How To Mend A Broken Heart
28 Capítulo 28
Notas iniciais
Depois me contem o que vocês acharam...
Boa leitura!
Quando Santana tinha doze anos, ela fez o seu primeiro solo durante uma apresentação do coral da igreja que seus pais freqüentavam. Ela fazia parte do grupo há menos de seis meses, e era mais nova do que todos ali por vários anos, mas ninguém questionou a decisão do regente. A garota magricela, que chegava calada aos ensaios, que não fazia contato visual com quase ninguém, que tentava se esconder atrás dos outros cantores durante as músicas, tinha uma voz que parecia não caber dentro dela. Então, quando o regente anunciou que ela faria o solo principal da última apresentação do mês, não foi surpresa para ninguém — apenas para ela.
O grupo do qual Santana fazia parte era conhecido na cidade. Era um coral religioso, mas muitas pessoas de outras denominações vinham assistir às suas apresentações. Pensando nisso, eles começaram a fazer uma apresentação aberta por mês, no pátio em frente à igreja. Era uma espécie de apresentação para a comunidade, como o padre costumava chamar, e a audiência costumava ser bem maior do que a das missas que ele celebrava. A primeira apresentação tinha sido matéria do jornal local e, agora, a prefeitura tinha cedido equipamentos e um palco improvisado. Era um amadorismo cada vez mais profissional.
Margarida não cabia em si quando Santana chegou em casa com a novidade. Finalmente, toda a cidade poderia ver como a filha dela era talentosa. "A mais nova e já solista", ela costumava dizer a todos os conhecidos que encontrava. Foram inúmeras as ligações que a mulher fez para todas as pessoas que ela conhecia na cidade — ela simplesmente precisava ter certeza de que todos estariam lá para presenciar mais aquele triunfo da família Lopez.
Santana não tinha certeza de como se sentia diante da euforia da mãe. No dia em que ficou sabendo que seria a solista, tudo o que ela queria era chegar em casa e contar para os pais. Em sua cabeça, passava um filme de como eles a pegariam no colo apesar da idade, a abraçariam, a cobririam de beijos e diriam como estavam orgulhosos dela. Depois, eles repetiriam as mesmas palavras a familiares e conhecidos, olhando para ela com indisfarçável orgulho. E, no dia da apresentação, eles a admirariam no palco, embevecidos, como se ela fosse a única pessoa ali em cima, como se a única voz que eles conseguissem ouvir fosse a dela. Seu pai teria um sorriso no rosto e sua mãe secaria algumas lágrimas furtivas com um lenço. Ao fim, eles correriam até ela, a abraçariam novamente e sairiam juntos para jantar, sem se preocupar em conversar com os outros presentes, no restaurante que Santana escolhesse.
A fantasia tinha sido boa. Até Santana finalmente chegar em casa e contar para a mãe.
As primeiras frases que saíram da boca da mulher foram: "eu preciso comprar uma roupa nova" e "a gente precisa dar um jeito nesse seu cabelo". Desde a primeira cena, o filme da vida real não condizia com o que Santana tinha imaginado. E foi assim até que, finalmente, o dia da apresentação chegou.
Dentro da igreja, junto dos outros cantores, Santana andava de um lado para o outro como se aquele corpo não fosse dela. Uma corrente elétrica incendiava a sua pele e todos os sons pareciam abafados, como se ela estivesse debaixo d'água. Ela podia sentir o coração batendo acelerado e sua respiração descompassada. Ela estava nervosa.
A veste roxa que o coral usava para essas apresentações dançava ao redor das canelas da menina enquanto ela subia pelo corredor da nave principal. Ela sentia como se tivesse muita energia acumulada e fosse impossível ficar parada, mas toda aquela movimentação não estava ajudando. Ela podia sentir gotas de suor descendo por suas costas e se acumulando na linha dos cabelos escuros. Ela sabia que a mãe nunca a perdoaria se ela subisse naquele palco, com tantos conhecidos presentes, desarrumada. Era melhor tentar se sentar num dos bancos vazios, controlar a respiração e esperar até que o regente convocasse o grupo para a formação. Mas suas pernas tinham outra idéia e elas se mantinham em movimento mesmo sentada, o barulho do solado do sapato novo ecoando no vazio. Ela estava nervosa.
A fila de entrada foi formada e Santana não sabia o que fazer para conter a sua energia nervosa. Ela não podia mais andar em círculos, nem quicar os saltos contra o chão. Ela estava imprensada entre uma jovem de uns vinte anos e um senhor negro, com idade para ser seu avô. Eles estavam esperando o sinal para a entrada e ela se sentia sufocando. De repente, era como se alguém tivesse sugado todo o ar de dentro do prédio. Sua garganta doía e seus olhos queimavam. Uma dor aguda começava a se alastrar pelo peito e ela levou uma das mãos ao local, implorando para que seu coração agüentasse só mais um pouco. Ela estava nervosa.
