Notas iniciais
Capítulo novo para garantir a leitura do fim de semana!
Esse é o maior até o momento e um dos meus preferidos. Depois contem o que vocês acharam nos comentários.

Ela tinha sobrevivido a mais uma plantão e, enquanto entregava o carro para o funcionário do hotel, tudo o que Santana conseguia pensar era na loira que ela tinha abandonado mais de 24 horas antes. Durante todo o dia, a imagem do rosto de Brittany quando a médica interrompeu o beijo a assombrara. A confusão e o embaraço que ela tinha visto nos olhos azuis a tinham acompanhado em cada consulta, cada atendimento de um plantão que parecia que não teria fim.

Mas agora ela estava ali novamente, apenas a alguns minutos de tentar resolver as coisas com Brittany. O único problema é que Santana não tinha a menor idéia do que fazer quando encontrasse com a dançarina novamente. Como explicar por que ela tinha fugido daquele jeito? Será que sequer havia explicação?

Seria inútil tentar dizer que ela não tinha gostado do beijo, que ela não tinha se entregado àquele momento tanto quanto Brittany. Mesmo que ela não conseguisse admitir aquilo com palavras nem para ela mesma, Santana sabia que ela queria aquilo desde a primeira vez que seus olhos se perderam nos da loura. Em algum lugar escondido em sua mente, uma vozinha pequena dizia que aquilo, que elas duas, era certo. Mas essa voz era abafada por anos de negação. Com o tempo, Santana tinha realmente dominado a arte de mentir para si mesma e de empurrar para uma caixa esquecida todos os sentimentos com os quais ela não queria ou achava que não podia lidar. Era mais fácil assim.

Ou tinha sido até ela ser literalmente atropelada por Brittany no meio da rua. Era como se no momento em que ela tinha caído no chão, todos os seus demônios muito bem guardados e silenciados tivessem ganhado liberdade em sua mente. E agora, depois de tantos anos de cativeiro, eles estavam perambulando por sua cabeça com ainda mais força do que antes.

Com um olhar para o relógio, Santana achou que ainda era cedo o suficiente para que Brittany ainda estivesse dormindo. Talvez assim, ela pudesse entrar no quarto e se jogar na cama sem acordar a nova moradora daquele espaço. Talvez assim, ela ganhasse um pouco mais de tempo para descobrir o que dizer para Brittany da próxima vez que se vissem. E talvez, apenas talvez, Brittany não tivesse pensado tanto no beijo quanto Santana e elas nunca mais falassem sobre aquilo novamente. Ele simplesmente escapuliria para o fundo de suas lembranças, como a memória de alguma coisa que aconteceu na infância e a gente não tem muita certeza se aconteceu realmente ou se foi apenas um sonho.

Essa nova linha de raciocínio colocou um sorriso no rosto de Santana quando ela parou na recepção do hotel para pegar seus recados e correspondências. Ela olhava com desinteresse os papéis em suas mãos. Eram apenas recados de pessoas com quem ela não queria falar, propagandas de coisas que ela não queria comprar e uma conta de um celular que ela raramente usava. Apenas um dos envelopes se destacava da pilha. Era um desses envelopes pardos, vagabundos, que podem ser encontrados em qualquer papelaria. Ele não tinha nenhuma marca de correio, nenhum carimbo ou selo, e na frente apenas o nome Santana Lopez escrito em tinta preta, numa letra precisa e controlada. O envelope não era grande e era extremamente leve, não devia ter mais do que uma folha de papel dentro dele. Obviamente tinha sido entregue diretamente na portaria do hotel e, normalmente, a curiosidade de Santana já a teria feito rasgar o papel e descobrir o que ele guardava. Mas a latina tinha coisas mais importantes com que se preocupar naquele momento.

O elevador tinha parado com um tranco no décimo andar do hotel e agora Santana caminhava pelo corredor até parar na porta do seu quarto. A médica segurou a pilha de papeis entre o braço direito e as costelas enquanto colocava o cartão no leitor da porta. Puxando o ar com força para dentro dos pulmões, Santana se preparou para o que encontraria do lado de lá.

A maçaneta cedeu suavemente sob a mão morena da latina e, com um relance, Santana percebeu que estava apertando com mais força do que o necessário e que os nós dos seus dedos já tinham ficado brancos. Ela exalou o ar que tinha feito refém em seu corpo e empurrou a folha de madeira devagar. Do lado de dentro, novamente o cheiro de café invadiu as narinas da médica e ela não pôde evitar o sorriso discreto que encontrou seu caminho até seu rosto.

Brittany estava sentada em cima da bancada da mini-cozinha, observando Santana por cima da xícara de café que ela levava aos lábios. Seus olhos estavam sérios e ela logo os desviou para o chão. Uma sensação de rejeição tomou conta da médica, mas ela ainda não estava preparada para lidar com as conseqüências disso.

- Oi – Santana tentou iniciar uma conversa da maneira mais natural possível, mas sua voz não passava de um sussurro partido.

- Oi.

A voz de Brittany era monocórdica, como uma recepcionista de repartição pública em fim de expediente, e um silêncio denso se instalou entre as duas. O som dos sapatos de Santana contra o piso enquanto ela andava pelo quarto era a única coisa que abalava a imobilidade da cena.

