Notas iniciais
Lá vamos nós outra vez...

A cidade parecia inerte. Com o motor do carro desligado e a rua deserta, Santana se sentia como se estivesse flutuando; sem gravidade, sem realidade, sem corda de segurança. Ela se perdia no seu infinito de dentro, nos seus medos, nas suas dúvidas, nas suas perguntas sem resposta. Tudo era muito e ela se afogava.

Até que Brittany apertou seus dedos entre os dela e o mundo voltou a girar.

Santana respirou fundo e se virou sobre o banco, o ombro enterrado na almofada e a cabeça apoiada no encosto. Brittany imitou sua posição e as duas mulheres se encararam por longos minutos.

- Pronta? — Brittany perguntou quando o frio começou a invadir o carro e ela viu a pele morena se arrepiar.

Pronta? Uma pergunta tão simples, uma única palavra e um peso tão grande pairando sobre a sua resposta. Ela estaria pronta? Algum dia, ela estaria pronta por completo? Algum dia, ela não sentiria revoada de asas dentro dela ou sua garganta não se fecharia ao redor do ar ao pensar sobre o que pronta significava?

E ela pensou em Laura, que não se importou com a resposta. Nos caras do colégio, que nem sequer faziam a pergunta. Nos pais, que sempre ouviram a resposta que queriam. Em Rafa, que perguntava e respondia em códigos. Nas meninas que ela conheceu em madrugadas bêbadas durante a faculdade, que gritavam o que ela calava. Em Quinn, que parecia aceitar a resposta sem conhecer a pergunta.

E ela pensou em duas meninas corajosas que ela conhecia. Duas meninas que viviam a resposta, respiravam, bebiam, engoliam. Porque não havia opção. Porque elas eram a própria resposta; gritada, escancarada, despudorada. Porque não ser a resposta era não ser.

E ela pensou em Brittany, que perguntava e apenas sorria, sorria, sorria.

Com um sorriso pequeno, Santana concordou em silêncio, sua cabeça se movendo para cima e para baixo o melhor que o banco permitia. Alguma coisa incerta ainda tremia dentro dela, correndo em suas veias. Mas ela percebeu que aquilo fazia parte dela, porque aquilo fazia parte de estar viva. Ela não podia esperar para sempre pela certeza absoluta porque ela não existe. O melhor que ela podia fazer era escolher o que lhe parecia mais certo, fechar os olhos, respirar fundo e saltar. E torcer para que houvesse alguma coisa do lado de lá. Ou alguém.

Perdida em olhos azuis, ela teve certeza de que sempre teria.

Antes que Santana pudesse desentrelaçar seus dedos, Brittany levou a mão da médica até seus lábios. Ela se demorou contra a pele quente até seus pulmões se encherem de Santana, numa tentativa inútil de substituir lábios que não eram seus em público.

Como que prolongando aqueles últimos momentos de calmaria, elas optaram pelas escadas. Os degraus eram vencidos em silêncio, mindinhos entrelaçados, respiração em compasso.

- Britt, sou eu que vou conhecer a sua irmã. Por que você tá com essa mão gelada?

- Não sei, amor. Eu quero muito que você e a Hannah se dêem bem. — Brittany suspirou. — E eu sei que é bobo e que eu não preciso ficar nervosa, por que você é incrível e a Hannah é incrível e eu tenho certeza de que vocês vão se adorar. Mas é que, da última vez, eu também achei isso e--

- Baby, eu realmente não preciso ouvir sobre a última vez que você apresentou alguém pra sua irmã. — Brittany abriu a boca para protestar, mas Santana continuou: — Principalmente se foi péssimo. Eu já tô nervosa o suficiente do jeito que tá.

Brittany assentiu e baixou a mão que ela estendera para a fechadura. No lugar de abrir a porta, ela puxou Santana pela mão até o vão da escada que subia para o próximo andar. No vão escuro, protegidas entre paredes, Brittany puxou o corpo da namorada contra o seu e a beijou. Ela tinha uma das mãos espalmada nas costas dela e a outra enterrada em cabelos negros, manipulando os movimentos de Santana e a mantendo onde queria.

O beijo se prolongou, todo dentes e línguas, até que elas precisaram se afastar para respirar. Mesmo então, Brittany mantinha Santana perto, seus dedos enlaçados nas costas dela, seu corpo imprensado entre Santana e a parede. E Santana podia sentir suas respirações pesadas se misturando no espaço entre elas, seus corpos aquecendo a penumbra. Ela brincava com os fios finos de cabelo na nuca de Brittany e sorriu quando o arrepio no corpo da namorada sacudiu o seu.

- De onde saiu isso? — Santana perguntou, ainda um pouco sem fôlego.

- Não sei. Só alguma coisa pra gente lembrar.

Santana sorriu contra os lábios de Brittany quando ela se aproximou para mais um beijo, suave agora, delicado. Ela usava sua boca para pintar, ali, alguma resposta para a qual ela não encontrava palavras e ela temia que talvez nunca encontrasse.

Quando elas se separaram e abriram os olhos, Santana teve certeza de que Brittany tinha entendido.

- Vem. Vamos entrar antes que a Hannah comece a achar que a gente fugiu.

Santana riu baixinho, mas o som morreu em sua garganta quando elas pararam em frente à porta do apartamento de Brittany. Ela queria fazer aquilo, ela tinha certeza, mas isso não impedia que uma energia nervosa percorresse o seu corpo e explodisse logo abaixo da superfície. Frio e calor se alternavam em sua pele e era como se ela fosse espetada por milhares de agulhas ao mesmo tempo. A sua espinha começava a derreter e a mão que Brittany segurava na sua suava como se fosse meio do verão.

