How To Mend A Broken Heart
30 Capítulo 30
Notas iniciais
Bom, o capítulo 30 está aí. Espero que gostem. Esse é um momento de transição na história para que a gente possa chegar na parte em que as pontas são finalmente amarradas...
De volta à realidade. De volta à rotina.
Manhã de domingo e o corpo de Santana desperta com o barulho incômodo do alarme; ela sempre prefere as manhãs em que suas pálpebras se abrem quando têm vontade, sem respeitar as regras de ninguém.
Mas, hoje, ao menos, ela tem o braço de Brittany ao redor da sua cintura, uma pele quente pressionada contra as suas costas e isso torna tudo melhor.
Um grunhido rouco range no quarto e Santana ri baixinho quando Brittany tenta esconder o rosto em seus cabelos escuros. Ela tenta se levantar, mas um braço forte a prende como garra.
- Não. Cedo — Brittany balbuciou em seu ouvido e o hálito quente mandou arrepios por todo o corpo da médica.
- Britt, baby. Eu preciso levantar, eu tenho plantão.
Atrás dela, Brittany sacudiu a cabeça e jogou uma perna sobre o quadril moreno, reforçando a prisão do seu corpo.
O calor de Brittany envolvia Santana como um tecido macio e ela se permitiu relaxar um pouco contra o corpo que a ancorava. Quando ela sentiu que a respiração de Brittany na sua nuca mudou, adquirindo tons profundos e relaxados, Santana se virou dentro do seu cárcere para encontrar um rosto sereno, livre de rugas, lábios entreabertos. Sabendo que ela não precisava mais se conter ou se explicar — tudo isso tinha voado pela janela duas noites atrás -, ela beijou lábios finos até que olhos azuis piscassem e se abrissem.
- Bom dia, baby.
A resposta de Brittany foi um sorriso sonolento. A nova palavra que Santana usava para se referir a ela cada vez mais natural em seu ouvido. Ainda sorrindo, ela usou os membros que tinham se enroscado ao redor da latina para trazê-la para mais perto, beijando sua boca com força.
- Hunf, Britt! — Santana arfou contra o rosto de Brittany. — Eu realmente preciso levantar e isso que você tá fazendo não é justo.
Brittany sorria diabolicamente, o queixo de Santana entre o dentes, seus dedos traçando desenhos imaginários na pele ao longo do seu quadril.
- E se eu não quiser que você vá?
- Acredite, eu não quero ir, mas eu preciso.
- Você pode ligar e dizer que está doente. Você não pode infectar os seus pacientes, então você precisa ficar em casa.
- Tentador. Mas o hospital já anda uma loucura com a equipe completa. Quando alguém falta, aquilo lá vira um caos.
- Você é certinha demais, de vez em quando, sabia?
- E nem todo tem um chefe como o Mike — Santana retrucou. — Hum, não faz esse bico, baby. Isso é golpe baixo.
Obedecendo ao pedido de Santana, Brittany aumentou o bico. Em meio a gargalhadas, a médica não teve outra alternativa a não ser beijar a boca rosada até que não houvesse mais sombra de bico ali. Até que o segundo despertador dela interrompeu o momento.
- Agora é sério, Britt. Eu preciso tomar banho — Santana se ergueu sem se preocupar em cobrir a sua nudez.
- Quer companhia?
Da porta, Santana olhou para trás com um sorriso torto no rosto. Ela piscou para Brittany, deu as costas e continuou em direção ao banheiro. Antes que ela conseguisse chegar ao meio do caminho, braços já haviam serpenteado ao redor da sua cintura.
***
- Aconteceu alguma coisa, Britt? Você tá quieta desde que a gente entrou no carro.
Elas estavam paradas num sinal fechado no meio do caminho entre seus apartamentos. Santana procurava os olhos de Brittany pelo retrovisor, mas a loura os mantinha grudados na janela, encarando a cidade adormecida passar do lado de fora quando Santana acelerou o carro. A médica apertou o joelho da namorada e Brittany entrelaçou seus dedos.
Logo, Santana encostava o carro na porta do prédio de Brittany. Ela desligou o motor e se virou no banco, encarando olhos perdidos. Um sorriso triste surgiu no rosto de Santana e ela trouxe a mão de Brittany até seus lábios, beijando o nó de cada dedo e a sua palma antes de segurá-la em seu colo.
- O que houve, baby? Você tá me assustando.
- Nada. É só que... Eu realmente detesto os seus plantões — Santana sorriu e Brittany suspirou. — Hoje é domingo, San. Dia pra ficar na cama ou na frente da televisão, não pra trabalhar.
O sorriso de Santana aumentou e ela usou uma das mãos para tomar o rosto de Brittany, o dedão acarinhando a pele delicada dela. A loura se inclinou na direção do toque e Santana podia sentir seu corpo relaxando.
- Eu também não gosto, Britt, mas eu não tenho opção. É o meu trabalho. Ninguém escolhe o dia pra ficar doente. E a gente meio que já fez isso tudo ontem.
- Eu sei disso. Mas eu continuo não gostando.
Lá estava ele de novo, o bico que estava se tornando a ruína da vida de Santana. Ela estava descobrindo que existiam poucas coisas que ela não faria para apagar aquela expressão do rosto de Brittany.
