Notas iniciais
Como hoje é feriado, o capítulo está saindo um pouquinho mais cedo. Aproveitando, quero responder algumas perguntas que vocês fizeram nos comentários.
Sobre a Laura e o assassino da Sarah, tudo será resolvido. E sobre a frequência de atualizações, uma semana é mais ou menos o tempo que eu levo para terminar cada capítulo, por isso a distância entre atualizações. Eu sempre trabalho com alguns capítulos de frente - estou trabalhando no 28 agora - para não correr o risco de demorar demais com algum deles e atrasar a publicação. Então, por mais que eu queira postar diariamente, essa é a melhor frequência possivel.
E, agora, Brittango! (@Loree: adorei a definição)

Tango.

Tango!

Tango? Jura?

Os primeiros acordes dos violões ainda nem tinham ecoado na sala e Santana já se arrependia da sua escolha. Como ela tinha achado que aprender tango com Brittany seria seguro para a sua sanidade mental?

Antes de sair do carro, do outro lado da rua, Santana viu quando as alunas da última aula de Brittany saíram do estúdio, sorrindo e suadas, se despedindo do lado de fora da porta e partindo em direção aos carros que tinham estacionado ao longo da calçada. Ela olhava para os rostos daquelas mulheres, para o brilho de satisfação que elas tinham no rosto e tentava empurrar para o fundo do estômago o nervoso que tinha tomado conta dela desde o início da tarde. Ela adorava a idéia de passar mais tempo com a loura, mas Santana não conseguia suportar a possibilidade de que pudesse decepcionar Brittany. E ela sabia que seu corpo não costumava obedecer muito bem quando elas estavam próximas.

Mas agora não havia mais jeito. Ela já estava dentro do estúdio, seguindo na direção que a secretária apontou antes de fechar a porta. O solado de borracha do seu tênis fez um barulho alto quando ela entrou na sala e Brittany levantou a cabeça, sorrindo quando seus olhos encontraram os de Santana. Ela sorriu de volta e acenou timidamente com uma das mãos.

- Eu não sabia direito o que calçar.

Brittany deixou os olhos correrem pela extensão do corpo de Santana, notando o par de tênis gastos, a calça de ioga preta e a camiseta cinza; os longos cabelos negros estavam presos num rabo de cavalo solto e ela não parecia ter nenhuma sombra de maquiagem no rosto. Exatamente a Santana relaxada de que ela tanto gostava. O sorriso dela cresceu antes de responder:

- Está perfeito. Eu prefiro começar com uma base mais firme. Quando você estiver mais confortável com os passos, a gente pensa em mudar para um salto.

- O que só deve acontecer em umas duas décadas. Pelo menos. Você sabe, né?

- Eu duvido — ela respondeu atravessando a sala até onde Santana se mantinha. — Eu tenho certeza de que você vai aprender rápido. É só ter o incentivo apropriado.

A voz de Brittany caiu uma oitava na última frase e seus olhos pareciam querer fazer furos no rosto de Santana. Ela engoliu seco, pensando em que tipo de incentivos a loura tinha em mente. Se antes, a médica não tinha certeza de que conseguiria acompanhar os movimentos da dançarina, agora ela tinha dúvidas se conseguiria mover os pés do chão. Brittany apenas sorriu mais uma vez e entrelaçou suas mãos, puxando Santana até o meio da sala, de frente para a parede coberta por espelhos que quase alcançavam o teto.

- Eu vou começar com o passo básico do tango, ok? Primeiro, eu só quero que você olhe o que eu estou fazendo, depois você repete.

Santana apenas assentiu e Brittany se posicionou ao lado dela, movendo-se no ritmo da contagem que ela fazia em voz alta. A médica se sentia incapaz de desviar os olhos dos movimentos dela, uma graciosidade felina comandando cada músculo. Quando Brittany terminou de demonstrar os primeiros passos e pediu que elas tentassem juntas, Santana não sabia se sequer se lembrava qual perna deveria mover primeiro, mas ela não estava disposta a admitir derrota tão cedo e tentou.

Brittany riu baixinho da tentativa de Santana e se colocou atrás da morena, sua mão firmemente presa nos quadris dela.

- Eu vou fazer junto com você.