Quando aplausos romperam o silêncio da noite do lado de fora, a garganta de Santana fechou e sua respiração ficou presa. Ela achou que fosse vomitar ali mesmo, na porta da igreja que sua mãe a fazia freqüentar toda semana. A jovem que ficava a sua frente na fila começou a se movimentar, mas Santana não conseguia. Seus pés não obedeciam aos comandos que recebiam e os sapatos — de um couro negro tão lustroso quanto os cabelos da menina — pareciam feitos de chumbo. Ela achava que nunca mais sairia daquele lugar. Mãos pesadas se apoiaram em seus ombros e a voz potente do cantor atrás dela sussurrava incentivos enquanto a empurrava na direção certa. A inércia a manteve em movimento até alcançar seu lugar no palco, mas ainda era muito pouco. Ela estava nervosa.
Os aplausos cessaram e o coral se posicionou — Santana, solista e menor membro, no centro da primeira fileira. O regente agradeceu a presença do público e se virou para os seus regidos. Era hora de começar. Antes mesmo da primeira nota, Santana encontrou sua mãe na platéia e foi como se um buraco tivesse sido feito dentro dela. Sua mãe não sorria. Ela a olhava com olhos de julgamento, como quem segura duas frutas nas mãos e escolhe qual está mais madura. A seu lado, apenas uma cadeira vazia; sem pai, sem sorrisos, sem lágrimas. A primeira música começou e Santana estava oca, cansada antes mesmo da largada. Ela estava nervosa.
E, então, chegou o momento para o qual todos os outros convergiram. Ela ouviu as primeiras notas da canção que ela havia ensaiado exaustivamente e, por um segundo, Santana achou que não fosse ser capaz, que sua voz estivesse presa no nó que tinha se formado em sua garganta. Porque ela tinha certeza de que nunca tinha se sentido tão nervosa em toda a sua vida. E nem nunca se sentiria daquele jeito novamente.
Mas Santana estava enganada, como costumam estar as crianças de doze anos sobre o para sempre. Porque o nervosismo que ela sentira naquela noite não se compara ao que ela sente no momento em que entra em seu novo apartamento, levando Brittany pelas mãos.
Aquela tinha parecido uma excelente idéia dez minutos antes, quando ela decidiu não parar o carro na frente do prédio de Brittany, como esperado. Alguma coisa dentro dela mandava que ela continuasse dirigindo. Alguma coisa dizia que aquela noite não devia terminar daquele jeito.
Ela sabia como a noite deveria terminar. Ela sabia como ela queria que a noite terminasse. Era o momento-fim, o momento que congregava todos os outros, o momento que ela queria desde o primeiro dia, mas para o qual ela nunca estivera pronta. Não como agora. Ela sabia que era a coisa certa, que elas eram a coisa certa. A coisa mais certa da vida dela, mas isso não era capaz de diminuir o nervosismo que navegava em sua corrente sangüínea e preenchia o seu corpo. Santana podia sentir seu coração batendo em cada centímetro de pele, pulsando contra os dedos pálidos que ela apertava entre os seus. Seu corpo inteiro parecia em brasa, como quando ela passava tempo demais na beira do lago, sua pele irradiando o calor acumulado do sol.
Dentro do apartamento que ainda parecia uma terra estrangeira para ela, Santana não parou até estar em seu novo quarto. Ela se movia rápido, como se precisasse ultrapassar logo algum obstáculo, como se Brittany pudesse desistir se ela demorasse tempo demais, como se Brittany pudesse sentir o gosto do nervosismo em sua boca se ela tivesse tempo para pensar.
Santana não esperou a porta do quarto se fechar antes de puxar Brittany pela mão e colar seus lábios nos dela, sôfrega. Ela usava as mãos para explorar cada pedaço do corpo esguio da dançarina, sempre em movimento, sem um segundo para dúvidas. Brittany pareceu surpresa com a impetuosidade da médica por um momento, mas aceitou a cadência da dança e tomou o rosto moreno entre as mãos, aprofundando o beijo.
Mas não é fácil sincronizar fogos que nascem de combustíveis diferentes e enquanto Santana parecia querer fazer uma cartografia mental do corpo de Brittany — arranhando, apertando, tocando, trazendo para ainda mais perto -, a loura mantinha as mãos no pescoço da médica, dedos enterrados em cabelos negros, como se aquilo fosse tudo que ela pudesse querer no mundo. Santana era toda labaredas e Brittany, uma única chama na noite.
Com a coragem e a impulsividade que só o nervosismo confere, Santana levou as mãos à barra da blusa que Brittany usava e começou a erguer o tecido. Ela sentia as mãos tremendo contra a peça de roupa e apertava ainda mais o pano entre os dedos. Até que os lábios de Brittany não estavam mais nos dela e dedos longos se fechavam sobre os de Santana, impedindo seus avanços.
- San? — a voz de Brittany não passava de um sussurro, o ar faltando em seus pulmões. — San?
Os segundos se esticaram até que Santana criou coragem para erguer os olhos. Ela podia sentir todos os seus sentimentos se acumulando entre o peito e garganta. Esse é o problema da inércia. Quando algo que está se movendo em alta velocidade é obrigado a parar de forma abrupta, tudo que está dentro dele parece que sai do lugar, se desestabiliza, estilhaça no chão e não se sabe mais o que é o quê.
