Notas iniciais
Eu sei, eu sei que eu não apareço aqui há um tempão, mas esse capítulo me deu trabalho. Fazer o quê?
Aproveitando, queria agradecer todos os comentários e mensagens sobre o último capítulo. Eu estava bem ansiosa para publicar logo esse pedaço da história.
E, agora, vamos com o começo do aftermath...

Uma palavra.

Uma palavra pode mudar tudo.

Sim. Não. Sempre. Nunca. Culpado. Inocente. Bulímico. Deprimido. Aprovado. Estrangeiro. Vadia. Depravado. Casa. Reprovado. Impotente. Ex. Derrotado. Vencedor. Campeão. Tudo. Nada. Esposa. Namorada. Gay.

Uma palavra.

Uma palavra pode mudar tudo.

A respiração de Santana era rasa, como se até o próprio ar quisesse fugir dela e do que fervia em seu interior. Ela podia sentir o coração batendo acelerado dentro do peito, a pele que chamuscava em brasa, a língua seca que grudava no céu da boca. Ela sabia que olhava na direção do pai — ela não se movera nenhum milímetro -, mas seu cérebro parecia ter perdido a capacidade de processar imagens. Tudo o que ela via eram figuras desfocadas, cores borradas como que saídas da aquarela de um artista louco e, no fundo, suas próprias palavras ecoando em seus ouvidos numa ciranda repetida.

Nada se movia na sala, mas o cérebro de Santana corria, coelho branco incansável; sempre projetando, sempre trabalhando, sempre girando. Ela sabia muito bem o que tinha dito. O discurso não fora planejado, mas, de alguma maneira, ela se lembrava exatamente de tudo o que tinha falado. E ela sabia que cada palavra tinha sido verdadeira. As mais verdadeiras. Ela tinha, em menos de um minuto, exposto tudo o que havia de mais precioso e de mais guardado dentro dela, até seus medos mais profundos — medos que ela não dividira nem com Brittany. Tudo o que ela era estava escancarado em cima da mesa como um jogo de tarô. Ela só não sabia o que seu pai lia em suas cartas.

– Dr. Lopez, o senhor pode nos dar licença um momento?

A voz controlada de Sue Sylvester cortou o ar gelado entre pai e filha. Santana viu o borrão a sua frente se erguer e sair do seu campo de visão sem dizer palavra. Ela acompanhava, sólida, o som de seus passos e apenas quando o trinco estalou é que ela se permitiu inflar os pulmões por completo. Ainda em silêncio, Santana se virou, imaginando encontrar a própria definição do ódio no rosto da outra médica. Em seu lugar, os olhos azuis esmaecidos que a encaravam eram quase serenos.

– Sente-se, Santana.

Os membros dela estavam endurecidos, como quando se acorda após um longo sono sem sonhos. Talvez fosse exatamente isso.

– Sabe, quando a Dra. Fabray me entregou o seu currículo, eu tive medo de contratar você. Eu achei que você era boa demais pra esse lugar e que, logo, ia se cansar dessa cidade. Mas ela me explicou porque você queria a vaga e eu resolvi te contratar. E eu nunca me arrependi disso.

Santana não piscava. Ela não se movia. Ela mal respirava. Ela encarava Sue Sylvester sem entender o sentido daquele discurso, daquele passeio ao seu passado. E ela queria gritar com a outra médica, perguntar o que ela queria dizer, entender o que aquilo tinha a ver com o problema que ela tinha ido solucionar, mas Santana não conseguia. Era como se cérebro e língua não funcionassem mais na mesma freqüência.

– Você é uma boa médica, Santana. Rápida, inteligente, dedicada aos seus pacientes. Um tanto esquentada, de acordo com o restante da equipe. Mas, conhecendo eles, eu não te condeno. — Santana tentou um sorriso quando Sue se focou nela. — Você é uma boa médica, mas eu não posso autorizar o que você está me pedindo.

– Mas --

– Isso não significa que eu não concorde com você. Eu concordo, mas eu não posso fazer nada.

– Eu nunca achei que você fosse tão submissa, Dra. Sylvester.

Santana já não se importava mais com as conseqüências. Seu filtro parecia ter se quebrado durante a discussão com o pai.

– Cuidado com as suas palavras, Lopez. Até a influência do seu pai tem limites.

– Eu não ligo pra influência dele. Eu nunca liguei.

– Eu sei. Se ligasse, você o teria usado pra garantir sua vaga aqui. E eu sei também que você só está fazendo o seu papel, protegendo os nossos pacientes. Mas eu preciso fazer o meu, que é proteger esse hospital e garantir que as nossas regras sejam cumpridas.

– Mesmo quando você não concorda com elas?

– Principalmente.

As duas mulheres trocaram um longo olhar, até que Sue respirou fundo e se recostou em sua cadeira. Ela apertava o alto do nariz com os dedos e, quando ela reabriu os olhos, Santana achou que ela parecia cansada.

– Olha, Santana, a realidade é a seguinte: enquanto ela estiver inconsciente, apenas a família tem autorização pra entrar lá. A não ser que exista algum documento afirmando que a namorada está autorizada ou coisa parecida. Essas são as nossas normas e apenas o Conselho pode mudá-las.

– E depois que ela acordar?

– Depois que ela acordar, as coisas mudam um pouco de figura. Ela pode autorizar a entrada de quem ela quiser. E, se os pais dela aparecerem e criarem algum tipo de problema, ela pode assinar um documento indicando quem são as pessoas autorizadas a visitá-la.

– Eles não devem nem aparecer, mas é sempre bom saber.

– Mas, pra isso, a psiquiatria precisa entender que ela está em condições de decidir. E, de qualquer maneira, a gente precisaria do jurídico e, isso, só na segunda.

– O quê? Os engravatados não têm plantão? — Santana perguntou fingindo susto.

– Plantão, não. Sobreaviso. Mas não vai ajudar em nada chamar um deles, aqui, no fim de semana. É melhor lidar com eles quando eles estão de bom humor.

Um silêncio cai entre as duas mulheres. As respostas que Santana veio buscar já foram dadas, mesmo que elas não satisfaçam a nenhuma das duas.

– Mais alguma coisa, doutora? — Sue pergunta com os espinhos de volta na voz.

– Não, Dra. Sylvester. Era só isso. Eu não vou mais tomar o seu tempo.

Santana se ergueu sobre joelhos duros e cruzou a sala tentando encontrar palavras para explicar para Julia que a sua espera ainda não tinha terminado.

