Notas iniciais
Aha! Acharam que eu eu fosse quebrar o meu prazo de capítulo novo toda sexta, hein? Mas cá estou eu, com o day after...
E sobre o capítulo anterior, fiquei feliz demais com a reação de vocês! Realmente foi super água com açúcar, mas nem tinha como ser diferente, né? Depois de tanta complicação que eu joguei no caminho delas, acho que elas precisavam de um momento mais doce... Que bom que vocês embarcaram na minha.
E, Sareena? Não precisa se preocupar. Ainda tem mais guardado para elas... ;)

O sol do fim da manhã era filtrado pela camada grossa de nuvens que havia se formado quando Santana não estava olhando. A luminosidade emprestava uma natureza suave, quase etérea para o dia. Santana se sentia suspensa no tempo como as partículas de poeira que parecem dançar em fachos de luz que se esgueiram para dentro do quarto pelas cortinas abertas. Ela não sabia se a noite anterior tinha realmente acontecido ou se tudo não tinha passado de um sonho perfeitamente elaborado.

Ela ainda podia sentir o calor do corpo de Brittany sobre o seu; o coração dela batendo, acelerado beija-flor, contra o seu peito; lábios rosados bailando sobre a sua pele com a mesma destreza com que a dona deles dançava sobre o chão. Santana ainda conseguia sentir uma corrente elétrica percorrendo seu corpo, a trazendo de volta à vida com cada respiração. Era a primeira vez, em tantos anos, que ela sentia que conseguia inspirar de verdade, sem peso comprimindo seu peito. Quase como se a explosão branca que Brittany tinha arrancado de dentro dela tivesse arrebentado todos os nós, e fios, e elásticos, e correntes que apertavam seu coração, que diminuíam seus pulmões, que a faziam se sentir oca de tão repleta de escuridão.

Um suspiro pequeno ecoa no quarto e Santana franze o cenho, ainda de olhos fechados, tentando ligar o som à realidade. Pelos barulhos da rua e pela maneira como o calor do dia atinge as suas pernas, ela sabe que não está no hotel — nem no quarto de Brittany. Resta apenas uma possibilidade, uma que ela quer tanto que seja real, que ela se recusa a considerar que possa ser. Coisas boas não acontecem. Não pra ela. Não em muito tempo. Mas, quando ela quase consegue se convencer de que o suspiro não aconteceu, e de que a noite passada não é mais do que a sua imaginação brincando com ela, Santana sente o colchão afundar um pouco sob o seu corpo. O roçar de tecido contra pele vibra alto dentro do silêncio e ela não resiste e entreabre o olho que não está afundado no travesseiro. Não é mais do que uma fresta, mas o suficiente para ver uma mecha de cabelos louros sobre pele madrepérola.

Santana inspira longamente antes de se ajeitar sobre o colchão. Ela abre os olhos e apóia a cabeça numa das mãos, deitada de frente para uma Brittany adormecida, sorvendo cada centímetro de pele exposta como se fosse seu próprio ar.

Brittany está deitada de frente para ela, uma das mãos escondida embaixo do travesseiro, a outra largada sobre o corpo. Uma massa de cabelos amarelos se espalha ao seu redor e o lençol que elas puxaram em algum momento da madrugada não cobre mais do que suas pernas. Santana estuda a curva da sua sobrancelha, a inclinação do nariz, um traço de língua rosada no meio de lábios entreabertos; o pescoço longo relaxado, a linha paralela do ombro, a marca avermelhada onde seus dentes arranharam a clavícula. A médica continuou percorrendo com os olhos por seios pequenos — e se lembrou do peso que eles tinham em suas palmas -, pela linha que se formava bem no meio de um abdômen definido, pela curva suave que a cintura dela fazia e que parecia feita para a sua mão. E como a curva seguia por um quadril esguio que terminava em pernas fortes.

Santana tentou engolir, mas sua garganta estava seca como boca de beduíno. A maneira como Brittany se encontrava ali, deitada, nua em sua cama, confirmava tudo o que ela imaginava que tinha acontecido entre elas. Tudo aquilo que Santana não se permitira acreditar que tinha sido real, fora. Ela nem se deu conta de quando aconteceu, mas um sorriso tinha encontrado caminho até seu rosto.

- Sabia que é muito feio ficar encarando?

