How To Mend A Broken Heart
36 Capítulo 36
Notas iniciais
O sol ainda não tinha alcançado o meio do céu quando Santana estacionou o carro. A rua residencial estava em silêncio; as crianças, na escola, pais trabalhando e algumas mães guardando brinquedos esquecidos nos gramados. Uma rotina conhecida e que poderia ter sido a sua se ela não tivesse fugido.
A casa à sua esquerda era comum. Não era a maior da rua nem a menor. Tinha as paredes pintadas de azul e uma porta branca ao final de um caminho de pedras. O jardim bem cuidado, salpicado por alguns brinquedos. Uma bicicleta com rodinhas encostada na parede lateral da casa. Era tudo incrivelmente familiar para a médica que havia crescido numa casa como aquela. E, no entanto, a cena lhe parecia estrangeira, como se ela não pertencesse mais àquela realidade.
Talvez ela nunca tenha pertencido.
Pela décima vez desde que estacionara o carro, Santana se perguntou por que não aceitara a oferta de Brittany de ir com ela. Teria sido bom olhar em seus olhos azuis naquele momento, apertar dedos longos entre os seus, abraçar-lhe o pescoço e inalar o cheiro que já parecia fazer parte dos seus pulmões. Teria sido bom ter Brittany ali, mas Santana sabia que precisava fazer aquilo sozinha. Era algo que ela devia a ela mesma, ao seu passado e, principalmente, ao seu futuro.
Com passos que denunciavam uma confiança que ela não tinha, Santana atravessou o caminho de pedras cinza e tocou a campainha. Um frio subia e descia por sua espinha e ela podia sentir a sua respiração acelerando e a sua garganta se fechando ao redor do ar que ela inspirava. Santana não precisava dos seus anos de treinamento para saber que estava nervosa.
Quando ela ouviu o trinco girando na fechadura, a médica respirou fundo e colocou os óculos escuros no alto da cabeça. Se ela ia fazer aquilo, seria com o máximo de confiança que ela conseguisse fingir.
Do outro lado da porta, olhos verdes se arregalaram ao vê-la parada ali.
- Santana?
- Você queria conversar. Eu vim conversar.
***
As duas mulheres se sentaram frente a frente, se encarando sobre a mesa de centro. Santana ocupava uma das poltronas, numa tentativa clara de colocar o máximo de distância entre elas. Laura sorriu com tristeza para a outra mulher quando ocupou o sofá a sua frente.
Santana se mantinha rígida na almofada macia demais e deixava seus olhos deslizarem por todas as superfícies da sala. Ela estudava cada detalhe do cômodo como estudava cada detalhe das fichas dos seus pacientes; cada coisa, a resposta para uma pergunta que ela não havia feito.
- Você quer beber alguma coisa, Tana? – Laura perguntou depois de um longo silêncio desconfortável.
- É Santana pra você. E não, eu não quero nada. Essa não é uma visita social.
Laura engoliu a resposta a seco. Não tanto pelas palavras, mas pelo tom. Santana a encarava como se ela fosse uma estranha e ela começava a se sentir incomodada sob aqueles olhos castanhos que ela conhecia tão bem.
- Muito bem. Sobre o que você quer conversar?
- Nós duas sabemos sobre o que eu quero conversar, mas se você quer se fazer de idiota, tudo bem. Eu explico. Eu quero saber por que você fez o que você fez.
- Que diferença isso faz agora, Santana? Isso ficou no passado. Eu segui com a minha vida e você seguiu com a sua. No final deu tudo certo, não deu?
- Não, não deu tudo certo, Laura – Santana sibilou entre dentes.
- Como não? Nós nos formamos, nos casamos. Você conseguiu sair de Lima, virou a médica que você sempre quis ser. Eu não vejo nada de errado com isso.
- É claro que você não vê nada de errado. Você conseguiu a vida de comercial de margarina que você sempre quis, não é? – Santana perguntou encarando uma foto em que Laura aparecia sorridente ao lado de um homem alto e com um menino de uns dois anos no colo.
- Você também, Santana. Eu me lembro da sua mãe se gabando do genro político dela. Uma pena que ele morreu tão novo.
- Como é que você pode ser tão fria? O que aconteceu com você?
- Eu cresci.
- Você mudou.
- É o que as pessoas fazem, Santana. Ou você vai me dizer que você ainda é a mesma menina que eu conheci?
