Notas iniciais
Muito obrigada pelos comentários de vocês. Fico muito feliz com a receptividade que a história está tendo.

O restante do dia seguira lento para Santana e Brittany. A médica olhava para as paredes brancas daquele quarto de hotel sem saber o que fazer com o seu tempo. Brittany tinha passado apenas alguns dias ali e a ausência dela era como uma presença física para Santana. Ela sentia em sua pele, no aperto que se formava em sua garganta, no nó que tinha feito moradia em seu peito. Ela não queria ter que admitir, mas viver parecia muito mais fácil com a loura do seu lado.

Santana cogitou entrar no elevador, descer dez andares e retomar o lugar que ela tinha deixado vago no bar do hotel. Aquilo teria sido simples. Apenas duas doses, talvez três. Não o suficiente para perder os sentidos — ela tinha plantão no dia seguinte -, mas o bastante para anestesiar a vontade de entrar no seu carro e dirigir até o endereço que Brittany tinha deixado anotado. E ela nem precisaria olhar o papel para se lembrar do que estava escrito. Depois de encarar a letra caprichada da dançarina por mais tempo do que deveria, Santana tinha decorado o endereço de Mike. Ela também tinha olhado no mapa onde ficava. Apenas para ter certeza de que Brittany estaria segura. Apenas isso.

O que o mapa digital não mostrava é como Brittany estava. Santana não tinha como ver a maneira como ela andava pelo espaço pequeno, agitada demais para se manter imóvel. Ou como o sorriso dela não iluminava seus olhos enquanto ela conversava com o amigo. Ela gostava de Mike, mas ele não era Santana e era com ela que Brittany queria estar conversando naquele momento. Mas ela sabia que precisava proteger a médica e aquela era a única maneira que ela tinha encontrado. Por isso, assim que chegou ao seu novo endereço, ela mandou uma mensagem para Santana:

"Acabei de chegar na casa do Mike. Está tudo bem :)"

A carinha feliz que ela acrescentou ao final da mensagem não correspondia ao seu rosto, mas era uma maneira de garantir à Santana de que estava realmente tudo bem. Ela tinha tomado a decisão correta, pelas duas.

Santana sorriu ao ler as palavras de Brittany, ao pensar nos mil sóis que irradiavam do rosto dela quando ela sorria. A médica pensou no que responder, mas palavra nenhuma parecia boa o bastante, nada parecia traduzir o que ela realmente queria dizer. Por fim, ela achou que era melhor se contentar com o mais simples.

"Que bom. Fica bem e qualquer coisa, pode me ligar"

Ela ainda pensou em acrescentar que já estava com saudades, mas achou que não deveria estar e terminou a mensagem por ali. Uma última palavra de Brittany, apenas um "Obrigada" encerrou a conversa delas. O que era tão natural frente a frente parecia artificial agora. Foi então que Santana cogitou descer para o bar. Certamente o barman ainda se lembrava de como ela gostava da sua bebida. E com certeza seu banco preferido, o mais afastado dos olhares dos outros hóspedes, estaria livre. E ninguém se aproximaria dela. Em um passado não muito distante, aquela seria a situação perfeita e Santana já estaria com um copo em mãos, girando o gelo dentro do liquido escuro. Mas a ideia de beber sozinha não a atraía. Ela tinha descoberto que ter companhias podia ser bom.

Uma companhia, pelo menos.

Com um suspiro, ela recolheu o celular que tinha jogado em cima da cama, rolou os dedos pelos poucos contatos que ainda tinha e fez algo que não achou que fosse fazer novamente. Santana andava pelo quarto, telefone colado na orelha, de repente nervosa e incerta de si mesma. Quando o tom de chamada foi cortado pela metade, o ar foi expulso dos pulmões de Santana temporariamente. Agora não tinha mais volta.

- Santana?

- Oi, Quinn.

***

O plantão mal tinha começado quando o pager de Santana soou em sua cintura. Ela estava sendo chamada na recepção. Depois de terminar de conversar com uma das enfermeiras sobre o paciente que estava atendendo, a médica caminhou com passos apressados até a entrada do hospital. Ela tinha uma idéia sobre quem poderia estar lhe esperando.

- Bom dia, detetive.

- Bom dia, doutora. Podemos conversar?

- Sim. Eu estou no meio do meu plantão, então não sei quanto tempo tenho, mas podemos conversar, sim.