Por isso Santana tinha se movido tão rápido desde que estacionara o carro. Porque se ela parasse para pensar no que estava acontecendo dentro dela, ela tinha certeza de que ficaria congelada, o nervoso se transformando em pânico. Ela podia sentir isso na maneira como sua garganta se fechava ao redor do ar que ela tentava forçar para dentro do próprio corpo; como suas mãos ainda tremiam, cerradas ao redor da blusa de Brittany; como seus olhos pareciam incapazes de se fixar nos olhos azuis que a encaravam. Tinham sido anos construído aquela armadura e agora Santana não sabia muito bem como se manter de pé, quando ela podia sentir seus pedaços caindo ao seu redor.
- Santana, você está tremendo! Está tudo bem?
As luzes da rua e o luar fraco mal iluminavam o ambiente, mas ainda assim Santana respondeu com um movimento de cabeça. Ela não confiava na própria voz naquele momento. Brittany sorriu para a silhueta que ela conseguia ver, apertou as mãos dela antes de soltá-las e deu alguns passos para longe de Santana. Ela puxou o ar asperamente quando perdeu o contato com a pele de Brittany, mas a luz suave da luminária que ficava ao lado do seu colchão iluminou o ambiente e Santana viu Brittany caminhando de volta para ela.
Dedos se moldaram ao seu rosto e Santana se inclinou na direção do toque, sentindo um pouco da energia nervosa que a consumia se dissipar no ambiente.
- O que tá acontecendo, San? A sua mão tá gelada — Brittany disse entrelaçando os dedos da sua mão livre com os de Santana. — Fala comigo.
Santana pensou em milhares de desculpas, diversas mentiras alinhadas na ponta da língua. Mas, quando ela finalmente abriu os lábios, depois de respirar fundo algumas vezes, tudo o que ela conseguiu dizer foi a verdade.
- Acho... Acho que eu tô nervosa.
- Por quê?
- É que a noite foi tão perfeita e eu tô com medo de estragar tudo. Mas eu quero tanto você, eu quero tanto que até dói. E faz tanto tempo e eu não sei--
Brittany engoliu o discurso desconexo de Santana com os lábios. Ela já tinha ouvido o bastante para entender o que estava acontecendo. Com o rosto moreno entre as mãos, Brittany encerrou o beijo e esperou que Santana abrisse os olhos. Ela ainda podia ver alguma ansiedade, algum medo, algum nervosismo boiando ali, como se todo o futuro delas dependesse do próximo passo.
- Sabe por que a noite foi tão perfeita? — Santana sacudiu a cabeça o melhor que as mãos de Brittany permitiam e a loura sorriu. — Porque a gente estava junta. É só isso que importa. Mais nada.
Um sorriso lento se espalhou no rosto de Santana quando as mãos de Brittany desceram pelo seu pescoço, ombros, braços, até que seus dedos estavam novamente entrelaçados. A loura deu o último passo, colando os corpos delas.
- A gente ainda vai ter muito tempo pra correr, se a gente quiser, San. Mas, hoje, não. Hoje eu não quero correr.
As duas sorriram e se encontraram no meio do caminho num beijo familiar e novo ao mesmo tempo. Ele era lento, deliberado, pouco mais do que um sugar de lábios. Brittany comandava o ritmo, tomando a boca de Santana como queria, sentindo a maneira como a pulsação da mulher ecoava contra o seu peito, dedos morenos e pálidos dando nós quando o desejo começava a se tornar maior do que elas.
Ao mesmo tempo em que a língua de Brittany invadiu a boca de Santana, ela colocou as mãos da mulher em suas costas, logo acima do quadril, e tomou o rosto dela com as suas. A dançarina estaria perfeitamente contente em continuar beijando a médica pelo resto da noite, apenas isso. Mas ela ainda precisava senti-la um pouco mais perto. Com uma das mãos espalmada na base das costas dela e a outra enterrada em cabelos escuros, Brittany puxou Santana contra o seu corpo, gemendo quando unhas curtas se enterraram em sua pele.
Até aquele momento, os braços de Santana estavam congelados na mesma posição em que Brittany os colocara, mas a maneira como seus corpos colidiram pareceu acordá-la de um transe. Ela apertou os braços de Brittany e descolou seus lábios. Quando olhos azuis se perderam em duas poças negras, não havia mais medo ou dúvida ali. Tudo o que Brittany conseguia ver era certeza. E desejo. Sem dizer palavra, Santana ergueu os braços. Era claro o que ela queria e Brittany sorria enquanto puxava o vestido da médica por cima de sua cabeça.
A peça escorregou pelos dedos de Brittany quando a imagem de uma Santana semi-nua entrou em foco. A luminária emprestava um brilho dourado à pele da médica, como se a luz não estivesse no quarto e sim dentro dela, um raio de sol engolido que agora vazasse. E a garganta de Brittany secou e se apertou quando ela se deu conta de que não estava mais diante da médica madura, da viúva que encarou o mundo de cabeça erguida, da mulher que se conquistou sozinha.
Não.