- Nem todas viram outras pessoas. – Santana inspirou fundo e deixou o ar escapar por entre seus lábios. – Mas, você ainda não respondeu à minha pergunta. Por que você me ameaçou daquele jeito?
- Eu não sei, Santana! Eu era uma criança. Eu não tinha a menor ideia do que eu tava fazendo.
- Você era a minha melhor amiga, Laura. Caralho, você era a minha namorada.
- Fala baixo, Santana. – A voz de Laura era baixa e Santana podia ver um brilho estranho por trás dos olhos verdes dela. – E eu tava com medo, tá legal? É isso que você quer ouvir? Então lá vai, eu tava morrendo de medo.
As duas mulheres respiravam pesadamente, seus músculos tesos e os olhos grudados na pessoa do outro lado da sala.
- Medo, Laura? Medo do quê? Seus pais sempre foram liberais. Você nunca teve dúvida de que eles te aceitariam. Você tinha medo do quê?
- De perder você, Santana. Eu tinha medo de perder você.
- Como é que é?
Santana estava de pé, agora, caminhando atrás da poltrona. Ela tinha os olhos apertados e uma das mãos enterradas nos cabelos. Quando Laura voltou a falar, Santana se apoiou no encosto do assento e encarou a mulher que a adolescente que ela amara tinha se tornado.
- Eu achei que se a gente continuasse em segredo, você ia acabar cansando de mim. Ou que você ia ter que namorar um garoto pra disfarçar.
- Então você tentou me forçar para fora do armário porque você estava insegura. – O tom de voz de Santana era de descrença e ela encarava Laura como se nunca a houvesse visto na vida. – Mesmo conhecendo a minha mãe...
- E eu achei que passar por essas experiências logo poderia unir a gente. Não sei. Como se fosse uma prova de que a gente poderia encarar qualquer coisa.
- Essa é a coisa mais absurda que eu já ouvi em toda a minha vida. Você sabe o que a minha mãe disse pra mim, no dia em que eu tentei contar pra ela? – Laura apenas balançou a cabeça que não e Santana continuou: — Ela me disse que se ela tivesse uma filha pervertida ela me colocaria para fora de casa.
- Eu... eu não sabia, Santana.
- É claro que você não sabia. Você nem me deu chance de explicar nada. Você simplesmente me abandonou. Quando eu mais precisei da minha melhor amiga, você me deu as costas.
Olhos castanhos estavam boiando em lágrimas. Há muito aquelas palavras estavam presas em sua garganta e Santana sentia alívio em finalmente dizê-las.
- Eu sei, Santana. E eu sinto muito. Quando eu percebi que o que eu pretendia não ia dar certo, eu tentei me reaproximar de você. Eu tentei explicar, mas você nunca quis me ouvir.
- Ah, quer dizer então que agora a culpa é minha?
- Não! Não foi isso que eu disse. – Laura baixou os olhos antes de continuar. – Eu queria me desculpar, voltar a ser sua amiga. Eu via você se destruindo e eu sabia que a culpa era minha, que eu tinha causado aquilo.
- Ainda bem que você sabia.
Um silêncio pesado se instalou entre elas, cheio de erros e rancores. Santana encarava um quadro na parede e tentava dar sentido ao que ela acabava de ouvir. Por tanto tempo, ela se perguntara as razões de Laura, ela tentara entender o que teria acontecer naquele último ano de colégio, mas a realidade era muito pior do que qualquer cenário que ela pudesse ter inventado. Era difícil acreditar que uma pessoa que dizia amá-la tanto pudesse ter sido tão mesquinha, tão inconseqüente.
- Eu sinto muito, Santana. – Laura interrompeu o silêncio e elas voltaram a se encarar. – Eu sei que isso não muda nada, mas eu queria que você soubesse que eu sinto muito. De verdade.
- Você tem razão. Não muda nada. – Santana se levantou, recolocou a bolsa no ombro e caminhou até a entrada. – Mas, talvez, se você não tivesse feito o que você fez, eu não tivesse encontrado quem eu encontrei.
***
Santana dirigiu a esmo por um tempo, as palavras trocadas com Laura ainda ecoando em seus ouvidos. Ela não tinha certeza do que ela esperava ouvir ao procurar a outra mulher, mas escutar os motivos que a sua ex-namorada tivera tinha sido mais difícil do que ela imaginava. E agora a médica pensava em como as coisas poderiam ter sido diferentes, se ao menos elas tivessem conversado, se ao menos Laura tivesse lhe dado mais tempo. Elas poderiam ter saído de Lima juntas, ido para a faculdade e, quem sabe, Santana teria encontrado coragem para revelar aos pais quem ela realmente é. Quanto sofrimento não teria sido poupado.
