Notas iniciais
Boa leitura!

A manhã estava sendo caótica. Logo depois que Santana oficialmente começou o seu plantão, um acidente entre quatro veículos e um ônibus lotou a emergência do hospital. A latina era uma das mais experientes da equipe e logo tinha se tornado uma espécie de referência para a maioria dos outros médicos. A maioria ali não admitiria isso em voz alta, mas eles admiravam o profissionalismo de Santana. Ela até podia ser reservada sobre a sua vida pessoal e ter uma noção de trato interpessoal próxima de zero, mas quando se tratava dos seus pacientes, ela era uma das melhores que havia e eles já tinham percebido. Assim como a diretora do hospital, Sue Sylvester.

E a verdade é que Santana adorava esses momentos de correria. Era melhor do que qualquer dose de cafeína que ela pudesse encontrar na cafeteria do hospital. Quando uma onda de adrenalina atingia suas veias e tudo o que ela conseguia ver era o caso a sua frente. Quando todas as suas sinapses pareciam funcionar em conjunto. Quando seu corpo parecia saber exatamente o que fazer sem que ela tivesse que mandar. Quando ela conseguia se esquecer de toda a merda que tinha acontecido em sua vida e ela entrava num estado de perfeita harmonia com o ambiente – apenas ela, seu paciente e a medicina. Era disso que ela precisava. Era a sua droga.

Mas, como toda droga, a duração dos seus efeitos também tinha um tempo limitado. Depois que a correria acabava e não havia mais nada a fazer além de esperar, a médica sentia como se tivesse corrido uma maratona. Os músculos pesavam e a cabeça entrava numa espécie de estupor, em que tudo o que parecia existir era uma névoa branca disforme nublando seus pensamentos. Segundo uma teoria que ela desenvolvera durante seu primeiro ano de residência, era para esses momentos que tinham inventado o café.

Sentada no sofá das salas dos médicos, as pernas jogadas em cima do móvel e um enorme copo de café na mão, era exatamente nesse momento que a médica se encontrava. Depois de encaminhar seu último paciente do acidente, Santana chegou a duvidar de que fosse conseguir chegar até ali – a cafeteria era longe demais, por isso nem foi cogitada.

O pouco sono que tinha conseguido roubar naquela noite também não estava ajudando em nada naquele momento. Assim que apoiou as costas no encosto do sofá, Santana sentiu suas pálpebras pesarem perigosamente. Ela sabia que seria um erro fatal pensar que seria capaz de ficar de olhos fechados sem dormir, mas a sensação estava tão gostosa que ela decidiu se permitir apenas mais alguns segundos.

Um barulho alto soou na sala e Santana deu um pulo do sofá, assustada. Ela quase derrubou todo o café em cima do jaleco e não sabia dizer se tinha realmente dormido ou não. Olhando para o relógio na parede, constatou que apenas um minuto tinha se passado e suspirou aliviada. Mais composta, ela prestou atenção ao barulho que continuava incomodando seus ouvidos. Depois de alguns segundos ela reconheceu o toque do próprio celular e resgatou o aparelho que havia sido largado em cima de uma mesa. No mostrador, apenas uma letra: Q.

- Já está com saudades de mim? – a voz ainda era sonolenta, mas ela não iria perder a chance de perturbar a amiga.

- Nem de perto. Você está muito enrolada agora?

- Quase nada, apenas salvando a vida de algumas pessoas. Dá para bater um papo.

- Você consegue ser bem babaca às vezes, sabia?

- É um talento natural – respondeu com um sorriso convencido no rosto. – Mas, não foi para me insultar que você ligou, foi?

- Não. Liga a televisão agora, no noticiário das 11.

Santana caminhou até o aparelho que tinha na sala. Ela mexeu rapidamente com o controle até sintonizar o canal que Quinn tinha indicado. Na tela, um repórter falava alguma coisa sobre um assalto seguido de morte que tinha acontecido na cidade. Aparentemente, o consultório de uma famosa psicóloga havia sido roubado na noite anterior. A recepcionista foi surpreendida e morta com um tiro.

- Quinn, você sabe que a gente lida com pessoas vivas, né? Depois que elas morrem não há muito o que a gente possa fazer. A não ser que você esteja pensando em virar legista.

