How To Mend A Broken Heart
22 Capítulo 22
Notas iniciais
Entre sono profundo e consciência, há uma terra sem lei e sem tempo. É quando os barulhos do dia invadem nossos ouvidos e passam a fazer parte de qualquer sonho que esteja se passando por trás das pálpebras ainda fechadas. É hora de movimentos irritados, uma tentativa inútil de encontrar o sono perdido entre lençóis e travesseiros. Pensamentos começam a correr livremente por um cérebro que ainda não está acordado suficientemente para controlá-los — voltamos a ser puro instinto. Mesmo que por breves minutos.
E é neste lugar em que Brittany se encontra, ainda de olhos fechados, mas já consciente da maneira como o lençol envolve seu corpo na altura da cintura e como o sol ilumina seu quarto, aquecendo seus músculos. Pela claridade que invade suas pálpebras, ela determina que ainda é cedo e se move sobre o colchão, tentando enterrar o rosto no travesseiro ao lado e fugir do mundo real.
Mas é o mundo real que invade a mente de Brittany junto com o perfume de Santana que invade seus pulmões. O mesmo cheiro de laranja e floresta e uma sucessão de imagens e lembranças forçam Brittany a um estado de alerta total. Ela se lembra das palavras que ela e Santana trocaram no dia anterior, a convivência natural que elas estavam reconquistando, a incerteza da voz de Santana quando ela pediu que a médica não fosse embora. Seu corpo ainda conseguia sentir a maneira como os dedos de Santana tinham tocado seu rosto e beijado seus lábios, e, se ela se mexesse só mais um pouquinho, ela conseguiria sentir a médica se agarrando à camiseta que ela usava.
Santana estava presente demais naquele quarto, mas era exatamente sua ausência que fazia com que a respiração de Brittany ficasse presa na garganta.
A última lembrança que a loura tinha da noite anterior era um suspiro que tinha fugido dos lábios de Santana e aquecido seu pescoço. Elas tinham dormido entrelaçadas, presas num nó de braços, pernas e uma vontade enorme de não soltar mais. Brittany tinha colocado toda sua história à disposição de Santana e ela achou, ela sinceramente achou, que, dessa vez, a médica não fosse fugir. Ela achou que dessa vez elas tivessem uma chance de conversar sobre o que estava nascendo entre elas, sem fugas, sem subterfúgios. Ela achou que Santana estivesse pronta para encarar o que ela tinha por dentro. Mas a metade vazia da cama que ela agora encarava de olhos muito abertos contava uma história diferente.
Um longo suspiro ecoou no quarto e Brittany se virou na cama, encarando o teto. Ela tentava respirar apesar do enorme peso que tinha se alojado em seu peito. Aquele espaço entre as suas costelas estava pesado, partido entre o que ela gostaria que acontecesse entre ela e Santana e uma necessidade muito humana de se proteger. Ela queria Santana. Isso era bastante claro para ela. Ela desejava a médica, seu corpo formigava quando elas estavam próximas, um sorriso nascia em seu rosto toda vez que pensava nela. Seu ser estava completamente afinado com o da outra mulher, seus olhos magnetizados à simples presença dela no mesmo ambiente. Para Brittany, a realidade era simples: ela e Santana eram duas mulheres livres, independentes e que se gostavam, que queriam ficar juntas. Não havia nada mais natural no mundo da dançarina, mas ela sabia que agora não se tratava apenas do mundo dela. Quando duas pessoas se aproximam, dois universos colidem e nada permanece inalterado. O que já era igual, ou parecido, se fortalece. E o que era diferente... Bem, nesse caso, é preciso inventar um livro de regras inteiramente novo. São essas regras que Brittany não tinha certeza se seria capaz de suportar.
Santana gostava dela. Esse era um ponto que ela nem ousava mais questionar, mas não era o único. Ela também tinha certeza de que a morena não estava pronta para enfrentar o que esse gostar poderia representar.
Ela lia Santana como um livro; cada gesto, um parágrafo; cada suspiro, um capítulo. E nos olhos dela, por trás de todas as máscaras e de toda bravata, o que Brittany via era uma menina assustada, com medo do escuro, mas com mais medo ainda do que poderia ser visto uma vez que as luzes fossem acesas. Ela via uma menina que não se achava digna por ser imperfeita, por não ser ideal. E não havia nada que Brittany quisesse mais, naquele momento, do que colocar Santana no colo e sussurrar em seu ouvido todas as coisas incríveis que ela era. Como Brittany nunca tinha conhecido alguém tão forte, tão resiliente, tão determinado. Como ela nunca vira alguém ser capaz de colocar o bem estar de outra pessoa acima do seu próprio como se não fosse nada demais.
E como seu estômago despencava cada vez que Santana sorria e uma covinha surgia em seu rosto. E como ela gostava do seu gosto para filmes. E como os olhos castanhos adquiriam um tom de madeira quando o sol refletia diretamente neles. E como a animação dela podia ser contagiante. E como ela gostava do contraste entre suas peles. E como ela podia passar horas conversando com a médica. E como ela não se sentia uma idiota ao lado dela. E como ela achava que nunca mais conseguiria beijar outros lábios sem comparar com os de Santana. E como ela não conseguia mais passar um único dia sem pensar no que a latina estaria fazendo; ou pensando; ou sentindo. Ou o que ela acharia dessa música, desse programa, desse filme, dessa coreografia. E como ela já não conseguia pensar num futuro que não fosse Santana.
E que tudo ia ficar bem, que ela não precisava ter medo.
Mas Santana fora embora e Brittany não sabia se ainda tinha forças para continuar tentando, para continuar esperando por uma coisa que podia nunca acontecer. Um navio que podia nunca chegar.
Os pensamentos em desalinho incomodavam contra o travesseiro e Brittany desistiu de tentar resgatar seu sono. Com um suspiro resignado, ela chuta o lençol para longe e sai da cama. Seus pés mal abandonam o chão enquanto ela atravessa o corredor, olhos novamente fechados, o caminho já há muito decorado.
– Bom dia.
Olhos azuis se abriram surpresos, apenas para encontrar Santana sentada no sofá, as pernas dobradas em baixo do corpo e a mesma roupa que Brittany lhe emprestara na noite anterior. Ela tinha um sorriso preguiçoso nos lábios e uma caneca de café nas mãos.
– O café ainda está quente — ela ainda tinha a voz rouca de sono. — Se você quiser...