Não é fácil mudar de direção depois de tantos anos num mesmo caminho. Não é fácil aprender a dizer a verdade depois de tanto tempo mentindo.

O barulho do trinco girando na fechadura soou alto como um tiro no corredor vazio e Santana se assustou. Ela estava perdida em projeções e possibilidades e o som fez com que ela pulasse e tentasse puxar a mão que Brittany segurava. Em vão. Brittany apenas firmou seus dedos ao redor dos de Santana e virou-se para ela, preocupação cavando linhas em sua testa.

- Tudo bem, amor?

A resposta de Santana foi um sorriso de lábios apertados e uma confirmação pequena com a cabeça. Era o máximo que a revoada em seu estômago permitia. O sorriso brilhante que ela recebeu de volta era mais do que motivo para cruzar aquela porta.

Do lado de dentro, Santana se sentiu entrando numa padaria logo depois da primeira fornada. O cheiro de café era espesso no ar, entremeado por uma mistura de pães, bolos, biscoitos e mais um monte de coisas que ela não conseguia identificar. Era um tipo de cheiro quente, de casa, e Santana sentiu seu sorriso se esticar e o aperto que ela tinha na mão de Brittany afrouxar um pouco.

- Vocês, por acaso, assaltaram uma padaria?

Brittany terminou de trancar a porta rindo e se virou para Santana.

- Quase. A Han é quase tão ruim na cozinha quanto eu, então eu pedi para ela comprar algumas coisas enquanto eu ia buscar você. Acho que ela deve ter exagerado um pouco.

- Você acha?

A postura mais relaxada de Santana relaxou Brittany também, que roubou um beijo rápido da namorada. Quando Santana abriu os olhos, Brittany apenas piscou o olho e deu um sorriso de esguelha, daqueles que surgiam apenas quando ela sabia que, por mais que tentasse, Santana não conseguiria ficar brava com ela. Funcionou, como sempre, e tudo o que Santana conseguiu fazer foi sorrir em resposta.

- Han, a gente chegou. Cadê você? — Brittany gritou para dentro do apartamento, puxando Santana pela mão.

- A gente tá aqui na sala, B.

Brittany e Santana trocaram um olhar rápido e Santana respirou fundo antes de cruzarem o corredor na direção dos cheiros que falavam diretamente ao estômago de Santana.

No outro cômodo, uma jovem já as esperava de pé e, mesmo que Santana não soubesse se tratar da irmã de Brittany, ela teria certeza de que elas dividiam alguma parte do código genético. A mesma estrutura esguia, a mesma pele de alabastro, os mesmo olhos de gato, o mesmo sorriso enorme. Apenas os cabelos de Hannah eram um pouco mais escuros, alguns traços de cobre se escondendo entre o dourado, e os olhos dela não tinham o azul brilhante dos de Brittany. Eles tinham um tom entre o verde e o azul, cor de mar. Fora isso, era como estar diante de uma cópia de Brittany — um ou dois centímetros mais baixa do que a original, talvez.

- Você deve ser a Santana. A Britt falou muito de você.

Santana desviou os olhos para Brittany por um segundo, sobrancelha erguida em interrogação, e perdeu o momento em que Hannah a envelopou num abraço apertado. Talvez isso fosse coisa de família.

- É muito bom finalmente conhecer você.

- Você também, Hannah.

E Santana se surpreendeu ao notar como a frase tinha sido verdadeira. Talvez os Pierce fossem o seu calcanhar de Aquiles.

- Aquele ali é o Wes, meu namorado. Mas, não liga pra ele. Ainda é muito cedo pra ele formar frases coerentes.

- Ai, desculpa. Eu tinha falado pra Britt que, se fosse cedo demais, a gente podia deixar pra mais tarde. Eu sei que o plantão acaba super cedo.

- Deixa de bobagem, Santana. Só é cedo demais pra aquele vampirinho ali. Eu tô sempre acordada a essa hora.

- Eu que o diga, né, Han? Ela sempre adorou invadir o meu quarto e pular na minha cama até eu acordar. E o pior é que ela sempre parecia saber quando eu tava de ressaca.

- Acredite, eu sabia. Mas eu nunca te vi tão bem humorada acordando com despertador quanto hoje. Foi impressão minha ou você tava cantando enquanto trocava de roupa?

Brittany arregalou os olhos para a irmã, que apenas sorriu de banda e volta para a ponta do sofá mais próxima da poltrona que seu namorado ocupava. Santana também tinha um sorriso torto no rosto quando seus olhos cruzaram com os de Brittany. A loura podia sentir o vermelho subindo pelo pescoço até a ponta das orelhas.

- É... Vamos sentar?

De torto, o sorriso de Santana se suavizou e ela puxou Brittany na direção do sofá e ocupou a outra ponta. Brittany não se sentou. Ela foi até a mesa de centro, que Hannah tinha coberto com comida suficiente para alimentar toda a equipe que tinha terminado o plantão junto com Santana, e serviu uma xícara de café — a que Santana já tinha tomado como sua — e esticou para a namorada, que aceitou com um sorriso tímido. Depois, ela empilhou um pouco de tudo num prato e também entregou para Santana.

- Pra nós duas — Brittany respondeu à pergunta que não tinha sido feita.

Santana tentava não olhar para Hannah para não ver como ela estava reagindo à interação delas. Tinha sido uma coisa dizer que Brittany podia contar que elas estavam namorando e entrar no apartamento segurando sua mão. Era outra, bem diferente, dar essas pequenas demonstrações de intimidade.