- Não tem problema, eu entendo.

Ninguém prestou muita atenção no detetive ao lado de Santana. Não era uma situação tão incomum, um policial caminhando pelos corredores do hospital, e a equipe de plantão não parou para olhar duas vezes para ele. Santana agradecia em silêncio o fato de seus colegas já estarem dessensibilizados o suficiente para não se interessar por aquela dupla. Porque ela tinha certeza de que, se alguém o fizesse, com certeza seria capaz de ver uma enorme perturbação em seus olhos. E aquela não era uma emoção que Satã Lopez costumasse demonstrar.

Os dois se acomodaram na mesma sala de reuniões que tinham usado em sua última conversa e Santana pensou que, dessa vez, não havia nenhuma dançarina loura de pernas compridas a esperando no quarto 3.

Nem no seu quarto de hotel e esse era o motivo da presença do detetive.

Limpando a garganta, a médica foi a primeira a falar:

- Eu imagino que a Brittany tenha ligado para você ontem.

- Eu sou o detetive aqui, doutora — ele ergueu uma sobrancelha e ela aquiesceu em silêncio, um sorriso frio nos lábios. — Mas, sim, ela me ligou e me contou o que aconteceu.

- E o que você quer falar comigo?

- Eu quero que você me conte o que aconteceu. Com as suas palavras.

- Eu cheguei no hotel, peguei a minha correspondência e subi para o meu quarto. Devia ser por volta de 8:30, eu fui para lá direto do plantão. Eu apenas dei uma olhada nos envelopes, mas não abri. Eu só fiquei sabendo do conteúdo quando a Brittany me mostrou.

- E a senhora não tem a menor idéia de como esse envelope chegou no hotel?

- Não. Quer dizer, não tem muita gente que saiba que eu moro lá, mas também não é nenhum segredo. O que eu sei é que ele só tinha o meu nome, então eu imagino que ele tenha sido entregue diretamente lá.

- E você notou alguém seguindo você ou a Brittany?

- Não, nada. Sempre que...

O barulho alto do pager em sua cintura interrompeu a resposta de Santana pela metade. Ela olhou rapidamente para o visor do aparelho, franziu o cenho e voltou sua atenção para o homem.

- Olha, detetive, eu preciso ir. De qualquer maneira, eu não sei mais nada sobre esse maldito envelope. Talvez a equipe da recepção tenha alguma outra informação, não sei.

- Claro, claro. Eu entendo. De qualquer maneira, obrigada pelo seu tempo.

Santana deu um sorriso pequeno para ele e se levantou. Da porta, a médica voltou-se novamente para o detetive, que ainda estava sentado atrás da mesa, encarando suas anotações.

- Você acha que a Brittany está segura? Quer dizer, que esse apartamento em que ela está é seguro?

Noah Puckerman levantou os olhos para a mulher morena que o encarava. Uma resposta atravessada sobre a eficiência do departamento de polícia — ou, quem sabe, alguma piadinha sobre preocupação exagerada — já estava na ponta da língua, mas o que ele viu nos olhos negros da médica dissolveu todas as respostas prontas que ele tinha. A aflição dela era genuína e ele achou que ela merecia uma resposta sincera.

- Tanto quanto o hotel — o rosto de Santana despencou e ele foi rápido em terminar. — Mas ela está sob vigilância 24h e nós já conseguimos alguns avanços no caso. Eu acho que esse pesadelo não dura muito mais.

Era a melhor resposta que ele podia dar sem comprometer o sigilo das investigações. Claro, ele já tinha um nome e um rosto para o suspeito. Ele já tinha conversado com a ex-mulher dele e já conhecia as tendências violentas do antigo policial. Ele já tinha conseguido um mandado de prisão, mas o homem estava desaparecido. Ele já tinha enviado a foto dele para todas as delegacias e unidades da cidade. Mas não havia muito que ele pudesse dizer a Santana que a deixasse mais tranqüila.

- Obrigada, detetive — ela respondeu sem emoção na voz e saiu da sala, correndo pelos corredores para atender ao chamado e se afastar de tudo o que estava acontecendo em sua vida.

