Notas iniciais
Fala, povo!!! Todo mundo refeito do final de Avenida Brasil ontem??? Então, lá vai capítulo novo das nossas meninas preferidas.
Ah! Muito obrigada pelos comentários fofos de vocês no último capítulo. Eu fiquei com uma cara seriamente de panaca lendo o que vocês escreveram...

Ela não tinha conseguido apagar aquele sorriso idiota do rosto desde que tinha terminado o plantão. Era patético, ela sabia, mas a simples perspectiva de ver Brittany por alguns minutos era suficiente para deixá-la com um sorriso grudado no rosto como uma participante de um concurso de miss. Simplesmente patético.

E Santana teria pensado mais sobre isso se ela já não pudesse ouvir alguns acordes abafados vindos do estúdio em que ela sabia que encontraria Brittany. Ainda era início da manhã e o movimento de carros na rua era fraco enquanto a morena atravessava as pistas com pressa, equilibrando dois copos de café nas mãos. A cada passo que ela dava, o som parecia ganhar vida e alargar ainda mais o sorriso que ela já tinha na face. Mais um pouco e ela duvidaria de que fosse conseguir removê-lo dali tão cedo.

A música parou de tocar e Santana aproveitou o momento de silêncio para bater à porta, já que o horário de aulas ainda não tinha começado. Ela pôde ouvir um par de vozes do outro lado e alguma coisa pareceu bater asas dentro do seu estômago. Seus músculos pareciam cera quente, derretendo e se fundindo a ossos cada vez mais instáveis. Mas, ainda assim, aquele sorriso idiota continuava grudado no seu rosto.

Santana olhava para os pés quando ouviu o barulho metálico da fechadura e sentiu o ar se movimentando ao seu redor. Antes que seu estômago tentasse fugir do seu corpo, ela inflou os pulmões e ergueu a cabeça, encontrando olhos negros rasgados num rosto masculino. O sorriso dela diminuiu um pouquinho.

- Oi. Er... Você deve ser o Mike, né? Eu...

- Dra. Santana Lopez, certo? — a mulher lhe lançou um olhar questionador e o homem se apressou a completar: — A Britt fala muito de você.

O que antes era apenas um par de asas voando dentro de Santana ganhou companhia e agora ela sentia como se tivesse engolido um bando inteiro de pássaros e eles estivessem organizando a sua fuga. Por um lado, era bom saber que Brittany falava dela para o Mike a ponto de ele reconhecê-la. A loura sempre pareceu ter uma grande consideração pelo amigo e Santana lhe era grata por ele ter protegido Brittany quando ela precisou. Mas ela não podia evitar questionar exatamente o quê ela teria falado para ele.

Santana confiava em Brittany. Ela queria, mais do que qualquer outra coisa, confiar em Brittany. Mas quando se passou uma vida inteira desconfiando até da própria sombra e olhando para trás por cima do ombro, confiança não é um sentimento que venha com facilidade. Uma sombra de pânico escureceu os olhos castanhos e seu rosto endureceu em volta de um sorriso plastificado.

- E o que...

- Santana!

A pergunta da médica foi interrompida por uma Brittany que entrava correndo na recepção. Ela tinha os cabelos presos num coque e as bochechas um pouco mais rosadas do que o normal, prova de que os dois deviam estar ensaiando. O que explicaria, também, o azul cintilante que ela tinha nos olhos e o sorriso escancarado. Santana não sabia como, mas Brittany conseguia acalmar seus pensamentos apenas com a sua presença.

- Bem que eu achei que tivesse ouvido a sua voz. O que você está fazendo aqui a essa hora?

- Saí do hospital pilhada demais pra conseguir dormir. Eu lembrei que você disse que ia ensaiar a coreografia nova antes das aulas e pensei em passar aqui para assistir. Tem problema?

Brittany observava Santana com um sorriso de deleite no rosto. Ela parecia criança em manhã de Natal, sentada em baixo da árvore e cercada de brinquedos novos. Os músculos do rosto de Santana doíam um pouco e ela sabia que devia ter um sorriso do mesmo tamanho no seu rosto. De frente para Brittany, era inevitável.

- Problema nenhum, né, Britt? Na verdade, acho que a gente dança melhor quando tem platéia. Vamos?

Mike deu as costas para as duas mulheres que ignoravam completamente a sua presença.

- Esse café é pra mim?

- Oi? Ah, é, desculpa. É sim — Santana gaguejou antes de entregar o copo descartável para Brittany.

- Obrigada — a loura tomou um gole do café sem desviar os olhos se Santana. — Entra.

Santana seguiu Brittany pela recepção até a sala em que ela tinha visto a loura dançar da outra vez em que estivera ali. Ela ainda conseguia se lembrar do rosto calmo dela durante a coreografia, o abandono do corpo, o brilho nos olhos quando a música acabou. E, se naquela manhã, Santana tinha se perdido observando as fotos da dançarina em cima do palco, agora ela se perdia na cadência dos passos dela. Propósito e ritmo combinados em um único movimento fluido, como se ela dançasse mesmo quando não havia música.

Brittany indicou algumas cadeiras posicionadas no canto da sala e Santana se sentou, os olhos grudados na dançarina que atravessava a sala. Enquanto Mike terminava de mexer com o aparelho de som, Brittany assumiu posição perto da parede oposta a Santana. Ela tinha a cabeça baixa, um ar de concentração tingindo seu rosto, cada músculo sendo posicionado da maneira perfeita antes de entrar em movimento.

E, então, os primeiros acordes da música preencheram o ambiente.

Os movimentos fluidos como água de Brittany acompanhavam com perfeição a cadência da música e Santana se via, novamente, hipnotizada pela imagem. Ela e Mike se moviam em sincronia, se aproximando e se afastando como se compartilhassem a mesma mente.

De repente, a música acelerou e os acordes se tornaram mais fortes, quase violentos, e os movimentos do casal refletido nos espelhos acompanharam em intensidade. Eles se encontraram no meio da sala, dançando ao redor do outro sem se tocar, mas com os olhos grudados. Santana não saberia dizer se a maneira como eles se moviam, com movimentos fortes e deliberados, se parecia com um ataque de fúria ou com uma paixão avassaladora. Talvez os dois ao mesmo tempo.

E quando a música começou a desaceleração em direção ao seu ritmo inicial, Brittany e Mike interromperam os movimentos ao mesmo tempo. Eles sorriam um para o outro um sorriso cheio de satisfação e orgulho, de quem sabe que encontrou alguma coisa rara. Suas mãos se encontraram no ar com um estalo e eles se viraram ao mesmo tempo para a mulher que os observava com um pouco de assombro nos olhos. Brittany foi a primeira a quebrar o silêncio.

- A gente ainda não terminou, mas acho que dá pra ter uma idéia. O que você achou?

- Foi... — Santana alongou um pouco a palavra, procurando uma definição para o que não parecia ter nome. — Incrível, Britt. Foi incrível.

Um sorriso tímido despontou no rosto suado de Brittany e Santana achou que ela parecia adorável — ela parecia a menina de aparelhos nos dentes que a médica vira na foto com Holly Hollyday.

- Obrigada, San.

