Notas iniciais
Em primeiro lugar, queria dizer que eu fiquei muito feliz com a reação de vocês ao capítulo anterior. Eu não quis escrever muita coisa nas notas, para não atrapalhar as surpresas, mas aquele foi o único pedaço da história que eu escrevi fora de ordem e eu estava realmente ansiosa para que vocês lessem.
E, agora, vamos com o capítulo da semana. Esse daqui tem uma das cenas que estão na minha cabeça desde que eu comecei a escrever e eu não via a hora de publicar.

Depois da conversa na beira do lago, Santana e Brittany entraram numa espécie de rotina. Elas não conversaram mais sobre tudo o que a médica tinha contado, mas elas se viam todos os dias.

Quando Brittany não tinha aulas de manhã e Santana estava saindo do plantão, elas tomavam café da manhã no apartamento da loura. Em mais de uma vez, Santana acabou dormindo no sofá da sala e, em todas elas, ela acordou com um travesseiro embaixo da cabeça e um cobertor sobre o corpo. Num dia, ela até tentou ensinar Brittany a virar panquecas no ar como ela fazia, mas a marca circular no teto era um lembrete constante para nunca mais tentar de novo.

As suas tardes de folga, Santana costumava passar arrumando seu novo apartamento. Sempre que podia, Brittany ajudava. Juntas, elas já tinham pintado todas as paredes com as cores que elas escolheram juntas. Alguns móveis já tinham sido entregues e Santana esperava apenas a cama chegar para se mudar de vez. De alguma maneira, a ideia de dormir todas as noites apenas num colchão no chão não a atraía – por mais que ela não visse a hora de sair definitivamente do hotel.

À noite, sempre que o cansaço permitia, elas se encontravam. Os programas eram simples; cinema, jantar, pizza e maratona de filmes na sala de Brittany. Independentemente do que elas escolhessem, a noite costumava acabar da mesma maneira: bocas coladas, respirações pesadas, mãos com vontade própria, corpos incendiados. E Santana colocando as mãos nos ombros de Brittany antes de lhe lançar um ar de vergonha misturada com desculpas. Ela ainda não conseguira ultrapassar esse bloqueio estúpido que ela tinha quando se tratava de sexo com Brittany. Ela sabia que queria, seu corpo inteiro vibrava quando ela sentia as mãos finas na sua pele. Ela já tivera que tomar mais banhos frios nesses últimos dias do que em toda a sua vida, mas, apesar disso, alguma coisa a segurava quando tudo se tornava real demais. Quando ela podia sentir seu corpo sobrepujando sua mente, quando ela sentia que começava a perder o controle do que estava fazendo e sentindo, uma massa disforme se avolumava no peito da médica e ela se sentia nauseada. Às vezes, ela sentia que seu próprio corpo estava dizendo que ela ainda não estava pronta para o que aconteceria depois que elas finalmente dormissem juntas.

E ela não tinha o que falar de Brittany. Ela podia sentir que a loura queria aquilo tanto quanto ela, mas em nenhum momento Santana se sentiu pressionada. Pelo contrário, as rédeas da situação estavam inteiramente nas mãos dela e Brittany caminhava apenas na velocidade que ela permitia. Pela primeira vez, alguém estava cumprindo todas as promessas feitas a Santana e isso era mais uma das coisas que a faziam ser tão cautelosa. Ela sabia que o que elas tinham era especial demais para ser arruinado por ela e seus antigos hábitos e medos. Não, aquela era uma nova Santana. E uma que sabia esperar pelo momento certo das coisas. Mesmo que esperar parecesse uma tortura.

E existiam, também, manhãs como essa, em que ela sabia que não encontraria Brittany em casa depois de sair do hospital. Nesses dias, Santana parava numa cafeteria perto do estúdio e saía dali com dois copos descartáveis nas mãos. Ela até oferecera levar um para Mike também, mas ela recusara, dizendo que só bebia chá. Essas manhãs costumavam ser rápidas, apenas alguns minutos antes de os primeiros alunos começarem a chegar. Às vezes, a fila na cafeteria era longa demais e tudo o que ela conseguia era trocar um oi apressado e observar os primeiros minutos da aula. Mas ver o sorriso que ela sabia que Brittany reservava só pra ela fazia o esforço valer a pena.

Santana sabia que essa seria uma dessas manhãs em que ela conseguiria trocar apenas um oi com Brittany no instante em que ela pisou no estúdio. Ela podia reconhecer algumas meninas da primeira aula da loura conversando no banco da recepção e sabia que não demoraria muito até que elas fossem chamadas para começar o aquecimento. Mas, se elas estavam do lado de fora, então existia uma chance de que ela tivesse alguns minutos sozinha com a sua professora preferida. Com um sorriso torto, Santana abriu a porta e entrou na sala de aula. Mas ela não deu mais do que dois passos antes de congelar.

Do outro lado da sala, numa diagonal perfeita em relação a ela, Brittany conversava com um homem que Santana nunca tinha visto no estúdio. Ele não parecia ter mais do que trinta anos, cabelos escuros, mais alto do que Brittany. Eles conversavam mais próximos do que parecia necessário, uma das mãos dele o tempo todo tocando um dos braços da loura, que parecia sorrir para tudo o que o homem dizia. Ela ainda não tinha percebido a presença de Santana na sala e a médica se perguntava se devia se fazer ouvir, permanecer onde estava ou sair dali enquanto a sua sanidade ainda estava preservada. A decisão foi tomada por ela quando o homem se aproximou e falou alguma coisa no ouvido de Brittany, fazendo a loura gargalhar.