Mas tudo diferente significa tudo diferente. E, para a médica, isso representaria não ter feito as escolhas que a levaram a encontrar Brittany. Ela não teria se casado com Rafael, não teria ficado viúva, não teria voltado para a cidade em que nasceu, não teria encontrado a loura no momento em que ela mais precisava. E, mesmo que ela ainda não conseguisse assumir seu amor por Brittany publicamente, mesmo que ela ainda usasse uma armadura para se proteger da rejeição, mesmo que ela ainda sentisse vergonha de quem ela tinha sido e do que ela tinha feito, Santana sabia que tudo isso a tinha conduzido até Brittany. A médica nunca tinha sido pessoa de acreditar em destino, almas-gêmeas ou coisa parecida. Ela sempre preferiu pensar em coisas como livre-arbítrio e força de vontade. Mas, naquele momento, estacionando o carro em frente ao prédio da namorada, Santana começou a se questionar se não haveria, mesmo, alguma coisa maior, alguma coisa que a moldara e a atraíra até àquele lugar. Até o seu lugar.
A porta do apartamento de Brittany cedeu com facilidade e Santana encontrou a namorada sentada no sofá. A televisão estava ligada, mas olhos azuis estavam concentrados no celular em seu colo. Ela nem ao menos levantou o olhar quando Santana abriu a porta.
- B? Tá tudo bem? – Santana perguntou se sentando na ponta do sofá.
- Oi, amor. Tá, tá tudo bem, sim. Como é que foi lá com a Laura?
Santana demorou alguns segundos para responder, analisando a postura da namorada. Ela estava rígida contra o encosto, olhos perdidos e uma tentativa de sorriso que Santana sabia ser só para não preocupá-la. Ela nunca tinha visto Brittany daquele jeito desde a noite em que se conheceram, tão desconectada do mundo, e tudo o que ela queria era perguntar o que tinha acontecido e descobrir como ela poderia melhorar tudo. Mas, se tinha uma coisa que ela tentava aprender com a loura, era sutileza.
- Foi... foi esclarecedor. – Santana suspirou e se acomodou melhor no sofá. – Eu não sei bem o que eu tava esperando dessa conversa, mas eu entendi algumas coisas.
- É?
- É. Eu ainda não to pronta para perdoar ela ou qualquer coisa parecida, mas foi bom ter ido. Ainda bem que você me convenceu.
A resposta de Brittany foi um aceno de cabeça apenas. A apatia dela começava a pesar no estômago de Santana.
- Esperando uma ligação? – Santana perguntou indicando o telefone no colo de Brittany.
- Ah, não. A minha mãe ligou mais cedo.
- E tá tudo bem por lá? – A voz de Santana era incerta, como se ela não conhecesse o caminho em que pisava.
- Tá, tá sim. Ela só queria conversar, mesmo.
Brittany respondeu sem olhar Santana nos olhos e voltou sua atenção para a televisão sintonizada num canal de televendas. A médica suspirou e tentou pensar numa maneira de saber o que estava acontecendo, detestando rever uma versão de Brittany semelhante a que ela tinha encontrado numa rua deserta tantos meses atrás.
- Ok, Britt. O que foi que aconteceu? – Santana perguntou no que ela esperava que não fosse uma voz ríspida demais.
O apartamento caiu num silêncio incômodo depois da pergunta de Santana. Brittany ergueu o rosto, olhos arregalados implorando que a namorada não a questionasse, mas Santana não podia desdizer a pergunta que pairava no ar entre elas, pesada como suas respirações.
- Do... do que você tá falando, San? – A voz de Brittany saía estrangulada da garganta, esganiçada enquanto ela tentava ganhar tempo.
- Da sua cara. De você mal me olhar nos olhos. De eu estar sentada do seu lado há mais de cinco minutos e você ainda não ter me dado nenhum beijo.
Uma ruga de culpa vincou a testa de Brittany quando ela se inclinou pelo sofá para alcançar Santana. Ela tomou o rosto da namorada em uma das mãos e colou seus lábios num beijo com um pouco mais de força do que o habitual para boas vindas. Não era um beijo profundo, mas Santana sentia certo desespero por trás dele, como se Brittany estivesse pedindo que ela a apanhasse.
