Notas iniciais
Pessoal, muito obrigada pelos comentários de vocês. Eu ando super enrolada com o trabalho e não ando tendo tempo de responder a todo mundo, mas eu leio todas os comentários e estou muito feliz com a reação de vocês.

As palavras de Brittany ainda ecoavam na cabeça de Santana. O restante da manhã tinha sido tão agitado quanto o início, mas a cada minuto em que a médica se via sozinha, a imagem do rosto de Brittany, tão contorcido de dor, voltava às suas retinas. A garota tinha confiado nela e agora Santana não tinha a menor ideia do que fazer. Ela era uma pessoa prática; ela agia; ela resolvia. Mas agora, tudo o que ela queria fazer era abraçar o corpo esguio de Brittany como se a dor da loura pudesse passar para o corpo dela por osmose. Ela estava perdida, sem saber o que fazer. Com um suspiro pesado, pensou que Quinn com certeza saberia como agir naquele momento.

O pensamento iluminou um sorriso no rosto de Santana. Era exatamente isso. Quinn era a melhor pessoa para lidar com aquela situação. A amiga tinha uma combinação estranha de praticidade e emoção que a tornava perfeita para lidar com o redemoinho de sentimentos – os de Brittany e os de Santana. Aproveitando que estava num momento um pouco mais calmo, Santana sacou o celular do bolso do jaleco e discou para a amiga, caminhando para a entrada das ambulâncias.

Do lado de fora do hospital fazia frio e lugar estava praticamente deserto. Apenas alguns funcionários fumavam rapidamente seus cigarros, loucos para voltar logo para o calor do prédio. Santana caminhou alguns passos ao longo da parede externa, procurando um banco vazio longe de ouvidos alheios. Já bastava ela ter que trair a confiança de Brittany contando aquela história para outra pessoa, ela não precisava que nenhum bisbilhoteiro ouvisse a conversa.

O telefone tocou algumas vezes e Santana pensou que talvez a amiga ainda estivesse dormindo. Afinal, ela tinha acabado de sair de um plantão. Até que o quinto toque foi interrompido pela metade e Santana sentiu seu coração cair em queda livre.

- Oi, S. Está tudo bem? – a voz de Quinn era sonolenta, mas impregnada de preocupação.

- Você estava certa.

Santana deixou as palavras escaparem rapidamente dos lábios. Era a coisa certa e ela sabia disso. Ela também sabia que Quinn queria ajudar Brittany. O que a latina não sabia era por que o bem estar da dançarina, de repente, era tão importante para ela.

- O assalto?

- Exatamente. Ela viu tudo da porta. A garota que morreu era amiga dela e ela presenciou tudo.

Quinn podia ouvir a tristeza na voz da amiga. Ela conhecia Santana bem demais e tinha certeza de que por debaixo de todas aquelas camadas de sarcasmo e palavras ácidas, também se escondia um coração. Ele só tinha sido machucado demais no passado e agora a latina o mantinha trancafiado em uma gaveta, ou coisa parecida. Mas essa garota, Brittany, parecia ter o poder de amansar os instintos mais cáusticos de Santana. Só por isso, Quinn já gostava dela.

- Nossa, S, eu... – Quinn não sabia o que dizer naquele momento. – Como ela está?

- Fisicamente, bem. Fora isso, eu não tenho certeza. Você sabe que eu não sou muito boa nessas coisas.

- Você é melhor do que você se dá crédito, Santana.

- Tanto faz, Q. Ela parecia mais calma quando eu saí do quarto.

- Isso é bom – a médica loura já tinha esquecido o sono e agora prosseguia com a conversa com cautela. – E você? Como está?

- Como assim, como eu estou, Quinn? Que tipo de pergunta é essa?

- S, eu sei que você banca a durona, mas que no fundo você até que tem um coração. E eu já percebi que você se preocupa com essa garota. O que ela te contou foi barra pesada. Não é uma coisa fácil de digerir.