***

Quando Santana terminou de pagar o sanduíche e o suco que seriam seu almoço naquele dia, ela olhou em volta e seus olhos caíram em Quinn, sentada numa mesa afastada da lanchonete no hospital. Ela e Santana estavam novamente na mesma escala de plantões e a latina tinha certeza de que a loura tinha mexido alguns pauzinhos com a administração do hospital só para ficar de olho nela. Quinn sempre fora a preferida de Sue Sylvester e, desde que Brittany tinha aparecido por ali, ela pairava ao redor de Santana como uma ave de rapina, pronta para dar o bote ao menor sinal de fraqueza. Ela tinha enfiado na cabeça que a relação entre Brittany e Santana não era exatamente profissional e não dava sinais de que fosse desistir antes de descobrir. Com um sorriso, Santana pensou que ela faria uma boa dupla com o detetive Puckerman.

Quinn logo percebeu a aproximação da colega e sorriu para ela, juntando os restos de embalagem que ela tinha espalhado pela mesa. Santana se sentou de frente para ela e as duas continuaram a refeição em silêncio. A loura olhava de relance para Santana de vez em quando, notando a maneira como o olhar da outra se perdia na paisagem do outro lado da janela. O dia estava cinzento e aquela parte do hospital era virada para o grande estacionamento dos médicos. Santana não era uma grande fã de carros, então aquele olhar fixo, mais a ligação do dia anterior, davam a Quinn a certeza de que alguma coisa estava errada com Santana. Não que ela precisasse de mais confirmações.

- Você vai me contar o que aconteceu ou eu vou ter que adivinhar?

A voz rouca de Quinn arrancou Santana dos pensamentos que teimavam em passear por sua cabeça e ela se forçou a encarar a mulher que a observava do outro lado da mesa. Uma das sobrancelhas dela se arqueava perfeitamente, um olhar que Santana conhecia muito bem, mas que ela não estava acostumada a receber. No mesmo momento, ela pôde sentir todas as suas proteções entrando em modo de atenção.

- Acho que você vai ter que ser mais clara, Q. Eu não passei naquela aula de vidência na faculdade, lembra?

Ponto!, Santana pensou quando viu que Quinn estava tentando esconder um meio sorriso. Uma resposta sarcástica era, normalmente, a melhor maneira de despistar a loura e garantir um pouco de tempo para pensar numa resposta adequada. Ela ainda não estava pronta para dividir o que realmente estava se passando em sua cabeça. Não quando ela própria ainda não tinha entendido por completo. E ela não gostava da idéia de outras pessoas compreendendo suas loucuras antes dela mesma.

- Se você está a fim de jogar esse joguinho, tudo bem. Eu quero saber o que está acontecendo com você. Primeiro, eu vejo você fumando. Fumando! Depois de sei lá quantos anos.

- Q...

- Não, Santana. Deixa eu terminar. Depois você me liga, durante a nossa folga, num final de semana, me chamando para sair. E quando a gente se encontra, você não fala mais do que vinte palavras a noite inteira — Quinn tinha os olhos fixos em Santana, prendendo a atenção da latina como um gancho. — E, agora, você passa quase dez minutos do seu almoço mastigando o mesmo pedaço de sanduíche, encarando um carro velho do outro lado do estacionamento. Eu sei que tem alguma coisa acontecendo, Santana. Fala comigo. Por favor.

A leve fragilidade que se imprimiu no apelo de Quinn atingiu Santana com mais força do que todas as palavras que ela tinha falado até ali. A médica morena piscava os olhos, tentando afastar as lágrimas que teimavam em se acumular nos cantos, pensando em qual seria a melhor resposta que ela poderia dar. Várias mentiras perfeitas travavam uma batalha em sua mente, lutando para ver qual delas seria a escolhida. Depois de tanto tempo enganando e se escondendo atrás de versões mais interessantes da verdade, mentir era quase uma segunda natureza para ela. E Santana sabia que Quinn não acreditaria em nenhuma delas, mas, ainda assim, ela sorriria, assentiria e continuaria com a conversa e com o dia como se nada tivesse acontecido. Era o acordo tácito que elas tinham.

Mas alguma coisa dentro de Santana não queria mentir naquele momento. Se tinha uma coisa que ela tinha aprendido depois de suas conversas com Brittany, era que, às vezes, pode ser bom deixar as pessoas se aproximarem de você. Ela ainda não estava disposta a discutir todos os seus segredos e todos os acontecimentos da sua vida com Quinn, mas ela achava que podia dizer alguma coisa que fosse verdade. Mesmo que não fosse exatamente completa.

