How To Mend A Broken Heart
35 Capítulo 35
Notas iniciais
- E o que você pretende fazer?
Era a primeira vez que Brittany falava desde que Santana começara a desfiar os acontecimentos desde o seu último plantão. Enquanto as palavras da médica preenchiam o quarto e todos os espaços vazios dentro de Brittany, a loura se limitava a abraçar o corpo pequeno contra o seu. A cada nova volta, ela a apertava um pouco mais forte. A cada tremor, ela beijava a testa morena ou os cabelos negros. A cada falha na sua voz, ela desenhava o relevo da sua coluna.
Mas, agora, Santana havia terminado, sua voz se calado e era a vez das palavras de Brittany ecoarem em seu peito e dentro da outra mulher.
Santana se sentou, as pernas cruzadas sobre a cama. Ela se sentia inquieta demais para permanecer deitada e sufocada demais para ter braços ao seu redor. Ela precisava se perder em olhos escurecidos pelo luar. Sem perceber, ela tomou uma das mãos de Brittany entre as suas e começou a brincar distraidamente com seus dedos sobre seu colo.
- Sobre o meu pai? — ela perguntou e Brittany concordou em meio a um suspiro. — Sinceramente? Nada.
A testa de Brittany franziu e ela se sentou com as costas contra a cabeceira da cama, um espelho da posição de Santana.
-Como assim?
- Não sei, Britt. Acho que eu entendi que a opinião dele não importa. Porque ele nunca fez parte da minha vida. Não de verdade. Ele só conhece a Santana que ele e a minha mãe inventaram.
- San...
- Eu não tô dizendo que eu não tenho culpa nisso, porque eu tenho. Muita, provavelmente. E eu não vou fingir que não dói dizer isso, mas... Eu preciso deixar o meu passado pra trás. Não foi isso que você me disse? Lá no lago?
- Foi, mas o seu pai não é só o seu passado, San. Ele é o seu presente também.
- Não, Britt. Você é o meu presente. Você. — Santana de arrastou pela cama até sua perna tocar a de Brittany. — Pensa desse jeito. Ele já sabe o mais importante. Que eu tenho alguém. Que eu tenho você.
- Será que ele entendeu essa parte? — Brittany a interrompeu. — Você podia estar falando só de uma hipótese.
- Não importa. De qualquer maneira, ele precisa me procurar. Se ele não entendeu, pra entender o que eu quis dizer. E se ele entendeu o que eu disse, ele não deve estar entendendo mais nada. Então, do jeito que eu vejo, o próximo passo é dele.
- Tá bom. E se ele te procurar? O que você vai fazer?
- Eu vou conversar com ele. Explicar. Responder. Mas... — Santana suspira. — Eu não vou mais lutar pela aprovação dele. Chega. Eu cansei. E eu já tenho tudo de que eu preciso bem aqui.
Brittany sorri.
Santana sorri.
Brittany puxa Santana pelo braço até ter a namorada em seu colo. Ela tem coisas demais explodindo dentro dela para não ter Santana o mais perto possível.
A mão de Brittany parece ter vontade própria e ela se perde em cabelos negros, trazendo o rosto de Santana para o seu. Elas inspiram o ar que a outra expira por um momento, olhos grudados, sorrisos largos. É Brittany quem encerra o espaço entre elas, sentindo o gosto de todas as palavras de Santana nos lábios dela. Os braços de Santana se enroscam ao redor do pescoço de Brittany quando suas línguas se encontram, tão sedenta por proximidade quanto a namorada.
- Eu amo você — Santana diz quando elas se separam em busca de ar.
- Eu também amo você, San. E eu tô tão, mas tão orgulhosa de você.
Alguma coisa diferente brilha nos olhos de Brittany assim tão de perto e Santana sente o rubor subindo pelo seu rosto. Ela tenta olhar para baixo, mas Brittany toma o seu queixo entre os dedos e a força a se perder em olhos azuis novamente.
- Não olha assim pra mim, Britt. — A voz de Santana se perde entre uma súplica e um gemido.
- Por quê, San? Eu não tenho motivos pra ter orgulho de você?
- Eu não sei, baby. Eu não acho que eu tenha feito nada assim tão importante.