Depois de inspecionar rapidamente a rua, Santana puxou Brittany pelo pescoço e a beijou rapidamente. Seus lábios não se tocaram por mais do que um segundo, mas o coração de Santana arremetia contra o peito como se ela tivesse corrido uma maratona.
O sorriso enorme no rosto de Brittany fez valer a pena.
- É melhor você se acostumar, baby. O horário ruim faz parte do pacote de se namorar uma médica.
- A sua sorte é que eu gosto de você — Brittany disse, a ponta de seus dedos passeando pelo jeans que cobria uma das coxas de Santana.
- Só gosta? Tem certeza?
- Talvez um pouquinho mais. — Seus dedos haviam alcançado o fim da perna de Santana e começavam a descer para a parte posterior. — Pena que eu não posso demonstrar o quanto aqui.
O coração de Santana perdeu um compasso quando ela registrou o olhar pesado com que Brittany a encarava, flashes das últimas duas noites invadindo a sua mente. A mão de Brittany queimava mesmo através do tecido grosso e Santana sabia que ela precisava sair dali enquanto seu cérebro ainda funcionava.
- A gente faz o seguinte, se as coisas estiverem calmas, eu te ligo e a gente almoça junto. Ou janta. Tá bom?
- Eu vou ficar esperando.
- Eu também.
***
Carro estacionado, respiração controlada, cabelo preso num rabo de cavalo apertado. Santana sentia como se estivesse se pintando para algum tipo de guerra. Ela lentamente deixava de ser a San de Brittany e se transformava na Dra. Lopez. Ainda a impressionava pensar que, até pouco tempo atrás, apenas a sua versão médica endurecida existia, quando agora ela convivia com outra faceta, mais doce, mais suave — quase um animal selvagem domesticado. Talvez fosse essa a saída para ela; criar quantas versões diferentes fossem necessárias.
A sua preferida? San.
Mas ela já podia sentir alguma coisa de uma vazando para a outra, alguma delicadeza de San encharcando os sentidos da doutora; o sorriso mais fácil nos corredores do hospital, as mãos menos arredias ao tocar seus pacientes, um acordo tácito com o restante da equipe de aturá-los um pouco mais. Podia parecer pequeno, mas ela começava a se sentir mais ela durante as horas em que tinha que ficar dentro do hospital, quase como se ela estivesse finalmente se encaixando dentro do próprio corpo.
Talvez, no futuro, todas as suas versões se fundissem numa única pessoa inteira.
Santana caminhava pelo estacionamento, os vidros dos carros refletindo a sua figura. Um sorriso pequeno brotou quando ela registrou novamente a blusa que Brittany havia escolhido para ela naquela manhã. O vermelho vibrante parecia estrangeiro no seu corpo e, ainda assim, ele se assentava bem contra sua pele caramelo. A peça estava perdida no fundo do armário e Santana nem se lembrava da última vez em que a usara — se é que esse momento existiu -, mas ela sabia que passaria o dia se lembrando do sorriso de Brittany quando ela terminou de colocá-la.
Mais a frente, Santana notou quando um carro estacionou na frente da entrada principal do hospital. Pelo vidro traseiro, ela pôde assistir o momento em que a mulher sentada no banco do carona se inclinou pela divisão e beijou o motorista.
Não tinha sido um beijo de cinema, daqueles recheados de línguas e saliva. Tinha sido um beijo muito parecido com o que ela e Brittany trocaram mais cedo. Um beijo que era mais carinho, conforto, um tocar a pele quando se quer tocar a alma. E a comparação apertou alguma coisa dentro do peito de Santana, porque ela sabia que, se as posições estivessem invertidas, ela não conseguiria se permitir aquilo na porta do hospital. Não com tantos conhecidos passando por ali. Não com tanta gente por perto.
A porta do carro se abriu e Santana viu quando Quinn saiu do veículo e se apoiou no vidro aberto, conversando com quem ainda estava do lado de dentro. Seu cabelo louro preso num rabo de cavalo e um sorriso não muito familiar no rosto. Ela parecia feliz, despreocupada. Santana já se preparava para desviar o seu caminho, quando uma voz escapou de dentro do carro. Ela acelerou o passo. A oportunidade era boa demais para correr o risco de ela escapar.
- Bom dia, detetive. Q — Santana falou enlaçando a amiga pela cintura, se apoiando ao lado dela na janela aberta.
O casal se entreolhou por um segundo antes de se virar para Santana; Puckerman com um sorriso largo, Quinn com uma expressão indecifrável.
Santana sabia que tinha invadido um momento íntimo, mas ela tinha coisas demais na superfície e era melhor lidar com uma Quinn irritada do que com uma Quinn curiosa. A primeira, pelo menos, era mais conhecida.
O detetive a cumprimentou e se despediu de Quinn com o mesmo fôlego, acelerando o carro e deixando as duas médicas para trás. O braço que Santana tinha enroscado pela cintura da amiga caíra ao seu lado e as duas não se tocavam enquanto atravessavam as portas duplas do hospital. Um silêncio pesado entre elas, cada uma pensando em qual seria a melhor maneira de começar a falar.
- Então, você e o detetive, Q? Eu até ficaria convencida por ter adivinhado se não fosse tão óbvio.
- Sim, Santana. Eu e o detetive. O Noah é um cara bem legal. Mas, mudando de assunto, o que aconteceu com você?