- Achei que você ainda fosse estar dormindo – Santana tentou novamente.

— Eu vou sair.

A médica virou nos calcanhares para encarar Brittany novamente. A dançarina ainda encarava o chão com atenção e Santana não conseguia ver seus olhos, mas toda a postura dela estava dura.

- Como assim você vai sair, Brittany? É seguro?

- Santana, eu não posso ficar me escondendo no seu quarto de hotel para o resto da vida.

Com a frase, Brittany ergueu o rosto e o olhar das duas finalmente se encontrou. Elas se mantiveram assim por alguns segundos – que pareceram horas –, estudando as feições da outra, lendo por trás das retinas o que se passava na mente da mulher a sua frente. Santana se sentiu terrivelmente nua diante daquele olhar e foi a primeira a desviar.

- Eu sei, mas é que... – ela não conseguiu terminar a frase. Ela não tinha voz e nem argumentos. Não do tipo que estivesse disposta a reconhecer, pelo menos.

- O detetive Puckerman falou que não tem problema. Eu só vou até o estúdio e a patrulha vai ficar parada na porta enquanto eu estiver lá. Eu preciso colocar a minha cabeça no lugar e, para isso, eu preciso dançar. É onde eu me encontro.

A menção ao detetive fez Santana se lembrar de que Brittany tinha ido à delegacia no dia anterior. Ela tinha tido a intenção de ligar durante todo o dia e perguntar como tinha sido, mas ela não tinha encontrado coragem de realmente fazer a ligação.

Quando Santana se deu conta, Brittany já tinha descido da bancada e estava na beira da pia, lavando a caneca que ela tinha usado. Suas costas estavam voltadas para a médica e tudo o que ela conseguia ver eram cabelos louros presos num rabo de cavalo balançando com o movimento dos braços finos. Antes que aquele pêndulo a hipnotizasse por completo, Santana conseguiu encontrar um fio de voz para perguntar:

- E como foi na delegacia?

- Eu não quero falar sobre isso agora, Santana.

Os ombros de Brittany caíram e ela deixou um longo suspiro escapar. Tinham sido longos os últimos dias e eles começavam a cobrar seu preço. Sem que ela soubesse, Santana abriu e fechou a boca algumas vezes, tentando encontrar as palavras certas para dizer à dançarina, mas elas pareciam não existir.

Brittany secou as mãos na calça jeans e se voltou para Santana. O ar estava pesado entre elas enquanto seus olhares não se desviavam. Havia muita coisa não dita, muita coisa que precisava ser definida e explicada, mas aquele não era o momento e Santana ainda não estava disposta a admitir derrota.

- Você quer que eu vá com você?

A pergunta acendeu uma sugestão de sorriso nos cantos dos lábios de Brittany e ela caminhou até a médica, parando a centímetros de distância. A dançarina ainda se impressionava com a capacidade que a outra mulher tinha de se preocupar e de colocar o bem estar dela acima do seu próprio. Mesmo depois de um plantão inteiro, Santana estava disposta a abrir mão de algumas horas de sono apenas para que Brittany não fosse sozinha para o estúdio.

Naquela distância, Santana tinha que erguer um pouco a cabeça para olhar Brittany nos olhos. Não era das posições mais confortáveis, mas ela não queria quebrar o contato. Ela sabia que a outra mulher estava escondendo alguma coisa e ela achava que se ela olhasse Brittany com atenção suficiente, pelo tempo suficiente, então, talvez ela conseguisse descobrir o que tinha acontecido.

- Não precisa. Você acabou de chegar do seu plantão, você deve estar exausta. Eu acho que você deveria dormir. Quando você acordar, você pode me encontrar no estúdio e a gente sai para comer alguma coisa. O que você acha?

- Se você tem certeza...

- Eu tenho. Além do mais, se eu ficasse aqui, eu ia acabar dando uma topada no pé da cama ou derrubando alguma coisa e você não ia conseguir dormir. Assim, todo mundo sai ganhando.

- É, eu acho que sim...

***

A luz que entrava pela janela atingiu o rosto de Santana e arrancou a médica dos seus sonhos. Ela ainda se virou na cama, tentando se agarrar aos últimos fiapos de sono que conseguia alcançar, mas a lembrança de sua última conversa com Brittany fez com que todo o corpo da latina berrasse em protesto. Por mais que a cama ainda estivesse confortável, ela precisava se levantar.

O banho foi rápido, apenas o suficiente para terminar de abrir os olhos. Mas quando se viu parada na frente do armário, Santana não sabia o que fazer. Ela olhava para suas roupas e de repente não tinha a menor ideia do que deveria vestir. Ela tinha passado tanto tempo se escondendo do mundo atrás de um jaleco que não sabia mais como se portar em situações cotidianas.

E quanto mais ela pensava nisso, mas ridícula ela se sentia. Aquilo não era um encontro, nem uma reunião de negócios. Ela estava apenas indo encontrar com uma amiga num estúdio de dança e depois elas iriam almoçar alguma coisa qualquer no primeiro restaurante que encontrassem.

Bem no meio desse pensamento, os olhos de Santana se fixaram em seu reflexo no espelho da porta do armário. Ela encarava os próprios olhos, agora quase negros, e questionava cada uma das palavras que tinha dito em sua cabeça.