- Como não? San, você tá tão longe daquela mulher que literalmente fugiu de mim a primeira vez que a gente se beijou, lembra?
- Claro que eu lembro, mas eu não tô tão longe, assim. Só...
- Não? — Brittany pergunta com uma quase risada escondida na voz. — Deixa eu ver... Você cantou pra mim num bar lotado e depois me beijou num estacionamento bem público. Você acabou de conhecer a minha irmã como minha namorada. Você defendeu duas meninas que não tinham mais ninguém que falasse por elas. Você contou para o seu pai. De um jeito meio torto, mas contou. E você só não contou pra Quinn porque ela precisou atender um paciente. Eu acho que eu tenho motivo de sobra pra ter orgulho de você.
O sorriso de Santana aumentava a cada passo que Brittany recordava. Quando ela terminou, Santana temia que o seu rosto pudesse rasgar ao meio. E ela se lembrava de cada um daqueles momentos, mas ela não tinha certeza se eles eram tão significativos assim.
- Não sei, Britt. As vezes isso tudo parece tão pouco.
- Eu vou falar uma coisa que a Holly me disse uma vez. Eu tinha começado a dançar há pouco tempo e ela me levou pra tomar sorvete no dia em que eu dei a minha primeira pirueta completa. Eu não entendi porque ela queria comemorar aquilo, um movimento tão simples, e ela me disse que até as menores vitórias precisam ser celebradas. Não sei porque, mas eu nunca me esqueci disso.
O sorriso de Santana diminuiu e se enterneceu. Ela apoiou a cabeça no ombro de Brittany e deixou que o corpo da outra mulher a sustentasse. Até que um pensamento invadiu sua memória, a fazendo se sentir desconfortável em sua própria pele.
- Por falar em Holly, posso fazer uma pergunta, Britt?
- Claro, San. Qualquer coisa.
- Hoje de manhã, quando eu tava conversando com a Hannah, ela comentou que algumas coisas teriam acontecido com a Holly...
Santana deixou a frase suspensa no ar, incerta sobre como terminar o seu raciocínio. Ela queria saber o que tinha acontecido, conhecer todos os aspectos que tinham formado a personalidade da mulher que ela tanto amava. Mas, ao mesmo tempo, ela temia o que pudesse descobrir. Como se qualquer história que Brittany pudesse contar fosse ter a capacidade de fazê-la dar quatro passos para trás.
- A Holly... Ela foi demitida de uns dois ou três empregos por ser gay. Como se, sei lá, a pessoa que divide a cama dele fizesse dela menos competente. E eu sei que vários amigos se afastaram dela depois que ela saiu do armário.
- Por que você nunca me contou isso? — Santana perguntou pouco além de um suspiro.
- Não sei. Eu não gosto muito de pensar sobre isso. Nem ela. — Santana se virou sobre o colo de Brittany e a encarou com olhos questionadores. — Uma vez eu perguntei pra ela porque ela contava sobre a namorada no trabalho, se isso só fazia com que ela fosse demitida. E ela disse que, se ser gay era motivo pra ser demitida, então era ela que não queria mais trabalhar lá.
- E você também pensa assim.
O tom de Santana não continha nenhuma ponta de dúvida.
- Mais ou menos. O Mike já sabia sobre mim quando ele me convidou. Mas eu não vejo necessidade de me anunciar para todos os meus alunos e os pais deles. A Holly sempre colocou a vida dela num outdoor. Eu não exibo, mas eu também não escondo.
Santana não respondeu. Ela mais uma vez se aninhou no colo de Brittany, pensando e repensando em todas as coisas que elas tinham discutido naquela noite. Parecia que uma eternidade havia se passado desde que elas deixaram Hannah e Wes na rodoviária.
- Acho que é por isso que eu nunca me importei que você não quisesse tornar o nosso relacionamento público. Eu sei que essa é uma decisão delicada e que ela pode trazer mais repercussões do que a gente imagina, às vezes. Principalmente numa cidade como Lima. A nossa vida particular não é da conta de ninguém.
- Sabia que, às vezes, eu invejo a sua certeza? Depois desse fim de semana, parece que eu não sei mais nada.
