Notas iniciais
Fala, galerinha. Capítulo novo para vocês. Ele parece um pouco filler, mas é necessário para o desenvolvimento da história.
@Stephanie: respondendo a sua pergunta, a Santana tem entre 28 e 29 anos, assim como a Quinn. A Britt é pouca coisa mais nova, entre 26 e 27.

As ruas se tornavam mais curvas conforme Santana se afastava da cidade. O ar ainda estava gelado da chuva do dia anterior, mas um céu azul quase sem nuvens se descortinava na frente dela. O vento invadia o carro pelas janelas abaixadas e Santana tamborilava os dedos no volante ao ritmo de uma música antiga que tocava no rádio.

Ainda era começo da manhã quando ela entrara no carro. Depois de acertar com o corretor os últimos detalhes do aluguel do apartamento, e de conversar com o advogado sobre o que tinha sido guardado da sua outra vida, a médica se sentira aprisionada dentro das quatro paredes daquele quarto de hotel. O espaço apertado sempre fora estéril, mas a perspectiva de mudanças em sua vida o tornou claustrofóbico demais para ela.

Olhando pela janela do décimo andar, Santana observou a cidade ganhar vida abaixo dos seus pés. Ela acompanhava o movimento das pessoas e a imobilidade do azul que pintava o horizonte. E, perdida nele, ela se lembrou de uma memória de infância de dias com céus como aquele. Eram dias de liberdade, de despreocupação, dias tão recheados de futuro que eram apenas presente. Antes que se desse conta do que fazia, Santana abriu os armários, trocou de roupa, jogou alguns itens dentro de uma sacola há muito abandonada e saiu daquela prisão.

E agora o carro da médica parava no fim de uma estradinha de terra, uma trilha leve de poeira começando a baixar por onde ela havia passado. O sol já ia alto no céu, mas o ar ainda se mantinha frio e a pele morena se cobriu de arrepio quando ela retirou a roupa e revelou o biquíni que trazia por baixo. Ela dobrou cada peça cuidadosamente e colocou no banco do motorista, antes de esconder a chave sobre a roda traseira e caminhar na direção do lago.

A água refletia a luz do dia e ela precisou apertar um pouco os olhos até se acostumar com a claridade do lugar. Ele ainda se mantinha exatamente como ela se lembrava. O espelho d'água era pequeno, circundado por uma camada densa de árvores, que filtravam o ar e os sons. Tudo naquele lugar parecia parado, estático, como se a vida estivesse suspensa desde a última vez em que ela estivera ali. Como se ele só existisse por ela e com ela, um oásis que ela tinha sonhado para dentro da realidade.

Grande parte dos verões de sua infância havia sido passada dentro daquelas águas e entre as árvores que ela podia ver na margem oposta. Seu pai ainda era apenas um jovem médico latino que trabalhava horas demais tentando fazer o seu nome na profissão e passava horas de menos com a família. Então, quando os dias estavam quentes e ele não tinha que ir para nenhum hospital, o homem colocava mulher e filha no carro antigo que ele dirigia e as levava para um dia na natureza. Margarida preparava sanduíches para o almoço e Santana saía da água apenas quando seus dedos não podiam ficar mais enrugados.

Aqueles dias de sol no lago tinham sido os melhores da infância dela. Ali, seu pai a ensinara a nadar; uma mão sólida sob o seu corpo enquanto ela tentava coordenar o movimento de braços e pernas para que não afundasse. Ali, ele a tinha trazido à tona todas as vezes que seus membros cansaram depressa demais, sempre garantindo que ela estava melhorando e que ela estaria nadando sozinha em pouco tempo. Ali, ela tinha visto o sorriso orgulhoso dele quando ela se soltou das mãos que a seguravam e deu algumas braçadas inseguras até a margem. Ela nunca se sentiu tão feliz quanto naquele lugar.

Mas, então, a carreira de seu pai começou a ir a algum lugar, como sua mãe fazia questão de repetir a todo momento. De repente, os dias de folga do médico eram passados em encontros em clubes, jantares beneficentes, drinques em restaurantes caros e ele já não tinha tempo para dias à beira de um lago qualquer.

À Santana, Margarida tagarelava, em uma repetição nauseante, que se eles quisessem ser importantes, eles precisavam parecer importantes — enquanto vasculhava o armário da garota em busca de algo apresentável que ela pudesse usar em mais um encontro em que ela se colocaria a um canto, entediada, espiando pela janela o sol que se gastava do lado de fora. Até a mãe a encontrá-la, puxá-la pelos ombros e apresentar, a mais um membro do clube, a filha perfeita e promissora do dr. Lopez. Foram tantas as vezes que Santana ouviu seus pais falando sobre suas notas e realizações acadêmicas como se ela não estivesse presente, que ela terminou por acreditar que ali estivesse seu real valor. Talvez se ela se tornasse, de verdade, essa garota que seus pais pintavam para a sociedade, eles a enxergassem.

Suas notas melhoraram, todos os professores elogiavam o novo desempenho, até em casa seu comportamento era mais dócil. Mas os ideais de perfeição de sua mãe apenas aumentavam conforme ela se aproximava deles. Se ela tirava nove, a mãe queria um dez. Se ela tirava dez, a mãe o queria em todas as matérias. Se ela recebia um elogio do professor, a mãe esperava o mesmo do diretor. Se ela arrumava o quarto, a mãe perguntava por que não o restante da casa. Nada, nunca, parecia o suficiente.