A voz de Brittany saía arranhada pelo sono, grudada no fundo da garganta. Ela não se movera e nem abrira os olhos, mas um sorriso torto já estava pendurado em seus lábios. Santana voltou os olhos para o rosto dela e apoiou o braço livre na curva da cintura da dançarina que tinha sido feita para ela, desenhando padrões preguiçosos ao longo da espinha dela.

- Desculpa? — a médica respondeu, mas a sua voz dizia outra coisa.

- Ahn-ahn. Eu gosto.

Ao mesmo tempo em que falou, Brittany abriu os olhos e Santana se perdeu mais uma vez num azul que ela nunca tinha visto em nenhum quadro, em nenhuma tela. Sob a luz dócil que entrava pelas cortinas, o lento abrir de olhos de Brittany lembrava à Santana o início de mais um dia. O primeiro.

Brittany enroscou um braço pela cintura de Santana e a puxou para si, ajustando o corpo da médica meio sobre o seu, suas pernas entrelaçadas entre lençóis. Com uma mão forte apoiada na base das costas dela, Brittany capturou o lábios inferior de Santana entre os seus, o amargo da manhã esquecido quando dedos morenos se perderam em fios dourados. A dançarina sorriu contra lábios carnudos e Santana voltou a se apoiar num dos cotovelos, a palma livre contra o rosto de Brittany, um dedo desenhando os contornos de lábios levemente inchados.

- Bom dia.

- O melhor.

A mesma resposta de qualquer outra pessoa teria feito Santana revirar os olhos diante de tamanho clichê, mas não Brittany. Não havia nada de clichê, ou de forçado em Brittany. Tudo o que Santana conseguia ver por trás de olhos azuis e sorriso branco era genuíno, sincero, escancarado. Não havia redoma, não havia proteção, corda de segurança. Ela não precisava proteger o mundo de alguma coisa que só existia dentro dela. Ela era apenas Brittany. E ali, dentro daqueles braços, Santana sentia que podia ser apenas Santana.

O sorriso de Santana se espalhou pelo rosto dela, brilhando por trás de olhos amadeirados. Ela acarinhou o nariz de Brittany com o seu e capturou seus lábios num beijo lento.

Santana não tinha certeza se o beijo de Brittany deveria ter um sabor diferente agora, depois que elas haviam transado, mas ele tinha. Era quase como provar o mesmo prato após anos, como sentir um gosto quase de infância, de passado. Quase como sentir o sabor que estava reservado para ela todos esses anos. O gosto, os olhos azuis, o sorriso torto, a pele nacarada, as pernas que serpenteavam as dela. Era tudo antigo. Tudo novo. Tudo eterno.

Ela deixou que o corpo caísse para o lado e levou Brittany com ela, reassumindo a mesma posição em que acordaram. As duas mulheres tinham seus torsos colados — os diferentes tons de pele a única coisa capaz de determinar onde terminava uma e começava a outra. Suas pernas permaneciam enroscadas e seus braços se apoiavam em curvas de cinturas feitas especialmente para eles.

O dia estava nublado, o lençol há muito tinha sido abandonado e era possível ouvir o vento agitando os galhos das árvores do lado de fora, mas Santana não sentia frio.

Ela tinha certeza de que nunca mais sentiria frio.

- San? Tá tudo bem?

- Claro, Britt. Por quê?

- Não sei. Você pareceu um pouco distante, sei lá.

Santana sorriu o sorriso que ela reservava apenas para Brittany e beijou a loura antes de responder.

- Tá tudo bem. Mesmo. Eu só tava tentando lembrar se tem alguma coisa que se pareça com café da manhã na minha cozinha.

- Quer dizer que eu mereço café na cama?

Brittany pontuou a pergunta com um beijo e uma mexida rápida, para cima e para baixo, das sobrancelhas. A expressão arrancou uma gargalhada de Santana, que beijou a loura mais uma vez.

- Merece. Merece, sim. Mas, antes, eu preciso descobrir se tem comida nessa casa.

***

Cheiro de café fresco pairava dentro da cozinha e Santana deixou que o aroma familiar a transportasse para outro tempo. Ela se lembrava da última vez em que se sentira tão completamente feliz como naquela manhã.

Era fim das férias de verão antes de último ano de colégio. Ela tinha começado a namorar Laura há poucos meses quando os pais dela precisaram sair da cidade. Não era uma viagem longa, apenas o fim de semana — um casamento ou aniversário, Santana não se lembrava bem. O que ela se lembrava com perfeição era que Laura tinha dado alguma desculpa para os pais e ficado para trás. Seria a primeira vez que elas teriam uma casa inteiramente para elas por mais do que algumas horas.