- Não é nada disso, Santana. Deus! Eu nem sei como é que você consegue pensar umas besteiras dessas.

- Já falei: talento natural. Mas, anda, desembucha. Por que é que você queria que eu assistisse a isso?

- Você não falou que a Brittany é dançarina?

- Foi o que ela disse, que dava aulas de dança. Mas o que uma coisa tem a ver com a outra?

- Eu conheço o prédio onde fica esse consultório que foi assaltado. Bem do lado, é um estúdio de dança. Eu nunca vi as pessoas que trabalham lá, mas eu pensei que...

- Que talvez a Brittany tenha visto alguma coisa do assalto. Isso explicaria os ferimentos e a atitude dela.

- Exatamente.

- Você é um gênio, Fabray.

- Eu tenho meus momentos. Então, você conversa com a Tina?

- Na verdade, a Chang também não está mais de plantão – e, de repente, Santana se sentiu nervosa novamente com a situação.

- Mas ela deve ter passado o caso para outra pessoa. É só procurar saber quem.

- Na verdade... – a latina deixou a voz morrer na garganta, sem saber como continuar aquela conversa.

- Santana, fala logo que eu estou doida para ir para a minha cama e morrer para o mundo pelas próximas horas.

- A Tina foi embora e eu sugeri que talvez fosse melhor não envolver mais ninguém no caso. Sabe, já que a Brittany está tão desconfiada de todo mundo.

- Sei... E, com isso, acho que você se ofereceu para tentar descobrir mais alguma coisa sobre ela. Acertei?

- Acertou.

Santana tinha os olhos fechados, como se não quisesse ver a cara que Quinn devia estar fazendo naquele momento. Mesmo que estivessem em pólos opostos da cidade.

- E você tem certeza de que essa é a melhor alternativa, S? – a voz de Quinn era suave, genuinamente preocupada com a amiga.

- Não sei, mas eu estou fazendo o que eu acho que é melhor para a paciente. Não é isso que a gente faz? Acho até que a gente fez um juramento ou coisa parecida.

- Espertinha. Bom, acho que só me resta desejar boa sorte.

- Obrigada!

- E me liga quando souber de mais alguma coisa.

- Pode deixar.

- E, San?

- Fala, Quinn.

- Cuidado.

Santana encerrou a ligação e ficou encarando o aparelho em sua mão por um momento; a última palavra de Quinn ecoando em sua mente. Cuidado. Ela sabia que iria precisar de muito para a próxima conversa do dia. E precisaria de mais ainda para estar novamente perto de Brittany, sem supervisão, e não fazer nenhuma besteira.

Saindo da sala dos médicos, Santana se encaminhou para o posto das enfermeiras. Antes de mais nada, era preciso saber se a loura já estava acordada. Com a dose cavalar de calmantes que foram administrados na noite anterior, era bem possível que ela ainda estivesse apagada.

- Mercedes, você sabe se a paciente da sala 3 já acordou?

- Já, sim, doutora. Eu acabei de voltar para lá e ia avisar a senhora.

- Ótimo. Eu estou indo para lá. Me faz um favor?

- Claro.

- Ninguém entra naquela sala até eu sair de lá, ok? Para nada.

- Claro. Eu vou avisar o restante da equipe.

- Ótimo.

Santana caminhava com passos lentos, adiando o máximo que podia alcançar o quarto de Brittany. Desde sua conversa com Quinn, uma sensação estranha queimava seu estômago. Ela tinha certeza de que a intuição da amiga estava certa e sabia que a conversa que teria com a dançarina não seria fácil. Com a mão apoiada na maçaneta, a médica se permitiu ficar perfeitamente parada por um momento, olhos fechados, concentrada apenas na sua respiração e em organizar os pensamentos espalhados em sua cabeça.

Do lado de dentro, Brittany estava sentada na cama, assistindo desenhos animados; o casaco de Santana dobrado sobre seu colo. Ela parecia tão mais tranquila agora, que a médica se permitiu um momento para observá-la. Os olhos azuis tinham perdido o medo da noite anterior e agora exibiam um brilho quase infantil. Suas feições estavam mais relaxadas e ela parecia mais nova.

- Oi, Santana – ela olhava para a médica com um sorriso no rosto. Parecia verdadeiramente feliz em ver a latina. – Ou será que eu devo chamar você de Dra. Lopez?