E, se nada era suficiente, para quê se esforçar tanto?

Então, no último ano do colégio, depois de perder tudo o que parecia mais importante, Santana abandonou os livros e todas as aulas que podia; suas notas despencaram ao mínimo exigido para se formar e seus professores pareciam não reconhecer a garota que eles viam. As roupas aprovadas pela mãe foram trocadas por outras, mais curtas, mais justas, mais reveladoras. Ela abandonou seus supostos amigos, encontrou uma nova turma, começou a fumar, não tinha mais hora de voltar para casa. Ficou com todos os garotos do time de futebol, apenas para garantir que seu nome seria conhecido por todos os outros alunos. Deu certo. Mas não em casa.

As cobranças apenas mudaram de nome e os pais passaram a ser carcereiros. Eles não se importavam com o que ela fazia, apenas com o que as suas atitudes podiam significar para a reputação deles. Ela ainda era forçada a participar dos mesmos eventos sociais com a família, mas podia sentir os olhos de águia da mãe lhe perfurando o crânio. Essa tal de liberdade que ela tanto ansiava começava a sufocar.

E o único lugar em que Santana se sentia realmente livre, realmente ela, era ali naquele lago. Todas as vezes que o tempo permitia, ela pegava o carro, dirigia até lá e se despia de todas as Santanas que ela tinha criado. Dentro daquelas águas, ela era apenas a mesma criança que costumava freqüentar aquele lugar com os pais nos dias mais felizes de sua infância. Às vezes, quando o peito pesava demais, quando ela se olhava no espelho e não sabia mais quem era, a única coisa que a prendia ao planeta era mergulhar no seu lago.

Depois de dar a volta no espelho d'água, Santana achou facilmente o lado mais fundo e mergulhou. A água gelada logo envolveu seu corpo e comprimiu seus pulmões contra o peito. Uma dor aguda atingia seus ossos quando ela tocou os pés no fundo lodoso do lago e voltou à tona, se enchendo de ar novamente. Seus músculos estavam tensos, mas essa dor incômoda era bem vinda, uma maneira de se manter em movimento. Ela dava braçadas ritmadas, da mesma maneira que o pai havia ensinado, e deixava que sua mente encontrasse a mesma serenidade que aquele lugar sempre tinha significado. Como ela precisava disso naquele momento.

Em apenas mais um dia, seu passado e seu presente se chocariam e ela ainda não tinha certeza se sobreviveria ao encontro. Todos os detalhes do contrato já haviam sido resolvidos com o corretor e, no momento em que ela assinasse alguns documentos, ela estaria de volta à cidade. De verdade. Não existiria mais hotel para lhe dar uma falsa sensação de segurança, de que ela ficaria na cidade apenas por um tempo. Não, no dia seguinte ela iria assinar um documento que dizia que ela tinha intenção de ficar em Lima por muito mais do que algumas semanas.

O que assustava Santana, o que a tinha levado àquele lugar, era que não havia outra cidade no mundo em que ela preferisse estar. Ela não conseguia pensar em nenhuma outra cidade que pudesse significar tanto para ela quanto Lima. Pelo simples fato de que Brittany não estaria em nenhuma delas.

A lembrança da loura invadiu a mente da médica e ela parou as braçadas, deixando que o corpo afundasse por um momento. Sua pele já havia se acostumado com a temperatura da água e ela sentia como se estivesse sendo abraçada por ela, protegida, guardada. Ainda submersa, Santana nadou até uma pedra que ficava no meio do lago e ergueu o corpo. Ela ficou deitada ali por um tempo, o corpo esticado, os olhos fechados, o rosto voltado para o sol, deixando que seus raios a aquecessem e que sua respiração se acalmasse. Ela inspirava longamente, expandindo seus pulmões o máximo que podia, e deixava que o ar escapasse por seus lábios sem fazer força. Era como se ela tentasse abrir espaço em si mesma, forçar as lembranças ruins para fora para que novas pudessem ser feitas. Ela precisava partir o que a amarrava para que uma nova realidade se formasse. Uma realidade que já boiava, disforme, em sua cabeça há algum tempo, mas que ganhou forma apenas ali. Só quando se viu distante do mundo e perto de si mesma, é que Santana permitiu que o que estava no fundo da sua mente viesse até o centro do palco.

- Eu gosto dela — ela disse num sussurro, abrindo os olhos.

Apenas três palavras e uma bigorna se ergueu do peito de Santana. Uma gargalhada sacudiu todo o corpo da médica. Uma frase tão simples, um entendimento tão banal que Santana não entendia como ela não tinha percebido antes. Ou melhor, por que ela não tinha se permitido perceber. E agora tudo fazia tanto sentido que ela não sabia o que fazer com a energia que a consumia. Ela sentia como se acordasse naquele momento, como se alguém tivesse erguido um véu opaco e ela pudesse ver, pela primeira vez, o mundo com definição.

Ela gostava de Brittany e isso era tão maior do que não querer mais fugir. Ela simplesmente não podia. Seria impossível, porque fugir desse sentimento seria fugir de quem ela era. E Santana estava cansada demais. Ela precisava ser só ela.