– Só mais uma coisa, doutora — Sue falou quando Santana alcançou a porta e ela girou sobre os calcanhares. — Eu não posso autorizar que essa moça visite a namorada, mas eu também não posso impedir que médicos circulem pela UTI.

***

Há algo de impessoal sobre a UTI de um hospital. Médicos e enfermeiros em uniformes quase iguais. Pacientes afundados em leitos idênticos, sob cobertores padronizados, atrelados a fios e máquinas que apitam noite adentro. Há algo de impessoal em ser uma ficha ao pé da cama, em ser um uniforme.

Mas, naquele momento, essa impessoalidade não arranha a pele de Santana — não como costumava arranhar durante a residência. Porque, naquele momento, era essa impessoalidade que garantia que ela conseguiria contrabandear Julia para a beira da cama de Dani.

Após sua conversa com Sue, e com a última frase da diretora ecoando em sua cabeça, Santana voltou para a recepção e arrancou a garota da cadeira que ela ocupava desde a madrugada. Pouco foi dito no caminho até o banheiro da sala dos médicos, para onde Santana empurrou Julia com um pacote de uniforme descartável.

Santana também se trocou, guardou as roupas das duas em seu armário e instruiu que Julia escondesse os cabelos dentro da touca. Duas médicas uniformizadas dentro de um hospital? Ninguém nem olhava duas vezes para elas.

O caminho foi preenchido por um silêncio nervoso. Santana sabia que precisava falar com a menina, alertá-la sobre o que ela iria ver e instruí-la sobre como agir. Mas a voz da médica parecia ter sido guardada junto com suas roupas. Nenhum som escapava da garganta bloqueada dela.

Os corredores do terceiro andar estavam cheios de familiares andando com etiquetas adesivas em suas roupas. O horário de visitas estava pela metade e Santana achou que, talvez, aquilo pudesse ajudá-las.

– Julia, antes de a gente entrar, eu preciso falar com você.

A garota encarava Santana com olhos arregalados. A gravidade de tudo o que havia acontecido nas últimas horas se abatendo sobre ela de uma vez.

– A Dani ainda está bem machucada, mas ela está bem. Então, não se assusta com o inchaço ou com os roxos e nem com os fios e os aparelhos. Só lembra que deu tudo certo na cirurgia e que ela está bem. Só isso.

Julia concordou com a cabeça e engoliu pesadamente. Esse era um daqueles conselhos como não olhar para baixo durante uma escalada: simples para quem dá, quase impossível de cumprir para quem recebe.

– E, eu sei que você vai querer abraçar e tocar a Dani, mas você não pode. Pelo menos por agora. Enquanto ela não acordar e autorizar a sua visita, ninguém pode saber que você esteve aqui. Ninguém pode duvidar de que você é uma médica. Entendido?

– Entendido.

– Ótimo. E se alguém perguntar alguma coisa, eu respondo.

Mais um aceno silencioso e as duas passaram pela porta. Do lado de dentro, a sinfonia das máquinas era quase opressiva. Eram sons que garantiam que ainda havia vida, mas que pareciam demais com agouros de morte.

O leito sem visitas é fácil de localizar e, com uma das mãos em suas costas, Santana direciona Julia para lá. Depois de apenas alguns passos, a médica olha de relance para a garota a sua direita e nota como seus olhos estão arregalados e seus dedos se contorcem na frente do seu corpo. Alguma coisa dentro de Santana desmorona quando ela sente o corpo de Julia tremer contra a sua mão.

O ar é puxado com violência para dentro dos pulmões de Julia quando elas alcançam a última cama e Santana entende por que. Os aparelhos são assustadores; os fios e tubos, confusos; mas, o rosto da menina sobre a maca... Mesmo depois de anos de experiência, Santana não consegue evitar a forma como sua garganta parece se fechar em torno da saliva.

Durante a madrugada, tudo parecia estar acontecendo mais rápido do que o normal e o rosto de Dani deslizando na direção da sala de cirurgias não passara de um flash, uma imagem em movimento, um único frame de um filme. Mas, agora, Santana se sentia como se encarasse um quadro no silêncio sagrado de um museu e ela pudesse observar cada detalhe belo e grotesco da imagem. A boca bem desenhada e rasgada por um corte no lábio inferior; o roxo que tomava conta do lado esquerdo do rosto; o inchaço que continuaria fechando seu olho direito mesmo depois que ela acordasse; a testa ainda livre de marcas ou rugas; o curativo que esconde parte dos cabelos castanhos.

É difícil não se colocar naquela situação. É difícil não se sentir aliviada por não estar naquela situação. É difícil não sentir mais do que ela se julga capaz. Então, quando Santana ouve um 'minha linda' abafado e quebrado a seu lado, ela se adianta até o pé da cama e pega a ficha da menina.

– Eu...eu posso falar com ela?

Santana ergue o rosto quando ouve a voz de Julia e encontra olhos rasos d'água. Elas se encontram em lados opostos da maca e Santana consegue enxergar uma espécie de desespero plácido boiando nas íris escuras da menina. Algo muito parecido com medo.

– Pode, pode sim. Ela só tá dormindo por causa da anestesia, mas é sempre bom.

Um sorriso pequeno surgiu no rosto de Santana e ela voltou a sua atenção para a ficha em suas mãos. Ela já tinha lido cada palavra ali mais de três vezes, mas era o máximo de privacidade que ela podia dar às duas namoradas.

– Ei, Dani. Meu amor. Eu tô aqui, viu? Eu não vou poder ficar com você até você acordar, mas eu vou continuar aqui, no hospital. Eu só preciso que você acorde. Só preciso que você volte pra mim, tá? Só isso.

Em algum momento, o cérebro de Santana se desligou do que acontecia ao seu lado. Ela encarava o vai e vem das outras pessoas na UTI, tentando entender o que tinha acontecido momentos antes e o que aconteceria quando encontrasse o pai de novo. Ele, certamente, tinha deixado bem clara a sua opinião sobre pessoas como ela e Santana se perguntava o que ele diria quando soubesse que as palavras dela não tinha sido completamente hipotéticas.

Mas, no mesmo instante em que a pergunta surgiu em sua cabeça, Santana soube a resposta. Ela não se importava com o que ele diria ou pensaria ou faria. Só lhe importava que ela amava e era correspondida e, depois de mais tempo do que ela era capaz de contar, podia afirmar que era feliz. Mesmo que ela ainda não soubesse como ser de Brittany em público.

