Notas iniciais
Obrigada pelos comentários no capítulo anterior. Que bom que você estão gostando da história.
Boa leitura!

De repente, Santana se vê sozinha no corredor do hospital encarando a porta do quarto em que Brittany está. É início da madrugada e a médica passou as últimas horas acompanhando a loura nos exames que Quinn pediu. Ela se lembra do plantão que terá início em algumas horas. O mais sábio naquele momento seria voltar para o hotel, dormir um pouco e esquecer que aquela noite sequer aconteceu.

Mas ela não quer esquecer. Ela quer abrir a porta daquele quarto e ter certeza de que a garota loura com rosto de anjo está bem. Ela quer olhar mais uma vez dentro dos olhos azuis cristalinos. Ela quer sentir o calor das mãos de Brittany subindo pelo seu braço. Ela não quer ir embora.

Santana suspira e balança a cabeça, afastando aqueles pensamentos. É apenas zelo profissional, ela garante a si mesma pela trigésima vez nas últimas horas e estica o braço para alcançar a maçaneta. Ela abre a porta devagar para não assustar a ocupante do quarto, sem saber ao certo o que irá encontrar.

Do lado de dentro, Brittany parece um pouco mais relaxada. Ela finalmente deitou na maca, de costas para a porta, uma massa de cabelos louros espalhada pelo travesseiro. Santana observa a garota da soleira por um tempo antes de fechar a porta.

O barulho do trinco assusta Brittany, que se vira na direção do som com os olhos arregalados e cheios de medo. As feições dela se suavizam um pouco quando ela reconhece a médica e Santana pode perceber que ela estava chorando.

- Tá tudo bem. Sou eu – ela fala com suavidade enquanto atravessa o quarto e toma a cadeira ao lado da cama.

Uma infinidade de perguntas se formam na cabeça de Santana enquanto ela fita dentro dos olhos mais azuis que ela já viu na vida. Mas ela acha melhor esperar a garota estar mais calma; ou até a Dra. Tina Cohen-Chang estar ali. Apesar da resposta atravessada, ela sabia que Quinn tinha feito a coisa certa ao chamá-la.

Por enquanto, se contentaria em fazer companhia à menina. Se tinha um sentimento que Santana conhecia bem era o de estar sozinha no mundo, sem terra firma sob os pés. Ela já tinha passado por isso vezes demais.

Pela terceira vez naquela noite, Brittany buscou a mão de Santana. Mas agora, a médica estava preparada para o toque. Na verdade, ela até ansiava por ele, um pouco. Ela sorriu para a loura e entrelaçou seus dedos, apertando levemente a mão que aquecia a sua. Era a maneira que conhecia para dizer à Brittany que ela não estava sozinha.

Depois do que pareceu uma eternidade, Santana achou que a outra mulher estava calma o suficiente para algumas perguntas. Talvez ela conseguisse algumas respostas antes que Tina chegasse ali.

- Quer me contar o que aconteceu?

Um brilho de terror cruzou momentaneamente os olhos de Brittany, escurecendo-os. Ela balançava furiosamente a cabeça para os lados e apertava ainda mais a mão de Santana entre a sua.

- Tudo bem, tudo bem. Calma. A gente não precisa falar disso agora. – Cadê aquela asiática atrasada?, pensou antes de continuar. – Vamos começar com alguma coisa mais fácil. Qual o seu sobrenome?

- Pierce. Brittany Pierce.

- Prazer, Brittany. O meu nome é Santana Lopez. – Ela afastou levemente alguns fios de cabelo da testa da mulher, observando o curativo que ela tinha feito após a sutura.

- Prazer.

- O que você faz da vida? Posso perguntar?

- Eu sou dançarina. Dou aula de dança.

A médica desviou os olhos. Aquela resposta certamente explicava as longas pernas torneadas e o abdômen rígido que ela sentiu quando ajudou Brittany a ficar de pé. Já preparava a próxima pergunta quando ouviu o barulho da maçaneta. Instantaneamente, sentiu o corpo de Brittany ficar tenso e o aperto em sua mão se intensificar. Novamente, o corpo de Santana se movimentou sem a permissão dela e a morena colocou a mão no braço de Brittany, afagando sutilmente a pele clara.