Não ter Brittany ao lado se provou uma tortura ainda maior para a médica. Com aqueles sapatos, a diferença de altura entre as duas ficava ainda mais evidente e Santana podia acompanhar os olhos azuis dela pelo reflexo nos espelhos a sua frente — e pelas pequenas linhas que haviam se formado ao redor deles, ela até adivinhava o tamanho do sorriso que iluminava o rosto da loura. Brittany deu mais um passo e colou a frente do seu corpo às costas de Santana, que arfou quando dedos longos escorregaram pela lateral do seu corpo e se ajustaram em cima do seu osso da bacia. A camiseta que ela vestia subiu com o movimento e ela podia sentir a pele de Brittany tocando a sua.

A dançarina recomeçou a contagem e elas se moveram em conjunto. A respiração de Brittany tamborilava no pescoço de Santana e ela precisou fechar os olhos para tentar diminuir o número de sentidos invadidos pela presença da loura. Mas sem enxergar o que fazia, Santana não conseguia se lembrar da seqüência de movimentos e sentiu o exato momento em que seu corpo foi para um lado e o de Brittany para o outro. Um grunhido de irritação começava a se formar em sua garganta quando ela sentiu braços se enroscando pela sua cintura e um queixo se apoiando em seu ombro.

- Se você ficar de olhos fechados fica mais difícil de ver o que você está fazendo.

- Eu estou tentando me concentrar — Santana respondeu com sua voz mais séria e viu quando a imagem de Brittany ergueu uma das sobrancelhas para ela.

- Ainda bem que você não precisou se concentrar tanto quando me deu os pontos na testa.

- Brittany! — Elas se encaravam pelo espelho, choque no rosto de uma e divertimento no da outra. — É assim que você fala com todas as suas alunas?

- Não. Apenas com as que eu posso fazer isso.

Os joelhos de Santana cederam um pouco quando ela sentiu os dentes de Brittany arranhando de leve o seu pescoço. Depois, uma trilha de beijos molhados cobriu o mesmo caminho e um suspiro agradecido escapou dos lábios dela. A loura sorriu contra a pele do ombro da morena antes de depositar um beijo ali e virar Santana em seus braços. Ela mal terminou o movimento e selou lábios carnudos com um beijo demorado. Suas mãos estavam espalmadas nas costas da médica e esta se segurava nos ombros de Brittany. Quando todo o ar que elas tinham nos pulmões foi extinto, Brittany manteve Santana no mesmo lugar e esperou que ela abrisse os olhos.

- Você precisa relaxar, San. Eu quero que você se divirta aqui, não que você se estresse.

- Mas é difícil — Santana choramingou.

- O começo é sempre mais complicado, mesmo. Mas se você ficar preocupada demais em fazer tudo certo, vai ser ainda pior. Só...se solta.

Brittany riu quando a resposta de Santana foi apenas um bico contrariado, que sumiu depois de alguns beijos da loura. Então, a médica apenas sorriu, assentiu e se virou, assumindo a posição inicial delas.

As próximas repetições foram um pouco mais fáceis e Santana achou que começava a pegar o jeito da coisa quando ela conseguiu completar todo o passo sozinha, sem o corpo de Brittany lhe apontando a seqüência de movimentos. O êxito lhe rendeu mais um beijo e, quando elas se separaram, a loura se manteve na frente de Santana.

- Não falei que você ia conseguir? Acho que agora já dá pra gente tentar juntas.

A mão direita de Brittany se manteve nas costas de Santana e a esquerda procurou a mão direita da morena, assumindo a posição de dança de salão. Seus torsos estavam colados e Santana podia sentir a respiração de Brittany contra o seu peito. Elas estavam próximas demais o velho bando de borboletas já tinha alçado vôo no estômago da médica. Ela já não sabia mais se tinha sido uma boa idéia ter concordado com aquelas aulas, mas não teve tempo de pensar sobre o assunto, porque Brittany reiniciou a contagem e começou a carregar o corpo dela pelo salão.

- Você lembra que sou eu que estou conduzindo, certo? — Brittany perguntou quando elas terminaram a primeira repetição.

Santana apenas assentiu. Ela não estava tentando tomar a liderança de Brittany, mas anos de auto-afirmação e de uma tentativa desesperada de controlar a própria vida tinham condicionado a médica a sempre tentar tomar as rédeas das situações. Por isso, ela se sentia tão indefesa na presença de Brittany. Porque a loura tinha, desde o primeiro momento, a capacidade de direcionar Santana para onde ela queria. Não que Santana não estivesse gostando da direção, mas era difícil delegar o volante para outra pessoa depois de tanto tempo.