A Santana que se colocava diante dela era a mesma adolescente assustada que ela não conhecera, a mesma menina que não entendia o que estava acontecendo dentro dela e que só queria ter certeza de que era amada. Ela podia enxergá-la nos ombros levemente curvados, no olhar arredio, nas mãos que se fechavam em punhos, tentando controlar uma necessidade louca de se cobrir. Ali estava a Santana inteira, exposta, sem máscaras, sem subterfúgios, sem armaduras, sem muralhas. Brittany sentia como se aquela fossa a primeira vez que Santana a permitisse enxergar toda a sua vulnerabilidade. E toda a sua bravura, porque há força no silêncio. E ela teve certeza de que nunca havia visto nada tão belo em toda a sua vida.
Lentamente, como quem estica a mão para tocar um animal selvagem, Brittany tocou a pele de Santana com a ponta dos dedos. Ela deixou que suas digitais navegassem pela cintura dela até que toda a sua mão se preencheu de Santana.
Quando os dedos de Brittany tocaram sua pele, Santana ergueu os olhos para onde ela esperava encontrar os dela. Mas a loura observava, hipnotizada, o contraste entre seus tons de pele, a maneira como Santana se arrepiava com o contato. Havia algo de genuíno, algo de maravilhado na expressão de Brittany. Era como se tivessem lhe dado permissão para tocar o diamante mais precioso do mundo, do tipo que se protege com vidros blindados e intricados sistemas de alarme. E esse olhar, essa reverência, acalmou a revoada de asas no interior de Santana.
A outra mão de Brittany alcançou Santana um pouco acima do umbigo. Olhos azuis acompanhavam o movimento ascendente dos seus dedos, vacilando quando os músculos da médica se contraíram sob o seu toque. Santana relaxou e Brittany continuou sua exploração, sentindo o local onde suas costelas se encontravam, passeando pelo vale entre seus seios, seguindo a linha da clavícula, até lhe tomar, novamente, o pescoço.
O movimento dos seus dedos cessou, mas não o dos seus olhos, que continuaram se erguendo até encontrarem com os de Santana, grudados nela. Mais uma vez manhã e madrugada, calmaria e tempestade se chocavam e Brittany não era capaz de nomear todas as emoções que ela via se acumulando ali. Se ela tivesse que definir em uma só palavra o que ela via no olhar de Santana naquele momento, entrega seria o mais próximo.
Santana não confiava na sua voz naquele momento. A velocidade com que as coisas explodiam dentro dela deixaram a sua garganta apertada e ela temia que qualquer coisa que ela tentasse dizer não fosse passar de algo parecido com um ganido. Era melhor confiar em outra coisa, uma que não houvesse falhado ainda, não quando se tratava de Brittany. Porque, por mais que Santana tivesse tentado negar, seu corpo e o de Brittany sempre souberam se comunicar. Mesmo quando sua mente dizia que ela não devia querer aquilo, que ela não podia, sua pele, sua boca, suas mãos, tudo nela sabia o que era certo. Sempre soube.
Os olhos das duas mulheres se mantiveram colados e Santana tomou o rosto de Brittany com uma das mãos. Ela não fez menção de aproximar seus corpos, de fechar o espaço que as separava, de reiniciar o beijo que tinha sido interrompido. Tudo o que ela precisava era de uma âncora, de alguma coisa que a prendesse à Terra e que a fizesse acreditar que o que estava acontecendo era real.
Era.
- Meu Deus, você é linda — o sussurro de Brittany ecoava alto no silêncio do quarto.
- Britt...
- É sério, San — Brittany de um passo e colou seu corpo ao de Santana. — Eu acho que eu nunca conheci alguém como você.
O encantamento presente na voz de Brittany colocou um sorriso no rosto de Santana. Ela já tinha ouvido palavras parecidas antes, mas nunca envoltas em tanto carinho, nunca com tanta certeza no olhar, nunca quando ela já estava entregue.
Elas se olharam novamente e Santana engoliu o ar que Brittany expirara e seus lábios em um só movimento. Seu coração ainda arremetia contra seu peito com violência, como que querendo fugir da descarga de sensações, mas ela já não tinha mais a mesma urgência de antes, ela já não tinha medo de se mostrar vulnerável para Brittany. Exatamente porque Brittany estava ali e Santana sabia que a loura juntaria seus pedaços se ela se partisse. Ela parecia fazer isso desde o dia em que se conheceram.
Os lábios entreabertos de Brittany se encaixavam aos de Santana — parecia que eles tinham sido feitos para aquele espaço, assim como seus dedos para os vãos dos dedos dela. Brittany ainda tentava manter o ritmo lento que ela tinha iniciado, mas o calor da pele de Santana invadia o tecido fino das suas roupas e a esquentava por dentro. Suas mãos se movimentavam por conta própria quando apenas lábios e línguas não pareciam contato suficiente.
Os dedos de Santana não mais tremiam quando ela buscou a barra da blusa de Brittany. Ela ainda se sentia exposta, em carne viva, mas aquilo já não a assustava. E, dessa vez, a loura separou seus lábios dos de Santana e ergueu os braços, dando permissão. Ao mesmo tempo em que seus braços caíram, Brittany levou os dedos ao fecho da saia que usava, abrindo o zíper e deixando que a peça se embolasse a seus pés. Ela descalçou os sapatos e tirou tudo do seu caminho.