Um arrepio subiu pela espinha de Santana e ela aproveitou a porta aberta por uma das alunas para escapar dali. Ela sentia que suas mãos tremiam e sua respiração estava mais superficial. Ela não podia acreditar naquilo. Depois de tudo o que elas tinham conversado, depois de tudo o que Brittany tinha prometido, ela tinha presenciado a loura — a sua loura — flertando com outra pessoa. Ela sabia que elas nunca tinham conversado sobre o status desse relacionamento ou sobre exclusividade, mas ela sempre achou que isso estivesse implícito. Depois de Brittany, Santana não conseguiu mais achar graça em ninguém. E ela achou que Brittany também não.

Aparentemente, ela estava errada.

- Santana?

Uma voz masculina arrancou Santana de seus pensamentos. Mike caminhava até ela sorrindo e ela se forçou a imitar a expressão. A última coisa que ela queria era que o melhor amigo de Brittany percebesse que ela estava no meio de uma crise de ciúmes.

- Oi, Mike. Tudo bem?

- Tudo. E você? Já está indo?

- É...já. — Santana bebeu um gole do café enquanto procurava em seu cérebro qualquer desculpa plausível para aquela situação. — Eu preciso ir logo pro meu apartamento... O rapaz da TV a cabo vai fazer as instalações hoje. Isso. Eu preciso esperar o rapaz da TV a cabo.

- Ah, claro. Pelo visto, você nem conseguiu falar com a Britt, né? — ele apontou para o segundo copo de café que ela ainda segurava.

- Pois é. Ela estava conversando com alguém e eu não quis atrapalhar. Na verdade, você pode entregar pra ela pra mim?

- Tem certeza? Você sabe que você não atrapalha, né?

- Tenho, sim. Eu realmente preciso ir. Eu já estou atrasada. Eu falo com ela mais tarde — Santana entregou o copo para o rapaz e sorriu. — Obrigada, Mike.

A médica nem esperou uma resposta. Ela se virou e saiu do estúdio com um caminhar que poderia ser facilmente confundido com uma corrida. Do lado de dentro do carro, Santana apoiou as mãos no volante e a cabeça no encosto do banco, tentando controlar a própria respiração. Alguns minutos depois, ela arriscou um olhar para o retrovisor. O rosto era o mesmo de sempre, mas o fogo que ela ainda conseguia ver nos seus olhos era uma novidade.

- Ridículo, Santana Lopez. Ridículo.

***

Uma chuva fina caía na cidade enquanto Santana esperava Brittany sair do estúdio. Elas tinham combinado de sair para jantar antes do surto de ciúmes da médica, mais cedo, e ela não queria dar motivos para que a loura achasse que havia algo errado. Se Santana estava com ciúmes de uma conversa de Brittany com um cara qualquer, isso era problema da latina, não da loura. Pelo menos era o que ela achava até ver Brittany atravessando a rua — celular colado na orelha e um sorriso estampado no rosto.

Aquela expressão, e o fato de que Santana não sabia porque ela estava ali, reviraram as brasas que tinham se acomodado no estômago dela. Quando Brittany abriu a porta do carro, ainda falando ao telefone, as brasas já tinham se transformado em labaredas e Santana se esforçava para manter os olhos grudados no caminho.

- Pode deixar, mãe. Eu vou pensar — a voz de Brittany era quase sorridente, mas não aliviou a reviravolta interna de Santana. — Agora eu preciso desligar. Te amo.

Santana ouviu quando Brittany desligou o celular e jogou o aparelho dentro da bolsa. Ela também ouviu quando a loura atravessou o console do carro e sussurrou um oi no ouvido dela antes de plantar um beijo demorado na bochecha morena. E ela também ouviu quando a sua própria respiração ficou presa na garganta, num misto de sobressalto e alívio.

- Oi.

Passável, Santana pensou. Até que sua voz não tremeu muito, como ela temia. Com certeza, quanto menos palavras, melhor. Santana até arriscou um olhar de esguelha para o banco do carona, mas a expressão confusa de Brittany deixou claro que ela tinha percebido que alguma coisa estava diferente. Por que será que era sempre difícil mentir para Brittany? Mesmo quando ela não estava perdida em olhos azuis.

- Tá tudo bem, San? Você parece...não sei, distante?

- Tudo, Britt. Só...cansada.

- Hum. Por que você não veio falar comigo hoje de manhã? O Mike não tem o mesmo charme para entregar um copo de café.

- Eu estava atrasada. Só isso.

- Claro.

O silêncio dentro do carro era glacial. Brittany sabia que alguma coisa estava incomodando a médica, mas ela também sabia que não conseguiria arrancar nada dela enquanto estivessem no trânsito. E se a maneira como Santana estava apertando o volante e como seu maxilar estava teso eram alguma indicação, seria complicado descobrir qualquer coisa fora dali também.

- Você quer beber alguma coisa? — Brittany perguntou assim que elas entraram no apartamento.

- Não, obrigada.

- A que horas, mesmo, é a nossa reserva?

- Oito.

Brittany se sentou no sofá ao lado de Santana, cada uma numa ponta e uma imensidão entre elas. A televisão permanecia desligada e os únicos barulhos que podiam ser ouvidos vinham da rua abaixo delas. Santana mantinha os olhos grudados na janela, acompanhando os pequenos fios de água que escorriam pelo vidro, perfeitamente parada. Os olhos de Brittany não se fixavam em lugar nenhum, correndo pelo ambiente, a inquietude interna vazando por ali. Até que a represa se rompeu.