Com a sua xícara de café nas mãos, Brittany endireitou as costas e deixou seus olhos percorrerem a sala. Wes ocupava a única poltrona e Hannah e Santana dividiam o sofá, seus torsos ligeiramente voltados para a outra. Sobravam poucas opções para Brittany. Ela podia ocupar a almofada central do sofá, mas aquilo dificultaria a conversa; ela podia pegar um dos bancos da cozinha, mas ela queria ficar perto de Santana; ou ela podia improvisar.

A decisão de Brittany não demorou mais do que um segundo e, sorrindo, ela esticou o seu café para Santana. Com as mãos livres, ela se sentou no braço do sofá e manobrou o corpo até ter os pés plantados na almofada e o corpo de Santana entre as pernas. Ela sentiu quando a postura da namorada endureceu, sua coluna virando aço. Brittany apenas pousou a mão esquerda no ombro dela, desenhando círculos perto da sua nuca até ela relaxar. Só então, ela pegou sua xícara e tomou um gole.

Sobre a cabeça de Santana, as irmãs trocaram um olhar significativo e a loura mais nova limpou antes de falar.

- Então, será que agora eu posso perguntar como vocês se conheceram? — Ela acrescentou em tom conspiratório para Santana: — Eu perguntei antes, mas ela disse que só ia responder quando você chegasse.

- Foi, é?

Santana se virou de leve para olhar a namorada nos olhos. O movimento fez com que ela se apoiasse na perna que a ladeava e a morena suspirou com o contato. Quando ela se voltou para Hannah novamente, Santana não se afastou de Brittany.

- Bom, nós meio que nos conhecemos no hospital, né, Britt? — Santana começou, sem saber, exatamente, como explicar as circunstâncias do encontro delas.

- É... Uma aluna minha se machucou e eu fui com ela até o hospital. A San foi a médica que atendeu ela.

Um apertão em seu ombro impediu que Santana tentasse encarar Brittany. Elas não tinham conversado nada sobre a necessidade de mentir sobre como elas se conheceram. Essa não era uma das partes da história delas que Santana tinha pedido que Brittany não revelasse, mas ela precisava confiar na namorada. Essa era a família dela, afinal, e ela precisava confiar que Brittany sabia o que ela estava fazendo.

E não era como se Santana fosse uma expert em relações familiares. A conversa com seu pai no dia anterior tinha deixado isso bem claro.

- E, se eu bem conheço a minha irmã, ela já saiu de lá com o seu telefone?

O comentário de Hannah arrancou uma gargalhada de Santana, que pensou em tudo o que aconteceu entre a primeira noite no hospital e a manhã naquele apartamento, quando ela desistiu de fugir.

- Nem de longe.

A resposta escapou da garganta de Santana antes que ela tivesse a chance de pensar no que ela deveria responder. Elas não tinham combinado uma história e agora ela não sabia muito bem como continuar com a farsa. Encarando Brittany mais uma vez, Santana pediu em silêncio que ela terminasse.

- Eu bem que quis, mas não. Depois, a gente se encontrou por acaso num restaurante perto do estúdio e eu dei um jeito de ir com a minha aluna de volta ao hospital. Aí, não sei. A gente meio que se aproximou e, quando eu vi, eu já tinha me apaixonado.

A resposta pareceu satisfazer Hannah, que sorriu um enorme sorriso-Brittany e vibrou como em final de campeonato.

A resposta também colocou um sorriso no rosto de Santana. Ela sabia que apenas parte daquela história era verdadeira, mas era, exatamente, esta parte que fazia o seu coração pular uma batida — e ela tinha certeza de que sempre faria. A reação de Hannah também tinha acendido algo bom dentro dela, como se aquele pudesse ser um bom presságio do que estava por vir.

Dali, Brittany desviou a conversa para assuntos menos escorregadios. Ela perguntava sobre as aulas de Hannah, como tinha sido a competição, como iam as coisas em casa e contava sobre as suas aulas, as coreografias em que ela estava trabalhando, as últimas das suas alunas. Santana se mantinha em silêncio, apenas observando a interação entre as duas irmãs. Existia um carinho velado na implicância delas e as gargalhadas que preenchiam o ambiente colocavam um sorriso no rosto de Santana.

Mas, por mais que ela quisesse participar da conversa, a mistura de plantão exaustivo, comida e o calor do corpo de Brittany abraçando o seu começava a cobrar o seu preço. Santana tentava manter os olhos abertos, mas eles pareciam ter vontade própria — e o jeito como os dedos de Brittany dançavam sobre seus ombros não ajudava.

Deslizando no sofá, Santana se sentou sobre suas pernas e apoiou a cabeça na barriga de Brittany. Ela não ia dormir. Ela só ia escutar a conversa. De olhos fechados.

- Amor. Acorda, amor. Vai dormir na cama.

- Eu não tô dormindo — Santana resmungou de olhos fechados.

- Ahan. Sei.

- Não tô.

- Bom, se não está, deveria. Vem deitar, vem.

Santana sentiu quando Brittany se levantou. Ela abriu os olhos, piscando devagar até se acostumar com a claridade.

- Cadê a sua irmã? — Santana perguntou com o cenho franzido.

- Isso porque você não dormiu, hein? — Santana fez uma careta e se espreguiçou, arrancando uma risada de Brittany. — Ela tá na cozinha, lavando a louça.

- Que coisa feia. Colocando a visita pra trabalhar, baby?

- A minha irmã não é exatamente uma visita. E, se eu bem conheço a Han, ela deve ter colocado o Wes pra trabalhar enquanto ela olha. Agora, para de enrolar e vem.

- Você tá muito mandona, hoje.

Brittany agarrou as mãos morenas e, num puxão, arrancou Santana do sofá e a puxou para si. Ela enlaçou a namorada pela cintura sem soltar suas mãos.

- E eu sei que você adora — Brittany sussurrou no ouvido de Santana.