Santana ainda tinha os saltos nos pés e seus olhos estavam quase no nível dos de Brittany quando elas se encararam novamente. O corpo de Brittany estava ali, diante dela, mas Santana não parecia ser capaz de se desgrudar dos imãs azuis que a prendiam. Até que a loura fechou o espaço que as separava e a eletricidade gerada quando suas peles se tocaram forçou Santana a fechar os olhos. Ela tinha todos os sentidos mais aguçados do que jamais estiveram e, às vezes, era preciso bloquear um para sentir outro sem se partir ao meio.
E agora que Brittany tinha novamente os lábios nos seus, seios imprensados, barrigas coladas, Santana sentia que seus joelhos não a sustentariam por muito mais tempo.
Mas a mão forte de Brittany a apoiava, espalmada na base da sua espinha, enquanto ela deslizava a boca pela linha do maxilar de Santana. Depois de beijar atrás da orelha dela, Brittany desceu pelo pescoço, fazendo o caminho contrário do que ela tinha feito com os dedos. Ela podia sentir o osso da clavícula sob seus dentes, a elevação dos seios dela acariciando seu rosto, os músculos do abdômen firme se contraindo sob a sua língua, dedos se enterrando em seus cabelos quando a respiração da médica falhou.
Brittany estava de joelhos agora e as mãos que tinham circundado as costelas de Santana deslizavam pela lateral do seu corpo, numa sucessão de quadril, coxas, joelhos, panturrilhas, tornozelos. Ela podia sentir os olhos azuis acompanhando o movimento lento dos dedos da loura, gravando cada curva, cada pelo eriçado pelo contato. Santana era fortaleza e fragilidade naquele momento; o olhar de Brittany, carregado de desejo, inflando seu peito e o toque dela transformando seu chão em areia movediça.
Com um movimento seguro, Brittany desafivelou uma das sandálias que Santana usava e ergueu um pouco seu tornozelo para removê-la. A médica precisou se apoiar nos ombros de Brittany, seu coração batendo cada vez mais forte e ondas de calor se espiralando em seu corpo e se acumulando bem no meio dos seus quadris. Brittany removeu o segundo calçado e Santana sentiu quando dedos subiram pela parte posterior de sua perna, até a pele delicada de trás dos seus joelhos. Só então ela percebeu que tinha fechado os olhos novamente e os forçou a abrir, encontrando o olhar de Brittany preso no rosto dela. As pálpebras pesadas, as pupilas dilatadas e um tom de azul que anunciava tempestade. Elas sorriram ao mesmo tempo e Brittany ficou de pé num único movimento felino, tomando os lábios de Santana antes que ela pudesse registrá-lo.
Não havia mais como conter o vendaval que começou a ser formado antes mesmo de elas voltarem para o apartamento de Santana; antes de elas terem se beijado em público; antes de Santana ter se declarado, em cima de um palco, na frente de dezenas de completos estranhos; antes de elas terem tentado um encontro como qualquer outro casal; antes do ataque de ciúmes de Santana e da declaração de Brittany. Não. Esse era um vendaval que tinha começado a se formar antes mesmo da primeira vez em que os lábios delas se tocaram.
E agora seus beijos eram como forças da natureza: exigentes, selvagens, inquietos, urgentes. Era pele com pele. Eram lábios, línguas, dentes e saliva. Era o gosto salgado de suor. Era o coração pulsando em todo o corpo. Eram mãos e dedos passeando sem destino. Era cheiro de perfume, de terra, de pele, de desejo. Eram gemidos sem dono. Eram apenas duas mulheres descobrindo um novo território como quem descobre um segredo.
Brittany manobra o corpo de Santana e, com apenas alguns passos, as duas estão de pé sobre o colchão; a médica de costas para o que um dia será a cabeceira da cama. A loura tenta deslizar a boca pelo corpo de Santana, mas ela acompanha o movimento e as duas terminam ajoelhadas, de frente uma para a outra. A nova posição deixa as duas quase com a mesma altura e um gemido alto escapa da garganta de Santana quando ela sente os lábios finos de Brittany escorregando pelo seu rosto e descendo pela lateral do pescoço moreno. Os movimentos dela são lentos e Santana precisa enterrar os dedos nos cabelos louros quando ela sente dentes sendo cravados no lugar em que seu pescoço encontra com seu ombro. Ela sabe que aquilo vai deixar marca e a perspectiva coloca um sorriso satisfeito em seu rosto.
A exploração de Brittany continua e ela desliza a alça do sutiã de Santana por seu braço, abrindo caminho. Depois de raspar os dentes na curva final daquele ombro, Brittany começa uma viagem por uma clavícula, plantando um beijo molhado bem na depressão que une ossos e garganta. Passeando no sentido contrário, a loura puxa a segundo alça, terminando a sua exploração com uma mordida no queixo de Santana. Quando ela se aproxima para tomar novamente os lábios carnudos entre os seus, Santana se afasta um pouco e leva as mãos às costas. Ela mantém os olhos grudados nos de Brittany enquanto solta o fecho e deixa que a peça termine de deslizar por seus braços.