Brittany fez que sim com a cabeça, mas não se moveu. Ela estava enraizada no fim do corredor, encarando Santana, incapaz de fazer qualquer movimento. Os pensamentos que rondavam sua cabeça há apenas alguns segundos se chocando contra a imagem diante dela. E ela tinha feito um trabalho tão bom ao se convencer de que Santana tinha ido embora, que agora ela não sabia o que fazer consigo mesma diante da médica. Era como se Santana tivesse roubado seu ar e suas palavras.
Do outro lado da sala, Santana apenas observava Brittany. Os olhos negros registrando e guardando cada detalhe. Brittany parecia congelada no meio de um movimento, uma das mãos perdida nos cabelos louros, o cotovelo apontando para o teto e um milhão de perguntas boiando nos olhos quase esverdeados sob o sol do início da manhã. O short curto revelava os músculos construídos em anos de coreografias e a blusa deixava os ombros à mostra. Santana pensou que a imagem seria quase pecaminosa, se Brittany não parecesse incrivelmente inocente; os raios de sol brincando nos fios claros e criando uma espécie de nuvem dourada ao redor do seu rosto.
Como a mulher parada no batente da porta não esboçava reação, Santana ergueu as sobrancelhas e a caneca de café ao mesmo tempo. O segundo convite arrancou Brittany dos seus pensamentos e ela deu um sorriso tímido antes de caminhar até a cozinha. Santana acompanhava os movimentos dela, um pouco mais lentos pela hora, e se perguntava — talvez pela milésima vez desde que conhecera Brittany — por que teria tido tanta sorte. Justo ela.
Brittany se juntou a Santana no sofá e a médica abandonou os questionamentos que rondavam sua cabeça. Ela preferia se concentrar na versão real de Brittany, essa que sorria para ela e que parecia ser capaz de segurar seu coração entre os dedos até que ele batesse devagar novamente.
– Impressionante. Até o seu café é melhor do que o meu.
– Se você encontrar um médico que não saiba fazer café, você merece um prêmio — Santana respondeu entre risadas. — Eu acho, até, que é matéria de algumas faculdades. Mas o seu também é muito bom.
Do elogio brotou um silêncio espesso, que tomou conta de todo o ambiente. Santana se sentia inquieta, sua pele tomada por um exército de formigas diante do olhar fixo de Brittany. Ela ainda não tinha se acostumado a ser observada, não quando se sentia tão vulnerável. Mas havia sempre algo tão suave na maneira como Brittany a olhava, como cheiro de chuva no fim da tarde, que Santana tentava se convencer de que talvez não houvesse problema em permitir ser vista. Depois de Brittany ter colocado sua história de maneira tão aberta para ela, Santana achava que era o mínimo que podia fazer em troca.
– Você acordou cedo.
– Eu me senti sozinha — Brittany murmurou para a xícara. — Achei que você tivesse ido embora.
Havia algo de resignado no tom de voz de Brittany que gelou a pele de Santana, como se a loura já esperasse que ela fugisse mais uma vez. Como se ela já tivesse se acostumado a encarar a fumaça com o formato de Santana que a médica deixava para trás cada vez que saía correndo quando não sabia lidar com alguma coisa dentro dela. Mas o que mais a incomodava era a sensação de que estava desapontando uma pessoa cuja aprovação significava mais do que ela estava disposta a admitir; uma pessoa que não tinha feito nada a não ser esperá-la. Brittany olhava para ela como se tudo o que pudesse esperar de Santana fossem fugas apressadas, desculpas rotas e momentos roubados, até que seu instinto de sobrevivência agisse novamente. E, de alguma maneira, ela parecia aceitar que esse seria o máximo que a médica teria a oferecer.
Essa era uma hipótese que Santana já tinha contemplado inúmeras vezes na vida, se havia alguma coisa dentro dela que fosse boa o bastante para oferecer para o mundo. Se ela conseguiria ser mais do que ela havia se permitido. Se ela saberia gostar.
Durante a adolescência, essas perguntas eram barulhentas em sua mente, rondando cada minuto que ela passava acordada, enchendo seus dias de ansiedade. Conforme as folhas do calendário foram sendo arrancadas e novas camadas de proteção foram construídas, Santana passou a ter certeza de que a mesma palavra responderia todas as questões: "Não". Eventualmente, ela silenciou definitivamente qualquer questionamento e se conformou que algumas pessoas nasceram sabendo amar e outras não. E que ela, Santana Lopez, estava no segundo grupo.
Mas estava tudo bem, porque ela era muito melhor do que essas histórias que viram filmes lacrimosos. Ela tinha beleza e tinha cérebro, uma combinação muito mais eficaz do que um coração de manteiga. Santana nunca teve pudores em usar uma de suas armas mais eficazes, mas, quanto mais ela abusava desses recursos, maior ficava o buraco que havia se formado dentro dela. Ele começou pequeno, o ponto de entrada de um projétil de baixo calibre, mas cada vez que ela agia por instinto, cada vez que ela fugia, que ela ignorava o que sentia, era como se alguém estivesse enfiando os dedos nesse buraco e esticando, só um milímetro por vez. Quase não fazia diferença. Até que ela olhou para dentro e não enxergou nada além de vazio. Até que ela conheceu Brittany.
Brittany, que tem um coração maior do que ela mesma. Brittany, que parecia não se importar com todas as partes quebradas de Santana. Brittany, que parecia feita de estrelas. Brittany, que fazia o mundo ao redor delas se dissolver. Brittany, que entendia a vida com uma simplicidade que assombrava Santana. Brittany, que merecia tudo, mas que parecia se contentar com o quase nada que Santana era capaz de lhe oferecer.
– Eu...eu — Santana inspirou longamente, como quem vem à tona depois de mergulhar. — Eu acho que eu cansei de ir embora.
As palavras saíram emboladas, como se elas tivessem medo de serem engolidas caso não fugissem de Santana. Como se elas estivessem ameaçando a própria vida da médica. Mas Brittany ouviu. Brittany sempre ouvia tudo o que Santana dizia e tudo aquilo que ela preferia calar. E agora, observando a mulher sentada de frente para ela, que abraçava os joelhos como se eles pudessem protegê-la do mundo, Brittany achou que Santana nunca lhe parecera tão pequena. Ela parecia ter encolhido com a admissão, perdido um pouco da altivez diante da verdade. Os olhos castanhos estavam fixos em algum lugar do chão, mas ela não parecia enxergar o piso do apartamento. Na verdade, Santana não parecia enxergar nada. Seus olhos estavam opacos e a respiração era tão suave e superficial que Brittany mal notava. Se ela não soubesse melhor, Brittany poderia jurar que estava encarando uma estátua. A estátua mais triste que ela já vira.