Santana baixou os olhos por um momento, procurando dentro de si as melhores palavras para continuar uma conversa que ela não tinha procurado. Quinn examinava seu rosto com atenção. Não era comum Santana demonstrar tanta emoção em seus traços e a loura parecia achar que encontraria ali as respostas para a pergunta que tinha feito e que a outra não parecia inclinada a responder. Finalmente, Santana inspirou fundo e voltou a encarar Quinn.

- Eu fui na casa dos meus pais.

A frase era curta, mas carregada de emoção. Quinn conhecia o estado de saúde da mãe de Santana — ela tinha se mantido a par de tudo durante a internação da mulher. Ela também sabia que a relação da amiga com os pais era tensa, para dizer o mínimo, e que ela ainda não tinha ido até a casa deles desde que tinha voltado de vez para a cidade. Ela sabia que aquele devia ter sido um passo doloroso para a amiga, mas também importante de alguma maneira. Os olhos de Quinn passearam pela mesa, caindo nas mãos morenas que despedaçavam um pedaço de pão que tinha se soltado do sanduíche. O gesto nervoso fez com que Quinn quisesse segurar aquelas mãos entre as suas, mas o gesto seria íntimo demais para elas e ela se contentou em colocar um sorriso triste nos lábios.

- E como foi?

Adjetivos nada simpáticos se enfileiraram na língua de Santana e ela precisou de um tempo para decidir qual seria o mais adequado. A visita à casa em que tinha morado durante a infância e adolescência não tinha sido das experiências mais agradáveis de sua vida — na verdade, talvez estivesse na lista das cinco piores -, mas ela tinha se sentido mais leve ao voltar para o hotel. Como se ela devesse aquele gesto ao seu passado. Como se ela tivesse se livrado de uma parte do peso que ela carregava constantemente em suas costas. Assim como se sentira quando contara a Brittany sobre a morte de seu marido. E assim como acabara de se sentir com o que contou para Quinn.

Quando essa compreensão se assomou em Santana, ela percebeu que havia apenas uma resposta para a pergunta de Quinn:

- Necessário. Estranho, mas necessário.

As duas deixaram que o silêncio preenchesse o ambiente por um tempo. Quinn terminava seu café com calma, observando os olhos de Santana voarem por toda a lanchonete sem focar em nada, realmente. Há muito tempo que ela não via a amiga se abrir daquela maneira sobre certas partes de sua vida que ela achou melhor deixar que Santana ditasse a velocidade da conversa. Em alguns sentidos, extrair informações da latina era como lidar com um animal selvagem ferido, qualquer movimento súbito poderia ser fatal.

Aquela não era a verdade completa e Santana sabia disso. De todos os nós que apertavam seu peito ultimamente, aquele era apenas um deles. Mas aquele era também o mais fácil de ser desamarrado e, quando ela se deu conta, as palavras já estavam escorrendo por entre seu lábios, como um rio que corre eternamente para o mar.

- Eu acho que eu sabia que eu precisava ir até lá, mas eu estava adiando. Porque eu tinha certeza de que seria final, sabe? Minha mãe não é mais a minha mãe. Ela já se foi há muito tempo e o que sobrou é a só a casca. E o meu pai... — ela parou no meio da frase, tomando fôlego e recompondo os pensamentos. — Eu e o meu pai, a gente já não sabe conversar mais. Ele é mais o Dr. Lopez do que meu pai. Mas eu precisava disso, precisava encerrar esse capítulo da minha vida.

- Santana. — Quinn tinha a voz triste, como se tivesse sido ela a ter encarado a realidade da vida da amiga. — Eles são seus pais, isso não vai mudar, por mais que você tente. Esse capítulo nunca vai se encerrar. Não de verdade.

- Você pode até ter razão, mas eu fechei o livro, então...

A frase ficou suspensa no ar e Quinn soube que a conversa tinha chegado ao fim. Ela tinha conseguido mais do que podia ter esperado e achou melhor não abusar da sorte. Com um movimento sutil de cabeça, ela sorriu novamente para Santana e se concentrou no café que tinha deixado pela metade. A latina devia estar se sentindo extremamente exposta naquele momento e ela achou que era melhor deixar que ela escapulisse para a sua realidade paralela, em que as coisas que a machucavam simplesmente não existiam. Como os personagens de um livro que nunca se leu.