Um gelo percorreu a espinha de Santana. Quinn se mantinha olhando para frente, concentrada nos itens dentro do seu armário na sala dos médicos. Santana tinha o rosto escondido pela porta do seu armário e respirou fundo algumas vezes antes de falar.
- Do que você tá falando, Fabray?
- Vermelho, S? Acho que eu não te vejo em nada vibrante desde o início da faculdade.
A médica morena olhou para baixo e não teve como evitar o sorriso que se pendurou em seu rosto quando ela se lembrou de quem tinha escolhido a roupa dela naquela manhã. E de como Brittany tinha sorrido ao vê-la vestida. E de como braços fortes tinham deslizado pela sua cintura. E de como olhos azuis brilhavam ao dizer que ela estava linda. E de como --
Santana sacudiu a cabeça, tentando afastar as imagens que não tinham o que fazer naquele ambiente. Ela precisava manter a persona profissional dentro daquelas paredes e não se tornar uma massa tremulante com os pensamentos grudados numa certa outra loura.
- Isso aqui? Só uma coisa velha que eu achei no fundo do armário. Acho que eu cansei um pouco dos tons pastéis que a equipe do Rafa adorava enfiar em mim.
- Fica bem em você — Quinn respondeu depois de um longo olhar na direção de Santana. Quando ela alcançava a porta, acrescentou: — Combina com o resto.
Santana tentou perguntar o que Quinn queria dizer com aquilo, mas ela já estava do lado de fora da sala. E Santana ficou para trás, enraizada no mesmo lugar, tentando entender como todo mundo parecia perceber as mudanças nela antes mesmo que ela pudesse se dar conta de que elas haviam acontecido.
***
Não havia plantão cansativo que resistisse ao sorriso enorme de Brittany e Santana podia sentir as tensões da manhã escorrendo pela sua pele ao encontrar com a loura na porta do hospital. A médica sorria o seu melhor sorriso-Brittany e, por um momento, ela quase se esqueceu de onde estava e de quem era.
Quase.
- Oi — Santana disse num sussurro que continha bem mais do que duas letras.
Brittany apenas aumentou o seu sorriso e piscou um olho azul cor de céu de verão. Ela apertou um mindinho moreno no seu. Ela entendia.
- Como foi a sua manhã? — Brittany perguntou quando elas alcançavam o elevador que as deixaria mais próximo do refeitório.
- Calma. Parece que ninguém resolveu causar nenhum acidente hoje. O mais complicado foi uma mordida de cachorro.
- Ai.
- O cara mereceu. Ele usava um mullet acaju e chegou aqui usando uma pochete. Se você quer a minha opinião, eu acho que o cachorro merecia uma medalha.
- Santana! — A médica levantou a mão que não estava presa ao dedo de Brittany em rendição. — Mas, um dia calmo é bom, né?
- Mais ou menos. Já ouviu aquela expressão "a calmaria antes da tempestade"? — Brittany assentiu no instante em que as portas do elevador se abriram. — Aqui, a tempestade sempre chega.
As portas do elevador se fecharam e quaisquer outras palavras que Santana pudesse ter morreram em sua garganta. A atmosfera mudou entre elas e a morena podia sentir que a sua pulsação tinha se acelerado, sua boca seca ao redor de uma língua que parecia não caber entre os dentes brancos. Brittany estava perto demais, o calor dela invadindo os pensamentos de Santana e, agora que a médica conhecia o gosto de cada centímetro de pele clara, era difícil manter o rosto estóico.
Um olhar de relance para a sua direita e Santana percebeu que ela não era a única.
- Esse elevador tem câmera?
Os lábios de Brittany roçaram a orelha de Santana com cada palavra, a respiração dela umedecendo a pele morena. Ela tocou a linha dos cabelos escuros com a ponta do nariz e Santana sentiu a carícia nos joelhos trêmulos, no estômago em nós, no calor que voltava a se acumular no meio dos seus quadris, no ar que parecia não querer chegar aos seus pulmões.
Tudo o que Santana conseguiu fazer foi assentir fracamente e rezar para que o elevador chegasse logo ao andar do refeitório, antes que --
A campainha estridente do elevador soou alta na caixa de metal e a médica soltou uma respiração que ela nem percebera que estava segurando. Brittany deu um passo para o lado, sorriso aberto perfeitamente emoldurado por cabelos dourados, e segurou a porta com um dos braços para que Santana passasse.
Elas entraram no refeitório lado a lado, sem se tocar, mas perfeitamente encapsuladas na bolha Brittany-Santana. A diferença de altura, ressaltada pelo tênis que Santana usava no hospital, o cheiro de casa e de vento que Brittany carregava, olhos castanhos tão doces quanto na primeira vez em que elas tinham se visto, a risada de Brittany preenchendo cada fresta do corpo de Santana. Já era tudo conhecido, familiar e só existiam elas dentro daquele mundo.
O rubor da face de Santana a acompanhou enquanto elas se ocupavam da bandeja com o almoço. Brittany caminhava na frente, em direção ao fundo do salão, e Santana a seguia; olhos grudados no plástico que envolvia seu sanduíche, acompanhando os movimentos da loura com olhares de esguelha e evitando olhar para as outras mesas. Apenas quando Brittany puxou uma cadeira, Santana ergueu o rosto e encontrou olhos esverdeados a encarando com uma expressão que ela não conseguia ler.
- Oi, S.
