How To Mend A Broken Heart
18 Capítulo 18
Notas iniciais
Com um suspiro abafado, Santana passou a cabeça pelo buraco da blusa e alisou o tecido contra o corpo. O relógio de pulso que ainda estava dentro do armário aberto informava que seu plantão terminara há pouco mais de uma hora, tempo suficiente para uma equipe já ter ido embora e para a outra estar perdida em tarefas e novos pacientes. Ninguém repararia nela. Exatamente como tinha planejado.
Desde que recebera a ligação, no meio da manhã anterior, Santana sabia o que era preciso fazer. E não era preciso correr. Nada mudaria se ela andasse mais rápido.
O corredor do sexto andar do hospital estava vazio. Aquela era uma área administrativa e o silêncio era um contraste enorme com a correria da sala de emergências a que Santana tinha se acostumado. Toda vez que precisava ir até ali, ela se sentia entrando em uma espécie de realidade paralela, onde seus pensamentos ecoavam nas paredes nuas e pintavam quadros de imagens que ela preferia não ver.
Santana evitava ao máximo ter que ir ao sexto andar, mas hoje ela não tinha escapatória.
Seus passos lentos ricocheteavam nas paredes e voltavam até seus ouvidos, parecendo muito mais altos do que realmente eram. Talvez fosse assim que se sentisse um preso caminhando no corredor da morte, ela pensou, reconhecendo que a idéia era macabra demais até mesmo para ela.
A porta da sala de Sue Sylvester estava fechada e havia uma regra tácita no hospital de que ela não devia ser interrompida nesses momentos — a equipe de psicologia já tinha recebido alguns membros da equipe que tinham cometido esse erro. Então, Santana encostou as costas contra a parede em frente à porta de madeira e esperou. Ela não tinha nada melhor a fazer mesmo.
Enquanto esperava, Santana deixou que a cabeça pendesse para frente, tentando aliviar um pouco da tensão acumulada nos músculos depois de um longo plantão. Pequenas pontadas, como choques elétricos, percorriam sua musculatura a cada movimento, por mais lento que fosse. Era um misto de dor e prazer e ela mal conseguiu conter um gemido rouco. Talvez ela não devesse ter bebido tanto antes do plantão. Ela não tinha ficado bêbada, não tinha sido o suficiente para isso, mas sem a anestesia engarrafada ela não teria conseguido dormir. Desde que Brittany fora embora, três semanas antes, essa era a rotina de Santana: se revirar na cama durante toda a noite, sonhando com a garota loura e com todas as besteiras que tinha feito na vida, ou beber no bar do hotel o suficiente para se jogar na cama e dormir um sono sem sonhos. Ela nunca ficava bêbada na véspera dos plantões, mas ela também não descansava.
Quando ouviu o barulho da maçaneta, Santana ergueu a cabeça rapidamente, como um chicote. O movimento repentino a fez ver estrelas coloridas e, de repente, o mundo pareceu menos estável. Com as mãos apoiadas na parede, Santana piscou e clareou a visão em tempo de ver Quinn saindo pela porta recém aberta. A médica já tinha tirado o jaleco e seu rosto dava sinais de cansaço. Santana pensou que não devia estar muito melhor e preferiu ficar calada.
- Santana? — A voz de Quinn era baixa, mas não disfarçava a surpresa em encontrar a médica latina ali. — Pensei que já tivesse ido embora.
- É... Eu preciso falar com a Sylvester antes.
- Está tudo bem?
Santana demorou a responder. Aquela era uma pergunta tão banal, que normalmente fazemos milhares de vezes na vida sem esperar uma resposta sincera. Não é curiosidade genuína, é apenas uma maneira de nos sentirmos menos desconfortáveis diante do outro. Mas algo nos olhos esverdeados de Quinn fez com que Santana pensasse na reposta sincera àquela pergunta. Ela não tinha a menor idéia se estava tudo bem. Ou melhor, ela sabia muito bem que alguma coisa não estava bem. O que ela não sabia era o quê e nem por quê. Por fim, ela forçou algo parecido com um sorriso e respondeu:
- Claro. Eu só preciso resolver algumas coisas sobre a minha escala. Nada demais.