– Santana?

A voz de Julia, mais uma vez, arrancou Santana de seus pensamentos.

– Oi. Desculpa. Você falou comigo?

– Eu perguntei se você tem uma caneta.

– Caneta? Pra quê você quer uma caneta?

– Eu quero deixar alguma coisa pra Dani saber que eu estive aqui.

Santana murmurou qualquer coisa e sorriu quando entregou a caneta que estava presa à prancheta com a ficha de Dani. Ela esperava que Julia procurasse por um pedaço de papel, mas, quando ela pegou uma das mãos da namorada entre as suas, o sorriso de Santana aumentou.

Julia toca a pele lisa com a ponta da caneta e rabisca alguma coisa na parte de dentro do pulso dela. Santana quer esticar o pescoço e decifrar os traços, mas ela sente que não deve se intrometer num momento que parece particular demais.

Logo, Julia devolve a caneta para Santana e vira um pouco o braço para que a médica possa ver o desenho. No pulso de Dani, uma flor azul se destaca contra a pele clara, sete pétalas tortas e um miolo oval.

Talvez o desenho mais bonito que Santana já viu.

– Eu desenhei uma flor assim num guardanapo, quando a gente se conheceu. Ela tem ele guardado até hoje...

***

Uma das lições mais duras que qualquer médico precisa aprender é a identificar quando chega o momento em que não há mais nada que possa ser feito por ele. Tempo e paciência fazem mais parte da equação do que é divertido admitir. E, agora que Santana já tinha pedido a uma das enfermeiras da UTI para avisar Julia quando Dani acordasse e a garota estava de volta à recepção, não havia mais nada que ela pudesse fazer naquele hospital. Agora, só lhe restava voltar para casa.

Casa.

Um sorriso involuntário surgiu no rosto de Santana quando ela pensou na palavra. Ela sorria porque, naquele momento, ela não pensava no seu apartamento, frio e estéril. Com as chaves do carro tilintando em sua mão e o frio da cidade atravessando o seu corpo, ela pensava no caos do apartamento de Brittany. Ela pensava na pilha permanente de roupas no canto do quarto, na confusão de vidros e frascos em cima da pia do banheiro, na caneca que morava no lado direito do armário e que apenas ela usava, na mesa de jantar que ela nunca vira ser usada. Casa, e ela pensava em Brittany.

Santana ainda não tinha se acostumado com a falta de trânsito em Lima, há muito habituada a engarrafamentos e longas filas de lanternas traseiras acesas. Mas, hoje, quando ela estacionou o carro na vaga de sempre, alívio tomou conta do seu corpo. Ela tinha planejado passar o fim de semana inteiro sendo apenas a namorada de Brittany e ela sentia que, agora, podia finalmente começar.

– Britt? — Santana gritou quando trancou a porta atrás de si.

– Ela tá tomando banho, Santana. — A voz de Hannah flutuou da cozinha e Santana seguiu o som. — Como foi no hospital? Deu tudo certo?

Por um momento, Santana considerou contar a história inteira para Hannah. Tudo o que tinha acontecido e todas as palavras ditas pesavam como chumbo em seu peito, mas Santana não queria que aqueles sentimentos invadissem o apartamento por enquanto. Ela decidira deixar a médica do lado de fora da porta, então ela se contentou com um simples:

– Sim. Tanto quanto possível. Agora, só resta esperar.

– Que bom. Escuta, a Britt trouxe almoço pra você. Se você estiver com fome.

– Ela é incrível. — Santana exclamou sem pensar e Hannah sorriu. — Eu tô morrendo de fome. Mas, acho que, antes, eu preciso trocar de roupa. Eu tô cheirando a hospital.

– Vai lá que eu coloco isso aqui pra esquentar.

Antes que Santana percebesse, Hannah já estava se movendo pela cozinha, abrindo a sacola do restaurante e procurando por um prato no armário.

– Você não precisa fazer isso, Hannah.

– Não é problema nenhum. Além do mais, eu sou craque com o microondas.

Santana apenas sorriu e quebrou um pedaço de um breadstick antes de caminhar na direção do quarto. Do lado de dentro, Brittany tinha acabado de sair do banho. Ela ainda tinha os cabelos úmidos e estava parada na soleira do banheiro, apenas de calcinha e sutiã. Um suspiro de alívio escapou da garganta de Santana quando ela viu a namorada e cruzou o quarto em passadas largas. Assim que se encontraram, Santana jogou os braços ao redor do pescoço de Brittany e sentiu quando foi enlaçada pela cintura. Seus lábios se tocaram no meio do caminho e Santana se deixou transbordar inteira naquele beijo. Não havia mais o desespero daquela manhã, quando ela precisara do corpo de Brittany para reaprender a respirar; quando ela precisara ter certeza de que ela estava ali. Agora, Santana se agarrava a Brittany porque o que ela sentia era muito, era mais do que ela podia conter em seu corpo.

Eventualmente, elas precisaram descolar suas bocas, mas mantiveram suas testas grudadas. Santana tinha o rosto de Brittany nas mãos, memorizando cada nova sarda.

– Tá tudo bem?

A pergunta simples de Brittany cortou o silêncio entre elas e Santana pôde ouvir todos os questionamentos encerrados nela. Tá tudo bem com o seu paciente? Tá tudo bem depois dessa manhã? Tá tudo bem em ter a minha irmã aqui? Tá tudo bem entre a gente? Tá tudo bem com você?

Santana sorriu lentamente e beijou Brittany mais uma vez, antes de se afastar e responder:

– Tá, tá tudo bem, sim.

– Bom. Você já comeu? Eu trouxe almoço pra você.

– Eu sei. A Hannah disse que ia esquentar pra mim. Eu só vim trocar de roupa.

– Cheiro de hospital? — Santana franziu o nariz e Brittany sorriu. — Ela gostou de você, sabia?

– Como é que você sabe? Ela falou alguma coisa?

– Não, mas eu conheço a minha irmã. E eu sei quando ela não gosta de alguém. A Hannah não é exatamente sutil.

– Mesmo eu tendo praticamente desmaiado durante o café da manhã e quase fugido do almoço?

– Mesmo assim.

– Que bom. Porque eu também gostei dela e eu sou completamente apaixonada pela irmã dela.

– Eu também te amo. E eu realmente espero que não aconteça nenhuma surpresa durante o jantar.