- Q. — Os dentes de Santana mal se moveram ao redor da letra.
- Então, Brittany, você continua na sua missão de alimentar a Santana?
Àquela altura, Santana já havia se desligado da conversa entre as duas louras. Ela se sentava rígida, como se alguém tivesse enfiado uma tábua de madeira entre suas costas e a blusa que ela usava; ela quase podia sentir as farpas arranhando sua pele. Ela mastigava devagar o naco de isopor que ela havia arrancado do sanduíche, a garganta se fechando ao redor de nada.
Ela queria olhar para os lados, ter certeza de que ninguém estava olhando para a sua mesa, mas ela estava congelada, estátua-amedrontada.
Santana sentia como se houvesse um foco de luz aceso acima da sua cabeça, um alvo pintado na testa, um cartaz com a palavra gay piscando em néon pendurado em seu pescoço. Era como se todo mundo conseguisse enxergar o fio invisível que a ligava a Brittany. De repente, Santana se sentia quente demais, uma mão comprimindo o seu peito. O ar estava pesado ao seu redor e ela começava a sentir uma vontade enorme de sair correndo daquele refeitório e deixar que o vento a acalmasse.
Mas ela estava grudada na cadeira. Tudo havia mudado entre elas e Santana se perdia entre os instintos de lutar e fugir. Ela estava dormente.
Até que dedos se enroscaram no seu joelho, unhas contra jeans, apertando o incômodo embora. Ela ergueu o rosto e encontrou dois pares de olhos a encarando com expectativa.
- Que foi? — Ela perguntou como quem morde.
- Você ouviu a minha pergunta, S?
- Não. Eu costumo me desligar quando você começa a tagarelar, Fabray. — Quinn revirou os olhos, Brittany apertou o joelho da morena e Santana suspirou em derrota. — O que você quer saber, Q?
- Eu perguntei se você viu o seu pai por aí.
- Meu pai? Por que eu teria visto o meu pai por aí?
Santana podia sentir o tom de voz querendo subir, o ânimo querendo esquentar e os dedos de Brittany impedindo; o melhor antídoto contra ela mesma.
- Porque ele está aqui, no hospital. — Os olhos de Santana se arregalaram e Quinn continuou: — Parece que a Sylvester pediu uma segunda opinião numa transferência.
- E por que justo pra ele? Não existe outro médico nesse fim de mundo?
- Até existe, mas ele ainda é o melhor do estado na área dele.
- Que não atua há mais de um ano! Acho que um residente seria uma opção melhor.
- Você sabe que isso não é verdade, S.
- Ugh, eu sei, eu sei. — E, virando-se para Brittany: — Isso não é uma tempestade, é uma porra de uma monção.
Brittany não disse nada. Ela apenas sorriu seus mil sóis e puxou a mão de Santana para o seu colo, desenhando círculos nas costas da mão morena. Santana quase podia sentir os nós de tensão se desfazendo no seu pescoço.
- O que houve, San? — Brittany perguntou quando Quinn se retirou da mesa.
- Britt?
- Você tá distante desde que a gente entrou no refeitório. Você não comeu nada, você mal participou da conversa e agora você não desgruda o olho da mesa. O que houve?
A médica respirou fundo, de olhos fechados. Ela os abriu novamente e se virou na cadeira, encarando oceanos azuis. Às vezes, Santana se esquecia como Brittany conseguia ler seus humores. Às vezes, Santana se esquecia de como as coisas pareciam mais fáceis depois de conversar com a namorada.
Namorada. Era exatamente essa a palavra que rondava a sua cabeça e que a grudava no lugar.
- Eu não sei, Britt. É que parece que... Ai, sei lá. Parece que todo mundo aqui sabe sobre a gente. Parece que tá todo mundo olhando pra mim, como se eles soubessem, sabe? Sobre...sobre mim. Acho que eu tô ficando doida.
- Não, San. Não tá. Eu passei por isso também. Mesmo depois que eu contei pros meus pais, eu andava na rua e tinha certeza de que todo mundo sabia. — Os olhos de Brittany não se desviavam dos de Santana, uma carícia sem toque. — E eu queria muito poder te dizer que isso vai passar logo, mas eu não posso. Isso depende só de você.
- E o que faço? Me tranco dentro de casa?
Uma risada amarga escapou da garganta de Santana e ela deixou a cabeça pender para frente, derrotada. Já tinha sido difícil o suficiente assumir para si mesma que ela amava Brittany, que elas estavam namorando, e agora ela precisava andar por aí olhando por cima do ombro, se perguntando se os seus sentimentos estavam escritos na sua testa, se era possível lê-los em cada um dos seus gestos.
Brittany apertou as suas mãos e Santana ergueu o rosto.
- Por mais que essa opção seja extremamente tentadora, porque é, eu não acho que ela vá resolver muita coisa.
Santana apoiou os cotovelos nas pernas e escondeu o rosto nas mãos com um gemido estrangulado. Aquilo começava a parecer mais uma brincadeira sádica. Talvez se ela se escondesse no Everest, ou no Pólo Norte, as coisas fossem mais fáceis.
Mas, aí, dedos se enterraram nos seus cabelos e ela sentiu unhas curtas arranhando de leve seu escalpo e ela se lembrou de porque tudo aquilo valia a pena.
Brittany.
Sua namorada.