- Oi, Brittany. E não, não precisa me chamar de doutora. Santana está mais do que bom – Santana se assustou. Sempre tão fã do distanciamento que as formalidades proporcionavam, era a primeira vez que recusava o título de alguém com mais de sete anos de idade. Ela pigarreou antes de continuar. – Como você está se sentindo?

- Minha cabeça está doendo um pouco e isso daqui coça – ela falou apontando para o curativo em sua testa.

- Isso é normal – Santana respondeu rindo, achando graça da naturalidade da garota. – É dos pontos que eu fiz ontem. E o pulso? Alguma dor?

- Não. Aqui está tudo bem.

- Que bom. Escuta, Brittany, eu estava querendo conversar com você. Pode ser?

A médica temia a resposta da mulher. Ela sabia que aquela conversa era necessária, mas tinha medo de traumatizá-la mais ainda. Brittany apenas encarava Santana, já adivinhando aonde aquele caminho iria levar. Sem conseguir encontrar palavras, a loura apenas balançou a cabeça de leve, assentindo.

- Ótimo – Santana avançou para uma das cadeiras, a mesma em que tinha dormido naquela madrugada. Ela estava enrolando. – Ontem você me disse que você dá aulas de dança, certo?

Novamente, a resposta da loura foi uma cabeça balançando lentamente para cima e para baixo.

- E o estúdio em que você trabalha fica do lado do consultório de uma psicóloga?

A mesma reação como resposta. Dessa vez, Santana notou que a garota apertava o casaco em seu colo com força. A médica achou que uma abordagem mais direta seria melhor.

- Esses seus ferimentos têm alguma coisa a ver com o assalto que aconteceu ontem?

Brittany apenas fechou os olhos, deixando as lágrimas que haviam se acumulado escorrerem pelo rosto. O corpo tomado por soluços violentos. Nesse instante, Santana se odiou por ter convencido Tina a deixá-la falar com Brittany sozinha. Ela tinha conseguido piorar o trauma da garota. Ela tinha realmente conseguido piorar as coisas.

Os soluços de Brittany ecoavam pelo quarto e Santana não sabia o que fazer. A visão da dançarina abraçando as pernas novamente, escondendo o rosto nos joelhos, fez com que o coração da médica se comprimisse dentro do peito. Ela não sabia o que fazer em situações como aquela. Santana era prática, ela resolvia problemas. Ela não consolava pessoas, ela não secava lágrimas, ela não falava que ia ficar tudo bem. Ela agia, ela resolvia.

Mas ver Brittany ali, na sua frente, tão frágil e sozinha, despertou um instinto natural que a médica parecia não ter. Deixando a formalidade de lado, ela se levantou e envolveu o corpo de Brittany com os braços. Por um momento ela achou que a dançarina fosse se afastar e ficou surpresa quando sentiu que a loura se aninhava mais contra seu corpo, procurando ali forças para encarar uma terrível realidade.

Nenhuma das duas saberia determinar quanto tempo ficaram naquele abraço torto: Brittany enrodilhada no próprio corpo, apoiada em Santana, que corria as mãos pelos cabelos da mulher, falando pequenas palavras de consolo em seu ouvido.

Quando sentiu que a respiração de Brittany já estava mais calma, Santana achou que seria seguro encerrar aquele abraço. Ela se sentou na cama, de frente para a dançarina e tomou-lhe a mão, num movimento que começava a parecer natural para as duas. Lentamente, a loura levantou o rosto para encarar os olhos negros que olhavam para ela com uma enorme ternura.

- Olha, Brittany, eu sei que é difícil, mas eu preciso que você me conte o que aconteceu ontem. Tudo. Você pode fazer isso por mim?

A cada palavra, Santana podia sentir que Brittany ia apertando ainda mais a mão que lhe fora oferecida. A médica até chegou a pensar que os soluços iam voltar, quando um brilho de resignação brilhou nos olhos azuis. A dançarina secou o rosto com a ponta do lençol, encheu os pulmões com o máximo de ar que conseguiu e deixou que ele escapasse seu corpo lentamente. Quando conseguiu encarar a médica novamente, seus lábios traziam um sorriso amargo.

- Tudo bem.