How To Mend A Broken Heart
32 Capítulo 32
Notas iniciais
Muito obrigada pelas mensagens que vocês mandaram perguntando onde eu tinha me escondido - elas realmente me ajudaram a terminar um dos capítulos mais complicados, para mim, que eu já escrevi até aqui. E o maior também.
E agora vamos ao capítulo. E não deixem de ler as notas ao final...
Aprende-se muito na faculdade de medicina. Aprende-se sobre a sinuosidade das veias e aprende-se como músculos, ossos e tendões se combinam para criar movimento. Aprende-se sobre as defesas do corpo e aprende-se que, às vezes, é o próprio corpo que se ataca. Aprende-se a usar remédios para curar, aprende-se a abrir a carne e ferir para curar e aprende-se que, em alguns casos, há muito pouco, ou quase nada, que se possa fazer.
Aprende-se muito na faculdade de medicina, mas há muito que não se aprende em sala de aula.
Professores podem falar sobre plantões longos e exaustivos, mas eles não contam sobre os momentos em que o cansaço toma conta do seu corpo como uma droga e os seus movimentos não são mais seus. Eles podem falar sobre diagnósticos e decisões rápidas, mas não há como eles explicarem a sensação de ter oito pares de olhos perfurando sua pele, esperando de você uma resposta que nem sempre você tem. Pode-se treinar como conversar com familiares dos seus pacientes, mas nada o prepara para a primeira vez que você perde um deles. Ou para qualquer outra em que todos os seus anos de estudos parecem ter sido em vão.
Não se aprende como lidar quando você se vê no rosto dos seus pacientes, um espelho distorcido encarando de volta.
Para tudo que não se aprende na teoria, é preciso desenvolver técnicas na prática.
Ao longo de plantões intermináveis, aprende-se a dormir em parcelas, o sono picotado entre os atendimentos; aprende-se que até café frio pode levantar o peso das pálpebras. Aprende-se a fingir certeza, a se dissociar do presente, a pensar apenas na ciência. Aprende-se a olhar para frente, a encerrar um caso, fechar uma ficha e começar tudo outra vez. É para isso que você está lá.
Cada médico desenvolve a sua própria técnica para lidar com os momentos em que a melhor medicina não é suficiente. Alguns se enterram no esporte, até que o som do sangue correndo em suas veias seja mais alto do que seus pensamentos. Há aqueles que abracem seus filhos no meio da madrugada, ainda adormecidos, apenas para ter certeza de que estão ali. Alguns contam piadas pelos corredores dos hospitais como se esperassem o fim de expediente numa fábrica. E há aqueles que se enterram no trabalho.
Santana Lopez era uma dessas.
A cada paciente que ela não era capaz de salvar, ela atendia outros dois. A cada diagnóstico que ela não era capaz de fazer, ela decorava mais um livro de referência. A cada vez que ela se sentia pequena e falha, ela se esforçava mais, ela dormia menos, ela estudava mais. Durante anos, Santana encontrou alívio dentro da própria medicina. A cada pergunta sem resposta, ela descobria como responder outras cinco. A cada vez que os seus pensamentos ameaçavam ficar mais barulhentos do que o hospital, ela se enterrava nas dores e nos problemas de outro alguém. Como se resolvê-los pudesse significar resolver os seus próprios.
Mas como, se ela nem sabia quais eram os seus? Como curar o que não tem nome? E enquanto não havia uma cura, Santana se anestesiava no trabalho.
Até Brittany.
Até ela ter braços fortes que a mantém de pé quando o mundo parece girar rápido demais. Até ela ter a lembrança de olhos azuis gravada do lado de dentro das suas retinas. Até ela ter uma voz suave do outro lado do telefone durante um plantão interminável. Até ela poder enterrar o rosto no pescoço claro, fechar os olhos e deixar que o cheiro da pele de Brittany a envolva numa bolha onde só existam elas.
E é por isso que, ao final do plantão, ao ver o seu carro estacionado no final da rua, Santana correu. Ela correu porque precisava fugir. Ela correu porque precisava do sorriso de Brittany. E dos braços dela ao redor do seu corpo, da respiração dela compassando a sua, da voz dela em sussurros.
***
24h antes...
Era estranho estar de volta ao hospital depois de tanto tempo. Por conta de algum ajuste na escala dos plantonistas da emergência, Santana tinha passado os últimos quatro dias em casa, sendo nada mais do que a namorada de Brittany — ela começava a entender que isso era o mais importante.
A semana passou rápida como uma queda-livre; como se apaixonar.
O pós-plantão era sempre o pior dia, quando Santana se sentia um zumbi, andando por aí apenas meio-viva, e ele passou quase como se não houvesse existido. Mas a noite trouxe vida na forma dos braços de Brittany e houve comida, poesia, música, dança e amor — era esse o nome agora, certo? Houve também a língua de Santana sendo mais rápida do que ela, entregando a sua entrega. E houve também o coração dela fazendo acrobacias dentro do peito, brincando de roda com seu estômago e mandando seu cérebro planejar quais seriam as roupas que passariam a morar numa gaveta no armário de Brittany. Esse foi só o primeiro dia.
No segundo, Santana de novo não queria sair da cama, num cansaço diferente. Ela acordou enroscada em lençóis, braços e pernas e teve a certeza de que era assim que ela devia acordar pelo resto da vida. Dedos passeavam sem destino por suas costas nuas e ela abriu os olhos devagar, sendo recebida pelo nascer do sol no sorriso de Brittany. Ela podia sentir realidade e sonho se misturando num amálgama esmaecido, como gota de tinta num copo de água. Brittany, que durante tanto tempo habitara apenas os seus sonhos, agora estava ali, prometendo realidade.
O dia passou rápido, com viagens entre o seu apartamento e o hotel, terminando a mudança, encerrando a sua conta e oficialmente se instalando na sua nova casa. Uma animação diferente tomava conta de Santana e ela andava pelos cômodos cantarolando baixinho, incapaz de conter o que explodia dentro dela. Tudo tinha gosto de um novo começo.
À noite, quando ela estacionou na frente do estúdio para buscar Brittany e comemorar a sua mudança, uma mala pequena com roupas suas esperava dentro do porta-malas.
O terceiro dia chegou junto com a sua cama, montada e instalada dentro do seu quarto. Santana passou a maior parte das próximas horas rearrumando a casa que ela já havia arrumado e escolhendo lençóis que apenas seriam ignorados. Ela se sentia uma adolescente ansiosa de novo, se agitando de um lado para o outro, inquieta demais para se manter imóvel. Mas quando Brittany chegou, sorrindo o sorriso que ela reservava só para a médica, Santana podia sentir todo o desassossego do dia escorrendo pela sua pele, empoçando aos seus pés, se evaporando no ar.
E quando ela acordou no dia seguinte, Santana mal podia se lembrar qual era a cor dos lençóis que ela escolhera.
Não era importante.
Apesar disso, a quinta-feira chegou com a melancolia de fim de férias, uma necessidade dividida entre aproveitar o que restava e se preparar para o que viria. Santana sabia que, quando a próxima manhã chegasse, seria preciso se separar dos últimos dias, da mulher que Brittany permitia que ela fosse e que ela carregava, escondida dentro dela. Seria preciso se desconstruir e reconstruir novamente, reerguer as muralhas que Brittany tinha demolido. Um processo que demorava um pouquinho mais de tempo a cada dia que passava.