A contagem foi reiniciada e a médica mantinha os olhos grudados nos próprios pés, tentando se lembrar dos movimentos que ela tinha que fazer e tentando não pisar nos dedos de Brittany no processo. Quando elas terminaram a seqüência, a professora se manteve estática até que Santana erguesse os olhos.

- Eu quero que você olhe pra mim. Esquece os seus pés. Você está dançando comigo, não com o chão.

Santana riu de leve e se concentrou nos olhos azuis de Brittany antes que elas voltassem a se mover pela sala. Agora, elas já não paravam ao final de cada seqüência. Elas continuavam rodopiando pelo espaço, Brittany conduzindo o corpo da médica na direção que queria, completamente em controle das vontades dela. Santana apenas se apoiava no ombro e na mão de Brittany e tentava acompanhar seus movimentos, mas, mesmo que quisesse, ela não seria capaz de se desvencilhar do elo que a mantinha presa ao olhar da dançarina. A contagem havia cessado e o único som da sala eram seus pés contra o chão e suas respirações pesadas.

Um calor novo surgiu no corpo de Santana quando ela percebeu a intensidade dos olhos azuis que a encaravam. Aquela não era a mesma Brittany que ela tinha visto nas fotos espalhadas pela recepção e ela escorregou a mão até o pescoço dela, aproximando ainda mais seus corpos. Como se aquilo fizesse parte da coreografia, aos poucos seus movimentos foram desacelerando até que elas se viram paradas, frente a frente, no meio da sala. Santana umedeceu os lábios ao notar que Brittany olhava para eles e respirou fundo antes de usar a mão que tinha no pescoço da loura para fechar o espaço entre elas.

A posição de dança logo foi abandonada e Brittany puxou Santana contra si, uma das mãos firmemente apoiada no espaço entre os ombros dela. Ela beijava a médica com paixão, que respondia em igual intensidade, se agarrando à barra da blusa dela como podia. Brittany arrancou o elástico que prendia os cabelos de Santana e enterrou os dedos nos fios negros, arqueando o pescoço dela e reivindicando aquele território. A médica tinha as mãos na pele das costas da loura e soltou um gemido quando sentiu seu corpo ser imprensado contra o vidro frio do espelho. Aquela era a única parede sala a não ter uma barra de ferro no meio e Brittany aproveitou o apoio para se moldar ainda mais à Santana.

Os pulmões de Santana pareciam próximos do colapso e ela não sabia se se concentrava nas unhas arranhando seu escalpo, na boca explorando a pele sensível atrás da sua orelha ou no quadril ondulando contra o seu corpo. Ela soltou o coque que prendia os cabelos de Brittany e forçou os lábios dela a reencontrarem os seus. A cada movimento que elas faziam, Santana sentia que uma piscina de lava se formava em seu baixo-ventre e que sua razão estava perdendo a batalha pelo domínio contra o seu corpo. Em poucos segundos, ela não seria mais capaz de nenhum tipo de pensamento racional.

Até que Brittany correu a mão pela lateral do corpo de Santana e puxou sua perna pelo joelho, prendendo-a ao redor do próprio quadril. Uma onda de choque percorreu o corpo da morena quando seus corpos se encaixaram e uma série de alarmes soou em sua cabeça. Com tudo o que lhe restava de força no corpo, ela apoiou as mãos nos ombros de Brittany e encerrou o beijo.

- Britt...

Os olhos de Brittany se abriram, pesados, assim que ela ouviu a voz de Santana. Ela ainda mantinha uma das mãos segurando a perna que ela tinha tomado, mas a outra escorregou até o rosto de Santana, acarinhando a pele abaixo do olho castanho. A médica respirava com dificuldade e precisou de alguns segundos antes de conseguir falar.

- Eu...eu acho melhor a gente parar por aqui. É que...

Um lampejo de compreensão surgiu nos olhos de Brittany e ela soltou a perna de Santana e se afastou da médica. Ela não conseguia encarar os olhos dela e arrastava as mãos pela lateral do corpo como se tivesse medo de tocar a morena caso não se mantivesse ocupada.

- Ai, San, desculpa, desculpa, desculpa. Eu não queria... Quer dizer... Eu achei... Desculpa.

- Britt? — Santana avançou até a mulher que tropeçava nas palavras e tocou-lhe o ombro. — Britt?