Durante a semana, Santana foi o exemplo da filha perfeita. Ela arrumou o quarto, ajudou a mãe com as compras, limpou a cozinha e tentou adivinhar cada um dos pedidos da mulher. Tudo numa tentativa de garantir que ela dissesse sim quando Santana finalmente criasse coragem de pedir para passar o final de semana na casa de Laura. Deu certo.

A morena chegou na casa da namorada no começo da noite, quando os pais dela já tinham saído. Eles sabiam que ela passaria os próximos dias lá, mas ela estava nervosa demais para encontrá-los. Ela começava a ter certeza de que qualquer pessoa poderia descobrir o que estava acontecendo entre ela e Laura se olhasse com atenção dentro dos seus olhos. Santana nunca encarou tanto o chão quanto naqueles meses de namoro.

Laura esperava por ela com um sorriso no rosto, os cabelos presos num rabo de cavalo. O jantar estava no forno, a mesa posta, velas acesas. Era a noite perfeita delas, como Santana achava que queria que o resto da sua vida acontecesse. Não havia olhares estrangeiros, não havia medo de serem descobertas, não havia pressa, não havia mais ninguém no mundo além dela e da menina que a observava do outro lado da mesa.

Santana não conseguia se lembrar a qual filme elas tinham tentado assistir naquela noite. Os créditos iniciais nem bem tinham rolado na tela e elas já tinham abandonado qualquer farsa de assistir ao que se passava. As imagens que se descortinavam à frente delas eram mais interessantes, mais importantes. Elas dormiram abraçadas, Santana com o rosto enterrado na nuca de Laura, um braço jogado pela sua cintura.

Quando o sol começou a iluminar o quarto, Santana acordou na mesma posição em que tinha dormido, a garota que ela amava ainda em seus braços. Com um sorriso bobo, ela se levantou, vestiu uma camiseta comprida de Laura e desceu os degraus até a cozinha. A latina não era exatamente romântica, mas a idéia de surpreender a sua garota com café na cama parecia bastante tentadora.

O cheiro de café que a invadia parecia o mesmo, mas os braços que se enroscavam ao redor da sua cintura eram completamente diferentes. Santana deixou a cabeça pesar para trás e usou o corpo de Brittany como apoio. Ela trilhava o ombro e o pescoço de Santana com beijos e a médica permitia que a sensação a arrancasse de lembranças que não tinham lugar naquele apartamento. Brittany estava ali e era nela que Santana queria se concentrar.

- Você sabe que só é considerado café na cama se você estiver, realmente, na cama, né?

- Eu fiquei com saudades. — Santana sentiu um arrepio quando Brittany arranhou de leve o lóbulo da sua orelha. — Você demorou.

- Só esperando o café ficar pronto.

Santana apontou com a cabeça para os dois pratos de ovos mexidos e torradas e para as duas canecas preparadas. Brittany continuou seu ataque ao pescoço de Santana e a médica soltou um suspiro trêmulo quando ela levantou seu cabelo e deslizou os lábios pela sua nuca.

- Você tem certeza que quer que eu vá embora?

- Daqui a pouco — Santana respondeu se virando nos braços de Brittany e a enlaçando pelos ombros. — Hum, Britt?

Brittany se afastou um pouco para olhar Santana nos olhos. A médica podia sentir a pele do seu rosto e do seu pescoço em chamas. Ela tentava não desviar os olhos dos orbes azuis que a encaravam; ela tentava não se concentrar na textura sob seus dedos. Quando Brittany deixou a cabeça cair para um dos lados, um sorriso divertido no rosto, Santana soube que tinha demorado tempo demais para continuar. Ela precisou engolir em seco e limpar a garganta antes de continuar.

- Você sabia que podia pegar alguma coisa dentro do meu armário, né?

Brittany olhou para baixo, para onde seu corpo nu encontrava com o de Santana, coberto por uma camiseta antiga da sua faculdade. Ela voltou a erguer o rosto, um sorriso torto no rosto e um brilho travesso nos olhos.

- Eu sei.