Até que as lágrimas que estavam se acumulando nos olhos castanhos transbordaram e uma gota pesada rolou pelo rosto moreno e desapareceu no canto dos lábios entreabertos. O movimento lembrou a Brittany de que ainda havia vida naquele corpo congelado e ela se arrastou pelo sofá, parando perto o suficiente para sentir o cheiro de Santana se misturando ao café que ela ainda tinha nas mãos.
– Então não foge mais — Brittany disse num sussurro.
O nó que Santana já tinha acostumado a sentir ao redor da sua garganta apertou mais uma vez antes que ela desse mais uma respiração trêmula e erguesse seus olhos para Brittany. Através das lágrimas que turvavam os contornos de Brittany, ela podia ver o sorriso doce que havia nascido no rosto dela. Brittany esticou as mãos para remover a xícara que Santana ainda tinha nas mãos e a médica permitiu, se sentindo incapaz de lutar qualquer coisa que fosse Brittany. Ela colocou a peça no chão sem desviar os olhos de Santana, um imã a prendendo à escuridão que boiava em lágrimas não choradas.
Santana acompanhou os movimentos de Brittany quando ela voltou a apoiar as costas contra o sofá, um tom cuidadoso pintando os olhos azuis. Ela parecia ver que Santana se sentia como se estivesse desmoronando, como se ela fosse feita de cinzas e qualquer movimento brusco ou respiração forte de Brittany fosse suficiente para desintegrar a mulher. Quando ela não desviou o olhar, Brittany segurou as canelas de Santana e puxou as pernas morenas acima das suas, puxando o corpo pequeno contra o seu, um braço protetor ao redor dos ombros dela enquanto sua mão livre procurava a mão de Santana, escorregando seus dedos entre os espaços dos dedos dela.
Com os olhos fechados e o rosto apoiado no ombro de Brittany, Santana inspirou longamente, tentando se lembrar de como viver. Ela estava numa posição estranhamente parecida com a que tinham dormido e como ela tinha acordado naquela manhã — ainda emaranhada nos braços de Brittany -, mas ela se sentia mais incerta agora. De repente, tudo ficara visível demais quando o sol passou a invadir o apartamento. Ela conseguia ver todas as suas falhas, todas as suas imperfeições, todas as suas dúvidas. Ela conseguia ver demais.
– Eu não sei o que fazer — ela suspirou.
– Você não precisa ter todas as respostas agora, Santana — Brittany falou, apoiando o rosto nos cabelos negros. — Não tem problema. Ninguém espera isso de você.
Santana fechou os olhos e assentiu contra o corpo de Brittany. As últimas palavras ainda pairavam no ar e ela tentava absorver seu significado por cada poro do corpo. Ela precisava que aquilo fosse real, que aquelas palavras corressem em suas veias e que ela conseguisse, finalmente, acreditar que ela não precisava desempenhar o papel que tinham lhe imposto.
– Eu não quero mais fugir.
A voz rouca de Santana voltou a ecoar depois do que pareceu uma eternidade e ela estava coberta de uma convicção nova, uma certeza calma. Ela sentia como se o nó que já parecia fazer parte dela começasse a se desfazer, como se ela tivesse puxado o fio certo e agora tudo o que ela precisava fazer era continuar puxando até que não existisse mais nó. Mais nada. Apenas ela.
– Que bom. Eu estava começando a achar que a gente ia correr uma maratona.
Santana ergueu a cabeça e encontrou o sorriso travesso de Brittany. Ela sorriu de volta e suspirou, antes de enlaçar o pescoço delgado com os dois braços, a ponta dos seus dedos brincando com os fios louros.
– Por que você tem tanta paciência comigo?
– Porque eu acho que você vale a pena.
O ar entre elas ficou espesso com a simplicidade da resposta de Brittany. Santana encarava a dançarina com olhos arregalados, esperando que ela desse uma gargalhada e dissesse que não passava de uma brincadeira. Mas Brittany sustentava seu olhar, forte e suave como tudo o que ela tinha feito até ali. Ela não estava brincando e Santana podia ver no azul que a encarava de volta que Brittany realmente achava que ela valia a pena. Ela valia a pena a espera, as fugas, as crises de choro, o passado mal resolvido, as imperfeições, os defeitos. E se alguém como Brittany podia achar isso, Santana achou que talvez houvesse alguma razão.
Com as mãos ainda no pescoço de Brittany, Santana colou seus lábios aos dela e tentou colocar em um beijo tudo o que ela ainda não sabia dizer em palavras. As emoções que borbulhavam em seu peito se misturavam antes que ela conseguisse dar um nome a cada uma delas e Santana se agarrava a Brittany com mais força. Ela precisava se manter aterrada antes que o redemoinho que tinha se instalado dentro dela a arrastasse para longe novamente.
Ela não queria mais fugir. Não agora, que ela, finalmente, tinha encontrado uma razão para ficar.
Os dedos de Brittany nas costas de Santana a seguravam com a mesma força. Ela tentava memorizar o mapa da musculatura da médica com as digitais, desenhando um caminho para que elas conseguissem voltar àquele lugar caso se perdessem uma da outra.
Santana encerrou o beijo e encostou a testa na de Brittany, sem fôlego. Ainda com os olhos fechados, ela trouxe as mãos para o rosto da dançarina e se afastou um pouco. Assim, tão de perto, Santana conseguia contar cada sarda pintada na pele clara e era possível enxergar pequenos pontinhos dourados no meio dos olhos azuis que a encaravam com atenção, como se Brittany fosse feita de poeira de cometa por dentro e um pouquinho tivesse vazado para seus olhos.
Apesar de tudo que ela ainda não entendia, apesar de tudo de que ela fugia, Santana nunca se sentira tão leve quanto naquele momento: os braços de Brittany em sua cintura, seu rosto entre seus dedos, o calor do corpo esguio invadindo sua boca e o sabor da sua língua ainda preso entre seus dentes. Ela sentia como se tudo em sua vida a tivesse levado até aquele momento. Como se ali fosse onde ela sempre deveria ter estado. Depois de tanto tempo, ela sentia como se voltasse a conseguir encaixar algumas peças do quebra-cabeças e, agora, fosse possível começar a discernir alguma coisa da imagem que seria formada. O centro ainda estava oco, as peças espalhadas aleatoriamente, mas os contornos já eram definidos. Um chão, ainda que irregular, já tinha se formado. E, na parte de cima, um céu se descortinava para ela. Um céu com o mesmo azul que ela via nos olhos de Brittany.
