Notas iniciais
Boa leitura!

Santana está acostumada a acordar cedo. O que ela não está acostumada é a acordar segurando a mão de uma bela loura, num quarto de hospital, depois de dormir apenas algumas horas sentada. Ela pisca os olhos algumas vezes, espantando o sono que ainda persistia em seu corpo.

Um nó de tensão havia se formado na base do pescoço da médica e ela solta um pequeno gemido ao tentar mover a musculatura para aliviar a pressão. O barulho alcança uma Brittany ainda adormecida e a dançarina se move na cama, aumentando o aperto na mão de Santana. A latina se permite ficar naquele silêncio confortável por mais alguns minutos, observando as duas mãos entrelaçadas em cima da cama – pele morena contra pele alva.

Brittany se mexe mais uma vez e Santana aproveita o momento para retomar posse da própria mão. Ela precisa se preparar para o seu plantão e não tem tempo de ficar de mãos dadas com uma paciente. Na verdade, ela nem deveria estar de mãos dadas com a paciente. Ponto.

Esses pensamentos correm pela cabeça da médica com a velocidade de um raio e ela tem pressa em sair dali. De repente, a atmosfera do quarto ficou insuportável e ela precisa urgentemente de ar puro para colocar uma ordem no seu raciocínio. Ela abandona as cadeiras que fizera de cama, prende novamente os cabelos num rabo de cavalo apertado, abotoa a calça jeans e calça os sapatos, tomando cuidado para não fazer barulho. A última coisa que ela precisa naquele momento é que Brittany acorde.

Na porta, Santana apóia a mão na maçaneta e olha mais uma vez para Brittany. Ela está virada na direção da médica; lábios entreabertos, peito subindo e descendo lentamente e a mão boa escondida embaixo do travesseiro. A mesma mão que segurou a de Santana durante toda a noite. A mesma que procurava a da médica cada vez que a jovem precisava de segurança. Santana sorriu em direção à mulher e saiu do quarto.

Do lado de fora, a médica soltou a respiração que ela nem sabia que estava prendendo. Com o corpo apoiado na parede, ela sentiu as pálpebras pesarem. As poucas horas de sono não tinham sido suficientes e ela não tinha tempo para mais nenhum cochilo. O que ela precisava naquele momento era de cafeína. Caminhou em direção ao elevador para ir até a cafeteria.

O hospital estava relativamente silencioso àquela hora. A agitação da madrugada já tinha terminado e a maioria dos pacientes devia estar dormindo. As equipes que estavam prestes a encerrar o plantão contavam os minutos para sair dali e as conversas, normalmente animadas no início do turno, eram escassas e rápidas.

Esse era o horário preferido de Santana. Quando todo mundo já estava cansado demais para prestar atenção nela; quando seu corpo já estava exausto e seu cérebro começava a implorar por descanso; quando a maior parte do trabalho já estava feita e ela se lembrava porque amava aquela profissão.

A cafeteria estava vazia quando Santana entrou. O horário de visitação ainda não tinha começado e os parentes dos pacientes não lotavam as mesas. Apenas alguns médicos e enfermeiros se espalhavam pelo local, pequenos grupos conversando baixo e escondendo bocejos por detrás das mãos. A médica fez o seu pedido e apoiou o corpo no balcão enquanto esperava.

- Bom dia!

Santana quase deu um pulo ao ouvir a voz de Quinn tão próxima do seu ouvido. A médica morena estava tão alheia à movimentação do lugar que nem percebeu a aproximação da outra.

- Que merda, Quinn! Quer me matar de susto?

- Acho que alguém não dormiu bem essa noite – a médica nem tentava esconder o riso em sua voz.

Santana respondeu com uma careta – a única coisa que seu cérebro conseguia arquitetar antes da primeira dose de cafeína do dia. Quando suas bebidas ficaram prontas, as duas médicas caminharam lado a lado até uma mesa vazia no fundo do salão, afastada de todas as outras pessoas dali.