- Desculpa – Brittany murmurou contra a boca de Santana.
- Tá tudo bem. – Santana ajeitou alguns fios de cabelo louro atrás da orelha da namorada e a beijou mais uma vez. – Agora vem cá.
Todas as vezes em que Santana se sentia flutuando, sem controle ou gravidade aterrando seu corpo, ter o máximo de Brittany ao redor dela sempre a fizera se sentir reconectada com a realidade. Por isso, quando olhos azuis pareciam denunciar a mesma falta de peso, Santana se reclinou no braço do sofá e puxou Brittany para o espaço entra as suas pernas, abraçando-a com todo o corpo.
Um suspiro escapou de lábios finos quando Brittany se aninhou contra o calor de Santana. Ela tinha a cabeça apoiada no ombro moreno e o corpo enrodilhado numa pequena bola sobre a namorada. Os lábios de Santana estavam grudados na testa de Brittany e as mãos dela procuravam cegamente as da namorada.
- Eu não posso te ajudar se você não me disser o que houve – Santana murmurou contra a pele clara, como que querendo gravar, ali, as suas palavras.
- É o que eu já falei, San. A minha mãe me ligou mais cedo.
- Tá. E o que ela queria? – Quando Brittany abriu a boca para responder, Santana emendou: — De verdade.
Brittany suspirou longamente antes de responder.
- Ela queria saber quando eu vou voltar para Chicago.
- O quê?!
O cérebro de Santana entrou em curto circuito naquele momento. Ela nunca havia considerado a possibilidade de não ter Brittany, de não morar na mesma cidade que a loura. Não quando ela tinha sido a razão para Santana ficar em Lima. Mas ela também sabia que elas nunca haviam conversado sobre o futuro, sobre o que as esperava mais para frente. Desde o início, a rotina delas sempre foi composta pelo imediato e, agora, Santana se perguntava se isso não teria sido um erro.
- Lembra quando eu disse que a minha mãe não ficou feliz com a minha vinda para cá? Então, ela acha que eu tô desperdiçando o meu talento dando aulas numa cidade pequena como Lima. – Brittany falava com uma voz pequena, sem encarar Santana. – Às vezes, eu acho que ela gostava de poder se gabar de ter uma filha dançarina internacional.
- E é isso o que você quer, Britt? Voltar pros palcos? – Santana tentava manter sua voz neutra. Tanto do seu relacionamento parecia depender da próxima resposta.
- Não. Eu já tava ficando cansada daquela vida quando o Mike me convidou. O fim do meu namoro foi só uma desculpa. Parecia a hora certa e eu sempre soube que eu ia gostar de dar aulas. E agora eu tenho tudo que eu preciso bem aqui.
- Que bom, meu amor. Mas... se você tá tão certa de que essa é a melhor vida pra você, por que essa conversa com a sua mãe te deixou tão chateada?
- Nunca é bom saber que a sua mãe considera a vida que você escolheu um fracasso.
As palavras de Brittany atravessaram Santana como uma corrente elétrica. Ela conhecia bem a sensação de nunca ser boa o suficiente, de nunca conseguir atingir expectativas injustas. Ela ainda podia se lembrar da maneira como a mãe a olhava, do tom de voz que parecia ser reservado apenas para a filha, dos ataques nem sempre sutis às escolhas que ela fazia.
Santana apertou o corpo de Brittany com mais força contra o seu, tentando imaginar uma maneira de aliviar a tristeza que ela podia sentir emanando da loura sentada dentro do seu abraço. Quando uma fungada triste entrou em seus ouvidos, Santana se lembrou de algo que chamara sua atenção numa das primeiras vezes em que ela estivera no apartamento.
Com alguma dificuldade, Santana afrouxou seu abraço em Brittany e ergueu o corpo para se sentar no braço do sofá. Quando a loura se virou, Santana apenas sorriu, se levantou e estendeu a mão para a namorada.
- Vem cá. Eu quero te mostrar uma coisa.
Ainda com os olhos boiando em lágrimas, Brittany tomou a mão que lhe era oferecida. Santana podia sentir o peso com que a mulher atrás dela andava. Era como se toda a leveza que Santana associava com a namorada tivesse sido sugada de dentro dela e substituída por uma capa de chumbo que a impedia de sequer tirar os pés do chão.
