Notas iniciais
Galerinha linda do meu coração! Mil desculpas pela demora, mas a minha internet achou que seria legal passar umas férias na Bahia ou algo parecido... Enfim, só consegui atualizar agora, mas o capítulo novo está aqui. Depois me digam o que vocês acharam!

Uma revoada de borboletas arranhava o lado de dentro da barriga de Santana. Quando ela estacionou seu carro na frente do prédio de Brittany, ela se olhou no espelho e riu de si mesma. Apesar da idade, da profissão e do passado, ela se sentia como um garoto desajeitado convidando a menina mais bonita da sala para sair. Era uma mistura de nervosismo e entusiasmo que ela achou que não fosse conseguir chegar ali viva. Sua pele parecia prestes a entrar em autocombustão, um sorriso idiota tinha feito moradia permanente em seu rosto e, a cada vez que ela fechava os olhos, ela conseguia ver os olhos azuis de Brittany sorrindo para ela.

Desde a enxurrada de emoções do dia anterior, Santana tinha tomado uma decisão: ela não iria mais fugir de Brittany. Certo, ela ainda não entendia exatamente o quê sentia pela dançarina ou o que a dançarina sentia por ela, nem se ela queria entender. Mas o que ela sabia, acima e além de qualquer dúvida, era que a presença da loura em sua vida lhe fazia bem. Brittany era alguém que acalmava seu coração, que permitia que Santana fosse apenas ela mesma. Sem máscaras, sem disfarces, sem armaduras. E depois de tanto tempo, o que a médica percebeu ao discursar antes do enterro da mãe, era que a pessoa que ela mais sentia falta era de si mesma. De quem ela tinha sido e de quem ela poderia ter se tornado.

Por isso, ao ver a loura fechar a porta do prédio e atravessar a rua correndo até seu carro, Santana não tentou impedir que seu sorriso bobo crescesse. Ela se sentia viva toda vez que Brittany estava por perto. Era como se o coração de Santana estivesse adormecido todos esses anos e ele só tivesse voltado a bater quando ela viu Brittany pela primeira vez, quando ela se perdeu dentro daqueles olhos azuis, quando ela foi vista, de verdade, por uma dançarina de alma simples. Naquele dia, no meio de uma rua escura, Santana voltou à vida

Ela sabia que ainda havia muito que entender, que esclarecer, que explicar. Ainda havia muito pela frente. Mas, por enquanto, ela se contentava em sentir seu coração bater no peito com toda força.

- Oi!

Brittany abriu a porta, se jogou no banco do carona e fechou o carro num único movimento fluido que, fosse qualquer outra pessoa a tentar, teria parecido desajeitado. Mas agora Santana parecia ver dança nos mínimos movimentos dela. A médica respondeu com um sorriso largo e estendeu um copo descartável de café que ela tinha comprado no caminho — ela esperava ter se lembrado de como a loura gostava da bebida.

Um murmúrio abafado mostrou que ela tinha acertado e Santana se viu começando a relaxar pela primeira vez. Talvez essa história de ela e Brittany serem amigas pudesse dar certo, no fim das contas. Mas aí a loura sorriu para ela e Santana viu seus joelhos virarem gelatina e seu estômago se contrair em milhares de nós apertados. É, aquela brincadeira não iria durar muito tempo. Ela recolocou os óculos escuros no rosto, esperando ganhar um pouco de privacidade para seu turbilhão de emoções, e encarou a outra mulher pelo espelho retrovisor.

- Preparada?

- Santana — a voz de Brittany era uma mistura de riso com protesto que Santana achou intoxicante. — Você faz parecer que a gente está indo pra uma guerra. A gente só está indo ver apartamentos, lembra?

Uma sugestão de bico surgiu nos lábios finos e Santana teve que conter sua vontade de desfazê-lo com a ponta dos dedos. Ela pensava nas palavras de Brittany e no outro tipo de guerra que estava sendo travada dentro dela naquele momento, seu corpo e sua razão em lados opostos do ringue, numa luta empatada e sem vislumbre de terminar logo.

- É quase a mesma coisa.

Santana respondeu seriamente e a gargalhada de Brittany preencheu o espaço apertado do carro. O som era quase uma canção para os ouvidos da médica e ela se permitiu relaxar mais um pouco. Se Brittany conseguia levar aquela situação numa boa, por que ela não conseguiria?