- Está tudo bem. Essa é a Dra. Tina Cohen-Chang. Ela veio conversar com você.

Santana podia sentir o olhar de Tina queimando sua pele enquanto esta se aproximava. Tinha certeza de que ela estava memorizando cada movimento de sua interação com Brittany para um diagnóstico. Era o trabalho dela e Santana sabia, mas detestava ficar sob o microscópio.

- Oi, Brittany. Meu nome é Tina. Eu queria conversar com você. Tudo bem?

- Acho que sim.

A latina ia puxando a mão para sair do quarto e dar mais privacidade às duas, quando Brittany a segurou com mais força. Santana encarou a dançarina e em seus olhos pôde ler uma súplica para que ela não a deixasse sozinha. Trocou um olhar com a outra profissional, que fez um sutil aceno com a cabeça. Nesse momento, o melhor era não estressar Brittany mais ainda. E se isso significava ter Santana ali, que fosse.

Quarenta minutos e várias perguntas sem resposta depois, Tina e Santana saíram do quarto para conversar no corredor. O medicamento que havia sido dado à Brittany começava a fazer efeito e a jovem finalmente tinha dormido. Além disso, Tina sabia que não conseguiria muitas respostas naquele momento. Às vezes, uma boa noite de sono pode ser um excelente remédio.

- Santana, você conseguiu descobrir mais alguma coisa sobre ela?

- Só o que ela também te falou.

Nesse momento, as duas mulheres foram interrompidas por Quinn, que vinha andando pelo corredor até elas.

- E então? Alguma novidade?

- Quase nada, Quinn. A gente só conseguiu descobrir que o nome dela é Brittany Pierce e que ela dá aulas de dança. Mais do que isso e ela se fecha completamente.

- Será que a gente devia chamar a polícia?

- Acho melhor esperar até amanhã. Ela está dormindo e forçá-la a falar novamente só vai piorar o trauma. Minha esperança é que amanhã ela se sinta mais segura para conversar.

Santana assistia à conversa das duas sem interferir. Estava perdida demais em suas preocupações para falar qualquer coisa.

- Santana, você vai estar aqui amanhã?

- Como? – A médica se assustou ao ser arrancada de seus devaneios.

- Amanhã? Você vai estar aqui no hospital?

- Vou, vou sim. Meu plantão começa em algumas horas, na verdade.

- Ótimo. Ela confia em você. Então, se a gente tiver que envolver a polícia, pode ser mais fácil para ela se você estiver presente. Tudo bem?

- Tudo. Eu vou estar aqui mesmo.

Um silêncio desconfortável se instalou entre as três. Quinn e Tina observavam Santana, tentando entender a conexão que ela tinha estabelecido tão rapidamente com a paciente. E tudo o que Santana queria era escapar dali e ficar um pouco sozinha, colocar os pensamentos no lugar.

Um barulho estridente soou no corredor e as três procuraram seus pagers ao mesmo tempo. Tina é quem tinha sido chamada e se despediu das outras duas, prometendo voltar na manhã seguinte para verificar como estava a paciente.

Quinn encarava Santana com um sorriso divertido. Ela sabia que essa garota tinha mexido com a amiga mais do que Santana jamais teria coragem de admitir. Ela se preocupava com a amiga, sabia muito bem tudo o que tinha acontecido nos últimos anos e como o coração dela tinha sido estraçalhado em milhares de pedaços, mais de uma vez. A cada decepção, a latina tinha construído mais uma camada de proteção ao redor de si mesma, afugentando as pessoas antes mesmo que elas conseguissem se aproximar. Mas, observando a médica com Brittany, Quinn pensou ter visto algumas dessas barreiras caírem por terra.

- Que cara é essa, Fabray?

- Cara nenhuma, Santana.

- Como se eu não te conhecesse, Q. Desembucha.