A palavra, ainda tão recente que guardava um pouco do gosto estranho da falta de uso, colocou um sorriso em lábios grossos. Ela tinha Brittany e isso era o bastante.
- E o que você sugere, Britt?
- Nada. — Santana franziu o cenho e a loura riu de leve. — Não tem nada que você possa fazer, San, além de viver a sua vida. Uma hora essa sensação passa. Quanto mais confortável você se sentir, menos você vai ligar pro que os outros vão pensar.
- Qual é a pegadinha? Isso tá fácil demais.
- É fácil mesmo, simples. Mas só parece simples depois que passa.
- Eu acho que isso vai ser mais demorado do que eu tentando aprender a dançar tango. Umas quatro décadas, talvez?
Brittany riu baixinho e subiu as mãos pelas laterais das pernas de Santana, parando no meio das coxas dela. A loura tinha o corpo projetado para frente, seu hálito atingindo o rosto da médica. Um arrepio leve percorreu a pele morena quando olhos azuis se focaram nela.
- Eu tenho tempo. Eu não pretendo ir a lugar nenhum.
***
- Hum, San? Eu acho que o elevador é pro outro lado — Brittany falou olhando por sobre o ombro para onde ela sabia que a porta de metal interrompia o branco da parede.
- Eu sei, mas a gente não vai pra lá.
Santana andava rápido, seu mindinho enroscado no de Brittany carregava a loura junto com ela. A médica girava a cabeça em todas as direções a cada poucos passos. Seus olhos não se demoravam em nada, nem em Brittany. Ela escaneava cada porta, cada recesso, cada uniforme que passava por elas. Seu coração batia mais devagar do que há minutos atrás, mas ainda se agitava no peito; descompensado, descompassado. Ela ainda não tinha se acostumado com as emoções antagônicas que Brittany era capaz de lhe despertar, calma e ansiedade como se fossem duas correntes de um mesmo rio. O sorriso dela, um bálsamo; o toque, uma chama.
Sem interromper seus movimentos, Santana empurrou uma porta e levou Brittany para um dos quartos particulares do hospital. Assim que ouviu o trinco isolando o mundo do lado de fora, Santana respirou aliviada. Finalmente olhos azuis eram os únicos que olhavam para ela. E olhavam daquele jeito que estremecia a base da alma da médica.
- Eu queria ficar um pouco sozinha com você antes de voltar para o trabalho.
Brittany sorriu e puxou o corpo pequeno contra o seu, enlaçando a médica pelo pescoço. Santana abraçou Brittany pela cintura e inspirou longamente o cheiro da sua pele, deixando que a presença da loura a cobrisse como água de chuva. Ela tinha o rosto enterrado na curva de um pescoço pálido, as batidas do seu coração ecoando no peito colado ao seu, dedos arrancando tensão de dentro dos seus cabelos negros. Santana murmurava baixinho contra a pele de Brittany, tranqüilidade finalmente fluindo de dentro dela.
- Hum, San?
A voz de Brittany arrancou Santana do seu mundo particular e ela ergueu a cabeça, olhando para a namorada através de olhos enevoados.
- O que foi, baby?
- É... Quem é ele?
Uma ruga tinha sido cavada bem entre as sobrancelhas de Brittany e Santana acompanhou a direção do seu olhar, encontrando o homem deitado em cima da cama. Como ela sabia que encontraria.
- Esse é o sr. Gilmore. Elijah, essa é a minha namorada, Brittany.
- San? — Brittany ainda tinha confusão estampada no rosto, mas um sorriso tímido começava a aparecer. Ainda era doce demais ouvir Santana chamá-la de namorada.
- Ele morava numa casa se repouso, onde ele teve um AVC e foi trazido para cá. Ele está em coma desde então. O filho dele mora em Chicago e falou que o pai nunca quis sair de Lima e que ele queria morrer aqui. Ele vem quando pode e eu...eu me escondo aqui de vez em quando.
- Se esconde aqui? Por que?
- Às vezes, eu preciso de um pouco de silêncio. — A médica caminhou até a cama e ajeitou o lençol em torno do corpo inerte. — E eu gosto de conversar com ele. Eu sei que ele não vai me julgar. Não em voz alta, pelo menos.
Brittany caminhou até Santana e a abraçou por trás, seus braços enroscados ao redor da cintura dela e o queixo apoiado no ombro esquerdo.
- Prazer em conhecer você, Elijah. E obrigada por cuidar dela pra mim. Pode deixar que, fora daqui, eu assumo.
A voz de Brittany era solene e um sorriso enorme surgiu no rosto de Santana. Quando elas saíram do refeitório, ela não tinha tido a intenção de levar Brittany até aquele quarto. Mas agora ela estava feliz por ter compartilhado mais aquele pedacinho dela com Brittany. De alguma maneira, a loura sempre parecia conseguir fazer a médica se sentir absolutamente normal.
Santana se virou dentro dos braços de Brittany e a enlaçou pelo pescoço.
- Eu amo você, sabia?
- Que bom — Brittany respondeu depois de beijar a namorada. — Porque eu também amo você.
Brittany falava contra os lábios de Santana e suas palavras foram logo engolidas pela morena num beijo doce. Ela podia sentir Santana se derretendo em suas mãos, cada movimento da sua língua derrubando mais uma defesa da médica. Até o barulho agudo do pager dela invadir seus ouvidos.