***

O primeiro apartamento que elas veriam naquela manhã era perto do prédio de Brittany. Na verdade, Santana tinha planejado os horários e os endereços para que elas começassem próximo a onde a loura morava e terminassem perto do estúdio de dança, onde ela deixaria a dançarina depois do almoço. Na cabeça de Santana, era mais lógico andar pela cidade em linha reta e com um propósito do que ir e voltar o tempo todo, tentando atravessar a cidade em poucos minutos. Também era uma maneira de manter um pouco de controle em meio a tantas coisas que ela não conseguia controlar.

Elas saíram do carro e Brittany notou como Santana parecia tensa. Seus ombros estavam duros e seus passos se assemelhavam a uma marcha militar. Os olhos da médica ainda estavam escondidos por trás dos óculos escuros que tampavam quase metade do seu rosto, mas Brittany podia apostar que eles estavam olhando em todas as direções, mudando de foco a cada poucos segundos, tentando absorver o máximo do ambiente. Em pouco tempo, ela tinha aprendido que essa era uma das coisas que Santana fazia quando se sentia insegura.

Acelerando o passo, a dançarina alcançou Santana. Ela era mais alta do que a médica e, por mais que os passos duros da outra fossem largos, a loura não precisava fazer muito esforço para acompanhar. Brittany pousou uma das mãos nas costas de Santana, bem na base da espinha, e elas caminharam assim por alguns metros.

O calor da mão de Brittany invadindo o tecido de sua roupa e aquecendo sua pele, quase foi capaz de fazer com que Santana se esquecesse de que elas atravessavam uma das avenidas mais movimentadas da cidade — talvez a única. Quase.

Quando elas chegaram do outro lado, Santana se atreveu a olhar para o lado e encarar os olhos de Brittany. Mesmo protegida pelas lentes escuras, ela sentia como se a loura conseguisse enxergar por trás de todas as suas máscaras. Era uma idéia enervante e um arrepio involuntário subiu por seu corpo.

- Está tudo bem? — a voz de Brittany tinha a mesma suavidade que Santana tinha visto as enfermeiras do hospital usarem na maternidade -não que ela fosse admitir passar por aquele andar de vez em quando.

- Claro — ela sorriu antes de continuar. — Um pouco ansiosa, só isso.

Elas alcançaram seu destino e Santana deu uma olhada de relance para a prancheta em suas mãos, confirmando o número que a pessoa com quem ela falara tinha informado antes de apertar o interfone. Enquanto esperavam, a médica olha mais uma vez para Brittany, que tinha a testa enrugada e os olhos apertados, com se estivesse tentando resolver uma equação matemática particularmente difícil.

- Que foi? — Santana não conseguia esconder o riso em sua voz.

- Estou tentando entender para que a prancheta. Vai ter algum teste depois?

A pergunta é feita com tanta seriedade que a gargalhada de Santana foi inevitável. Ela adora a maneira como a mente de Brittany funciona e como ela tem a capacidade de notar e apontar todas as suas pequenas manias e obsessões de uma maneira que Santana não se sente constrangida. O dedo de Brittany aponta, mas não acusa.

- Não — ela responde entre risadas, agora mais fracas. — É só para fazer algumas anotações. Assim eu me lembro melhor dos apartamentos na hora de decidir.

- Entendi — ela arrastou as sílabas enquanto um bico se formou em seus lábios. — Posso ver?

Agora Santana se sentia embaraçada. Já não tinha sido o bastante ela admitir que tinha levado material de anotação para sua procura por apartamentos, agora Brittany queria ver o que ela tinha nas mãos? Ela ainda pensou em recusar ou tentar distrair a loura com outro assunto, mas o brilho de curiosidade que iluminava as duas contas azuis lhe dizia que seria inútil. Com um suspiro resignado, ela estendeu a prancheta para Brittany e voltou a encarar a porta de metal. Ela não precisava testemunhar aquela cena.

- Santana! Você preparou um questionário?

A médica não conseguia definir se o que ela ouvia na voz de Brittany era choque ou divertimento, mas ela não se virou para descobrir. Seu rosto queimava de uma maneira que ela tinha certeza de que a loura seria capaz de perceber a vermelhidão que devia estar tomando sua pele.

- Claro! Assim eu não me esqueço de perguntar nada importante — Por que ela estava se defendendo daquele jeito?, Santana pensou. Ela não devia nada a Brittany e não havia problema nenhum em querer estar bem preparada. Ou havia?

- Até aí, tudo bem. Mas, precisava fazer pergunta de múltipla escolha?

- Tá bom, tá bom. Eu posso ter me empolgado um pouco.

- Um pouco? Santana, você colocou uma pergunta sobre a idade do síndico aqui.