- Ok, Santana. Será que dá pra você me dizer o que está acontecendo?

Santana se virou um pouco em cima da almofada, mas não encontrou os olhos de Brittany. Ela não tinha certeza se conseguiria encará-la sem estourar. Ou desmoronar. Ou os dois ao mesmo tempo.

- Eu não sei do que você está falando, Britt. Não tem nada acontecendo.

- Por favor, Santana. Eu não sou nenhuma idiota. Você mal falou comigo desde que eu entrei naquele carro.

- Eu já falei, Britt. Eu estou...

- Cansada? É, eu ouvi da primeira vez. Mas eu não acredito, tá legal? Primeiro, você aparece no estúdio, mas não fala comigo. Depois, eu mal consigo arrancar meia dúzia de palavras de você. E agora? — Brittany se levantou e parou na frente de Santana. — Agora você nem olha pra mim!

- Britt... — Santana pressionou as palmas das mãos contra os olhos, enterrando as pontas dos dedos nos cabelos negros.

- Santana, olha pra mim — Brittany pediu, forçando de leve os pulsos da médica para baixo. — Você pode me falar qualquer coisa. Você sabe disso. Eu só quero que você seja honesta comigo. Só isso. O que quer que seja.

Brittany e Santana se encararam por alguns segundos, estudando suas expressões com cuidado. O ar parecia carregado, como na véspera de uma chuva de verão, mas ninguém fez menção de se mover. Brittany lançou um sorriso triste para a médica, assentiu e se levantou.

- Eu vou tomar banho.

- Com quem você estava falando mais cedo?

A voz de Santana alcançou Brittany no começo do corredor. A loura parou e se virou de frente. A médica encarava o chão, a testa franzida, enroscando os dedos nervosamente no colo.

- Quando eu entrei no carro? Minha mãe. Ela queria...

- Não — Santana finalmente ergueu os olhos e encarou os de Brittany. — De manhã. Antes da sua primeira aula.

- De manhã? Mas eu achei que você não tivesse entrado.

- Eu entrei. Eu entrei e eu vi você conversando com um cara. Quem era?

- Antes da minha primeira aula? Devia ser o Sean. Ele é pai de uma das minhas alunas. Ele só queria avisar que ela vai faltar algumas semanas.

- Sean? Quanta intimidade com um pai de aluna, não? — Santana sabia que o veneno devia estar pingando das suas palavras, mas ela não conseguia evitar.

- A gente é quase da mesma idade. Formalidade não faz o menor sentido.

- Ah, claro! Realmente, formal é a última coisa que ele parecia. Acho que a melhor definição seria...bastante amigável.

- Santana, eu realmente não sei aonde você está querendo chegar. A gente estava conversando.

- Ao pé do ouvido, Brittany! — Santana sentia o tom de voz saindo do controle, mas ela já não ligava mais. — Ao pé do ouvido!

- Tinha música tocando, as meninas estavam gritando, eu não conseguia ouvir o que ele estava dizendo. Só isso.

- Ele estava dando em cima de você, Brittany!

- EU SEI, SANTANA! — Brittany respirou fundo e apoiou o corpo na parede. — Eu até posso parecer desligada, mas eu sei quando alguém dá em cima de mim.

Santana soltou uma pequena risada e assentiu de olhos fechados. Quando ela voltou a olhar Brittany, a latina tinha uma expressão de incredulidade no rosto.

- Então quer dizer que você estava gostando?

- Como é que é? De onde você tirou essa maluquice?

- Se você sabia que ele estava dando em cima de você e você não fez nada pra afastá-lo, isso só pode significar que você estava gostando, não?

- Santana, ele é pai de uma das minhas alunas. Eu o vejo quase toda semana. O que você queria que eu dissesse? Pra ele se afastar porque a mulher-por-quem-eu-estou-apaixonada-mas-que-eu-não-posso-demonstrar-isso-em-público está pra chegar?

As palavras de Brittany esvaziaram Santana de qualquer briga que ela ainda pudesse ter. Ela tinha passado tanto tempo se preocupando com o que aquele relacionamento significava para ela e em como se sentir confortável dentro daqueles limites, que ela não tinha parado para pensar no que aquilo tudo significaria para Brittany. Ela sabia que a loura tinha orgulho de quem ela era e Santana não podia evitar pensar que, para Brittany, ficar com ela significaria voltar pro armário.

- Britt...

Os músculos de Santana pareciam feitos de chumbo e ela precisou se sentar de novo no sofá – ela nem percebera em que momento ficara de pé. Ela tinha os olhos fechados, os cotovelos apoiados nos joelhos, os dedos enterrados nos cabelos. Quando lágrimas tentaram transbordar, ela precisou respirar fundo. Seu corpo girava fora de controle e era como se sua cabeça estivesse vazia de repente.

Santana sentiu quando as almofadas cederam sob o peso de Brittany. Ela podia sentir o calor do corpo dela e um arrepio cobriu a pele morena quando a loura pousou uma das mãos no braço da médica.

- San?

A voz de Brittany era pequena, pouco mais que um sussurro, e Santana se forçou a baixar as mãos e se perder em olhos azuis. Eles também estavam rasos d'água.

- San, eu não quero nada com o Sean, nem com ninguém. Você tem que acreditar em mim.

- Eu acredito.