– Eu tenho que ir. Ainda preciso passar no hotel antes de ir para o hospital.
Brittany apenas assentiu, mas nenhuma das duas esboçou qualquer movimento. Elas pareciam imobilizadas, grudadas naquela posição, incapazes de se afastar um milímetro que fosse. Porque fora dali, o mundo real aguardava. E ele não costuma ter tempo para esperar que a gente encontre respostas para perguntas que a gente nem conhece.
Mas hoje era dia de plantão e Santana não podia se dar ao luxo de se aninhar mais uma vez nos braços de Brittany. Depois de mais um beijo, ela se arrastou do sofá para o quarto, atrás das roupas que ela tinha largado em algum lugar.
Com Santana já vestida, ela e Brittany se encaravam nervosamente na porta do apartamento. Embora elas já tivessem se despedido algumas vezes, a confissão de Santana fazia com que tudo ficasse novo. Elas sabiam que as palavras da médica tinham sido verdadeiras, mas ainda não era fácil imaginar como as coisas seriam depois que ela saísse do apartamento e Brittany fechasse a porta. Brittany não sabia se suportaria, caso Santana sumisse mais uma vez. E Santana realmente desejava ter coragem para fazer aquilo que seu coração implorava, mas ela já fora covarde antes e ela sabia que nada a impedia de ser novamente.
– O que você vai fazer hoje? — Santana perguntou quando o silêncio se tornou incômodo demais.
– Nada demais. Acho que eu vou trabalhar numa coreografia nova. Por que?
– Se você quiser, sei lá... Você podia dar uma passada no hospital pra almoçar comigo — Santana se sentia caminhando sobre gelo fino e deu uma risada nervosa. — Até nós médicos precisamos comer de vez em quando.
– É, gostei. É uma boa idéia.
Pela primeira vez desde que Santana começara a se aproximar, Brittany tomou a iniciativa e a beijou. Nada além de um beijo de despedida, mas a sensação de poder tocar os lábios dela sem que a médica parecesse prestes a desmoronar inundou o estômago dela de fagulhas. Ela já não tinha certeza se sobreviveria até o almoço.
O instrumental suave de uma música conhecida preenchia o carro de Santana no caminho de volta para o hotel. Ainda era cedo e a estação que ela escolhera tocava músicas que tinham sido lançadas antes de a médica ter nascido. Logo a voz de John Lennon ecoou pelos alto-falantes e Santana aumentou o som e acompanhou a letra.
– Eu estou com medo. Eu estou com medo.
As palavras incharam em sua boca e ela não conseguiu mais cantar. Ela apenas murmurava a letra de uma música que ela já ouvira dezenas de vezes, mas que nunca tinha lhe parecido tão apropriada. Quando ela balbuciou que não precisava ter medo, que as coisas eram como eram, Santana olhou seu reflexo no retrovisor e não se surpreendeu ao notar que algumas lágrimas tinham se acumulado no canto dos seus olhos, apesar do sorriso que ela ainda tinha.
Mais um trecho instrumental e a mente de Santana voltou para Brittany como um bumerangue. Ela pensava em tudo o que elas tinham dito desde o dia anterior quando voltou a ouvir a voz do Beatle dentro do carro. Santana não conseguiu acompanhar o último trecho da música, deixando apenas que as palavras reverberassem dentro dela. Ele dizia que estava cansado de ser tão sozinho, de não ter um lugar, e o sorriso de Santana cresceu, porque agora ela sabia que aquela não era mais a sua música.
– Eu não estou mais sozinha.
***
A sala dos médicos parecia ter sido invadida por um bando de garotas adolescentes barulhentas. Frases sobre programas do fim de semana e a chuva da noite anterior reverberavam entre as paredes enquanto a equipe se preparava para o plantão que se iniciaria em poucos minutos. O clima de animação era quase palpável, bem diferente dos pés se arrastando pelo chão quando eles terminavam o expediente.
Mas no meio de toda essa agitação, uma das médicas se mantinha alheia ao barulho e às conversas. Santana estava parada na frente do armário que carregava seu nome, um vazio em seus olhos enquanto ela encarava a aliança que tinha tirado do dedo e guardava na prateleira de sempre. Era um movimento que ela repetia desde que tinha ficado noiva de Rafael, mas ele nunca lhe parecera tão vazio quanto agora. Depois do que ela tinha confessado a Brittany, depois do que ela começava a reconhecer que existia dentro dela, não parecia certo continuar com aquele velho ritual. O aro dourado agora parecia uma muleta para quem já conseguia caminhar novamente. Faltava apenas coragem para colocar o peso sobre as duas pernas sem apoio.
Sem pensar sobre o que fazia, Santana soltou o cordão fino que tinha ao redor do pescoço e escorregou a aliança pelo fio. Se ela ainda não conseguia se desfazer por completo daquela parte do seu passado, pelo menos ali ela não a encararia o tempo todo, uma lembrança zombeteira de quem ela havia sido. Com uma respiração trêmula, Santana pegou as pontas do cordão entre os dedos e o atou novamente ao redor do pescoço. Ela tateou brevemente a jóia antes de guardá-la dentro da roupa. O metal frio contra sua pele a arrepiou e ela precisou apertar a mão contra o peito antes que seu coração acelerasse mais do que seu corpo seria capaz de suportar.
Ainda com a mão sobre o peito, Santana caminhou até a máquina de café antes que os outros médicos tivessem a mesma idéia. O aroma forte da bebida invadiu seus sentidos e ela levou o copo aos lábios, engolindo o calor líquido. Ela tinha os olhos fechados e apreciava a familiaridade do amargo sobre a língua. Quando ela os abriu novamente, Quinn avançava até ela, os olhos verdes focados nela como se procurassem por algo. Como que por instinto, Santana apertou um pouco mais o copo de papel.
– Bom dia, S. Como foi a folga?
– Foi... — Santana pensou em tudo o que tinha sido dito entre ela e Brittany no último dia à procura de uma definição. — Foi boa.
– Tem certeza?
Quinn tinha as costas voltadas para Santana e não viu a expressão de pânico que passou pelo rosto moreno. Com um novo copo de café nas mãos, Quinn voltou a encarar Santana, estudando suas expressões como se elas pudessem responder à pergunta que a outra mulher parecia não querer. No espaço de uma respiração, Santana se recompôs e ergueu uma sobrancelha desafiadora.