- Ainda bem que você não precisa tomar nenhuma decisão agora, certo? — Santana abriu a boca para responder quando sentiu o corpo de Brittany deslizando pelo colchão. — O que você precisa é dormir porque você tem plantão amanhã.
- Mas...
Santana estava deitada sobre Brittany, seu torso semi-erguido para olhar dentro de olhos azuis com o cenho franzido. A loura tomou o rosto moreno em uma de suas mãos e beijou a namorada suavemente.
- Dorme, meu amor. Já tá tarde e você não pode resolver nada agora. Deixa isso pra amanhã, vai.
Os sons da respiração compassada de Santana já preenchiam o quarto quando Brittany terminou de falar. Ela apenas sorriu, cobriu o corpo que cobria o seu e se deixou levar pelo cansaço também.
***
De volta à rotina.
As portas automáticas do hospital se abriram para Santana e a médica sentiu como se ela tivesse cruzado aquelas mesmas portas, no sentido contrário, há menos de vinte minutos. Um cansaço pesado se entranhava pelo corpo dela, atravessando seus ossos e correndo em suas veias. O Lima Memorial não é o primeiro hospital em que Santana trabalha, mas é o primeiro em que ela vê sua vida pessoal se misturar tanto com a sua profissional. Até então, Santana sempre usara o jaleco como uma armadura, uma maneira de deixar seus problemas do lado de fora do prédio. Isso não parecia ser mais uma alternativa.
Com um suspiro longo, a médica terminou de se trocar e olhou o relógio preso à parede acima da porta. Ainda faltavam quinze minutos para o início do seu plantão. Antes que a sala dos médicos se enchesse com o barulho da equipe começando mais uma jornada, Santana saiu da sala e caminhou na direção das escadas.
O destino da médica era o terceiro andar. Um leito ocupado no final de uma fileira de outros leitos idênticos na UTI.
Os passos de Santana são rápidos e certos pelos corredores do hospital, mas ela mantém os olhos grudados no chão. Ela sente quase como se estivesse fazendo algo errado, quebrando alguma regra tácita, invadindo um espaço proibido para ela. Se Santana não estivesse tão preocupada com o caminho e em não esbarrar em ninguém, talvez ela se desse conta do quão nervosa ela está.
- Santana!
Uma voz chamando seu nome arranca os olhos da médica do piso semi gasto da UTI. No mesmo lugar em que estivera menos de 48h antes, Santana encontrou o sorriso cansado de Julia e os olhos castanhos abertos de Dani. Essa última parte era uma grata novidade e alguma coisa no peito de Santana se afrouxou e ela pôde inflar seus pulmões com um pouco mais de facilidade. Com um sorriso no rosto, ela venceu a distância até o último leito.
- Bom dia, meninas. Como você está, Dani?
- Louca pra voltar pra casa.
Julia e Santana riram baixinho da resposta e a médica se concentrou nas informações que a miríade de aparelhos registrava. Tudo parecia normal e ela se voltou novamente para a paciente.
— Essa parte ainda deve demorar um pouco, infelizmente. Você parece estar se recuperando bem, mas você acabou de sair de uma grande cirurgia.
- Eu sei, eu sei. O dr. Ziegler falou a mesma coisa, ontem.
- Não liga, não, Santana. Essa daqui parece uma criança mimada quando ela não pode se mexer.
- Não tem problema, eu já tô acostumada. — Santana respondeu pensando em seus anos de carreira e numa certa dançarina loura que ela deixara dormindo naquela manhã. — Fora isso, como você está? Dor? Desconforto?
- Não, nada. Tirando essa cama, tá tudo bem.
- Que bom.
A resposta de Santana morreu num silêncio estranho, que se assomou entre as três mulheres como uma fumaça negra e pesada. Santana não sabia mais o que fazer ali. Ela não era a médica responsável pelo caso, não fora ela a atender Dani quando ela deu entrada no hospital e ela não trabalhava naquele setor — ela nem ao menos conhecia as duas de verdade. Por mais que alguma coisa dentro dela a impulsionasse na direção daquelas duas meninas.
Santana ensaiou uma despedida em silêncio, algo sobre o início do seu plantão, mas Dani foi mais rápida do que ela.