Brittany era sua amiga? Elas se conheciam há menos de uma semana. Será que podia realmente chamá-la de amiga? Bom, ela tinha contado para a dançarina um dos seus maiores segredos – coisa que poucas pessoas ouviam dela –, mas amigos não costumam se beijar da maneira que elas tinham se beijado na manhã anterior. Dessa parte ela estava certa. Ou quase.

Mas se ela e Brittany não eram amigas, então o que elas eram? E, mais importante, por que ela tinha convidado a loura para ficar com ela durante um tempo após a invasão a seu apartamento? Porque se Brittany não significava nada para ela, então a dançarina não devia passar de mais uma paciente, e Santana nunca tinha convidado nenhum paciente para passar uma temporada em sua casa. Por mais atraentes que fossem.

A simples ideia de que Brittany pudesse não significar nada para ela, fez com que o coração de Santana se acelerasse no peito, batendo apressado contra as costelas, como que querendo lembrar à sua dona de que ele ainda estava ali. E que ele não andava concordando muito com as coisas que estavam passando pela cabeça dela.

Um grito baixo de frustração ecoou pelo quarto e Santana resolveu vestir a primeira roupa limpa que encontrasse. Havia uma guerra sendo travada entre seus sentidos e quem estava saindo derrotada era a própria morena, que se via perdida diante de situações que ela costumava encarar com facilidade.

Vestida e pronta para sair, Santana enfiou na bolsa as contas e recados que tinha recolhido mais cedo na recepção. Ela pensou que poderia servir de distração caso Brittany ainda demorasse a terminar o que quer que ela tivesse ido fazer no estúdio.

Com o trânsito livre da hora do almoço de sábado, Santana logo se viu estacionando o carro do outro lado da rua, em frente ao pequeno estúdio de dança. Parada bem em frente, ela podia ver a patrulha que o detetive tinha destacado para acompanhar Brittany e ela respirou um pouco mais aliviada. Pelo menos, ela não tinha ficado completamente sozinha ali.

Enquanto atravessava a rua, a médica pôde ver de relance a fita amarela que isolava a entrada do consultório ao lado do estúdio e as flores que haviam sido deixadas na porta. A maioria já estava murcha e amarelada, dando testemunho da efemeridade das coisas.

Santana desviou o olhar e focou apenas na janela que trazia as palavras Estúdio de Dança grafadas em vermelho. Ela passou em frente à patrulha e acenou para os policiais dentro do carro. Com mais alguns passos, ela alcançou a porta e já podia ouvir a música suave que era tocada dentro do espaço. Ela pensou em bater ou chamar por Brittany, mas tinha sido a própria dançarina a sugerir que ela a encontrasse ali, então Santana testou a maçaneta e abriu a porta.

O primeiro cômodo era uma espécie de recepção combinada com sala de espera. Bancos compridos tinham sido colocados ao longo das paredes e uma mesa estava posicionada mais ao fundo. Nas paredes, diversas fotos mostravam as turmas da escola, as competições de que tinham participado e as apresentações que tinham feito. Em várias dessas imagens, Santana podia ver uma Brittany sorridente, irradiando um tipo de felicidade que a médica desconhecia.

Ela se viu caminhando ao longo das paredes, procurando a próxima foto da loura, o próximo registro daquele sorriso. Numa das últimas imagens, o momento era diferente. Ali, Brittany não estava mais com uma roupa larga, suada e cercada por crianças. Nessa foto, ela estava no palco, concentrada, confiante. A fotografia era em preto e branco e tinha sido tirada durante uma apresentação. Brittany estava no meio de um salto, o corpo pairando no ar, um foco de luz diretamente acima dela. Ela tinha uma tranqüilidade no rosto e Santana podia jurar que ela devia estar flutuando naquele momento.

Um acorde mais alto da música que tocava na outra sala assustou Santana e ela deu as costas para a fotografia que tinha admirado por mais tempo do que gostaria de admitir. Com um sorriso envergonhado no rosto, ela caminhou até a porta de onde saía o som.

Nada poderia ter preparado Santana para o que ela ia encontrar ali. Brittany dançava com um abandono que quase hipnotizava a médica. Ela tinha os olhos fechados e se movia ao ritmo da música que ecoava no ambiente sem esforço, como se o som estivesse saindo de dentro dela. Era como se ela pudesse sentir a música com todas as suas células.

Santana gostaria de poder ver os olhos de Brittany naquele momento, mas eles estavam fechados. Mas não era um fechado apertado, de quando a gente não consegue encarar o que está acontecendo no mundo em volta, ou um fechado de concentração. Eles estavam fechados apenas porque estavam, porque ela estava sentindo muito e às vezes é preciso ter os olhos fechados para se conseguir sentir tudo o que se tem por dentro. E Santana tinha certeza disso porque o sorriso que a loura tinha nos lábios era maior do que os que ela tinha visto até aquele momento. Era maior até do que os que ela tinha visto nas fotografias da recepção. Era um sorriso que parecia nascer de alguma parte escondida da alma da dançarina e que tinha encontrado seu caminho após percorrer todo o corpo delgado dela. Brittany sorria com todo o corpo e Santana se viu refletindo aquele sorriso.