– Aonde você está querendo chegar, Q?
– Lugar nenhum, Santana. — Quinn sabia quando a amiga estava na defensiva e preferiu não pressionar. — Só achei que você estava meio distante, sei lá. Aérea.
– Impressão sua. Eu só ando com um monte de coisas na minha cabeça. Só isso.
Quinn estudou Santana por um momento antes de se aproximar e cobrir a mão morena que segurava o copo com a sua. Quando ela voltou a falar, sua voz era mais baixa e coberta por uma emoção que Santana não conseguia identificar.
– Você sabe que pode conversar comigo, se precisar, né?
– Quinn, o que foi que eu falei sobre as nossas conversas virarem um número musical ridículo?
A risada de Quinn ecoou pela sala quase cheia e, apesar de tentar manter a seriedade no rosto, um sorriso começava a se formar nos lábios de Santana. Apesar de ela não saber colocar em palavras o que estava acontecendo com ela, a atenção de Quinn era bem vinda. Mais uma lembrança de que ela não precisava ser tão sozinha.
Quando os olhares das duas mulheres se encontraram novamente, os sorrisos morreram e o clima ficou sério mais uma vez.
– Eu estou falando sério, Santana. Se você...
– Eu sei, Q. Eu sei.
– Muito bem, senhores. É hora do show.
A voz de um dos médicos mais antigos da equipe chamou a atenção das duas mulheres e elas observaram quando seus colegas se dirigiram à porta. Quinn seguiu atrás deles, mas, antes que saísse da sala, ela procurou por Santana e encontrou a latina ainda parada, no mesmo local. Ela encarava o copo que tinha na mão e parecia completamente desconectada do mundo ao seu redor.
– Santana? Tá tudo bem?
Ao ouvir os passos de Quinn caminhando em sua direção, Santana levantou os olhos e deixou que a pergunta que estava martelando em sua cabeça desde que ela chegara ao hospital ganhasse vida.
– Você já sentiu como se a sua vida toda fosse uma grande mentira?
A pergunta de Santana pairava no ar entre elas como um balão de gás que escapole das mãos e Quinn teve a impressão de ter visto algo se partir por trás dos olhos castanhos da amiga. Ela nunca tinha ouvido tanta dor e tanta tristeza vindas de Santana.
Quando elas se conheceram, ainda no primeiro ano da faculdade de medicina, Quinn achou que havia algo de muito solitário na garota latina com uma língua mais ferina do que a dela. Ela sentia como se Santana vivesse dentro de uma bolha e tudo o que chegava até o mundo eram os ruídos abafados da voz dela. O que Quinn não tinha certeza era se a bolha era para impedir que algo entrasse ou saísse.
Até mesmo quando ela estava com o namorado, Rafael, Quinn via uma reserva na garota. Ela parecia estar numa eterna vigília, como se qualquer momento de descuido pudesse deixar escapar algo monstruoso para o qual o mundo não estaria preparado. E Quinn não achava que era seu direito questionar os motivos dela. Se Santana preferia escolher quais partes suas seriam públicas, Quinn estava pronta para aceitar. Ela também tinha um ou outro esqueleto escondido no armário.
E essa tinha sido a fundação da amizade delas, uma compreensão mútua de que havia um universo inteiro abaixo da superfície, mas que elas não estavam convidadas. As longas noites de estudo na faculdade, os plantões intermináveis e uma capacidade de inventar novos insultos era o que as unia. Mas agora, vendo o olhar derrotado da amiga, Quinn se perguntava se realmente conhecia Santana. Era claro que a mulher estava sofrendo e Quinn não tinha a menor idéia de por que ou por quanto tempo.
Santana fechou os olhos e respirou fundo. Ela não tinha tido intenção de perguntar aquilo. Ela nem sabia se queria saber a resposta. Mas agora Quinn estava parada na frente dela, segurando suas mãos com força. Ela inspirava deliberadamente, se firmando antes de abrir os olhos novamente e encontrar a preocupação que ela sabia que devia estar estampada no rosto da amiga.
– S? O que aconteceu? Do que você está falando?
– Nada, Quinn — Santana abriu os olhos e tentou controlar as falhas na sua voz. — Não aconteceu nada. Deixa pra lá.
– Mas...
– Q, eu já falei que não aconteceu nada. Esquece que eu fiz essa pergunta, ok? Agora, vem. Nosso plantão já começou.
***
Pela janela do corredor, Santana observava os tons escuros de azul que começavam a tomar o céu de Lima naquele início de noite. À frente dela, o mostrador do elevador iniciava sua contagem regressiva enquanto a médica tentava colocar seus pensamentos no lugar antes de encontrar Brittany.
Ela tinha se sentido aliviada ao receber uma mensagem de Brittany perguntando se o almoço delas poderia ser um jantar. Aparentemente, ela tinha tido uma idéia para uma nova coreografia que ela precisava mostrar logo para o Mike. Mas tudo o que Santana conseguia pensar era que as horas extras poderiam ser úteis. Desde que conhecera Brittany, ela vinha levando uma espécie de vida dupla. Quando estava sozinha com a loura, Santana podia sentir todas as suas muralhas lentamente sendo derrubadas. Ela não saberia dizer quando isso aconteceu, mas ela se sentia à vontade com Brittany de uma maneira que não acontecia há muito tempo. Era bom e desconhecido. E, justamente por isso, ela se esforçava tanto para manter essa parte da sua vida afastada do seu cotidiano profissional. Ela já tinha tantas dúvidas rondando a sua cabeça, que não lhe faria nenhum bem andar pelo hospital com o olhar perdido, tentando entender coisas que ela nem sabia se queria sentir. Dentro daquele prédio, ela precisava, mais do que nunca, que as pessoas vissem apenas Satã Lopez.
A tática vinha se provando bem sucedida. Depois que Quinn chamou sua atenção por ter sido ríspida demais com um paciente, Santana logo achou um equilíbrio que lhe permitia se proteger sem arriscar o seu emprego. Ela estava relativamente satisfeita com o arranjo, guardando os pensamentos sobre Brittany apenas para quando estivesse sozinha.