A voz de Santana se partiu no fim da frase e ela teve certeza de que Quinn deve ter percebido. Ela detestava dar sinais de fraqueza diante de outras pessoas, qualquer pessoa, e já preparava uma resposta para um possível ataque, mas Quinn apenas sorriu e lhe abriu a passagem.
A conversa com Sue Sylvester é rápida, como costumam ser as coisas com ela. Nesse ponto, ela e Santana são parecidas. Não gostam de perder tempo com explicações desnecessárias. Negócios. Rápido, limpo, cirúrgico. Sem espaço para emoção.
Santana abriu a porta se sentindo vazia, como se alguém tivesse feito um furo nela e, há muito, ela viesse vazando. Agora, não havia mais o que vazar.
Do outro lado do corredor, Quinn esperava por ela, costas apoiadas na parede, na mesma posição em que ela estivera. Santana pensou em algumas frases ácidas, mas ela não tinha energia para uma corrida de insultos. Ao invés disso, ela começou a descer o corredor. Logo, Quinn alcançou seus passos e elas caminharam lado a lado pelo hospital. Uma espécie de gratidão tímida encontrou lugar no peito de Santana; por Quinn ter percebido que havia algo errado, por ela ter ficado e por ela estar em silêncio. Às vezes, tudo o que uma pessoa precisa é de companhia para o silêncio.
Virando à direita, Santana ignorou os elevadores e tomou a escada de incêndio. Ela precisava de mais tempo, ela precisava de movimento. Quinn se mantinha a seu lado, alheia ao que se passava na cabeça da amiga, mas atenta a todos seus movimentos.
- Meu pai me ligou ontem.
Elas estavam entre o segundo e o terceiro andar. Ao ouvir a voz da morena, Quinn parou e olhos para trás. Santana estava dois degraus acima, os olhos colados na parede a frente, nenhuma emoção perturbando seu rosto. Era uma espécie de esfinge. Impassível.
- A minha mãe... — Santana não terminou a frase. Seus olhos se desviaram para os de Quinn, que assentiu. Não havia necessidade de dizer mais nada.
O corpo de Santana parecia pesar uma tonelada e ela se sentou na escada. Desde que a mãe ficara doente, ela sempre achou que seria melhor se ela tivesse simplesmente morrido. Era um pensamento ruim para uma filha e ela sabia, mas não havia como evitar. Porque se sua mãe não estivesse mais ali, então, talvez, ela não se lembrasse, a todo o momento, da decepção que ela era. Mas agora, que a ausência da mãe era real, tudo o que Santana sentia era um vazio. Não havia tristeza, nem raiva, nem luto. Ela já tinha se despedido da mulher que a colocara no mundo meses antes e, agora, tudo o que tinha sobrado era uma casca, uma coisa oca dentro dela e seu coração fazendo eco a cada batida.
***
Uma última olhada no espelho e ela está pronta para sair. O vestido preto, o salto baixo, a maquiagem discreta, o cabelo preso; tudo adequado para o papel que ela tem que interpretar hoje: a filha de luto.
Santana passou boa parte da noite debruçada sobre um caderno, forçando palavras a se alinharem num discurso curto e vazio. Seu pai havia ligado novamente no dia anterior informando sobre as providências que haviam sido tomadas e o que era esperado dela durante a cerimônia. Ele não perguntou se ela queria, se ela estava pronta para aquilo, se ela tinha o que falar sobre a mãe que as outras pessoas presentes quisessem ouvir. Ele a informou sobre a programação e em que momento ela deveria subir ao altar e dizer suas palavras. Tudo tinha virado um espetáculo e ele era o diretor.
Mas ela conhecia bem o pai. Sabia por que ele estava fazendo aquilo. Antônio precisava de controle, ele precisava sentir que ainda tinha as rédeas da situação, mesmo que apenas pudesse mandar em coisas banais, como flores e datas. Ainda assim, era um tipo de controle. E Santana entendia isso porque ela também precisava dessa segurança. Ela não era do tipo que fazia as coisas por impulso, que viajava sem roteiro, que falava em público de improviso. Falta de planejamento leva a surpresas. E surpresas nem sempre são agradáveis.