A imagem pareceu congelar Brittany. Ela tinha imaginado aquilo tantas vezes, que agora era difícil acreditar que a Santana que a encarava de volta, tão próxima, apenas de calcinha, era real. Brittany podia ver como o peito moreno subia e descia com dificuldade, como sua garganta se movia quando ela engolia em seco, como ela umedecia os lábios com a língua rosada, como ela procurava em seu rosto algum indício de que estava tudo bem, de que ela não tinha feito nada errado. E não havia nada que Brittany quisesse mais do que puxá-la pelos quadris e tomá-la em seus braços, mas era como se uma Santana nua fosse a sua medusa particular e agora ela era feita de pedra.
Até que dedos morenos tomaram um pulso pálido entre eles e Santana trouxe uma das mãos de Brittany até seu seio. Ela precisava daquilo, ela precisava daquele toque, daquela conexão que existia entre elas. Ela precisava que Brittany a segurasse porque ela se sentia solta demais, leve como dente-de-leão levada pelo vento. E ela manteve a sua mão sobre a de Brittany até que se sentisse firme o suficiente, até que um flash de entendimento iluminou os olhos azuis e seus lábios foram retomados pela loura.
Santana podia sentir seu corpo se movendo como as ondas que arrebentavam dentro delas; Brittany, seu litoral. Todas as suas terminações nervosas, todos os seus sentidos, tudo que ela tinha parecia apontar para um único ponto em seu corpo, uma única centelha que se acendera dentro dela. Era tudo tão novo, tão diferente e, ainda assim, ela se via movendo-se como se ela estivesse impregnada do que estava acontecendo desde sempre, como se só agora ela compreendesse inteiramente uma música que ela vinha cantando a vida toda. Sentindo a pele quente de Brittany contra a sua, os dedos dela explorando o seu corpo, Santana estava, finalmente, em casa.
Depois de uma vida inteira de perguntas demais e respostas de menos, Santana tinha se acostumado com a cacofonia constante que era a sua cabeça. Era quase uma segunda natureza e uma maneira de não ter que ouvir a vozinha solitária que vivia dentro dela e que costumava dizer as coisas que ela não queria ouvir. Mas, naquele momento, sentindo os seios desnudos de Brittany contra os seus, havia apenas o som do silêncio dentro dela. E Santana entendeu que a loura que a beijava, que parecia querer fundir seus corpos, que a tocava com um misto de ternura e luxúria, era a resposta para todas as perguntas que tinham flutuado em sua mente todos esses anos. Com um sorriso enorme, covinhas em plena exposição, Santana se deitou na cama, olhos negros grudados em olhos azuis.
Como se a corrente que as unia houvesse encurtado desde que elas chegaram ao apartamento, Brittany seguiu o movimento de Santana com o próprio corpo, usando os braços para se equilibrar sobre a morena. Ela queria perguntar se estava tudo bem, se Santana estava certa do que elas estavam fazendo, se ela não estava indo depressa demais, mas ela não parecia ser capaz de arrancar as palavras de trás daquele nó que havia se formado na sua garganta; o momento sagrado demais e o quarto silencioso demais para ser inundado por qualquer idioma que fosse.
Mas a melhor parte de se conectar com outra pessoa, de verdade, de um jeito que parece que faz a sua vida inteira ter sentido, de um jeito que liberta exatamente quando aprisiona, é que as palavras se tornam supérfluas. O corpo inventa um novo dialeto, conversas inteiras num piscar de olhos e Santana podia ouvir todas as perguntas que turvavam o azul dos olhos de Brittany. Ela conseguia escutar a vontade, a ansiedade, o nervosismo, a incerteza. Ela podia ver o coração imenso da loura batendo na pupila dela, tão próximo da superfície que Santana tinha certeza de que, se esticasse as mãos, ela poderia tocá-lo.
E foi o que ela fez, esticou uma das mãos e tomou o rosto de Brittany entre os dedos. Ela sentiu a outra mulher inspirar mais forte quando suas peles tocaram, como se aquele fosse o contato mais íntimo da noite. Com o coração batendo como louco dentro do peito, Santana fez que sim com a cabeça, sem saber se ela tentava tranqüilizar a si mesma ou à mulher que terminava de pousar em cima dela.
Brittany tinha total controle dos seus movimentos. Era algo de que ela sempre se orgulhara e algo que ela absolutamente precisava naquele momento, porque ela sentia que precisava manter em mente que aquela não era uma transa qualquer. Aquela noite mudava tudo entre elas. Sorrindo, ela se aproximou e beijou Santana. Era um beijo suave, calmo. Ela mantinha uma das mãos no pescoço moreno e a outra passeando aleatoriamente por cabelos negros, sustentando um pouco o peso do corpo. A ternura do momento contrastando com as roupas espalhadas pelo chão.
Com um último olhar para olhos quase negros, que queimavam como brasa, Brittany desceu seus lábios para o pescoço de Santana. Ela deixava que sua boca deslizasse pela pele morena como se tivesse acabado de receber autorização para explorar um território desconhecido, mapeando vales e montanhas, desenhando seu caminho de volta. Brittany era lenta, metódica; seus dedos abrindo caminho para lábios, línguas e dentes. Embaixo dela, Santana já não era mais capaz de pensamentos coerentes. Ela não passava de uma massa de músculos se contorcendo e pele em chamas.