- Acho que isso significa que o intervalo acabou.
- Infelizmente. Eu realmente odeio essa coisa, de vez em quando, sabia?
Brittany concordou com a cabeça e beijou Santana mais uma vez.
- Eu também. Mas, agora vem antes que eu te seqüestre dentro desse quarto.
Santana ainda sorria quando as portas do elevador se abriram no térreo. Ela tinha os olhos grudados em Brittany e quase não viu a pessoa que esperava do lado de fora.
- Papai.
Ela estacou no lugar, a voz saindo da garganta uma oitava acima do normal. Santana podia sentir uma das mãos de Brittany apoiada na base de suas costas, ancorando-a na realidade.
- Oi, Santana — os olhos do homem eram duros, a voz potente como tambor. Tempestade. — Eu não achei que eu fosse encontrar com você aqui.
- Eu trabalho nesse hospital, então...
- Claro, claro. É que eu não sabia se você estava na escala.
- Se essa fosse a única coisa que você não sabe — Santana murmurou
- O que você disse?
- Nada. Eu preciso atender um chamado e eu tenho certeza de que a Dra. Sylvester deve estar esperando por você. Vem, Britt.
Santana agarrou a mão que Brittany apoiara em suas costas e arrastou a namorada na direção da saída do hospital. Ela não olhou para trás. Nem quando Brittany apertou sua mão, nem quando o pai chamou seu nome. Ela marchava, todo seu ser concentrado na porta e em colocar o máximo de distância entre ela e o homem que a colocara no mundo. Ela não tinha pedido por nada.
- Tá tudo bem, San? — Brittany perguntou assim que elas saíram do hospital.
- Tá. É só que... Aghhh.
Santana grunhiu e enterrou os dedos nos cabelos, puxando os fios e se concentrando na dor que ela mesma causava e não na maneira como seu estômago se revirava desde que a porta do elevador se abriu. Brittany se mantinha por perto, mãos guardadas dentro dos bolsos da calça, tendo ler nos gesto da médica o que ela não dizia.
- Você quer conversar sobre o que aconteceu?
- Agora não, Britt. Eu preciso atender esse chamado e... Agora não.
- Tudo bem. Quando você quiser — ela falou dando um passo e fechando o espaço entre elas. — Eu vejo você amanhã?
- Eu ligo assim que eu terminar o plantão.
***
Chamar o restante do dia de Santana de tempestade seria atenuar a situação. Muito.
Depois que ela finalmente atendeu ao chamado que interrompeu seu momento com Brittany, os casos que passaram pelas mãos de Santana apenas se acumularam. Cada um mais longo do que o outro. Cada um mais cansativo do que o outro. Já era madrugada quando a médica conseguiu roubar alguns minutos no sofá da sala dos médicos, um café merecido aninhado entre suas palmas.
Ela tinha os pés jogados em cima de uma cadeira na frente do móvel e a cabeça estava jogada para trás, apoiada em almofadas gastas. As pálpebras dela começavam a pesar, o desgaste do dia cobrando o seu preço, quando ela ouviu a porta da sala se abrir. Santana se manteve imóvel, rezando para que a nova pessoa na sala a deixasse quieta. Mas quando o assento do sofá afundou sob o peso de outro corpo, a latina se viu forçada a abrir um dos olhos.
Quinn.
As duas médicas se mantiveram em silêncio por um momento, aproveitando o oásis que a sala oferecia para a loucura instalada do lado de fora da porta. Santana passava todo o seu dia em revista, era o que ela fazia quando Quinn se sentou ao seu lado. A conversa sobre o seu pai na lanchonete, a sensação de que todo mundo estava olhando para ela, sua conversa com Brittany, o momento no quarto de Elijah, o encontro com seu pai. Mas agora com a outra médica ocupando o mesmo sofá que ela, tudo em que Santana conseguia pensar era na maneira como ela tinha começado o dia no hospital, invadindo uma conversa que não era dela. Apenas para que Quinn não gastasse muito tempo prestando atenção nela.
- Desculpa.
A palavra fugiu da boca de Santana antes mesmo que ela tivesse tempo para registrar o pensamento. Ela nem se atrevia a olhar para a amiga.
- Pelo quê?
A resposta de Quinn não foi o que Santana estava esperando. Mas ela também não sabia exatamente o que esperar. Desculpas não eram constantes naquele arremedo de amizade e ela encarou os olhos de Quinn pela primeira vez desde que a outra mulher entrara na sala.
Quinn encarava Santana como quem espera a última frase de uma piada que nunca vem. E aquela constatação incomodou mais a morena do que o motivo que ela tinha para pedir desculpas, em primeiro lugar. Desde que Brittany entrara em sua vida, Santana começara a perceber como as suas relações eram quebradas, incompletas. Não apenas com os pais, mas com todas as poucas pessoas que a rodeavam. Santana não se permitia se mostrar inteira para ninguém. Além de Brittany, mais ninguém conhecia uma Santana inteira e é impossível ter um relacionamento completo com alguém pela metade.
- Pelo que eu falei mais cedo, sobre você e o detetive. Ele parece ser um cara legal e você merece ser feliz, Q.
- Ok, quem é você e o que você fez com a Santana? — Quinn perguntou rindo, mas Santana notou um brilho de gratidão nos olhos esverdeados.
- A mesma Santana de sempre, Fabray. Só...tirando as luvas de boxe, um pouco. Mais nada.