Na hora marcada, ela estacionou o carro em frente à igreja e atravessou a rua com passos certos. As portas duplas estavam fechadas e rangeram um pouco quando ela forçou passagem. O interior do prédio era escuro e cheirava a flores e cera queimada. Bancos de madeira pesada ladeavam um corredor estreito, onde seu pai conversava com outro homem. Enquanto avançava até eles, Santana pensou que seu pai parecia ainda mais velho desde que tinha ido visitá-lo. As olheiras estavam ainda mais profundas e seus ombros curvados, cedendo sob o peso da perda do grande amor da vida dele. Ali, naquela igreja, Santana compreendeu o tamanho do sentimento que unira seus pais e se perguntou se, algum dia, teria o mesmo.
O padre era um homem grande, mais novo que Antônio, com grandes olhos azuis que irradiavam bondade. Ele sorriu para Santana quando ela se juntou a eles e ela se pegou pensando nos outros olhos azuis de que ela tanto gostava. Como ela queria que Brittany estivesse ali, segurando sua mão. Talvez a experiência toda fosse um pouco mais suportável assim.
As primeiras pessoas começaram a chegar e Santana e Antônio Lopez logo assumiram suas posições no teatro daquele dia. De pé, lado a lado, postados à esquerda do caixão fechado. Cada um que entrava, abraçava os dois médicos, lançava um olhar para a tampa de madeira e procurava um lugar para sentar. Eram tios que há muito ela não via, vizinhos que nunca chegara a conhecer realmente e amigos dos pais que ainda pensavam nela como a garotinha de joelhos ossudos e tranças correndo pela casa. Todos tinham um sorriso e palavras de conforto, mas Santana não os escutava. Era como se alguém tivesse arrancado seu fio da tomada e agora sua mente estivesse em branco. Santana estava adormecida, repetindo movimentos como um autômato e seguindo as instruções do homem a seu lado.
Quando o padre assume sua posição, Santana e Antônio tomam os lugares reservados a eles, no primeiro banco. O homem mantém a cabeça baixa, como se não conseguisse encarar a cena que se desenrola a sua frente a sua revelia. Ela, ereta, dura, rígida como tronco de árvore. As pernas morenas cruzadas, as mãos dobradas sobre o colo, uma veia do pescoço pulsando no ritmo do seu coração. A perfeita imagem da compostura, Santana não ouve as tias sussurrando como ela é forte. Como ela está pronta para cuidar do pai. Como ela mantém a dignidade diante de um momento difícil.
Ela não é nada daquilo. Ela apenas não consegue sentir nada.
O irmão mais velho de Margarida e uma amiga dela são os primeiros a fazerem os discursos. Santana não sabe de quem eles estão falando, porque a mulher que eles descreveram não se parece em nada com a que a criou. Talvez seja a nuvem de adormecimento que a impede de ouvir direito as palavras que eles falam. Mas nada disso importa, porque o padre chama seu nome e, mais uma vez, ele fixa nela aqueles olhos azuis que fazem seu peito doer de saudade. Tudo o que ela queria naquele momento era se perder nos olhos de Brittany. Deixar que a dançarina abraçasse seu corpo e ficar em silêncio ao lado dela, sentindo sem ter que pensar. Mas ela não pode. Ela perdeu sua chance e, agora, ela precisa se levantar.
Santana pode sentir todos os pares de olhos presentes colados em suas costas, fazendo um furo no tecido preto e arranhando sua pele. Nenhum som, todos esperam, suspensos, pelas palavras da filha. Mais um discurso, mais uma série de palavras que serve apenas para santificar quem já se foi e dar algum tipo de explicação para quem ficou. Ela respira fundo e marcha em frente, preparada para cumprir seu dever. Nada mais do que um soldado numa guerra particular. Nenhuma daquelas pessoas sabe o que foi sua vida com sua mãe. Ninguém tem idéia das palavras que ela realmente gostaria de dizer. Ninguém sabe do alívio culpado que ela sentiu ao receber a ligação do pai, dois dias antes.