- A Jules me contou o que você fez pela gente, dra. Lopez. E eu queria agradecer. De verdade.
- Não precisa. Eu só...
- É claro que precisa — a jovem interrompeu Santana. — Eu não conheço muitos médicos que viriam, fora do seu plantão, brigar por duas garotas que eles nem conhecem.
- Sendo sincera, eu também não. — O pager de Santana interrompeu a conversa e a médica notou que era chamada na recepção. — Bom, meninas, eu preciso ir. Mas eu fico feliz que você esteja se sentindo bem, Dani. E eu vou tentar dar uma passada aqui mais tarde, tá bem?
As duas namoradas agradeceram em uníssono e Santana voltou-se para a porta. Ela nem bem tinha dado dois passos quando a voz de Dani interrompeu seus movimentos.
- Doutora, antes de você ir, posso fazer uma pergunta? — Santana se aproximou um passo e, sorrindo, assentiu. — Por que? Por que você fez tanta questão de ajudar a gente?
No segundo que Santana demorou a responder, ela pôde sentir tudo: o vazio no seu anelar esquerdo, a aliança pesada contra o seu peito, o modo como braços longos a abraçavam quando ela acordou naquela manhã e o calor do beijo plantado em seus lábios menos de uma hora antes. Em apenas um segundo, Santana entendeu o que Brittany quisera dizer com escolhas e decisões e coragem e orgulho. Olhando para os dois pares de olhos que a encaravam, apenas uma resposta se formou em sua língua.
- Porque podia ter sido comigo.
***
A primeira parte do plantão daquele dia é lenta e compassada. Uma sucessão interminável de acidentes escolares, gargantas inflamadas e os resultados dos excessos do fim de semana. Santana não tem certeza se ela prefere essa simplicidade ou o ritmo enlouquecedor da sexta feira. O que ela sabe é que a morosidade do dia permite que ela almoce num horário mais ou menos normal.
Na lanchonete, sentada à última mesa do canto, Santana encontra Quinn. Mas a outra médica parece saída de um plantão completamente diferente. Seus olhos estão perdidos, sua boca fechada numa linha tensa e um vinco profundo marca a sua testa. Mesmo de longe, Santana consegue ver como ela contrai periodicamente o maxilar, como se apertando os dentes ela pudesse impedir que algo escapasse.
Santana conhece o sentimento.
- Quinn?
- Oi, S. Eu tava mesmo querendo falar com você.
Santana se senta de frente para ela e pensa que a voz da médica soa tão cansada quanto ela aparenta. Quando Quinn não continua, Santana suspira e apóia um dos cotovelos na mesa.
- Fala logo, Q. Aconteceu alguma coisa? Porque eu preciso dizer, você tá péssima.
- Não, não aconteceu nada. E eu agradeço o comentário, Santana. Bastante construtivo. — Quinn responde com os olhos apertados. — O que eu quero é a sua opinião num caso. Mas eu vou esperar a gente descer para explicar. Eu não quero influenciar a sua avaliação.
- Quinn Fabray pedindo por uma segunda opinião? Esse não é o primeiro sinal do apocalipse? Ou seria o segundo?
- Vai à merda, Lopez!
- Ah, não. Esse é o primeiro sinal. — Quando Quinn ergueu uma sobrancelha e se inclinou na cadeira, Santana levantou as mãos em rendição. — Tá bom, tá bom. Parei. Essa consulta... É urgente ou eu posso almoçar?
- Pode comer. Me procura quando você terminar?
- Claro, Q. Assim que eu sair daqui e voltar pro zoológico.
***
Santana terminou seu almoço em relativo silêncio depois que Quinn se retirou. O pager preso ao cós da sua calça não tocou e a médica aproveitou os momentos de calmaria para responder à mensagem que Brittany lhe enviara mais cedo. A loura teria que ficar no estúdio até mais tarde e queria saber se ela podia dormir no apartamento de Santana, já que ele era mais próximo do seu trabalho. Um sorriso involuntário surgiu no rosto da médica ao imaginar chegar em casa e encontrar Brittany dormindo na sua cama. Sua namorada já tinha a chave do seu apartamento há algumas semanas, mas essa seria a primeira vez que ela a usaria completamente sozinha.