O toque agudo do pager de Quinn cortou o silêncio do momento e ela olhou de relance para a tela, registrando o chamado. Com um suspiro pesado, ela terminou o café e ficou de pé. O movimento pareceu despertar Santana de um sono profundo e ela lançou um olhar curioso para Quinn. A loura levou uma das mãos até o aparelho preso em sua cintura.

- Eu preciso ir. A gente se fala mais tarde?

Era uma pergunta mais retórica do que real e Santana apenas deu de ombros. Trabalhando na mesma emergência, durante o mesmo plantão, seria praticamente impossível para elas não se falarem novamente até o dia seguinte. Mas os nervos de Santana ainda estavam muito expostos para que ela conseguisse formular uma resposta completa. Ela voltou a perder o olhar no mundo do lado de fora da janela e Quinn caminhou com passos pesados até a porta, de onde olhou uma última vez para Santana. Dessa distância, Quinn não pôde notar quando um dedo moreno secou uma única lágrima rebelde.

***

Dar aulas de dança com um braço imobilizado e pontos na testa não é das tarefas mais simples, mas Brittany precisava voltar à sua rotina normal. Depois de ter dançado por horas no sábado, ela percebeu o quanto sentir a música percorrendo seu corpo fazia falta em sua vida. Era como se lhe tivessem arrancado o ar e ela precisasse fazer muito esforço para apenas se manter viva. Ela precisava dos movimentos ritmados da dança como precisava respirar.

Durante a semana em que ela se manteve afastada, Mike assumiu algumas de suas turmas e chamou uma amiga, Lily, que tinha dançado com ele na companhia, para assumir as outras. Tinha sido um ajuste temporário, apenas uma maneira de não prejudicar os alunos enquanto Brittany lidava com todos os acontecimentos recentes da sua vida. Mas agora ela estava de volta à academia, com mais vontade do que nunca de se jogar no ritmo e nos passos.

Nos primeiros dias, Brittany se contentou em acompanhar as aulas. Ela ainda se mantinha à frente da turma, executando todos os passos, mas era Mike ou Lily quem conduzia os alunos. Ela estava permitindo que seu corpo recuperasse o ritmo e se adaptasse. No terceiro dia, ela já se sentia confiante o suficiente para reassumir algumas das suas turmas. Depois de conversar longamente com Mike, eles decidiram que ela retomaria suas duas turmas mais avançadas e a turma das iniciantes. As primeiras estavam treinando a mesma coreografia há meses e as pequenas limitações que o pulso de Brittany representava não seriam um problema. E com as iniciantes, um grupo de sete meninas com menos de cinco anos de idade, o mais importante era jeito e paciência, coisa que Brittany sempre tivera de sobra.

Ao apagar as luzes e trancar a porta do estúdio, Brittany se sentia feliz novamente. Um sorriso tinha se instalado em seu rosto desde que ela fora recepcionada pela primeira turma e ele ainda resistia, várias horas e coreografias depois. Ela se sentia bem novamente, como se a última semana não tivesse passado de um pesadelo real demais. Mas tinha uma coisa que tinha acontecido que não era sonho e a lembrança de uma certa médica morena aumentou o sorriso que já parecia querer partir o rosto de Brittany na metade.

Santana.

Brittany pensava na médica a todo momento, se perguntando o que ela estaria fazendo e querendo dividir com ela cada pedacinho comum do seu dia. Ela sabia que tinha tomado a decisão certa ao sair do hotel em que Santana morava — Brittany simplesmente não podia colocar alguém que tinha feito tanto por ela em perigo -, mas ela sentia saudade da médica. Muita. Não sendo mais capaz de impedir, ela procurou pelo celular na bolsa e digitou uma mensagem rápida.

Como vão as coisas? Eu voltei a dar aulas hoje. Achei que fosse querer saber. Bjs

Tinham muito mais coisas que Brittany queria dizer a Santana, mas depois da maneira que ela tinha reagido ao que aconteceu na última vez em que Brittany passou a noite no hotel, ela achou que se essas coisas um dia fossem ser ditas, teria que ser pessoalmente.