Debaixo dos raios de sol que invadiam a sala por uma janela lateral, Santana tinha a impressão de que Brittany brilhava. Uma fina camada de suor cobria seu corpo e era como se a pele dela tivesse sido coberta por milhares de minúsculos brilhantes. A visão deu um nó no estômago de Santana e ela entendeu o que Brittany tinha dito quando falou que ela se encontrava quando dançava. Aquela era outra Brittany e Santana não tinha a menor idéia do que fazer com o que aquela imagem estava fazendo com a sua cabeça. De novo.

- Santana.

A música tinha terminado e agora Brittany estava parada no meio da sala, seu peito subindo e descendo no ritmo de sua respiração pesada. Ela tinha soltado os cabelos do coque que usava e agora eles caíam ao redor do seu rosto até seus ombros. Um fio permanecia grudado no seu rosto e ela tinha uma expressão serena, como se ela tivesse acabado de descobrir o mais especial dos segredos.

A voz de Brittany assustou Santana. Ela tinha se perdido tanto em seu próprio universo, admirando os movimentos da outra, que ela nem percebera que a sala estava mergulhada em silêncio. Aos poucos, ela deixou que o sorriso em seu rosto se desmanchasse e ela conseguiu fixar seu olhar novamente em Brittany. Ela parecia mais tranqüila agora, como se seus pensamentos estivessem em ordem depois de dançar.

- Oi.

- Você chegou tem muito tempo?

- Não muito — Santana não tinha a menor idéia de há quanto tempo ela estava observando Brittany dançar, mas ela nunca admitiria isso. — Eu estava vendo você dançar.

Se fosse possível, Santana teria tomado as palavras de volta. Não que ela tivesse mentido para Brittany, porque ela definitivamente não tinha, mas porque ela se sentia estranha dizendo aquilo. Era uma frase simples e Brittany a tinha flagrado assistindo, mas Santana se sentia exposta de repente. Como se ela tivesse admitido muita coisa em apenas cinco palavras. Ela buscou os olhos de Brittany para tentar adivinhar a reação dela, mas a loura apenas sorriu para Santana.

- Eu vou tomar um banho, trocar de roupa e a gente pode sair para almoçar.

Brittany nem esperou por uma resposta antes de dar as costas para Santana e sair por uma pequena porta nos fundos da sala.

Quando ouviu a porta se fechar, Santana soltou uma respiração que ela nem sabia que estava prendendo. Ela voltou para a recepção e se sentou em um dos bancos disponíveis; ela precisava se recompor.

Ela tentou fechar os olhos e respirar fundo, mas cada vez que fechava os olhos, a imagem de Brittany dançando voltava a sua mente e aquilo não estava ajudando em nada a diminuir a velocidade com que seu coração batia. Tudo o que Santana tinha feito tinha sido observar uma dança e agora sua respiração estava quase tão pesada quanto a da própria mulher que tinha dançado. Ficar parada também não estava ajudando. De repente, ela tinha muita energia acumulada que precisava de algum tipo de escape. Ela tentou andar pela recepção, mas ficou com medo de que Brittany aparecesse de repente e achasse que ela impaciente ou coisa parecida. Na verdade, ela estava. Mas não pelos motivos que Brittany acharia.

Como Santana gostaria de um cigarro agora! Ela sempre se acalmava depois de fumar e aquela teria sido a desculpa perfeita para sair um pouco da recepção que parecia ficar mais sufocante a cada minuto que passava. Mas ela tinha se prometido que o cigarro da manhã anterior tinha sido a sua única recaída e ela não estava disposta a ouvir Quinn reclamar em seu ouvido caso ela voltasse a fumar de verdade.

Já que ficar sentada não era uma possibilidade, Santana voltou a observar as fotos espalhadas pela recepção. Mas apenas aquelas em que Brittany aparecia dançando. Era como se, depois de ter assistido àquele show particular, a médica conseguisse olhar o corpo em movimento da outra mulher de uma maneira diferente. Ela se lembrou de quando ela e Brittany chegaram ao hotel pela primeira vez, apenas algumas noites atrás, e como ela tinha notado que era quase impossível para Brittany ficar completamente imóvel. Como se toda a energia que ela carregava precisasse ser canalizada para algum movimento. E agora, depois de ver Brittany realmente dançando, depois de ter testemunhado seu abandono, Santana entendeu que a mulher dançava porque ela não tinha outra alternativa. Ela dançava porque energia queima e aquilo era a faísca que mantinha Brittany viva. Era ali que ela era mais ela. Era só ali que ela podia ser ela.

Aquela percepção colocou um sorriso no rosto de Santana. Era como se tivessem permitido que ela testemunhasse algum acontecimento muito precioso, uma espécie de milagre. Ela entendia agora como a dança era importante para Brittany e se sentia um pouco patética por ter tentado impedi-la de vir. Era o mesmo que tentar impedir uma onda de se chocar contra as rochas.

Mas como ela tinha feito desde que Brittany tinha entrado em sua vida, ela olhou para si mesma diante dessa nova perspectiva e achou a sua existência vazia. Ela nunca fora apaixonada assim por nada. Ela amava a medicina, mas não era uma paixão, uma necessidade física. Era um emprego. Só isso.