No caminho seus olhos cruzam com os de Quinn, a única pessoa que estava ali inteiramente por Santana. Ela não se lembrava de ter falado com a loura enquanto estava de pé ao lado do caixão, mas ela também não se lembrava de fato de ninguém. Um sorriso caloroso se abriu nos lábios finos da médica e Santana se sentiu um pouco menos sozinha.
No púlpito, de frente para todas aquelas pessoas, Santana sentiu um nó se formar em sua garganta. Era o mesmo emaranhado de sentimentos que ela tinha sentido em sua última visita à casa dos pais. Em um movimento lento, ela desdobrou com cuidado o papel que tinha em suas mãos. Dedos morenos alisaram suavemente as marcas de dobras, procurando naquelas linhas retas a voz que ela parecia ter perdido. Com um suspiro, Santana ergueu os olhos para as dezenas de pessoas que a encaravam. Naquele momento, foi como se o mundo desacelerasse até parar por completo.
Sentada na última fileira, exatamente de frente para ela, Brittany encarava Santana como se elas estivessem frente a frente, como se aquelas fileiras de bancos não existissem, como se elas estivessem sozinhas, como se as últimas semanas não tivessem passado de um momento.
A luz que invadia a igreja pelos vitrais laterais emprestava à Brittany um halo multicolorido. Era como se ela estivesse encarando um anjo e mais ninguém percebesse. Santana sentiu um dos fios do nó em sua garganta ser puxado quando os lábios de Brittany se abriram num sorriso secreto, só pra ela. De repente, ela podia respirar novamente. Inflando os pulmões mais uma vez, Santana dobrou o papel e abandonou o roteiro.
- Eu não conheci a minha mãe — a voz de Santana era firme, embora ela não soubesse exatamente o que estava dizendo, e seus olhos não desgrudavam dos de Brittany nem por um momento. — Quer dizer, eu não conheci a mulher além da minha mãe. Ouvindo o que foi falado aqui, eu me dei conta de que nós duas nunca paramos para conhecer quem éramos além de mãe e filha. Sempre haveria tempo suficiente para isso. Mas não houve. Eu não conheci a minha mãe e, agora, eu nunca vou conhecer.
Um último olhar para Brittany e Santana voltou para seu lugar. O silêncio entre os presentes era palpável e ela podia sentir os olhos do pai grudados nela, uma emoção estranha flutuando nas pupilas escuras e marejadas. Mas Santana não teve tempo de pensar no que seria. Ela tinha acabado de desnudar seu coração na frente de uma igreja cheia de estranhos. Mas poderia ter sido só na frente de Brittany que ela não teria percebido a diferença. Estranhamente, Santana nunca se sentira tão leve.
***
Achando que ninguém perceberia sua ausência, Santana escapou da pequena multidão que caminhava por entre os gramados bem cuidados do cemitério. Se alguém perguntasse, ela podia simplesmente dizer que não estava se sentindo muito bem. Não era uma mentira completa e era uma das poucas prerrogativas que lhe cabiam naquele momento.
Desde que tinham saído da igreja, Santana tinha tentado encontrar Brittany novamente, mas a loura parecia ter desaparecido. Era como se tudo não tivesse passado de uma peça da sua mente e a médica começava a se sentir estúpida por não ter seguido com o discurso que ela tinha preparado com tanto cuidado. Teria sido mais simples e ela não teria que se preocupar com o que as pessoas poderiam pensar.
Sem pensar em onde seus passos a levariam, Santana se viu no pequeno jardim dos fundos da igreja. Ela sorriu ao se lembrar de quantas vezes tinha brincado entre aquelas árvores, quando criança, enquanto esperava os pais terminarem de conversar com alguns amigos. Eram os únicos momentos em que ela se sentia livre nas manhãs de domingo, quando a mãe desviava o olhar e ela podia correr por entre as árvores, sentindo o vento no rosto e o sol aquecendo a sua pele. Às vezes, ela tirava os sapatos e pisava descalça na grama ainda úmida. E ela sempre quis saber como seria se sentar debaixo da maior árvore, fechar os olhos e prestar atenção no barulho da algazarra dos passarinhos, mas ela sabia que sua mãe brigaria se ela estragasse seu vestido.