- É que... — Brittany respirou fundo e tomou a mão de Santana entre as suas. — Eu sei que você não está pronta pra um relacionamento público. Eu sei e eu respeito isso. De verdade. Mas, é que às vezes é difícil pra mim, sabe? É difícil não falar de você pra todo mundo que eu conheço. E não correr e te abraçar cada vez que você entra lá no estúdio. Ou andar do seu lado, na rua, e não segurar a sua mão.

- Britt, eu...eu também quero isso. Mas é que...

- Eu sei, San. Eu sei que você também quer isso. E eu tenho certeza que a gente vai chegar lá, mas tem dias que eu não sei o que fazer. Às vezes eu fico tão preocupada em te proteger, que eu acabo me esquecendo de mim. Acho que eu nunca fui muito boa em afastar as pessoas, principalmente quando eu não sei o que dizer.

- E essa é uma das coisas que eu adoro em você. Desculpa. Eu exagerei.

- Você tinha todo direito de não gostar.

- Mas eu não precisava ter reagido assim.

- Isso é verdade.

As duas riram juntas, lágrimas escorrendo dos dois pares de olhos. O clima estava um pouco mais leve e Santana inspirou longamente.

- É que... Acho que eu nunca gostei de ninguém como eu gosto de você, Britt. E quando eu vi aquele cara falando contigo, da maneira que eu queria poder falar, eu parei de raciocinar. Às vezes eu acho que seria mais fácil pra você se você encontrasse alguém menos complicada. Alguém que estivesse no mesmo lugar que você.

- Provavelmente. Mas a gente não escolhe de quem a gente gosta e eu não quero outra pessoa. Eu não quero mais fácil. Eu quero você, do jeito que for.

Um sorriso enorme surgiu no rosto de Santana e ela tomou o rosto de Brittany entre as mãos e a puxou para um beijo sufocante; as bocas abertas, as línguas se movendo juntas, as mãos se afundando em carne macia. Era como se fosse o primeiro beijo mais uma vez. As emoções brutas, os nervos expostos, um medo de abrir os olhos e encerrar o momento.

Quando elas finalmente se descolaram, Santana ainda manteve a testa apoiada na de Brittany, a pele clara prendendo a médica à Terra. Ela ainda não tinha se acostumado às enxurradas de emoções que tinham se tornado uma constante em sua vida desde que conhecera Brittany, como se a loura a fizesse sentir tudo o que ela tinha evitado durante todos esses anos.

- Ainda bem, Britt. Eu acho que eu não ia agüentar se você me abandonasse.

- Eu já falei, San. Eu não vou a lugar nenhum — beijou rapidamente os lábios de Santana. — Quer dizer, primeiro eu vou tomar banho. Depois eu não vou a lugar nenhum.

***

- San, o Breadsticks não fica pro outro lado? — Brittany perguntou quando Santana tomou o rumo da saída da cidade.

- Ahan. Mas a gente não está mais indo no Breadsticks. Eu quero te levar em outro lugar.

- Mas a gente não tinha reserva?

- Eu cancelei enquanto você estava no banho.

- Você e essa sua mania de me fazer surpresas. Será que algum dia eu vou conseguir fazer uma pra você?

Santana aproveitou o sinal vermelho e desviou os olhos para a mulher ao seu lado. Brittany tinha os cabelos presos num rabo de cavalo, a luz da rua parecia acender os olhos azuis por dentro, o semáforo emprestando um tom mais escuro para os lábios finos. A médica tomou uma das mãos dela com a sua, entrelaçou seus dedos, beijou delicadamente a pele macia das costas da mão dela e as apoiou no seu colo.

- Você, Britt. Você já é a minha maior surpresa.

O restante do trajeto até o bar foi feito em relativo silêncio. Brittany sabia que não conseguiria arrancar de Santana o destino delas daquela noite e ela preferiu se concentrar em ouvir a médica cantarolar as músicas que tocavam no rádio. Desde que tinha descoberto que Santana tinha uma bela voz, um dos passatempos preferidos de Brittany era imaginar como suas músicas preferidas ficariam cantadas por ela.

De repente, Santana encostou o carro no que mais parecia um acostamento e desligou o motor. Brittany olhava em volta, sem entender porque elas estavam paradas ali, precisamente na esquina do nada com coisa alguma.

- Chegamos.

Santana tinha um sorriso no rosto, mas Brittany continuava sem entender onde exatamente elas estavam. Diante da confusão no rosto alvo, Santana apontou para uma construção de madeira ao final do que parecia um caminho de terra batida. Algumas árvores atrapalhavam a visão, mas era possível distinguir algumas luzes e, agora que o rádio do carro tinha sido desligado, Brittany conseguia ouvir o eco fraco da música que devia estar tocando do lado de dentro.

- Uma cabana no meio da floresta? Você está querendo me assassinar ou me levar pra cama, San?

- Nenhum dos dois, Britt — Santana respondeu quando terminou de gargalhar. — É só um bar que eu costumava freqüentar quando eu ainda era adolescente.

Elas saíram do carro e Santana levava Brittany pela mão na direção da música. A loura ficou feliz ao descobrir que o caminho era asfaltado e que ela não enterraria o salto na terra. Se bem que, levando em consideração o salto que Santana usava, ela já devia ter imaginado que isso não era uma possibilidade.

- E como é que você veio parar aqui quando era adolescente?

- Bom, quando se é filha do único médico latino de uma cidade do tamanho de Lima, pode ser um pouco complicado conseguir usar uma identidade falsa. Então, eu tive que ser um pouco, digamos, criativa.

- As coisas que a gente não faz por um pouco de álcool antes da hora — Brittany disse com um ar pensativo.