Depois de um beijo em sua bochecha, Brittany arrastou uma Santana em transe até o quarto. Largando a mão dela, Brittany foi até a cômoda e puxou uma calça de pijama e uma camiseta para Santana dormir. Girando, ela viu que a namorada estava parada no mesmo lugar.

- San? Tá tudo bem?

- Oi? — Santana sacudiu a cabeça e sorriu. — Tudo, claro. Acho que eu vou tomar um banho primeiro. Eu tô meio nojenta.

- Tá bom. — Brittany entregou a roupa para Santana e a beijou de leve. — Sua toalha tá no banheiro.

Santana beijou Brittany mais uma vez e atravessou o quarto até o banheiro da suíte. Com a porta fechada, ela apoiou as duas mãos na pia, deixou a cabeça pender entre os braços e respirou fundo. A adrenalina que seu corpo liberara mais cedo já não corria mais em suas veias e ela podia sentir o dia se acumulando em seus músculos. Seu pai, Quinn, Julia, Dani, Hannah, Brittany. Ela já não sabia mais em quê pensar primeiro. Talvez fosse melhor nem tentar.

Depois do banho mais quente da história, Santana sorriu quando viu que a blusa que ela usava era de Brittany. Apesar de ter roupas suas no apartamento, ela ainda preferia dormir com as da namorada — alguma coisa no cheiro impregnado no tecido a ajudava a dormir melhor.

- Hum, Britt? — Santana perguntou quando saiu do banheiro e viu a namorada sentada na cama, as costas contra a cabeceira e as pernas esticadas.

- Oi.

- O que você tá fazendo?

- Esperando você?

A resposta de Brittany soava como uma pergunta. Ela franziu o nariz e se arrastou pelo colchão, se sentando ao pé da cama, com os pés plantados no chão.

- Essa parte eu percebi, baby. Mas, e a sua irmã?

Brittany sorriu e puxou Santana pelo cós do pijama até tê-la entre as suas pernas. Ela abraçou as pernas morenas e gemeu baixinho quando dedos se enterraram em seus cabelos. Brittany plantou um beijo rápido na faixa de pele que aparecia bem a sua frente e apoiou o queixo ali, os olhos grudados nos de Santana.

- A minha irmã já está bem grandinha e pode se virar sozinha por um tempo. — Ela beijou as duas protuberâncias da bacia de Santana e continuou: — Já a minha namorada teve um plantão cansativo e precisa descansar. E eu sei que ela dorme melhor comigo.

Um sorriso enorme se abriu no rosto de Brittany e ela piscou para Santana. A médica riu e dobrou o corpo para beijar Brittany nos lábios.

- Eu não vou nem tentar negar.

- Ótimo. Agora, deita enquanto eu fecho as cortinas.

Com a nova rotina do seu apartamento, Brittany decidiu trocar as suas antigas cortinas translúcidas por outras mais grossas, realmente capazes de bloquear a claridade. Ela nunca se incomodou muito com o sol — na verdade, sua mãe conta que, quando ela era criança, ela girava na cama para dormir com o sol no rosto -, mas ela flagrara Santana puxando o lençol para cobrir o rosto algumas vezes. Como uma de suas atividades preferidas era observar a namorada enquanto ela dormia, Brittany preferiu investir em cortinas novas.

- Além do mais, ela não deve estar reclamando nem um pouco de ter um tempo sozinha com o Wes. E, com o meu pai, eles bem que precisam.

- Como assim?

- Meu pai é ótimo, super compreensivo — Brittany respondeu enquanto voltava para a cama. — Mas, pra ele, a gente nunca vai passar dos 11 anos de idade. E vai morrer virgem.

Santana gargalha e se ajeita sobre o corpo de Brittany; a cabeça descansando em seu peito, um braço cruzando a sua barriga e as pernas entrelaçadas.

- Melhor não contar pra ele o que a gente anda fazendo, então. — Santana se vira para olhar para Brittany. — Mas é muito legal que você seja tão tranqüila com ela. A relação de vocês parece ser muito boa.

- E é. Ela é minha irmãzinha, sabe? Mas, eu já passei por essa fase e eu confio nela. A gente conversou ontem e eu sei que eles estão sendo responsáveis. O Wes é um cara muito bacana, você vai ver mais tarde.

Santana murmurou alguma coisa e começou a se deitar sobre Brittany antes de voltar a encará-la.

- O seu pai sabe que o Wes veio com a Hannah?

- Não sei. Por quê?

- Algo me diz que ele não ia ficar muito contente com a idéia.

- Bem lembrado. Vou falar com ela depois.

Com o assunto Hannah e Wes encerrado, Santana voltou a sua posição original. Um suspiro profundo escapou de seus lábios quando ela sentiu os braços de Brittany a segurando com força.

- Você quer conversar sobre o que aconteceu no hospital? — A voz de Brittany era pequena, murmurada rente aos cabelos de Santana.

- Agora não. Prefiro pirar com uma coisa de cada vez.

- Tá. Mas, quando você quiser--

- Eu sei, baby. — Depois de um momento, Santana continuou: — Na verdade, eu queria te perguntar uma coisa.

- Pode falar, amor.

- Por que você mentiu pra Hannah sobre como a gente se conheceu? Foi por minha causa?

A voz de Santana parecia tão pequena e incerta que Brittany se agitou na cama até elas estarem deitadas de frente uma para a outra.

- Não, San. Não. — Brittany tinha a mão no rosto de Santana e os olhos grudados nos dela. — É só que... Eu não contei pra eles o que aconteceu.

- Por quê, baby?