Segundos depois, a cafeteira apitou, mas Santana não se preocupava se o café estava pronto, ou se os ovos iam ficar frios, ou se as cortinas poderiam estar abertas, ou se a bancada da cozinha machucava as suas costas. Tudo com que ela conseguia se preocupar era com os lábios que queimavam os seus e com as mãos que tinham encontrado a barra da sua camiseta e com a perna que tinha avançado por entre as suas.

Todo o resto podia ficar pra depois.

***

As nuvens que escondiam o sol desapareceram no meio da tarde e alguns fios de luz se esgueiravam pelas paredes do escritório enquanto Brittany e Santana remexiam em algumas caixas que haviam sido entregues no dia anterior. Os itens que foram levados para aquele cômodo eram basicamente livros, em sua maioria material de referência médica. Prateleiras simples foram instaladas ao longo de duas paredes no início da semana e agora as duas separavam os tomos para que a morena pudesse organizá-los.

Brittany tocava cada um com reverência, dedos leves roçando títulos como fantasmas, como se ela tivesse medo de perturbar o conhecimento encerrado naquelas folhas. Santana olhava para ela com adoração, se lembrando de quando ela tinha entrado no seu dormitório da faculdade logo após comprar os livros indicados para o seu primeiro semestre de pre-med. Não eram os mesmos que elas desencaixotavam agora, mas ela se lembrava da emoção que sentira ao folhear as páginas, agitada com a perspectiva de desvendar um mundo inteiramente novo, milhas distante das aulas maçantes do colégio.

Alguns poucos romances preenchiam o fundo da caixa e Santana começa a empilhá-los num canto; eles iriam morar dentro do armário, longe do seu local de trabalho e pesquisa. Ao mesmo tempo, Brittany começa a abrir a segunda caixa, um pouco menor do que a primeira. O barulho de fita adesiva sendo descascada de papelão preenchia o ambiente, uma lembrança distante de todas as mudanças que Santana já fizera na vida.

- San? O que é isso?

Santana olha por sobre o ombro e vê que Brittany está segurando um objeto retangular, fortemente embalado em plástico bolha. Alguma coisa opaca por dentro impede que ela se lembre do que foi guardado com tanto cuidado. Parece que foi há uma vida que ela guardou aquelas coisas.

- Não tenho a menor idéia, Britt. Pode abrir.

Um dedo fino se espreme entre o plástico e a fita, soltando um dos lados. Santana volta para a sua pilha de ficção, deixando que Brittany desvende mais alguma parte do seu passado sozinha. As feridas abertas já haviam sido expostas. Não havia nada que a médica podia não querer que ela encontrasse.

Quando o som de plástico roçando plástico, e de bolhas sendo estouradas aleatoriamente, se calou por tempo demais, Santana se viu compelida a se virar e descobrir o que Brittany descobrira entre seus livros. A alguns passos dela, sentada no chão, com uma montanha de plástico e papel entre as pernas, Brittany segurava o diploma da faculdade de medicina de Santana, emoldurado, como ele costumava ficar na parede do seu antigo escritório. Ela ainda se lembrava com clareza do momento em que recebeu o pedaço de papel que colocaria o “doutora” na frente do seu nome, seu objetivo máximo durante tanto tempo. Santana tinha certeza de que aquela folha com letras douradas seria a garantia de um amor pelo qual ela lutara por mais tempo do que ela se lembrava, mas as coisas não foram exatamente assim e o diploma acabou guardado no fundo de uma gaveta qualquer enquanto ela se enterrava em trabalho; plantões atrás de plantões.

Apenas Rafa demonstrava algum orgulho genuíno pela conquista da nova médica. Ele não entendia completamente o que o título significava para ela — aquele era um casamento baseado em silêncios e lacunas -, mas sabia o quanto ela tinha batalhado por aquilo. E, por mais que seus assessores afirmassem que uma esposa médica poderia fazer bem à sua campanha, ele se orgulhava de Santana, não de um artefato a ser usado para ganhar eleitores.

Um dia, alguns meses depois que Santana recebera o diploma, Rafa encontrou o papel esquecido em uma gaveta, soterrado por pilhas de revistas antigas e quinquilharias que ele nem sabia por que tinham sido guardadas. Quando Santana chegou em casa depois do plantão, o certificado estava emoldurado e pendurado na parede do escritório que ela dividia com o marido, bem ao lado dos diplomas dele.

Santana e Rafael nunca falaram sobre o fato, mas a médica sentiu a ternura que nutria pelo marido crescer um pouco depois daquele dia.

