de Santana pareciam ter pensamento próprio e a médica se assustou quando a voz grossa do detetive inundou o ambiente. Quanto tempo ela teria ficado observando Brittany?

- Esse homem, Brittany, você já o tinha visto alguma vez antes?

Santana se recompôs e voltou a prestar atenção em Brittany. Dessa vez, apenas em seu rosto e em suas reações às perguntas do detetive. Ela precisava estar atenta para interromper aquilo caso se provasse muito difícil para a dançarina.

- Não, nunca. Na verdade, eu raramente vejo os pacientes da Rachel. Eu chego no estúdio cedo e só costumo sair de lá na hora de ir embora, então...

- Entendo. Mas, você acha que seria capaz de reconhecê-lo? Se o visse de novo?

O detetive perguntava com cautela, sem querer direcionar as respostas de sua única testemunha, mas Santana já tinha entendido aonde ele queria chegar com aquelas perguntas e ela temia a resposta de Brittany. O que ela dissesse podia significar ter que olhar para aquele homem novamente.

- Com certeza. Acho que eu nunca vou esquecer aquele rosto.

Um sorriso triste surgiu nos lábios finos da loura e Santana apertou de leve seu joelho. Ela sabia que era pouco, mas era o que ela podia fazer para tentar aliviar um pouco a dor da mulher.

- E você conseguiu ouvir alguma coisa do que ele falou com a Sarah? Qualquer coisa, qualquer detalhe.

- Não muito. Ele gritava alguma coisa sobre elas não terem direito, mas ele não falava coisa com coisa, sabe? – O detetive apenas assentiu, permitindo que ela continuasse. – Eu só vi que ela entregou uma pasta de arquivo para ele, antes de... antes de...

Uma onda de soluços tomou conta de Brittany quando ela finalmente permitiu que as lágrimas que ela vinha reprimindo desde o início do depoimento escapassem do seu corpo. Santana lançou um olhar gelado na direção do detetive, esperando que ele entendesse a dica de que era momento de encerrar aquela conversa. Ao mesmo tempo, a mão que antes estava no joelho de Brittany, agora subia e descia por seu braço em movimentos ritmados.

- Está tudo bem, Brittany. Acho que a gente pode parar por aqui. Eu talvez precise falar com você de novo, depois do depoimento da Dra. Berry. Você pode anotar para mim os seus telefones de contato?

A voz dele era suave e Santana agradeceu em silêncio por ele não estar tentando forçar Brittany a falar mais nada. Definitivamente, ele não lembrava em nada os policiais que ela já tinha visto em sua carreira.

A mão de Brittany tremia quando ela pegou o bloco e a caneta que lhe eram oferecidos. Santana pensou em esticar os olhos e tentar decorar o número de telefone, mas achou que seria bandeira demais na frente daquele detetive. Era melhor tentar descobrir na ficha dela no hospital. Apenas para acompanhar o caso, ela se garantiu.

Brittany sorriu para o detetive quando devolveu o bloco com seu número de telefone. Puckerman ficou de pé e entregou para ela um cartão.

- Esse é o meu telefone, Brittany. Se você se lembrar de qualquer coisa, ou precisar de alguma coisa, pode me ligar, ok?

Ela apenas sacudiu a cabeça, concordando. Suas forças tinham se esvaído na última hora. Ela sentia como se tivesse acabado de correr uma maratona; suas pernas doíam, seus pulmões não conseguiam capturar ar suficiente e suas pálpebras pesavam toneladas. Tudo o que ela queria, naquele momento, era deitar e dormir. E esquecer.

Santana estava de pé ao lado da porta, quando o detetive saiu. Antes, ele entregou um cartão para a médica e repetiu as mesmas instruções que ele havia dado para Brittany. Santana achou graça, já que ela não era testemunha de nada, mas guardou o cartão mesmo assim. Ele já tinha o número de telefone dela, caso fosse necessário.

A médica fechou a porta atrás do detetive e se virou para Brittany. Ela parecia menor em cima da cama, os ombros curvados e a cabeça pendurada.

- Como você está?

Brittany olhou fundo nos olhos castanhos de Santana antes de deixar escapar um suspiro pesado.

- Cansada – respondeu, jogando a cabeça para trás, encarando o teto.

- Eu imagino. Foi um dia intenso, para dizer o mínimo – Santana se aproximou e se sentou na beirada da cama, um joelho apoiado no colchão. – Eu acho que você precisa dormir, descansar um pouco.

- Eu não sei se eu consigo – Brittany voltou a fitar Santana, uma nova leva de lágrimas molhando seu rosto. – Todo vez que eu fecho os olhos, eu vejo aquele homem novamente. Eu estou com medo de dormir.

E a frase foi suficiente para lançar seu corpo magro em mais uma tormenta de soluços. A hora que ela havia passado relembrando a noite anterior e mantendo uma fachada forte na frente do detetive começava a cobrar seu preço. Santana se levantou e mais uma vez enlaçou a jovem com os braços. Aquilo começava a parecer natural.

- Eu posso te dar um remédio para te ajudar a dormir. Você quer? – a voz da médica era suave, enquanto ela afagava os cabelos louros de Brittany.

- Não. Eu não gosto de remédio para dormir – ela conseguiu responder entre soluços.

Ficaram um momento naquela posição, até que a respiração de Brittany acalmou um pouco e ela conseguiu olhar Santana através de cílios molhados.

- Você pode ficar aqui comigo?

Santana sentiu seu rosto despencar de tristeza diante da pergunta. Não havia nada que ela quisesse mais no mundo, mas ainda estava de plantão e tinha outros pacientes. Ser responsável, naquele momento, era uma merda.

- Infelizmente não, Brittany. Eu preciso checar alguns outros pacientes e a gente costuma receber bastante gente durante a madrugada – Santana observou a dor no rosto alvo e teve uma ideia. – Mas você pode fazer o seguinte. Se você precisar que eu venha, por qualquer motivo, é só apertar esse botão aqui que uma das enfermeiras vai me bipar e eu venho o mais rápido que eu puder. Combinado?

- Combinado.

A médica olhou rapidamente para o relógio, tomando uma decisão.

- Por que você não deita? Eu ainda posso ficar mais uns cinco minutos aqui, te fazendo companhia.

O brilho do sorriso que Brittany abriu naquele momento deixou claro para Santana que ele valeria a pena qualquer reprimenda ou comentário que ela pudesse ouvir por sua relação com aquela paciente.