Mas ela já não se sentia mais tão em controle. Alguma coisa tomara conta dela e a pergunta que ela vinha se fazendo toda vez que deixava a mente vagar escapuliu dela para os ouvidos de Quinn. Ela não sabia a quê podia creditar aquele deslize — foram tantos acontecimentos a lhe deixar de joelhos bambos desde que ela chagara no apartamento de Brittany no dia anterior, que eles começavam a se empilhar como folhas de outono -, mas o fato era que a pergunta tinha sido feita e a semente de dúvida, plantada no cérebro de Quinn. Ela ainda tinha tentado disfarçar, culpar o cansaço, mas cada vez que elas se encontraram pelo hospital naquele dia, Santana podia ver no rosto da outra médica que o assunto não tinha sido esquecido.
E agora lá estava ela, esperando o elevador que a levaria para o refeitório, onde Brittany a esperava para jantar. Nada mais natural e inocente entre duas amigas, mas Santana sentia uma onda de náusea tomando conta dela. Ela podia ver suas duas vidas — duas versões dela mesma — em rota de colisão e não parecia haver nada que ela pudesse fazer a não ser apreciar o espetáculo. Ela tinha causado aquilo. Ela tinha feito o convite a Brittany e ela tinha feito a pergunta a Quinn. E agora a campainha do elevador a lembrava de que ela não tinha para onde fugir.
Mas fugir significaria não ver Brittany sentada, sorrindo para ela no mesmo instante em que Santana entrou no refeitório. Se desarmar algumas das suas defesas garantisse que Santana pudesse ter aquele mesmo sorriso direcionado a ela sempre que quisesse, a médica pensou que talvez não fosse tão ruim assim.
Brittany acompanhava os movimentos de Santana enquanto ela atravessava o refeitório. A atenção da médica parecia focada apenas nela, mas seu sorriso não chegava inteiramente a seus olhos e, a cada grupo de passos, ela se desviava às outras mesas ocupadas. Brittany pensou que ela parecia estar procurando fontes de perigo, como se alguém fosse sair de um canto, correndo e apontando o dedo para ela. Era um pensamento que pesava no estômago de Brittany, mas ela fez o máximo para não deixar que seu sorriso esmorecesse. Alguém precisava se manter firme.
– Como vai a coreografia?
Santana se sentou de frente para Brittany, ainda sorrindo, mas sem fazer qualquer menção de tocar a dançarina. Ela entendeu que, à sua frente, estava a Dra. Santana Lopez. Aquela não era a sua San.
– Bem. Eu e o Mike fizemos alguns avanços. Nós vamos continuar amanhã, antes da primeira aula.
– Que bom. Não vejo a hora de assistir — Santana falou com o primeiro sorriso genuíno da noite. — Bom, vamos comer? Eu estou louca de fome.
Quando Santana ia se levantando da cadeira, ela sentiu dedos se fechando ao redor do seu pulso. Uma onda de eletricidade percorreu seu corpo e sua respiração falhou por um momento. Até que ela encarou Brittany nos olhos mais uma vez. Os mesmos olhos que a tinham trazido de volta à vida.
– Aonde você vai, boba? Você não achou que eu ia deixar você comer um sanduíche qualquer depois daquele almoço de ontem, né?
Com isso, Brittany ergueu do chão uma enorme sacola com um logotipo que Santana reconheceu como sendo do restaurante próximo ao estúdio em que Brittany trabalhava. As lembranças de todas as vezes em que elas tinham comido lá espalhou um calor pelo peito da médica. Aquele logo tinha se tornado o lugar delas.
– Eu não acredito que você foi até lá só pra me trazer comida, Britt.
– O dono é meu amigo. Eu pedi para entregarem aqui — Santana olhava Brittany com os olhos arregalados de quem recebe o gesto mais incrível da vida. — Agora vamos comer antes que esfrie. Espero ter acertado o pedido.
É claro que ela acertou, Santana pensou quando o cheiro de comida caseira atingiu suas narinas.
O sabor da comida e as risadas de Brittany logo fizeram Santana se esquecer do lugar em que estava. Não havia mais hospital, colegas, pacientes, plantão ou dúvidas. Havia apenas uma garota loura sentada a sua frente, apreciando a companhia dela como se ela fosse a melhor pessoa do planeta.
A mão de Brittany descansava sobre a mesa e Santana permitiu que a sua cobrisse a dela. Ela mantinha os olhos grudados em suas mãos, apreciando o modo como suas peles contrastavam, sentindo a textura com a ponta dos dedos.
Enquanto Santana observava a dança que seus dedos faziam nas costas da mão de Brittany, a outra mulher se mantinha grudada no rosto dela. Se em todos os outros momentos Santana parecia usar uma máscara de chumbo, quando estavam só as duas, tudo o que Brittany via era o rosto moreno. O belo rosto da mulher e todas as emoções que borbulhavam logo abaixo da superfície. Ela nunca tinha conhecido ninguém que dissesse tanto com apenas alguns músculos, mas olhando Santana enquanto ela desenhava as veias da mão de Brittany até seu pulso, a dançarina via uma espécie de encantamento infantil nela. Como se ela não pudesse acreditar que tinha permissão para tocar Brittany daquele jeito.
Uma vontade de tomar o rosto de Santana entre as mãos e beijá-la até que as duas estivessem sem fôlego tomou conta de Brittany, mas ela se contentou em sorrir para a mulher que erguia seus olhos para ela.
– Obrigada, Britt. Obrigada.
Ela não sabia o que responder. Havia uma solenidade no olhar de Santana, uma rouquidão na voz dela, que diziam que a médica não estava agradecendo apenas pelo jantar. Com a garganta carregada, Brittany apenas alargou o sorriso e virou sua mão, tocando sua palma contra a de Santana, envolvendo a pele dela entre seus dedos.
– Posso fazer uma pergunta? — Brittany interrompeu o silêncio e Santana se limitou a assentir. — Como está o seu pai?
– Como assim, Britt? — Santana tinha farpas na voz e ela ameaçou puxar a mão de volta, mas Brittany a manteve no lugar.
– É só que já passou tanto tempo desde o enterro e você nunca falou nada sobre ele.
– Porque eu não falei com ele desde aquele dia.
– Você não ligou pra ele em quase um mês?
– Não é nenhuma novidade, Britt. A gente nunca foi muito de ligar para o outro. Só em casos de extrema necessidade.
– E você não acha que esse é o caso? — Santana olhou para Brittany com surpresa no rosto, ao que a loura continuou: — Saber como ele está? Depois de enterrar a mulher com quem ele foi casado a vida inteira?
– Telefones funcionam como uma via de mão dupla, sabia? Ele tem o meu número. Ele pode me ligar se ele quiser.
– Santana!