– Não vai. Eu sou toda sua pelo resto do fim de semana.

– Agora, esse é o tipo de coisa que eu gosto de ouvir.

***

A noite chegou mais cedo do que Santana imaginava. Num momento ela estava abraçando Brittany depois de chegar do hospital e, no outro, elas, Hannah e Wes estavam escolhendo sabores de pizza e a qual filme assistir. Não que houvesse muita alternativa na seleção de animações da loura — os poucos clássicos em preto e branco tinham sido esquecidos ali por Santana e não agradaram a nenhum dos dois adolescentes.

– Ugh, B. Não dá pra acreditar — Hannah resmungou depois de examinar todos os títulos. — Eu achei que, depois de viajar meio mundo e virar uma adulta independente, a sua coleção de filmes fosse melhorar. Mas parece que é o contrário.

– Han, você sabe que eu só compro filmes que eu consigo assistir mais de uma vez. E isso só acontece com desenhos animados.

– Tudo bem, mas, 'Bambi'?

– Agora eu vou ter que defender a Britt — Santana interrompeu quando chegou da cozinha com uma pilha de pratos. — Esse é um clássico.

– Tanto faz, Santana. A sua opinião não vale muito, mesmo.

– O quê? Como assim? Eu achei que você tivesse falado que ela gostou de mim, Britt?

– E eu gostei, mas você tá apaixonada demais pela minha irmã pra discordar dela.

Santana bufou e abriu a boca para responder, mas os braços de Brittany ao redor da sua cintura, a abraçando por trás, foram mais rápidos. A pele morena se arrepiou ao sentir a respiração quente de Brittany tão perto do seu ouvido.

– Ela tem razão e você sabe. Não adianta tentar negar.

Brittany beijou a pele sensível atrás da orelha de Santana e toda a irritação escorreu do corpo dela. A médica podia sentir o sorriso da namorada contra o seu pescoço e sabia que ela estava certa. Mas ela não seria Santana Lopez se não tentasse contestar. Um pouco, pelo menos.

– Não é bem... — O interfone tocou e interrompeu a frase de Santana. — Deve ser a pizza. Eu vou lá buscar. Wes, me ajuda com as pizzas.

A dupla se afastou na direção da porta e Santana ainda pôde ouvir as duas irmãs rindo atrás dela, mas já não havia nada nela que quisesse voltar e negar a veracidade do que Hannah e Brittany tinham dito. Elas estavam certas e Santana gostava da idéia de que todos ali soubessem disso. Era estranhamente libertador. Com esse pensamento, ela permitiu que o sorriso que ela estava combatendo se esticasse em seu rosto.

– Pode guardar isso, Wes. — Santana interrompeu o rapaz quando ele começava a buscar a carteira no bolso de trás da calça. — É por minha conta.

– Mas --

– Sem mas. Fui eu que sugeri a pizza, eu pago. Além do mais, eu ainda preciso me redimir pelo almoço.

– Você não tem nada do que se redimir, Santana. Todo mundo entendeu. É o seu trabalho.

– Eu sei, mas é que... Essa é a única parte que eu não gosto, sabe? Quando eu tento planejar alguma coisa e ele me atrapalha.

– Eu entendo.

Santana e Wes esperavam pelo elevador, três caixas de pizza empilhadas nos braços do rapaz. Ela olhava para o lado e tentava entender o que havia naquele garoto que a fazia admitir certas coisas tão difíceis. Ele era o oposto de Hannah. Enquanto a menina parecia funcionar numa rotação muito acima do resto dos meros mortais, Wes era plácido. Ele parecia mais velho do que seus dezessete anos e havia nele uma qualidade estável que acalmava Santana, quase como se ele pudesse compreender qualquer sentimento torto que ela pudesse ter.

– Quer dizer, eu aprendi a lidar bem com os plantões. Eles já fazem parte da minha rotina. Eu não gosto dos horários, mas funciona exatamente porque eu sei quando eu vou ter tempo pra mim. Então, quando alguma coisa acontece e atrapalha esse planejamento, isso realmente me incomoda.

– Se te incomoda tanto, talvez você devesse pensar em mudar.

– Não sei. Isso não costuma ser muito freqüente. Além do mais, eu já trabalho numa sala de emergências há tanto tempo, que eu nem sei se eu ainda sei fazer outra coisa.

– Não é tarde demais pra descobrir, Santana. Talvez você só precise do incentivo certo.

– Tem certeza de que você só tem dezessete anos?

Wes ainda ria alto quando eles entraram de volta no apartamento e caminharam até a sala. As luzes do cômodo tinham sido desligadas e parecia que todos os travesseiros e almofadas da casa tinham sido reunidos ali — metade no sofá e metade na pilha de cobertores que cobria uma parte do chão.

– E então, conseguiram chegar a uma decisão sobre o filme?

– E eu tinha alguma chance contra a Britt, Santana? É claro que a gente vai ver o que a sua namorada quer.

Santana se virou e encontrou Brittany sentada numa das pontas do sofá com um sorriso enorme no rosto. Ela só não sabia se era por que eles iriam assistir ao que ela queria ou pela aceitação explicita de Hannah. Santana não tinha a menor intenção de questionar. Ela apenas curvou o corpo e plantou um beijo rápido no rosto de Brittany.

– Eu já volto.

Minutos depois, ela voltou com uma garrafa de vinho numa das mãos e duas taças na outra.

– Britt, me acompanha no vinho? — Brittany assentiu com um sorriso. — E vocês? Querem vinho também? Ou, então, acho que tem suco na geladeira.

– Vinho — Hannah respondeu rapidamente, ganhando uma risada de Santana e Wes e um olhar atravessado de Brittany.

– Hun, San? Você tá lembrando que eles não têm idade pra beber, né?

– Não tem problema, baby. — O apelido carinhoso escapou e Santana olhou de relance para o outro casal presente, que parecia não ter percebido. Ou não se importaram. — Eles estão dentro de casa, com a gente. Uma taça não vai fazer mal.

– É, B. Tá tudo bem. E, qualquer coisa, a gente tem uma médica de plantão, aqui.

– Tá bom. Acho que uma taça não vai fazer tão mal assim. Só não deixa a mamãe saber disso, senão ela nunca mais deixa você voltar sozinha.

– Pode deixar, irmãzinha.

– Só mais uma coisa. Se você ficar bêbada, é melhor o seu namorado cuidar de você. Eu posso afirmar com certeza que existem poucas coisas que a San odeie mais do que bêbados no pronto-socorro.