- Depois eu fui descobrir que esse bar é super antigo, por aqui. Ironicamente, ele foi um bar gay durante um tempo. Na década de 70, eu acho.

- O lado arco-íris da força está em todo lugar, Santana. Nós vamos dominar o mundo.

- É, eu estou começando a perceber.

O caminho entre as árvores se abriu um pouco e, finalmente, Brittany pôde ver a construção. Era maior do que ela tinha imaginado, todo de madeira por fora, um fio de luzes dando a volta no telhado e uma grande porta vai-e-vem na entrada. Acima, um letreiro néon iluminava a noite.

- Scandals, Santana? — Brittany perguntou encarando o letreiro. — O nome do lugar é Scandals e você nunca imaginou que a força pudesse ser forte aqui?

- Pra você ver o meu nível de negação na época.

Do lado de dentro, mesas preenchiam um grande salão e algumas cabines mais reservadas acompanhavam as paredes laterais. A direita da entrada, no fundo, um bar movimentado, metade dos bancos ocupados. E na outra extremidade, algo que parecia bastante com um palco, mas, desocupado, não era possível ter certeza. O lugar tinha mudado bastante desde que Santana estivera ali pela última vez. As mesas de sinuca tinham sumido, assim como a jukebox caindo aos pedaços e a horda de adolescentes procurando um lugar com uma iluminação ruim o suficiente para que suas identidades falsas parecessem legítimas. Na verdade, a iluminação ruim do lugar era a única coisa que permanecia inalterada e Santana era grata por isso.

Ainda da porta, Santana escaneou rapidamente o lugar e, satisfeita de que não havia nenhum conhecido, se decidiu por uma cabine à esquerda do que parecia o palco. Apesar de ser uma sexta à noite, o lugar não estava cheio e as mesas mais próximas estavam vazias. Do lugar que ela tinha escolhido, seria possível ver quem entrava pela porta principal. Ela e Brittany se sentaram em lados opostos da mesa e era quase como se elas estivessem sozinhas no salão. Elas e a garçonete que se materializou ao lado da mesa delas, um sorriso plastificado no rosto e um cardápio nas mãos.

Enquanto esperavam as bebidas, os olhos de Brittany não pareciam capazes de se focar em alguma coisa por mais do que alguns segundos antes de se desviarem até a próxima. Os olhos dela voavam pelo ambiente e os de Santana permaneciam pousados, hipnotizados pela mulher a sua frente. Um sorriso preguiçoso apareceu no rosto moreno e, quando ela abriu os lábios para dizer alguma coisa a Brittany, a garçonete chegou com as bebidas e o momento se partiu. Elas se miraram por alguns segundos, antes de desviarem os olhos, rindo timidamente como duas adolescentes.

- San, agora que a gente já chegou você vai me contar por que é que você me trouxe até aqui? Eu não estou reclamando, nem nada. Só, curiosa.

Santana levou a garrafa até os lábios, criando um interlúdio que lhe comprasse um pouco de tempo para pensar numa resposta. Qualquer resposta.

- Nada demais, Britt. Eu me lembrei do lugar e resolvi ver se ainda era a mesma coisa.

- Assim? Do nada?

- É — Santana deu de ombros e tomou mais um gole da cerveja amarga.

- Santana. Eu já te conheço o suficiente pra saber que você não dispensa um jantar no Breadsticks assim, só pra saber se um bar no meio do nada ainda existe.

- Às vezes eu acho que você me conhece bem demais, pro seu próprio bem — Santana deu uma risada pequena e apoiou a garrafa na mesa, se inclinando na direção de Brittany. — É que eu tava pensando no que a gente conversou. Você sabe, sobre... É...

- Demonstrações públicas?

- Isso.

- San. A gente não precisa disso. Eu não quero te forçar a fazer nada com que você não esteja confortável.

- Eu sei, Britt. Eu sei disso e eu adoro você por isso. Mas, aí é que tá, tem dias que eu acho que eu nunca vou me sentir confortável. E tem dias que tudo o que eu quero fazer é segurar a sua mão na rua. E aí eu me pergunto, como é que eu vou saber se eu estou pronta ou não, se eu nunca me senti desse jeito?

A voz de Santana saía da garganta enlaçada em tanta fragilidade, que o coração de Brittany acelerou dentro do peito, como se quisesse escapar dali e atravessar a mesa para confortá-la. Brittany podia ouvir as lágrimas que a latina estava segurando do lado de dentro, um tremor no meio das palavras, e ela sentiu o calor das próprias lágrimas se formando atrás dos olhos. Sem pensar, ela estendeu a mão e cobriu os dedos morenos que descansavam sobre a mesa. Santana entrelaçou seus dedos e os encarou por um momento, antes de se voltar novamente para Brittany.

- É por isso que eu quis vir aqui, Britt. Eu queria saber como é poder segurar sua mão em público. Sem me preocupar com quem está por perto. Porque, por mais que eu tente negar, meu pai ainda é conhecido em Lima e eu não sou exatamente anônima. E eu ainda não tô pronta pra fazer isso lá, mas acho que eu precisava escapar dos nossos apartamentos um pouco.

- Então, isso é como se fosse um test-drive?

- Mais ou menos isso.

- E o que acontece se eu não passar no teste?

- Não existe a menor chance de isso acontecer, Britt. Eu é que tenho medo de nunca conseguir te dar tudo o que você merece.

- Eu já falei, eu quero você. Só — Santana abre um sorriso largo e aperta a mão que segura a sua. — Agora, pra isso aqui ser um test-drive sério, eu acho que você tá sentada muito longe de mim.