E agora ela estava ali, sentada dentro do carro parado no estacionamento do hospital, encarando seu reflexo no retrovisor e respirando fundo a armadura de volta no lugar. Ela já não se sentia mais tão frágil ao avistar a construção imponente, ela já não se sentia mais tão exposta quanto apenas algumas semanas atrás. Mas algo ainda se enovelava dentro dela, se enroscando ao redor do seu estômago e deixando uma sensação de náusea para trás.
Santana era uma pessoa de rotinas. Sempre fora. Ela gostava de saber quais seriam seus próximos passos, em qual direção, quais as conseqüências possíveis, quais as respostas que ela poderia dar. Sua vida inteira tinha sido um grande tabuleiro de xadrez. O único acontecimento que ela não previu? Brittany.
A loura não tinha sido mais uma jogada no tabuleiro armado. Ela tinha jogado o tabuleiro para o alto, espalhado as peças pelo chão, acabado com o jogo calculado da médica. Brittany era imprevisível, sem rima ou razão, e Santana nunca tinha certeza do que ela ia fazer ou dizer no instante seguinte. E, com Brittany, Santana nunca tinha certeza do que ela mesma ia fazer ou dizer no instante seguinte. Quase como se ela tivesse absorvido uma parte da alma da dançarina pela pele, uma espécie de osmose enquanto elas dormiam entrelaçadas.
Mas, gostar da imprevisibilidade de Brittany não significava que Santana gostasse disso em outros aspectos da sua vida. Ela até podia sentir uma coisa morna no peito quando a loura a abraçava de repente, mas ela sentia a garganta apertar ao entrar no hospital sem saber quem seria o restante da equipe de plantão. Ela tinha se acostumado com os rostos familiares ao longo dos últimos meses e ela tinha alcançado um estágio em que não pensava em estrangulá-los mais do que uma vez por dia.
Era um avanço.
- Eu nunca achei que eu fosse dizer isso, mas eu estou até feliz em ver você aqui — Santana disse ao se sentar ao lado de Quinn no auditório do hospital.
Toda a equipe havia sido convocada com uma hora de antecedência para algumas explicações sobre as novas políticas instauradas. Como não havia grande novidade no que o homem dizia em cima do palco — e Santana costumava seguir as próprias regras mesmo -, a latina pôs-se a observar os outros profissionais presentes. Alguns rostos eram completamente desconhecidos, outros ela gostaria de se esquecer. Mas, aqui e ali, ela encontrava algumas exceções. Mercedes, sua enfermeira preferida, se sentava duas fileiras à frente, a sua direita. O médico careca que mal falava com ela se sentava numa das primeiras cadeiras. E ela tinha certeza de ter ouvido a voz de Sugar ao entrar — a enfermeira podia não ser das melhores, mas, pelo menos, ela sabia que era melhor se manter longe de Santana.
- E então? O que achou da equipe? — Quinn perguntou quando percebeu que Santana tinha terminado de escanear o ambiente.
- Humf! Eu não conheço metade dessas pessoas, mas eu acho que podia ser pior.
- Pelo menos eles mantiveram a gente juntas.
- Sentimental depois de velha, Fabray? — Santana perguntou com um sorriso de esguelha.
- Nada disso, Lopez. Apenas reconhecendo que a gente trabalha bem junto — Quinn respondeu. E acrescentou: — E você sabe que você é mais velha do que eu.
- Que seja, Q. Mas até que a gente faz uma boa dupla. Você me atura e eu nunca tentei te matar. Não acordada, pelo menos.
- Sabe, acho que, além de mim, a única pessoa capaz de aturar você é a Brittany.
- O que você quer dizer com isso?
A voz de Santana ecoou alta no auditório pequeno. Incontáveis pares de olhos se viraram para ela e a médica podia sentir um calor vermelho subindo pelo seu pescoço. Não era o mesmo calor que Brittany arrancava dela quando ela respirava contra a sua nuca ou quando o hálito doce da loura beijava a sua orelha ou quando os dedos longos dela mapeavam o lado de dentro da sua coxa. Não. Era alguma coisa muito parecida com o que ela sentiu, um ano atrás, quando se viu cercada por fotógrafos e jornalistas enfiando microfones no seu rosto, flashes estourando ao seu redor. Era uma mistura de vergonha e raiva conhecida demais. Tão conhecida que ela sabia exatamente o que fazer.
Com pedras no lugar dos olhos, Santana encarou cada um que se virara em sua direção. Ela tinha o maxilar travado e girava o pescoço lentamente. Quando seus olhos se fixaram no homem a frente da sala, a médica ergueu uma das sobrancelhas em desafio. Quase como se ela quisesse que ele a repreendesse, como se ela quisesse que ele agisse como um professor de primário e a mandasse se virar para frente e prestar atenção.
Como ela queria que ele tivesse coragem para fazer qualquer uma dessas coisas; qualquer coisa que justificasse uma resposta atravessada, qualquer coisa que desviasse a sua atenção da maneira como seus dedos tremiam em seu colo e das preocupações que ela se recusava a reconhecer. Mas o homem se limitou a engolir seco e continuar a sua palestra, sem encarar a latina nos olhos.
Quando teve certeza de que mais ninguém prestava atenção nela, Santana se voltou novamente para Quinn e perguntou numa voz apertada:
- O que é que você quis dizer com isso, Q?
- Nada além do que eu disse, S. Às vezes eu acho que ela é a única pessoa de quem você se aproximou desde que você voltou pra cidade. Ela e essa pessoa misteriosa que você diz que conheceu, mas que você se recusa a dizer quem é.
- É, bom, não é minha culpa se esse fim de mundo está infestado de caipiras que não conseguem fechar a boca e nem parar de procriar.
- Ok, Santana. O que foi que aconteceu com você?
Santana ouviu movimento ao seu lado e se virou para encontrar Quinn sentada de lado na cadeira, os braços cruzados no peito e uma expressão indecifrável no rosto.
- Não sei do que você está falando, Fabray — Santana respondeu, de repente interessada no que estava sendo falado na frente do auditório.
- S. Eu acho que você é a única pessoa que eu conheço que consegue voltar mais azeda depois de quatro dias de folga. Você pode até achar que não, mas eu conheço você. O que é que está acontecendo?
- Nada, Q. Eu só detesto ser arrastada da cama uma hora mais cedo pra ouvir um engravatado do administrativo falando merda lá na frente.
- Santana... — Era um aviso e Santana sabia que não conseguiria enganar a amiga por muito mais tempo.
- Agora não, Quinn. Depois. Só... Confia em mim.
- Não tenho outra alternativa mesmo.
***
- Mi hija, posso me sentar?
A voz gutural que mandava arrepios ao longo da espinha de Santana arrancou a médica dos seus pensamentos. Ela estava sentada numa das cadeiras do refeitório do hospital, a embalagem de um sanduíche velho espalhada pela mesa, quando ergueu o rosto e encontrou um par de olhos castanhos parecidos com os seus a encarando de volta.
O salão estava praticamente vazio. A hora do almoço já tinha ficado para trás há muito tempo e apenas algumas poucas pessoas se espalhavam pelas mesas ao redor — nenhuma perto o suficiente para ouvir a conversa entre os dois médicos.
- Eu não comprei a mesa, então eu não posso exatamente impedir — Santana respondeu com os olhos apertados, grudados no homem a sua frente. — Mas eu realmente gostaria de terminar o meu almoço em paz.
A voz de Santana era dura e fria, lâmina de faca; um tom que ela tinha aprendido em casa e que ele conhecia muito bem.