Quando o sol já tinha secado a sua pele e seus músculos pareciam relaxados sobre os ossos de uma maneira que ela não se lembrava de eles terem estado algum dia, Santana voltou para o carro e dirigiu até a cidade. Ela tinha as janelas abaixadas e sorria com a maneira como o vento atingia seu rosto, as árvores se tornando mais esparsas, a estrada mais reta. Algumas casas pequenas começavam a aparecer na beira da estrada e só havia um lugar para onde Santana quisesse dirigir. Sem nem precisar pensar no caminho, ela logo estacionou em frente ao estúdio de Mike.

Ela se olhou no retrovisor e prendeu os cabelos escuros num rabo de cavalo alto, um brilho iluminava seus olhos enquanto se lembrava da decisão que tinha tomado antes de se levantar da pedra. Ela sabia que era a coisa certa a fazer e estava feliz, mas parecia impossível pedir que seu estômago não desse saltos mortais dentro dela enquanto isso. Ela estava mais nervosa do que durante o seu primeiro atendimento sozinha, sua pele formigava e a garganta, seca como se fosse feita de algodão.

Ela ainda nem tinha dado o primeiro passo, mas já não havia como voltar atrás.

Os sons do piano a atingiram quando ela colocou o pé na calçada. Um ritmo lento, envolvente, um chamado perdido e ela pensou no que o corpo de Brittany conseguiria transformar aquilo.

- Bom dia. Posso ajudá-la?

Uma secretária sorridente arrancou Santana das imagens que se formaram em sua cabeça e ela se forçou a sorrir de volta. A garota era nova, provavelmente recém saída do colégio. Pela postura, devia ser aluna das turmas avançadas, Santana pensou enquanto uma ponta de ciúmes se instalava entre as suas costelas. Era bastante provável que ela fosse aluna de Brittany, o que significava que ela podia assistir à loura dançar sempre que quisesse. Exatamente o que a médica mais queria.

Uma expressão de confusão tomou o rosto da jovem e Santana percebeu que ela devia ter ficado tempo demais em silêncio. Antes que ela perguntasse novamente qualquer coisa, a médica se adiantou:

- Eu queria falar com a Brittany. Ela está?

- Ah, claro! — Um sorriso enorme surgiu no rosto da menina e Santana cerrou os punhos ao lado do corpo. — Ela está terminando uma aula na sala um. Pode entrar, se você quiser. Ela não costuma se importar.

Santana resmungou alguma coisa ininteligível para a garota e abriu a porta que ela havia apontado. Ela entrou sem fazer barulho, para não atrapalhar a aula, fechou a porta atrás de si e se sentou no fundo da sala, no chão, as costas apoiadas na parede. Seus olhos estavam grudados em Brittany, que estava na frente da turma, mostrando a execução de algum passo. Apenas a voz da loura cortava o silêncio da sala, contando os compassos do movimento.

Quando terminou de demonstrar, Brittany caminhou até o aparelho de som na parede oposta à Santana e reiniciou a mesma música que a médica ouvira antes de entrar. A professora ergueu os olhos e eles se encontraram com os de Santana por um momento, apagando quaisquer outras pessoas que pudessem existir no mundo. Elas sorriram uma para a outra e Brittany voltou para a sua posição na frente da turma, reiniciando a contagem de compassos e demonstrando, mais uma vez, os movimentos. Quando chegou a vez de as alunas repetirem a seqüência, a voz de Brittany continuou se erguendo sobre a música enquanto ela caminhava entre a turma e corrigia uma postura aqui, uma perna ali. Sua atenção completamente focada nas meninas que se esforçavam para repetir os movimentos que ela parecera executar sem dificuldades. Mas entre uma correção e outra, ela permitia que seus olhos se desviassem para a mulher morena sentada no chão, sob a barra de ferro que circundava a sala, e ela sorria novamente.

Por fim, a música terminou e Brittany liberou a turma, parabenizando as alunas pelo esforço. Santana observava as meninas enquanto elas colocavam suas bolsas no ombro e saíam da sala em grupos, conversando animadamente, com um sorriso enorme no rosto. Ela tinha certeza de que Brittany devia ser a professora preferida delas e, se não fosse ridículo, Santana diria que estava com um pouquinho de ciúmes daquele bando de adolescentes.

A idéia colocou um tom avermelhado no rosto de Santana e ela não reparou que alguém havia se sentado ao seu lado. Quando uma mão pousou em seu joelho, a latina deu um pulo e quase bateu com a cabeça na parede atrás dela. Brittany riu, os olhos de Santana se focando nela, e ela apertou de leve o joelho da morena, antes de colocar as duas mãos no colo.

- Desculpa. Eu não quis te assustar.

- Tudo bem. Eu estava...distraída.

- Percebi. Pensando em alguma coisa específica?

- Que você deve ser uma excelente professora — a frase saiu antes que Santana pudesse pensar exatamente no que ela queria dizer.

O sorriso de Brittany aumentou e ela deixou a cabeça pender para um dos lados, ligeiramente tímida com o elogio.

- Obrigada. Eu adoro.

- Eu percebi.

- Sabe... — Brittany começou, alongando as sílabas, como se estivesse arrastando as palavras para fora. — Eu posso te ensinar, se você quiser.