- Ah, é? E o que você sugere, então, Brittany Pierce?

Brittany não respondeu. Sem soltar a mão de Santana, ela se levantou, deu a volta na mesa e se sentou no banco, ao lado da médica. O espaço não era pequeno, mas Santana podia sentir como a coxa de Brittany tocava a sua, e como a loura mantinha as suas mãos entrelaçadas em cima do colo. Ela tentou se focar nos olhos dela e não nas sensações que passeavam por seu corpo sem ordem, mas isso também não ajudou. Brittany a encarava atentamente, uma sobrancelha levemente arqueada, um brilho travesso por trás dos olhos azuis. De repente, a atmosfera pareceu esquentar e o ar não conseguia chegar até os pulmões de Santana. Ela tentou sorrir para a outra mulher, mas o máximo que seu rosto conseguia produzir era uma careta. Arrancando a mão do colo de Brittany, Santana agarrou a garrafa e terminou com a sua cerveja em um único gole.

O desconforto repentino da médica não passou despercebido por Brittany, que se afastou alguns centímetros e voltou a olhar Santana com atenção. A temperatura do ar em torno dela diminuiu um pouco e ela conseguiu respirar novamente.

- Demais?

Não havia malícia na voz de Brittany, apenas cuidado. Santana colocou a garrafa de volta na mesa e se virou sobre o banco, ficando de frente para a dançarina.

- Um pouco — ela respondeu com o cenho franzido. — Acho que eu me assustei. Só isso.

- Não precisa explicar. Seu ritmo, lembra? E isso aqui já está sendo um passo enorme.

Santana abriu a boca para responder, mas um barulho na ponta do salão chamou a atenção das duas. Em cima do que Santana julgara ser um palco, um homem barrigudo sob um holofote batia num microfone para checar se ele estava ligado. Um barulho surdo ecoou pelo salão e arrancou uma careta de Santana.

- Boa noite. Boa noite a todos — o homem falou ao microfone, sem encarar ninguém. — Sejam bem vindos ao Scandals. Eu gostaria de avisar a todos que o nosso karaokê irá começar em uma hora e que as inscrições podem ser feitas comigo, no bar.

- E agora eu entendi porque esse lugar anda tão vazio — Brittany se virou com um ponto de interrogação nos olhos. — Quem é que decide ir a um bar, numa sexta à noite, sabendo que vai ter que aturar uma dezena de estranhos assassinando as músicas mais bregas dos anos 80? Nem se o álcool fosse de graça.

- Não sei, eu acho que pode ser divertido.

- Divertido? Seria divertido se eu tivesse trazido uma sacola de tomates pra jogar no bando de desafinados que vai subir naquele palco, Britt.

- Isso é muito maldoso, Santana!

- Eu acho que é uma idéia de gênio. Será que tem algum supermercado aberto aqui por perto?

- Santana!

- Tá bom, tá bom. Eu deixo os tomates pra próxima vez que a gente vier. Satisfeita?

- Não, mas eu acho que você devia cantar.

A frase de Brittany quase faz Santana se engasgar com a água que ela estava bebendo. Ainda um pouco sem fôlego, ela se vira para a loura.

- Como assim, Britt? Ficou maluca?

- Por que? Eu já ouvi você cantar. Você tem uma voz linda. Tenho certeza de que você deve ser melhor do que todo mundo aqui dentro.

- Bom, pode até ser. Mas isso não significa que eu vou subir naquele palco e cantar para um bando de estranhos.

- Então canta pra mim.

Santana abriu e fechou a boca algumas vezes, sem encontrar palavras para responder a Brittany. Há anos que ela não cantava na frente de estranhos, desde que saíra do coral da igreja que seus pais freqüentavam. Tinha sido uma imposição da mãe, mas, secretamente, ela adorava os ensaios, as apresentações, o peso dos olhares de todos os presentes nela, a maneira como os membros abriam espaço quando ela fazia os seus solos. Ela nunca fora particularmente religiosa, mas havia algo em cantar que fazia com que Santana se sentisse flutuando, de repente liberta da gravidade. Durante a época de colégio, ela ainda tentou participar de um novo clube que um dos seus professores estava montando, um outro coral. Segundo ele, ela foi muito bem no teste, mas o clube nunca alcançou o número mínimo de alunos para competir e, por isso, nunca saiu do papel. Depois de um tempo, querendo esconder mais do que mostrar, Santana guardou a voz na garganta e passou a cantar apenas quando estava sozinha.

Mas, com o pedido de Brittany ecoando em sua cabeça, ela se perguntava se tinha sido a decisão correta. Não que ela quisesse o microfone como carreira — apesar do começo meio torto, ela adorava a sua profissão e não conseguia se imaginar fazendo outra coisa -, mas ela imaginava se não devia ter mantido a música em sua vida como um hobby, pelo menos. Algo que existisse pelo simples fato de lhe dar prazer, relaxar seus músculos, aliviar sua alma. Alguma coisa em que ela pudesse gastar suas emoções.

Conforme os minutos foram passando, o volume de pessoas que entravam no bar aumentava. Claramente, o karaokê dali era conhecido na região. Elas não falaram mais sobre Santana subir no palco ou sobre os motivos que as tinham levado até ali. Era melhor se concentrar em assuntos mais amenos, a noite começando a se assemelhar cada vez mais com um encontro. As mesas próximas começaram a ser preenchidas, mas Santana não fez menção de se afastar de Brittany. Elas se sentavam próximas, a mão da loura apoiada no joelho da médica, Santana brincando com uma mecha de fios louros entre os dedos. A música era alta e, às vezes, era preciso falar ao pé do ouvido e Santana já não se importava com isso. Havia um calor confortável se espalhando dentro dela e ele não tinha nada a ver com a única garrafa de cerveja que ela tinha bebido.