Hannah se virou com uma expressão levemente assustada para Santana, que tinha um sorriso torto nos lábios.

– Ela tem razão. Como sempre.

Santana ameaçou se virar na direção da cozinha, mas Wes foi mais rápido do que ela.

– Pode deixar, Santana, que eu pego os copos. — Ele olhou uma vez na direção da namorada e acrescentou: — E água, que eu não pretendo passar a noite acordado cuidando de gente bêbada.

– Ei! Eu ouvi isso, hein?! — Hannah cruzou os braços e murmurou para ninguém. — Eu nunca nem fiquei bêbada. Eu não sei de onde vocês tiraram essa idéia.

Brittany ainda ria quando Santana caiu pesadamente no sofá. Aquela era uma posição comum para elas: uma com as costas apoiadas no braço do móvel e as pernas jogadas por cima do colo da outra enquanto elas comiam. Era simples, era normal e Santana enrijeceu o corpo apenas por um segundo quando sentiu as longas pernas de Brittany sobre as suas. No instante seguinte, ela se forçou a se lembrar de que estava tudo bem. Hannah e Wes sabiam sobre elas e eles não se importavam. Ou melhor, eles gostavam delas juntas. Eles gostavam do casal que elas formavam.

Não houve um momento de silêncio enquanto os quatro dividiam a pizza e o vinho. A conversa era leve e Santana descobriu que, quando Brittany tinha sete anos, ela tentou libertar os elefantes do circo que passou pela cidade dela. Hannah contava a história às gargalhadas e a médica se virou no sofá para encontrar uma Brittany vermelha.

– Eu tinha assistido 'Dumbo' naquela semana — ela murmurou entre dentes e Santana apertou sua canela em solidariedade.

– Ah, B! Não fica assim, vai? Eu nem contei pra Santana sobre a sua fase naturista...

Hannah deu de ombros e bebeu o último gole do seu vinho. Santana arregalou os olhos e se virou para o lado. Brittany tinha o rosto completamente rubro e um olhar duro mirado à sua irmã. Wes permanecia inabalado.

– Ugh! Às vezes, você é pior do que a mamãe, Hannah, sabia disso? E eu nem sei por que você tá contando essas histórias. Não é como se você fosse nascida na época.

– Tá tudo bem, baby. Por que a gente não coloca logo esse filme, hein?

Santana tinha um sorriso no rosto enquanto se levantava para colocar o DVD escolhido. Não era comum que ela fosse a mais sensata de um grupo e a sensação nova era agradável — como todas as outras que Brittany lhe havia apresentado.

Quando ela se virou, Santana viu que os dois adolescentes já tinham se acomodado na pilha de cobertores e travesseiros no chão. Wes tinha a cabeça apoiada na base do sofá e Hannah estava deitada quase em cima dele, acomodado no peito do rapaz. Santana ergueu o olhar e notou que Brittany a encarava com um sorriso preguiçoso, como se esperasse que ela voltasse logo para perto, como se ela pudesse adivinhar que Santana considerava todas as possibilidades que o sofá apresentava.

O corpo de Santana pedia pelo conforto que só os braços de Brittany podiam proporcionar, mas ela ainda não sabia dar o próximo passo. Ainda não era natural atravessar a sala e enterrar o rosto no pescoço da namorada. Não quando não eram apenas elas. Não quando ela tinha uma espécie de platéia.

Mesmo que essa platéia fosse apenas a irmã e o cunhado de Brittany.

Racionalmente, Santana sabia que podia atravessar a sala, se sentar no colo de Brittany, se ela quisesse, e enlaçá-la pelo pescoço. Elas não receberiam repreensões ou olhares tortos. Aquelas quatro paredes ainda eram o seu refúgio. Mas, retreinar o próprio cérebro é difícil; fazê-lo entender que ele não precisa mais ter medo do que sempre teve. Santana deixou os ombros caírem e se sentou na outra ponta do sofá.

Brittany não tinha sido a criança mais esperta da sua escola. Equações a confundiam, ela não conseguia ficar parada tempo suficiente para ler os livros recomendados, reações químicas pareciam truques de mágica e ela simplesmente não conseguia se forçar a dissecar sapos. Mas ela sempre fora boa em ler pessoas, em escutar o que seus movimentos revelavam. E, depois de alguns meses de intensa observação, ela se considerava uma expert nos gestos de Santana. Cada testa vincada, cada lábio mordido, cada punho cerrado gritavam alto nos ouvidos de Brittany. E, agora, ela praticamente podia vê-la se fechando novamente. Bem a sua frente.

Quando elas conversaram sobre esse final de semana, Brittany sabia que Santana estava sendo verdadeira na sua vontade de tornar o relacionamento delas conhecido — mesmo que só um pouco. Mas ela também sabia que não seria fácil. Depois de anos se negando, Santana ainda estava se acostumando com ela mesma. Não era um processo simples, ela sabia disso, e Brittany conseguia ver tanto progresso... Mesmo que Santana não visse. A própria presença de Hannah era um testemunho desse andar para a frente. E Brittany não estava disposta a ver Santana se afastar mais uma vez. Não sem uma briga.

– Você tá indo tão bem. — Brittany disse, baixinho, no ouvido de Santana. Ela tinha se arrastado sobre o sofá e abraçava a namorada com seus longos membros. — Eu tô tão orgulhosa de você.

Depois de um segundo de tensão, Santana se permitiu derreter dentro do casulo que Brittany tinha criado com seu corpo. Era justamente o que ela precisava no momento — ela, ilha; Brittany, oceano — e Santana nunca deixava de se surpreender com a capacidade que a namorada tinha de interpretar seus humores. Era quase como se Brittany tivesse o seu manual de instruções gravado dentro dela. Ou como se ela o tivesse escrito.

– Deita comigo?

A voz de Brittany ainda era baixa, destinada apenas a Santana, e a médica sentiu sua garganta secar. Ela queria — como ela queria! -, mas Santana podia sentir seu corpo congelando e a traindo. Apesar de tudo, ela ainda se sentia vulnerável depois do dia que ela tivera. Com uma sobrancelha erguida, Santana meneou a cabeça na direção do casal deitado no chão. Hannah e Wes prestavam atenção no início do filme e ignoravam o embate silencioso entre as duas mulheres acima deles. Brittany sorriu e sacudiu a cabeça. Ela viu quando uma sombra de dúvida apareceu nos olhos castanhos e aproveitou o momento para retornar à sua posição original, levando Santana com ela.

