How To Mend A Broken Heart
1 Capítulo 1
Notas iniciais
A luz atinge a aliança de Santana quando ela gira a jóia no dedo. Um ano já tinha se passado desde a humilhação, desde os escândalos, desde os flashes dos fotógrafos estourando no seu rosto cada vez que ela se aventurava na rua, desde que ela teve que mudar o número do seu telefone para não atender a mais nenhuma ligação de jornalista, desde que ela perdera o controle das coisas. Um ano tinha se passado e ela ainda usava a porcaria da aliança na mão esquerda.
Com um suspiro resignado, ela bebe mais um gole do copo meio esquecido em cima da mesa, com a esperança de que a bebida a faça esquecer o passado. Ou, pelo menos, pensar em outra coisa. O líquido desce queimando pela garganta e, por um instante, ela consegue sorrir diante da sensação já familiar. Impressionante como alguns hábitos podem parecer tão antigos e reconfortantes depois de pouco tempo.
O bar do hotel está vazio naquele início de noite e ela pensa em pedir outra dose, mas acha melhor encerrar por ali. Tem plantão no dia seguinte e a última coisa que ela precisa é de mais fofocas.
Quando alcança o saguão do hotel, Santana consegue ver a bela noite que faz do lado de fora. É uma primavera atipicamente fria para aquela região do país, mas não há sinal de chuva e Santana acha que uma caminhada por ruas relativamente vazias pode lhe fazer bem. Ajuda a pensar com mais clareza. Além disso, ela normalmente acha mais fácil dormir depois de se exaurir fisicamente.
O porteiro já a conhece bem e a cumprimenta com um sorriso franco.
- Boa noite, Dra. Lopez. A senhora quer que eu pare um taxi?
- Não precisa, Jeff. Acho que eu vou dar uma caminhada.
Jeff é uma das poucas pessoas com quem ela consegue ser minimamente atenciosa, ultimamente. Mas, também, ele é uma das poucas pessoas que parecem genuinamente felizes em vê-la. Talvez isso tenha algo a ver com a gorjeta que ele recebeu no dia que Santana chegou ao hotel. Mas ela prefere pensar que o rapaz tem um bom coração. Alguém precisa ter um.
O vento gelado a atinge e ela fecha melhor o casaco, escondendo as mãos nos bolsos e andando de cabeça baixa, tentando proteger o rosto. Ela definitivamente não estava vestida para aquela temperatura, mas continua forçando os pés a trabalharem, o próprio movimento a aquecendo um pouco. Depois de quinze minutos, o vento já não incomoda tanto e ela até consegue caminhar um pouco mais ereta, observando a cidade iluminada pela lua. Até que aquela tinha sido uma boa ideia.
Santana começa a pensar que é melhor voltar para o hotel. Ela já está caminhando por mais de quarenta minutos e as pontas dos seus dedos começam a ficar dormentes. Um taxi parece a melhor opção naquele momento e ela se distrai, olhando para os dois lados da rua à procura de um, sem parar de caminhar.
Ao passar em frente a uma esquina mal iluminada, Santana sente algo atingir seu corpo. Ela ainda tenta manter o equilíbrio, mas é em vão e ela logo se encontra sentada no chão.
- Mas que merda! Não olha por onde anda, não? – Ela grita antes mesmo de se virar para ver quem foi o culpado pelo encontrão.
- D-d-desculpa.
A voz que a responde é pequena, vacilante, amedrontada. Fala baixo como se não quisesse acordar um bebê. Santana imediatamente se vira para encarar a dona da voz. Do outro lado da calçada, uma jovem loura a observa com cautela. Um brilho de medo nos olhos e os braços protetoramente jogados ao redor das longas pernas; o queixo apoiado no joelho e o lábio inferior entre os dentes.
Todos os palavrões e acusações que Santana conhece morrem em sua garganta quando vê a jovem. Ela não consegue sustentar o olhar que a mulher morena lhe lança e passa a encarar a ponta dos pés, como se tivesse algo de muito interessante no pavimento.
Nesse momento, Santana nota que ela está machucada. Um corte feio bem próximo à raiz dos cabelos claros, alguns hematomas espalhados pelas pernas e um pulso suspeitamente inchado. Anos de treinamento entram em ação e, num milésimo de segundo, Santana está de pé e caminhando em direção à garota. Quando ela nota a intenção de Santana, ela se encolhe ainda mais contra o muro às suas costas, numa tentativa desesperada de se afastar daquela estranha que se aproxima dela.
Santana percebe a hesitação da mulher e se ajoelha a sua frente, erguendo as mãos em sinal de rendição.
- Você está machucada – ela fala com a voz mais doce que consegue encontrar. – Eu sou médica. Posso dar uma olhada?
Um clarão de dúvida parece brilhar nos olhos da garota e Santana sente como se estivesse lidando com um animal ferido e assustado. Depois do que pareceu uma eternidade, a médica finalmente vê uma cabeça loura se movendo para cima e para baixo, concedendo permissão para um rápido exame. O melhor que ela puder com aquela iluminação.