Tonta diante de tudo o que estava sentindo ao mesmo tempo, Santana pediu licença à Brittany para ir ao banheiro. Ela precisava de um momento sozinha para colocar seus pensamentos em ordem.

***

Brittany ainda se sentava sozinha quando o segundo cantor terminou uma versão vergonhosa de Call me Maybe. Era uma das músicas preferidas da loura e ela se recusou a se virar e presenciar aquele desastre de trem. Ela preferia manter os olhos grudados na porta do banheiro, de onde Santana ainda não havia saído. A noite estava indo tão bem até àquele momento que Brittany não sabia o que pensar do sumiço da médica. A voz do dono do bar, que também fazia as vezes de mestre de cerimônias, interrompeu a linha de raciocínio dela.

- Obrigado, Vic. Foi uma bela apresentação. Nossa próxima atracão é Jennifer Thompson. Aplausos.

Brittany aplaudiu sem vontade, junto com o restante do público. Ela ainda se mantinha concentrada na extremidade oposta do salão, prestes a se levantar e ir procurar por Santana, certa de que alguma coisa teria acontecido com a latina. Até que --

- Oi.

O pescoço de Brittany estalou com a velocidade com que ela o girou em direção ao palco. Ela estava certa de que seus ouvidos deviam estar pregando uma peça nela, mas, quando ela se acostumou com a intensidade do holofote, não havia mais como ter dúvidas. Era realmente Santana em cima do palco, em toda a glória da sua pele morena. Seus olhos se encontraram no meio do salão e Brittany sentiu a boca secar. Ela mudou de cadeiras para ficar de frente para o palco sem desviar os olhos da médica ou do sorriso particular que ela lhe lançava.

- Eu queria dedicar essa música para uma pessoa muito especial, que me convenceu a subir aqui. Espero que não seja tão ruim quanto o Vic, ali. Desculpa, cara, mas você devia se manter a, pelo menos, 50 metros de distância de um microfone. Nada pessoal.

Uma gargalhada reverberou dentro do salão e Brittany viu quando os ombros de Santana relaxaram. A médica acenou de leve para a pessoa responsável pelo som e ela sorriu quando os primeiros acordes alcançaram a platéia. Em cima do palco, Santana tentava se lembrar das lições que ela aprendera durante os anos de coral e fazer contato visual com todos os presentes, mas isso era quase impossível quando olhos azuis a olhavam com tanta adoração e as palavras que saíam da sua boca eram as mais verdadeiras que ela tinha dito em anos.

- Baby, eu estou impressionada com o jeito que você me ama o tempo todo e talvez eu tenha medo do jeito que eu amo você — Brittany não desviava os olhos da mulher em cima do palco, sentindo cada palavra tocar sua pele como uma carícia. — Talvez eu esteja impressionada com a maneira com que eu realmente preciso de você.

Brittany estava hipnotizada. A voz de Santana tinha feito todas as outras pessoas desaparecerem até que só restaram elas dentro do salão. Ela acompanhava os movimentos cada vez mais fáceis da mulher em cima do palco, a maneira como ela sorria entre os versos, como ela se entregava às palavras, como ela parecia crescer junto com a própria música. Para Brittany, era como se, diante dos seus olhos, Santana começasse a se tornar a pessoa que ela deveria ter sido.

- E talvez eu seja uma solitária que está no meio de alguma coisa que não entende — Santana parou no meio do palco, embaixo do foco de luz, para os próximos versos. — E talvez você seja a única mulher que possa me ajudar. Baby, você não vai me ajudar a entender?

Santana continuou a música até os últimos versos, quando uma onda de aplausos explodiu dentro do bar e arrancou Brittany da bolha que isolava ela e Santana do resto do mundo. Todos os outros presentes tinham ouvido a mesma música, a mesma rouquidão melodiosa da voz da médica, mas só Brittany sabia o verdadeiro significado do sorriso enorme que Santana tinha nos lábios enquanto ela agradecia os aplausos. Aquele momento tinha sido só delas, mesmo com tantas testemunhas.

- Obrigado, Jennifer. Acho que vai ser difícil alguém superar essa apresentação, hein? Mas ainda tem gente que quer tentar. Então, vamos para o nosso próximo cantor: William Schuester.

Santana desceu do palco e Brittany mal conseguia permanecer sentada. Ela praticamente quicava no banco, esperando que a latina voltasse para a mesa delas. Um homem de cabelos encaracolados tinha começado a cantar um rap antigo no palco, mas Brittany não conseguia ouvir as palavras que ele dizia. Ele até não era tão ruim, mas todos os seus sentidos estavam concentrados na mulher que caminhava em sua direção. Santana ainda tinha o mesmo sorriso enorme nos lábios quando alcançou a loura.

- San...

- Vamos embora daqui? — Santana perguntou com uma das mãos estendidas para Brittany, uma garrafa d'água na outra.

- Mas e a conta?

- Eu já acertei tudo lá no bar. Eu só quero sair daqui com você. Vem?

Brittany fez que sim e tomou a mão que lhe era oferecida. Santana praticamente corria enquanto arrastava Brittany para fora do bar. A cada três ou quatro passos, ela olhava para trás e a loura podia ver aquela covinha que só aparecia no rosto moreno quando ela sorria de verdade. Elas não pararam até chegar ao carro. Longe do barulho do lado de dentro do salão, era possível ouvir a risada adolescente das duas se misturando aos sons da noite.