Uma boneca de pano teria tido mais graça sendo arrastada pelo sofá do que Santana. Ela ainda ameaçou protestar, mas seu corpo a traiu quando Brittany a aninhou contra o seu peito. Ali, ela era refém dela mesma. Santana duvidava de que conseguisse se mover mesmo que o apartamento fosse invadido.

Era o mais relaxada que Santana se sentira em horas e ela não conseguiu se manter acordada tempo suficiente nem para ver Nemo se perdendo do pai.

***

O apartamento ainda estava em silêncio quando Santana acordou na manhã seguinte. Não era incomum que ela acordasse antes de Brittany — anos de faculdade, residência e plantões tinha condicionado a garota que um dia tivera dificuldade em acordar antes do almoço. Normalmente, ela conseguia manter-se imóvel dentro dos braços fortes. Eram longos minutos de calmaria, o único momento que em sua mente, quase sempre barulhenta, se calava e Santana conseguia apenas ser.

Não hoje. Não quando os pensamentos de Santana estavam tão bagunçados que eles se atropelavam, gritando, pedindo por atenção antes mesmo de terminarem de se formar. Não quando a sua mente estava tão inquieta que ela não conseguia ficar deitada na mesma posição por mais do que dois segundos. Então, antes que Brittany acordasse — e, com ela, aqueles olhos azuis que parecem ler a sua alma -, Santana achou que ela estaria mais segura na cozinha. Ela costuma pensar melhor com uma xícara de café nas mãos, mesmo.

Uma das coisas que Santana mais gosta no apartamento de Brittany, além da presença da própria dona, é a maneira como ele é iluminado pela manhã. As longas janelas da sala eram invadidas pelos primeiros raios de sol, os mais suaves de todos, e iluminavam o ambiente com delicadeza. Era quase como um bom dia em forma de cores. Ainda existia um vestígio de lilás no céu, resquício do azul-madrugada, e a claridade refletida nas superfícies não machucava os olhos como ao meio-dia. Havia um tom quase solene, as nuvens ainda pesadas sobre a cidade, sem o calor alaranjado do entardecer. Era um dos momentos preferidos de Santana e ela acompanhava as mudanças nas cores do céu de Lima em silêncio.

Ela tinha se levantado para pensar, mas, agora que estava sentada no sofá, a cabeça de Santana parecia vazia. Quase como se todos os seus pensamentos houvessem se aquietado para assistir ao balé celeste. Santana não gostava disso. Ela não gostava de não pensar, de não compreender, de não planejar. Ela não gostava de apenas sentir, reagir, fluir. Não é quem ela era. Ela nunca fora assim.

Uma careta arranhou o rosto moreno quando o último pensamento se formou em sua mente. Sim, é verdade que ela nunca fora assim, mas aonde isso a tinha levado? A um relacionamento inexistente com os pais? A nenhum amigo que realmente a conhecesse? A um casamento fracassado, que só terminara por conta de um ataque cardíaco? (Santana já não tentava se enganar. Ela sabia que nunca teria se divorciado de Rafael, por mais infeliz que estivesse.)

A Brittany?

Um sorriso pequeno surgiu em seus lábios quando ela pensou na namorada. Exatamente porque ela não merecia estar naquela lista quase mórbida. Brittany entrou na vida de Santana no momento em que ela agiu por impulso, em que ela não pensou várias vezes antes de falar, em que ela não calculou, não projetou. Brittany entrou em sua vida quando Santana apenas foi.

Santana riu baixinho da sua cegueira. Como ela não pudera ver uma verdade tão simples, a menos de meio metro diante do seu nariz? Talvez fosse a mesma teimosia burra que a fizera dizer sim num altar, diante de centenas de pessoas que ela mal conhecia, tantos anos antes.

Sim, a cegueira era a mesma. Mas, agora, ela estava disposta a, ao menos, se livrar dos antolhos.

O som de passos abafados ecoou no corredor e Santana se virou em tempo de ver Hannah entrando na sala. A médica tinha quase se esquecido de que ela e Brittany não estavam sozinhas no apartamento. Mas ela se recuperou e sorriu por sobre a borda da xícara.

– Bom dia, Hannah.

– Bom dia. Nossa, como é bom não ser a primeira a acordar. — Santana riu enquanto a garota se arrastava pelo cômodo. — E ainda tem café pronto? Se eu jogasse no time de vocês, juro que eu ia tentar roubar você da minha irmã.

Se Hannah estivesse na sala, ela teria visto Santana se engasgar com o café que ela estava engolindo e encarar a parede da cozinha com olhos arregalados. Já era estranho o suficiente que outras pessoas soubessem sobre ela e Brittany. Era bom, mas era novo demais e Santana não sabia como lidar com brincadeiras, mesmo que bem intencionadas. Depois de tanto tempo se escondendo atrás da média, o normal se parecia muito com um holofote.

Mas Santana tinha tomado uma decisão apenas alguns minutos antes e era preciso começar a honrá-la por algum lugar. Melhor que fosse num ambiente controlado, portas fechadas e com uma pessoa que ela não sabia quando veria novamente.

– Bom, tirando o detalhe de que você é menor de idade — Santana disse quando Hannah voltou para a sala. — Eu tenho a impressão de que a sua irmã não ia gostar muito da idéia.

– Acho que você tem razão. Não sobre o problema da minha idade, porque isso é só uma questão de tempo. Mas a Britt pode ser bem ciumenta quando ela quer.

Santana gargalhou quando recebeu uma piscada de Hannah. Ela tentou abafar o som, lembrando-se de que ainda havia pessoas dormindo na casa, mas quando Hannah riu junto com ela, foi impossível para Santana se calar. Depois dos últimos acontecimentos, parecia que ela não ria daquele jeito há uma eternidade.

Eventualmente as risadas morreram e Santana notou quando Hannah se virou para ela sobre o sofá com uma expressão séria no rosto. A adolescente tinha a mesma mania de Brittany de morder o canto do lábio quando estava pensando e Santana se manteve em silêncio, esperando.

– Ela gosta de verdade de você, sabia?

Não era o que Santana estava esperando. Na verdade, ela nem sabia o que estava esperando, mas não era aquilo. Ela só tinha sido apresentada para a família de Rafael mais de um ano depois que eles tinham oficialmente começado a namorar e, então, esse tipo de conversa séria já tinha ficado ultrapassado.