- Acredite, isso diz muita coisa sobre um prédio.

- E essa pergunta sobre garagem subterrânea e inundação?

- Experiências bastante desagradáveis. Você nem quer saber.

- Toma — Brittany devolveu a prancheta como se o objeto fosse transmissor de uma doença contagiosa. — Acho que eu não quero nem ler o resto das suas perguntas.

- São apenas 37 perguntas, Brittany. E todas elas importantes.

- Eu tenho certeza que sim.

***

O primeiro impulso de Santana ao ver o apartamento tinha sido sair dali correndo e se esconder na segurança do seu carro.

Um cheiro de mofo se desprendia do carpete desbotado que, junto com o papel de parede florido e amarelado, emprestava ao lugar a impressão de que ele havia parado no tempo em algum lugar da década de 40. Mais ou menos quando a proprietária devia ter se mudado para lá.

No primeiro passo que ela deu para dentro do espaço, Santana decidiu que não gostava do apartamento e estava pronta para dar as costas para a velhinha de cabeça branca que abrira a porta. Mas Brittany sentiu o desconforto da médica e, com uma das mãos ao redor do pulso moreno, ela puxou Santana para o meio da sala de estar. Agora a porta de entrada estava fechada atrás dela e a latina não tinha como fugir.

Resignada, ela guardou a prancheta em baixo do braço e perguntou se ela poderia dar uma olhada nos outros cômodos. Quando a senhora sorriu e assentiu, Santana escapuliu pelo corredor. Ela não precisava ver mais nada. Ela já tinha decidido que não gostava dali e tudo o que ela precisava era gastar um pouco de tempo. Apenas o suficiente para convencer Brittany a ir para o próximo compromisso. Olhando de relance para o relógio, ela percebeu que ainda faltava um bom tempo para a hora marcada. Já que ela tinha que matar tempo, ela bem podia aproveitar que estava ali. Pelo menos, ela teria uma excelente lista do que não queria em seu apartamento.

Como o lugar ainda era habitado, Santana sentia como se estivesse invadindo a vida daquela mulher ao entrar e sair de espaços que deveriam ser pessoais.

Uma cama arrumada ocupava o centro do quarto. Era a primeira porta no corredor e Santana franziu a cara para a colcha estampada que cobria o colchão — ela combinava com o papel de parede, da pior maneira possível. Um armário pequeno ocupava uma das paredes e duas mesas de cabeceira ladeavam a cama. Se aproximando, ela pôde ver uma foto numa das mesas. Um homem novo, de terno e gravata, sorrindo para a câmera por baixo do bigode cheio. Pela idade da foto, Santana imaginou que ele deveria ter mais ou menos a idade da dona da casa. Provavelmente, seu marido.

De volta ao corredor, ela abriu a porta que dava para o banheiro. Era um cômodo pequeno, mas bem iluminado. Se ela estivesse realmente interessada no apartamento, Santana estaria abrindo torneiras e testando os canos. Isso fazia parte da lista que ela tinha colocado no verso do seu questionário e que, por alguma bondade do destino, Brittany não tinha descoberto. Mas ela não estava mais interessada em alugar o imóvel e, movida por algum tipo de curiosidade mórbida, ela inspecionou os vidros em cima da pia e o armário da parede. Na segunda prateleira, uma fileira de frascos de remédios contava uma história para a mente da médica.

Na cozinha, panelas descansavam em cima do fogão e desenhos infantis eram sustentados contra a geladeira por imãs com fotos de criança e datas de aniversário.

Enquanto seguia as vozes que conversavam animadamente na sala, Santana pensou em quanta coisa era possível aprender sobre uma pessoa ao se olhar o lugar em que ela mora. Ela pensou no apartamento daquela senhora e nos pedacinhos de informação que ela tinha coletado. Ela pensou na casa imaculada dos pais e no quarto "pós-explosão nuclear" de Brittany. Todos aqueles lugares contavam uma história. Eram testemunhas das vidas das pessoas que moravam ali. Então ela pensou no lugar que tinha sido sua casa nos últimos meses. Nas paredes brancas e nos quadros que ela não tinha escolhido; nos funcionários artificialmente atenciosos e na cozinha que eles juravam que existia; nas toalhas e lençóis que não eram dela e no aviso de não perturbe que agora vivia pendurado em sua porta.