- Não sei. Nos primeiros dias, eu não queria falar com ninguém. Acho que eu só conseguia falar com você. — Santana sorriu e beijou a palma que descansava em seu rosto. — E, depois, sei lá. Acho que eu só queria esquecer. Eu sei que é estúpido, mas--

- Não é estúpido, Britt. Eu entendo.

Brittany deu um sorriso pequeno e beijou Santana.

- E eu não quis preocupar os meus pais. Eu sei que a minha mãe ia vir pra cá e ia tentar me convencer a voltar pra casa.

- Será?

- Ela deixou bem claro que não ficou feliz com a minha vinda pra cá.

- E você? Ficou feliz?

- Eu nunca fui tão feliz quanto agora.

- Ótimo. É só isso que importa.

Depois de mais um beijo, Santana se aninhou embaixo do queixo de Brittany e, logo, a sua respiração compassada era tudo o que podia ser ouvido no quarto.

***

A chuva dos últimos dias tinha cessado e as poças acumuladas nas calçadas, secado. Agora, tudo o que restava do mau tempo era um vento afiado, que cortava as mais grossas camadas de roupas, enregelava os ossos e forçava os pares a andarem próximos em busca de calor.

Nem todos.

Era sábado na hora do almoço, o que significava que o estacionamento do Breadsticks estava lotado e uma fila começava a se formar na porta. Santana havia feito reserva para eles, então não haveria necessidade de esperar no meio daquela ventania, mas ela tivera que estacionar o carro mais longe do que gostaria e, agora, os quatro enfrentavam as rajadas.

Alguns passos mais à frente, Santana observava como Wes e Hannah caminhavam abraçados. Ele estava quase dobrado em cima dela, compensando a diferença de altura e a protegendo do frio o melhor que podia. No meio do caminho, ela notou quando ele começou a esfregar as mãos pelos braços dela e como a menina parecia derreter ao lado dele. Eles formavam um casal bonito e ela se viu sorrindo para as silhuetas deles. Mas o sorriso morreu quando ela olhou para o lado.

Brittany caminhava com passos rápidos, os braços cruzados ao redor do peito, o queixo escondido na gola do casaco, os ombros curvados e os olhos grudados no cimento da calçada. Não havia nada, ali, da sua Brittany solar e alegre. Nada da Brittany que ria e sorria e exalava vida. Uma onda de culpa subiu pela garganta de Santana quando ela percebeu que olhos azuis de vez em quando se desviavam para olhá-la de esguelha. Era um olhar carregado de uma vontade triste, quase como se ter saudade do que se tem.

E Santana sabia, racionalmente ela sabia, que não havia nada que a impedisse de enlaçar seu braço no de Brittany e caminhar até o restaurante com o calor do corpo dela envolvendo o seu. Não havia nada no gesto que denunciasse o que ela sentia pela outra mulher, ou o relacionamento delas. Não havia nada naquilo que pudesse ser considerado fora do padrão por olhos estranhos. Mas ela tinha medo. Medo porque ela sabia o que ela sentia, ela sabia o que existia entre elas e ela tinha certeza de que isso ficaria claro em seu rosto no momento em que suas peles se tocassem. Ela queria tanto estar dentro dos braços de Brittany que o máximo que ela conseguiu foi dar um sorriso apertado quando seus olhares se encontraram.

As regras entre elas eram as mesmas desde o primeiro dia, mas elas pareciam apertar seu peito um pouco mais a cada instante.

Quando eles se aproximaram da fila, Santana enroscou seus dedos ao redor do braço de Brittany e apertou uma vez, um pedido de desculpas silencioso pintado nos redemoinhos castanhos, antes de tomar a frente e entrar no restaurante.

Enquanto ela falava com a recepcionista sobre a reserva deles, Santana podia ouvir as duas irmãs e Wes conversando. O rapaz ria de alguma história que Hannah contava sobre a infância delas, mas a voz de Brittany era monótona e Santana podia sentir a sua culpa se enroscando ao redor das suas costelas. Ela tinha certeza de que era culpada por aquilo, mas ela não sabia o que fazer naquele momento. Não quando Brittany havia aceitado as regras do jogo delas desde o primeiro dia. Não era justo querer mudar tudo de repente, Santana pensou.

O clima entre eles melhorou um pouco quando se sentaram. Santana colocou a mão sobre o joelho de Brittany e pôde sentir o corpo a seu lado relaxando à medida que o calor da sua palma invadia o jeans que ela usava. Ela ainda não tinha entendido por completo o que tinha acontecido para Brittany mudar tão completamente de humor, mas não adiantaria tentar descobrir ali. Era melhor seguir com o objetivo inicial daquele final de semana.

- Então, Santana, você sempre quis ser médica? — Hannah perguntou quando o garçom trouxe as bebidas e a primeira porção de breadsticks.

- Acho que sim. Eu nunca considerei outra possibilidade. Não seriamente, pelo menos.

- Eu até pensei em fazer medicina, por uns cinco minutos. Aí eu me lembrei dos horários malucos e desisti. Acordar cedo não é pra mim.

- Eu acho que todo mundo percebeu isso, amor.

Hannah olhava para Wes através de olhos apertados e riu da cara de ofendido do namorado. Brittany e Santana riram junto com ela e Santana sentiu quando dedos cobriram a mão que ela ainda tinha sobre o joelho de Brittany. Ela arriscou um olhar para o lado e viu que era observada por olhos azuis. Sorrindo, ela virou a mão, palma para cima, e entrelaçou seus dedos com os da namorada. Eles estavam de volta ao lugar a que pertenciam.

- Realmente, os horários de quem dá plantão podem ser bem ruins --

- Bem ruins? — Brittany interrompeu, se virando sobre o assento comprido que ela dividia com Santana.