O toque de Santana trouxe Brittany de volta para o presente e ela ergueu os olhos, encontrando com os de Santana. Ela esperava encontrar raiva ali, ou o mesmo desprezo que ela tinha visto quando elas se beijaram pela primeira vez. Mas tudo o que ela viu foi uma mistura de tristeza com carinho. E isso apertou ainda mais seu coração.

- Você não tem que me pedir desculpas — Santana falava com voz suave. — Você não fez nada de errado.

- Mas eu te forcei...

- Você não me forçou a nada, Britt. Tudo que eu fiz, que nós fizemos, foi porque nós duas queríamos. E quando eu pedi, você parou. Eu não tenho que te desculpar por nada.

- Mas é que...

- Vem cá.

Santana sorriu para Brittany e desceu a mão do ombro pálido para a mão dela, entrelaçando seus dedos e conduzindo a loura até um canto da sala. Ela apertava a mão de Brittany de leve e a outra podia sentir como a pele morena estava fria. Quando elas se aproximaram do aparelho de som, Santana se sentou no chão e Brittany se juntou a ela. Elas ainda tinham os dedos entrelaçados quando a médica voltou a falar.

- Eu quero, Britt. Eu quero muito. Caralho, tem horas que eu não consigo nem raciocinar quando você está perto de mim — Brittany soltou uma risada e Santana beijou-lhe as costas da mão. — Mas eu ainda não estou pronta. Não para o que eu acho que a gente merece.

- Eu entendo.

- Não, você não entende.

Brittany pendeu a cabeça para o lado e Santana inspirou profundamente, se preparando para o que ela sabia que precisava explicar. Ela confiava em Brittany e sabia que não era mais a pessoa que tinha sido, mas aquilo não tornava mais fácil assumir uma versão dela mesma que ela considerava tão pequena. Brittany percebeu seu desconforto e apertou a mão de Santana. Elas trocaram um sorriso e Santana voltou a falar.

- Quando eu era mais nova, eu costumava usar sexo como uma moeda de troca. Foi uma das maneiras que eu encontrei de me manter segura. Eu parecia ousada, ninguém se metia comigo e ninguém se preocupava em olhar mais de perto. E era fácil, também, sabe? Porque nenhuma daquelas pessoas significava nada pra mim.

Os olhos de Santana se desviaram para suas mãos que ela mantinha em se colo e ela deixou que seus dedos brincassem com os de Brittany.

- Isso durou até eu entrar na faculdade. Era o que eu conhecia, sabe? Até que eu conheci o Rafa, mas com ele era mais obrigação do que vontade, então também não significava muita coisa — ela engoliu em seco e voltou a encarar Brittany. — Mas você significa. Você significa muita coisa e é por isso que eu não estou pronta. Porque você merece uma pessoa inteira e eu acho que eu ainda estou pela metade.

Ela tinha os olhos marejados ao terminar de falar e forçou um sorriso tímido. Brittany tinha o rosto sério e Santana começou a se preparar para se afastar quando viu uma lágrima escorrer pelo rosto dela. A loura sorriu e puxou o corpo de Santana contra o seu, prendendo ela num abraço que tentava dizer mais do que ela se sentia capaz.

- Você também significa muita coisa pra mim, San. E eu espero o tempo que for preciso.

Santana enterrou a cabeça no pescoço de Brittany e fungou de leve as lágrimas que teimavam em se formar. A capacidade de compreensão de Brittany ainda a assustava às vezes e ela não sabia muito bem o que fazer diante daquilo. Com um sorriso, ela se afastou, tomou o rosto da loura entre as mãos e beijou os lábios rosados com o máximo de carinho que ela era capaz. Brittany sorriu dentro do beijo e elas voltaram a se sentar, Santana aninhada na lateral do corpo da dançarina, um braço protetor ao redor dos seus ombros.

- Mas isso não quer dizer que a gente tenha que parar, tá? Só...

- Ir mais devagar? — Santana assentiu contra o ombro de Brittany e ela lhe beijou os cabelos. — Não tem problema. Mas eu acho que você é quem vai ter que conduzir essa parte.

***

Ela está perdida. Não. Santana se sente completamente perdida dentro da loja de tintas. Mais cedo, quando o corretor ligou dizendo que estava tudo certo com o contrato e que ela podia pegar a chave do apartamento na portaria, a médica achou que seria melhor pensar logo nas cores das paredes antes que as suas coisas chegassem à cidade — a idéia de se mudar para um apartamento cheirando a tinta também não era exatamente agradável. Mas agora que ela se via com um monte de amostras nas mãos, ela não sabia se preferia uma Saia Justa ou uma Vida Moderna.