Ela sabia que no momento em que fechasse sua conta no hotel, seria como se ela nunca tivesse passado por ali. Ela não deixaria nenhuma marca de seus dias naquele lugar além de um nome no livro de registros. E, até aquele dia, ela estava contente com isso. Tudo o que ela queria ao voltar para Lima tinha sido sumir, se misturar tanto à multidão que ela desapareceria. Mas, ao receber acesso à vida de uma completa estranha, Santana entendeu que ela não queria mais isso. Ela não queria correr o risco de simplesmente passar pela vida sem deixar nada para trás, nenhuma prova de que ela tinha estado ali, de que ela tinha existido.

Quando Santana chegou à sala, seus olhos e os de Brittany se cruzaram por um momento e as duas trocaram um sorriso. A loura conversava com facilidade com a senhora e Santana não sabia se admirava ou invejava a capacidade que ela tinha de interagir com as pessoas. Era como se ninguém conseguisse não gostar de Brittany.

- Pronta?

A voz de Brittany atravessou o cômodo e alcançou Santana como uma carícia. Ela olhava com suavidade para a morena, que se perguntava quando tinha sido a última vez que a tinham olhado daquela maneira, como se ela fosse a coisa mais preciosa do mundo.

Santana sabia muito bem quando e ela também sabia muito bem que aquela não era uma lembrança bem vinda. Não naquele dia. Especialmente naquele dia. Então, engolindo o nó que tinha se formado em sua garganta, ela forçou um arremedo de voz.

- Acho que sim.

A dona da casa tomou o sussurro de Santana como indecisão e se virou para a médica com um enorme sorriso nos lábios.

- Se você quiser fazer alguma pergunta, eu vou ficar mais do que feliz em responder. Mas eu acho que a sua amiga aqui cobriu todos os pontos da sua lista.

- Cobriu, foi? — Santana olhou para Brittany, que confirmava com um ar orgulhoso no rosto. — Se é assim, acho que eu estou pronta.

- Bom, d. Laura, muito obrigada pela atenção e a gente entre em contato com a senhora.

- De nada, Britt. Foi um prazer conhecer você.

- O prazer foi meu. E boa sorte durante na mudança.

Santana olhava para as duas mulheres sem entender como elas podiam ter criado tanta intimidade nos poucos minutos que levara para inspecionar o apartamento. Aparentemente, a dona do imóvel estava planejando uma mudança e esse devia ser o motivo para ter colocado o local no mercado. Mas o que mais incomodava Santana era ter ouvido aquela estranha chamar a loura por Britt. Aquele apelido, uma coisa tão simples, era como uma pulguinha atrás da orelha da médica.

- Você não anotou nada?

As duas já estavam de volta ao carro de Santana e Brittany olhava com interesse a prancheta que a médica tinha colocado em seu colo. O papel do topo da pilha continuava em branco.

- Não. Da porta eu já sabia que não ia querer fazer nenhuma proposta. Achei inútil anotar — ela pensou se devia fazer a pergunta que estava dançando em sua cabeça, mas, antes que tomasse uma decisão, as palavras já tinham escapado dos seus lábios. — Então, foi impressão minha ou ela te chamou de Britt?

- Chamou — respondeu estudando as feições de Santana e tentando entender o significado escondido por trás daquelas palavras. — Por quê?

- Motivo nenhum. — Elas permaneceram em silêncio por alguns momentos antes que Santana tornasse a falar, com um sorriso no rosto. — Você realmente fez todas as perguntas da minha lista?

- Claro que não! — O sorriso dela escapou para as palavras e Santana buscou os olhos azuis pelo retrovisor. — Eu percebi que você não tinha gostado do apartamento, mas eu senti pena dela. Então, resolvi fazer umas perguntas. Parecer que você tinha se interessado.

- Você percebeu que eu não tinha gostado? Eu sou tão transparente assim?

- Acho que não pra todo mundo. Mas pra mim, é.

Santana suspirou aliviada e se virou para Brittany, que olhava para ela como se tivesse acabado de falar a verdade mais simples da terra. E talvez fosse. Brittany conseguia enxergar Santana porque Santana gostava e queria ser vista por ela. Era uma mudança bem vinda em sua vida.

- O que você quis dizer com "boa sorte na mudança"?

- Ah... É que ela ficou viúva há pouco tempo e ela está indo morar com o filho, na Flórida.

- E você descobriu isso em menos de dez minutos? Impressionante.

Quando Santana estacionou o carro na frente do segundo endereço da lista, ela se virou para o lado, ficando presa no olhar de Brittany. Esticou uma das mãos para pegar os questionários e seus dedos roçaram levemente os da loura. Um arrepio subiu pelo braço moreno até atingir seu rosto, no mesmo momento em que a voz doce de Brittany preencheu o carro.