Uma conversa silenciosa entre os olhares das duas mulheres tomou conta do lugar. Elas se olhavam com tanta adoração, que qualquer palavra seria pequena para tentar exprimir o que emanava de uma e era recebido pela outra. Qualquer coisa fora daquela conexão parecia irrelevante. Até que Mike se movimentou desconfortável pela sala.

- Você também, Mike — a voz de Santana era pequena, quase envergonhada pelo momento que ela partilhara com Brittany. — Vocês dois estavam incríveis.

- Obrigado, doutora, mas os créditos são todos da Britt. Foi ela que criou a coreografia toda. Eu só embarquei na dela.

- Pode me chamar de Santana, Mike. Eu estou à paisana.

Não era comum que Santana dispensasse estranhos de usarem o título pelo qual ela tinha batalhado tanto e que costumava significar tudo para ela. Mas havia uma sensação de familiaridade tão grande naquela sala, que lhe parecia estranho ser chamada assim. Como se o título fosse uma chacota, uma lembrança do que ele deveria ter garantido a ela e falhara. Como se ele a devesse fazer se sentir grande, poderosa, mas só conseguisse diminuí-la mais ainda.

- Muito bem, então. Santana — os dois trocaram um sorriso pequeno observados por Brittany, que exultava diante da interação entre as duas pessoas mais importantes em toda a cidade para ela. — Eu vou aproveitar que você está aqui para fazer companhia para a Britt e vou preparar algumas coisas para a minha primeira aula.

Com a frase, ele deu as costas para duas mulheres e caminhou até o aparelho de som, deixando que o universo particular de Brittany e Santana ganhasse contornos novamente.

Brittany encarou as costas de Mike por alguns segundos e, quando ela se voltou novamente para Santana, seu meio sorriso e o brilho travesso que ela tinha nos olhos combinavam de uma maneira que fazia o interior do corpo da médica parecer ser feito de ar. Ela estendeu uma mão pálida de dedos longos, que foi prontamente enlaçada por outra, morena. Sem dizer palavra, Brittany levou Santana em direção a uma das portas laterais da sala de aulas principal.

Depois que a maçaneta cedeu à pressão de Brittany, os movimentos foram tão rápidos que Santana mal se deu conta do que estava acontecendo até estar com as costas contra o lado de dentro da porta e os lábios de Brittany contra os seus. A loura tinha os dedos enterrados nos cabelos de Santana e as mãos da médica logo encontraram seu caminho até as costas da outra mulher.

Era um beijo recheado de urgência, de fome. Os movimentos delas eram bruscos, quase violentos, suas mãos se agarrando como podiam e tentando diminuir ainda mais o espaço inexistente que havia entre elas. Não era um beijo-pedido, era um beijo-ordem.

Quando elas finalmente se separaram, sem fôlego, seus peitos subiam e desciam com dificuldade. Elas respiravam o ar que a outra exalava e Santana se sentia quase bêbada; tendo uma overdose de tudo que era Brittany. Seus ossos pareciam que iam derreter conforme o calor da loura aquecia seu corpo e ela se sentiu feliz por ter seu peso sustentado pela porta. Mais um pouco e ela correria o risco de virar uma poça aos pés de Brittany.

As mãos em suas costas desenhavam pequenos círculos displicentes e Brittany suspirou de satisfação com o carinho natural e espontâneo. Ela trouxe as mãos do pescoço de Santana até seu rosto, traçou um dedo abaixo de um olho negro ainda fechado e puxou a mulher para mais um beijo. Rápido, suave, fugaz. Apenas porque ela podia. Apenas porque lhe era permitido.

- Eu queria fazer isso desde ontem.

A voz de Brittany não passava de um sussurro e Santana mais sentia a vibração das palavras contra sua pele do que ouvia seu som. Um sorriso surgiu em seu rosto e ela abriu os olhos, encontrando as contas azuladas tão próximas dela que era possível contar quantas fagulhas douradas elas traziam.

- Eu também. — Um olhar perturbado apareceu no rosto de Santana quando ela se lembrou da noite anterior. — Desculpa.

Brittany afastou um pouco o rosto, estudando com atenção a expressão contorcida que substituíra o sorriso aberto de Santana. Suas mãos caíram para o pescoço da latina e ela traçava um dos dedos pela linha do maxilar dela antes de voltar a falar.

- Desculpa por quê, San?

- Pela maneira como eu reagi quando a Quinn apareceu.

- Você não tem que me pedir desculpas, Santana.

- Mas eu tenho — a voz da médica morreu entre um choramingo e uma súplica.

- Não, não tem. A gente não precisa seguir as regras de ninguém além das nossas — Brittany continuava com os movimentos pelo rosto de Santana e ela se inclinava mais na direção do carinho. — E se você não está pronta pra ninguém saber o que a gente tem, não tem problema. Contanto que eu tenha você assim quando a gente estiver sozinha.

Santana soltou uma risada pequena, misturada a um suspiro de alívio. Brittany mal viu quando sua cabeça balançou para cima e para baixo discretamente, mas o sorriso que se abriu no rosto moreno aqueceu o peito da loura. E, apenas para selar a promessa de que não havia necessidades de desculpas, Brittany puxou Santana para um abraço apertado. Ela sentiu quando braços se agarraram com mais força as suas costas, mãos pequenas tomando sua blusa como corda de segurança.

Brittany apoiou a bochecha nos fios negros e inalou o perfume da mulher. Seus corpos estavam colados, cada parte de uma encontrando seu gêmeo do outro lado. Uma simetria estranha que começava a ter cheiro de casa.

- Eu acho que a gente devia ir no cinema.

As palavras de Brittany foram murmuradas contra os cabelos de Santana, as vibrações atingindo em cheio o coração dela, que se afastou apenas o suficiente para ver o rosto de Brittany enquanto ela falava. A loura tinha uma expressão serena no rosto, um sorriso pequeno enfeitando os lábios.

- Srta. Pierce, você está me convidando para um encontro? — Santana perguntou com uma expressão afetada no rosto.

Brittany nem se preocupou se Mike poderia ouvir sua gargalhada diante da expressão de Santana. Depois de todas as conversas complicadas que elas tinham tido, depois de ver o pânico estampado nos olhos dela na noite anterior, era bom vê-la tão tranqüila. Brittany gostava da Santana séria, mas ela era louca pela Santana com senso de humor.

- É o que as pessoas costumam fazer, não é?

- É — Santana sorriu. — E eu vou adorar ir ao cinema com você.

***

Uma das vantagens da parte da noite de um plantão no meio da semana em um hospital de uma cidade do tamanho de Lima é que ele é tranqüilo. A grande desvantagem é que ele é tranqüilo demais. Não que Santana esteja correndo para um dos quartos vazios para colocar um pouco do seu sono em dia — a idéia de ir ao cinema com Brittany no dia seguinte ainda é suficiente para fazer com que seu cérebro pareça que não vai desligar nunca mais -, mas os últimos atendimentos foram simples e arrastados. Ela precisa de mais.

Olhando para os lados, Santana tem certeza de que o resto da equipe não compartilha da necessidade dela. A maioria caminha lentamente pelos corredores, um sorriso preguiçoso instalados nos lábios, se reunindo em pequenas rodas de conversa. Uma coisa que todo médico de emergência aprende no início da profissão é a aproveitar os raros momentos em que tudo parece calmo e no lugar. Esses instantes costumam ser breves.