Ela guardou o celular no bolso de trás da calça jeans e continuou caminhando em direção ao apartamento de Mike. Eram apenas três quadras, mas o ar gelado do início de noite a fez apertar mais ainda o casaco contra o corpo. Quando ela virou a esquina, um carro estacionado na porta do prédio fez com que ela se lembrasse de que a última semana não tinha sido um pesadelo. A proteção policial que o detetive Puckerman tinha destacado era um lembrete constante da realidade e da seriedade da sua situação. Brittany não tinha certeza se ela se sentia mais segura ou mais exposta tendo eles ali.

Ela subiu as escadas pulando de dois em dois degraus e entrou no apartamento emprestado. Os cabelos louros estavam presos num rabo de cavalo frouxo e alguns fios soltos grudavam na nuca suada. Ela logo se decidiu por um banho antes do jantar.

Ao remover as roupas, Brittany resgatou o celular do bolso. A tela iluminada indicava que Santana ainda não tinha respondido. Com uma pequena careta, ela procurou uma parte seca da pia para colocar o aparelho enquanto ela estava debaixo do chuveiro.

Depois do banho, Brittany preparou um jantar rápido e comeu na frente da TV, sem prestar muita atenção ao filme que passava na tela. A cada duas ou três garfadas, ela verificava novamente o celular que permanecia em silêncio ao seu lado. Ele não estava no modo silencioso e tinha sinal, mas, até aquele momento, nada de uma resposta de Santana.

O jantar terminou, o filme também e as pálpebras pesadas de Brittany a expulsaram da sala na direção do quarto. Depois de vários dias parada, a excitação de voltar a dar aulas cobrava um preço enorme do seu corpo esguio. Já aninhada entre as cobertas, ela verificou uma última vez o celular — nenhuma mensagem recebida. Depois de apertar algumas teclas, ela confirmou que suas poucas palavras tinham, realmente, sido enviadas para a pessoa certa. Santana apenas ainda não tinha respondido. E Brittany começava a se perguntar se, talvez, a médica estivesse aliviada por não ter mais que lidar com os seus problemas diariamente.

Mas Santana ainda não tinha lido a mensagem de Brittany.

Nos primeiros dias tinha sido fácil se manter afastada do bar do hotel. Ela queria acreditar que não era mais aquela mulher que gastava suas noites de folga entre garrafas e viajantes entediados. Ela estava disposta a não voltar para a rotina que tinha seguido com certo fervor religioso antes conhecer Brittany. Até para Quinn ela tinha telefonado, numa tentativa de não ficar sozinha com os demônios que sussurravam em seu ouvido incessantemente. Mas distrações também têm limites e, naquela noite, eles falaram mais alto e ela se viu novamente na mesma cadeira que tinha tomado como sua.

O barman sorriu ao vê-la entrar pelas portas duplas e, antes que ela pudesse fazer o pedido, ele já tinha colocado um copo com a bebida habitual na mesa a sua frente, a mesma que ela sempre ocupava. Ela agradeceu com um sorriso apertado entre os lábios e pensou que, talvez, rotinas existissem para isso, para aqueles momentos em que não se quer pensar — nem ser. Apenas existir já é um esforço tremendo.

O líquido arranhou sua garanta durante a descida e a sensação a lembrou do cigarro que tinha fumado alguns dias antes. Dor e prazer misturados num mesmo movimento, como se fossem faces de uma mesma moeda, como se não pudessem existir sem o outro. E ela pensou em sua vida. Em como alguns momentos de real prazer durante a adolescência tinham levado a anos de uma dor tão entranhada dentro dela, que Santana já não sabia mais quem era sem aquilo. Era como se ela tivesse levado um soco bem na altura do esterno. No início, todo o ar tinha sido expulso do seu corpo e ela achava que nunca mais seria capaz de respirar. Ela morreria ali, afogada em terra firme, com um roxo entre os seios como prova do que tinha acontecido. Mas ela não morrera. Seus pulmões tinham reiniciado seu trabalho e oxigênio voltava a fluir em suas células. E agora ela estava bem. Não havia nenhuma marca visível que denunciasse o golpe e ela quase o teria esquecido, não fosse uma dorzinha aguda, bem no meio do peito, que ela sentia de vez em quando. Apenas quando respirava.