- Olha, Fabray, tudo o que eu sei nesse momento é que eu estou morrendo de sono e ainda não está nem na metade do meu plantão e eu já estou exausta – as defesas de Santana estavam todas na potência máxima e ela podia sentir o veneno pingando das palavras que dizia para a amiga. Ela tentava se lembrar de que Quinn só queria ajudar, mas era inútil. – Tudo o que eu quero é voltar para aquele maldito hotel, dormir por 24h e me esquecer dessa porra dessa noite.

- Tudo bem, Santana – a voz de Quinn era calma, controlada, como se ela estivesse conversando com um bêbado ou uma criança birrenta. – Por que você ligou para mim, então?

Santana deixou o silêncio preencher a conversa. Ela olhava para um ponto qualquer do outro lado da rua, mas não conseguia enxergar nada. Ela sabia por que tinha ligado, mas não conseguia colocar em palavras o pedido de ajuda. Droga! Por que é que ela tinha que ser fudida daquele jeito? Por que ela não conseguia ser como a maioria das pessoas e admitir que não tinha a menor ideia do que fazer?

Quinn ouviu quando a morena respirou fundo do outro lado do telefone. Aquilo seria tão mais simples se elas estivessem frente a frente. Santana podia até ter um milhão de defesas, mas Quinn sempre conseguira ler o olhar da outra médica. Com o máximo de tranqüilidade que conseguiu imprimir à sua voz, Quinn prosseguiu:

- Você já ligou para a Tina?

- Ainda não. Era a próxima da fila.

- Então, é isso o que você vai fazer: você vai ligar para a Tina e vai contar para ela exatamente o que a Brittany te contou. Tudo. Sem deixar nada de fora.

- Acho que eu posso fazer isso.

- Bom. Enquanto isso, eu vou ligar para o Finn.

- Finn? Seu ex-namorado Finn? Aquele que tem cara de panaca chapado de maconha?

- Você não precisa ser tão maldosa, S. Mas é pra ele mesmo.

- Por quê? Como é que um troglodita com idade mental de três anos pode ajudar?

Quinn abafou uma risada com os adjetivos que a amiga tinha para seu ex-namorado. Durante os meses em que ela manteve um relacionamento com Finn, o esporte preferido de Santana era inventar novos apelidos para ele. Às vezes, Quinn achava que ela tinha ficado tanto tempo com o rapaz apenas para irritar a amiga – e para ouvir as novas invenções dela.

- Ele tem um amigo que trabalha na polícia. Eu quero saber quem é que está cuidando do caso do assalto. Já que a gente vai ter que envolver a polícia, melhor saber logo com quem a gente está lidando.

- Acho que você tem razão.

- E você ainda tem alguma dúvida disso?

- E você sempre tendo que estragar o clima, né, Fabray?

As duas compartilharam uma risada e Quinn se sentiu mais aliviada. Com aquela Santana irônica e sarcástica ela sabia lidar.

- Só me faz um favor, Q?

- Fala.

- Quando você conseguir falar com esse detetive, pede para ele me ligar antes de vir até o hospital. Acho melhor ver o que a Tina vai falar antes de jogar a Brittany aos lobos.

- Claro, S. Pode deixar.

***

A conversa com Tina foi rápida, interrompida pela chegada de uma ambulância. Santana conseguiu resumir o teor de sua conversa com Brittany e a psicóloga concordou com o pedido da latina para Quinn; diante da reação que a dançarina tivera depois do assalto, não seria prudente colocá-la cara a cara com um policial de repente. Era preciso prepará-la, fazer com que ela tivesse certeza de que estava segura.