A médica deixou um gemido derrotado escapar da garganta e jogou a cabeça para trás. Ela tinha os olhos fechados e respirava lentamente, tentando recompor-se. Com um aperto na mão de Brittany ela voltou a encarar a loura e procurou falar com sua voz mais suave.
– E o que você quer que eu faça, Britt?
– Eu acho que você devia ligar para ele. Alguém tem que dar o primeiro passo.
Santana não respondeu. Apesar de ela se sentir mais inclinada a fazer qualquer coisa que Brittany pedisse, a perspectiva de ligar para o pai — ligar para ele apenas para saber como ele estava, o que era pior — deixava seu estômago em nós. E ela não queria que seu jantar terminasse com um assunto como aquele.
– Eu falei com o corretor hoje — Santana voltou a falar depois de um tempo e Brittany entendeu que o assunto pai tinha morrido.
– Hoje? Mas hoje é domingo.
– Nada como trabalhar por comissão. Eu fiz a proposta e devo ter uma resposta amanhã ou terça.
– Você nunca me disse qual apartamento você escolheu.
Um sorriso sonhador se abriu no rosto de Santana quando ela se lembrou do apartamento que ela tinha escolhido e como Brittany tinha ajudado nessa decisão. Agora, só faltava uma ligação para que aquilo fosse real.
– O último que a gente viu. Aquele que eu levei você de noite.
– Que bom. Era o meu preferido também.
***
Uma das vantagens do frio de Lima nas noites que antecedem o inverno são as ruas quase desertas. Poucas pessoas se aventuram a sair da proteção dos seus sistemas de calefação e dos seus cobertores. Mas Santana gosta do frio. Ela sempre foi uma garota do verão, mas há algo em sentir o vento gelado atravessando seu corpo até seus ossos que a faz se sentir viva. E agora que ela está parada na frente do hospital, vendo como a temperatura pinta um tom de rosa novo no rosto de Brittany, a médica pensa que gosta mais ainda das noites geladas da cidade.
O jantar delas terminou antes que qualquer uma realmente quisesse ir embora. Brittany adorava ouvir Santana contar sobre os casos que ela tinha visto no dia e as fofocas de corredor do hospital. Ela sentia que conhecia mais uma Santana. Novamente a mulher forte, segura de si que ela tinha visto quando conheceu a médica, mas o sorriso e o olhar doce da sua Santana ainda estavam ali, enterrados logo abaixo da superfície, escapando vez ou outra quando ela se descuidava. Era como se ela estivesse presenciando uma fusão de duas pessoas em outra inteiramente nova; um tipo de nascimento.
E Santana poderia passar horas ali, contando as histórias mais absurdas apenas para a fazer sorrir. Conforme as palavras jorravam com mais facilidade de seus lábios, ela sentia que o mundo ao seu redor desaparecia. Nada que não fosse Brittany importava. Nada que a desviasse da importante missão de mapear as sardas que cruzavam o nariz fino dela merecia a sua atenção.
Mas tudo precisa ter um final e agora elas se encontravam frente a frente, sem saber qual era a próxima fala do script. Quando elas estavam sozinhas, encerradas em quatro paredes, tudo parecia ensaiado, simples, vivido e revivido por uma vida inteira. Mas assim, sem rede de proteção, sem parede, sem teto, elas se sentiam como atrizes jogadas em cima do palco sem roteiro. Os movimentos eram improvisados, fora de ritmo; as vozes saíam um pouco falhas e as frases sempre soavam melhor em suas cabeças.
Isso até que uma delas estendesse a mão. Até que suas peles se tocassem.
É verdade que Brittany e Santana se conheciam há pouco tempo, que elas ainda ensaiavam conscientemente passos que seus corpos pareciam ter aprendido desde o primeiro momento. Quando o gancho que prendi o coração de uma a outra puxava e diminuía a corrente que as separava, elas sempre sabiam o que fazer. Viver dentro da órbita da outra era instintivo para elas como o caçar para um leão — há que se aprender os detalhes, as firulas, a finesse; mas a vontade básica, a fome primitiva sempre esteve ali.
Era essa fome que comandava os pés de Santana, aproximando ainda mais a médica de Brittany. Não havia ninguém na entrada das ambulâncias àquela hora e o sabor do último beijo de Brittany ainda permanecia em seus lábios, mesmo depois de todos os copos de café que ela já tinha consumido. Seu corpo parecia incapaz de se desfazer de qualquer traço da dançarina. Ele se apegava a fragmentos, maximizando sua potência até a próxima dose.
Santana estendeu a mão e entrelaçou os dedos com os de Brittany, apreciando a maneira como eles se encaixavam com suavidade. Tudo nelas encaixava. Ela baixou os olhos por um momento, estudando suas mãos, e, quando voltou a encarar a mulher mais alta, foi recebida por um enorme sorriso. Brittany tinha uma excitação juvenil nos olhos que deixou o corpo de Santana formigando, seu estômago em queda livre. Ela parecia ter esperado por aquele momento, por aquela aproximação de Santana, a noite toda.
O sorriso de Brittany encontrou um espelho no rosto de Santana e os olhos delas se transformaram em imãs, atraindo as mulheres sem que houvesse um esforço consciente. Tudo o que Brittany registrava era como o nariz de Santana se franzia de leve com o tamanho do sorriso dela e como a testa morena parecia lisa, livre de qualquer sinal de tensão. Já para Santana, não havia nada além de olhos de gato, da respiração que se confundia com a sua e...
– Quinn!
Santana se afastou de Brittany em um pulo, arrancando a mão entrelaçada nos dedos compridos e colocando o máximo de distância entre elas antes que a outra médica pudesse notar a proximidade que houvera. Nenhuma das outras pessoas no refeitório conhecia Santana o suficiente para interpretar os olhares que ela trocava com a loura que parecia não entender a reação da latina, mas Quinn era diferente.
Quinn não se assustava com a péssima atitude dela. Quinn não se encolhia quando ela soltava farpas. E Quinn tinha estado lá desse o começo, desde a noite em que ela chegara naquele hospital com uma Brittany assustada e ferida nos braços. Quinn conhecia Santana e ela já podia ver as peças do quebra-cabeça sendo montadas por trás dos olhos esverdeados da loura. Não tardaria muito até que Santana fosse alvo de mais perguntas do que ela sabia responder.
Mas não ainda. Por enquanto, o universo que ela estava criando com Brittany ainda era muito delas para admitir turistas. Agora, ela não conseguiria lidar com o peso de olhos estranho. Não quando ela ainda se sentia em carne viva.