Santana arregalou os olhos e se engasgou com o ar que ficou preso na garganta. Se ela já não estivesse ruborizada, aquele seria o momento.

- Não, não, não. Nem pensar, Britt. Eu não poderia. Eu não tenho a menor noção de ritmo.

- Eu duvido disso, San.

- É sério, Britt. Nem quando eu tinha a idade dessas meninas eu conseguiria, imagina agora.

- Que pena. Eu ia adorar te dar umas aulas particulares depois do horário.

Alguma coisa na rouquidão da voz de Brittany e na maneira como ela não desviava os olhos, fez com que os músculos da barriga de Santana contraíssem e uma onda de calor se instalasse no seu baixo ventre. Ela não conseguiria ficar de pé nem se tentasse.

- Eu... — a voz de Santana falhou e ela se odiou um pouquinho por isso. — Eu vou pensar, tá bem?

Brittany apenas sorriu e se levantou, oferecendo uma das mãos para ajudar Santana. Ela tomou os dedos estendidos entre os seus e permitiu que a loura a colocasse de pé. O movimento rápido desequilibrou Santana e ela precisou enlaçar a mão livre ao redor do pescoço de Brittany; a loura apoiou-a pela base das costas e Santana ergueu os olhos, perdendo-se nos de Brittany. Elas respiravam o mesmo ar e a médica podia sentir o calor que o outro corpo ainda emanava. A proximidade ainda era intoxicante e ela achava que nunca deixaria de sê-lo.

Depois de olhar para os lados, se certificando de que estavam realmente sozinhas, Brittany lhe deu um sorriso presunçoso e tomou os lábios de Santana entre os seus. No mesmo instante, a médica sentiu seus músculos relaxarem dentro dos braços que a prendiam no lugar. Ela apertava o pescoço da dançarina enquanto uma boca macia explorava a sua num ritmo lento, o cheiro de Brittany invadindo seus sentidos e arrancando um suspiro de Santana. Quando elas se descolaram, Brittany ainda lhe deu um beijo no canto da boca da latina antes de falar perto do seu ouvido:

- Eu adoro poder fazer isso.

Santana procurava por palavras em seu cérebro em pane quando elas escutaram a maçaneta. Brittany lhe lançou um sorriso torto e se afastou. Santana tinha os olhos grudados no chão, inspirando profundamente para tentar se recompor, quando Mike entrou na sala.

- Santana. Que surpresa.

- Oi, Mike. Tudo bem?

- Tudo, e você? Pensando em fazer aula de dança?

A médica nem se atreveu a olhar para a loura que abria um enorme sorriso ao seu lado. Ela sabia que aquele sorriso ainda seria seu fim.

- Não, não exatamente. Na verdade, eu só vim contar pra Britt que eu vou assinar o meu contrato de aluguel amanhã — ela se virou para a loura antes de continuar. — O corretor me ligou hoje mais cedo. Ele vai levar os papéis pra mim no hospital.

- Parabéns, Santana — Brittany falou enquanto jogava os braços ao redor do pescoço da médica. — Eu tinha certeza de que ia dar tudo certo.

Santana abraçou Brittany pela cintura e sorriu de olhos fechados, aproveitados a sensação do corpo dela colado ao seu, a felicidade genuína dela lhe envolvendo como a água gelada do lago.

- Parabéns, Santana.

A voz de Mike fez com que Santana recobrasse um pouco da postura protegida que ela mantinha e ela se afastou de Brittany ainda sorrindo.

- Obrigada, Mike. Eu acho que já era hora de sair daquele hotel.

- Bom, meninas, eu não quis atrapalhar a conversa de vocês. Eu só vim pegar um CD para a minha aula. Bom ver você novamente, Santana.

- Você também, Mike — Santana respondeu e se surpreendeu com a verdade contida naquela frase. O amigo de Brittany era uma pessoa simples e ela realmente se sentia bem na presença dele.

As duas observaram enquanto o rapaz atravessava a sala e procurava alguma coisa na prateleira embaixo do aparelho de som. Brittany se virou de costas para Santana e a médica se concentrou na linha da coluna dela, exposta pelo decote. Incapaz de se conter, Santana desenhou-a com a ponta dos dedos, observando a pele clara se arrepiar sob seu toque.

Mike saiu da sala com um sorriso para as duas e Brittany se virou rapidamente, agarrando o pulso de Santana e o prendendo atrás das costas da morena. Seu olhar estava carregado de uma emoção que a médica não conseguia nomear e ela viu sua respiração falhar quando ela colou seus corpos novamente.

- Isso não é coisa que se faça, Santana.

- Então isso significa que você não vai aceitar meu convite para um jantar de comemoração? Depois que eu assinar o contrato.

Brittany largou a mão de Santana e a segurou pelos quadris, um sorriso enorme no rosto.

- É claro que eu aceito, San.

***

- Britt, posso te fazer uma pergunta?

Ela estava sentada no chão da sala de aula, as pernas abertas e sua sacola de trabalho no meio delas, arrumando suas coisas antes de ir embora. Brittany tinha certeza de que era a última no estúdio e, depois do que acontecera com Sarah, normalmente ela tinha uma vontade de sair correndo dali. Mas aquele dia tinha sido diferente. Havia algo de novo na maneira como Santana a observara durante a sua aula, um misto de reverência e admiração que Brittany não queria abandonar. Não quando ainda fazia sua pele formigar onde as mãos da médica a tinham tocado.