Mas agora não havia mãe para brigar e Santana escorregou os pés para fora dos sapatos e, equilibrando o par na ponta dos dedos, caminhou até sua árvore preferida. Ela parecia menor agora, mas o cheiro de madeira que invadia suas narinas ainda era o mesmo. De olhos fechados, Santana se sentou no chão e apoiou as costas no tronco nodoso. Ela nem se importava com os gravetos que espetavam suas pernas ou com as rugas da madeira que cutucavam suas costas; estava perfeitamente calma. Ela se sentia no olho do furacão e tudo parecia imóvel a seu lado.
O barulho de folhas despertou Santana de seus pensamentos perdidos e ela abriu os olhos em tempo de ver Brittany se sentando a seu lado. O mesmo sorriso doce ainda brincava em seus lábios e Santana se deu conta do quanto tinha sentido falta daquilo, estar perto dela. Perto o suficiente para sentir o calor da sua pele e sentir o cheiro dos cabelos louros recém lavados. Perto o suficiente para ver todos os tons de azul que se escondem em seus olhos e ouvir o ritmo de sua respiração, firme, estável, acalmando o coração de Santana.
As duas suspiram em uníssono, finalmente juntas depois do que pareceu uma eternidade. Brittany permite que seus olhos se fechem por um momento. Ela entende que aquele momento é de Santana, não cabe a ela invadir ou acelerar. A médica precisa ditar o passo e ela sabe que consegue esperar. Ela sempre soube.
- Como você soube? — a voz de Santana sai um pouco falha quando ela finalmente fala.
- Eu vi no jornal — Brittany responde sem olhar para o lado. — Eu sinto muito.
Santana pensa por um momento na frase que ela tanto ouvira naquele dia. Ela pensa em seu significado, no que ela devia sentir e no que ela tinha dito diante de uma igreja cheia de pessoas. Finalmente, ela responde:
- Eu não — as palavras se arrastam para fora da garganta, enquanto ela arranca folhas de grama com os dedos. — Acho que eu já me despedi há muito tempo. Hoje foi só o encerramento.
- Por que você não me contou nada?
Aquela não é uma acusação. É apenas uma curiosidade. Depois de tudo o que elas tinham compartilhado até ali, Brittany não entendia porque Santana tinha deixado aquela parte de fora. Principalmente, se ela parecia tão conformada com tudo.
- Não sei. Acho que eu não pensava nela tanto assim — ela deixa que suas palavras desapareçam no ar antes de continuar. — Lembra o primeiro dia que você passou lá no hotel? Quando eu te acordei e disse que eu já tinha saído e voltado?
- Lembro.
- Então, eu tinha ido à casa dos meus pais. Foi a primeira vez que eu fui lá desde que eu voltei para a cidade.
Pela primeira vez, Brittany se vira para observar Santana, mas seus olhos estão distantes, perdidos em passado. Ela continua puxando folhas de grama distraidamente, como se todos os nós que se formaram em seu estômago a impedissem de se manter imóvel. Até que Brittany desliza sua mão entre a dela e aperta os dedos morenos entre os seus.
- E como foi?
- Estranho. Depois que eu fui pra faculdade, eu me afastei muito dos meus pais. Aquela não é mais a minha casa — Santana solta um longo suspiro, antes de se virar para Brittany. — Mas foi bom ter ido. Quando eu subi para o quarto da minha mãe, eu percebi que ela já tinha ido há muito tempo. Meu pai estava só se prendendo a uma casca vazia. Acho que aquilo me libertou.
Brittany pensou nas palavras que Santana tinha dito durante a cerimônia. Seus olhos negros, calmos e tristes de uma maneira que ela nunca tinha visto. Brittany queria perguntar o que ela queria dizer com aquele discurso, mas a maneira como Santana apertava seus dedos e como sua respiração saía em suspiros descompassados dizia a Brittany que aquele não era o momento. Por isso, ela se contentou fazer companhia.