- O que você quer me mostrar, amor? – Brittany perguntou quando notou que Santana a conduzia para a cozinha.
- Isso!
O tom de voz de Santana era triunfante. Ela posicionou Brittany de frente para a geladeira e ficou de pé a seu lado, esperando que ela entendesse. A loura encarava o aparelho velho sem realmente enxergá-lo, voltando a encarar a namorada a cada poucos segundos. O tempo se arrastava sem que Brittany alcançasse o raciocínio de Santana.
- Eu não to entendendo.
Santana deu um meio sorriso, apertou os dedos de Brittany entre os seus e se voltou para a geladeira. Ela se demorou um pouco, analisando os imãs e os papéis presos à porta, até retirar um papel ofício de debaixo de um dos imãs e voltar para o lado de Brittany. A dançarina apenas encarou o papel que Santana segurava com olhos apertados.
- Essa pessoa não é um fracasso.
A sinceridade que cobria as palavras de Santana fez com que Brittany erguesse os olhos. A médica sorria e algumas lágrimas se acumulavam nos cantos dos seus olhos castanhos. Ela estendeu a mão mais uma vez e Brittany aceitou o papel que Santana oferecia.
Um enorme sorriso tomou conta do rosto de Brittany quando ela reconheceu o desenho que uma de suas alunas fizera para ela quando ela não pôde dar aulas por conta do pulso imobilizado. Erguendo os olhos, ela encontrou quase uma dezena de desenhos como aquele – traços infantis quase sempre retratando uma mulher loura cercada por crianças. Em todas aquelas imagens, Brittany sorria.
- Você não é um fracasso, baby – Santana sussurrou contra o ouvido de Brittany, abraçando-a por trás. – Eu te vi dando aula e é como se você simplesmente... brilhasse.
- San...
- Eu cresci em Lima – a médica ignorou a interrupção. – Eu sei que várias daquelas crianças não vão ter a chance de sair do estado, algumas não vão sequer sair da cidade. Mas, quando elas estão na sua sala, elas se sentem especiais. Você faz com que elas se sintam especiais. Você as ensina a sonhar, Britt. E isso é... Isso é incrível.
Lágrimas grossas rolavam por bochechas claras enquanto ela ouvia as palavras de Santana. Brittany estava acostumada a ouvir elogios a sua técnica, a seus movimentos, a sua precisão e não a sua capacidade como professora, à maneira como ela conseguia se conectar com os seus alunos. Era algo que ela amava fazer mais do que dançar nos palcos mais prestigiados do mundo e Santana fora a primeira pessoa a notar.
- Obrigada, meu amor. – Brittany se virou nos braços de Santana e a beijou antes de enlaçá-la pelo pescoço. – Acho que eu precisava ouvir isso.
- Você faz com que todo mundo ao seu redor se sinta especial, Britt. É a coisa mais linda sobre você.
- Eu te amo tanto nesse momento.
- Eu também te amo. Muito.
- Então quer dizer que você não se importa de namorar uma simples professora de dança? – Brittany se afastou do corpo de Santana para perguntar e, apesar do tom brincalhão que a médica podia ouvir em sua voz, ela também conseguia enxergar que a namorada esperava sua resposta com respiração suspensa.
- Foi por ela que eu me apaixonei.
***
Depois de uma manhã tensa como aquela, com conversas complicadas para as duas e nervos expostos, Santana decidiu levar Brittany para almoçar fora. Ela só queria ver gente e esquecer que havia pessoas que machucavam as outras de propósito e que mediam a vida alheia pelos seus parâmetros. Ela só queria colocar a namorada numa redoma e proteger a sua maneira de enxergar o mundo.
E como Santana faria qualquer coisa para colocar um sorriso no rosto de Brittany, ela se viu dirigindo na direção do restaurante preferido dela. (Santana nunca admitiria em voz alta para ninguém além de Brittany, mas ela tinha um carinho especial pelo lugar. Talvez fossem as lembranças. Talvez fosse a companhia.)
- Você se importa se eu der um pulo no estúdio depois do almoço? – Brittany perguntou depois que o garçom se afastou da mesa. – O Mike ia acompanhar o trabalho dos encanadores e eu quero ver se ele precisa de ajuda.
- Claro que não, Britt. A gente passa lá depois.