Pelo menos, ela sabia o que responder a Hannah.

– Eu sei e eu também g--

– Eu sei, eu sei. — Hannah interrompeu Santana com um sorriso. — Eu posso não ser tão boa em ler pessoas como a minha irmã, mas até eu consigo perceber que vocês se adoram. É bem óbvio.

Santana baixou os olhos com um sorriso tímido. Uma batalha interna era travada em sua cabeça naquele momento; uma espécie de fratura entre a felicidade de saber que o seu amor e o de Brittany era tão visível e o pânico de que mais alguém houvesse notado.

Hábitos antigos são mais difíceis de morrer.

– O que eu quis dizer é que... — Hannah respirou fundo e se virou completamente para Santana. — Olha, eu sei que você tem os seus motivos para não querer se assumir e eu entendo. Depois do que eu já vi acontecer com a Holly, eu não sei se eu teria a mesma coragem da minha irmã.

Santana apertou os olhos diante da declaração. Brittany nunca comentara que algo ruim houvesse acontecido com Holly. Era inevitável que Santana se perguntasse se algo já teria acontecido com Brittany também.

– Mas eu tô fugindo do assunto. O que eu tô tentando dizer é que a minha irmã gosta de você. — Santana notou como a voz de Hannah se tornou mais forte na última palavra e sorriu. — Ela é bem resolvida com ela mesma o suficiente pra não precisar de nada além de vocês duas. Eu sei que essa situação deve ser uma merda e eu tenho certeza de que vai ser bem difícil de vez em quando, mas não deixa isso ficar entre vocês. Há muito tempo que eu não vejo a minha irmã feliz desse jeito.

Dezenas de pergunta se atropelavam na cabeça de Santana, mas ela não conseguia dar voz a nenhuma delas. Ela simplesmente ficou ali, sentada, abrindo e fechando a boca como peixe em aquário, sem saber o que pensar. A situação era surreal demais para que a sua cabeça pudesse compreender tudo o que estava acontecendo. Ela tinha certeza de que se a Santana de um ano atrás soubesse que em doze meses ela teria um apartamento alugado em Lima e estaria na sala da casa da sua namorada, tomando café com a sua cunhada e conversando sobre o relacionamento delas, a sua cabeça teria explodido.

Um sorriso pequeno encontrou caminho até seus lábios quando Santana se permitiu pensar em todas as mudanças que tinham acontecido em sua vida nos últimos meses. É muito fácil se perder no dia a dia, focar no que parece impossível, grudar os olhos na tela, enxergar um borrão colorido e esquecer que há uma imagem por trás daquilo. É verdade que ela ainda se remoía com o fato de não conseguir dar a Brittany o que ela achava que a dançarina merecia. Mas ela também estava muito distante da mulher que ela um dia fora, da mulher que só conseguia admitir seus desejos quando bêbada, da mulher que fugira de Brittany um dia.

Os passos tinham sido lentos e fáceis de serem ignorados.

– Ela...ela falou alguma coisa pra você? — Santana perguntou com a garganta seca apesar do café.

– Não, ela não me falou nada. Mas eu percebi que vocês duas ficaram estranhas ontem, quando a gente tava chegando ao restaurante. E no começo do filme.

– Eu sei. Isso foi... Foi culpa minha.

– Não foi culpa de ninguém, Santana. É isso que eu tô tentando dizer. Olha, pelo que eu entendi, a B já sabia de toda a situação quando ela decidiu ficar com você, certo?

– Acho que sim. Mais ou menos.

– Então. Confia nela. Sabe, se tem uma coisa que a minha irmã detesta é ser exibida que nem peça de leilão. Eu me lembro que ela costumava reclamar do primeiro namorado sério dela, dizendo que ele só queria ir para as festas para andar de um lado pra o outro com ela pendurada no braço dele. Não é disso que ela precisa. Ela só precisa saber que ela pode contar com você, que vocês estão na mesma página sobre o relacionamento de vocês. Só isso.

Hannah tomou o sorriso de Santana como uma resposta e elas caíram num silêncio tranqüilo, aproveitando suas bebidas quentes e seus pensamentos. Santana tinha muitos desse último.

O sol já ia alto no céu quando Santana e Hannah escutaram o barulho surdo de uma porta se fechando no corredor. Elas conversavam sobre os designs de um reality show de moda que elas assistiam quando Santana ficou em silêncio e voltou seus olhos para o arco que ligava o corredor e a sala — apenas pelo som dos passos ela sabia que era Brittany quem tinha acordado.

Menos de dois segundos depois, ela apareceu na sala. Os cabelos louros apontando em todas as direções, os olhos semicerrados, uma marca de travesseiro atravessando a bochecha direita e a camiseta um pouco torta no corpo.

(Perfeita.)

Os olhos das duas mulheres se encontraram e um sorriso sonolento nasceu no rosto de Brittany. Ela atravessou a sala e se largou no sofá entre Santana e Hannah sem cerimônia. O corpo de Brittany se enrodilhou ao redor de Santana assim que ela alcançou as almofadas, como se houvesse um imã que as unisse. Santana nem pensava sobre o que fazia quando estendeu um braço ao redor dos ombros de Brittany e a trouxe para mais perto. Tudo em que ela conseguia se concentrar era no calor da pele colada à sua. Santana não notara, mas sentira falta daquele conforto desde que se levantara.

– Bom dia, amor — Brittany murmurou contra o pescoço moreno. — Senti sua falta.

– Eu tava inquieta. Não quis te acordar.

A voz de Santana era pouco mais do que um suspiro e ela mantinha os olhos grudados na televisão. Mas, quando ela sentiu a cabeça em seu ombro se erguer, ela já adivinhava a expressão que iria encontrar ao olhar para a direita: testa franzida, olhos apertados, lábio inferior só um pouquinho projetado, cabeça torta para um lado. A médica sorriu carinhosamente e balançou a cabeça como quem pede para deixar para depois. Brittany deitou novamente sobre o ombro de Santana, que beijou fios louros antes de voltar a se concentrar na televisão.

– Bom dia, irmãzinha.

– Ah, bom! Achei que fosse continuar me ignorando. — O sorriso de Hannah não combinava com suas palavras. — Eu sei que a Santana é muito mais interessante do que eu, mas eu ainda vou embora hoje, sabia?

– Sempre dramática, hein, Hannah?