O celular guardado no bolso do short jeans tocou e Santana abandonou, temporariamente, a crise existencial que ela estava tendo no meio do corredor da loja. Era apenas uma mensagem da sua operadora, informando sobre uma nova promoção, mas ela apagou o texto antes mesmo de terminar de ler. Uma idéia surgiu na mente da médica ao encarar o aparelho em suas mãos e ela discou os números que já tinha decorado, torcendo para que a pessoa do outro lado atendesse. Quando o terceiro toque de chamada foi interrompido pela metade, Santana suspirou aliviada.

- San!

- Britt, eu preciso da sua ajuda.

- Claro. O que houve? Está tudo bem?

- Eu não consigo decidir entre Geléia de Amora e de Uva.

- Hã? Do que você está falando? Onde você está?

- Na loja de tintas.

- Eu te encontro aí em 15 minutos.

Brittany não fez mais nenhuma pergunta e, quando ela entrou no estacionamento da loja, ela encontrou Santana dentro do carro. Ela tinha espalhado as amostras pelo painel do carro e encarava os papeizinhos coloridos como se eles guardassem o segredo da vida. Brittany deu uma risada silenciosa quando viu a ruga que havia se formado bem no meio da testa morena e entrou no carro usando seu melhor sorriso.

- San?

- Eu já olhei tanto pra essas porcarias que eu não sei mais se eu prefiro Pantufa ou Sapato de Salto.

- A gente ainda está falando de tinta?

O olhar de completo desespero que Santana lançou fez Brittany se derreter um pouquinho. Ela avançou pelo console do carro e envelopou o corpo da médica num abraço, murmurando besteiras em seu ouvido. Quando ela sentiu que Santana já não se agarrava à sua blusa com tanta força, Brittany afastou um pouco seus corpos e tomou o rosto moreno entre as mãos.

- Particularmente, eu prefiro pantufas — Santana soltou uma risada nervosa e Brittany lhe deu um beijo na testa. — Agora me deixa dar uma olhada nessas amostras.

Santana reuniu todos os papeis espalhados e entregou para Brittany. Quando seus dedos se tocaram, ela segurou a mão da loura por mais alguns segundos, olhando em seus olhos.

- Obrigada por ter vindo, Britt.

- Você parecia em pânico ao telefone.

- Eu não estava em pânico — Brittany respondeu com um arquear de sobrancelha e Santana se entregou. — Tá bom, eu estava entrando em pânico. Mas só um pouco.

- Claro. Só um quase completo ataque de nervos. Mais nada.

Santana observa Brittany perplexa antes de começar a rir. Ela dá um empurrão no ombro da loura, apenas para manter um pouco da sua dignidade. Elas gargalham juntas por um momento até que os sons começam a morrer dentro do carro e elas inspiram profundamente, tentando reinflar pulmões vazios. Só então é que Santana percebe que Brittany está usando suas roupas de dança.

- Ai, Britt, desculpa. Eu te arranquei do meio da aula.

- Não tem problema, San.

- Como não, Britt? O que você falou para o Mike?

- Que eu pisei em falso durante a última aula e que era melhor eu não forçar o meu tornozelo.

- E ele caiu nessa?

- Ei! Eu posso ser bem convincente quando eu quero — Brittany cruzou os braços e Santana riu da tentativa de atitude. — E eu já machuquei o tornozelo algumas vezes, então ele é super preocupado.

- Brittany Pierce. Acho que eu não estou sendo uma boa influência para você.

Santana sentiu o ar entalar em sua garganta quando o olhar de Brittany encontrou o seu. Ela tinha uma intensidade brilhando nas esferas azuis que tornava impossível para a médica desviar a sua atenção. Até que os cantos dos lábios rosados se curvaram para cima e ela jogou os ombros levemente.

- Eu não me importo nem um pouco.

Elas passaram a meia hora seguinte dentro do carro, comparando cores e tentando imaginar quais seriam as melhores combinações para o novo apartamento de Santana. Ela ainda não estava mais próxima de decidir quais tintas comprar, mas ela já não estava mais tão nervosa.

- Eu acho que todo Bosque Encantado merece uma Floresta Úmida e uma Mata Virgem.