Hesitação. Era a única palavra que Santana conseguia encontrar para definir a reação de Brittany naquele momento. Ela piscava devagar os olhos um pouco arregalados e desfocados, e era possível ver que sua respiração tinha ficado presa em algum lugar entre seus pulmões e seus lábios.
- Não precisa, San. – Sua voz era mais aguda quando ela finalmente respondeu. – Quer dizer, é a sua folga e o estúdio deve estar uma bagunça.
- Eu não me importo. Eu prefiro ficar com você aqui a ficar sozinha no meu apartamento.
Um sorriso triste apareceu no rosto de Brittany e Santana achou que, talvez, a conversa daquela manhã ainda não tivesse sido esquecida por ela.
- Britt, se você não quiser que eu fique, se você quiser conversar com o Mike, não tem problema. Você pode me dizer.
- Não é isso, San. É só que... – Brittany se apressou em dizer. Antes de continuar, ela inspirou fundo e olhou ao redor da mesa que elas ocupavam. – Lembra que eu falei que o Mike estava desconfiado sobre a gente?
- Claro que eu lembro.
- Então, na última semana ele tentou me apresentar pra um amigo dele. Com a minha irmã aqui e com tudo o que tava acontecendo no hospital, eu não quis te falar nada. Mas eu disse que não, é claro. – Brittany disse a última frase apressada, como que temendo que Santana tivesse a ideia errada sobre aquela conversa. – Eu já tenho uma médica linda e sexy como minha namorada.
- Eu agradeço os elogios, Britt, mas eu não to entendendo aonde você quer chegar.
- Eu conheço o Mike. Se eu chegar com você no estúdio, no meio do dia, depois de dizer que eu não queria conhecer ninguém, eu sei que ele vai ter certeza de que a gente está namorando.
- E como você acha que ele reagiria? – A voz de Santana era trêmula e ela mantinha os olhos grudados no tampo da mesa.
- O Mike? Ele ia ficar eufórico. – Santana encontrou os olhos de Brittany e sorriu de leve. – Ele gosta de você e ele vem me pentelhando desde que eu me mudei pra cá pra eu conhecer alguém.
Santana deixou que as palavras de Brittany fossem absorvidas por sua pele até se tornarem parte dela. Era especial demais que Brittany se preocupasse tanto com o seu conforto, escondendo uma coisa que, em outras circunstâncias, ela já teria espalhado aos quatro ventos. Mas Santana sabia que não era justo pedir isso de Brittany quando ela mesma já tinha quase contado para Quinn.
- Talvez não seja uma ideia tão ruim assim, que ele saiba. – Os olhos de Brittany se esbugalharam diante da resposta e Santana deu uma risada pequena. – Quer dizer, deu tudo certo com a Hannah, né?
- Deu, claro que deu. Mas... você tem certeza? Você sabe que eu não preciso disso, né?
- Eu sei, baby. E eu te amo por isso. Mas, se eu quase contei pra a Quinn, por que não contar pro Mike? Ele é seu amigo e eu sei que você confia nele.
- Obrigada.
Um sorriso suave se espalhou pelos lábios de Santana e ela agradeceu em silêncio pelo restaurante vazio e pela mesa de canto que elas ocupavam. Ali, ela tinha certeza de que ninguém teria ouvido suas vozes quase sussurradas ou visto as pontas dos seus dedos se tocando num dos lados da mesa. Era quase como se não houvesse mais medo.
- Não precisa me agradecer, Britt. Eu só to fazendo isso porque eu sou muito egoísta. – Brittany arqueou uma sobrancelha e Santana lhe lançou um sorriso torto. – Eu só não quero mais o Mike tentando te apresentar ninguém.
***
O problema que Brittany encontrou no estúdio foi muito maior do que o que ela deixara para trás. Na noite anterior, quando ela foi embora depois de ligar para os todos os alunos do dia seguinte, o vazamento estava confinado ao banheiro dos alunos. Mas, agora, o estúdio parecia uma zona de guerra.
Da porta, elas podiam ver que uma boa parte de duas paredes do banheiro estava esburacada, os canos aparentes, e os entulhos resultantes se acumulavam num canto da recepção. Uma toalha dobrada fora colocada na porta do banheiro para conter a água que vazara e o som das marretas abafava as duas vozes que elas podiam ouvir do outro lado da parede.
- Mike? – Brittany chamou, avançando na direção dos barulhos.