- Eu não quero atrapalhar, Santana. Eu só quero conversar.
- Essa é uma novidade — ela respondeu com um falso sorriso doce. — Tem certeza que eu não preciso chamar alguém da psiquiatria?
- É tão difícil, assim, acreditar que o seu pai quer conversar com você?
- Desculpa se eu fiquei um pouquinho perplexa, mas acho que essa é a primeira vez que isso acontece e que não envolve as minhas notas.
- Como você está? — O médico preferiu ignorar o comentário de Santana e se sentou na cadeira exatamente em frente a ela. — Tudo bem aqui no hospital?
Santana soltou uma risada amarga e sacudiu a cabeça para os lados.
- Você é impressionante, sabia? Você diz que quer conversar comigo e a primeira pergunta que você faz é sobre o hospital. Impressionante.
- Santana, eu...
- Não. Na verdade, eu nem sei por que eu achei que a pergunta fosse ser diferente. No hospital está tudo perfeito, não se preocupe que eu não manchei o seu nome. Na verdade, eu preciso descer e verificar alguns pacientes, se você me dá licença.
O barulho da cadeira arrastando contra o piso soou alto no salão quase deserto, mas Santana não ouviu. Ela se concentrava em reunir o lixo que ela tinha acumulado e sair dali com o máximo de calma que ela pudesse encontrar. A última coisa que ela queria era que seu pai percebesse o quanto ele a afetava — o quanto ele ainda a afetava.
- Santana, por favor — ele chamou, a segurando pelo braço. — Você não está mais usando a sua aliança?
- Eu nunca usei aliança durante o plantão — Santana respondeu encarando a fraca linha descolorida que ela ainda tinha no dedo. Depois, encarando o pai, ela continuou: — Mas, não. Eu não uso mais a minha aliança. Eu fiquei viúva, esqueceu?
- É claro que não. Mas é que é tão recente que eu pensei...
- Recente? O Rafa morreu há mais de um ano. Você acha isso recente?
- Bom, é que...
- E se eu for completamente sincera, o nosso relacionamento acabou muito antes disso. Às vezes eu nem sei se ele começou de verdade.
- O que você quer dizer com isso?
Como que lembrando com quem ela estava conversando, Santana sacudiu a cabeça e puxou de volta o braço que seu pai ainda segurava entre os dedos.
- Absolutamente nada. Agora eu realmente preciso ir. — Com a voz pingando açúcar e sarcasmo, ela acrescentou: — Foi ótimo conversar com você, papai. Como sempre.
***
Era a décima vez que Santana checava o seu telefone na última meia hora. Brittany ficara de passar no hospital depois da sua última aula para pegar as chaves do carro de Santana e o combinado é que ela ligaria para a médica quando estivesse chegando. O que, Santana calculava, já deveria ter acontecido.
Ela tentava não entrar em pânico enquanto terminava de suturar a testa de um garoto que não deveria ter mais do que quatro anos. Ele olhava para ela com olhos marejados, ainda assustados do tombo que ele levara na escada de casa e ela se lembrou de quando eram olhos azuis a encarando enquanto ela fazia os mesmos movimentos. Santana sorriu quando o menino fungou baixinho, tentando ser corajoso para ela como ela tinha pedido.
- Prontinho. Nem doeu, viu?
Santana passou as mãos pelos cabelos dele quando terminou o curativo. Ele relaxou com o toque e tentou um sorriso para a médica, que riu baixinho da tentativa.
Retirando as luvas, Santana se virou para a mãe que pairava ao seu lado e explicou o que precisaria ser feito pelos próximos dias. Era um discurso quase ensaiado para ela, mas a mulher parecia beber cada palavra que Santana falava, como se decorando cada uma delas pudesse garantir que o seu filho nunca mais iria se machucar. Santana queria dizer que isso não era possível, que filhos se machucam sempre — apesar ou por causa da proteção dos pais, ela não tinha certeza. Mas alguma coisa dentro dela também sentia uma pontada de inveja da maneira como a mulher abraçava e beijava cada centímetro do rosto do menino.
Que ele tivesse aquela mãe preocupada por mais um tempo. Era muito mais do que ela jamais tivera.
Do lado de fora da sala de atendimento, o pager de Santana tocou e ela grunhiu ao ver o número da recepção na tela. Normalmente aquilo queria dizer um novo paciente, mais uma pessoa que depositava nela toda a sua confiança apenas pelo fato de ser ela a usar o jaleco branco. E isso também significava mais vários longos minutos de pé, longe de uma garrafa de café e sem poder correr até o lado de fora do hospital caso a sua namorada chegasse.
Mas ela também não podia, exatamente, ignorar um chamado e, arrastando os pés, Santana caminhou até a recepção, que mais parecia um trecho de terra de ninguém entre duas trincheiras.
- Shanon, alguma coisa pra mim? — Santana perguntou assim que alcançou o balcão.
- Oi, doutora. Tem alguém procurando por você.
Santana ergueu os olhos da recepcionista e seu olhar caiu numa loura sentada numa das cadeiras de plástico da área de espera. Um sorriso involuntário apareceu no rosto da médica e ela murmurou alguma coisa para a outra mulher enquanto caminhava na direção de Brittany.
É estranho, Santana pensou, como apenas um olhar para Brittany é capaz de fazer com que ela se livre de um pouco da tensão acumulada e respire com mais facilidade. A loura não estava fazendo nada além de quicar os pés contra o chão e encarar o celular em seu colo com a testa franzida, mas Santana já se sentia quase pronta para encarar o restante do seu plantão. Se ao menos ela pudesse dar os passos que faltavam e beijar a namorada...
Mas Santana sabia que, quanto mais rápido Brittany notasse a sua presença, mais rápido ela teria que ir embora — e Santana realmente queria continuar recarregando as suas energias com aquela visão. Além disso, ela sabia, e ela detestava saber, que mesmo que Brittany erguesse os olhos naquele momento e sorrisse para ela do jeito que só Brittany conseguia fazer, ela não teria coragem de se despregar da parede, abraçar a namorada e beijar a sua boca. Não ali. Não assim. Não ainda. Só...não.
Seus pensamentos ameaçavam correr muito livremente e Santana decidiu que era melhor lidar com o que é real do que com o que estava em sua cabeça. Ela descolou o corpo de onde estava apoiada e avançou pelo corredor, seus olhos o tempo todo grudados em Brittany.
- Ei.
- San!
A voz de Brittany saiu como um grito sussurrado e Santana podia ver toda a força que ela estava tendo que fazer para não ficar de pé num pulo e jogar os braços ao redor do seu pescoço. Depois de quatro dias encapsuladas numa realidade apenas delas, era ruim ser lembrada de que ela tinha uma namorada, mas que ela não podia abraçá-la ali. Deixava um gosto amargo na língua ver a energia mal contida de Brittany vazando por seus olhos azuis.
Como que adivinhando o redemoinho que se formava por trás da fachada calma de Santana, ou tendo pensamentos parecidos, Brittany lhe sorriu seu sorriso mais doce e deixou que as pontas dos dedos roçassem as costas da mão de Santana. E assim, com um toque que mal existiu, o vendaval se desfez, o céu se abriu e Santana se lembrou de que nem tudo era medo, estagnação e esconderijos entre elas. Em apenas algumas horas ela seria apresentada à irmã de Brittany, uma das pessoas mais importantes na vida da sua namorada e a primeira a saber do relacionamento delas.
Seria um pensamento tranqüilizador, se não fosse tão enervante.
- Por que você não me ligou?