E é o que Santana costuma fazer. Normalmente, em noites até um pouco mais movimentadas do que essa, ela pode ser vista roubando alguns minutos de cochilo em alguma maca vazia ou demorando mais do que o normal no refeitório, perdida demais dentro de qualquer livro que ela esteja lendo. Apenas o som do pager pendurado no cós da sua calça é capaz de tirá-la daquela bolha.

Mas não hoje.

Hoje, Santana se pega caminhando em direção à recepção principal, lendo fichas de pacientes, procurando seu próximo atendimento. Algumas enfermeiras a olham com descrença, mas ela prefere ignorar a maneira como elas apertam os olhos quando ela sai dali com uma ficha nas mãos. A leveza que ela tem no passo ao se dirigir à próxima paciente é uma coisa que ninguém daquele hospital pode lhe tirar.

Do outro lado da cortina, Santana encontra uma jovem morena, de olhos castanhos e não mais do que vinte e dois anos. Ela se senta com as pernas cruzadas sobre a maca, os ombros ligeiramente curvados para frente e um roxo se formando no lado esquerdo da sua testa. Num banco ao lado da cama, uma garota mais ou menos da mesma idade a observa com uma das mãos apoiadas no joelho dobrado dela.

As duas meninas erguem os olhos ao mesmo tempo quando reconhecem a presença de Santana no ambiente. Ela dá uma rápida olhada para a prancheta que tem em mãos antes de si dirigir a elas.

- Boa noite, Srta. Douglas. O que aconteceu?

- Eu escorreguei e bati com a testa no armário da cozinha, hoje de tarde. Mas eu estou bem. A Dani é que é preocupada demais.

- E com toda razão. Uma pancada na cabeça não é nenhuma brincadeira — Santana notou o leve sorriso no rosto da outra mulher ao ter a sua atitude aprovada pela médica. — Depois que você bateu a cabeça, você perdeu os sentidos?

- Não.

- Ok. Tontura? Náusea? Dor de cabeça?

- Não.

- Sim.

Santana observou enquanto as duas mulheres se encararam por um instante, um diálogo silencioso sendo travado entre elas. A médica precisava ter todas as informações sobre o caso, mas ela estava curiosa para saber quem iria vencer aquela disputa de vontades. Finalmente, a paciente sobre a cama grunhiu e jogou as mãos sobre os olhos, enquanto a amiga se levantou atrás da cama e se dirigiu à Santana.

- Na hora, a Julia parecia bem. Mas, no início da noite, ela começou a se sentir bastante tonta e um pouco enjoada, sim. Por isso que eu arrastei essa teimosa até aqui.

- Pois fez muito bem — Santana falou com uma voz surpreendentemente suave. E, se virando para a paciente, continuou com mais seriedade: — Acho que você devia ouvir mais a sua amiga. Você pode ter uma concussão.

As duas mulheres trocaram um olhar cúmplice antes de entrelaçarem os dedos — da mesma maneira que a médica e Brittany tinham feito no estúdio, Santana pensou. Um sorriso doce surgiu nos rostos delas antes que Julia voltasse seu olhar para uma Santana levemente ausente.

- Ela é mais do que minha amiga, doutora. A Dani é minha namorada.

Havia tanta certeza na voz daquela garota, que era pouco mais do que uma adolescente, que Santana sentiu um nó se formar na sua garganta. De repente, depois de tudo o que ela havia se negado, depois de tudo do que ela havia fugido, ali estava ela, diante exatamente do que ela havia jurado que não queria. Do que ela havia imaginado que nunca poderia ter. Mais do que a certeza de quem elas eram, Santana invejava a certeza que aquelas duas meninas pareciam ter do amor que havia entre elas, uma coisa que a médica nunca achou que lhe seria permitido sentir.

- Desculpe, eu não sabia — voz de Santana estava ligeiramente trêmula e ela se ocupou reajustando o estetoscópio em volta do pescoço.

A médica terminou os exames ainda um pouco distraída, agindo puramente baseada no instinto construído depois de anos de profissão. Era como se seu cérebro tivesse sido dividido em dois. Uma parte se concentrava na paciente em questão, nos exames que ela sabia que precisava fazer, nas respostas que ela precisava obter. Mas a outra parte — aquela que não tinha freqüentado a faculdade de medicina — se ocupava em encarar as peças espalhadas de um quebra-cabeça que apenas agora começava a fazer sentido para ela.

- Muito bem — Santana recolocou a máscara profissional e cruzou os braços na frente do peito. — Daqui a pouco, uma enfermeira vai levar você pra fazer mais alguns exames e depois eu volto pra gente conversar, ok? Enquanto isso, descansa.

Antes de se retirar, Santana viu quando Julia se deitou e Dani se manteve ao lado dela, as mãos ainda entrelaçadas. Sua paciente tinha os olhos fechados e a namorada pairava acima dela, preocupação, amor e cuidado se misturando em sua expressão. Santana sabia que precisava ir embora, mas ela se sentia hipnotizada, grudada na mão que tirava fios de cabelo de uma testa sem rugas, presa nos lábios que se demoravam num beijo terno. Era como estar no meio de um sonho real demais, sem saber como acordar.

Quando ela começava a se virar para deixar as duas sozinhas, Dani ergueu a cabeça e seus olhos cruzaram com os de Santana por um segundo. Ela sorriu para a médica antes de voltar a sua atenção para a namorada.

Santana deu meia volta e caminhou em direção à sala dos médicos. Ela não se sentia bem; seu coração batia num ritmo acelerado e instável em seu peito e suas mãos suavam como se fosse verão. Ela precisava de um momento. Ela precisava respirar fundo, jogar um pouco de água gelada no rosto e enterrar no fundo da memória o que tinha se passado em sua cabeça enquanto observava aquelas duas meninas. Ela simplesmente não sabia o que fazer com ela mesma depois de ter se visto diante de uma coisa que, até alguns dias antes, ela nem tinha coragem de admitir que invejava.

Mas esse era exatamente o problema com ela. Santana ainda não conseguia admitir, não com tantas palavras, que ela queria exatamente o que aquelas duas meninas pareciam ter. Ela queria ter alguém que se preocupasse com ela com aquela ferocidade e ela queria ter alguém com quem se preocupar antes dela própria. Ela queria que alguém olhasse para ela com ternura e com amor, e ela queria que alguém fosse capaz de pintar aqueles sentimentos no olhar dela. Ela queria que alguém procurasse a mão dela quando sentisse medo e ela queria ter uma mão para segurar depois dos seus piores plantões. Santana não sabia, até aquele momento, que ela queria alguém.

Dentro do banheiro exclusivo dos médicos, ela jogou uma mão cheia de água gelada no rosto e se encarou no espelho pequeno. Ela se concentrava apenas na sua respiração e no rosto que a encarava de volta.

Santana podia reconhecer os traços do rosto, a estrutura óssea, o nariz, os lábios, os olhos. Até as olheiras discretas. Estava tudo igual a todas as vezes em que ela tinha visto o próprio reflexo e, ainda assim, algum coisa parecia diferente, fora do lugar. Aquela ali ainda era ela. Aquele ainda era o seu rosto. E o seu corpo. Mas tudo parecia novo, inexperiente, inexperimentado.