Por isso, a voz de Mike a assustou. Ela olhou para ele com olhos arregalados, o encontrando na soleira da porta, desconfortável, como se ele achasse que não devia estar ali. Ou não quisesse. Ele normalmente ficava assim, alternando o peso do corpo entre as pernas, ao mesmo tempo duro e incapaz de se manter imóvel, quando ele passava tempo demais pensando em alguma coisa que o incomodava ou que ele não queria pensar. Tinha sido assim quando ele achou que a namorada o estivesse traindo e tinha sido assim quando ele tinha convidado Brittany a dar aulas em sua academia.

Brittany já suspeitava o que ele quisesse saber, mas ainda assim ela sorriu para ele antes de responder:

- Claro, Mike. O que você quer saber?

- O que está rolando entre você e a Santana?

Era a pergunta que ela esperava e Brittany voltou sua atenção para a bolsa aberta a sua frente. Ela era uma péssima mentirosa e tinha medo que algo em seu rosto traísse seus verdadeiros sentimentos pela médica enquanto ela dava a única resposta que podia.

- Ela é minha amiga, Mike. Por quê?

- Você tem certeza? Quer dizer, vocês parecem tão próximas e, até onde eu sei, ela é exatamente o seu tipo.

- Olha, eu não vou negar que ela é linda — Brittany abriu um sorriso sincero e encarou o amigo. — Eu também não sou cega, mas ela é só minha amiga. A primeira que eu faço na cidade depois da Sarah e... Ela também não tem muitos amigos, então acho que isso aproximou a gente. A maneira como a gente se conheceu e tudo o que aconteceu depois. Ela é minha amiga. Só isso.

Mike a encarava com o rosto pesado e Brittany não pôde evitar imaginar se ele podia ver que ela estava mentindo, que existia todo um universo ao redor delas. Mas ele apenas suspirou, se levantou do local em que tinha sentado no chão ao lado dela e pousou uma das mãos numa cabeça loura por um momento.

- Ok. Mas você sabe que pode confiar em mim, né?

- Eu sei, Mike.

***

Santana observou quando Quinn entrou no refeitório e rumou direto para a mesa que ela ocupava assim que terminou de pagar seu almoço. A médica loura se sentou de frente para ela e se concentrou na embalagem do sanduíche em suas mãos quando seus olhos seguiram o olhar de Santana e ela notou o envelope pardo que descansava sobre a mesa. Quinn o olhou com curiosidade e ela voltou sua atenção para Santana, que não parecia ter notado a sua presença. Ela abriu e fechou a boca algumas vezes, procurando palavras, mas foi interrompida pela voz da latina.

- Eu acabei de alugar um apartamento.

Os olhos de Quinn se arregalaram e Santana achou que ela parecia um personagem de desenho animado, daqueles que se apaixonam à primeira vista e ganham molas nos olhos. A idéia colocou um sorriso no rosto moreno e ela se concentrou na amiga. Quinn parecia estar tendo dificuldades em engolir o pedaço de sanduíche que ela tinha abocanhado, mastigando com a lentidão de quem procura a palavra certa para quebrar o silêncio.

- Em Lima?

- Sim, em Lima, Q — respondeu rindo.

- Desculpa, é que eu não achei que você fosse querer se fixar permanentemente aqui.

- Eu também achei que não. Eu ainda não acredito que eu fiz isso.

- Arrependida tão cedo?

- Não. Assustada — Santana exalou e encarou o envelope mais uma vez, antes de voltar sua atenção para Quinn com um sorriso. — Mas eu acho que eu tomei a decisão certa.

- Que bom, S. Fico feliz por você. Nossa, eu nem sabia que você estava procurando por um apartamento.

- Eu não quis comentar nada caso não desse certo.

- Eu poderia ter ajudado. Procurar apartamento sozinha é um saco.

- Eu não estava sozinha.

- Brittany? — Santana respondeu com um aceno de cabeça, mais interessada no papel em cima da mesa do que na amiga que conversava com ela. — E ela tem alguma coisa a ver com essa decisão?

Agora foi a vez dos olhos negros de Santana se arregalarem. Ela tentou manter os olhos baixos, com medo de se trair caso encarasse Quinn, mas a amiga procurou as mãos que ela mantinha juntas em cima da mesa e ela se sentiu incapaz de não erguer a cabeça. Anos de entendimento foram trocados entre elas em um segundo. Santana engoliu em seco e desviou os olhos, de repente pequena diante da intensidade com que Quinn a observava.

- O que está acontecendo entre vocês, S?

- Eu... Eu não sei.

Os dedos de Quinn nunca afrouxaram o aperto que ela tinha nas mãos de Santana e a latina se arriscou a olhar novamente para a amiga, se preparando para qualquer julgamento que ela pudesse encontrar ali. Mas tudo o que ela viu foi um sorriso tímido e um olhar tão delicado que ela não tinha certeza se merecia aquilo.

Merecedora ou não, Santana se sentiu grata.

- Bom, quando você souber, você sabe onde me procurar.

As duas trocaram um sorriso e terminaram o almoço em silêncio.