Ela tentou se lembrar de algum hobby, qualquer coisa que a tivesse feito se sentir tão viva quanto ela tinha se sentido apenas assistindo Brittany dançar, mas nada vinha a sua mente. Ela tinha passado tanto tempo tentando se esquecer dos anos de colégio que agora era difícil se lembrar deles mesmo quando queria. E depois que ela foi para a faculdade, sua rotina tinha sido estudar, estudar e estudar. Tudo para se tornar a mais perfeita versão dela que ela podia ser.

Mesmo durante seu casamento com Rafael, não havia nada que eles fizessem juntos, nenhuma atividade que os unisse de verdade. Ele tinha o trabalho dele, ela tinha o dela e eles tinham os jantares para conversar sobre como tinha sido o dia. Quando ele começou sua campanha política, ela se viu escorregando cada vez mais fundo para dentro do papel de esposa dedicada de um homem público. Todos os seus minutos eram planejados e todas as suas ações nos dias de folga eram organizadas por uma equipe de relações publicas. Todos extremamente competentes, segundo seu marido, mas eles nunca sequer tinham conversado com ela ou perguntado o que ela gostaria de fazer.

E depois de tanto tempo se negando a responder a uma pergunta tão básica quanto aquela, que normalmente respondemos antes mesmo de entender sua importância, Santana se via sem reposta. E ela se via sem resposta porque nunca tinha se permitido fazer a pergunta. Ela sempre estivera tão preocupada com o que o mundo esperava dela, que ela nunca se preocupou com o que ela esperava dela mesma.

Com o olhar fixo na fotografia de Brittany que ela mais tinha gostado — aquela em que a dançarina parecia estar flutuando -, Santana entendeu como as duas eram diferentes. Enquanto ela tinha suprimido muitas das suas vontades em busca de um ideal maluco de perfeição que ela nem compreendia direito, Brittany decidia sua vida com base no que ela queria de verdade. Santana era uma médica respeitada, viúva de um político conhecido, parte de uma família tradicional. E Brittany era uma professora de dança, que morava num apartamento pequeno, num bairro perigoso da cidade. Mas a expressão que se repetia no rosto da loura em todas aquelas fotos, e a que tinha visto enquanto ela dançava, deixava claro para Santana qual das duas era mais feliz.

- Eu adoro essa foto.

Novamente Santana se assustou com a voz de Brittany. A médica girou o corpo e encarou a dançarina que a observava do vão da porta. Ela já tinha se trocado e seus cabelos molhados caíam bagunçados ao redor dos ombros. Santana tentava não encará-la, com medo de ter ultrapassado algum tipo de barreira e de ter deixado a outra mulher desconfortável. Mas quando seus olhos se cruzaram por acaso, ela não encontrou repreensão no olhar de Brittany. Havia ali curiosidade, sim, mas também alguma outra emoção que Santana não era capaz de definir. Mas era boa e ela sentiu um calor se espalhar em seu peito. Antes que ela pudesse notar, seus lábios tinham se curvado em um sorriso e palavras que ela não tinha planejado estavam escapando por ele.

-Eu também. Você parece que está flutuando.

Em qualquer outra situação, Santana teria revirado os olhos para si mesma diante da cafonice daquela frase. Mas Brittany sorria para ela e aquilo fazia tudo ficar certo.

- Eu também gostei do que você estava dançando antes. Eu não entendo muito disso, mas era muito bonito.

- Obrigada. Que bom que você gostou — Brittany se aproximou de Santana enquanto falava e terminou a frase a apenas centímetros de distância dela. — E dança não foi feita para ser entendida, ela foi feita para ser sentida. Só isso.

- Eu acho que você tem razão. Você parecia tão... serena — Santana olhou novamente para a fotografia pendurada na parede. — Como nessa foto.

- É por isso que eu gosto tanto de dançar. É uma permissão que eu me dou para sentir tudo o que eu estou sentindo, com toda a intensidade possível, mesmo os piores sentimentos. E quando eu acabo, parece que só o que sobra é calma. Como se eu tivesse gasto aquelas coisas durante os movimentos e agora só sobrasse um zumbido do que era um grito.

A explicação fez Santana sorrir novamente. Colocado assim, parecia tão simples — dançar para gastar sentimentos. Ela achou que se tentasse algo do gênero, ela precisaria dançar por um mês inteiro, até que conseguisse ter a mesma expressão que ela tinha visto em Brittany.

A direção de seus pensamentos incomodou Santana e ela começou a se sentir inquieta naquele lugar. Brittany estava parada perto demais e a conversa delas começava a ter significados demais. Significados que Santana não queria entender. Ainda.

- Vamos almoçar?

Brittany percebeu a mudança na postura da latina. Ela percebeu como o sorriso de Santana tinha derretido aos poucos e como ela tinha reassumido sua postura rígida. O que quer que tivesse passado pela cabeça dela, a tinha colocado em modo de defesa novamente. Depois do pouco tempo que tinham tido de convivência, Brittany já tinha aprendido que a melhor maneira de lidar com Santana era não forçá-la a se abrir. Quando ela estivesse pronta para falar, Brittany estaria pronta para ouvir. Ela então pendurou seu sorriso mais brilhante no rosto, acenou com cabeça e se virou em direção à porta.