Tina até tentou argumentar com Santana de que ela poderia voltar para o hospital para falar com Brittany, mas algo dentro do peito da médica se inflamou diante daquela possibilidade. Ela tinha tomado para si a responsabilidade de lidar com Brittany e ela faria aquilo até o fim. Aproveitando o som da sirene da ambulância que chegava como desculpa para interromper a ligação logo, Santana garantiu que ela mesma conversaria com Brittany. Afinal, ela já tinha estabelecido uma relação de confiança com a paciente. Tina ainda não parecia convencida e para encerrar o assunto logo, Santana concordou que um dos colegas da psicóloga ficasse a par da situação, caso a presença de alguém do departamento fosse necessário. Nenhuma das duas queria correr nenhum risco – mas por motivos totalmente diferentes.

Depois de atender mais um paciente, Santana refez o caminho que começava a parecer familiar demais. À medida que ela se aproximava da porta do quarto de Brittany, a médica sentiu seu coração acelerar e sua respiração ficar mais pesada. Suas mãos estavam geladas, apesar das mangas compridas do jaleco. Ela balançou a cabeça e sorriu de leve, pensando no que Quinn diria se pudesse vê-la naquele momento.

A televisão do quarto de Brittany estava ligada, mas não fazia nenhum barulho. O único som que perturbava a perfeita imobilidade daquele ambiente era a respiração leve e compassada da dançarina. Fechando a porta atrás de si, Santana sentiu seu peito expandir um pouco. Estar na presença de Brittany era como desamarrar nós apertados em seu peito. A médica tinha a sensação de que seus pulmões ganhavam mais espaço para trabalhar a cada vez que entrava naquele quarto ou a cada vez que olhava dentro daqueles olhos azuis.

Com um sorriso ainda maior no rosto, Santana deu a volta na cama, que ocupava o centro do quarto, e se acomodou na cadeira. O assento ainda estava na mesma posição em que ela havia deixado mais cedo e era o local perfeito para admirar as feições de Brittany. Santana tentava gravar a maneira como os lábios se curvavam levemente para cima, a curva delicada do nariz, a posição das sardas pelo rosto.

Brittany abriu os olhos preguiçosamente, sorrindo ao encontrar Santana tão perto dela.

- Você voltou.

- Claro que eu voltei. Eu prometi, não prometi?

A dançarina fechou os olhos e abriu um sorriso enorme. Santana sentia como se alguma coisa dentro dela estivesse derretendo lentamente. E era uma sensação tão boa que ela não queria que acabasse, mas a lembrança da conversa que elas precisavam ter nublou os olhos negros da médica.

- Você parece preocupada. O que houve?

- Não é nada. Deixa para lá – Santana se esforçava ao máximo para que sua voz não traísse seus sentimentos.

- Você já ouviu os meus problemas. Acho que é mais do que justo que eu ouça os seus. Prometo que eu não conto para ninguém.

O sorriso que Santana via e a doçura que ela ouvia na voz de Brittany a faziam acreditar que ela podia contar qualquer coisa à outra mulher. Mas esse não era um caminho fácil para uma pessoa tão acostumada a proteger o que se passava em sua cabeça.

- É o meu último caso. Um menino de sete anos. Ele caiu de uma árvore no quintal de casa – ela estava enrolando e sabia disso.

- Coitado! Ele está bem?

Santana sorriu diante da preocupação genuína de Brittany. Como médica, era seu trabalho cuidar de outras pessoas, mas há muito tempo ela não encontrava uma pessoa que se importasse tão verdadeiramente com alguém que ela nunca tinha visto. Era interessante.

- Um braço quebrado e alguns hematomas. Acho que o susto foi maior do que o estrago – Santana ficou em silêncio por um instante, pensando em suas próximas palavras. – É que os casos com crianças são os piores

- Eu entendo. Eu tenho uma irmã mais nova, a Hannah, e cada vez que ela se machuca parece que dói em mim umas dez vezes mais. Você tem irmãos?

- Não, mas durante a residência, eu fugi da pediatria como o diabo foge da cruz. Digamos que eu fiquei devendo alguns favores.