***

A chegada de duas ambulâncias com vítimas de um acidente de trânsito sempre causava certa comoção entre a equipe do hospital, mesmo que a central já tivesse avisado que os casos não eram graves. Depois de anos de profissão, médicos e enfermeiros sabiam quão rápido as coisas podiam mudar naquelas circunstâncias.

O primeiro paciente já havia dado entrada e agora Santana aguardava a chegada da segunda ambulância. Ela conversara rapidamente com o motorista pelo rádio e o caso não parecia ser nada além de rotina. Por isso, ela havia dispensado a presença de outro médico no caso. Seria apenas ela e a enfermeira Mercedes. Santana trabalhava melhor sozinha e outros pacientes precisavam mais de um segundo atendente do que a pessoa que chegava naquele momento.

Assim que as portas traseiras da ambulância se abriram, a médica entrou em modo de ação, se concentrando nas palavras que o para-médico lhe dizia. Ela fazia pequenas anotações mentais e disparava ordens para a enfermeira enquanto guiava a maca para uma das salas de exame. Seus olhos treinados passeavam pelo rosto da paciente sem registrar seus traços; as únicas coisas que interessavam à médica eram seus ferimentos.

Santana deu as costas para a mulher na maca e se virou para Mercedes. Sua voz era baixa e enérgica, precisa. A enfermeira balançava a cabeça conforme anotava os pedidos da médica, quando um gemido mais alto ecoou da maca atrás delas. As duas mulheres se concentraram na paciente ao mesmo tempo, procurando qualquer coisa que elas pudessem ter deixado passar. Apenas quando os olhos de Santana se encontraram com o par que a observava do leito, arregalados e incrédulos, é que a médica percebeu que nem todos os fantasmas permanecem em silêncio no passado.

- Hoje, definitivamente, não é o meu dia.

***

Depois de acompanhar, analisar e reavaliar todos os exames da última pessoa que ela gostaria de ter lhe esperando, Santana se viu quase sozinha no quarto, de costas para a maca ocupada, organizando pela quinta vez os instrumentos para a sutura que ela ainda precisava fazer. Ela parou por um segundo, os dedos cobertos pelas luvas cirúrgicas espalhados a sua frente, tentando controlar o ritmo da sua respiração. A médica flexiona os dedos por um momento, como que testando sua capacidade de se movimentar, antes de arrancar as luvas, descartá-las no lixo à sua direita e ler, mais uma vez, o nome escrito no topo do prontuário apoiado numa bancada ao seu lado. Apenas para ter certeza de que ela não estava tendo alucinações.

Não estava.

Santana recoloca o prontuário no lugar, empurra a bandeja com os equipamentos para mais perto da maca, posiciona o seu banco o mais próximo possível e calça um novo par de luvas. Tudo no mais absoluto silêncio, um contraste com a mente que não parava de relembrar histórias que ela julgava esquecidas. Santana veste a máscara e ela sabe que nunca se sentiu tão contente por ter um trabalho em que é exigido esconder metade do seu rosto durante boa parte do tempo.

A primeira sutura que lhe aguarda é na cintura da mulher. Santana se mantém calada, sua voz abafada pela máscara sendo ouvida apenas para explicar alguma coisa para a paciente ou fazer algum pedido. Quando tudo parece desmoronando ao seu redor, métodos conhecidos são a melhor solução. Santana sabia disso como sabia ser médica, o que era a única coisa que ela podia ser naquele momento.

Mas os quatro pontos que aquele ferimento exigiu terminaram rápido demais e agora Santana precisava lidar com o outro corte, mais longo, bem próximo à linha dos cabelos castanhos claros. Quase no mesmo local em que ela também fizera as suturas de Brittany tantas semanas atrás.

A lembrança da loura naquela situação quase acaba com a determinação de Santana de terminar logo com aquele atendimento e esquecer que ele jamais aconteceu. Ela sabe que não pode parar pela metade, não sem gerar uma avalanche de perguntas que ela não se sente nenhum pouco inclinada a responder. A máscara gruda um pouco no seu rosto quando ela inspira profundamente, ao mesmo tempo em que se ergue e pede que a mulher se sente de frente para ela. É inevitável que seus olhos se encontrem nessa posição, mas Santana tenta não encará-la por muito tempo, preferindo se concentrar nas pequenas linhas que o tempo desenhou nos cantos dos seus olhos e nos pequenos traços de fios brancos que ela consegue distinguir entre os cabelos que não têm mais a cor que de ela se lembrava.

A mulher também a estuda com atenção, notando, principalmente, como seus movimentos precisos não escondem o fato de que a médica não encontra seus olhos. Ela observa quando Santana troca o kit de sutura e as luvas, se preparando para iniciar mais um procedimento. Dedos seguros erguem uma seringa com um anestésico e ela não pode mais ficar calada.

- Eu não achei que você fosse voltar.

A frase saiu num fio de voz e Santana não tinha certeza se ela falava daquele atendimento ou de Lima. Na dúvida, Santana preferiu se manter calada e continuar com o seu trabalho. Ela não era paga para conversar com os pacientes.

