How To Mend A Broken Heart
5 Capítulo 5
Notas iniciais
Brittany encarou a parede no fundo do quarto por um longo momento, reunindo sua coragem para reviver os acontecimentos da última noite. Santana podia perceber nos olhos dela que aquilo exigia toda a concentração que a loura conseguisse naquele momento e achou melhor não falar nada. Aquele era o momento de Brittany e ela esperaria o tempo que fosse preciso até ela estar pronta. Tudo o que a médica fazia era segurar a mão da garota, cada vez mais forte, como uma promessa silenciosa de que ela não estava sozinha.
- Eu tinha acabado de terminar a minha última aula da noite. Os alunos já tinham ido embora e eu estava indo para o consultório do lado. A recepcionista, a Sarah, ela mora perto de mim e a gente costuma ir embora juntas – Brittany deixou a voz morrer por um segundo, antes de fitar os olhos negros da médica. – Quer dizer, morava. Ela morava perto de mim.
Santana apenas sorriu para a jovem que se abria a sua frente e apoiou a outra mão no joelho de Brittany. Ela precisava ter o máximo de contato entre elas naquele momento.
- Então, eu estava indo até lá ver se ela já estava pronta e quando eu abri a porta do estúdio, eu consegui ouvir umas vozes na sala do lado. Tinha alguém gritando, era um homem, mas eu não conseguia entender o que ele estava dizendo. Eu imaginei que fosse um dos pacientes da Rachel. Isso é bem comum, sabe? Ela tem vários pacientes que gritam durante as sessões. Ela é especializada em terapia de casais e de vez em quando o clima esquenta. – Brittany se permitiu uma pequena risada e Santana achou que aquele poderia ser um bom sinal. – Eu normalmente não ouço por causa da música, mas nos intervalos entre as aulas dá para ouvir através das paredes. Por isso, eu achei que não era nada demais.
Brittany desenhava pequenos círculos nas costas da mão de Santana, distraída demais em suas lembranças.
- A porta estava destrancada e eu entrei. Eu conheço bem as duas, então não ia ter problemas. – Santana notou que o cenho de Brittany franzia à medida que ela avançava em seu relato e aumentou de leve a pressão que fazia no joelho da dançarina. – A Sarah não estava na recepção e eu reparei que a porta de dentro do consultório estava entreaberta. Eu olhei pela vidraça e, como não vi o carro da Rachel no estacionamento, resolvi entrar para procurar pela Sarah. Eu conseguia ouvir a voz da Sarah e de mais uma pessoa, a mesma voz que estava gritando antes. Por um momento, eu achei que pudesse ser o namorado dela e quis dar um susto nos dois.
O rosto de Brittany estava contorcido numa careta de dor e medo. Santana sentiu o ar faltar quando percebeu o quão duras eram aquelas lembranças e, por um breve momento, teve vontade de parar com aquilo, de dizer para a loura que ela não precisava mais se lembrar de nada, que estava tudo bem e que ela podia esquecer. Mas a médica sabia muito bem que aquela não era uma possibilidade e que, talvez, falar pudesse até ajudar.
- Eu abri a porta bem devagar, sem fazer nenhum barulho. As luzes da sala estavam apagadas, só uma luminária na mesa da Rachel estava acesa. A Sarah revirava uns papeis, pareciam fichas de pacientes, e o homem tinha uma arma apontada para a cabeça dela – Brittany respirou fundo antes de continuar. – E eu não conseguia me mexer. Eu sabia que eu tinha que fazer alguma coisa, gritar, chamar a polícia, ajudar a minha amiga, qualquer coisa. Mas eu não conseguia me mexer. Eu parecia grudada no chão, olhando para os dois sem conseguir fazer nada. Era como se eu estivesse assistindo um filme.
Santana se arrastou na cama, se aproximando de Brittany. Agora, a médica tinha a perna direita apoiada em cima dos pés da loura e uma das mãos subia e descia pelo braço que ainda abraçava os joelhos ossudos da dançarina. A outra mão continuava grudada na de Brittany.
- Até que a Sarah pareceu achar o que ele queria e entregou para ele uma pasta de documentos. Eu consegui ver que ela estava chorando. Nessa hora, eu achei que ele fosse embora e que tudo ia ficar bem. Mas ele pegou a pasta e atirou nela. Ele simplesmente atirou nela. Como se não fosse nada. Como se ele tivesse dado um peteleco, sei lá.
Um sorriso amargo apareceu no rosto de Brittany no mesmo momento em que lágrimas voltaram a escorrer pelo seu rosto. Finalmente, Santana entendia a dimensão do que tinha acontecido e se perdeu em seus pensamentos por um segundo, sua cabeça criando mais perguntas do que ela tinha capacidade de processar. Existiria um momento para fazer todas, mas não era aquele.
- Acho que eu devo ter feito algum barulho, porque ele virou até onde eu estava. Ele não usava máscara e eu conseguia olhar nos olhos dele. Ele tinha uns olhos frios, cheios de raiva, sabe? E foi isso que me fez correr. Eu achei que ele fosse fazer comigo o mesmo que ele fez com a Sarah – Santana secou as lágrimas de Brittany e deixou a mão pousar no rosto dela por um instante. – Eu ainda tentei alcançar a porta, mas ele me puxou pelo braço e bateu com a arma na minha testa. Ele me jogou no chão, mas eu consegui chutar o braço dele e saí correndo de lá. E eu corri. Corri o máximo que eu pude. Eu corri até as minhas pernas não agüentarem mais. Eu nem sabia para onde eu estava correndo, já nem sabia em que parte da cidade eu estava, mas eu achei que quanto mais longe eu ficasse daquele homem, mais segura eu estaria. E que se eu fosse rápida o bastante, talvez ele não me alcançasse. E foi quando eu esbarrei com você.