Alguns segundos depois, o dono do estúdio apareceu na porta aberta. Ele tinha um traço escuro ao longo da testa, os joelhos da calça jeans estavam sujos e a camiseta vermelha que ele vestia parecia encharcada. Um cansaço pesava em suas feições e Brittany achou que algo mais se escondia por trás dos seus olhos. Ela o conhecia bem o suficiente para saber quando ele estava realmente preocupado.
- Britt? O que você tá fazendo aqui?
- Eu tava almoçando com a Santana aqui perto e vim ver se você precisa de ajuda.
- Oh. – A voz dele parecia distante e Brittany franziu o cenho. – Eu não tinha visto você, Santana. Tudo bem?
- Tudo, Mike. E você?
- Tudo sob controle.
- Você já almoçou, Mike? – Brittany redirecionou a conversa, ouvindo a mentira no tom de voz do amigo.
- Não. Eu não quis deixar os encanadores aqui, sozinhos.
- Por que você não vai, então? Eu e a Santana ficamos aqui.
Brittany e Santana trocaram um olhar e a médica concordou sutilmente. Ela também conseguia ver que o homem estava sobrecarregado. Mas, então, ela o notou encarando suas roupas arruinadas.
- Se você preferir, Mike, eu posso comprar alguma coisa aqui no restaurante do lado.
A oferta recebeu um aceno aliviado de Mike e um sorriso agradecido de Brittany.
O dono do restaurante estranhou quando Santana voltou tão rápido depois de ter almoçado lá. Ela explicou o que aconteceu no estúdio e o homem lamentou por Brittany e Mike, que se tornaram seus amigos nos últimos meses. Principalmente depois do que acontecera com Sara, todos que trabalhavam no quarteirão acabaram se aproximando. Até tragédias podem ter lados positivos.
Meia hora depois, Santana voltava para o estúdio com uma refeição para Mike, sanduiches para os encanadores, três latas de refrigerantes e várias garrafas d’água – as últimas, cortesia do dono do restaurante.
A situação dentro do estúdio não parecia muito melhor, mas quando a médica encontrou os dois professores sentados no chão num canto da recepção, ela percebeu que um pouco do pânico que ela vira nos olhos escuros parecia ter diminuído. Não que isso a tenha surpreendido; ela conhecia, em primeira mão, os poderes curadores de uma conversa com Brittany.
Mike aceitou as sacolas que Santana estendeu em sua direção com um sorriso e se levantou para levar a comida para os encanadores e verificar o andamento do trabalho. Santana pescou uma garrafa d’água antes de ele se afastar e se sentou no chão ao lado de Brittany. Sem pensar sobre o que estava fazendo, ela tomou uma mão clara na sua e entrelaçou seus dedos.
- Como ele está?
- Preocupado – Brittany respondeu numa voz baixa e encostou a cabeça na parede para encarar Santana. – O problema é maior do que parecia.
- Como assim?
- Pelo que os encanadores falaram, o encanamento está velho demais e precisa ser trocado. Todo ele.
- E isso precisa ser feito de uma vez? – Santana tentava se manter racional. Ela sabia que, dos três, ela era quem tinha melhores condições para isso.
- É o ideal. Esse banheiro não pode esperar. Mas o encanamento do outro também está ruim e um vazamento lá pode comprometer o piso das salas. E sem isso a gente não consegue funcionar.
- Puta que pariu!
- Exatamente. E eu não sei como ele vai fazer para pagar.
- Por quê?
Brittany respirou fundo antes de responder.
- Ele mandou instalar um sistema de alarme novo depois do que aconteceu com a Sara e ele ainda tá pagando uma reforma recente.
- E vai ficar tão caro assim? – Santana tinha uma expressão concentrada no rosto. Ela não entendia nada sobre encanamentos ou reformas, ela sempre teve quem resolvesse isso por ela, mas ela estava disposta a aprender.
- Depende. Se a gente não quiser ficar fechado por muito tempo, ele vai ter que pedir urgência, o que significa um custo maior. E, se ele não quiser pagar tanto pela obra, a gente vai ficar fechado por mais tempo.
- E aí vocês não recebem.
- Isso.
- E não tem como funcionar durante a obra?
- Não. A gente vai ficar sem água, não tem como ouvir as músicas direito com essas marretas e a gente tem vários alunos pequenos. Pode ser perigoso para eles.