Com um último suspiro forçado, ela abandonou o banheiro e voltou para a sala comum. O cômodo recendia à café e a médica sentiu sua boca salivar. Era quase um ato condicionado, encher um copo com café quente cada vez que ela entrava naquela sala, mas, no seu atual estado, Santana sabia que não seria a melhor opção. Com uma careta e um revirar de olhos, ela se contentou com um copo d'água e se jogou no sofá por um momento. A noite continuava calma e ela resolveu se permitir descansar um pouco as pernas.

Distraidamente, Santana pescou o celular que ela tinha enfiado no bolso da calça. Nada como um jogo eletrônico idiota para ajudar a passar o tempo e desviar sua mente de coisas que ela não queria pensar. Mas quando ela iluminou a tela do aparelho, a indicação de que ela tinha uma nova mensagem fez seu coração dar uma pequena cambalhota. De repente seus movimentos ficaram menos precisos e Santana precisou arrastar o dedo pela tela três vezes até que conseguisse desbloquear o sistema e saber quem era o remetente. Um sorriso enorme se abriu quando ela leu: Brittany.

Café da manhã aqui em casa depois do seu trabalho? :)

O convite tinha sido enviado há menos de uma hora e foi o suficiente para que Santana esquecesse tudo o que havia acontecido desde que ela entrara naquele hospital. Sem precisar pensar sobre a resposta, ela apertou o botão de resposta e escreveu:

Ótima idéia. Quer que eu leve alguma coisa? ;)

O dedo que apertou enviar estava levemente trêmulo e Santana soltou uma pequena risada diante da sua reação adolescente. Ela agradecia a sorte de estar sozinha naquele momento — nenhum dos seus colegas precisava ver a cara de idiota que certamente devia estar estampada em seu rosto. Antes que ela pudesse guardar novamente o aparelho, uma vibração indicou que ela já tinha uma resposta.

Apenas você. Estou esperando e já estou com saudades. Bjs

O ritmo das batidas do seu coração, que ela tinha conseguido acalmar depois de muito tempo, voltou a acelerar com as palavras de Brittany. Seu estômago se encolheu e ela sentiu como se toda a sua pele estivesse borbulhando. Sem nem tocá-la, Brittany era capaz de fazer o cérebro de Santana entrar em curto-circuito e agora a médica se via lutando para conseguir juntar algumas palavras num pensamento minimamente coerente.

Não vejo a hora desse plantão acabar. Tb já estou com saudades. Bjs

E o restante do plantão passou como um borrão para Santana. Pacientes e diagnósticos se misturavam em sua memória agora que ela caminhava pelo estacionamento em direção ao carro. Ela sabia que fizera o seu trabalho direito, mas a maior parte do seu cérebro estava simplesmente ocupada demais pensando em Brittany para guardar qualquer outra informação depois do convite que a loura fizera.

Parada num sinal perto do apartamento de Brittany, Santana aproveita para se olhar pelo espelho retrovisor — ela saíra com tanta pressa do trabalho que mal tivera tempo de se arrumar. Qualquer traço de maquiagem que ela pudesse ter no rosto desapareceu e as marcas escuras embaixo dos seus olhos a deixariam com um aspecto terrivelmente cansado, não fosse aquele sorriso idiota que insistia em não desaparecer. E, se a maneira como os músculos do seu rosto pareciam um pouco mais cansados do que o normal era alguma indicação, ele já devia estar ali há algum tempo e ela não tinha nem notado.

As ruas de Lima não costumam ser movimentadas, especialmente àquela hora da manhã, e, antes que ela percebesse, Santana já se encontrava virando a esquina e entrando na rua de Brittany. Depois de estacionar o carro alguns metros além do prédio, Santana se olha mais uma vez no espelho e considera se devia ou não usar alguns dos produtos de maquiagem que ela costuma manter na bolsa. Com uma risada baixa e um movimento de ombros, ela acaba decidindo que não há necessidade. Pela primeira vez, ela encontrou alguém para quem ela quer se mostrar de verdade, não a personagem, não a armadura impenetrável. Mas a mulher que acabou de sair do trabalho e tem alguns fios de cabelo escapando do rabo de cavalo e olheiras sob os olhos e um sorriso bobo na cara. É essa a Santana que ela quer que Brittany conheça.

A cada passo que ela dá em direção ao prédio de Brittany, Santana sente uma energia nervosa tomar conta dela. Não faz muito tempo que ela esteve naquele endereço pela última vez, mas é como se agora tudo tivesse mudado. Como se o que ela tinha confessado à Brittany na manhã do seu último plantão e o que a loura tinha lhe dito no estúdio apenas alguns dias antes, tivesse mudado a maneira como ela chegava até ali. Ela não sabia mais, exatamente, onde estava pisando. E isso a preocupava e animava em iguais proporções.

De frente para o painel com o interfone, Santana não pôde conter o sorriso que cresceu diante dos desenhos feitos ao lado do nome da loura: um coração, uma estrela e alguma coisa que se parecia demais com um pato. Aquilo era tão Brittany que o nervosismo que ela sentia diminuiu um pouco. Seus dedos já nem tremiam de antecipação quando ela tocou o interfone.

- Santana!

A voz de Brittany veio carregada pelo vento de vários metros acima dela e Santana desceu alguns degraus da escada para vê-la se debruçando na janela, o cabelo caindo em desalinho e escondendo uma parte do sorriso enorme que ela tinha.

- Pensando em virar Rapunzel, Britt?

A resposta foi uma sonora gargalhada e Santana sentiu como se tivesse acabado de marcar um gol, touchdown ou coisa parecida. Fazer Brittany sorrir era seu novo objetivo de vida e ela tinha acabado de marcar um ponto importante.

- Eu gosto mais da Bela — ela respondeu como se a resposta fosse absolutamente óbvia. — Pega.

Santana viu quando Brittany deixou algo cair da janela na calçada a sua frente. O objeto quicou algumas vezes, o barulho de metal preenchendo o movimento, antes de parar alguns centímetros a sua esquerda. Era uma chave prateada, pequena e comum, uma das pontas um pouco amassada por alguma queda. Ela ainda olhou para cima mais uma vez, mas Brittany já tinha desaparecido dentro do apartamento. Sem outra alternativa, Santana pegou a chave e entrou no prédio.

Do lado de dentro, Santana escolheu subir os poucos andares pelas escadas para dispersar o restante da vibração elétrica que percorria seus músculos.

Uma onda de calma nova se quebrava no litoral do corpo dela a cada degrau que ela subia, um alívio tranqüilo inundando seus pulmões. De frente para a porta entreaberta do apartamento de Brittany, Santana se afogava em paz.

- Britt? — ela falou fechando a porta atrás de si.

- Aqui dentro.

Santana seguiu, novamente, a voz incorpórea que a chamava, o canto de uma sereia loura que ela encontrou dançando entre os armários da cozinha como se estivesse num palco sob a luz de refletores. Santana se permitiu apoiar o corpo no batente da porta para apreciar os movimentos, seu olhar se suavizando com cada passo de Brittany.

Até que ela se virou e negro e azul se fundiram novamente.