- Algumas coisas aconteceram, lá em casa, e, sei lá... — as palavras de Santana pareciam ser arrancadas de dentro de seus ossos e ela precisou enlaçar seus dedos nos de Brittany para não ser engolfada pelo que estava crescendo em seu peito. — Acho que havia mais obrigação do que sentimento entre a gente. Eu meio que me acostumei a não pensar neles.
Santana pontuou a frase com um balançar de ombros e Brittany não sabia a quem a latina tentava convencer de que não se importava. Mas quando ela finalmente se virou e os olhos das duas mulheres se prenderam uns nos outros como imã, a loura viu uma sombra que contava uma história diferente.
De repente, Santana se sentiu muito consciente da confissão que ela tinha acabado de fazer. Ela não estava acostumada a falar sobre sua relação com os pais com ninguém. Nem mesmo para Quinn ou Rafael ela havia falado sobre porque ela havia se distanciado dos pais ou sobre como isso a afetava mais do que ela gostaria de admitir. Tudo o que ela conseguia dizer é que eles não tinham espaço em sua vida e isso parecia ser suficiente. Mas de volta àquele lugar com cheiro de infância, com os dedos de Brittany firmemente encapsulados entre os seus, Santana se viu querendo falar mais. Deixar escapar tudo o que anos de afastamento tinham enterrado fundo em sua alma. Mas aquele desejo a fazia se sentir exposta, nua, em carne viva, e ela rapidamente retrocedeu. Era cedo. Era muito.
- Você já voltou para o seu apartamento?
- Sim — Brittany entendeu que as muralhas de Santana tinham se reerguido e a máscara estava de volta no lugar. — Não houve nenhuma novidade no caso, então não fazia muito sentido continuar na casa do Mike.
Um longo silêncio se instalou entre elas, sem que ninguém tivesse coragem de fazer as perguntas que realmente queriam. Elas tinham medo de quebrar a magia daquele momento e serem atiradas de volta numa realidade em que elas não podiam, simplesmente, ficar sentadas na grama, de mãos dadas.
- Como está o pulso?
- Bem — a preocupação de Santana fez Brittany sorrir. A máscara podia ter voltado, mas a armadura não estava completa. — A Dra. Fabray até me liberou para fazer todas as minhas coreografias.
Mesmo já sabendo a resposta, Santana sorriu. Ela tinha acompanhado o caso de Brittany à distância, interrogando Quinn a cada vez que ela sabia que a dançarina aparecia no hospital. E a idéia de Brittany voltando a dançar fez com que a mente de Santana exibisse, novamente, as imagens que ela tinha visto no estúdio quase um mês antes. O corpo da dançarina suado, emoldurado pela luz suave do sol, de olhos fechados, em completo abandono, se movendo ao ritmo lento da música. O sorriso escancarado rasgando o rosto alvo e a sensação de estar testemunhando uma coisa íntima, sagrada, proibida para alguém como ela.
Aquelas lembranças sempre faziam com que uma corrente de eletricidade se acumulasse entre as pernas de Santana e ela precisou trocar de posição, desconfortável de repente. No movimento, seus olhos desviaram para o rosto de Brittany e ela se viu atraída de novo, indefesa diante da mulher que a encarava com um misto de doçura e vontade que apenas servia para piorar o desconforto que começava a irradiar pelo seu corpo. A mão de Santana parecia se mover por vontade própria e, logo, a médica estava afastando a franja da dançarina de sua testa.
- Ficou uma cicatriz — falou enquanto passava a ponta do dedo suavemente pela linha descolorida.
- Eu gosto. É uma maneira de não esquecer.
A força com que Brittany sustentava o olhar de Santana fez com que a médica precisasse engolir com força. Ela queria perguntar o que Brittany não queria esquecer, mas não tinha certeza se queria ouvir a resposta. Quando a intensidade dos olhos de Brittany se tornou forte demais, Santana desviou os olhos para o próprio colo, sua mão acompanhando o recuo. Ela inspirou longamente e expirou com força, como se tentasse expulsar seus pensamentos junto com o ar.