Depois de garantir que Brittany tinha acesso livre ao seu apartamento, Santana voltou ao andar da emergência e procurou por Quinn. A outra médica estava terminando um atendimento e, juntas, elas caminharam até um dos leitos mais isolados do andar. Quinn se mantinha em silêncio, seu rosto contorcido na mesma expressão sofrida que Santana encontrara na lanchonete.
O que quer que fosse, Santana sabia que não gostaria do que se escondia atrás daquela cortina.
- E então, Fabray? Qual é o caso? — Santana perguntou assim que elas se aproximaram da maca. — Eu posso ler o prontuário ou ele também vai influenciar a minha avaliação?
Quinn respirou fundo, pegou o prontuário preso ao pé da cama e começou a narrar o caso com o máximo de distanciamento e precisão que ela conseguia reunir.
A paciente em questão era uma mulher de 30 anos, levada ao hospital por uma equipe de paramédicos chamados por seus vizinhos. Ela foi encontrada desacordada, com uma fratura evidente no pulso esquerdo e escoriações espalhadas pelo rosto, torso e membros. Nas radiografias que Quinn lhe mostrou, Santana pôde constatar que ela não apresentava apenas esta fratura. Pelo menos duas de suas costelas também estavam quebradas, assim como o seu osso zigomático.
Analisando as radiografias em mais detalhes, Santana notou um padrão bastante específico na fratura do pulso esquerdo dela. E também marcas que evidenciavam diversas fraturas antigas e já calcificadas. Aquela não era a primeira vez que aquela mulher se encontrava numa posição parecida e isso fez uma acidez quente borbulhar dentro de Santana. Ela detestava casos como esse. Mas ela já havia aqueles mesmos ferimentos vezes demais para sequer duvidar do que pudesse ter acontecido.
Quinn também.
- Eu ainda tô esperando o resultado da tomografia, mas acho que dá pra ter uma idéia.
Santana encara Quinn por um momento antes de se afastar da maca e caminhar até o fim do corredor. A outra médica a segue e ali, sob a luz cinzenta que entra pela janela, Santana consegue enxergar algo que ela nunca vira nos olhos esverdeados da amiga. Temor.
- O que você quer que eu diga, Fabray?
- Eu... Eu quero a sua opinião.
O tom de voz de Quinn fez com que Santana se virasse de onde ela tinha as costas apoiadas na parede. Ela ergueu uma das sobrancelhas, cruzou os braços e deixou seus olhos percorrerem todo o corpo da amiga. Quando ela finalmente respondeu, sua voz era controlada e precisa como os bisturis que ela empunhava.
- Não. Você quer que eu valide a sua opinião. — Santana suspirou e apertou a ponte do nariz entre os dedos. — Olha, Q, nós duas sabemos que há poucas explicações para esses ferimentos e só uma realmente plausível. Agora, eu sei que você detesta esses casos e eu sei também por que. Mas você sabe o que você precisa fazer. Você tem que informar à polícia se você acha que um crime pode ter sido cometido. Simples.
- Eu sei... É que...
- Você não está sendo precipitada, Quinn. — Sua voz assumiu um tom mais brando e segurou a amiga pelo braço. — Assim como você não foi daquela vez. No seu lugar, eu também teria ligado naquela época. E eu já teria ligado agora.
- Eu-eu acho que eu vou esperar pelo resultado dos outros exames.
- Você sabe que eles não vão mudar o quadro, né?
- Provavelmente. Mas eu posso ter esperanças, não posso?
***
O céu de Lima parecia uma colcha negra sobre a cidade quando Santana se encontrou com Quinn novamente. Apesar do ritmo lento daquele plantão, os caminhos das duas médicas não haviam se cruzado até Santana ir buscar o raio-x do seu atendimento mais complicado até aquele momento.