- Mas você está esquecendo que essa quantidade de árvore normalmente vem com Mosquitinho Sortido, né, Britt? É natureza demais para o meu gosto.

- Bom saber. Acho que eu nem preciso sugerir a Colônia de Alecrim, então? — Santana concorda e Brittany continua: — Quem sabe um pouco mais de Equilíbrio?

Um som airoso escapou da garganta de Santana e Brittany gargalhou diante da reação dela. A médica arrancou a amostra que a loura tinha nas mãos e guardou na pilha das cores potenciais.

- Pois fique sabendo que eu tenho muito equilíbrio. O que eu ando precisando, mesmo, é de Fortuna.

Brittany riu baixinho e voltou sua atenção para os papeis em suas mãos. Ela remexeu neles até achar um que colocou um sorriso pequeno em seu rosto. Ela virou a amostra para Santana e perguntou:

- Romance?

Santana encara o papel virado em sua direção por um momento antes de erguer os olhos até os olhos azuis ansiosos de Brittany.

- Eu acho que a gente dá conta dessa parte.

Com um enorme sorriso, Brittany jogou o papel, sem a menor cerimônia, na pilha dos rejeitados.

Mais alguns minutos e Santana tinha três cores selecionadas. Um tom avermelhado para uma das paredes da sala, um verde para o seu quarto e uma terceira cor para o quarto que será transformado em escritório. As amostras estavam espalhadas pelo painel e a médica apontou para a mais próxima de Brittany, a que iria colorir as paredes do seu futuro local de estudos.

- Essa é a minha preferida.

- É? Por quê?

Santana não respondeu. Ela apenas pegou o papel e o entregou para Brittany. A loura encarou sem entender até que um dedo moreno apontou o nome da cor.

Olhos Azuis.

Santana teve certeza de que nunca tinha visto um sorriso tão grande no rosto de Brittany.

***

- E você tem certeza que eu preciso de tudo isso? — Santana perguntou analisando a longa lista de apetrechos para pintura que Brittany escorregou pela mesa quando elas se encontraram para almoçar no dia seguinte.

- Cada uma delas. É a mesma lista que o meu pai fez pra mim quando eu me mudei.

Santana não sabia se sentia desconfortável com a possibilidade de Brittany ter falado sobre ela com o pai ou animada com a idéia. Mas antes de lidar com esse problema, ela precisava resolver a pintura do seu novo apartamento.

- Me diz, de novo, por que eu deixei você me convencer a pintar o meu apartamento sozinha ao invés de contratar uma equipe profissional.

- Eu já falei que você não vai estar sozinha, San. Eu vou te ajudar. E é muito mais divertido assim. Fui eu que pintei o meu inteiro — Santana respondeu com um grunhido e Brittany soltou uma risada divertida. — A gente faz assim: amanhã a gente compra o básico e testa pintar só uma das paredes. Se você detestar, eu deixo você contratar quantos profissionais você quiser. Fechado?

- Fechado, né? Eu não tenho alternativa mesmo.

Um silêncio familiar se instalou entre elas enquanto elas continuavam com o almoço. Santana já tinha terminado seu sanduíche quando notou que Brittany usava o garfo para empurrar pedaços de alface de um lado para outro da sua salada, sem nunca levar nada até os lábios. Ela encarava, mas parecia não enxergar os movimentos. Com o cenho levemente franzido, Santana esticou uma das mãos e segurou os dedos de Brittany, congelando seus movimentos.

- Está tudo bem, Britt? — Quando a loura ergueu o rosto com um traço de confusão nos olhos, Santana continuou: — Você está brincando com esse tomate há uns cinco minutos. Pelo menos.

Brittany baixou os olhos e soltou o garfo. Ela esticou as mãos sobre a mesa, flexionando os dedos algumas vezes antes de voltar a encarar a médica.

- Desculpa, é que... Eu preciso te contar uma coisa, San.

A saliva que Santana tentou engolir ficou presa em sua garganta, entalada no meio do movimento. Ela analisava cada detalhe da expressão corporal de Brittany e sentiu seu estômago se contrair quando notou quão nervosa a outra mulher estava.

- Claro, Britt. Você pode me contar qualquer coisa — ela falou, desejando que sua voz não traísse sua apreensão.

- Quando você foi lá no estúdio, me contar que você ia assinar o contrato. Depois que você saiu, o Mike me perguntou se tinha alguma coisa acontecendo entre a gente.