***

O restaurante que Brittany tinha escolhido ficava perto do estúdio e elas tinham ido a pé até lá – depois de alguns dias refém de quatro paredes, Brittany tinha necessidade de ar puro. Aquele era o lugar preferido dela na cidade e ela tinha certeza de que Santana iria gostar dali. Algo na atmosfera do ambiente, ou na maneira como a equipe tratava os clientes, dava a impressão de que você estava chegando em casa para uma refeição em família. Era o que ela tinha precisado quando chegara na cidade e ela suspeitava que era algo que Santana também precisava.

Observando a mulher do outro lado da mesa por cima do seu copo de água, Brittany conseguia notar uma certa tristeza no fundo dos olhos castanhos apesar do sorriso que ela tinha estampado no rosto. Era como se Santana tivesse camadas e camadas de cimento prendendo seu coração bem no fundo do peito, com medo de que, se nada o prendesse, ele pudesse fugir dali, daquela vida. Em alguns momentos, ela parecia deixar que suas emoções viessem à tona e quando isso acontecia, Brittany tinha certeza de que nunca tinha visto coisa mais bonita na vida.

Esses momentos eram raros e Brittany os tinha memorizado, repassando em sua cabeça cada cena, tentando montar o quebra-cabeça e entender a médica. Quando estavam sozinhas, Santana se mostrava doce, atenta, preocupada. Ela fazia com que Brittany se sentisse a única pessoa na face da terra e estar dentro dos braços de Santana conseguia fazer com que o mundo da dançarina parasse por um momento. Mas quando outras pessoas estavam por perto, ou quando ela falava sobre o seu passado, parecia que Santana se lembrava do personagem que ela tinha que interpretar e recolocava a máscara no lugar.

Ela olhava para Santana e via um vazio enorme, que tentava engolir o calor que às vezes emanava dos olhos e da voz dela quando ela não se dava conta. Olhando para Santana, Brittany se lembrou daquelas máscaras de teatro, eternamente sorrindo e chorando ao mesmo tempo. Era assim que ela via a médica, sempre com sentimentos conflitantes, sempre estudando qual a melhor máscara a ser usada em cada situação. E tudo o que Brittany mais queria era vê-la sem nenhuma.

Santana se sentia desconfortável sob o olhar de Brittany. Parecia que ela estava olhando dentro da sua alma e descobrindo todas as suas imperfeições. Tudo aquilo que ela tinha passado tanto tempo tentando esconder. Era como se Brittany conseguisse ler até as páginas que Santana tinha se esforçado tanto para apagar.

- Como foi na delegacia? — Santana achou melhor fechar o livro e conversar sobre algum tema mais seguro. — O detetive Puckerman tem alguma novidade?

-Eu ainda não sei. Ele me fez mais algumas perguntas e eu sei que ele já conversou com a Rachel, mas eu não sei de mais nada — Brittany tinha um sorriso derrotado quando respondeu. — Ele também me pediu para olhar algumas fotos e dizer se eu conseguia reconhecer a pessoa.

-E você reconheceu?

- Eu acho que sim. Uma das fotos realmente parecia com o cara que eu vi, mas eu não tenho mais certeza. E o detetive não disse se a minha resposta tinha sido certa, então que não sei.

- Mas você acha que reconheceu a pessoa?

- Sim. Na hora eu tinha bastante certeza disso. Mas depois...

- Brittany, se você reconheceu o homem e apontou ele para o detetive, então você deu a resposta certa. Com certeza.

- A Dra. Fabray disse a mesma coisa...

Brittany respondeu sem olhar o rosto de Santana e não viu a expressão de surpresa que apareceu nos olhos da latina.

- A Quinn? Como? Quando você falou com ela?

- Ontem, depois que eu saí da delegacia — Brittany sorriu para Santana antes de continuar. — Eu não queria ficar sozinha, então eu pedi para o policial parar no hospital antes. Aí a Dra. Fabray me achou e disse que você estava com um paciente, mas me convidou para tomar um café com ela.

- E porque você não me ligou? Eu teria ido encontrar com você.

- Eu não queria atrapalhar — a loura deu de ombros, tentando garantir a Santana que não era nenhum problema muito grande. — E ela parece ser legal.

- É, ela é — Santana cruzou a mesa com a mão, procurando a de Brittany. — Mas você devia ter me ligado. Você não atrapalha.

Brittany apenas assentiu com a cabeça, sem conseguir forçar sua voz a ultrapassar o nó que tinha se formado em sua garganta.

***

O restante do dia se passou com uma névoa para as duas. Durante todo o tempo elas tinham executado uma espécie de balé bem coreografado, falando sobre todo e qualquer assunto, mas evitando as conversas sérias que elas sabiam que precisavam ter. O dia estava sendo tão agradável que não parecia valer a pena estragar com conversas sérias. Elas ainda teriam muito tempo para isso.

De volta ao hotel, elas tinham iniciado uma maratona de filmes antigos na TV. Eram velhas comédias em preto e branco, e o humor inocente que elas viam na tela e o som de gargalhada que preenchia o ambiente era uma mudança bem vinda. A cada história que começava, elas podiam sentir as tensões dos últimos dias diminuírem.

Em algum momento, entre um filme e outro, elas tinham vestido seus pijamas e agora elas se escondiam do frio debaixo das cobertas na cama de Santana. Dali elas tinham a melhor visão da televisão e aquele arranjo tinha feito sentido algumas horas antes. Agora, tudo o que elas conseguiam sentir era a presença perto demais da outra mulher.