- Eu me lembro de uma vez, acho que eu devia ter uns 16 anos e a Hannah 6. Eu estava tomando conta dela e, eu não sei como, ela enfiou a testa na parede. Eu peguei ela no colo, coloquei dentro do carro e voei para o hospital. Era tanto sangue que eu achei que ela fosse morrer, ali, no carro. Quando eu cheguei no hospital, acho que as enfermeiras ficaram mais preocupadas comigo do que com ela. Parecia que eu ia ter um ataque do coração. No final das contas, ela levou três pontos na testa e voltou para casa, feliz da vida, com um pirulito enorme nas mãos.

As duas compartilharam uma risada despreocupada. Santana se surpreendia com a facilidade com que ela conseguia conversar com Brittany. O sorriso da garota era contagiante e a médica se pegou com um sorriso idêntico estampado no rosto. Santana sentia como se Brittany fosse feita de algum tipo de material brilhante e o sorriso dela fosse capaz de iluminar cada canto da alma aflita da médica. Mas esse pensamento tinha competição na cabeça de Santana e, novamente, o olhar da latina ficou nublado.

- Você ainda está preocupada com alguma coisa.

Brittany falou como se aquela fosse a verdade mais simples e evidente do planeta. Algo do tipo: “O céu é azul” e Santana se sentiu nua na frente da loura. Ela não estava acostumada a ser lida com aquela facilidade e se mexeu nervosamente na cadeira.

- Você tem razão. Eu ainda tenho uma coisa na cabeça que eu preciso falar com você.

A loura simplesmente sorriu com doçura e bateu de leve no espaço a sua frente no colchão. Santana aceitou o convite e se empoleirou na cama, aproveitando o calor que a dançarina emanava como suporte.

- É sobre o que você me contou mais cedo, Brittany – a dançarina assentiu e Santana continuou. Não havia necessidade de repassar aquilo novamente. – Eu acho que você deve falar com a polícia.

Santana tentava ser o mais delicada possível. Ela não queria assustar Brittany nem impor nada a essa altura. A loura desviou o olhar da latina e encarou a parede, perdida em pensamentos.

- Eu também andei pensando nisso. Acho que você tem razão. É o mínimo que eu posso fazer pela Sarah. Eu vou procurar a polícia assim que eu sair daqui.

- Bom, eu tenho uma outra alternativa.

Brittany olhou com curiosidade para Santana, que lhe ofereceu um largo sorriso antes de continuar a falar.

- A Quinn, aquela minha amiga que te examinou ontem, ela tem um amigo que trabalha com alguns policiais que nos colocou em contato com o detetive responsável pelo caso da Sarah. Eu pedi que ele me ligasse hoje. Então, se você quiser, você pode conversar com ele aqui no hospital mesmo. Acho que pode ser um ambiente melhor do que a delegacia, sei lá.

De frente para o par de olhos azuis que a olhavam como se não existisse mais nada no mundo, Santana começava a duvidar da certeza que tinha apenas algumas horas antes. Ela não sabia como Brittany iria reagir àquela oferta. A única intenção de Santana tinha sido poupar a garota de fazer uma viagem até a delegacia.

Ela já começava a preparar algum tipo de contraproposta ou de explicação. Qualquer coisa que para que Brittany não achasse que ela era algum tipo de maluca controladora, quando um sorriso voltou aos lábios rosados da dançarina.

- Acho que você tem razão. Acho que eu vou me sentir mais tranquila aqui.

Santana sentiu algo inchar em seu peito e um calor tomar conta do seu corpo. Uma espécie de formigamento subia pelos seus membros e sua cabeça estava leve. Ela se sentia relaxada, tranquila, calma.

- Que bom, Brittany. Assim que o detetive me ligar, eu venho aqui falar com você.

- Ok.

- Agora eu preciso voltar para aquela bagunça ali de fora.

Brittany riu e Santana parecia grudada na mesma posição; olhos negros perdidos em olhos azuis. Depois de um longo minuto, Santana finalmente reuniu forças para se levantar da cama e caminhar em direção à porta.

- Santana?

- Sim, Brittany.

- Obrigada. Por tudo. De verdade.

- De nada.