- Você também pode, sabia?

- Posso o quê?

- Me chamar de Britt. Se você quiser.

***

O segundo apartamento que elas visitaram naquele dia estava vazio e Santana se sentia um pouco mais confortável conversando com um corretor de imóveis. Ali, ela não estava invadindo a vida de ninguém. Tudo não passava de uma transação comercial, algo com que ela podia lidar com mais facilidade. Era território conhecido. Mas enquanto cobria o homem de terno barato com uma infinidade de perguntas, Santana se via desviando os olhos e procurando uma certa loura que perambulava pelo ambiente.

Brittany não andava pelo apartamento verificando o funcionamento da fiação elétrica ou a eficiência da tubulação. Ela não batia nas paredes procurando por vazamentos e nem se interessava pela idade da pintura. Brittany se demorava em cada janela, admirando a vista e a maneira como o sol invadia os ambientes. Ela tentava imaginar quais cores ficariam bem em cada parede e que tipo de móvel Santana gostava e como a médica decoraria o apartamento.

- Doutora?

- Perdão? O que o senhor falou?

- Eu disse que vou dar a você um momento para conhecer o apartamento. Se vocês precisarem de qualquer coisa, eu estou no hall.

- Ah, claro. Obrigada.

A médica escondeu um sorriso bobo quando foi procurar por Brittany. Ela encontrou a loura pendurada na janela do quarto, pé direito no ar, tentando ver alguma coisa além do prédio. Santana encostou o corpo no batente da porta e deixou os olhos percorrerem os músculos que ondulavam sob a blusa de alças que ela usava. Era uma visão bastante simples, mas ela enchia o coração de Santana de com tanta calma que um longo suspiro nasceu em algum lugar do seu corpo, percorreu todas as suas células e ganhou mundo, quebrando o silêncio da cena.

Ao ouvir que não estava mais sozinha, Brittany se virou como que em câmera lenta. Ela sorria com os olhos e Santana sentiu como se um gancho estivesse preso a seu coração e a puxasse em direção de Brittany. Ela sabia que até poderia ignorar essa força, se quisesse, mas seu coração se estraçalharia ao se chocar contra o peito. Dar as costas para Brittany seria como dar as costas a si mesma. E ela estava cansada de ir embora.

- Então? O que você achou?

- Ainda não sei — Brittany olhava em volta, como se as paredes pudessem ter respostas. — Acho que é um pouco frio, sei lá. Mas, a opinião que importa é a sua. O que você achou?

- Não é perfeito, mas é uma melhoria em comparação com aquele outro. Eu até usei o meu questionário! — ela virou a prancheta que tinha em mãos, mostrando as anotações que tinha feito. — E, Britt, eu pedi para você vir comigo porque a sua opinião é importante sim.

***

Durante todo o trajeto até o terceiro apartamento daquela manhã, Santana ainda podia sentir em sua boca o gosto de uma única palavra: Britt. Era um gesto tão simples, banal até, mas que tinha significado muito para a médica. Podia ser apenas uma palavra, mas era também uma prova da aproximação das duas; uma prova de que Brittany tinha deixado para trás a maneira como Santana reagira e o modo como elas tinham se afastado. Para Santana, aquele apelido era quase uma mão estendida — ou um dedo mindinho entrelaçado.

- Gostei do prédio. Por fora, pelo menos... — Santana não podia evitar que um pressentimento bom se espalhasse por seu corpo, como se a aproximação de Brittany contaminasse todas as esferas de sua vida.

A corretora esperava por Santana do lado de fora do edifício. Era uma mulher pequena e forçada: os cabelos pintados num tom louro demais, as roupas apertadas e berrantes demais, a maquiagem forte demais e o sorriso artificial demais. Era uma situação rara, mas Brittany decidiu, antes mesmo de pisar na calçada, que não gostava da mulher.

- Bom dia! Você deve ser a Dra. Lopez?

Brittany sentiu um arrepio ao ouvir a voz estridente da mulher. Um perfume doce e enjoativo lhe invadia as narinas e agora era a sua vez de ter vontade de voltar para o carro e ir embora dali naquele momento. Ela não saberia explicar exatamente o quê, naquela mulher, fazia com que seu estômago se revirasse em nós. Talvez aquilo fosse o que sua mãe chamava de antipatia instantânea. Ela não acreditava que fosse real até agora.

- Exatamente. Podemos subir?

- Claro, claro. Por aqui.