Ela aplicou o anestésico com um pouco menos de graça do que o habitual e alguma coisa dentro dela quase sorriu quando o rosto da mulher se contorceu um pouco. Era errado se sentir assim diante de um paciente e ela sabia, mas Santana era apenas humana. E há um limite para o que um ser humano pode suportar antes de acionar o interruptor do sadismo, mesmo que por breves segundos.

- Santana, eu...

- Eu preciso que você fique parada para eu poder dar os pontos — ela esperava que sua voz não a traísse naquele momento.

- Tudo bem. — Ela se calou por um segundo. — Mas é que...

- Isso significa não falar.

Ela assentiu coma cabeça e Santana achou que, talvez, fosse conseguir terminar as suturas.

- Mas a gente precisa conversar.

- E você realmente quer conversar enquanto eu tenho uma agulha nas mãos e faço um remendo no seu rosto? — A voz de Santana tinha mais veneno do que ela esperava, mas a mulher não se encolheu. Ela já estava acostumada.

- Não, mas é que...

- Olha, Laura, a gente não tem nada para conversar. A gente se afastou, eu fui embora, eu voltei e agora você é minha paciente. O que quer que tenha acontecido, ficou no passado. Agora, se você não se importa, eu gostaria de terminar o meu trabalho. Eu tenho outros pacientes esperando.

- Você podia ter ligado.

Uma gargalhada ácida ecoou no quarto e Santana largou os instrumentos na bandeja com um estalido alto antes de puxar a máscara até o queixo.

- E dizer o quê? Pra quê? Por quê?

- Nós éramos tão próximas, Tana...

- Éramos. Tempo verbal correto. E não me chama assim, você não tem mais esse direito — Santana fechou os olhos por um segundo para se controlar. — E, que eu me lembre, foi você que se afastou de mim. Não o contrário.

- E eu tentei me desculpar, mas você nunca quis me ouvir. Eu errei.

- Isso não importa mais. A escola acabou há muito tempo. Agora, você vai me deixar terminar ou eu preciso chamar outro médico?

- Por favor, Dra. Lopez, eu não vou falar mais nada.

***

Era início da manhã e uma mensagem de Brittany ainda permanecia sem resposta no celular de Santana desde o meio da noite. Quando o aparelho vibrou em seu bolso, o encontro com Laura ainda estava fresco em sua cabeça e a médica não soube como responder. Agora, horas depois, sentada dentro do carro estacionado na lateral do hospital, ela ainda não sabia.

A pergunta não era difícil. A loura apenas queria saber se Santana iria tomar café da manhã com ela — um hábito novo e com o qual Santana tinha certeza que poderia se acostumar. Era simples, sim ou não. Apenas três letras e Brittany teria uma resposta. Mas, quanto mais a médica encarava a tela iluminada do celular, menos certeza da resposta ela tinha. Ela se sentia completamente incapaz de tomar qualquer decisão que não constasse em um livro de medicina.

A perspectiva de voltar para um quarto de hotel vazio não a agradava, como não vinha agradando desde que Brittany saíra de lá. E Santana se conhecia bem demais para ignorar que ficar sozinha, num domingo, depois de um encontrão com o passado, não seria a opção mais inteligente. Suas tendências autodestrutivas já tinham sido cuidadosamente testadas — e comprovadas — para ela fingir que ficaria bem caso se fechasse naquele quarto.

Mas ela também não tinha certeza de que queria companhia. Não era como se Santana tivesse muitas opções em Lima — ou em qualquer outro lugar do país, se ela fosse completamente honesta -, mas ela sabia que as poucas que existissem iriam querer respostas. Uma história, começo, meio e fim; uma justificativa em troca da presença. Não era culpa delas e Santana sabia. É da natureza humana a curiosidade, querer dar sentido ao caos. Mas ela não se sentia pronta para especificidades. Ela já havia se acostumado com o seu caos interno — quando tudo em sua cabeça parecia gritar a plenos pulmões, era mais fácil ignorar a voz que sussurrava todas as coisas que ela não queria ouvir.

A tela do celular já havia se apagado e Santana apertou um botão para verificar a hora. Um gemido reverberou no carro quando ela descobriu que estava naquela mesma posição há quase uma hora. Olhando para os lados, ela notou que quase todas as vagas ao seu redor estavam vazias; a equipe que dividira o plantão com ela já tinha ido embora e só restava ela ainda ali.

Ela estava enrolando. Ela sabia que estava enrolando e enrolar é muito parecido com fugir. Coisa que ela prometera que não faria mais. Com um suspiro resignado, Santana jogou o celular no banco do carona, ligou o motor e manobrou o carro para fora do estacionamento. Ela não pensava, o caminho até o apartamento de Brittany já gravado na sua memória muscular. Ela não pensava, porque, se pensasse, talvez perdesse a coragem e desviasse o caminho até o hotel e se enterrasse na cama, debaixo de pilhas de cobertores. Mesmo com o sol brilhando contra um céu absolutamente azul do lado de fora da janela.

***

Um som baixo, vindo do lado de fora do corredor, alcançou o quarto de Brittany, mas ela não lhe deu atenção. Ela já estava acordada, encarando o celular apagado, deitado ao seu lado na cama. Santana não tinha respondido e a mente de Brittany criava cenário após cenário para justificar o silêncio da médica. Talvez ela tivesse ficado sem bateria, ou tivesse esquecido no hotel, ou o plantão tivesse sido corrido demais, ou ela não tivesse recebido, ou ela não tivesse visto, ou...