- Já que você tirou as luvas, posso fazer uma pergunta?
- As luvas continuam no meu colo, então é bom não abusar, Q.
- Você sabe que eu não tenho medo de você, né, S? — Santana apenas ergueu uma sobrancelha e Quinn sorriu. — Mas o que eu queria saber é, e você?
- Eu o quê? Você vai ter que ser mais específica.
- Bom, é que já faz um ano que o Rafa morreu e eu não vi você com ninguém desde então. Até a sua aliança você já tirou, S. Será que não tá na hora de conhecer outras pessoas?
Duas respostas antagônicas disputavam a atenção de Santana, dois caminhos paralelos e ela não sabia qual deles tomar. Por um lado, ela não tinha certeza se estava pronta para anunciar seu relacionamento com Brittany. Por mais que ela confiasse em Quinn, tudo ainda era novo demais, delas demais. Por outro lado, a médica havia feito uma pergunta direta e alguma coisa em Santana estava cansada demais de mentir.
Havia uma terceira opção.
- Eu meio que já conheci uma pessoa.
Não era a verdade completa. Mas também não era exatamente uma mentira. Talvez aquele fosse o seu caminho do meio até que ela se sentisse inteira.
- Quem?
- Você vai saber, Q. Na hora certa.
- Você sabe que eu odeio suspense, Santana.
- Eu sei — Santana respondeu com um meio sorriso.
- Tá bom, tá bom. Eu sei quando eu não vou conseguir arrancar nada de você. Só me responde uma coisa. Essa pessoa, ela te faz feliz?
- Muito. Ela me faz muito feliz. Mais do que nunca, eu acho.
- Então eu já gosto dela.
Quinn sorriu e, pela segunda vez no mesmo plantão, ela deixou para trás uma Santana perplexa. Aquilo estava começando a se tornar um hábito.
***
O inverno se aproximava rapidamente de Lima e um arrepio percorreu o corpo de Santana quando ela abandonou o calor do seu carro. Ela estacionara na frente do prédio de Brittany e os poucos passos que a separavam da porta deixaram a médica com músculos retesados.
Um sorriso pequeno ainda aparecia no rosto de Santana quando ela usava a chave que Brittany lhe dera semanas atrás. Parecia que uma eternidade separava aquele momento da realidade, um abismo entre a Santana de então e a Santana se agora. Ela podia sentir como a presença de Brittany em sua vida a transformava, quase como se Santana fosse um pedaço de argila que a dançarina moldasse em algo diferente, maior, melhor. Mas não era Brittany que alterava Santana. Ela era apenas o meio, o catalisador, o motivo que a médica precisava para mudar a si mesma. Para crescer na direção que ela queria.
A porta do apartamento de Brittany estava aberta — Santana sabia que estaria aberta — e uma música suave inundava o ambiente. Santana fechou a porta atrás de si e seguiu o cheiro de café e manteiga até a cozinha. Brittany terminava de arrumar um enorme prato na bancada e, quando ela viu a médica na porta, um sorriso lento, capaz de espantar todo o frio que tinha se infiltrado no corpo de Santana, se espalhou por seu rosto. Ela deu os três passos que as separavam e envolveu a namorada num abraço que discursava por ela. Santana enterrou o rosto na pele de Brittany e deixou que o cheiro a preenchesse, o stress do dia sendo substituído por uma espécie de languidez. Santana tinha tudo o que ela precisava bem ali.
Brittany colou sua boca a de Santana, lenta e profunda como mar sem ondas. Seus dedos soltaram os cabelos negros do rabo de cavalo e ela deixava que eles passeassem por ali, desfazendo os nós que tinham se formado ao longo do dia. As mãos claras escorregaram e se firmaram no pescoço moreno, acariciando atrás de uma orelha pequena. Ela se movimentava com a pressa de uma tarde mormacenta de domingo e Santana se sentia derretendo dentro daqueles braços.
- Com fome? — Brittany perguntou quando elas precisaram respirar.
- Morrendo.
- Então, vem, porque hoje eu consegui terminar o café antes de você chegar.
Santana sorriu suas covinhas e seguiu Brittany até a sala. A loura carregava o prato e duas canecas de café as esperavam na mesa de centro. Santana ocupou a ponta do sofá e chutou os tênis para longe enquanto Brittany se sentava ao seu lado, impossivelmente perto. A loura puxou as pernas de Santana para o seu colo e a médica usou o braço no móvel para apoiar as costas.
A refeição foi feita num silêncio cúmplice, as pernas de Santana servindo de apoio para o único prato que elas compartilhavam. Aquelas manhãs em que elas conseguiam se encontrar assim, sem pressa, depois do seu plantão, eram as mais especiais para Santana, como se elas fossem uma espécie de comprometimento entre elas. Uma começando o dia, a outra terminando. Era o encontro no meio do caminho, um relaxar e recarregar de baterias simultâneo.
Brittany deixou Santana no sofá para levar os utensílios sujos para a cozinha. Quando voltou, ela apoiou as mãos nos ombros da namorada, sentindo como seus músculos estavam duros como mármore. Ela começou a massagear os nós e Santana pendeu a cabeça para frente e um som entre um gemido e um grunhido nasceu na sua garganta. Brittany apenas sorriu e aumentou a pressão que fazia.
- O que aconteceu, San?