- Oi — Santana suspirou.

Brittany fechou o espaço entre elas e enlaçou a médica pelo pescoço.

- Oi.

Braços morenos se enroscaram na cintura da loura e Santana se colocou na ponta dos pés para alcançar seus lábios. Era um momento de perfeita harmonia e Santana não podia acreditar que ele fosse seu.

- Eu achei que esse plantão não fosse acabar nunca mais.

- Difícil?

- Lento — a médica grunhiu com uma careta que lhe rendeu um beijo. — Mas eu não quero falar sobre isso agora. Vamos comer?

Brittany abriu um sorriso que quase lhe partiu o rosto e ela assentiu enfaticamente. Ela baixou os braços do pescoço de Santana e lhe puxou pela mão até a bagunça que as esperava na cozinha.

- O que aconteceu aqui, Britt?

Santana tentava guardar uma risada na garganta enquanto Brittany evitava seus olhos, o chão parecendo mais interessante do que a companhia.

- É que eu... Eu... — a loura engoliu seco e se firmou na bancada. — Eu queria fazer uma surpresa pra você e eu tentei fazer panqueca e voou massa pra todo lado e aí eu tentei fazer torrada, mas eu queimei tudo e aí você chegou e eu não consegui fazer nada e você está cansada e eu te arrastei direto do trabalho e acho que eu só te dou mais trabalho e agora eu não consigo mais calar a boca e ...

Sem saber como fazer para calar os resmungos acelerados de Brittany, Santana selou os lábios dela com os seus. Ela pareceu assustada com o movimento, mas logo cedeu à boca que acariciava a sua e aos dedos que desenhavam caminhos em seu rosto. Apenas quando sentiu que os músculos tensos dela tinham relaxado contra o seu corpo, Santana se afastou um pouco. Mas apenas o suficiente para preencher seus pulmões com ar e colar sua testa na de Brittany.

- Em primeiro lugar, respira — Santana sorriu quando Brittany fechou os olhos e obedeceu. — Em segundo, você não me dá trabalho, Britt. Eu estou sonhando com esse café da manhã desde que eu recebi a sua mensagem. Com ou sem panqueca.

Santana beijou Brittany mais uma vez, languidamente, explorando cada canto de uma boca que ela já adorava. Dedos finos tomaram um rosto moreno e Brittany engoliu um gemido de Santana quando ela lhe arranhou de leve a nuca. Os pés de Santana funcionavam por conta própria e ela caminhou para frente com passos curtos até prender o corpo de Brittany entre o seu e a bancada, sentindo cada curva delas se moldando como se elas fossem duas partes do mesmo conjunto.

Enquanto as sensações tomavam conta de cada centímetro do seu corpo, um filme se passava na cabeça de Santana. A cena era incrivelmente parecida com o primeiro beijo delas, mas ela sabia que, dessa vez, ela não se assustaria quando abrisse os olhos. Dessa vez ela se lembrava muito bem quem era a dona dos lábios que queimavam os seus e ela não precisaria correr dela mesma, com medo do que estava sentindo.

Mas isso não significava que ela estivesse pronta para começar a correr. Ela sentia que mal havia aprendido a engatinhar. Com um barulho estalado, Santana descolou os lábios de Brittany e sorriu quando a dançarina franziu o cenho diante da distância.

- Agora vamos comer antes que o meu estômago comece a dar sinal de vida.

Como um time que trabalha junto há muito tempo, Brittany e Santana preparam a refeição em perfeita sincronia. As torradas que a loura tentara fazer estavam além de qualquer salvação, mas a massa de panqueca que não foi parar na pia ou nas paredes — e no teto, na geladeira e do lado de dentro de um dos armários, mas Santana achou melhor não questionar — ainda tinha jeito. Logo, Santana estava plantada na frente do fogão com uma pilha crescente de panquecas ao seu lado.

Quando ela foi acrescentar mais um disco perfeitamente dourado aos outros, os olhos de Santana se desviaram um pouco e ela viu que Brittany a observava. Ela tinha o cotovelo apoiado na pia e o rosto na mão; um sorriso preguiçoso subia por ele e um brilho novo brilhava nos olhos azuis. Quando seus olhos captaram os de Santana, seu sorriso cresceu e a médica se viu refletindo o gesto.

Agora que sabia que era observada, Santana achou que não faria mal algum dar a Brittany algo que ver de verdade. Colocando um pouco mais de massa na frigideira, a médica esperou que ela estivesse na consistência ideal e a jogou para cima. Seus olhos acompanharam o movimento do disco e ela o pegou com facilidade de volta na frigideira, começando a cozinhar o outro lado. Aplausos animados irromperam pela cozinha e Santana gargalhou diante do sorriso absolutamente infantil que iluminava o rosto de Brittany.

O cheiro do café fresco tomava conta de todo o apartamento quando elas levaram a refeição para a sala. Santana apoiou sua xícara e a pilha de panquecas na mesa de centro enquanto se apoiava no sofá para, depois de um dia inteiro, tirar os sapatos. Atrás dela, Brittany trouxera o restante da comida e se instalara numa ponta do sofá. Ela tinha um pedaço enorme de panqueca na boca quando Santana se juntou a ela.

Alguma coisa no bolso de Santana a beliscou quando ela se sentou e depois de alguns movimentos desajeitados ela fisgou a chave que Brittany havia jogado para que ela entrasse no prédio.

- Britt, por que você jogou a chave quando eu cheguei?

- Da última vez que eu desci na portaria de pijamas, a Sra. Thomas ficou dez minutos no meu ouvindo dizendo que não era apropriado e que aqui não era esse tipo de prédio.

Brittany pontuou a explicação com uma jogada de ombros que fez Santana reparar, pela primeira vez, no que ela realmente vestia naquela manhã: uma camiseta de alças finas que terminava alguns bons centímetros acima do short folgado que não cobria nada das pernas torneadas. A médica enfiou um pedaço de panqueca na boca antes que pudesse dizer que talvez a Sra. Thomas tivesse razão.

Elas terminaram o café em relativo silêncio, uma cumplicidade serena pairando no ar. Santana colocou a xícara e o prato na mesa a sua frente e recostou as costas no sofá. Ela tinha as pernas cruzadas e suas pálpebras pesavam toneladas depois de um longo plantão e mais panqueca com calda do que ela deveria ter comido. Para se manter acordada, ela pegou um dos pés e começou a pressionar a musculatura, tentando aliviar a tensão acumulada ali depois de horas sobre eles.

- Doendo?

A voz de Brittany era suave e Santana quase não conseguiu abrir os olhos para ver a ternura com que era observada. Ela tinha quase dormido enquanto massageava o próprio pé e agora o que Brittany queria saber com aquela pergunta lhe escapava a compreensão. A confusão da médica se refletiu em seu rosto e Brittany deu uma pequena risada antes de tentar novamente.

- Seus pés? Estão doendo?

- Ah, sim, é... Estão sim. Normal depois do plantão.

- Dá aqui — ela pediu com uma das mãos esticadas na direção de Santana.

- Não precisa, Britt. Eu acabei de tirar os sapatos e eles devem estar nojentos — Santana tentou protestar e Brittany apenas ergueu as sobrancelhas. — E você é dançarina e já deve ter visto bem piores.