As três se enfiaram num elevador apertado e Santana notou que Brittany parecia alheia a tudo. Desde que se conheceram, toda vez que as duas se encontravam num ambiente novo para a loura, ela tentava absorver tudo ao mesmo tempo, os olhos azuis passeando pelas novas formas como se quisesse decorá-las. Mas, agora, Brittany os mantinha presos ao chão e Santana não entendia porque isso a incomodava tanto. Brittany não precisava se manter alegre o tempo todo, mas a mudança de atitude tinha sido repentina demais. Sem pensar sobre o que fazia, a médica estendeu a mão direita e enlaçou seu mindinho com o da dançarina, que levantou o rosto e lhe ofereceu um enorme sorriso, daqueles que transformavam o cérebro de Santana em purê.

O elevador parou no sétimo andar do edifício e as três caminharam até o final do corredor, Brittany e Santana ainda conectadas por seus dedos. A corretora abriu a porta com um floreio e permitiu que elas entrassem primeiro, apertando um pouco os olhos ao notar a maneira como as duas se tocavam.

- Como vocês podem ver, o espaço é amplo e muito bem iluminado — a voz treinada da mulher quicava nas paredes e ecoava na sala vazia. — Por aqui, fica o quarto, ali, a cozinha, e o banheiro é no fim do corredor. Enfim, acho que é perfeito para uma jovem família.

As palavras da corretora ficaram suspensas no ar, pesando como chumbo entre elas. No mesmo momento em que registrou o significado do que tinha sido dito, Santana congelou. O mundo a seu redor parecia se mover em câmera lenta e ela estava petrificada. Até respirar era um ato complexo, que exigia concentração. Como assim, uma jovem família? De onde aquela mulher tinha tirado aquela idéia? Aquilo não estava acontecendo. Simplesmente não podia estar acontecendo.

- Não... Er... Nós... A gente...

Santana tinha dificuldades de formar pensamentos coerentes e olhou para Brittany, procurando por apoio. No movimento, uma imagem entrou em seu campo de visão e uma náusea tomou conta do seu corpo. Ela encarava seu dedo, enroscado no de Brittany, uma prova clara de uma intimidade maior entre elas. Uma intimidade que ela não sabia como definir e que ela não estava pronta para entender. E se ela não estava pronta para entender, também não estava pronta para explicar. Principalmente para uma mulher que nunca tinha visto na vida.

Como se a pele de Brittany fosse feita de fogo, Santana puxou a mão se volta para si e a enterrou no fundo do bolso da calça jeans. Quando seus olhos se encontraram com os de Brittany, tudo o que ela pôde oferecer à dançarina foi um sorriso débil. Era o melhor pedido de desculpas que ela conseguia dar naquele momento.

- A gente não é um casal. Eu sou amiga da Santana e eu vim para dar uma segunda opinião. Só isso.

Apesar da bola de boliche que parecia ter descido por sua garganta, carregando consigo tudo o que encontrou pelo caminho, a voz de Brittany se mantinha firme. Santana parecia pequena a seu lado, seus olhos passeando pelo chão, sem encarar a mulher que tinha um sorriso sem graça estampado no rosto. Brittany sabia que a intenção dela não tinha sido ruim, mas ela tinha presumido – e coisas ruins sempre acontecem quando as pessoas presumem coisas. E olhando para Santana, de volta com o peso do mundo em seus ombros, a loura não podia evitar a vontade de abraçá-la e garantir que tudo ia ficar bem. Mas ela não podia fazer isso. A única pessoa que podia garantir isso para Santana era a própria Santana.

Então, lutando contra seu corpo, que parecia puxado na direção da médica, Brittany disse que ia dar uma olhada no resto do apartamento para que elas conversassem mais à vontade.

De longe, ela ouviu as desculpas da corretora. Ela também ouviu quando Santana conseguiu encontrar suas palavras. E o som que saía da garganta da latina era a versão mais controlada dele que Brittany já tinha ouvido até então. Quase como se controlar a própria voz fosse a única coisa que ela pudesse fazer para não sair fugida dali e correr de volta para o hotel que ela chamava de casa e tentar esquecer que aquele dia sequer tinha começado. O coração de Brittany tinha se esquecido como fazia para bater por um momento e ela lutava contra as lágrimas que queriam se formar em seus olhos.

Quando as vozes no outro cômodo cessaram, Brittany esperou que Santana fosse inspecionar a cozinha para voltar para a sala. Por mais que quisesse se manter próxima, fisicamente próxima, de Santana, ela sabia que a latina precisava de espaço para ordenar seus pensamentos. Se quando eram apenas elas duas, as reações de Santana a qualquer sugestão de que elas pudessem ter alguma coisa a mais do que amizade já tinham sido extremas, Brittany não queria nem pensar no que estava se passando na cabeça dela.