- Tem tanta coisa que eu queria falar. Tanta coisa que eu queria que você soubesse, mas eu... Eu não...
O coração de Brittany murchou diante da voz de Santana, tão quebrada, tão frágil. Ela novamente permitia que a dançarina a visse em seu estado mais vulnerável e Brittany sabia, instintivamente, que aquela era uma prova de confiança muito maior que qualquer palavra ou promessa. Ondas de carinho tomaram o peito de Brittany e seu coração se inflou, com o dobro do seu tamanho, comprimido contra as costelas e dificultando o trabalho dos pulmões da loura. Brittany tinha muita coisa acontecendo dentro dela e agora era sua vez de ver sua mão se mover sem muito controle sobre ela. Quando a sua palma encontrou a pele quente do rosto de Santana, ela sorriu.
- Eu sei, Santana. Eu sei — com um movimento dos dedos, Brittany fez com que Santana erguesse o rosto. Ela queria olhar nos olhos dela antes de continuar. — E eu quero saber. Eu quero saber tudo sobre você, mas só quando você puder me contar. Eu espero.
Elas estavam sentadas frente a frente agora e Brittany conseguia enxergar a batalha interna que Santana estava travando. Era como se ela fosse um pêndulo, oscilando entre se render por completo e se fechar novamente. E não havia nada que Brittany quisesse mais do que fechar o espaço que havia entre elas, puxar o corpo de Santana contra o seu e a fazer se sentir protegida. Mas, tal qual animal arisco, Brittany sabia que qualquer movimento brusco poderia afastar Santana ainda mais. Toda sua pele implorava por contato, mas, naquele momento, ela precisava se contentar com o que Santana podia lhe dar. Com um sorriso tímido, ela baixou a mão que aninhava o rosto moreno e enlaçou um dedo mindinho no seu. Era uma promessa de estar sempre por perto, ao alcance de Santana, quando ela precisasse, mas sem invadir seu espaço. Ela ia esperar.
Santana sorriu ao encarar seus dedos abraçados na grama entre elas. Ela se lembrava das promessas infantis que ela e suas amigas tinham feito usando aquele mesmo gesto. Eram promessas que não tinham durado, mas algo na maneira como Brittany apertava seu dedo, como se ela tivesse medo de que Santana pudesse escapar de repente, fez com que Santana tivesse certeza de que aquela promessa seria cumprida.
Um novo silêncio se instalou entre elas, mas agora ele estava livre de qualquer nervosismo e de perguntas silenciosas. As respostas ainda não haviam sido dadas, mas elas tinham certeza de que elas viriam. Naquele momento, isso bastava.
Ao longe, Santana podia ouvir o barulho de portas de carro batendo e de motores voltando à vida. O enterro devia ter terminado e as pessoas começavam a ir embora. Mas ela ainda não estava pronta para sair dali, para voltar à rotina. Sem soltar o dedo que Brittany mantinha preso ao seu, Santana puxou a bolsa que tinha largado no chão e a colocou no colo. Era um pouco difícil abrir o zíper com apenas uma das mãos, mas ela conseguiu e puxou de dentro um jornal dobrado. Ele estava amarelado e parecia ter sido manuseado diversas vezes. Com um sorriso animado, ela esticou o papel para Brittany, que o tomou com a mão livre. Ela encarou o jornal por um momento sem entender porque Santana tinha lhe dado aquilo. Com a cabeça pendendo para um dos lados, ela encarou a latina numa pergunta silenciosa.
- Eu decidi sair do hotel — a voz de Santana era quase tímida enquanto ela explicava. — Eu pensei que talvez você pudesse me ajudar a achar um apartamento. Se você quiser, é claro.
O sorriso que nasceu no rosto de Brittany era tão grande e tão brilhante que Santana não pôde evitar espelhar sua expressão.
- Claro que eu quero, Santana. Eu vou adorar.
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