Um pé quebrado. Um mísero pé quebrado havia sido o momento mais emocionante do seu plantão. Era nisso em que a médica pensava ao analisar a imagem da fratura contra a luz do corredor. Uma careta contorceu seu rosto ao se lembrar de inúmeros plantões num dos hospitais mais movimentados do país, de todas as horas que ela passara debruçada sobre livros de referência. Ela sabia que não era exatamente ético desejar um caso grave, mas ela não conseguia evitar uma certa inquietação quando ela não precisava correr de um lado para o outro noite adentro. Ela não tinha estudado tanto para cuidar de narizes escorrendo.
Perdida em seus pensamentos, Santana não percebeu que Quinn avançava em sua direção. Apenas quando ouviu a voz da médica loura tão de perto, ela abaixou o exame e o guardou no envelope que tinha em mãos. Uma ruga vincava a pele entre as sobrancelhas da outra médica e Santana conhecia seu significado.
Quinn ignorava a preocupação estampada nos olhos castanhos que faziam buracos em sua cabeça e continuava falando com o funcionário que distribuía os resultados dos exames de imagem. Suas palavras diziam apenas o necessário, numa voz dura, quase latida. Santana se mantinha imóvel, dois passos atrás dela, enquanto a médica loura abria o grande envelope e analisava os resultados. Apenas quando ela deixou os braços caírem ao lado do corpo, Santana se aproximou.
- Esses são os resultados da tomografia daquela paciente?
O hospital inteiro pareceu cair num silêncio morto quando Quinn se virou e encarou Santana. Os olhos esverdeados da médica antecipavam o resultado no mesmo silêncio em que ela esticou a mão e entregou o exame para Santana.
- Você já fez a ligação? — Santana perguntou depois de analisar os resultados e devolvê-los para Quinn.
- Já. — Quinn respondeu e elas começaram a caminhar na direção da entrada do hospital. — Mas, como ela ainda estava sob efeito de sedativos, eles só devem vir amanhã.
- Talvez seja melhor assim. E você sabe quem tá de plantão amanhã?
- Eu dei uma olhada. Eu devo passar o caso para o Anderson.
- Anderson? — Santana perguntou como se Quinn tivesse respondido em uma língua estrangeira.
Quinn suspirou, balançou a cabeça e deu um meio sorriso.
- Dr. Gravata-borboleta?
- Ah, claro. Por que você não falou logo?
- Uhm, talvez porque esse não seja o nome dele?
- Mas devia ser. Combina.
As duas médicas alcançaram, então, a recepção quase vazia do hospital. Quinn colocou o envelope que ela carregava no balcão para buscar a ficha da sua paciente. Santana ia voltar para o seu pé quebrado quando seus olhos se desviaram para a esquerda. Numa etiqueta colada ao envelope que Quinn deixara ali, impresso em letras negras, o nome Alice Smythe.
***
O nome continua ricocheteando pelo cérebro de Santana durante o restante do seu plantão, como um pedaço de uma música que ela não consegue terminar e nem parar de cantar. Ela tem certeza de que aquele nome deveria causar algum tipo de reação nela, alguma resposta instantânea que seu cérebro cansado não consegue processar. Àquela altura, não passa de ruído branco.
***
A chave gira com um estalo na fechadura e Santana empurra a porta, antecipando o cheiro de café que já se tornou a sua rotina.
Uma careta de incompreensão contorce o rosto moreno quando tudo o que a recepciona é o silêncio e o leve cheiro da tinta que elas usaram no escritório. Santana tem certeza de que Brittany tinha dito que passaria a noite no seu apartamento e se tem uma coisa que parece impossível para a loura é trabalhar na cozinha em silêncio. Mesmo quando ela prepara um sanduíche, Santana sempre pode ouvir uma faca batendo contra a bancada ou a sua namorada murmurando qualquer música que ela tenha ouvido no rádio.
Mas, agora, enquanto ela tira os sapatos ao lado da porta, nem o som dos carros na rua abaixo invade o apartamento.
A diferença entre expectativa e realidade é tão grande que Santana larga a sua bolsa e o casaco em cima do sofá e começa a inspecionar os cômodos vazios. Numa sucessão de sala, cozinha e escritório, tudo o que ela encontra são paredes recém-pintadas e poeira flutuando no ar contra a luz do início da manhã. Seu coração começava a acelerar quando ela notou que a última porta do corredor estava fechada.