- Vamos?

Santana continuava com a mesma voz pétrea que tinha usado para conversar com a corretora. A postura dela era rígida, mas havia alguma doçura de volta aos olhos cor de madeira. Escondida, trancafiada debaixo de diversas camadas de medo e negação, mas estava lá. Brittany enxergava aquele brilho como se fosse uma lâmpada acesa, iluminando o ambiente e o rosto de Santana. Uma lâmpada que diminuía o peso no peito da loura.

- Claro. Vamos sim.

***

- Você ainda está chateada?

Elas estavam no mesmo restaurante próximo ao trabalho de Brittany em que tinham almoçado antes de a dançarina ir embora aguardando seus pedidos. Santana tinha dito pouca coisa desde que voltaram para o carro da médica e todos os esforços de Brittany de iniciar uma conversa tinham morrido após algumas respostas monossilábicas de Santana. A loura se sentia do lado de fora da bolha em que Santana tinha se fechado e tudo o que ela conseguia ouvir eram sussurros abafados do que estava realmente acontecendo.

- Chateada? Chateada com o quê, Britt?

- Com o comentário daquela corretora.

Santana tentava se manter focada nos olhos azuis de Brittany. Eles eram uma espécie de bóia salva-vidas naquele momento, a única coisa capaz de mantê-la a salvo na superfície. Mas, enquanto seus olhos lutavam para se manterem presos num fio azul de salvação, todo o resto do seu corpo traía sua confusão interna. Pernas não encontravam posição e metade do seu guardanapo já tinha sido reduzida a farelos. Nada disso passava despercebido por Brittany, que esticou o braço por cima da mesa e pousou a mão em cima da de Santana, parando seus movimentos nervosos por um momento.

- Eu não fiquei chateada com aquele comentário — e no mesmo momento em que a frase saiu de seus lábios Santana soube que era uma mentira. E ela sabia que Brittany também sabia disso. Mas como ela queria que fosse verdade.

- Santana! Não tenta me enganar — Brittany falava baixo e Santana conseguia identificar um fiozinho de dor por baixo de sua voz. — Não tem problema nenhum em não ter gostado do que ela falou.

Brittany ainda manteve Santana presa em seu olhar por mais um momento, antes de apertar sua mão uma última vez e se recostar na cadeira. Ela já tinha dito o que achava que devia, agora cabia a Santana dar o próximo passo.

As palavras da loura desceram pela garganta da médica como um remédio amargo. Ela já tinha se acostumado a afastar as pessoas com as suas atitudes impensadas e a sua indiferença, não a ter alguém lhe estendendo a mão. Alguém que olhava para ela como se fosse capaz de ouvir seus pensamentos, que sabia o que ela estava sentindo antes dela mesma. Alguém que queria entendê-la. E todas as suas muralhas, cuidadosamente construídas, também não estavam prontas para aquilo. Ela era vulnerável a Brittany. E isso a assustava, principalmente por não a assustar nem um pouco. Ela se sentia uma contradição ambulante, mas Brittany parecia disposta a desfazer seus nós.

Um som rouco fugiu da garganta de Santana e ela enterrou as mãos nos cabelos negros. Ela apertava firmemente as palmas contras os olhos fechados, como se assim fosse capaz de diminuir a velocidade dos pensamentos que entravam em choque na sua cabeça. Deixou que o corpo relaxasse contra o encosto da cadeira e baixou as mãos, novamente se concentrando nos pontos azuis do outro lado da mesa, que pareciam não serem capazes de se desviar dela.

- Ok. Eu fiquei chateada — um longo suspiro acompanhou as palavras, levando um pouco do peso que ela carregava. — Mas eu não sei por quê. Acho que é isso que tá me incomodando, sabe?

- Você não precisa ter resposta pra tudo, Santana. Ninguém tem.

- Eu sei. Mas é que...

Antes que ela conseguisse terminar a frase, suas refeições chegaram e Santana se sentiu grata pela interrupção. Ela não sabia como colocar em palavras o que tinha sentido quando entendeu o que as palavras da corretora significavam. Ou porque tinha sentido aquilo. Ou mesmo o que aquilo queria dizer. Eram dúvidas demais para poucas respostas. E, em sua vida, Santana tinha se acostumado a responder mais do que perguntar.