Santana não respondeu, sua mente concentrada demais nas sensações que os dedos de Brittany proporcionavam para conseguir formar palavras. Ela apenas torceu o pescoço um pouco para o lado, indicando que a pergunta fora ouvida, mas que Brittany precisava desenvolver melhor.
-Você tá mais tensa do que o normal. Encontrou com o seu pai de novo?
- Antes fosse isso — Santana respondeu endireitando o pescoço. Ela apoiou a cabeça no quadril de Brittany e puxou suas mãos, entrelaçando seus dedos. — Depois que você foi embora parece que a cidade inteira resolveu aparecer no hospital. Acho que eu só fui conseguir sentar de madrugada.
- Você não tava brincando com aquele negócio de tempestade, hein?
Santana apenas sacudiu a cabeça e Brittany beijou seus cabelos. Ela soltou suas mãos das de Santana e se moveu para o lado. Num movimento fluido, a loura passou seus braços pela cintura e por baixo dos joelhos da médica, erguendo-a do sofá. Um grito agudo ecoou quando Santana deixou de sentir as almofadas abaixo de si. Ela se enroscou no pescoço de Brittany.
- Eu ainda consigo andar, Britt.
- Eu sei — Brittany deu de ombros e Santana se agarrou mais a ela.
No quarto, Brittany colocou Santana no meio da cama como se ela fosse feita de vidro. Ela beijou a namorada uma vez e pediu que ela esperasse. Em seguida, ela desapareceu dentro do banheiro e voltou segurando um vidro de loção. Ela se ajeitou atrás do corpo de Santana, suas pernas circundando os quadris da outra mulher, e apoiou o pote ao seu lado. Ela removeu a blusa de Santana sem resistência, prendeu seus cabelos acima da nuca e espalhou creme na pele morena.
Um cheiro de flores invadia as narinas de Santana e a mesma música instrumental continuava tocando, como uma espécie de canção de ninar. Santana podia sentir o sono tomando seu corpo à medida que Brittany enterrava seus dedos em seus músculos. Ela estava prestes a dormir, ela mal controlava suas pálpebras, mas ela não queria. Santana queria sentir cada toque de Brittany em sua pele, a maneira como seus dedos deslizavam ao longo da sua coluna, pela extensão dos seus ombros, até a raiz dos seus cabelos. Ela queria ouvir Brittany murmurando um sorriso, sentir seus dedos tamborilando em suas costelas e escorregando até a lateral dos seus seios. Mas ela tinha sono e podia sentir sua cabeça pesando para frente.
Uma das mãos de Brittany deslizou ao longo da clavícula de Santana e puxou o corpo dela contra o seu.
- Melhor?
Santana assentiu contra o ombro de Brittany e se virou para encarar a loura.
- Muito. — Brittany sorriu e beijou Santana.
Santana ainda não conseguia entender como Brittany parecia se mover sem que ela percebesse, mas quando a médica abriu os olhos, a loura estava ajoelhada ao seu lado. Ela beijou Santana novamente e pesou sobre seu corpo até que a médica estivesse esticada sobre o colchão. Pairando acima da morena, Brittany sorriu e deslizou por seu torso até encontrar o cós da calça jeans. Em movimentos treinados, ela removeu a peça de roupa e a colocou de lado.
Santana sorria de olhos fechados. Ela queria observar as ações de Brittany, mas manter-se de olhos abertos exigia mais energia do que ela parecia ter. Ela confiava em seus outros sentidos para acompanhar os movimentos que a loura fazia. Mas quando algo que não parecia o corpo de Brittany a cobriu, Santana se sentiu obrigada a abrir os olhos.
- Hun, Britt? O que você está fazendo?
- Cobrindo você — a resposta soava como uma pergunta.
- Essa parte eu percebi. Mas, por quê?
- Porque está frio demais pra você dormir descoberta, boba. O que você achou que eu estava fazendo?
- Nada. — Santana podia sentir calor inundando suas bochechas.
- Santana Lopez! Você nem consegue ficar de olho aberto. Você acha mesmo que eu ia abusar de você nesse estado?
- Eu não preciso ficar de olho aberto.
Brittany riu e beijou Santana, que ainda tinha os olhos fechados. Ela se preparou para sair da cama, mas a médica a segurou pelo braço.
- Fica mais pouco?
— Não posso, amor. Eu já tô atrasada.
— Não se você for com o meu carro.
- Hã?
- Se você for com o meu carro, baby, você pode ficar mais um pouquinho comigo sem chegar atrasada.
- E você? Vai ficar a pé?
- Acho que eu não consigo levantar dessa cama hoje nem que eu tente.
Brittany se ajeitou na cama e abraçou Santana por trás, um braço jogado ao redor da sua cintura, seus corpos moldados como se não houvesse separação. Brittany tinha o rosto enterrado na nuca de Santana e podia sentir como os cheiros da sua loção e do xampu dela se combinavam numa mistura inebriante.
- As chaves estão dentro do bolso da minha calça.
- Eu recompenso você hoje à noite — Brittany falou próximo ao ouvido de Santana.
- Isso é uma promessa?
- Pode apostar que sim.
Brittany beijou o ombro de Santana e se levantou da cama. Ela pescou as chaves do carro da médica no bolso da calça dela e, antes que ela alcançasse a porta do quarto, Santana já dormia profundamente.
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