Com um sorriso nostálgico, Santana se arrastou pelo chão e se sentou atrás de Brittany, abraçando-a com braços e pernas, o queixo apoiado no ombro pálido. A dançarina usava apenas as pontas dos dedos para segurar a moldura, como se tivesse medo de manchar o vidro apenas pela proximidade. Suas digitais sobrevoavam o nome impresso da médica, uma espécie de veneração nos movimentos lentos. Santana não podia ver mais do que o perfil da loura, mas, mesmo ali, ela podia ler a solenidade gravada nos olhos azuis.

- Como é a sensação?

Ela tinha uma voz pequena, quase distante no silêncio da tarde apesar da proximidade de seus corpos. Brittany apoiou-se melhor no corpo de Santana, deixando que o calor da pele dela a acalentasse e que a médica suportasse o seu peso. Dedos morenos encontraram dedos pálidos onde eles ainda seguravam a moldura. Já fazia tanto tempo que Santana nem olhava para aquele pedaço de passado que ele nem parecia real. Parecia que pertencia a uma outra vida.

Talvez pertencesse.

- Como assim, Britt? Sensação de quê? Receber o diploma de medicina?

Brittany se virou dentro do abraço de Santana, diploma aninhado em seu colo, e apoiou as costas numa perna dobrada. Ela não olhava dentro dos olhos negros e nem parecia enxergar o que estava apoiado em suas pernas longas. Brittany era mais alta do que Santana, mas, naquele momento, a médica a envolvia como um enorme cobertor.

- Não. De se formar, receber um diploma.

- Não sei, Britt. Acho que eu nunca parei pra pensar muito nisso. — Brittany permanecia em distante silêncio, um estado que não descia suavemente pela garganta de Santana. — Eu acho que... Na hora é bom. Dá uma sensação de dever cumprido, sei lá. Acho que é uma prova concreta de que o esforço valeu a pena. Depois de um tempo, não diz tanta coisa. Hoje não passa de um pedaço de papel. Ver meus pacientes saindo do hospital diz muito mais. Mas, por que a pergunta?

- Nada. Só...curiosidade, eu acho.

- No final das contas, não é muito diferente do diploma do colégio. Na hora parece a melhor coisa do mundo, depois é só mais um pedaço de papel.

- Acho que você tem razão.

***

Brittany geme contra o peito de Santana quando seu celular toca pela quarta vez nos últimos quarenta minutos. Elas tinham arrastado o colchão do quarto de Santana para a sala e assistiam a uma maratona de filmes de John Hughes. A risada da médica ecoou pelo corpo de Brittany quando ela tentou se esconder do barulho inoportuno no corpo pequeno.

- Acho que é melhor você atender, baby.

- Mas eu tô vendo filme — Brittany choramingou.

- Britt, você sabe todas as falas do filme. E eu não acho que a pessoa vai desistir até você atender. Pode ser alguma coisa importante.

- Mas você tá tão confortável. E eu aposto que é engano, mesmo.

Santana sorriu e beijou uma cabeça loura, apertando ainda mais seus braços ao redor da cintura dela. Elas se afundaram novamente no ruído branco que o filme conhecido proporcionava, os movimentos de respiração de Santana movendo o corpo de Brittany. Quando a loura começou a sentir as pálpebras pesadas, o barulho inoportuno voltou a rasgar a tranqüilidade do dia. Antes que Brittany pudesse inventar mais alguma desculpa, Santana lhe deu um tapa brincalhão na bunda e cutucou suas costelas.

- Anda, Britt. Atende logo esse celular. Eu não agüento mais ouvir essa música do Bob Esponja.

- Olha como você fala do Bob, San.

- Se eu prometer não falar nada dele, você atende esse celular? Por favor?

Brittany não respondeu. Ela apenas beijou o bico que Santana tinha feito e se levantou, procurando a origem de todo aquele estardalhaço. Uma expressão estranha nublou o seu rosto quando ela focalizou a tela do aparelho e ela logo o grudou à orelha, falando em sussurros apressados até estar na cozinha do apartamento.

Do chão, Santana acompanhava os movimentos de Brittany, filme há muito esquecido. Não era comum Brittany sair do cômodo para atender ao celular. Desde que a conhecera, a médica já tinha ouvido conversas da loura com quase todos os membros da sua família e vários dos amigos que ela tinha feito durante a sua carreira na companhia de dança.