- Olha, por que a gente não faz o seguinte? — Brittany ofereceu ao perceber que Santana não conseguiria continuar o assunto. — Vamos mudar de assunto, almoçar com calma e, depois, se você quiser, a gente conversa sobre isso. Pode ser?

- Pode. Pode sim.

O restante do almoço foi relativamente silencioso. Brittany não sentia como se tivesse que forçar perguntas para preencher um silêncio que já tinha nome e significado. E Santana tentava se concentrar em poucas coisas de cada vez; o sabor da comida em seu prato e a maneira como o azul dos olhos de Brittany parecia reluzir sob a luz do sol. Ela começava, visivelmente, a relaxar e até se permitiu tomar a iniciativa da conversa uma ou outra vez. As respostas ainda não existiam, mas ela tinha decidido guardar as perguntas em uma gaveta e lidar com elas mais tarde. Naquele momento, aproveitar a companhia de Brittany parecia um remédio melhor.

No caminho entre o restaurante e o estúdio, as costas da mão de Brittany roçaram algumas vezes a pele de Santana, mas em momento algum ela fez menção de repetir o gesto que elas tinham trocado apenas algumas horas antes. Um único comentário bem-intencionado tinha instalado milhas de distância entre elas e Brittany pretendia caminhar na velocidade de Santana. Seria melhor deixar os primeiros passos por conta dela. Quando ela decidisse caminhar, Brittany estaria mais do que pronta para acompanhar.

- Você quer assistir a minha primeira aula? — elas tinham alcançado o estúdio e se encaravam nervosamente, sem saber como agir. O livro de regras para aquela situação não parecia ter sido lido por nenhuma delas. — É uma turminha infantil, então não tem nenhuma coreografia complicada, mas elas são divertidas.

A idéia de ver Brittany dançando no meio de um monte de crianças fez com que Santana sorrisse. Ela tinha certeza de que a loura devia ser a professora preferida delas — ela era a de Santana com certeza. E ela se lembrou da única vez que a tinha visto dançar e a avalanche de sentimentos que tinha sentido naqueles poucos minutos. Ela queria sentir aquilo de novo, o coração batendo mais rápido, uma sensação de falta de gravidade. Ela queria ficar, mas seus nervos ainda estavam expostos demais para isso. Santana temia por sua sanidade mental e achou que era melhor não arriscar.

- Hoje não, Britt. Acho melhor eu voltar direto para o hotel.

Santana olhou em volta, procurando uma saída ou uma dica do que dizer, quando notou a porta da sala ao lado do estúdio em que Brittany trabalhava. Da última vez que tinha visto aquela porta, uma fita amarela impedia sua abertura e uma pequena floricultura parecia ter sido montada ali. Mas olhando para o espaço naquele momento, era quase como se nada de anormal tivesse acontecido. Quase, porque as duas mulheres conheciam muito bem o passado do lugar.

- A Rachel reabriu o consultório?

- Sim. Tem umas duas semanas, eu acho. A polícia liberou a sala.

- E como você está? Com relação a isso, quer dizer.

Brittany suspirou longamente e deixou que seus olhos se demorassem um pouco na madeira pintada de branco que isolava o consultório do mundo exterior.

- Bem. Quer dizer, eu ainda me lembro da Sarah cada vez que eu passo em frente, mas eu prefiro que o consultório esteja aberto.

- Por quê?

- Acho que o que dizem é verdade. A vida tem que seguir em frente. Ver a Rachel trabalhando aqui me lembra que eu também tenho que andar pra frente.

Brittany ofereceu um sorriso pequeno junto com suas palavras e Santana espelhou a expressão, deixando que o que ela tinha acabado de escutar a marcasse como gado. Ela também tinha que andar para frente. Ficar presa ao que já tinha acontecido não adiantaria de nada, não mudaria as coisas que tinham sido feitas ou ditas, não transformaria sua vida num passe de mágica. Se permitir viver era a única coisa que podia fazer isso.

- É, é uma boa maneira se encarar as coisas. — Elas ficaram em silêncio por um instante, antes que Santana continuasse. — Bom, eu vou deixar você ir para a sua aula. Nos falamos depois?

- Claro! Eu vou gostar disso.

- Eu também.

A médica caminhou até o carro que tinha estacionado em frente ao prédio. Ao abrir a porta, ouviu Brittany chamando seu nome:

- Santana? — a loura esperou ter a atenção dela antes de terminar. — Eu gosto quando você me chama de Britt.

E assim, com um sorriso, as duas mulheres continuaram com seus dias.