A respiração pesada da latina preenchia o ambiente, pequenos gemidos encorajando Brittany a continuar sua exploração descendente. Santana ainda não se sentia confortável o suficiente para ser vocal nesse momento, então ela deixava que seu corpo falasse por ela; a respiração mais superficial e rápida, as costas arqueadas na direção do toque de Brittany, o joelho esquerdo dobrado para acomodar melhor o corpo da loura sobre o dela, as unhas curtas enterradas em costas pálidas quando a língua de Brittany encontrou um de seus seios.
Santana podia sentir Brittany em toda a sua volta, a envolvendo e a arrastando numa espiral de sensações. Ela sentia o peso do corpo da loura sobre o dela, mãos explorando as suas curvas, lábios grudados na sua pele, o cheiro dela viajando na sua corrente sangüínea. Tentar se concentrar em apenas uma sensação, pinçá-la e isolá-la era como tentar ouvir vinte auto-falantes ao mesmo tempo e decifrar cada música, cada nota, cada som.
Ela desistiu e se entregou à cacofonia de sentimentos, à coreografia de sons que Brittany arrancava da sua garganta.
Seus corpos suados deslizavam em conjunto, o gosto salgado da pele morena invadindo a boca de Brittany enquanto ela escorregava pelo abdômen de Santana. Relevo de costelas sob seus dentes, depressão de um umbigo em sua língua, elástico de uma calcinha preta entre seus lábios.
Quando se deu conta de onde estava, Brittany perdeu o fôlego. Ela corria a boca pelo vale formado entre os ossos da bacia, se deixando envolver pelo cheiro que inundava o quarto e criando coragem para encontrar olhos negros. Ela precisava ter certeza, absoluta, mais uma vez, de que elas tinham embarcado juntas.
Com um estalo, Brittany desgrudou seus lábios da pele de Santana e se ajoelhou entre as pernas dela, dedos enganchados nas laterais da peça, palma da mão apoiada no quadril. No segundo que levou para Santana abrir os olhos, Brittany registrou músculos tesos, respiração carregada, pele suada, lábios entreabertos, dedos esbranquiçados onde eles agarravam os lençóis, cabelos em desalinho. E, por fim, olhos piscando de volta para o momento delas. Eles eram nesgas de madrugada e desejo.
- Posso? — Brittany perguntou com a voz rouca.
A voz de Santana tinha se derretido no meio do calor que a consumia. Com um meio sorriso e o lábio inferior entre os dentes, ela deu permissão para que Brittany continuasse e removesse a última peça de roupa que a cobria.
Quem tinha os dedos trêmulos, agora, era Brittany. Ela se concentrava no movimento que fazia, na renda preta que descia por pernas torneadas, e não na visão que se descortinava a sua frente. Ela precisava se manter no controle. Pelo menos dessa vez, ela precisava não se sentir um garoto adolescente cheio de hormônios.
Com mais uma peça de roupa largada pelo chão, Brittany sobe novamente pelo corpo de Santana, mãos e boca alcançando o que podem, se embebedando novamente no cheiro e no gosto da mulher que se contorce no colchão. Ela deixa que seu lábio inferior passeie por canela, joelho, coxa, quadril; caminho imitado por seus dedos do outro lado, mas sem nunca se aproximar demais do lugar que ela mais quer. Tal serpente, a língua de Brittany dança por toda a extensão da barriga da médica, mordendo e sugando como lhe convém — os dedos enterrados nos seus cabelos garantem que esta tudo bem.
Os olhos de Santana não se deslocam dos movimentos que Brittany faz, ainda sem entender direito como ela é capaz de arrancar sensações do seu corpo que a médica nem julgava possíveis. Mas quando lábios se fecham em torno de um dos seus seios, uma língua displicente brincando com um bico rígido, a parte racional do cérebro de Santana entra em pane e tudo o que resta é instinto.
Instinto que a faz arquear as costas. Instinto que a faz agarrar os cabelos de Brittany com mais força. Instinto que a faz arremeter quadris em busca de fricção, pressão, alívio. Instinto que a faz gritar e gemer com uma voz que ela não conhece.
Um toque suave em seu rosto faz com que Santana abra olhos que ela nem tinha percebido que tinha fechado. E, pairando acima dela, Brittany a encara com ar solene. Ela tem reverência na ponta dos dedos que acariciam o rosto moreno e uma expressão de assombro em olhos que parecem ver em Santana a mesma resposta para todas as suas perguntas. Um sorriso lento se espalha pelo rosto das duas e quando Brittany retoma os lábios da médica nos seus é como se o mundo inteiro tivesse parado, congelado dentro daquele toque — quase como o ar parece grosso e pesado antes de uma tempestade.
Dois soluços surdos — gêmeos — ecoam no quarto quando Brittany descansa seu corpo no de Santana, seus centros como cera quente se encontrando; um nu, o outro coberto. O beijo se torna mais afoito, as mãos mais ávidas, à medida que o calor que nasce dentro delas se espalha, indomado.