O colchão afundou embaixo do corpo de Santana e ela ouviu a madeira estalar quando Brittany removeu as cobertas para se levantar. O quarto estava gelado e Santana podia ver como a dançarina tinha se arrepiado no mesmo instante. Sem pensar no que estava fazendo, Santana perguntou:

- Aonde você vai?

- Eu estou com sono. Vou descer para a minha cama antes que eu acabe dormindo aqui.

- Você tem certeza? — Brittany lançou um olhar confuso para Santana, que continuou. — Quer dizer, está frio e a gente já está usando todos os cobertores aqui. Se você quiser, você pode dormir aqui.

- Você tem certeza?

- Claro. Não é nada demais.

Aquela não era uma boa idéia. Brittany sabia. Santana sabia. Mas naquele momento, não havia outra resposta que Brittany pudesse dar e que Santana quisesse ouvir a não ser:

- Tudo bem.

Alguns filmes depois, Brittany e Santana estavam deitadas na mesma cama, lado a lado, com as luzes apagadas. A única iluminação do ambiente vinha da tela da televisão. Brittany estava deitada de lado, virada para onde Santana estava com as costas apoiadas contra a cabeceira da cama. A loura tinha os olhos pesados e semicerrados, quase perdendo a luta contra o sono.

Ela sentiu Santana se mover ao lado dela, mas não levantou os olhos. Ela se esforçava para prestar atenção na história que assistia, até que uma sensação de inquietação se instalou no fundo de sua mente. Era como uma cosquinha no seu cérebro. Ela ergueu os olhos lentamente e quando nivelou seu rosto com o de Santana, olhos escuros a encaravam com atenção. Ela tinha a expressão séria, como se decidisse o futuro da humanidade. Mas, ao mesmo tempo, Brittany teve a impressão de ter visto uma sombra de sorriso passar pelos lábios dela.

Quando os olhos das duas mulheres se encontraram, o magnetismo foi inevitável. Elas precisavam daquilo. Elas dependiam daquilo para se manterem presas à realidade. Era como uma corda de segurança que elas agarravam com força para não se afogarem. Sem dizer nenhuma palavra, elas se encontraram no meio do caminho, suas bocas se chocando, tentando retomar o que tinham iniciado a alguns metros dali.

Logo, as duas eram um emaranhado de braços, pernas e bocas. Os beijos não tinham nada de doces. Eles eram frenéticos, exigentes, apressados. Elas queriam sentir o máximo possível antes que a realidade se impusesse novamente. Uma verdadeira batalha era travada na mente de Santana. Racionalmente, ela sabia que aquilo não era certo. Ela mal conhecia Brittany, ela tinha perdido seu marido há pouco tempo, elas eram médica e paciente. Ela não era lésbica. Santana sabia de tudo isso, mas seu corpo a traía. Quando Brittany a abraçava daquele jeito e quando ela sentia os lábios da loura contra o seu pescoço, Santana não conseguia impedir um gemido que tinha nascido no fundo da garganta.

Ela não devia querer, mas queria. Ela não devia sentir, mas sentia. Aquilo não devia ser tão bom, mas ela não podia negar que queria mais. Sentir o corpo de Brittany a imprensando contra a cama não devia fazer com que sua pele parecesse em brasa, mas fazia. E Santana se agarrava cada vez com mais força aos ombros de Brittany, fincando unhas curtas na pele clara quando sentiu uma das pernas dela escorregando entre as suas.

Brittany sorriu quando sentiu Santana estremecer embaixo dela. Alguma coisa lhe dizia que elas ainda precisavam conversar sobre o que tinha acontecido na outra manhã e por que a médica tinha fugido daquele jeito, mas o magnetismo que a impelia em direção à outra era forte demais para ser ignorado neste momento. Brittany não queria pensar, ela queria apenas sentir. Ela queria ter Santana vibrando em suas mãos e queria ver o desejo que ela sentia refletido nos olhos castanhos da mulher que correspondia seus beijos com voracidade.

A pressão da perna de Brittany contra seu centro estava rapidamente se acumulando no ventre de Santana. Ela já não tinha mais controle do seu próprio corpo e começou a projetar os quadris contra a coxa de Brittany, procurando desesperadamente por mais fricção.

Se Santana estivesse em seu juízo perfeito, ela teria se criticado por estar tão perto de um orgasmo tão rapidamente, ainda completamente vestida, com alguns poucos movimentos. Ela não era nenhuma adolescente hormonal, dando uns amassos com um namoradinho qualquer. Ela era Santana Lopez. Ela tinha experiência, ela era boa de cama, ela sabia se controlar.

Mas ela não estava no controle e Brittany aumentava a pressão que fazia entre as pernas dela, enquanto passeava pelo pescoço da latina, mordendo e beijando cada centímetro de pele morena que ela podia encontrar. Santana estava entregue e não lhe restava nada a fazer a não ser se agarrar a Brittany e tentar respirar.

- Britt...

A voz de Santana saiu estrangulada, num tom mais agudo do que o normal. Ela estava perto demais e agora Brittany parecia ter tornado o orgasmo da outra mulher a sua missão. Ela reposicionou sua coxa contra o sexo de Santana, sentindo o calor que a mulher emanava.