No momento em que Brittany começou a cogitar, pela quinta vez desde que abriu os olhos, mandar outra mensagem para Santana, as batidas no corredor voltaram a ecoar. Mais altas agora e ela percebeu que estavam batendo na sua porta. Com uma seqüência de palavras indecifráveis, Brittany se levantou da cama e tropeçou até a entrada do apartamento, certa de que a Sra. Thomas devia querer reclamar da algo que ela não fez.

Ela abriu a porta num movimento rápido e a mulher morena que a encarava com enormes olhos castanhos definitivamente não era a Sra. Thomas — nem nos melhores dias da velha síndica.

- San!

- Oi, Britt — Santana respirou com facilidade pela primeira vez em horas. — Te acordei?

- Não, eu já estava acordada. Entra. Você quer comer alguma coisa? Acho que tem...

- Não — ela respondeu segurando Brittany pelo pulso. — Não precisa. Eu só... Eu só não queria ficar sozinha naquele hotel.

Santana sentiu as palavras apertando sua garganta, roubando seu ar. O coração batendo descompassado no peito, os olhos grudados no chão, incapazes de encarar Brittany. Ela apenas sentiu quando o ar se movimentou ao seu redor e um corpo parou perto do seu. Tão perto que ela podia sentir o calor da pele clara a envolvendo. Dedos longos se moldaram ao seu rosto e Brittany a forçou a olhar para cima, a encontrar seus olhos.

- Aconteceu alguma coisa, San?

Os olhos de Brittany se moviam por todo o rosto de Santana, sem saber o que tinha deixado a médica tão retraída. Ela percebeu a ondulação da garganta dela quando a morena engoliu e a maneira como ela mordia o lábio inferior com tanta força que a pele ao redor dos dentes já estava esbranquiçada.

— Não aconteceu nada. Juro. Eu só não queria ficar sozinha. Tudo bem se a gente ficar um pouquinho ali no sofá?

- Claro que sim.

O rosto de Brittany se desmanchou num enorme sorriso e Santana entrelaçou seus dedos com os dela, permitindo que a loura a conduzisse os poucos passos até o sofá. Com um beijo na testa de Santana, Brittany forçou o corpo da médica para baixo, se sentando na mesa de centro a sua frente. Ela primeiro tomou a perna esquerda da mulher, retirando seu sapato e colocando-o de lado. Depois, repetiu o processo com o outro pé. Brittany apoiou as mãos nos joelhos de Santana e se inclinou, roçando os lábios dela com os seus.

Dessa vez, Santana viu quando Brittany se movimentou. Ela se levantou da mesa e se sentou na ponta do sofá, as costas apoiadas no braço do móvel e o corpo voltado para a médica. Ela deu um puxão leve na mão morena até que Santana escorregou pelas almofadas e se aninhou no corpo esguio da dançarina.

Santana nunca se sentiu tão abraçada na vida; os seios e o abdômen de Brittany colados às suas costas, braços a enrodilhando pela cintura, pernas se perdendo entre as suas pela extensão do sofá. Brittany era um pijama quente na primeira noite de inverno e Santana se afundou ainda mais no corpo que a sustentava.

O cheiro dos fios negros invadia as narinas de Brittany e ela virou o rosto, plantando um beijo na têmpora da médica. Ela deixou que seus lábios permanecessem no mesmo lugar por algum tempo, apenas respirando Santana.

- A sua campainha está quebrada?

- Eu que quebrei.

Santana virou o rosto de supetão para ter certeza de que tinha escutado a resposta direito. O susto estampado nos traços dela era tão evidente que arrancou uma risada de Brittany. O som ecoou pelo corpo de Santana e ela se sentiu ainda mais aconchegada.

- Logo que eu me mudei, a Sra. Thomas me acordava quase todo dia com a campainha. Aí eu resolvi cortar o fio. Eu acho que ela é muito sozinha, mas eu precisava dormir.

- Um motivo muito justo — Santana respondeu com uma risada.

- Eu não recebo muita gente e quem vem aqui normalmente interfona ou usa a chave reserva. Por falar nisso, por que você não usou a chave reserva?

- Eu não sabia se podia.

- Eu te dei a chave da portaria e mostrei onde fica a da porta. É claro que podia.

- Mas eu não sabia se eu ia atrapalhar alguma coisa ou se você estava dormindo.

- San, fui eu que te chamei, lembra?

- E eu não respondi. Desculpa.

- Não tem problema. Você está aqui, agora.

A resposta de Santana foi apenas um suspiro. Ela ajeitou a cabeça na curva do ombro de Brittany e apertou ainda mais os braços que a prendiam pela cintura; qualquer coisa que a prendesse à Terra.

- Você pensou na minha proposta? — Brittany perguntou depois de um longo silêncio, enquanto Santana deslizava um dedo por seu braço.

- Qual proposta?

- Aulas de dança. Particulares.

- Pensei. E, na verdade, tem um ritmo que eu sempre quis aprender.

- É? Qual?

- Tango.

Notas finais
E então? Alguém se arrisca a imaginar Britt ensinando Santana a dançar tango?
Eu adoro ler as opiniões de vocês, então...comentem!
Até o próximo!