Seu quarto. E ela tinha certeza de que a havia deixado aberta antes de ir para o hospital. Santana abre a porta e respira aliviada.
Do lado de dentro, Brittany dorme de bruços; o lado do seu rosto enterrado num dos travesseiros e o outro puxado contra o seu corpo, sob seu braço. (O travesseiro de Santana ocupando o lugar que deveria abrigar o seu corpo.) Um sorriso lento se espalha pelo rosto da médica e algo em seu peito se afrouxa. Ela percebe, ali, que durante todos esses anos, o que a fez trabalhar as horas loucas que ela sempre trabalhou, não foi um amor imenso pela medicina. Não. Foi sempre uma maneira de adiar o momento em que ela chegaria em casa e encontraria a sua cama vazia. Ou ocupada por quem ela não queria.
Isso agora era passado.
Santana se despe em silêncio, seus olhos grudados nas formas de Brittany sob as cobertas. Não tem momento em que ela ache sua namorada mais bonita do que quando ela dorme, quando seus traços assumem uma tranqüilidade quase infantil, como se nada pudesse atingi-la ali.
As roupas sujas da médica são empurradas para um canto do quarto — o cesto de roupas que fica no banheiro parece longe demais — e ela se enfia numa camiseta larga esquecida em cima da poltrona. Quando ela se volta para a cama, o rosto de Brittany está virado para onde Santana está parada. Seus joelhos enfraquecem e ela se afunda na poltrona, admirando os lábios entreabertos, a mão enroscada sob o queixo, o pé que escapa um pouco do colchão, o subir e descer suave do seu peito. O corpo de Santana se divide entre uma vontade de se manter imóvel e contemplar a perfeição diante dela e o desejo de moldar seu corpo ao redor de Brittany e se perder num emaranhado de pernas e braços e cabelos louros.
A decisão é tomada por ela quando olhos azuis piscam preguiçosamente na sua direção.
- San? — A voz de Brittany sai arranhada pelo sono e Santana sorri.
- Ei, baby.
- O que você tá fazendo?
- Nada, só tava olhando você dormir. — Brittany não perde o modo como olhos castanhos se suavizam ao responder.
- E você não prefere dormir comigo?
Brittany não espera pela resposta. Ela empurra o travesseiro de Santana de volta para a cabeceira da cama e levanta a ponta do cobertor. Com um sorriso, Santana abandona a poltrona e se esgueira para debaixo da coberta. No mesmo instante em que ela deita a cabeça, um calor confortável toma conta dela e um peso incrível tenta fechar seus olhos. De repente, Santana se sente exausta. Ela tem certeza de que poderia dormir por dias, bem ali, com Brittany deitada em seu ombro e longas pernas entrelaçadas com as suas.
Brittany.
Que tem uma aula daqui a pouco.
Os olhos de Santana se esbugalham como se fossem fechados por um elástico que se partisse. Ela olha para a garota aninhada no seu peito e, apesar do cansaço e da preocupação, se pergunta como ela teve tanta sorte.
- Hum, Britt?
Nenhuma resposta. Santana tenta novamente e beija sua testa, se demorando um pouco com os lábios contra a sua pele. O movimento arranca um barulho da garganta de Brittany que pode ser um suspiro ou uma resposta. Santana prefere acreditar na segunda opção e continua:
- Você não tem aula hoje? Você já tá atrasada.
- Não. O estúdio tá fechado — Brittany murmura e esconde o rosto na curva do pescoço de Santana.
A médica até pensa em perguntar mais coisas, descobrir o que aconteceu e até quando o estúdio ficará fechado. Mas a respiração ritmada contra a sua pele denuncia que Brittany já voltou a dormir e a médica se lembra de que ela também precisa fazer o mesmo. Ela puxa o corpo da namorada contra o seu e se ajeita melhor sobre os travesseiros, aproveitando o raro momento em que ela pode ter Brittany em seus braços sem nenhum despertador programado.
Antes de se entregar completamente ao sono, um último pensamento flutua na mente de Santana: Alice Smythe.
Notas finais
Até o capítulo 36 e, se eu demorar demais, podem gritar na minha caixa de mensagem! É sempre um bom incentivo para voltar...
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