Santana tinha estacionado o carro numa saída transversal da estrada principal e, àquela hora, tudo ao redor delas estava deserto. Com a descarga de adrenalina do palco ainda correndo nas veias, Santana apoiou as costas na porta do carro e puxou Brittany pela mão, até que elas estivessem com os corpos colados. No mesmo movimento, ela levou uma das mãos à nuca da dançarina e a trouxe para um beijo.

Elas podiam estar num local deserto, a iluminação podia ser precária, elas podiam estar fora de Lima. Não importava. Aquela ainda era a primeira vez em que Santana se permitia beijar Brittany em público daquela maneira. E nada parecera tão certo em toda a sua vida. Nem quando ela subiu ao altar com Rafael, nem quando ela recebeu seu diploma em medicina, nem quando ela foi embora da cidade, nem quando ela salvou a sua primeira vida. Nada, nunca fora tão certo quanto ela nos braços de Brittany, os dedos enterrados nos cabelos louros dela, uma das mãos se agarrando à blusa dela como se tivesse medo de que aquilo fosse só um sonho, uma ilusão que se desfaria quando ela abrisse os olhos.

Mas não era sonho, nem ilusão e Brittany ainda estava a sua frente quando Santana, finalmente, abriu os olhos. E tê-la assim, tão perto, roubou o pouco ar que a médica ainda conseguia respirar. Ela nunca vira aquele tom escuro nos olhos azuis, parecia mais o meio do oceano em dia de tormenta. Havia, também, um sorriso novo nos lábios dela, como se Brittany estivesse diante da coisa mais incrível da face da Terra. E era apenas aquilo que Santana queria ser — a coisa mais incrível do mundo de Brittany.

- Uau — Brittany suspirou. — Se eu soubesse que o resultado seria esse, eu já teria te arrastado para um karaokê há muito tempo.

A resposta se Santana foi uma risada, se sentindo mais relaxada do que havia se sentido a noite inteira. Havia alguma coisa de tranqüilizadora na maneira como Brittany pousava os braços em seus ombros, os dedos brincando com os fios finos da sua nuca, o corpo dela apoiando o seu contra o carro.

- Nem pensar! Eu quase morri em cima daquele palco.

- Mas você cantou tão bem. Eu tinha certeza.

- Você gostou mesmo? — Brittany balançou a cabeça afirmativamente e Santana sorriu. — Que bom. Porque cada palavra foi verdadeira.

Brittany sorriu em resposta e aproximou o rosto do de Santana. A médica se surpreendeu quando não sentiu medo da aproximação. Na verdade, ela esperava por aquilo; o nariz desenhando o seu, a respiração úmida aquecendo a sua pele, o lábio roçando o seu antes de se fechar sobre ele num beijo lento.

- Só uma pergunta: Jennifer Thompson?

- Era o nome na minha identidade falsa. Eu queria mesmo Jennifer Lopez, mas achei que ia ficar meio óbvio.

- Só um pouquinho.

Acima delas, o céu parecia salpicado de diamantes. Santana jogou a cabeça para trás e admirou o infinito por um momento, tão diferente das grandes cidades em que ela tinha morado, tão mais vivo. Ela suspirou, o ar frio da noite preenchendo seus pulmões, e fechou os olhos sorrindo. Ela não queria se mover, ela não queria pensar, ela não queria fazer nada que pudesse acabar com o encanto daquele momento — nem quando os dentes de Brittany arranharam de leve o seu queixo. Mas o vento que soprava parecia ter outras idéias e Santana pôde sentir a pele de Brittany se arrepiando sob suas mãos.

- Vamos?

As duas entraram no carro e dirigiram em relativo silêncio. O rádio sintonizado numa estação de clássicos e Santana acompanhando os cantores na maioria das músicas. Depois de algumas, ela parava para explicar a Brittany algum detalhe sobre a gravação ou sobre a banda e a dançarina notou um brilho diferente nos olhos castanhos, um tipo de vivacidade que ela ainda não tinha ouvido na voz dela. A dançarina se divertia com a maneira como Santana começava a falar rápido e soltava as mãos dos volantes por alguns segundos, quando o que tinha acabado de tocar era algo que realmente tocava a médica. Ela não queria que a noite tivesse mais fim.

Mas já era tarde pra pensar nisso, porque Santana acabara de fazer a curva para entrar na rua de Brittany.

A loura deu um sorriso triste e se virou para Santana, antecipando a despedida. Mas o carro não parou em frente ao prédio verde que ela esperava ver pelo vidro do motorista. Não, Santana continuava andando, concentrada no caminho. Brittany se virou, apenas para confirmar, e precisou esticar o pescoço para divisar o seu prédio, que já tinha ficado para trás. Voltando-se novamente para Santana, ela viu que a médica ainda mantinha os olhos fixos no caminho que ela iluminava com os faróis.

- San? Pra onde a gente tá indo?

Santana nunca lhe parecera tão plácida quando ela parou o carro na esquina, virou-se com um sorriso e lhe estendeu a mão direita.

- Confia em mim?

Notas finais
Antes de fugir para as montanhas depois desse final, eu vou deixar o nome e o link da música que a Santana canta. É Maybe I'm Amazed, do Paul McCartney (http://letras.mus.br/paul-mccartney/63135/). Recomendo que vocês escutem - na verdade, foi ela que inspirou toda essa fic...