- Com certeza. A começar pelos meus. Agora me dá aqui seu pé, vai.

Santana sorriu timidamente e esticou as pernas pelo sofá até o colo de Brittany. A dançarina se aproximou um pouco e pegou o pé esquerdo da médica e começou a manipular seus músculos, apertando e alongando com delicadeza. Santana podia sentir a tensão escapando de seu corpo como um rio e um gemido satisfeito brotou de sua garganta. Brittany apenas riu e continuou com os movimentos.

Quando a loura baixou uma perna para focar sua atenção no outro pé da médica, Santana abriu um dos olhos e sorriu para ela antes de conseguir falar com a voz um pouco sonolenta:

- Suas mãos são incríveis, Britt.

- Obrigada. O Mike sempre disse que se eu, algum dia, desistisse de dançar, eu podia trabalhar com isso.

- E ele está mais do que certo. Acho que eu pagaria uma fortuna para receber uma massagem assim todo dia.

- Então você está com sorte, porque você não precisa pagar nada. Quando quiser, é só pedir.

Santana não abriu os olhos. Ela apenas deixou que um sorriso aparecesse em seu rosto e se afundou ainda mais nas almofadas do sofá. Agora relaxada e de estômago cheio, estava cada vez mais complicado se manter acordada. Ela tentava se concentrar na pressão que Brittany fazia, mas seu cérebro parecia próximo de desligar.

Ela sabia que precisava se manter alerta, mas estava tão confortável ali. Talvez mais dois minutos de olhos fechados não fossem fazer tanto mal.

- Eu só vou trocar de roupa e a gente pode sair, tá?

Brittany sorriu quando tudo o que Santana conseguiu dar como resposta foi um balançar de cabeça que ela imaginava que significava sim. Com passos mais leves do que o normal, ela voltou para o quarto e começou a se arrumar. Seus movimentos eram mais lentos, querendo dar a Santana o máximo de descanso possível.

Depois de tomar um banho rápido, trocar de roupa e arrumar a bolsa com as coisas que ela precisava para aquele dia, Brittany voltou para a sala para encontrar Santana completamente deitada no sofá. De algum jeito, ela havia escorregado o corpo pelas almofadas e agora ela se curvava levemente para caber. Brittany colocou a bolsa no chão sem fazer barulho e voltou para o quarto.

Ela não teria coragem de acordar Santana, não quando ela parecia tão cansada e tão tranqüila dormindo em seu sofá. Então, Brittany ergueu sua cabeça com cuidado para não acordá-la e escorregou um travesseiro entre ela e o sofá. Santana resmungou baixinho, mas a loura afagou seus cabelos e, logo, o ritmo da respiração dela voltou ao normal. Um cobertor que morava no encosto do sofá foi colocado sobre o corpo da morena e Brittany plantou um beijo carinhoso na têmpora dela antes de sair.

Da porta, ela ainda olhou mais uma vez para trás, mas tudo o que conseguia ver eram os dedos dos pés que ela havia acabado de massagear e alguns fios de cabelo negro na outra ponta do móvel. O som da respiração calma e profunda de Santana preenchia o ambiente e um sorriso enorme se firmou no rosto de Brittany durante todo o trajeto até seu trabalho.

***

O primeiro sentido de Santana que voltou a funcionar foi o seu olfato, o cheiro de Brittany lhe invadindo as narinas e a forçando a despertar. Um sorriso surgiu no rosto moreno e ela se esticou no sofá, alongando músculos e enterrando a cara no travesseiro.

Santana ainda ficou deitada de olhos fechados por um instante, deixando que os barulhos da rua se fizessem presentes. Ela tinha certeza de que Brittany iria aparecer em pouco tempo, dizendo que estava pronta e que elas podiam ir. Mas a dançarina não apareceu e ela se aventurou a abrir os olhos devagar. A luz que entrava pela janela incomodava e, depois de piscar algumas vezes, Santana percebeu que as sombras que pintavam o chão haviam mudado. O sol parecia mais forte e uma olhada rápida no relógio de pulso provou que já passava do meio da manhã.

Apenas nesse instante, Santana notou o travesseiro que fora colocado embaixo de seu rosto e o cobertor verde que a envolvia. Ainda sorrindo, ela puxou o tecido até o queixo e sentiu que ele a aquecia também por dentro. Depois de cuidar de tanta gente por tanto tempo, a sensação de ser cuidada era poderosa e ela permaneceu deitada por mais alguns minutos, aproveitando o carinho das almofadas.

Quando ela finalmente se sentiu acordada o suficiente para se sentar, Santana notou que um papel fora deixado na mesa de centro, embaixo da chave que ela usara para entrar no prédio. Ainda enrolada no cobertor, ela pegou o papel e o bilhete e se recostou no sofá, as pernas escondidas embaixo do corpo.

Não tive coragem de te acordar. Você parecia tão tranqüila dormindo. Pode ficar o tempo que precisar. Mais tarde eu te ligo.

E não se esqueça do nosso cinema. Já escolhi o filme!

Bjs, Britt.

Santana tocava o papel com reverência, traçando as linhas das letras redondas de Brittany. O sorriso pequeno cresceu e tomou conta do seu rosto, assim como um tambor parecia tomar conta do seu peito. Seu coração batia num ritmo novo, mais forte, mais determinado, mais ela. O som ainda era novo, mas Santana estava lentamente descobrindo que gostava mais dele do que do anterior.

Sentindo-se leve, Santana se colocou de pé, guardou o bilhete e a chave e caminhou até a cozinha. A bagunça que Brittany fizera, tentando lhe surpreender, ainda estava ali e o formigamento que ela sentia nos dedos apenas aumentou.

Depois de lavar e guardar tudo, ela se deteve por um momento na frente da geladeira. Nas outras vezes em que estivera ali, Santana havia reparado que o aparelho era coberto por uma miríade de desenhos e imãs coloridos, mas ela nunca prestara atenção neles. Os magnetos eram desencontrados, daqueles vendidos em lojas para turistas — provavelmente lembranças de viagens feitas na época em que Brittany fazia parte da companhia de dança. Embaixo deles, desenhos e bilhetes infantis para a professora de dança preferida. Dois momentos diferentes de uma mesma carreira e Santana se perguntou qual deles faria a loura mais feliz.

***

- Eu não acredito que você me convenceu a assistir a um desenho animado no cinema!

- E você adorou.

Brittany e Santana caminhavam lado a lado pela calçada do cinema em direção ao carro da médica. Havia chovido um pouco à tarde e o ar estava frio e úmido como costuma ficar. Pequenas poças refletiam as luzes dos postes e Santana sorria cada vez que Brittany dava um pequeno salto para não molhar os pés.

Agora, a dançarina a encarava como se quisesse arrancar dela alguma verdade que ela nem sabia qual era. Mas que ela estava mais do que disposta a confessar. Depois de alguns compassos, Santana riu e ergueu os braços em rendição.

- Tá bom, tá bom. Eu gostei do filme. Até que a princesa era bem durona.

- Ela me lembrou você — Brittany falou com um sorriso doce no rosto.

- Teimosa, abusada e com um cabelo indomável?