A conversa de Brittany ao telefone não durou mais do que cinco minutos e, quando ela voltou para a sala, ela tinha um sorriso tenso nos lábios que não combinava com a ruga de preocupação que tinha se formado em sua testa. Ainda com o celular entre os dedos, Brittany caminhou até onde Santana estava deitada e retomou sua posição anterior, deitando sobre o corpo da médica, aninhando seu rosto no peito dela. Num reflexo quase pavloviano, Santana enlaçou os ombros da loura e apertou o corpo esguio contra o seu. Ela podia sentir músculos tensos sob suas mãos, um suspiro aquecendo seu pescoço quando ela começou a passear com os dedos por entre fios de seda loura.

- Tudo bem, Britt?

- Ahan. Era só a minha irmã.

- Aconteceu alguma coisa ou ela só queria conversar?

- Na verdade, ela queria uma resposta.

- E qual foi a pergunta?

- Ela tem uma competição em Columbus, na próxima semana, e ela queria saber se ela e o namorado podem passar o final de semana aqui, comigo — Brittany respondeu apoiando o queixo no esterno de Santana e a olhando nos olhos.

- Isso é ótimo, Britt. Você falou que tem muito tempo que você não vê a sua irmã. Acho que vai ser bom pra vocês passar algum tempo juntas.

- É...eu acho que sim.

- Nossa, quanto entusiasmo, Britt. Algum motivo pra você não querer os dois aqui? Algum problema com o namorado dela?

- Não, o Wes é ótimo. É só que --

Brittany desviou os olhos e deixou que a frase incompleta pairasse no ar. Apenas as vozes de um filme abandonado ecoavam e uma sombra de entendimento se assomou nos olhos de Santana. Quando ela falou, sua voz não passava de um sussurro estrangulado.

- Você não quer que ela venha por minha causa.

Um aceno de cabeça confirmou a afirmação de Santana. Brittany beijou a pele morena antes de reerguer o olhar, os olhos apertados como se ela esperasse uma reprovação.

- Britt...

- Eu não vou agüentar passar um fim de semana inteiro longe de você, San. Ainda mais depois de ontem.

Santana riu baixinho, sua expressão se suavizando um pouco. Ela se esticou e beijou de leve lábios apertados.

- Que bom, porque eu também não. — Um sorriso tímido nasceu no rosto de Brittany, o que mereceu mais um beijo. — Mas, por que você ficaria o fim de semana inteiro longe de mim? Algum motivo pra você não querer que eu conheça a sua família?

- Claro que não, San! Você sabe que, por mim, eu já tinha apresentado você pra todo mundo que eu conheço. É só que... — Brittany se sentou e tomou a mão de Santana, brincando com seus dedos morenos apoiados em seu colo. — A minha irmã me conhece bem demais, San. E eu sei que ela vai sacar que tem alguma coisa acontecendo entre a gente assim que ela me vir com você. Eu nunca consegui enganar a Hannah com essas coisas.

Santana mantinha os olhos grudados no rosto de Brittany, um calor tomando conta da sua pele, o coração acelerado e pulsando em cada canto do seu corpo, o estômago dando piruetas entre músculos de repente tensos demais. Seu corpo tomou uma decisão antes que sua cabeça pudesse acompanhar.

- Fala pra sua irmã que ela pode vir.

As palavras saíram todas emboladas, apressadas em ganhar vida. Agora não tinha mais como voltar atrás.

Brittany a olhava com os olhos arregalados, seus dedos congelados sobre os de Santana. A médica se sentou, costas apoiadas na parede, e respirou fundo.

- San?

- Fala pra sua irmã que ela pode vir — Santana repetiu, um pouco mais serena.

- Mas...

- Pensa nisso como uma continuação de ontem, no bar. Eu sei que você confia nela e talvez assim seja mais fácil pra mim. Quer dizer, não é como se eu fosse encontrar com ela na próxima esquina, se eu não me sentir confortável. Sei lá.

- Você tem certeza, San? Porque você não precisa fazer isso por mim.

- Eu estou fazendo por mim também, Britt. Por nós duas. Eu preciso começar por algum lugar. Só conversa com ela antes, explica algumas coisas. Não tudo, mas algumas coisas.