Brittany girou um pouco o corpo, apoiando as costas contra o corpo de Santana — um braço moreno sobre a sua clavícula — e jogando as longas pernas sobre o colo de Hannah. Ela era incapaz de impedir o sentimento que borbulhava em seu estômago naquele momento, dividindo uma manhã preguiçosa de domingo com as suas duas pessoas preferidas.

– Eu sei que você vai embora hoje, Han. Mas eu fico muito feliz que você tenha vindo.

Apesar da década que as separa, Hannah e Brittany sempre foram próximas. A diferença de idade nunca permitiu que elas tivessem amigos em comum ou fossem do mesmo time no colégio, mas, dentro de casa, elas sempre foram grudadas. Na verdade, Hannah foi a primeira pessoa a ouvir sobre o primeiro beijo de Brittany — não que seus quatro anos e meio a permitissem entender muita coisa. Foi ela, também, a primeira pessoa a quem Brittany contou sobre a sua sexualidade. E as duas se lembram com um sorriso da reação quase entediada da menina de sete anos, que apenas deu de ombros, disse 'tudo bem' e voltou a aula de matemática que ela estava dando para todos os bichos de pelúcia da casa.

Essa ligação entre as irmãs também garantia que uma adivinhava todas as palavras que a outra calava. Podia ser irritante, às vezes. Mas, também, podia ser bastante tranqüilizador saber que alguém assim existia. Então, quando ouviu a declaração de Brittany, Hannah apenas sorriu e disse:

– Acho bom mesmo!

Depois que Brittany terminou de se acomodar no sofá, as três mulheres voltaram suas atenções para o programa que começava. O reality show, agora, era sobre culinária e Brittany sorria da cara confusa de sua irmã e dos pequenos sons guturais que Santana fazia em suas costas, absorta como se estivesse assistindo a uma palestra de um Nobel da medicina. Brittany, por sua vez, se contentava em memorizar cada detalhe daquela manhã.

Wes acordou algumas horas mais tarde. Mas ainda cedo para os padrões dele, segundo Hannah. Quando o garoto despontou na sala, a adolescente jogou as pernas de Brittany para o lado e se levantou. Ela nem reparou no olhar indignado que recebeu. Toda sua atenção estava voltada para o gigante sonolento que ela conduzia pela mão até a cozinha.

Num movimento que não deveria parecer tão simples, Brittany ergueu um pouco o corpo e pousou no colo de Santana, seus longos braços enlaçando a outra mulher pelo pescoço. A médica teve pouco menos de um segundo para entender o que estava acontecendo antes que seus lábios fossem tomados de assalto por Brittany. Ela tinha uma das mãos enterradas no cabelo de Santana e a beijava como alguém faminto, como alguém que volta de uma longa viagem pelo deserto.

O ataque surpresa teve seu preço e, logo, Santana precisou respirar. Ela tinha um sorriso torto no rosto ao apoiar a testa na têmpora de Brittany, movimentando fios finos de cabelo louro com a sua respiração descompassada.

– Bom dia — Brittany suspirou com um sorriso idêntico ao de Santana.

– Você já disse isso, baby. Esqueceu?

– Não, mas aquele bom dia não valeu.

– Não valeu? — Uma pequena risada escapuliu pelo nariz de Santana.

– Não. — Brittany deu de ombros. — Acho que eu me acostumei a acordar com você nos meus braços e a te beijar antes de levantar da cama. É uma ótima maneira de começar o dia, sabia?

– Eu sou obrigada a concordar.

– Então por que você levantou antes de mim?

– Eu já falei, baby. Eu não queria te acordar. Só isso.

– Você tava pensando sobre o que aconteceu no hospital?

Santana podia notar a mudança na voz de Brittany. Sua voz tinha ficado mais distante, ela brincava com os fios da sua nuca e tinha os olhos baixos. A médica não tinha certeza se ela estava envergonhada pela pergunta ou com medo da resposta. O que fosse, pesava no estômago de Santana. Então, ela apertou a coza de Brittany com um a das mãos e sorriu quando a loura ergueu o olhar.

– Tava. E eu prometo que eu vou te contar tudo o que aconteceu. Mas, depois. Agora, eu só quero aproveitar o resto do meu domingo de folga com a minha namorada e com a irmã dela. Pode ser?

– Pode — Brittany respondeu com seu sorriso-sol.

– Ótimo. — Santana beijou Brittany uma vez. — Mas, agora, eu preciso levantar.

A resposta de Brittany foi sacudir a cabeça e jogar um sorriso torto na direção de Santana.

– Acho que não. Eu tô bem confortável assim.

– Eu percebi isso. Mas eu preciso trocar de roupa.

– Pra quê? Eu acho que você tá ótima do jeito que você tá.

– Eu agradeço o elogio, mas eu acho que não dá pra ir ao supermercado de pijama.

– O que você vai fazer no supermercado, hoje, San?

– Bom, eu pensei em fazer almoço pra gente, hoje. — Brittany ergueu as sobrancelhas e Santana baixou os olhos. — É que...eu queria ficar assim, hoje, com você. E a gente sabe que isso não vai acontecer se a gente for comer na rua. Então eu pensei em ficar por aqui. Mas, se você quiser sair, não tem problema. Foi só uma idéia.

– Uma ótima idéia, San. Você sabe que eu nunca vou reclamar de ver você, na minha cozinha, de avental.

– Boba!

– Mas você me ama.

– Fazer o que?

Brittany escancara a boca em falso choque antes de beijar Santana mais uma vez e escorregar do seu colo. De pé, a médica se apóia no encosto do sofá e inclina o corpo na direção da namorada.

– Algum pedido especial?

– Quer dizer que eu posso escolher o cardápio?

– Se for um dos três pratos que eu sei fazer, pode.

– Hum... Pode ser aquele macarrão que eu adoro?

– Feito.

Quando Santana reaparece na sala, Hannah e Wes haviam se juntado a Brittany no sofá.

– Aonde você vai, Santana?

– Supermercado. Pensei em fazer o almoço hoje.

– Posso ajudar? Quem sabe eu não consigo aprender alguma coisa dessa vez?

– Claro, Hannah — Santana respondeu com um sorriso. — Mas só se você me prometer não grudar nada no teto. Aquilo dá uma trabalheira danada pra limpar.

Três pares de olhos se voltam para Brittany, que pôde sentir o vermelhão subindo pelo rosto, mas se recusou a desviar os olhos da televisão.

– Isso só aconteceu uma vez — ela murmurou entre dentes.