- Corajosa. Determinada. — Brittany tinha uma gravidade na voz que fez com que um nó se formasse na garganta de Santana quando a loura se aproximou para dizer algo no ouvido dela: — Linda.

O carro ainda estava longe e Santana não sabia o que fazer com o calor que subia por seu pescoço. Ela fora definida por outras pessoas a sua vida inteira. Todos sempre lhe colocaram em caixinhas rotuladas, pequenas prateleiras que não a comportavam por completo. As definições que lhe diziam na cara e as que sussurravam por suas costas nunca eram o que ela esperava, mas ela se esforçava para se encaixar em cada molde que lhe era jogado.

Para os pais, ela era a filha imaculada a ser exibida para os amigos. Para os caras com quem ela havia transado ainda na época de escola, a melhor foda da vida deles. Para quase todas as outras garotas do colégio, uma vadia. Para os professores da faculdade de medicina, um talento promissor. Para Rafael, uma companheira apropriada. Para os assessores dele, um risco a ser contido. Para os colegas de trabalho, uma vaca a ser evitada. Para seus pacientes, uma médica competente. Para as poucas pessoas que ela havia permitido que se aproximassem dela, uma gangorra instável.

Mas ninguém nunca lhe dissera as palavras que Brittany havia lhe falado. Ninguém havia visto nela as coisas que Brittany parecia ver. E agora, diante dela, Santana já não tinha certeza de quem era. Ela via todos os seus moldes e todas as suas máscaras se esfarelando pelo chão e ela percebia que, na verdade, ela nunca soube quem era de verdade. Ela sempre tivera medo de descobrir.

Brittany percebeu o desconforto da médica e permitiu que o silêncio as acompanhasse até o carro. Elas caminhavam próximas e, de vez em quando, seus braços ou seus ombros roçavam uns nos outros. Quando se aproximavam do carro estacionado, Santana tirou as mãos dos bolsos para abrir as portas e Brittany aproveitou para enroscar seu mindinho no de Santana. Era um toque mínimo, mas o suficiente para que Santana lhe sorrisse com sinceridade e seus ombros parecessem um pouco mais leves.

O silêncio até a casa de Brittany era quebrado apenas pelo rádio, ligado em qualquer estação que Santana estivesse escutando mais cedo. Nenhuma delas estava realmente prestando atenção nas músicas. Esse tinha sido, para todos os efeitos, o primeiro encontro delas e agora elas se debatiam sobre o que seria apropriado fazer quando chegassem ao prédio da loura. Um beijo na bochecha acompanhado de um boa noite parecia ridículo depois de elas já terem dormido na mesma cama mais de uma vez. Brittany sabia que Santana ainda não estaria pronta para um beijo na portaria do prédio, mas ela não queria terminar a noite daquela maneira. Por isso, quando elas entraram em sua rua, a loura disparou antes que tivesse tempo para processar:

- Você quer subir?

Santana parou o carro no meio da rua com um tranco e se virou para Brittany com os olhos arregalados. Inúmeras dúvidas pareciam correr por trás dos olhos que tinham adquirido o tom negro do céu e Brittany percebeu o que o convite dela devia ter parecido.

- Pra tomar um café ou beber alguma coisa. Você quer subir pra tomar alguma coisa?

Alívio tomou conta do corpo de Santana e ela sentiu que conseguia respirar novamente. Seu coração parecia querer quebrar suas costelas e, pelo canto do olho, ela percebeu que as juntas dos seus dedos estavam brancas, tamanha a força com que ela segurava o volante. Ela forçou um sorriso antes de colocar o carro em movimento mais uma vez e responder:

- Claro. Acho que um café ia cair bem.

Elas caem de volta no silêncio enquanto estacionam o carro e caminham pela calçada rachada. O cérebro de Santana entrou em pane e nenhum pensamento lógico, nenhum raciocínio concreto se formava. Ela se sente, novamente, aquela garotinha de cinco anos de idade que se perdeu dos pais num supermercado e simplesmente não conseguia dar nenhum passo ou pedir ajuda. Ela estava congelada então, assim como ela está congelada agora. Seus passos atrás de Brittany são instintivos, como se ela só conseguisse caminhar porque a corrente que a liga a loura a puxava para frente. Se ela parasse ali, a corrente poderia se esticar demais e poderia partir. E ela não queria parti-la.

Um vizinho saía do prédio quando elas alcançaram os degraus e elas aceleraram os passos para aproveitar o momento e fugir do vento mais frio que começava a soprar. Dentro da proteção das paredes do lugar em que morava, Brittany procurou a mão de Santana enquanto elas subiam as escadas. Os dedos da médica estavam gelados e ela permitiu que eles se encaixassem nos vãos da mão de Brittany — como elas tinham feito durante todo o filme e só agora Santana percebia como sentia falta da sensação da pele de Brittany contra a sua.

Concentrada na maneira como a loura apertava seus dedos e em controlar a sua respiração, Santana nem se deu conta de que elas já tinham subido todos os andares e que agora elas caminhavam pelo corredor do apartamento de Brittany. Paradas na frente da porta, ela esperou que a outra mulher puxasse a mão de volta para buscar suas chaves na bolsa que ela carregava no ombro. Ao invés disso, Brittany se esticou por trás de um enorme vaso de plantas e procurou por algo, até que ela se ergueu novamente, uma chave entre os dedos.

Santana franziu o cenho e ela apenas deu de ombros enquanto encaixava a chave na fechadura.

- Eu vivo perdendo o meu chaveiro, então... — A porta se abriu com um estalo e Brittany se virou para Santana com um sorriso. — E é mais rápido usar essa reserva do que procurar alguma coisa na minha bolsa.

A médica entrou no apartamento primeiro, enquanto Brittany recolocava a chave reserva no lugar. Dentro daquele espaço, que Santana conhecia como se fosse seu, ela começou a sentir as suas preocupações se esvaírem. Ali, ela não precisava se preocupar com julgamentos, olhares tortos, definições, rótulos. Ali, ela não precisava nem mesmo ter certeza de quem ou do quê ela era. Ali dentro, eram apenas ela e Brittany. E isso bastava.

Ela se virou no mesmo momento em que Brittany entrava no recinto e fechava a porta atrás de si. Com apenas dois passos, a morena acabou com o espaço que havia entre elas e colou seus lábios aos de Brittany. A diferença de altura tinha sido igualada pelo salto que Santana escolhera e ela não teve problema em colar seu corpo ao da dançarina, uma das mãos enterradas em cabelos louros e a outra presa ao seu pescoço. Ela simplesmente precisava ter Brittany mais perto.

Quando Brittany se refez do susto com a ferocidade com que sua boca foi tomada, seus braços se moveram por conta própria, se agarrando em tudo o que podiam; rosto, pescoço, cabelos, ombros, braços, cintura, costas. Ela parecia querer decorar cada parte do corpo de Santana, descobrir como ela tinha sido montada, entender o que havia ali que tornava Brittany tão indefesa e refém dela mesma.

Suas bocas dançavam juntas e suas línguas deslizavam uma sobre a outra, perdidas no calor que elas geravam.