Ela se senta e estica as mãos lentamente, puxando com cuidado o punho inchado para si. Não parece quebrado, apenas uma torção feia. Mas é preciso um raio-x para ter certeza. Com uma delicadeza que normalmente ela reserva apenas para seus pacientes com menos de doze anos, Santana apóia novamente o punho ferido no joelho da jovem e se aproxima mais um pouco para analisar a ferida na testa dela.
Ao primeiro toque da médica, um gemido estrangulado escapa da garganta da garota. Santana olha para ela e percebe que a garota está tremendo. O pânico em seus olhos é evidente. A médica sente um aperto no peito. O que quer que tenha acontecido com a menina à sua frente, causou um estrago muito maior do que apenas físico.
- Posso olhar esse machucado na sua testa? – Ela não queria piorar mais ainda a situação e esperou que a jovem assentisse com a cabeça antes de continuar com o exame. – Prometo que eu vou tentar não te machucar.
A jovem fechou os olhos claros no momento em que as mãos treinadas de Santana tocaram sua pele. Ela apertava as pálpebras como se aquilo pudesse fazer com que o tempo passasse mais depressa. Santana decidiu não prolongar seu sofrimento e terminou rapidamente o exame. O corte não era muito profundo, mas ela ia precisar de pontos.
Aliviada ao constatar que os ferimentos da garota não eram tão sérios, Santana conseguiu observá-la melhor. Ela ainda mantinha os olhos azuis fechados e os cabelos claros caíam em desalinho pelos ombros. Era alta, magra, parecia um pouco mais nova do que a médica. Tirando os ferimentos e o medo no olhar, era uma mulher muito bonita. E que, definitivamente, não estava vestida adequadamente para o frio que fazia: blusa de alça, saia curta por cima de uma calça legging e um par de tênis.
Santana tirou o casaco e passou o agasalho pelos ombros da garota, que estremeceu ante o contato, mas puxou a roupa mais para si, protegendo-se do vento. Ela abriu os olhos e focalizou Santana pela primeira vez. Um sorriso fraco de agradecimento nos lábios finos.
- Qual o seu nome?
- B-Brittany – a voz sai um pouco arranhada das lágrimas, mas ela mantém os olhos presos aos de Santana.
- Ok, então, Brittany. Eu acho que é melhor levar você para um hospital, para examinar melhor esse pulso e esse corte na sua testa. Tudo bem?
Brittany move lentamente a cabeça para cima e para baixo, mas uma careta de dor toma conta do seu rosto e ela para com o movimento. Santana faz uma anotação mental daquele desconforto para falar com o médico que a atender. Mas antes precisavam sair dali.
- Você consegue ficar de pé?
- Acho que sim.
A médica se levanta e ajuda a jovem a ficar de pé. Ela ainda está um pouco vacilante, mas não parece ter nenhum ferimento que a impeça de caminhar. Santana coloca um braço ao redor da cintura da menina para ajudá-la a se estabilizar e caminha lentamente para a beira da calçada, fazendo uma prece silenciosa para que um táxi apareça logo.
Quando finalmente um taxi encosta, Santana ajuda Brittany a se acomodar no banco traseiro, antes de se sentar ao lado dela. A médica pede que o motorista se encaminhe para o Lima Memorial. Não é a instalação mais próxima, mas como os ferimentos de Brittany não são graves, ela prefere levar a jovem para a emergência em que trabalha. Ela conhece os médicos que estão de plantão esta noite e confia neles. Além disso, é uma maneira de acompanhar o caso. Ela tem certeza de que algo ali está errado.
Sem notar seus movimentos, Santana estica uma das mãos e coloca no joelho de Brittany, dando um leve apertão. Deveria ser apenas um encorajamento, nada demais, mas a loura coloca a sua por cima e elas ficam assim até o final da corrida.
Na porta do hospital, Santana paga o motorista e ajuda Brittany a sair do carro. Do lado de dentro, uma das enfermeiras logo a reconhece e vem falar com ela, os olhos colados em Brittany.
- Dra. Lopez. Não sabia que você estava de plantão hoje.
- E eu não estou, Sugar. Só vim trazer a minha amiga. Tem alguma sala vazia?
- Sim, claro. Você pode levá-la para a sala 3. Precisa de ajuda?
- Não, está tudo bem. Só chama a Fabray para mim.
- Claro, doutora.
Mal tinha terminado de ajeitar Brittany na maca quando a Dra. Quinn Fabray entrou na sala. A médica era uma das poucas amigas de Santana. Era, também, uma das poucas pessoas que não perguntava sobre o que realmente tinha acontecido com a médica um ano atrás. Elas se conheciam desde a época de faculdade e Quinn sabia que não iria receber uma resposta honesta tão cedo. Então, quando Santana reapareceu na cidade, a outra médica lhe conseguiu um trabalho no mesmo hospital em que trabalhava e as duas logo estabeleceram uma confortável parceria profissional. Conversavam sobre casos e pacientes, nada mais. Esse era o máximo de amizade que Santana conseguia lidar.