Santana deu um último olhar de desculpas para Brittany antes de dar um passo em direção a Quinn. Brittany tentou sorrir para Santana, ela queria que a médica soubesse que estava tudo bem, que ela entendia a hesitação e o medo dela, mas seu sorriso não chegou a seus olhos. Havia pesar demais neles para o sol brilhar por ali. Isso apertou ainda mais o peito da latina, mas ela não podia pensar naquilo agora. Primeiro, ela precisava descobrir o tamanho do estrago que tinha sido feito.
– O que você está fazendo aqui, Q?
– Esperando uma ambulância que já deve estar chegando. Você?
– Eu...eu estava...
– A Santana só veio me acompanhar até aqui fora. Eu já estava indo embora.
Dois pares de olhos se fixaram em Brittany ao mesmo tempo. Santana não sabia se sentia aliviada ou mortificada por ter sido salva pela loura. Quinn, por outro lado, parecia genuinamente feliz em vê-la.
– Brittany. Que bom ver você.
– Você também, Dra. Fabray.
– Por favor. Eu não sou mais a sua médica. Pode me chamar de Quinn. Mas o que você está fazendo aqui? Está tudo bem?
Uma onda de náusea violenta subiu pelo corpo de Santana. Ela fechou os olhos para não ver a cena, mas era impossível bloquear os sons de invadirem seus ouvidos.
– Eu vim jantar com a Santana. Um agradecimento por tudo.
– Claro. Bom saber que alguém consegue fazer essa cabeça dura comer comida de verdade. Às vezes eu acho que ela acredita que pode sobreviver só a base de café.
A galhofa no tom de voz de Quinn fez com que Santana escancarasse os olhos, apenas para ver as duas mulheres sorrindo para ela, como se aquela fosse situação toda fosse absolutamente comum.
Bom, não havia nada de comum sobre o calor que ela sentiu no rosto. Santana agradecia pela noite sem estrelas, senão Quinn e Brittany teriam percebido o rubor que tinha tomado conta da sua pele.
– Café e sanduíche, né?
– Vocês duas estão lembrando que eu estou bem aqui, né?
– E a gente falou alguma mentira, S?
A resposta de Santana não passou de um resmungo e as duas louras compartilharam um olhar divertido. Mas o momento de leveza passou com a mesma rapidez com que começou e tudo o que sobrou no seu rastro foi um silêncio pesado.
– Foi bom encontrar você de novo, Quinn, mas acho melhor deixar vocês voltarem ao trabalho.
– Claro, Brittany. Apareça mais vezes. Alguém precisa alimentar a Santana — Quinn pontuou a frase com uma piscada antes que Brittany voltasse sua atenção para Santana.
– Tem certeza, Britt...any? — A loura assentiu enquanto caminhava em direção à médica. — Obrigada pelo jantar.
Santana tinha um olhar envergonhado e estava consumindo todo o autocontrole de Brittany não dar os últimos passos que as separavam e beijar a boca que tinha estado tão próxima da sua minutos antes. Mas ela tinha se prometido caminhar na velocidade que Santana pudesse, exigir somente aquilo que ela estivesse pronta para dar. E um beijo na frente de Quinn não se encaixava nessa categoria.
No lugar do que ela realmente queria fazer, Brittany se contentou em plantar um beijo na bochecha de Santana. A pele macia estava quente e ela esperava ser capaz de colocar tudo o que ela gostaria de poder dizer naquele gesto.
Quando suas peles se tocaram, Santana ouviu "Está tudo bem". Quando Brittany suspirou tão próxima, Santana entendeu "Eu espero". Quando um formigamento tomou conta de todo o seu corpo, Santana escutou "Eu também quero isso". Quando ela se afastou e seus olhos se encontraram por um momento, Santana leu "Eu te amo".
E então, com um último sorriso, Brittany se afastou. Ela caminhava com passos lentos e Santana se manteve plantada no mesmo lugar, acompanhando o recorte da silhueta dela diminuir a cada passo. Até que ela virou a esquina e não sobrou nada além da leve umidade onde Brittany a havia beijado.
Santana ainda manteve os olhos grudados no último lugar em que tinha visto os cabelos louros de Brittany balançando por mais um momento, incapaz de se mover. Incapaz até de pensar.
Tudo o que ela lera nos olhos de Brittany, todas as emoções que ela vira brilhando na superfície das íris azuis, inundaram seu corpo com uma sensação de leveza que a prendia à terra. Ela era, ao mesmo tempo, oca e plena. Etérea. Ela flutuava fora do seu corpo e podia sentir cada rachadura no asfalto abaixo de seus pés. Um sentimento inédito e ancestral se formava dentro do seu peito e seus pulmões pareciam à beira de um colapso, mas seu coração galopava. Naquele momento, Santana não tinha nome, não tinha rosto, não tinha passado. E ela nunca fora tão ela.
O barulho da sirene da ambulância que se aproximava despertou Santana do delírio febril que ela estava tendo e ela se lembrou de onde estava. E de quem estava parada atrás dela, pronta para disparar perguntas assim que a latina se virasse. Tudo o que ela queria fazer era sair correndo na mesma direção que Brittany virara, tomar a loura nos braços e selar seus lábios com um beijo. Mas, quis o destino que alguém ficasse doente exatamente naquele momento. Quando luzes vermelhas iluminaram os prédios a sua volta, Santana achou que seria seguro encarar Quinn. Com um suspiro, ela endireitou os ombros e vestiu a máscara que começava a não caber mais em seu rosto.
Quinn olhava para ela sem dizer palavra. Seus olhos estudavam cada detalhe do rosto de Santana e ela se sentiu, novamente, uma garota na frente da professora depois de ser pega colando na prova.
– Eu gosto da Brittany.
De tudo o que Santana esperava ouvir naquele momento, aquela frase não estava lista. Ela nem tentou disfarçar a expressão de absoluta confusão quando retrucou:
– Do que você está falando, Q?
– Eu só disse que gosto da Brittany. Eu fico feliz que vocês tenham ficado próximas. Só isso.
– Eu...é...nós...
– Boa noite, doutoras.
A ambulância estacionou próximo a elas e um para-médico já abria as portas traseiras enquanto Santana tentava formar um pensamento coerente, qualquer frase com começo, meio e fim. Mas Brittany parecia ter levado suas funções cognitivas mais básicas com ela.
– S? — Santana apenas ergueu os olhos para encontrar o olhar de Quinn. — Me ajuda com isso?
– Claro, Quinn. Claro.
Notas finais
Até o próximo...
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