Não parecia haver oxigênio suficiente em seus pulmões e Santana se afastou um pouco, arfando e lutando para reaprender a respirar enquanto um par de olhos azuis enevoados e observava; as pálpebras pesadas, os cílios espessos, alguma coisa primitiva escondida por trás do brilho quase juvenil. Brittany também tinha a respiração pesada, suas bochechas, rosadas e os lábios levemente inchados. Santana trouxe a mão que tinha plantado no pescoço da loura e traçou o contorno de sua boca com o polegar, se admirando com a maciez dos lábios que ainda mantinham a temperatura dos seus.

- Eu passei a noite toda querendo fazer isso — Brittany falou contra o dedo de Santana, pontuando a frase com um beijo em sua digital.

- Eu também.

Suas vozes não passavam de murmúrios roucos, carregados da ânsia que elas ainda sentiam. E elas se beijaram mais uma vez. Languidamente, agora que tinham certeza de que não precisavam correr. Se o beijo anterior tinha servido para matar um tipo de sede, agora elas queriam provar seus gostos, conhecer seus mistérios, desvendar suas anatomias. Elas tinham tempo. Não havia necessidade de pressa.

Brittany tomou Santana pela mão e levou a médica para o sofá. As duas se aninharam entre as almofadas e elas aproveitaram a primeira oportunidade que elas realmente tinham de ficar assim, enlaçadas pelo simples prazer de sentir um outro corpo contra o seu, sem nenhuma revelação, sem nenhum problema, sem nenhum passado pairando sobre elas. Havia, ali, apenas o presente. E os dedos de Brittany desenhando traços e espirais na barriga de Santana. E a respiração de Santana atingindo a pele de Brittany como um arrepio. E a lua que saíra de detrás das nuvens, invadia a sala e iluminava duas mulheres que aprendiam a se gostar.

- O corretor me ligou hoje — Santana falou com voz suave, entorpecida. — O apartamento é meu.

- Sério? Ai, que bom, San. Fico muito feliz por você.

Santana podia ouvir a sinceridade nas palavras de Brittany e lhe beijou novamente antes de continuar.

- Se tudo der certo, eu assino os papéis essa semana ainda.

- E depois disso, em quanto tempo você se muda?

- Vai depender do tempo que as minhas coisas vão demorar a chegar. Eu vou ligar amanhã para o meu advogado e resolver isso — Santana ficou em silêncio por alguns instantes antes de continuar. — Quando eu vim pra cá, eu deixei tudo pra trás. Eu simplesmente tranquei a porta e entrei no carro. O advogado do Rafa é que lidou com o inventário, venda, essas coisas. Algumas coisas eu mandei para a família dele, mas a maioria eu mandei vender. Foram poucas as coisas que eu mandei guardar num depósito e eu já nem sei mais o que está lá.

Brittany ouvia em silêncio enquanto mais uma parte do passado de Santana se revelava, mais uma camada se dissolvia.

- Por que você mandou vender tudo?

- Raiva — Santana respondeu com um suspirou e apertou a mão de Brittany entra as suas. — Acho que, quando eu voltei pra Lima, eu queria apagar completamente aquela parte da minha vida. Eu não achei que eu fosse ter espaço para ela aqui.

- Mas nem tudo o que você viveu com ele foi ruim, foi?

- Não, não foi. Nosso relacionamento foi uma grande mentira, mas a gente se gostava. Da nossa maneira, mas se gostava. Mas é que, quando aconteceu, doía tanto que eu achei que não fosse parar nunca mais.

- E parou?

- Parou. Graças a você.

- Como assim, graças a mim, Santana?

- Você foi a primeira pessoa pra quem eu contei o que tinha acontecido. Algumas pessoas já sabiam, mas quando eu te contei, foi a primeira vez que eu contei a minha história. Com as minhas palavras. Acho que foi a primeira vez que eu parei pra pensar no que eu tinha sentido.

- Por isso que você achou que eu devia estar querendo fugir?

Santana assentiu contra o peito de Brittany. Os batimentos do coração da loura, ritmados e lentos, a lembravam de que ela estava segura ali.

- Eu achei que você não fosse querer ficar nem perto de alguém tão estragada como eu.

Brittany podia ouvir a aversão na voz de Santana, a maneira como ela se via pequena, danificada, não merecedora de qualquer coisa boa que fosse.

- Sabe o que eu senti, quando você me contou? — Brittany esperou que Santana respirasse fundo enquanto ela se lembrava do momento em que tinha conhecido um pouco mais da médica. — Admiração. Porque foi nesse dia que eu descobri como você é forte. E guerreira. E uma das mulheres mais incríveis que eu já conheci. E eu me senti tão feliz por você ter compartilhado aquilo comigo, porque você já tinha me ajudado tanto, que eu queria poder retribuir um pouquinho. Eu queria poder te ajudar também.

Santana tinha os olhos marejados quando ela se virou para encarar Brittany. Depois de se julgar merecedora do desprezo do mundo, ela não sabia como lidar com o que Brittany lhe dizia.

- Você ajudou, Britt. — Santana colou sua boca à de Brittany longamente. — Mais do que eu conseguiria explicar.

Elas se beijaram novamente, tatuando na pele a sinceridade do que estavam sentindo, e Santana se aninhou mais uma vez em Brittany. Ela se sentia mais leve, como se mais um nó tivesse sido desfeito. Mais um elástico que aprisionava seu coração tinha se partido e ela parecia bater com um pouco mais de facilidade. A loura brincava com seus dedos em cima da coberta e Santana achou que nunca iria querer sair dali.

- Você tirou a sua aliança?

Santana estava distante dali e demorou a entender a que Brittany se referia. Apenas quando notou a maneira como ela erguia sua mão esquerda, é que a latina se lembrou do anel que agora carregava no pescoço.

- Tirei. Depois que eu dormi aqui, eu tirei pra trabalhar e, sei lá, pareceu estranho andar com aquilo na mão. Era mais uma coisa fora do lugar, sabe? — Enquanto falava, Santana analisava a linha mais clara que tinha se formado no lugar. — Aí, eu coloquei ela aqui. Ainda não me livrei por completo, mas acho que já é um começo.

Dedos morenos procuraram o cordão longo que ela usava sempre por baixo da blusa. Ela ergueu os pingentes e deixou que Brittany os analisasse longamente, traçando o desenho de cada um deles. Por fim, ela colocou os pingentes novamente nas mãos de Santana e lhe beijou os cabelos negros.

- Já é um começo, sim.

- Acho que eu preciso ir embora. Está ficando tarde e eu vou ter que resolver muita coisa amanhã.

- Tudo bem — as duas se levantaram e caminharam para a porta de mãos dadas. — Você me liga amanhã para dizer como estão indo as coisas com a mudança?

- Ligo, sim.

Santana beijou Brittany demoradamente antes que a loura abrisse a porta. Ela colocou as mãos nos bolsos e se virou para sair, mas algo espetou sua mão e ela se lembrou que precisava devolver uma coisa a Brittany.

- Antes que eu me esqueça, acho que isso aqui é seu.

A pequena chave amassada que Brittany tinha deixado sobre a mesa de centro, naquela manhã, estava entre os dedos de Santana e ela sorria se lembrando das palavras escritas no bilhete que ela tinha guardado na carteira.

- Fica. Assim que eu não corro risco de encontrar com nenhum vizinho de pijamas quando você vier tomar café da manhã comigo.