- Fiquei sem bateria — Brittany respondeu mostrando o celular desligado, com um bico nos lábios. — Desculpa. Eu sei que a gente combinou que eu ia ligar e eu devia ter ligado, mas é que o dia foi corrido e eu me esqueci de colocar pra carregar e eu não quis ir em casa primeiro e agora --
- Britt. Britt! — Brittany ergueu os olhos até Santana e a médica pousou uma das mãos no braço dela. — Tá tudo bem. Não tem problema nenhum. Eu só tava ficando preocupada.
- Mesmo?
- Claro. Agora, vem comigo. Eu deixei a chave no meu armário.
Brittany e Santana caminharam lado a lado pelos corredores do hospital, com uma distância entre elas muito maior do que qualquer uma delas gostaria que existisse. Mas esse é exatamente o problema das coisas escondidas, elas sempre parecem maiores do que são. Sem saber quais eram os seus limites naquele ambiente, Brittany se mantinha a uma distância maior do que Santana gostaria. E ainda sentindo que havia um alvo pintado em suas costas, Santana não conseguia forçar seu corpo a se aproximar de Brittany.
E durante todo o caminho, ninguém prestou atenção nas duas mulheres que caminhavam juntas — ou nas nuvens que pairavam sobre as suas cabeças.
- Você tem tempo de comer alguma coisa? — Santana pergunta ao abrir o seu armário.
A sala dos médicos estava vazia e Brittany tinha o corpo encostado na fileira de armários de metal, enquanto ela absorvia os detalhes do espaço. A máquina de café num canto, o sofá encaroçado, a mesa no centro da sala, a televisão desligada numa das paredes. Brittany observava cada detalhe e se perguntava quanto tempo Santana já passara naquela sala e em outras como aquela; quantas vezes ela já se escondera em lugares estéreis como aquele porque eles pareciam uma opção melhor do que o mundo do lado de fora; quantas vezes ela já dormira, por pura exaustão, em sofás desconfortáveis por não ter por quem ir embora.
É um vislumbre do que a vida de Santana fora até ali e Brittany apenas esperava que ela pudesse ser motivo suficiente.
- Britt?
Santana já tinha fechado o armário e segurava a chave do carro, uma das sobrancelhas arqueadas. Ela esticou a mão e tocou o braço de Brittany, que se assustou com o movimento e sacudiu a cabeça, tentando voltar à realidade.
- Desculpa. Acho que eu viajei um pouco. — Brittany tentou sorrir, mas a expressão não lhe pareceu natural. — Você falou alguma coisa?
- Eu perguntei se você tem tempo de subir e comer alguma coisa comigo.
- Eu bem que queria, San, mas não vai dar tempo. Acho que eu não vou conseguir nem passar em casa. O ônibus da minha irmã chega daqui a pouco.
- Não tem problema — Santana apertou de leve o braço sob sua palma e ganhou um sorriso fraco como resposta. — Tá tudo bem?
- Tá.
- Tem certeza, Britt? Você parece distante.
- Tenho. Só tô cansada, eu acho.
- Se você diz... Vem, eu te levo até o estacionamento.
A médica pegou o casaco que tinha deixado pendurado perto da porta e levou Brittany até o estacionamento dos médicos. Durante a caminhada rápida, Santana notou como os passos de Brittany pareciam mais lentos e pesados, como suas costas pareciam curvar sob um peso invisível e como ela não olhava ao redor como de costume, absorvendo cada novidade e apontando cada detalhe inusitado para Santana. Era como se o que caminhava ao lado dela não passasse da casca da sua namorada, um invólucro vazio e uma pontada de preocupação começava a pulsar bem na boca do estômago de Santana.
- Cuidado, viu? Acho que as ruas ainda devem estar molhadas depois de ontem.
- Pode deixar que eu não vou arranhar o seu carro, San.
- Eu não tô preocupada com o carro, baby. Eu tô preocupada com você.
- Eu sei. Mas não precisa.
- Bom, essa é a minha função, então...
Enquanto falava, Santana deu um passo à frente e colou seu corpo no de Brittany, a imprensando contra a lataria do carro. O plantão estava pela metade, ainda, e a chance de alguém aparecer por ali era próxima de zero. Por isso, Santana entrelaçou seus dedos com os de Brittany e se ergueu na ponta dos pés para encontrar seus lábios.
Foi um beijo casto, que nasceu e morreu na superfície, mas que durou o tempo suficiente para elas se lembrarem de tudo.
- Eu queria fazer isso desde que você chegou.
- Eu também — Brittany respondeu enlaçando Santana pelo pescoço e a beijando mais uma vez.
- Me avisa quando vocês chegarem em casa?
- Pode deixar.
- E vê se não fica acordada até tarde, conversando com a sua irmã. Por favor. Você precisa descansar.
- Tá bom, tá bom. — A voz de Brittany agora tinha um ar de risada e Santana se permitiu um sorriso. — Mais alguma recomendação, doutora?
- Hmmmm... — Santana apertou os olhos e fingiu concentração. — Não. Acho que não.
- Bom. A que horas você sai amanhã?
- Mesmo horário de sempre, 7h.
- Vou estar te esperando na porta.
- Não precisa, Britt. Eu posso muito bem pegar um taxi.
- San, a única razão pra você estar sem carro é porque você está me emprestando ele pra pegar a minha irmã. É claro que precisa.
- Mas...
- Eu venho te buscar. Sem discussão.
- Sim, senhora. Agora, vai, anda. Antes que você deixe a sua irmã plantada, te esperando.
Depois de Brittany entrar no carro, ajeitar o banco e ligar o motor, Santana bateu de leve na janela e esperou que Brittany abaixasse o vidro. Sorrindo, Santana se esgueirou pelo espaço e capturou os lábios de Brittany mais uma vez.
- Eu amo você.
- Eu também amo você.
Santana ficou parada no estacionamento observando as luzes vermelhas das lanternas do seu carro sumirem depois de uma curva. Apenas quando ela não mais podia distinguir o contorno do veículo que Brittany dirigia, e quando o frio começou a invadir as costuras do seu casaco, é que ela se virou e voltou para dentro do hospital. O seu pager ainda não tinha tocado, mas ela sabia que aquilo não significava nada. Os plantões de sexta-feira apenas costumam piorar conforme a madrugada avança.
Depois de verificar os resultados de alguns exames e fazer a ronda pelos pacientes que ela tinha atendido durante o dia, Santana decidiu encarar a lanchonete mais cedo do que o normal. Era meio da noite, ainda, e o local provavelmente estaria lotado, mas ela preferia arriscar ter que dividir a mesa com algum médico de quem ela não sabia nem o nome a correr o risco de ter mais um encontro com seu pai. Um era mais do que a sua cota semanal.
Uma cabeça loura sentada no fundo do salão enviou uma onda de alívio pela espinha de Santana quando ela deixou que seus olhos vasculhassem o local. Não era a cabeça loura que colava um sorriso bobo no rosto dela, mas era melhor do que se sentar de frente para o médico careca que não conseguia desgrudar os olhos do seu decote inexistente.
- Eu, oficialmente, odeio plantão às sextas-feiras — Santana grunhiu assim que se sentou de frente para Quinn.
- E a gente ainda nem entrou na parte mais divertida.