Brittany estocou mais uma vez contra Santana e procurou o lóbulo da orelha dela com os lábios. Mais uma estocada, combinada com uma mordida leve, e Santana gemeu mais uma vez. Outra estocada, um beijo na linha do maxilar e Santana se agarrou com mais força às costas de Brittany. Os braços da loura começavam a tremer diante do esforço, mas ela nem sentia. Todo o seu ser estava concentrado em Santana e nas respostas que ela dava a cada toque, cada movimento.

Mais uma investida. E outra. E outra. E com mais uma, particularmente forte, Brittany sentiu o corpo de Santana se arquear embaixo do seu. Todos os músculos de Santana se retesaram e ela tinha os olhos firmemente apertados, como se tivesse medo de que a realidade pudesse roubar aquele momento. Brittany ainda mantinha a pressão que fazia com a perna, tentando prolongar ao máximo o prazer de Santana.

Quando sentiu que o corpo de Santana caiu de volta na cama, inerte, Brittany aliviou a pressão, sentindo um último tremor involuntário da mulher, mas se manteve no mesmo lugar. Ela queria estar ali quando Santana abrisse os olhos. Ela tinha um sorriso preguiçoso no rosto, alguns fios de cabelo colados na testa suada e uma expressão que Brittany ainda não tinha visto. Era a primeira vez que Santana lhe parecera realmente calma, entregue, sem aquele escudo pesado que ela carregava.

Santana abriu os olhos devagar e demorou alguns segundos até conseguir colocar o mundo ao seu redor em foco. Ela não era nenhuma virgem e já tinha transado desde a morte de seu marido, mas ela nunca sentira nada como aquilo. Ela sentia como se estivesse flutuando, de repente sem peso, sem obedecer à gravidade. Mas algo a prendia àquela cama, àquele quarto e, quando ela conseguiu enxergar com clareza, ela entendeu o que era. Brittany.

Fios louros caíam em desalinho, emoldurando o rosto delicado dela. Um sorriso pairava acima de Santana e ela sentiu seu peito apertar na mesma hora. Uma mão gigantesca esmagava sua garganta e ela sentia dificuldades de respirar. Então não tinha sido uma ilusão. Ela e Brittany realmente tinham se beijado novamente. Não, tinha sido mais do que isso dessa vez. Ela tinha perdido o controle. Justamente o que ela tinha se prometido que não aconteceria nunca mais. Justamente o que não devia acontecer.

Brittany percebeu quando as feições de Santana mudaram. Ela tinha um rosto sereno quando seus olhos se abriram, mas agora diferentes emoções brilhavam pelos olhos negros com uma velocidade maior do que ela era capaz de distinguir. Parecia um trem passando por ela e ela não era capaz de determinar a forma de cada vagão. Ela tentou tocar o rosto de Santana, qualquer coisa que reafirmasse que o que tinha acontecido era certo e desejado pelas duas da mesma maneira. Brittany tinha certeza de que era correspondida, mas Santana afastou a cabeça da mão da loura como se ela tivesse queimado.

Lágrimas começavam a se formar nos olhos de Santana e sua respiração tinha se transformado em soluços. Ela nunca tinha se sentido tão pequena e tão errada em toda a sua vida. Brittany mais uma vez olhava para Santana sem saber o que fazer para aplacar as emoções fortes demais que chacoalhavam o corpo pequeno da outra. Ela sabia que não queria se esconder no banheiro novamente, mas não sabia exatamente o que devia fazer. Com um último olhar dolorido, a loura voltou ao seu lugar na cama e pousou uma das mãos no ombro de Santana. Ela ainda não estava pronta para interromper o contato por completo e tinha a impressão de que Santana precisava de algum tipo de conforto humano, alguma coisa que a mantivesse ligada à realidade fora de quaisquer lembranças dolorosas que estivessem assolando sua mente.

- Não... Não encosta em mim.

O tempo parou quando Brittany ouviu a voz de Santana. Ela parecia vir de outra pessoa, carregada de um tipo de medo que Brittany nunca tinha ouvido no tom dela. Era como unhas sendo arrastadas contra um quadro negro; arranhava, arrepiava.

A surpresa durou apenas um momento e logo Brittany retirou a mão do ombro de Santana e soube o que precisava fazer. Santana estava de costas para ela e não viu quando Brittany escorregou o corpo pela cama. Ela apenas sentiu quando o peito de Brittany se colou ao se corpo e quando os braços fortes da loura a prenderam com força dentro de um abraço. O choro de Santana se intensificou quando ela se viu dentro dos braços de Brittany e ela tentou se soltar, mas cada movimento apenas fazia com que o braço de Brittany a prendesse com mais força.

Brittany não sabia o que estava acontecendo, nem o que tinha acontecido para deixar Santana daquela maneira, mas ela sabia que não podia deixar a médica sozinha naquele momento. Não era de solidão que ela precisava. Era da certeza de que ela não estava sozinha. E Brittany a abraçaria pelo tempo que fosse preciso até que ela compreendesse isso.

Eventualmente, os esforços de Santana para se afastar de Brittany cessaram e ela se rendeu ao casulo que a loura tinha criado com seus braços. Ela estava cansada demais de nadar contra a corrente. Era mais fácil se entregar, se afogar. Mas a voz de Brittany, falando baixinho em seu ouvido, a mantinha presa à superfície.

Talvez ela conseguisse voltar a nadar.