No meio do segundo copo, Santana se deu conta de que tinha esquecido o celular em seu quarto. Ela pensou em subir e buscar o aparelho, mas desistiu antes que a vontade se firmasse em seu cérebro. Não havia ninguém, realmente, que quisesse falar com ela. A não ser... Não. Brittany tinha ido embora e após uma troca rápida de mensagens no próprio domingo em que ela partira, Santana não recebera mais nenhuma notícia da loura. Total e completo silêncio. Então, não, Brittany também não queria falar com ela e Santana voltou a se concentrar apenas no copo interminado a sua frente. Ele era o único amigo de que ela precisava naquele momento.

Ao final do terceiro copo, Santana simplesmente se levantou, caminhou até o elevador e refez seu caminho até o quarto vazio que a esperava no décimo andar do hotel. As três doses que ela tinha consumido seriam cobradas junto com a conta daquele mês e tudo o que ela queria naquele momento era se enterrar entre o colchão e as cobertas, fechar os olhos e fingir que o mundo tinha deixado de existir por algumas horas. Até que o despertador a lembrasse de que ele era bastante real, pelo menos.

Foi isso que ela fez e a mensagem de Brittany continuou ignorada no celular jogado em cima da poltrona.

A manhã seguinte chegou mais rápido do que Santana gostaria — o que costumava acontecer quando ela resolvia encarar o terceiro copo. Mas pelo menos o álcool tinha cumprido sua missão e ela tinha atravessado a noite inteira sem imagens de cabelos louros, dedos finos emaranhando seus cabelos e pernas compridas atravessando seus sonhos. No livro de Santana aquilo era uma vitória, mesmo que a claridade que entrava pela janela incomodasse suas retinas e um início de dor de cabeça se insinuasse nas têmporas. Ela preferia encarar Quinn e o próximo plantão assim do que perdida em lembranças de Brittany e sensações que ela não sabia como classificar.

Mas, ao pegar o celular para guardar na bolsa antes de sair, toda a pose de durona de Santana foi por água abaixo. O nome de Brittany aparecia na tela e Santana sentiu um nó incômodo se formar na boca do estômago. Dedos morenos apertavam o aparelho com tanta força que eles começavam a ficar pálidos, enquanto um sorriso brotava em seu rosto ao mesmo tempo em que lágrimas espetavam seus olhos. Novamente, emoções contrárias davam vazão à turbulência interna que era a vida da médica.

Ela precisou ler a mensagem duas vezes para compreender a importância daquele passo para Brittany. Ela tinha visto a loura dançar apenas alguns dias antes e tinha sido capaz de ver o quanto ela precisava da música e dos movimentos para se sentir viva. Santana se sentia feliz por Brittany, ela sabia que aquele era um momento importante, mas ela não sabia como responder. E, como costumava fazer quando se sentia insegura do próximo passo, Santana se escondeu atrás de suas camadas de auto-preservação.

Que bom. Fico feliz. E como está o braço? E a testa? Cuidado para não se esforçar demais.

Ela podia não saber o que estava acontecendo ou porque se sentia daquela maneira quando estava perto de Brittany, mas ela sabia ser médica. E aquilo era o melhor que ela podia fazer no momento. Com o celular em uma das mãos, Santana reuniu suas coisas e saiu para o plantão que a aguardava.

Parada, de pé, na frente das portas de aço do elevador do seu andar, a médica encarava o pequeno aparelho em suas mãos. Ela sentia uma espécie de coceira nos dedos, uma queimação interna que dizia que ela ainda tinha mais alguma coisa para dizer a Brittany. Antes que perdesse a coragem, Santana digitou uma nova mensagem, ainda mais curta, enviou e guardou o celular no bolso do casaco. Nesse momento, as portas do elevador se abriram e só então ela percebeu que estava segurando a respiração.

Quem sabe eu não vou assistir uma das suas aulas? ;)

Mas Santana não foi e as semanas seguintes foram marcadas por uma série de desencontros. Mensagens demoravam horas para serem respondidas e raramente passavam de algumas poucas frases que diziam muito pouco do que elas realmente queriam. Elas tentaram marcar almoços e cafés, mas suas agendas nunca pareciam combinar. Os contatos foram ficados cada vez mais espaçados e ensaiados, até que, lentamente, como um rio que seca, elas pararam de se procurar e deixaram que os dias que tiveram juntas não passassem de uma memória guardada com cuidado.

Notas finais
Antes que alguém pense em descobrir meu endereço para tentar me matar, lembrem-se de que se eu morrer, eu não tenho como continuar a história ;)