As duas ficam em silêncio por um tempo, aproveitando da bebida quente e da companhia. Santana gostava de Quinn, mesmo que elas discutissem quase diariamente, e era grata por tudo que a amiga havia feito desde que ela voltara para aquela cidade. E Quinn se importava com Santana e a machucava ver a amiga se destruindo aos poucos.

- Como está a Brittany?

- Dormiu a noite toda – segurando a minha mão, ela completou mentalmente. – Quando eu saí, ela ainda não tinha acordado.

- Eu realmente espero que a Tina consiga fazê-la falar hoje. Tem algo muito errado nessa história.

- Concordo. Só gostaria de saber um pouco mais antes de envolver a polícia.

Santana respondeu sem pensar e se arrependeu assim que a frase ganhou voz. Ela sabia o que aquilo ia parecer para Quinn.

- Santana Lopez! Se eu não te conhecesse melhor, eu diria que você está realmente preocupada com essa garota.

- Não é nada disso, Q. Eu me sinto responsável por ela. Só isso.

- Sei. Vou fingir que eu acredito – mas o brilho no olhar da loura dizia o contrário. – Bom, agora eu preciso descer e terminar algumas coisas antes de encerrar esse plantão e voltar para o mundo real. Desce comigo?

- Pode ir na frente. Eu já vou.

Enquanto observava Quinn desaparecer pelas portas duplas da cafeteria, Santana deixou sua mente voltar para a loura que dormia no quarto 3, alguns andares abaixo dela. A médica quase conseguia sentir a temperatura da mão da mulher contra a sua e, se ela fechasse os olhos e tentasse um pouco, ela era quase capaz de ver aqueles olhos azuis cristalinos em sua mente.

O caminho dos seus pensamentos deixou a médica desnorteada. O melhor que tinha a fazer era começar logo a trabalhar, pelo menos assim ela não se perderia em pensamentos inapropriados. Com um longo suspiro, ela agarrou o copo de café e bebeu todo o conteúdo de uma vez.

- Merda!

Ela tinha calculado mal a temperatura do café e agora tinha uma bela queimadura na língua como recompensa. O dia prometia.

Jogou fora o copo descartável agora vazio e caminhou até o elevador. Seu corpo trabalhava automaticamente, a cafeína ainda não corria em suas veias, e Santana foi para a sala dos médicos se preparar para as próximas 24 horas. Por mais que ela garantisse para si mesma que essa era sua rotina normal, a médica sabia que estava enrolando. Ela se conhecia bem demais para não saber que ela estava adiando ao máximo o momento em que voltaria ao quarto 3.

Como não tinha passado no hotel desde seu encontrão com Brittany na noite passada, Santana ainda usava as mesmas roupas do dia anterior. Ela abriu o armário na esperança de encontrar alguma coisa limpa ali dentro, mas encontrou apenas o jaleco com o nome bordado, o estetoscópio, alguns livros de referência e uma caixa de barras de cereal, que muitas vezes consistiam em suas únicas refeições no dia.

Sabendo que trabalhar com aquelas roupas não era uma opção, ela pegou um pacote de uniformes hospitalares e se dirigiu ao banheiro. Não era o visual mais atraente da face da terra, mas pelo menos era confortável o suficiente para sobreviver ao plantão. Além disso, não era como se ela quisesse impressionar ninguém ali naquele hospital. Ou será que queria?

Com a indagação silenciosa reverberando em sua cabeça, ela vestiu o jaleco, pendurou o estetoscópio no pescoço e refez o rabo de cavalo apertado. Ela sentia como se estivesse se preparando para a guerra ou coisa parecida. E, em alguns dias, era exatamente assim que ela se sentia ao final do expediente – saída de um campo de batalha.

O relógio digital em cima da porta da sala dos médicos indicava que ela ainda tinha cerca de 30 minutos antes de oficialmente começar o seu horário de trabalho. Encarando o mostrador, Santana ponderou que tinha algumas opções: tirar um cochilo breve no sofá desconfortável daquela sala; começar o seu turno mais cedo, mesmo que isso não significasse terminar mais cedo; tomar mais uma dose de café e aumentar a quantidade de cafeína em seu organismo; ou verificar se uma certa loura já tinha acordado.