Quinn tinha uma pequena careta no rosto e Santana apenas gemeu em resposta, memórias parecidas passando por trás das pálpebras das duas mulheres. Quinn e Santana já tinham trabalhado em diversos hospitais, nas mais diferentes cidades do país, e, em todos eles, a realidade era a mesma: plantões na madrugada sexta para sábado eram os piores. Havia algo de imprudente flutuando no ar, como se o fim da semana desse folga para a inteligência das pessoa e transformasse todo mundo em super heróis bêbados. De repente, as ruas ficavam infestadas de sobre-humanos que se achavam invencíveis, mas que costumavam terminar a noite na primeira sarjeta ou na emergência mais próxima. E numa cidade como Lima, em que não parece haver nada melhor a fazer do que tentar consumir seu peso em álcool, os níveis de burrice pareciam ser ainda mais altos.
- Às vezes eu me pergunto se eu era tão idiota quando eu era mais nova — Quinn murmura ao redor do seu copo de café.
- Eu era. — Uma sobrancelha se arqueia sobre olhos esverdeados e Santana continua: — Mas eu nunca fui parar dentro de uma ambulância.
- Pra sorte dos paramédicos!
- Q! — A voz de Santana se perde entre um grito e um sussurro e ela tenta manter o olhar duro, mas um início de sorriso repuxa o canto dos seus lábios.
- Que foi? Você sabe que eu tô falando a verdade. Se você já consegue ser assim como médica, eu não quero nem imaginar como paciente.
- Só por que o médico que cuidou do meu braço quebrado resolveu se juntar aos Médicos sem Fronteiras? Antes de terminar de colocar o meu gesso?
Santana manteve o rosto impassível diante da expressão de choque de Quinn. Ela nem sabia que sentia falta disso, uma conversa tranqüila no meio de um plantão corrido. Talvez Brittany não precisasse ser a única pessoa com quem ela conseguia conversar.
- Como foi mesmo que ele disse? Ah! 'Eu prefiro uma zona de guerra do que ela' — Santana disse com a voz grave, tentando imitar o tom enfurecido do homem que a atendera quase vinte anos antes.
- Você tá falando sério, S? — Quinn perguntou entre arfadas, depois que as duas pararam de gargalhar.
- Claro que sim, Q. Acho que nem eu ia conseguir inventar um negócio desses.
- E quantos anos você tinha?
- Não sei. Oito, eu acho.
Os olhos de Quinn se arregalaram e Santana não suprimiu a risada que subiu pela sua garganta.
- Meu Deus, S. Você é pior do que eu achava. Como é que o Rafa te aturou por tanto tempo?
E assim, com uma única pergunta, a atmosfera entre as duas mudou num segundo. As risadas de Santana morreram em seu peito e seus olhos escureceram. O rosto moreno se desfez e a expressão se endureceu sobre um maxilar travado.
- É, ele era um verdadeiro santo, mesmo.
Quinn não deixou de perceber o sarcasmo que envolvia as palavras de Santana e respirou fundo antes de responder.
- Desculpa, S. Eu não devia ter falado isso.
- Ele também era seu amigo, Quinn. Eu não posso exatamente te proibir de se lembrar dele.
- Sim, mas --
- Sério, Fabray. Eu não tenho problema nenhum em falar sobre ele. É só que...
Santana deixou a frase suspensa no ar e seus olhos se perderam no salão além do ombro de Quinn. Eles estavam vazios.
- É só que o quê, Santana? — Uma mão clara cobriu uma morena sobre a mesa. — O que aconteceu?
- Nada. É só que eu encontrei o meu pai hoje, mais cedo.
- O que vocês falaram dessa vez?
Essa era uma das características que Santana mais gostava em Quinn. Não havia meias palavras ou hesitação. E, pelo pouco que Santana tinha se permitido se abrir com ela, ela sabia que, mesmo que ela estivesse fazendo a maior das burradas, mesmo que depois ela fosse ouvir um discurso de duas horas de duração, no calor do momento, ela sabia que podia contar com uma lealdade de ferocidade leonina.
- Ele disse que queria conversar e eu disse que era a primeira vez.
- Verdade.
- E quando eu ia embora, ele me perguntou por que eu não estava usando a minha aliança. Aparentemente, um ano é recente demais.
- Bom, isso é você quem decide. — Santana sorriu em agradecimento. — Eu nem tinha reparado que você tinha tirado.
- Tem algum tempo, já. Mas eu nunca usei durante o plantão, então...
- Entendi. E teve algum motivo específico pra você fazer isso?
- Não. Quer dizer, teve. Teve, sim. Na verdade, eu queria mesmo falar sobre isso com você.
Santana respirou fundo e fechou os olhos. Ela precisava se preparar para falar em voz alta a frase que boiava em sua mente há tanto tempo. Seria a primeira vez que ela falaria aquelas palavras para outros ouvidos que não fossem os dela, deitada, no meio da madrugada, encarando o espelho no escuro.
Quando olhos negros encontraram olhos esverdeados, Quinn se mantinha na mesma posição, sua expressão impassível, esperando que Santana encontrasse dentro dela o que quer que ela precisasse para continuar.
A pele morena parecia em brasa, labaredas subindo pelo seu corpo e se acumulando sob a sua nuca. O ar parecia não chegar até seus pulmões e ela podia sentir sua respiração ficando mais superficial. Ela sabia que podia confiar em Quinn, que discutir a sua sexualidade com a amiga não mudaria o relacionamento delas, mas era aterrador pensar em dizer as palavras que ela temeu por tanto tempo, porque aquele seria o paradigma final. Uma vez que elas saíssem de dentro de Santana, elas seriam reais. Ela seria real. Não teria como voltar atrás ou se esconder por trás de meias verdades. Seria certo, definido, irrevogável. Mesmo que não fosse bem assim.
Santana sabia que aquele era apenas mais um detalhe sobre quem ela era, mas, naquele momento, ela sentia como se uma única palavra a definisse por completo.
Mas, então, Santana se lembrou de olhos azuis e uma onda de calma se abateu sobre ela. Ela queria que Brittany fizesse parte da sua vida, de todos os aspectos dela — inclusive conversas durante um jantar no meio de um plantão. E ela se lembrou de como ela se sentira mais leve depois de cada conversa que elas tiveram, como seu peito pareceu inchar de felicidade a primeira vez que ela chamou Brittany de sua namorada. Ela se lembrou dos últimos quatro dias, e de uma gaveta com roupas suas num armário que não era o seu, e de uma chave que não abria a porta do seu prédio, mas que morava no seu chaveiro.
Não era por Brittany que ela estava fazendo aquilo, mas era Brittany quem lhe dava forças para fazer. Mesmo à distância.
Santana respirou fundo mais uma vez, endireitou a coluna, cruzou os dedos sobre a mesa e olhou Quinn nos olhos.
- Quinn, eu --
Um barulho agudo alcançou os ouvidos de Santana e ela pulou sobre a cadeira, assustada. Ela podia sentir seu coração batendo como louco e levou a mão até o peito, o suor da palma invadindo a roupa. Quando ela voltou a se concentrar em Quinn, a mulher tinha o pager na mão e uma expressão levemente culpada no rosto.
- S, desculpa, mas estão me chamando na emergência.
- Não tem problema.
- Depois a gente termina?
- Claro, claro. Não era nada tão importante, mesmo.
- Tem certeza?
- Claro, Q. Vai, antes que te chamem de novo.
- A gente conversa depois.
***
Elas não conversaram.