E naquele momento, tudo o que ela queria era exatamente alguém que não fizesse perguntas demais. Ela sabia que tinha alguma coisa muito estranha no pânico que ela tinha visto nos olhos de Brittany. E ela queria acompanhar o caso para saber o que tinha acontecido. Apenas zelo profissional. Só isso. É o que ela se repetia mentalmente a cada trinta segundos.
- Santana, já ficou com saudade da gente?
- Só vim checar se você ainda deixou a minha sala de emergência em pé.
- Sua sala de emergência? Não recebi o memorando da compra.
- Coloquei no quadro de avisos mais cedo. Você não deve ter reparado.
Satisfeitas as implicâncias iniciais, Quinn desviou os olhos para a jovem sentada na maca. Brittany tinha os olhos perdidos novamente, focando um ponto na parede e parecendo nem ouvir a conversa das duas médicas.
- O que aconteceu aqui?
- Eu estava voltando para o hotel, quando nós duas trombamos.
- E você causou esse estrago todo? – A pergunta foi acompanhada por uma sobrancelha levantada e um ar divertido no rosto da médica loura. – Impressionante. Até para você.
- Não, Quinn. Nós duas caímos e quando eu me virei, vi que ela estava machucada. O pulso esquerdo parece ter uma torção e acho que o corte na testa pode precisar de sutura. Estava escuro e não dava para ver direito, achei melhor vir direto para cá.
Quinn se adiantou para a cama para poder examinar a mulher, mas Brittany deu um pulo da maca, voltando a abraçar os joelhos e balançando o corpo para frente e para trás. Era como se ela estivesse tentando se ninar. Quinn lançou um olhar questionador para a outra médica, mas ela o ignorou. Concentrada em Brittany, ela caminhou em direção à maca e pousou novamente a mão no joelho da outra mulher.
Brittany pareceu relaxar um pouco diante do contato e virou o rosto para Santana. As duas se encararam por um momento e a médica pôde ler as perguntas que a jovem não conseguia verbalizar.
- Está tudo bem, Brittany. A Quinn é uma amiga minha. Ela não vai te machucar, mas você precisa deixar que ela te examine. Tudo bem?
Novamente uma resposta silenciosa e Santana fez um gesto para que a amiga continuasse com o trabalho. Antes que Quinn pudesse tocá-la, Brittany tomou a mão que Santana tinha colocado em seu joelho. A médica lhe deu um sorriso e apertou a mão que cobria a sua. Ficaram assim até que Quinn terminasse com a primeira parte do exame e pedisse que Santana a acompanhasse até o corredor.
- Eu já volto, tá bem? Qualquer coisa, é só gritar.
Santana mal podia reconhecer a ternura em sua voz. Doce não era uma palavra que as pessoas usariam para descrevê-la, mas alguma coisa naquela situação despertava seus instintos de proteção mais fortes. Talvez fosse o medo que ela tinha visto naqueles olhos azuis, talvez a maneira como a garota parecia sozinha ou talvez fosse o modo como ela parecia confiar em Santana.
- Será que dá para você me explicar o que foi aquilo lá dentro?
- Explicar o que?
- Santana, sem piada agora. A garota quase bateu com a cabeça no teto quando eu cheguei perto.
- Vai ver que eu tenho um super-poder ou algo parecido – era mais fácil fazer piada do que pensar seriamente no por que aquela garota parecia confiar tanto nela.
- Vou te mandar para a ala psiquiátrica então. Para ver se o seu super-poder funciona lá. Falando sério, agora. Quem é ela?
- Eu não sei, Quinn. Já falei. Ela praticamente me atropelou na rua e quando eu vi que ela estava machucada, trouxe para cá. Só isso.
- Ela parece bastante assustada.
- Jura? – Um olhar atravessado de Quinn deixou claro que não era mais momento para brincadeiras. – Eu percebi isso também. Quando eu comecei a falar com ela, na rua, ela parecia um bicho assustado
- Mas ela parece confiar em você.
- Ainda não entendi por que.
- Nem eu. Vai ver ela bateu a cabeça quando vocês caíram. Bom, as suas primeiras impressões estavam todas corretas. Nada de grave. Eu vou encaminhar tudo e também vou pedir que a Tina dê uma olhada nela.
- Tina, da psicologia?
- Exatamente.
- Mas que porra, Fabray. Você acha que a garota é maluca?
- Adoro esse seu vasto vocabulário. E não, eu não acho que ela seja maluca. Mas alguma coisa mais grave aconteceu e eu acho que a gente precisa entender o que foi. Só isso.
- Tanto faz. Você é a médica dela, então acho que a decisão é sua, né?
- E não é que você consegue ser uma pessoa sensata, de vem em quando?
- Não enche, Fabray. E se você já acabou por aqui, eu vou voltar para o quarto para esperar pela Tina.
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