- Okay, péssimos. — Santana sorriu quando Brittany concordou com a cabeça. — Mas, sei lá, eu gosto da adrenalina, de não saber o que vai acontecer. Tem dias que aquilo parece um hospital fantasma, ainda mais aqui em Lima. E tem dias em que eu mal tenho tempo de comer.

- Eu que o diga.

Santana baixou a cabeça, rindo sem graça, um calor se espalhando pelo seu rosto. Hannah e Wes sabiam que ela e Brittany eram um casal, mas isso não significava que ela se sentisse confortável com a exposição desses pequenos detalhes da relação delas, quase como se isso pudesse esfarelar o seu castelo de areia.

Eram novidades demais se sobrepondo e Santana começava a suar debaixo daquele holofote.

- Mas, já que você desistiu da medicina, você tem alguma idéia do que você quer fazer?

Brittany percebeu a mudança de direção e a maneira como a voz de Santana escapuliu um pouco mais aguda do que o normal. Ela apertou os dedos morenos entre os seus, num misto de desculpa e obrigada encerrado no toque.

- Ainda não tenho certeza, mas, talvez, fisioterapia. Eu jogo basquete pelo time do colégio e quero continuar jogando. Mas carreira de atleta não é muito longa e, mesmo que não dê certo, eu queria continuar trabalhando com esporte.

- Mas ele total podia chegar até a NBA. O Wes é o cestinha do time.

- Bom, altura ele tem — Santana acrescentou ao ver o sorriso embaraçado do garoto. — Mas, você tá certo. É sempre bom ter um plano B.

- Diz isso pra minha irmã. Por favor.

- Por quê?

- Porque desde que ela se entende por gente que ela tem certeza de que vai fazer direito em Yale.

- Isso se chama foco, B.

- Ou teimosia. E eu não vou nem comentar sobre o papai e a mamãe...

- Tanto faz. E não é como se eu não fosse me inscrever pra outras faculdades. Eu só tenho certeza de que eu vou passar pra lá.

- Eu esqueci que a gente não pode falar nada contra os planos da princesinha. Desculpa.

As palavras de Brittany foram quase cuspidas sobre a mesa, envoltas numa acidez que Santana nunca tinha ouvido em sua voz — principalmente quando falava da irmã. Era um tom que combinava mais com Santana e ela apertou a mão que segurava a sua e se virou sobre o assento, questionando Brittany em silêncio.

- Deixa pra lá, Santana. Essa é uma discussão antiga minha e da Britt.

Antes que Santana pudesse responder, o toque do seu celular ecoou alto no restaurante e quatro olhares se voltaram para o aparelho. Ela silenciou o som e olhou de relance para a tela, sem reconhecer o número que chamava. Alguma coisa inquieta tomou conta do seu corpo e ela podia sentir sua pele vibrando contra o corpo de Brittany.

- Vocês me dão licença? Eu preciso atender. Pode ser do hospital.

Hannah e Wes concordaram em silêncio, mas Brittany se mantinha imóvel, sua atenção grudada no rosto de Santana, tentando ler suas emoções. Olhos azuis perguntavam se estava tudo bem e Santana tentou forçar um sorriso. Mas até ela sabia que ele era falso.

Santana se afastou da mesa com passos apressados em direção à entrada do restaurante. No meio do corredor de mesas, ela levou o celular à orelha e Brittany viu como seus ombros endureceram apenas segundos depois. Hannah falava com ela, mas Brittany não ouvia. Ela apenas conseguia se concentrar nos passos nervosos de Santana na calçada do lado de fora e como ela se abraçava quando uma rajada de vento soprava e como ela enterrava a mão nos cabelos ao ouvir a pessoa do outro lado.

A conversa foi rápida e, por fim, Santana guardou o celular no bolso da calça. Ela tinha as costas voltadas para as janelas do restaurante e Brittany acompanhava os movimentos do seu corpo; a coluna se erguendo reta, os ombros se endireitando, o rosto voltado para o céu por alguns instantes. Ela não podia ver o rosto de Santana, mas imaginava suas expressões: os olhos fechados, a testa franzida, as narinas infladas numa inspiração forçada.

Em momentos como esse, Brittany realmente detestava as regras delas. Claro, ela queria poder andar de mãos dadas com Santana na rua e abraçá-la de manhã no estúdio. Mas não poder fazer isso não lhe doía fisicamente como saber que alguma coisa acabara de perturbar a sua namorada e que ela não podia confortá-la. Ela não podia puxar o corpo pequeno contra o seu, ou beijar seu rosto, ou enterrar seus dedos em cabelos negros. Ela só podia esperar, assistir. Passiva. Espectadora.

Brittany já se arrastava pelo banco, regras abandonadas num repente, quando Santana entrou novamente no restaurante. Seus olhos se encontraram no meio do corredor e ela podia ver as tempestades que se formavam por trás dos globos castanhos. Santana tentou um meio sorriso, mas o lábio inferior preso entre seus dentes contradizia a tentativa.

- San? Tá tudo bem? — Brittany perguntou quando a namorada alcançou a mesa, mas não se sentou.

- É...mais ou menos. Era do hospital — ela disse, mostrando o celular quase como prova. — Um dos meus pacientes teve uma complicação e eu preciso passar lá.

Os olhos baixos de Santana diziam a Brittany que havia uma história inteira que não estava sendo contada.

- Alguma coisa com o Elijah? — Era o único paciente que Santana demonstrara ter algum tipo de ligação.

- Não. — O sorriso dela foi um pouco mais honesto dessa vez. — É um paciente que deu entrada de madrugada. Desculpa, gente. Eu realmente não queria ir, mas --

- Não tem problema, Santana. A gente entende.