- Só estava pensando em como é estranho que uma garota traumatizada como a Brittany tenha decidido confiar logo em você – ela tinha uma risada escondida na voz e Santana genuinamente sorriu diante do raciocínio.

- Confesso que eu também não entendi. Mas, fazer o quê? Cada doido com a sua mania, certo?

Santana já ia se virando no corredor, para voltar para o quarto de que tinha saído, quando Quinn fechou a mão em seu pulso, forçando a médica morena a se virar.

- Onde você está indo, S?

- O que é que parece, Fabray? Eu estou voltando para o quarto. Agora, será que dá para soltar o meu pulso ou será que você precisa de um incentivo?

- S, você ouviu a Tina. Ela está dormindo e é melhor esperar até amanhã para tentar falar com ela de novo.

- O meu pulso, Fabray. – A voz de Santana já estava carregada de animosidade e Quinn achou melhor abrir a mão. Ela sabia muito bem que a amiga tinha um soco potente. – Obrigada. E, voltando ao assunto, eu não entendi aonde você quer chegar.

- Em algumas horas começa o seu plantão, certo? Então, por que você não vai para a sala dos médicos e dorme algumas horas por lá? A noite já foi agitada o suficiente e você precisa descansar.

- É o que eu pretendo fazer, mas aqui nesse quarto.

- Por quê?

- Porque aqui é mais tranqüilo – era uma resposta sincera, embora incompleta. – Além disso, você mesma falou que ela confia em mim. Então, acho que é melhor ela acordar e dar de cara comigo do que acordar sozinha num quarto de hospital.

- Tem certeza de que é só isso?

- Não enche, Q. Boa noite.

E sem esperar por uma resposta, Santana deu as costas para a médica e mergulhou na escuridão do quarto. Ela fechou a porta rapidamente, para não acordar Brittany, e avançou no breu, observando cuidadosamente a figura em cima da cama. Era possível distinguir as longas pernas encolhidas, as mãos próximas do rosto e os cabelos espalhados. Santana se aproximou em silêncio e puxou o cobertor, cobrindo melhor Brittany. A jovem se acomodou com o calor e entreabriu os olhos, encarando Santana.

- Está tudo bem. Pode voltar a dormir.

Brittany tinha o rosto grave, pesando se aquela era mesmo a melhor decisão.

- Eu não quero ficar sozinha. Você pode ficar aqui comigo?

O coração de Santana perdeu alguns compassos com o pedido. Brittany parecia tão pequena e frágil diante dela, como uma criança com medo do escuro. A morena ajeitou uma mecha de cabelo louro atrás da orelha da jovem antes de responder.

- Claro. Eu vou ficar bem aqui.

Um sorriso débil brotou nos lábios de Brittany quando ela fechou os olhos e se deixou adormecer novamente.

Santana andava pelo quarto, tentando se acomodar sem fazer barulho. Ela deixou os sapatos num canto, soltou os cabelos, desabotoou a calça jeans e puxou as duas poltronas do quarto para perto da cama, ao alcance das mãos de Brittany se fosse necessário. Se acomodou na mais próxima à cabeceira e jogou os pés em cima da outra. Não era confortável, mas já tinha dormido em condições piores no início da carreira.

O casaco que ela tinha emprestado para Brittany agora era usado como cobertor pela médica e ela se acomoda melhor na poltrona, encarando a jovem que já dormia novamente. As feições da dançarina estavam finalmente relaxadas e Santana sentiu o peso em seu peito diminuir um pouco. Era quase nada, uma grama ou duas, mas o suficiente para permitir que ela respirasse um pouco melhor do que nos últimos meses.

A respiração de Brittany era lenta e compassada. O ritmo ajudava Santana a se desligar dos acontecimentos das últimas horas. Ela estica o braço e toca a mão de Brittany com a ponta dos dedos, desenhando círculos na palma aberta. A última imagem que Santana vê antes de conseguir dormir é um sorriso fraco no rosto de Brittany quando a loura fecha a mão, prendendo a mão de Santana na sua.