- Pode deixar. — Brittany se ajeitou no colchão, se ajoelhando entre as pernas esticadas de Santana e trilhando a extensão do corpo dela com a ponta dos dedos. — Agora, isso quer dizer que eu posso dizer pra minha irmã que eu estou namorando?

Ela não olhava Santana nos olhos e, por baixo do tom travesso e sedutor, a médica podia ouvir uma ponta de insegurança na voz de Brittany.

Uma palavra às vezes pode mudar tudo.

- Não sei, Britt. Você está namorando?

Já fazia tanto tempo que Santana tinha se encontrado nessa posição pela última vez, que ela agora não sabia como agir. Suas mãos suavam contra o lençol que envolvia o colchão e ela se concentrava na respiração de Brittany para não se perder dentro do que crescia dentro dela. Finalmente, Brittany ergueu o rosto, seus olhares se prendendo.

- Sim. E você?

Santana ergueu o corpo da parede e se colou ao corpo de Brittany, dedos enterrados em cabelos louros, a segurando perto da nuca. Quando a médica voltou a falar, seus lábios roçavam os de Brittany a cada palavra.

- Há muito tempo, Britt.

Brittany sorriu contra a boca de Santana antes de aceitar o beijo que lhe era oferecido. Como numa coreografia, ela forçou o corpo da médica para baixo, que a levou junto consigo. Quando seus centros se chocaram, Santana engoliu um gemido que escapou da garganta de Brittany. Ela tinha certeza de que nunca se cansaria daquele som.

***

Um peso se abatia sobre as pálpebras de Santana quando ela aninhou o corpo no colchão para encerrar o dia. A luz indireta da sua luminária iluminava o quarto, uma nesga de luar se esgueirava por onde as cortinas não haviam sido bem fechadas. A médica esperava apenas que Brittany voltasse para o quarto para se entregar ao sono que já tomava conta dela. Ela sabia que nunca mais dormiria tão bem quanto dormia dentro dos braços da loura, ouvindo a respiração dela contra a sua pele.

Os pés descalços de Brittany não faziam barulho contra o chão do apartamento e apenas quando suas pálpebras fechadas deixaram de ser banhadas pela luz amarelada, ela se deu conta de que não estava mais sozinha. Logo, um braço fino serpenteou pela sua cintura e ela se viu puxada contra o corpo de Brittany, mais confortável agora do que estivera em muito tempo.

- Falou com a sua irmã?

- Ahan. Eles chegam sexta, à noite.

- Que bom. Eu estou curiosa para conhecer a sua irmã. Quero saber todas as histórias que você não me contou. Mas, será que ela vai gostar de mim?

- San! Claro que sim. Eu tenho certeza que ela vai adorar você! Nem tem como ser diferente.

- Espero que sim. E como eles vêm?

- De ônibus, eu acho. Por quê?

- Você pode ficar com o meu carro, se você precisar buscar eles.

- E você, San?

- Ele fica parado o dia inteiro no estacionamento do hospital mesmo, baby. Você passa lá na sexta e pega a chave comigo. No sábado, ou você me busca ou eu pego um taxi. Tanto faz.

- Você é incrível, sabia? — Santana assentiu contra o travesseiro, arrancando uma risada de Brittany. — Eu não sei como eu dei tanta sorte de encontrar você.

Um sentimento quente subiu pelo corpo de Santana, se alojando bem no meio do seu peito, e ela sorriu enquanto se virava dentro dos braços de Brittany.

- Eu tenho certeza de que a sortuda, aqui, sou eu, Britt.

- Santana, você é médica, você salva vidas, é bem-sucedida, seu quarto é quase do tamanho do meu apartamento. Você morou durante meses num hotel. E você podia estar trabalhando em qualquer hospital do país que você quisesse. Eu não passo de uma professora de dança.

- Do que você está falando, baby?

- Nada, San, nada. Deixa pra lá.

- Não, Britt, Britt, olha pra mim. — Santana molda uma das mãos ao rosto de Brittany. — Isso tudo que você falou é fácil, é faculdade. Alguém me ensinou. A mim e a centenas de outros médicos que se formaram no mesmo ano que eu, melhores do que eu. Agora, você... O que você é não se aprende em lugar nenhum.

Brittany tentou afastar o rosto de Santana, mas a médica não deixou. Ela tomou o rosto delicado entre as duas mãos e jogou uma das pernas sobre o quadril estreito, se ajoelhando sobre a dançarina. O luar fraco iluminava seu perfil, um traço triste desenhando seus lábios.