As duas mulheres ficaram em silêncio por alguns momentos. Brittany apenas desfrutava da companhia da médica, enquanto tentava apagar de suas retinas as imagens da noite anterior. Cada vez que fechava os olhos, ela conseguia encarar as íris frias do homem que tinha assassinado a sua amiga apenas algumas horas antes.
Já Santana tentava digerir as informações que ela tinha acabado de receber. Ela entrara ali sabendo que a conversa não seria fácil, mas ela nunca teria conseguido criar este cenário. A médica não conseguia nem imaginar o que a loura devia ter sentido ao presenciar, de perto, um assassinato. Principalmente, de alguém próximo a ela. Santana era médica e faz parte da profissão lidar com a morte, mas ver alguém morrer na sua frente nunca é fácil. Mesmo depois de anos.
- Brittany, eu sinto muito.
A frase soava clichê até aos ouvidos de Santana, mas era tudo o que ela conseguia articular naquele momento. O que ela poderia dizer que não parecesse pequeno demais, insignificante demais? Brittany levantou o rosto e olhou fundo dentro dos olhos de Santana. As lágrimas já tinham cessado e a respiração da mulher estava entrando em compasso.
- Obrigada. Por tudo.
A médica pensou no que poderia dizer em seguida, se seria prudente fazer alguma das milhares de perguntas que lotavam sua cabeça naquele instante, quando um som agudo tomou conta do quarto de hospital. Santana tentou ignorar o barulho, até que viu um olhar divertido no rosto de Brittany.
- Acho que a sua cintura está apitando.
Uma onda de calor tomou conta do rosto de Santana e ela teve certeza de que devia estar completamente vermelha. Distraidamente, ela puxou o pager do cós da calça que ela usava para ver quem chamava.
- Eu preciso ir, Brittany. Tenho um paciente me esperando.
- Claro. Eu entendo.
Mas o olhar no rosto da loura dizia o contrário. Brittany ainda não tinha entendido muito bem por que, mas ela se sentia protegida ao lado da médica. Segura. Era como se a simples presença da latina fosse capaz de afastar todas as lembranças ruins. Brittany estava perdida, à deriva, e se encontrava cada vez que olhava dentro dos olhos castanhos de Santana. Ela queria estender aquele momento, conversar um pouco mais, aproveitar do contato, mas sabia que não podia exigir nada.
Santana sentiu as emoções que passavam pelos olhos azuis naquele momento. Ela entendia bem, porque as mesmas vontades brincavam em seu coração. Ela não queria sair dali, não queria estourar aquela bolha de conforto que havia sido criada, mas ela estava de plantão e tinha um dever com todos os seus pacientes, não apenas Brittany.
- Eu volto mais tarde, assim que eu conseguir – Santana falava para Brittany e para ela mesma.
- Obrigada.
Com um movimento rápido, Santana desceu da cama e recolocou o pager na cintura da calça. Ela estava ganhando tempo para decidir se devia ceder a sua vontade ou não. E apenas um olhar para Brittany resolveu a questão por elas. A médica deu dois passos em direção à cama e, novamente, envolveu a dançarina em seus braços. Brittany lançou os braços ao redor da cintura delgada da latina e as duas ficaram em silêncio por um momento, aproveitando o calor e as palavras não ditas. Santana plantou um beijo suave no alto da cabeça de Brittany e falou, a boca contra os fios louros:
- Eu prometo que eu volto, tá bom?
A dançarina apenas assentiu com a cabeça e libertou a médica. Os passos de Santana eram lentos. Ela tentava organizar seus pensamentos antes de voltar para o mundo real fora daquele quarto. Ela tinha pacientes esperando e não podia se dar ao luxo de estar pensando em Brittany quando estivesse com eles.
Da porta, ela olhou mais uma vez para a loura, como se precisasse de uma garantia de que ela ficaria bem sozinha. Brittany encarava Santana com uma espécie de calma nos olhos. Contar o que tinha acontecido lhe fizera bem e ela podia, finalmente, deixar o luto começar. Santana começou a girar em direção à porta, quando algo chamou sua atenção e ela se lembrou de uma coisa que tinha percebido na noite anterior, quando examinava Brittany no meio da rua.
- Antes de eu ir, posso fazer só uma pergunta?
A loura se assustou com a pergunta repentina, mas sorriu para a latina. Ela responderia qualquer coisa que Santana perguntasse.
- Claro, Santana. O que você quer saber?
- O que você me contou. Bom, isso explica o corte na sua testa e provavelmente o seu pulso. Mas eu ainda não entendi todos esses hematomas nas suas pernas.
Brittany olhou para as próprias pernas, envergonhada. Por dentro, Santana brigava com ela mesma. Por que ela tinha perguntado aquilo? E por que ela estava reparando tanto nas pernas de Brittany? Ela já começava a ensaiar uma desculpa, quando uma risada ecoou no quarto.
- Isso aqui? Isso não é nada. É que eu sou estabanada quando eu não estou dançando, então eu costumo bater em tudo – ela falou com leveza. E abaixando o tom de voz, como se contasse um segredo, continuou: – Na verdade, eu acho que as cadeiras lá de casa estão armando um complô contra mim. Tem sempre uma no meio do caminho.
Santana não sabia dizer se a garota estava falando sério ou não. O rosto estava sério, mas os olhos tinham um brilho travesso. A médica decidiu que gostava daquele brilho e deixou um sorriso aparecer nos lábios antes de abrir a porta e voltar para o campo de batalha.
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