Depois que Quinn se retirou da mesa que elas ocupavam, Santana ainda se manteve no mesmo lugar, pensando sobre o que ela tinha acabado de quase fazer. Seu coração ainda batia acelerado e um leve tremor tomava conta dos seus dedos. Ela não tinha certeza se estava aliviada pela interrupção ou se se sentia ainda mais nervosa, agora que ela teria que começar tudo novamente. A descarga de emoções ainda corria em suas veias e ela não sabia se seu corpo agüentaria mais um momento como aquele.
Mas, então, seu pager tocou quando ela esticava o dedo para chamar o elevador e Santana não teve mais tempo para pensar na conversa que ela quase tivera. Respirando fundo, ela entrou no carro de metal e voltou a ser a Dra. Lopez, exatamente a pessoa que ela precisava ser para enfrentar o restante do plantão.
Horas depois, Santana se arrastava pelo corredor. Ela tinha atendido mais adolescentes alcoolizados do que deveria ser legalmente permitido para um único médico e tudo o que ela queria era desabar no sofá da sala dos médicos, beber um copo enorme de café e fechar os olhos por cinco minutos, talvez dez — e sonhar com olhos azuis e sorriso escancarado. Mas parece que o universo tinha outros planos para ela.
- Dra. Lopez?
A voz que alcançou os ouvidos de Santana era quase conhecida, mas o tom pequeno e trêmulo impedia que ela localizasse a memória. Virando-se sobre os calcanhares, Santana focalizou a sala de espera e, logo, seus olhos caíram sobre menina que hesitava na altura da porta. Ela tinha os olhos castanhos arregalados, vermelhos e embaçados por uma camada de lágrimas acumuladas. Uma palidez incomum tingia a sua pele e seu lábio inferior tremia com a força que ela parecia fazer para conter os soluços.
Santana sabia que a conhecia. Algo nos traços da menina apertava as fibras do seu coração até que --
- Julia, certo?
A garota concordou com um aceno e, só então, é que Santana desviou os olhos do rosto da menina. A respiração da médica ficou presa na garganta quando ela notou as marcas amarronzadas que manchavam um vestido amarelo curto, que não combinava com o frio que fazia na cidade ou com a sala de espera de um hospital.
Santana já tinha tempo demais naquela profissão para não saber o que tinha causado aquelas manchas.
- Meu Deus, Julia, o que foi que aconteceu? Você está bem? Está machucada?
Os pés de Santana se moveram sem que ela notasse o comando para que eles atravessassem o corredor e se plantassem ao lado da menina. Elas tinham poucos centímetros entre elas e Santana notou que a força que ela tentara fazer para conter o choro que teimava em cair não tinha sido suficiente e agora soluços sacudiam com violência o corpo pequeno.
Santana não sabia o que fazer. Apesar das lágrimas e do sangue, Julia não parecia ferida. Apenas incapaz de se manter de pé ou de juntar duas palavras num pensamento coerente. Santana sabia lidar com feridas físicas, não emocionais.
Quando a médica vasculhava seu cérebro em busca de outras perguntas que pudessem explicar um pouco o que estava acontecendo com aquela menina que a tinha lembrado dela mesma tantas semanas atrás, Santana sentiu um corpo colidir com o seu e baixou os olhos apenas para encontrar Julia apoiada nela, chorando contra o seu ombro, abraçando o próprio corpo. Por um instinto ainda novo, Santana ergueu os braços e puxou a garota contra si, apertando forte como ela tinha feito com outra garota naquele mesmo hospital.
Era inevitável estar naquela situação e não pensar em Brittany; não lembrar a expressão assustada que a loura tinha quando elas se chocaram no meio da rua; não lembrar a maneira como ela parecia se agarrar a Santana para manter as lembranças longe. E não lembrar a consulta, semanas atrás, que a tinha colocado frente-a-frente com exatamente aquilo que ela nem sabia que precisava ter.
Santana manteve seus braços ao redor de Julia até que os soluços dela diminuíram e ela pareceu conseguir respirar novamente. Olhando ao redor, Santana agradeceu em silêncio o avançado da hora e a recepção vazia. Certas conversas são melhores de se ter sem platéia.
- Vem aqui. Senta um pouco.
Ela sabia que não precisava fazer aquilo, ela sabia que aquela parte não constava da sua descrição profissional, mas alguma coisa a prendia ali, quase como se ela devesse alguma coisa àquela menina.
- O que aconteceu? — Santana perguntou num suspiro.
- Eu-eu e a Dani — Julia começou, com a voz vacilante. — A gente estava chegando em casa de uma festa. A gente já tava na calçada do nosso apartamento quando uns caras passaram de carro e mexeram com a gente.
Um arrepio frio descia pelo corpo de Santana e ela sentiu a garganta apertar ao redor do ar que ela tentava respirar.
- Eu não vi direito o que aconteceu. Eles pararam o carro e a Dani me jogou pra dentro do prédio e, quando eu percebi, ela...ela...
Santana não precisava escutar o resto da frase para entender o que tinha acontecido. Ela não precisava escutar as palavras para saber que aquela menina tinha passado por aquilo que ela tanto temera quando ainda era uma adolescente. Ela não precisava escutar o que Julia não conseguia dizer para sentir os seus músculos se retesarem em nós e algo pesado se alojar em seu estômago. Ela não precisava escutar nada disso. Ela não precisava escutar porque ela já tinha pensado naquela possibilidade tantas vezes, mesmo que ela não reconhecesse a existência desses pensamentos. E ela sabia que podia ser Brittany sentada naquela cadeira. Ou ela.
- E agora ela tá lá. Ela tá lá dentro e eu tô aqui fora e ninguém me diz nada e eu não sei como ela tá e eu tô enlouquecendo.
- Julia, olha pra mim. Você já ligou pra alguém? A sua família, a família dela?
- Nã-não. A minha família não é daqui e a família da Dani não fala mais com ela. Eles --
- Tudo bem — Santana cortou, não querendo ouvir o restante da frase. — E algum amigo seu? Alguém que possa trazer uma muda de roupa pra você?
- Eu-eu... Eu não liguei pra ninguém. Eu não pensei... Por que você está falando isso? Você acha que ela ainda vai ficar aqui muito tempo?
- Eu não sei, Julia. Eu não sei. Mas eu sei que você não vai querer que ela te veja com o seu vestido desse jeito, vai?
Julia olhou para baixo e parecia que era a primeira vez que ela notava que a sua roupa estava coberta de sangue. Ela balançou a cabeça devagar e voltou a encarar Santana.
- Não. Eu acho que não.
- Isso. Então, enquanto você liga pra alguém eu vou tentar descobrir pra onde ela foi levada, tá bom?
- Tá. — Santana se levantou e começava a virar o corpo quando uma mão se enroscou ao redor do seu pulso. — Obrigada.
Santana apenas sorriu para a menina que precisava usar as duas mãos para conseguir discar o número no celular.
- Shanon, você sabe pra onde levaram a menina que chegou com ela? — Santana perguntou na recepção apontando para onde Julia estava sentada. — O nome é Dani, eu acho.
- Ela tá na dois, doutora. Daniella Green — a recepcionista respondeu depois de verificar algumas fichas.
- E quem é que tá com o caso?
- A Dra. Fabray.
Pela primeira vez, desde que escutou seu nome na voz pequena de Julia, Santana sentiu seu coração bater um pouco mais calmo. Pelo menos, ela confiava na competência da pessoa responsável pelo caso. Pelo menos, ela sabia que conseguiria obter algumas respostas de Quinn.
- E então, conseguiu falar com alguém? — Santana perguntou quando voltou para a recepção.
- Consegui. A minha amiga tá vindo pra cá. Acho que eu arranquei ela da cama.