Santana escorrega as mãos pelas costas de Brittany à procura de mais pele, de apoio, de uma maneira de trazer a outra mulher para mais perto dela. Quando seus dedos encontram uma textura diferente daquela que ela já passou a reconhecer como essencialmente Brittany, eles se prendem às laterais do tecido ao mesmo tempo em que ela toma o lábio inferior da loura entre os dentes e o solta com um estalo alto.
- Britt... — Santana ofega e espera que olhos azuis se abram. — Britt, eu quero...eu quero sentir você. Inteira.
Ela reforça o pedido com um pequeno puxão no tecido e Brittany parece entender. Santana ajuda a dançarina a empurrar a calcinha até que ela consegue usar apenas as pernas para removê-la completamente. Os movimentos são desengonçados, o espaço estreito e quando Brittany finalmente consegue, ela e Santana estão as gargalhadas diante do ridículo da situação.
A leveza do momento consegue acabar um pouco com a solenidade que as duas traziam nos rostos. Elas se olham mais uma vez, mas agora não há mais nervosismo flutuando logo abaixo da superfície, não há mais mão gelada e nem dedos trêmulos. Há só uma certeza quase adolescente de que, naquele instante, o mundo é perfeito.
Brittany se apóia no braço esquerdo e escorrega os dedos da outra mão pela lateral do corpo de Santana até encontrar a ligação entre pélvis e perna, a dobra de pele servindo como indicação de caminho. A respiração de Santana acelera à medida que digitais se aproximam e, naturalmente, ela abre ainda mais as pernas. Os movimentos de Brittany são longos, experimentando o novo relevo e passando ao largo do seu destino final.
Não há nada que Brittany queira mais do que substituir seus dedos por seus lábios e deixar que a sua língua explore os últimos segredos de Santana, mas não hoje. Não hoje, porque hoje ela quer ver a médica, ela quer gravar as suas expressões, cada nuance, cada sensação pintada no rosto moreno. Como a ruga entre as suas sobrancelhas que reaparece quando Brittany a provoca. E como seus lábios se abrem num círculo quase perfeito e seu pescoço se estica quando um dedo finalmente encontra lábios e nervos e umidade.
Os olhos de Santana se arregalam quando seta e alvo finalmente se encontram. Até aquele momento, ela tinha certeza de que não poderia se sentir mais preenchida por Brittany, mas agora a loura estava dentro dela, se movendo ao ritmo da dança delas, e Santana se sente completa.
Todo o corpo de Brittany se concentra numa única ação, cada músculo empenhado em um único movimento ao mesmo tempo repetitivo e aleatório. Era como se ela estivesse conduzindo uma escavação, um garimpo, uma busca. Mas ela não esperava encontrar ali pedras preciosas, artefatos antigos ou indícios de uma civilização perdida. Brittany espetava arrancar de dentro de Santana ela mesma, a mulher que ela enxergava cada vez que a médica permitia que as suas muralhas cedessem um pouco e ela se perdia nos olhos negros mais expressivos que ela já tinha conhecido. A mulher que ela enxergava nesse momento.
E é essa mulher que grita em silêncio quando uma explosão branca a cega.
O corpo inteiro de Santana se retesa; costas arqueadas, pulmões paralisados, músculos congelados, corda de instrumento esticada demais. Mas, então, ela volta a relaxar nas mãos de Brittany. Seu corpo inteiro toca novamente o colchão, seu peito se expande com o ar pesado, braços e pernas se derretem como parafina aquecida. Pequenos tremores ainda a sacodem, enquanto uma sensação lânguida e vivaz toma conta dela, algo como a memória do que ela nunca viveu.
Brittany ainda se move lentamente, arrancando do corpo de Santana suas últimas fagulhas. Ela afaga o rosto moreno com a ponta do nariz, engolindo o cheiro de floresta que Santana exala e que agora não tem máscaras. Assim como a própria médica, que abre olhos quase negros — límpidos — diante dela, vulnerável e íntegra. Um sorriso tímido colore seus lábios quando ela toma o rosto de Brittany com uma das mãos.
- Oi — Brittany diz num sussurro.
- Oi.
As duas permanecem imóveis por alguns momentos, se admirando, se estudando, procurando alguma manifestação externa do que mudou por dentro. Mas não há e Brittany cede o controle ao seu corpo mais uma vez, tomando os lábios de Santana entre os seus. É um beijo lento, recheado de tudo o que transborda delas. A médica pode sentir o gosto salgado da sua pele na língua de Brittany e, logo, pequenas gotas de calor voltam a se acumular em seu ventre.
Brasas se transformam em labaredas e não demora muito para que Santana e Brittany voltem a se mover em uníssono.
***
O sol já pintava o céu de Lima com tons de rosa quando, finalmente, Santana aninhou a cabeça no ombro de Brittany e elas adormeceram. Seus corpos se misturavam, membros em nós, suadas, cansadas, saciadas e plenas.
Não era a primeira vez que Santana passava a noite no seu novo apartamento e, pouco antes de adormecer por completo, quando Brittany a puxa mais contra si e suspira longamente, Santana tem certeza de que é assim que ela gostaria de passar todas as próximas noites.
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