- Britt, você é a pessoa mais incrível que eu conheço. Você é paciente, amorosa, doce, inteligente. Você se preocupa com as pessoas, você me faz tomar as decisões certas, baby. Eu nem sei o que eu fazia da minha vida antes de você. Isso é seu, Britt. Só seu. Isso não se aprende em lugar nenhum. Você é muito mais do que o seu trabalho.

Pequenas lágrimas se acumulavam nos cantos dos olhos azuis e Brittany piscou algumas vezes, para se livrar da umidade. Santana secou o caminho que se desenhou na lateral do rosto dela e beijou a boca fina uma vez. Ela tentava colocar ali tudo o que estava se acumulando no seu peito, tudo o que Brittany despertava nela.

- Mas você precisa concordar que a nossa história é bem surreal, San. Tipo, se ela virasse filme, acho que ninguém nem ia acreditar.

- Mas a gente é real e você me faz feliz como há muito tempo eu não sou, como eu acho que nunca fui. É só isso que importa pra mim. Eu amo você, não o seu trabalho ou o seu sobrenome --

- San?

- Ou o tamanho do seu apartamento.

- San!

Os olhos de Santana se arregalaram diante do tom de voz de Brittany. Desde que elas se conheceram, a médica tinha certeza de que nunca tinha visto a loura falar daquele jeito. Ela não sabia o que podia ter acontecido, mas se sentou sobre o quadril dela e esperou que Brittany continuasse.

- San, o que foi que você falou? — A voz de Brittany não passava de um sussurro, olhos de gato arregalados.

- Eu disse que a gente é real?

- Não, San, depois disso.

- Eu falei que...

Santana olhou para o lado, tentando se lembrar das palavras exatas que ela tinha falado para Brittany. Quando a lembrança tomou conta da sua memória, uma onda de calma tomou conta da médica.

- Eu falei que eu amo você. — Assombro tingia cada palavra de Santana. — Eu amo você, Britt.

Uma gargalhada antiga estourou da garganta de Santana e ela atacou o rosto de Brittany, beijando cada centímetro de pele, uma felicidade bêbada correndo em suas veias. A loura ria com ela, retribuindo seus beijos com fervor. Aproveitando a distração de Santana, Brittany a abraçou com força e mudou suas posições, colando as costas da latina no colchão e pairando acima dela. Quando elas descolaram seus lábios, um sorriso enorme adornava os rostos das duas.

- Eu te amo — Santana respirou. — E eu não sei se você sente isso também, e você não precisa dizer nada, mas eu --

- Santana, dá pra você ficar quieta um segundo? — Brittany perguntou com dois dedos selando os lábios de Santana. — Alguém já te disse que você pensa demais?

A médica respondeu apenas com um movimento de cabeça, apenas o que Brittany lhe permitia naquele momento. A loura escorregou os dedos pelo rosto dela, até enterrá-los nos cabelos dela.

- Como é que você pode achar que eu não te amo, San? Eu te amo tanto. Tanto. Eu acho que desde que você me colocou dentro daquele taxi e me levou pro hospital. Eu também te amo.

- Por que você nunca disse nada?

- Eu não quis te assustar. Eu achei que você precisava descobrir isso sozinha. Falar primeiro.

- Meu ritmo?

- Alguma coisa parecida, sim.

- E é por isso que eu te amo, sabia?

- É? — Brittany pontuou a frase com um beijo.

Resposta nenhuma seria suficiente, palavra nenhuma seria grande o bastante. Santana deixou, então, que seu corpo falasse por ela. Seus beijos eram lentos, seus dedos deslizavam como se o corpo de Brittany fosse um território novo, redescobrindo cada curva, cada detalhe. Como se saber que o que existia entre elas era amor houvesse mudado a geografia da pele clara.

Ela usava seu tempo, Brittany completamente entregue ao momento. Santana não se importava se ela teria plantão no dia seguinte. A sua garota, a garota que ela amava, a garota mais incrível do planeta tinha acabado de dizer que a amava também. Dormir era a última coisa em que Santana estava pensando naquele momento.

Notas finais
E então? Como vocês acham que vai ser esse encontro com a irmã da Britt???
E para quem também frequenta o ff.net, eu estou com uma história lá também - em inglês. Chama Story teller e se alguém quiser ler, o link é esse: http://www.fanfiction.net/s/8620790/1/Story-teller