A última frase foi murmurada entre respirações, quase como se a garota nem tivesse percebido que a tinha dito em voz alta. Mas Santana ouviu e seus olhos se desviaram para a janela atrás delas. Do lado de fora, o céu já tinha começado a perder seus tons mais escuros e um cinza quase prateado surgia no horizonte. Seria uma manhã fria. Seria um dia longo para a garota que se sentava ao seu lado.
- Eu tenho certeza de que ela não se importa.
Julia apenas deu de ombros e voltou a encarar Santana, lembrando-se do que a médica tinha prometido descobrir.
- Você conseguiu saber da Dani?
- Ela ainda tá sendo atendida. Eu tô indo lá, agora, pra ver se eu consigo descobrir alguma coisa. Mas eu sei que quem tá com ela é uma amiga minha e uma das melhores médicas desse hospital. Ela tá em boas mãos.
Aquela era uma admissão que Santana nunca faria para a própria Quinn — ela ainda era a teimosia encarnada, afinal -, mas não havia outro médico da equipe que Santana preferisse encontrar cuidando daquela paciente. Nem ela mesma.
De alguma maneira, Santana não tinha certeza se teria forças para isso.
- Assim que eu souber de alguma coisa, eu volto.
Sem esperar por uma resposta, Santana pôs-se em marcha pelo hospital. Ela mal registrava as paredes que passavam ao seu lado ou os corredores que tomava. Ela andava como se no piloto automático, guiada apenas pelo instinto. Ela queria chegar logo, mas não sabia se queria saber o que a esperava em cima da maca. Era como se ela fosse puxada, ao mesmo tempo, por pólos opostos da mesma moeda. A pele morena estava gelada, coberta por uma fina camada de suor, e ela tinha enfiado as mãos nos bolsos do jaleco para não ver que elas tremiam.
Não haveria como justificar o que estava se passando por trás da fachada estóica se alguém pudesse ler cada um dos seus gestos.
Com a mão apoiada ao lado da porta, Santana respirou fundo e sentiu o rosto endurecer na máscara fria que ela precisava usar — ela só não conseguia endurecer o coração.
Há uma parte do cérebro de Santana que não se formou em medicina, que não fez residência, que não viu todas as coisas que ela já viu, que nunca ouviu o apito incessante de um monitor cardíaco quando um coração para de bater.
É uma parte pequena do cérebro dela, protegida, que costuma se desligar no instante em que Santana pisa no hospital. É a parte mais instintiva dela, uma que começou a encolher quando ela ainda era uma adolescente assustada; uma que começou a hibernar quando ela saiu de Lima disposta a deixar aquela sua versão para trás; uma que despertou quando ela encontrou uma garota loura caída no chão. Uma que ela achava que, agora, só conseguiria existir perto de Brittany. É essa parte do seu cérebro que comanda o seu corpo quando Santana finalmente entra na sala.
Do lado de dentro, o ritmo é acelerado. Médicos e enfermeiros correm ao redor da maca, gritando comandos e lendo reações do corpo inerte. Santana não se junta a eles. Ela permanece ao lado da porta, uma observadora silenciosa daquela ciranda. Seu corpo parece feito de chumbo e o esforço para respirar é tudo o que ela consegue fazer.
Por um breve momento, seu olhar cruza com o de Quinn e ela pode ver as perguntas que começam a se formar por trás de olhos esverdeados, mas a atenção da médica é logo desviada.
Santana reconhece as palavras que são trocadas entre a equipe, mas sua mente não consegue dar sentido ao que ela ouve. O mundo parece girar em câmera lenta e os sons são abafados, como se ela estivesse embaixo d'água. Ela apenas consegue se concentrar nas manchas roxas que se alastram pela pele descoberta, no inchaço que deforma o rosto de que ela mal se lembra, nos fios e tubos espalhados e nas marcas de sangue que mancham o chão e os sapatos.
Uma onda de náusea se avoluma em seu estômago e ela sente um pequeno alívio por não ver cabelos louros espalhados pelo lençol. Egoísta, ela sabe, mas ela é apenas humana.
- Ok, pessoal, podem subir com ela pra cirurgia.
Santana não sabe há quanto tempo ela está naquela posição, mas a movimentação da maca a desperta. Ela cruza o olhar com Quinn mais uma vez antes de acompanhar os movimentos ao seu lado. Assim, de perto, ela consegue ver uma parte da extensão do que foi feito daquela menina. E raiva se mistura à náusea que ela sente e ela precisa levar uma das mãos à boca e engolir seco para se manter de pé.
- S.
A voz de Quinn é pequena e próxima demais. Santana se vira e encontra a amiga a alguns passos dela. A sala está vazia. O restante da equipe já partiu para o próximo atendimento e só sobraram as suas ali.
- Como ela está? — Santana pergunta depois de engolir o algodão que tomou a sua boca e encontrar a sua voz.
- Você conhece ela?
- Não. Mais ou menos. Eu atendi a namorada dela há uns meses. Ela me viu na recepção e me pediu pra ver como ela estava.
Quinn e Santana se encararam por alguns segundos, um estudo do oponente antes do combate. Santana não queria ter que implorar pelas informações. Ela sabia que não tinha como explicar o seu interesse na namorada de uma ex-paciente. Não hoje. E Quinn tentava entender o que a presença de Santana significava, tentava medir suas palavras, seus limites.
- Fabray?
- Baço rompido e, pelo menos, duas costelas quebradas. Uma delas perfurou o pulmão. Ela foi direto pra cirurgia.
- Merda! — Santana gritou quando acertou a parede atrás dela com o punho cerrado.
A respiração de Santana estava descompassada quando ela apoiou as costas na parede e fechou os olhos. Vários cenários, todos com ela e Brittany, todos terminando de maneira parecida, começaram a surgir em sua mente e ela podia sentir o pânico subindo pelo corpo. Uma coisa pesada que se agarrava a sua garganta e que fazia seu peito parecer pequeno demais para o que crescia dentro dela. Ela abriu os olhos, respirou fundo e endireitou o corpo antes de encarar Quinn novamente.
- Eu preciso ir falar com a Julia.
- E quem é Julia, S?
- A namorada dela.
Santana se virou na direção da porta, mas dedos frios a puxaram pelo braço antes que ela pudesse alcançá-la.
- Cuidado com o que você vai dizer, Santana.
- O que isso quer dizer, Q?
- Você conhece as normas do hospital. A gente só pode dar detalhes para a família.
- Fodam-se as normas, Fabray! A família dela é aquela garota que tá sentada, lá na recepção, morrendo de medo e sem nenhuma notícia. Então, eu vou lá e vou conversar com ela.
- Não, você não vai.
- Não? E quem é que vai me impedir? Você? — Uma risada amarga ecoa na sala e os traços de Santana se endurecem. — Você pelo menos sabe por que aquela garota veio parar nesse hospital?
- Só o que os paramédicos falaram. Que ela apanhou na rua.
- É. Mas você sabe por quê?
- Não. Esse não é o meu papel.
- Então eu vou contar pra você. Aquela garota tá, agora, numa mesa de cirurgia porque dois neandertais resolveram bater nela só por ela ser quem ela é, só porque ela estava de mãos dadas com outra menina na rua. E você sabe o que ela fez? Ela empurrou a namorada pra dentro do prédio e apanhou sozinha. E aquela menina que tá lá na recepção, ela viu tudo.
- S...