O mindinho de Brittany se esgueirou e apertou o de Santana. Ela respirou fundo e se concentrou nos olhos azuis da namorada.

- Alguma coisa que eu possa fazer, San?

- Só terminar o seu almoço com a sua irmã sossegada. Vai ficar tudo bem. — Santana colocou a mão livre no bolso e apresentou a chave do carro. — Tudo bem vocês pegarem um taxi ou você quer ficar com o carro.

- Fica você com o carro, San. A gente se vira — Brittany disse fechando a mão de Santana ao redor do chaveiro. — Assim, você chega em casa mais rápido.

***

- Santana!

Ela ouviu seu nome antes mesmo de as portas se fecharem atrás de si. Bastou um olhar para o lado para Santana encontrar Julia sentada na mesma cadeira que ela ocupava no início da manhã. As horas de preocupação pintaram olheiras escuras embaixo dos olhos da menina e Santana podia ver que suas mãos tremiam em seu colo.

- O que aconteceu, Julia? Me explica direito — Santana pediu ao se sentar na cadeira ao lado.

- Depois que você foi embora, eu perguntei pra todo mundo se a cirurgia da Dani tinha terminado e ninguém me contava nada.

A voz de Julia era estável, quase vazia. Como se as horas de espera a tivessem esvaziado do desespero da madrugada, deixando um oco resignado em seu lugar.

- Aí, eu achei uma enfermeira que resolveu me ajudar. Ela disse que ia procurar saber e, um tempo depois, apareceu um médico dizendo que a cirurgia tinha terminado e que ela estava se recuperando, mas que ele não podia me dar mais informações e que eu não podia ver a Dani. Eu perguntei porque e ele disse que só podia dar detalhes pra família e que eles estavam tentando entrar em contato com os pais dela. Mas, eu sou a família dela, Santana! Eu!

- Eu sei, Julia. Eu sei.

- Isso não é justo. Como é que isso pode ser justo? Eles abandonam ela e ainda têm mais direitos do que quem tá do lado dela o tempo todo. — Ela passa a mão nos cabelos antes de encarar Santana novamente. — Tem alguma coisa que eu possa fazer?

- Infelizmente, não.

Santana sentiu seu coração despencar quando Julia exalou um longo suspiro e deixou a cabeça pender em derrota. Desde a madrugada, a médica não fazia outra coisa a não ser se colocar no lugar daquela menina que ela mal conhecia. Porque, naquela situação, elas eram iguais; sem proteção, sem direitos.

- Olha, eu não posso prometer nada, mas eu vou tentar conversar com alguém da administração do hospital e ver se eu consigo dar um jeito.

Antes de sair da recepção, a respiração de Santana ficou presa em seu peito ao ouvir a voz pequena de Julia falando com ninguém.

- Se eu pudesse, eu já teria me casado com ela.

***

Uma energia nervosa corria pelo corpo de Santana. Parecia uma mistura de raiva com ansiedade que a impedia de se manter imóvel e, quando ela notou, ela já estava tomando os primeiros degraus da escada.

Cinco lances de subida até o sexto andar e diversos médicos que a encaravam se perguntando o que Santana estaria fazendo ali, muito depois do fim do seu plantão. Esse é um dos acordos tácitos que existe entre hospital e equipe: depois que eles saem de dentro daquelas paredes, poucas coisas são capazes de fazê-los voltar antes do plantão seguinte. Mas Santana não notava os olhares intrigados que ela recebia. Sua visão tinha se fechado num túnel e ela só conseguia enxergar o próximo passo, o próximo degrau. Era mais fácil pensar nisso do que na próxima ação.

Em dias normais, o andar administrativo do hospital é mais silencioso do que a emergência, mas ainda há algum tipo de vida circulando pelos corredores, sob a forma de advogados engravatados e secretárias bem maquiadas. No meio da tarde de um sábado, não parece haver ninguém por trás das portas fechadas e os passos de Santana ecoam altos como gargalhadas forçadas. Mas ela não se preocupa com nenhuma das portas que já ficaram para trás. A única que a interessa fica no fim do corredor. E agora que ela está ali, poucos metros de distância, é que Santana se pergunta o que fazer.

Até aquele momento, Santana tem agido por instinto. Quando ela viu Julia na recepção, ela soube que precisava ajudar a garota. Quando ela recebeu a ligação antes mesmo do almoço, ela não hesitou em voltar para o hospital. E quando ela soube o que tinha acontecido nas horas em que esteve fora, Santana teve certeza de que precisava fazer alguma coisa. Qualquer coisa. Mas, agora que ela tinha uma das mãos apoiadas no batente da porta que parecera tão distante, Santana não tinha a menor ideia de como melhorar a situação.

A porta estava fechada e Santana decidiu ignorar o senso comum que rondava aquela construção que dizia que não se deveria entrar naquela sala quando a porta estivesse fechada. Mas Santana não era mais regida pelo seu cérebro ou pelas normas e padrões que ele tinha armazenado. Então, com os olhos fechados e o peito inflado até o limite, ela forçou a maçaneta e entrou no escritório.

- Dra. Sylvester, eu preciso falar com você.

A frase inteira foi expelida num único fôlego e, quando Santana ergueu a cabeça, ela se surpreendeu ao encontrar dois pares de olhos a encarando de volta. Um, apertado e gélido; o outro, arregalado e intrigado.

- Dra. Lopez, eu não sei que espírito perdido tomou conta do seu corpo pra você invadir a minha sala de jeito, mas, em respeito ao seu pai aqui presente, eu vou esquecer esse seu erro se você der meia volta e sair daqui em menos de um segundo.