Brittany encostou a cabeça no ombro de Santana e suspirou. Ela tinha feito aquelas mesmas perguntas para Mike e eles não tinham conseguido encontrar nenhuma solução viável que significasse continuar com o estúdio funcionando sem aumentar as mensalidades e sem demitir a única recepcionista que eles tinham. Brittany sabia o quanto ela precisava daquele emprego.
- E se eu dissesse que eu posso ajudar? – Santana perguntou depois de algum tempo de silêncio. Ela tinha tido uma ideia que ela realmente esperava que Brittany aceitasse.
- Você já tá ajudando, San. Você tá aqui.
- Eu tô falando sério, Britt.
Santana se virou sobre o chão, encarando Brittany. Ela tinha um brilho diferente nos olhos castanhos, como se ela tivesse encontrado a cura para algum mal da humanidade. Brittany podia ver que ela estava lutando para conter um sorriso e manter o rosto sério, mas a loura não conteve o seu mesmo antes de ouvir o que a namorada tinha a dizer. Ela amava essa versão de Santana; doce, preocupada, afetuosa. Era por ela que Brittany tinha se apaixonado.
- Eu posso emprestar o dinheiro pro Mike arrumar tudo logo.
- Como, San? Você nem perguntou quanto ele precisa.
Diante da pergunta de Brittany, Santana baixou os olhos. Ela esperava não ter que voltar a discutir certos assuntos que sempre machucavam um pouco, mas era o emprego de Brittany que podia estar em jogo.
- A família do Rafa tem dinheiro e, quando ele morreu, eu era a única herdeira dele. – Santana deu de ombros e encarou novamente a namorada. – Você nunca se perguntou como eu fiz para morar num hotel por tanto tempo?
- Verdade. Mas o Mike não vai aceitar. Ele é orgulhoso demais pra isso.
- E se o empréstimo viesse de você?
- Nem assim, San. – Brittany sorriu e beijou as costas da mão de Santana. – Eu agradeço, de verdade, mas eu conheço o Mike. Ou ele paga por tudo ou nada feito.
Brittany teve certeza de que nunca amara ninguém como ela amava Santana naquele momento, vendo o rosto da médica se contorcer numa expressão de concentração, tentando encontrar uma solução para um problema que não era dela. Depois de tanto tempo cuidando de si mesma sozinha, era boa a sensação de ter alguém cuidando dela.
- E se não fosse um empréstimo, mas um investimento? – Santana perguntou de repente, erguendo o rosto e encontrando olhos azuis curiosos.
- Como assim, amor? – Brittany ficou feliz quando viu que Santana não vacilou diante do termo.
- Você paga pela reforma e o Mike te transforma em sócia.
- San! Não, não, não. – Cabelos louros balançavam enquanto Brittany sacudia a cabeça. – Eu não posso aceitar, San. O dinheiro é seu e... e a gente vai dar um jeito. A gente vai pensar em alguma coisa. Eu e o Mike, a gente só precisa de um tempo para pensar numa solução.
- Mas, Britt, essa é a melhor solução!
- Como, San? O dinheiro é seu e isso aqui é problema meu. Na verdade, é problema do Mike.
- Britt, pensa comigo – Santana voltou a falar com sua voz mais suave. – Eu tenho o dinheiro e pra mim não vai fazer diferença se ele está na minha conta ou aqui. E, desse jeito, o problema do estúdio é resolvido logo e a sua mãe para de tentar se intrometer na sua vida.
- Se eu for sócia, ela vai entender que eu não quero voltar a dançar e que eu quero ficar em Lima... – Brittany completou lentamente, numa voz distante, com se a imagem de um quebra-cabeça estivesse se formando a sua frente.
- Exatamente!
Brittany ergueu os olhos e encontrou um sorriso escancarado e um castanho brilhante a encarando. Ela ainda não estava convencida de que deveria aceitar a oferta de Santana, mas ela não podia negar que a ideia de não ter que lidar com os ataques sutis de sua mãe era tentadora.
- Eu não sei, San...
- Não responde agora. Eu sei que é uma decisão importante. Pensa com calma, conversa com o Mike, vê se ele topa e depois você me fala. Sem pressão.
- Tá bom, eu prometo que eu vou pensar. Mas você tem que me prometer que vai me deixar te pagar de volta se eu aceitar.
- Eu acho que a gente pode pensar em alguma coisa.
E o sorriso travesso que Brittany encontrou no rosto da namorada deixou claro de que elas não estavam mais falando de dinheiro. Não que ela estivesse reclamando.
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