- E essa família pra quem você quer tanto ligar, eles não falam mais com ela. Os pais dela ignoram a própria filha só porque ela não é o que eles esperavam. E você ainda acha que eles têm algum direito de vir até aqui? De saber dela? De tomar qualquer decisão?
- A gente não tem que achar nada, Santana.
- Mas que merda, Quinn! Será que dá pra você parar de ser tão certinha o tempo todo? E se fosse você, hein? E se fosse o Noah numa sala de cirurgia e você esperando na recepção sem nenhuma informação porque as normas não permitem? Será que você ia se preocupar tanto com as regras, então?
Quinn abriu e fechou a boca algumas vezes, mas ela não emitiu nenhum som. Santana podia ver sua resolução se desmoronando e aproveitou o momento para encerrar a discussão.
- É, eu achei que não.
***
A conversa com Julia ainda ecoava em sua cabeça quando Santana abriu a porta do seu armário ao fim do plantão. Mas, mais do que as palavras ditas, era o rosto da menina que a assombrava e Santana não entendia muito bem por que. Ela já tinha conversado com mais familiares do que ela era capaz de se lembrar ao longo dos últimos anos, sob as mais variadas circunstâncias, mas ela mal conseguia se lembrar dos seus rostos no plantão seguinte. E, agora, ela se via encarando os olhos vazios da menina a cada vez que fechava os seus.
A sala dos médicos começava a encher com a equipe que também terminava o plantão e Santana se apressou em sair dali. Ela se sentia sufocando dentro daquele prédio. Ela precisava de ar, ela precisava não ter um teto sobre a sua cabeça; ela precisava respirar.
Os seus passos pelo corredor eram automáticos, era o mesmo caminho que ela fazia a cada final de plantão. Ela empurrou uma porta pesada e foi recepcionada pelo quase começo de inverno de Lima. Seu pescoço girou em todas as direções e, apenas quando ela deu mais dois passos na direção dos carros estacionados, é que Santana se lembrou de que o seu não estava ali. Ela girou sobre os calcanhares e partiu na direção contrária.
Apesar do caminho errado que ela tinha tomado, um sorriso discreto dançava em seu rosto. Brittany estava com o seu carro e Santana nunca conseguia evitar o sorriso quando ela pensava na loura.
- S? Aonde você vai? — Quinn perguntou quando elas se cruzaram no meio de um corredor.
- Eu esqueci que o meu carro não está aí.
- Quer uma carona? Você podia terminar de me contar o que você começou mais cedo.
- Não precisa, Q. Eu já cuidei disso.
E, sem esperar que Quinn desse qualquer indicação de que a tinha ouvido, Santana disparou na direção das portas duplas que ela quase conseguia enxergar.
Do lado de fora, a claridade do dia iluminava a cidade, mas uma camada grossa de nuvens ainda cobria o céu. Com uma das mãos apoiadas na porta, Santana parou para ajustar a bolsa no ombro quando seus olhos se desviaram do mundo do lado de fora e encontraram uma imagem que roubou seu ar. Num canto da recepção, Julia se sentava com os pés em cima da cadeira, os joelhos contra o peito e os braços ao redor deles, como se isso fosse protegê-la de tudo o que estava acontecendo. Ela tinha o lado do corpo meio enterrado na amiga que se sentava na cadeira ao lado e o casaco de moletom que ela usava era enorme para o seu corpo pequeno.
- Ei. Como é que você tá?
A garota ergueu o rosto quando reconheceu a voz de Santana e forçou um sorriso pequeno. Trilhas de lágrimas ainda eram visíveis.
- Não muito bem.
- Olha, o meu plantão acabou e eu tô indo embora. Mas eu acho que a cirurgia da Dani ainda demora mais algumas horas, então... — A voz de Santana ficou suspensa no ar e ela esticou um pedaço de papel para Julia. — Esse é o meu telefone. Se você precisar de qualquer coisa, pode me ligar.
- Obrigada, doutora — ela respondeu com os olhos novamente cheios de lágrimas.
- Não precisa agradecer. E vê se come alguma coisa. A lanchonete daqui até que é bem decente. — Três segundos depois, ela acrescentou em um tom conspirador: — Eu só não recomendo o suco de laranja. Ela já colocou uma ou duas pessoas numa das nossas macas.
- Pode deixar, doutora. Eu vou fazer ela comer alguma coisa.
- Ótimo. — Santana se levantou e caminhou na direção da saída, mas se voltou para as meninas no meio do caminho: — E o nome é Santana.
O vento que a recebeu nessa saída parecia ainda mais gelado do que o que cortava o estacionamento e Santana apertou o casaco contra o corpo enquanto procurava por seu carro. Um sorriso aliviado surgiu em seu rosto quando ela reconheceu o veículo estacionado no final da rua.
E Santana correu.
- San?
A voz de Brittany saiu carregada pelo ar que Santana forçou para fora do seu corpo. A médica entrou no carro e jogou os braços ao redor do pescoço da loura num único movimento. Ela tinha o rosto enterrado nos cabelos de Brittany, inalando o cheiro dela, quando sentiu sua cintura ser enlaçada com força e um suspiro escapou dos seus lábios.
- San, o que aconteceu?
- Agora não, baby. Só...só me abraça.
Ela sentiu quando Brittany concordou contra ela e a puxou mais para si. A respiração da médica ainda estava acelerada, mas seu coração começava a bater no mesmo compasso que o de Brittany. Era quase como se, agora, eles só soubessem funcionar no mesmo ritmo.
E elas ficaram assim por longos minutos, apenas abraçadas. Brittany tinha uma das mãos enterradas em cabelos negros, bem na base do crânio de Santana, enquanto a outra passeava pelas costas da mulher. Os movimentos eram confortantes e Santana sentiu os punhos que ela tinha cerrado na blusa de Brittany relaxarem. Quando ela achou que conseguiria respirar sem os movimentos de Brittany a guiando, Santana se afastou e sorriu para a namorada.
Brittany deslizou as mãos para o rosto de Santana e estudava cada centímetro da pele morena. Olhos azuis se demoravam em olhos castanhos e ela usou a ponta do dedo para alisar a ruga que havia se formada entre suas sobrancelhas.
- Quer conversar?
- Agora não. Depois, pode ser?
- Claro.
Apenas quando um dedo secou a pele abaixo dos seus olhos é que Santana notou que algumas lágrimas tinham escapado. A antiga Santana teria ficado mortificada e culpado o vento ou coisa parecida. A atual? A atual apenas sorriu.
- Agora, a gente tem que ir embora daqui pra tomar café da manhã com a sua irmã.
- Tem certeza? Se você preferir ir pro seu apartamento não tem problema. Eu tenho certeza que a Hannah vai entender.
- Britt, a última coisa que eu quero, hoje, é ficar longe de você — Santana disse com um sorriso e se endireitou no banco, entrelaçando seus dedos com os de Brittany. — E a gente meio que combinou com ela.
Brittany não respondeu. Ela apenas beijou cada um dos dedos que descansavam nos vãos dos seus e dirigiu.
E ela não soltou a mão de Santana até estacionar na frente do seu prédio.
Notas finais
- Vocês viram que temos capa nova? Se não, deem uma olhada no que a Só_Escondida criou. Obrigada, querida!!! Eu amei o seu trabalho!
- Sim, eu estou de volta para ficar. Mas, infelizmente, isso não significa que eu vou conseguir manter a mesma regularidade de antes. Mas não se preocupem, eu vou terminar a história.
Agora, me digam o que vocês acharam do capítulo novo!
Fale com o autor