Um sorriso discreto fez seu caminho até o rosto da latina. Ela sentia uma alegria nova só de pensar na loura, como se alguma coisa borbulhasse dentro dela. O sentimento era tão inesperado que ela tentava racionalizar a decisão que tinha tomado em menos de um segundo. Ela sabia que meia hora de sono não iria fazer com o que o cansaço fosse embora e a queimadura na língua ainda incomodava o bastante para ela não querer se aproximar de uma bebida quente por algum tempo; e começar a trabalhar antes da hora sem que alguém a estivesse obrigando ou pagando muito bem para isso não era exatamente do feitio da médica. Sobrava, então, a última alternativa.

A médica ficou feliz com a racionalização que tinha conseguido fazer sobre os passos decididos que ela agora dava pelo hospital. Se alguém perguntasse o que ela estava fazendo, aquela seria sua história e pronto. Mesmo que o sorriso cada vez maior em seus lábios traísse seus reais motivos.

Santana já estava quase na porta do quarto 3 quando ouviu passos apressados atrás de si. Médicos e enfermeiros correndo para lá e para cá era uma visão tão comum que ela nem olhou para trás, até sentir uma mão pousando em seu ombro.

- Santana, que bom encontrar você.

- Oi, Tina – disse, repentinamente irritada com a interrupção.

- Você está indo ver a Brittany? Eu estava indo lá agora.

A latina ainda pensou em mentir ou inventar alguma desculpa, mas essa era a parte que mais odiava sobre psicólogos: era impossível mentir para eles. Claro que Tina não diria nada, mas ela ficaria ali, parada, com aquele sorrisinho afetado de quem acabou de descobrir um enorme segredo. Santana odiava aquele sorrisinho.

- Sim. Meu plantão já vai começar e achei melhor dar uma checada nela antes.

- Claro. Posso te acompanhar então?

As duas caminhavam lado a lado em silêncio. Agora que estava mais calma, Santana até achava melhor ter Tina ali com ela. Pelo menos assim ela não teria que inventar uma desculpa para a loura ou suportar algum tipo de silêncio constrangedor. Seria apenas uma visita profissional.

Ou teria sido, se Brittany estivesse acordada. A loura estava quase na mesma posição de quando Santana tinha deixado o quarto naquela manhã e ela achou que a dançarina não tinha se movido desde então. Mas algo semi-escondido debaixo do lençol chamou a atenção da médica. Era o casado que ela usava na noite anterior e que havia emprestado para Brittany. Santana tinha certeza de que tinha deixado a peça no encosto da cadeira.

Escondendo um sorriso, a latina se apressou em tirar Tina dali antes que ela percebesse o que a loura abraçava embaixo das cobertas.

- Bom, acho que eu vou ter que passar o caso adiante. O meu plantão já está acabando.

- Será que essa é a melhor opção, Chang?

- Como assim, Santana? – Tina tinha uma expressão de curiosidade divertida, como se ela já soubesse o que se passava na cabeça da outra.

- É que... – Santana pensou na maneira mais profissional de continuar a frase. – Ela não está exatamente confiando nas pessoas agora. Acho que colocar mais um estranho para falar com ela pode piorar as coisas, não?

- E o que você sugere?

- Eu estou começando o meu plantão agora. Posso pedir para uma das enfermeiras ficar de olho e, assim que ela acordar, eu venho ver se eu consigo descobrir mais uma peça do quebra-cabeças. Depois eu ligo para você.

Era um plano idiota e Santana sabia. Mas ela também sabia que colocar mais um estranho na frente de Brittany agora só faria a garota se fechar mais ainda. Ela tinha certeza disso. E agora tudo dependia da resposta de Tina.

- Essa pode ser a decisão mais errada da minha carreira, mas você pode ter razão. Tenta falar com ela e me liga assim que terminar.

- Pode deixar.