De todas as pessoas que Santana imaginava encontrar no escritório de Sue Sylvester, seu pai nem entraria na lista. O que era uma besteira, agora que ela pensava sobre o assunto. Ele praticamente morava naquele hospital há, pelo menos, uma semana, planejando uma cirurgia complicada para o próximo mês. Santana teria se irritado mais com a presença dele se ela tivesse energia suficiente para isso. E, se ela nem tinha imaginado que ele pudesse estar ali, não seria isso que a deteria. A presença do pai nunca fora exatamente determinante em sua vida.

- Olha, dra. Sylvester, eu realmente não me importo com o que você vai fazer comigo. Se você vai dobrar os meus plantões, me colocar pra lavar comadres, atender todos os moradores de rua que chegarem, tudo bem. Tanto faz. Eu só quero que você me escute.

Uma sobrancelha se ergueu no rosto normalmente impassível da diretora do hospital e Santana engoliu seco. Ela sabia que tinha cruzado todos os limites com aquela invasão. Na verdade, os limites tinham ficado tão para trás, que já não era possível nem vê-los. Ela só esperava que isso não piorasse as coisas para Julia. Ou para ela.

- Ok. Você conseguiu demonstrar mais coragem do que o resto de todos os médicos reunidos. Eu posso respeitar isso. Você tem um minuto.

- Eu quero a sua autorização para que uma paciente que foi internada ontem receba uma visita — Santana respondeu sem pensar, colocando o prontuário de Dani na mesa, em frente a Sue.

A diretora folheou rapidamente as páginas do documento e o fechou. Seus olhos estavam grudados em Santana e seu rosto tinha uma expressão indecifrável.

- Doutora, eu não vi o seu nome nesse prontuário.

- Não.

- E as regras de visitação na UTI são bem claras.

- Sim.

- Eu não gosto de ser enganada, dra. Lopez. O que você não está falando?

Santana olhou de relance para o pai, imaginando quantas frações da verdade ela teria que contar. Antônio Lopez a encarava de volta, o mesmo desdém em seu rosto que ela tinha se acostumado a ver quando era criança e voltava para casa chorando depois de ser empurrada na escola pelas crianças mais velhas. Sua pele já tinha se endurecido para aquele olhar e ela travou o maxilar e se voltou para sua chefe.

- A paciente chegou inconsciente e permanece desacordada. Já foi tentado contato com os pais dela sem sucesso.

- Santana, esse hospital atende centenas de pessoas sem família todos os anos. Não é por isso que a gente vai mudar as regras todas as vezes.

Havia um tom de condescendência na voz dele que fez o sangue de Santana ferver em suas veias. Ela não era mais uma menina. Naquele hospital, ela tão médica quanto ele.

- Eu estou ciente disso, dr. Lopez — Santana frisou o sobrenome. — Mas a paciente não mantém contato com os pais. Eles romperam ligações há algum tempo.

- E quem é a pessoa que quer visitar a paciente?

Santana respira fundo e volta seu rosto inteiramente para Sue. Ela não quer ver a reação do pai à resposta que ela tem.

- A namorada dela.

Algo muito parecido com uma risada soa atrás de Santana e ela se vira para encarar o meio sorriso que o homem tem no rosto. Não há nenhum traço de divertimento na expressão dele e Santana pode sentir cada músculo do seu compor se retesar.

- Algum problema, dr. Lopez?

- Nenhum. Só que eu já entendi porque os pais dessa moça não falam mais com ela.

- E o que você quer dizer com isso?

Santana já tinha se esquecido de Sue Sylvester ou dos motivos que a tinham levado até ali. Ela já não sabia se ela falava de um caso ou dela mesma.

- É compreensível que os pais dela não queiram proximidade com esse tipo de pouca vergonha, você não acha?

- Não, eu não acho. Eu não acho que há nenhuma pouca vergonha em amar. Eu acho que pouca vergonha, como você diz, é um pai abandonar uma filha só porque ela não é exatamente o que ele quis. Isso é que é pouca vergonha pra mim.

A respiração de Santana estava acelerada e ela podia sentir seu coração arremetendo como louco em seu peito. Em toda sua vida, tinham sido raros seus enfrentamentos com seu pai. Normalmente, ela escolhia ignorar e fugir. Mas essas possibilidades nem lhe passaram pela cabeça dessa vez. Porque, agora, ela estava brigando por algo maior do que ela. De algum jeito, ela estava brigando por alguém mais do que apenas ela.

- Você ainda é jovem, mi hija. Quando você tiver seus filhos, você vai entender. Agora, o que eu não entendi é o seu interesse nas visitas de uma garota que não é nem sua paciente.

- Ela não precisa ser minha paciente pra eu querer fazer a coisa certa. É um fato que visitas de pessoas próximas aceleram a recuperação de pacientes em pós-operatório. Eu só acho que é do interesse do hospital liberar a visita.

- Isso não explica porque você parece tão interessada nesse caso em particular.

O dique se rompe, a caixa de Pandora se abre e, quando Santana abre sua boca em resposta, não há como impedir as próximas palavras.

- Por quê? Porque se fosse eu naquela cama de hospital, eu ia querer ver a minha namorada depois que eu acordasse da cirurgia. A namorada que eu apanhei pra proteger. Não duas pessoas que nunca se preocuparam em me conhecer. Porque se fosse a minha namorada naquela cama, eu não ia sossegar enquanto eu não estivesse do lado dela. Porque podia ser eu naquela cama. Porque podia ser eu, desesperada, sem nenhuma notícia.

Notas finais
Antes de ir embora, eu só queria agradecer pelos comentários de vocês no último capítulo e as mensagens que eu recebi. Eu sei que eu fiquei um bom tempo sem publicar, então é muito bom ver que vocês ainda estão aqui comigo!