Santana não esboçou nenhuma reação, deixando que as palavras encontrassem seu caminho até sua completa compreensão. Apenas quando dedos tocaram as costas da sua mão, é que a médica saiu do seu estado de estupor e voltou a se concentrar na loura que se sentava de frente para ela.

- Eu... Eu não falei nada para ele, não precisa se preocupar. Mas é que eu achei que você devia saber. Quer dizer...

- Não tem problema.

A voz de Santana assustou Brittany e ela se calou. A dançarina então se concentrou no rosto moreno. Ela sabia que já devia ter contado aquilo para Santana, mas ela temia a reação da mulher e protelara o quanto pôde tocar nesse assunto. Mas o rosto quase sereno que a encarava não era o que Brittany tinha esperado.

- Não?

- Não. Quer dizer, eu ainda não estou pronta para anunciar aos quatro ventos ou coisa parecida, eu acho que eu nem saberia definir exatamente o que está acontecendo, mas a gente não tem sido exatamente discreta — Brittany ergueu uma sobrancelha e Santana respondeu à pergunta silenciosa: — A Quinn me fez a mesma pergunta.

- E o que você respondeu?

Santana deixou que a mente retornasse à conversa que tivera com a outra médica antes de responder.

- Eu disse que não sabia. Não sei porque, mas eu não consegui mentir, dizer que você é só uma amiga.

A frase faz com que um sorriso lento se espalhe pelo rosto de Brittany. Por mais que Santana não admitisse, ela sabia que Quinn era uma pessoa importante na vida da médica. E ela não ter conseguido negar que houvesse algo entre as duas era melhor do que um não categórico.

- E o que a gente faz? — Brittany perguntou com uma voz pequena, apesar do sorriso.

- Nada. Acho que só eles perceberam alguma coisa, então... — Santana deixou a voz morrer, antes de terminar. — Eu conheço a Quinn, quanto mais eu tento esconder, mais curiosa ela fica. E, pelo que você me falou, você não consegue esconder muita coisa do Mike. Então, acho que o melhor é deixar as coisas seguirem como estão, sem mudar nada. Eu nunca fui muito boa com sutilezas, mesmo.

Uma risada nasce no peito de Brittany e Santana tenta esconder o sorriso num enorme copo de café. As duas se encaram por alguns segundos, quando o momento é interrompido pelo apito estridente do pager da médica. Ela olha rapidamente para o visor e geme baixinho antes de voltar a se concentrar em Brittany, os olhos castanhos gritando desculpas.

- Eu preciso ir.

- Tudo bem, San. Eu preciso voltar para o estúdio, mesmo.

- Vejo você amanhã?

Brittany responde com uma piscada de olho e um sorriso. E Santana passa o restante do seu plantão sentindo algo com penas voar rapidamente dentro do seu peito.

***

Santana encarava os objetos acumulados no meio da sua nova sala de estar sem saber por onde começar. Ela tinha se encontrado com Brittany naquela manhã para comprar a tinta que ela tinha escolhido para o cômodo e alguns materiais básicos. Depois, ela deixou a dançarina no estúdio para a única aula que ela tinha no dia e aproveitou para conseguir algumas horas de sono antes de encarar rolos e pincéis. Agora, ela esperava que Brittany aparecesse para dar sentido àqueles objetos alienígenas que ela tinha feito a médica comprar.

A médica suspirou aliviada quando ouviu a campainha. Ela se apressou até a porta e um sorriso apareceu em seu rosto — era a primeira vez que tocavam a campainha do seu novo apartamento. Santana nunca tinha sido muito sentimental, mas, nas últimas semanas, ela vinha se sentindo mais envolvida por coisas pequenas.

E ela sabia exatamente quem era a culpada por essa novidade.

- Britt!

- Oi, San — a loura se adiantou e roubou um beijo rápido. — Eu trouxe almoço.

- A Quinn realmente colocou você numa missão de me alimentar, né?

- Ela só se preocupa contigo, San. E eu também.

Santana resmungou qualquer coisa ininteligível, sem saber o que responder diante da admissão de Brittany. Ela estava acostumada a se virar sozinha, tomar conta dela mesma, a não depender de ninguém. Era sua profissão cuidar dos outros, mas ela não sabia realmente como deixar que fizessem isso por ela. Talvez fosse mais uma coisa que Brittany tivesse que lhe ensinar.

- É... Bom, eu não tenho móvel nenhum ainda, então acho que a gente vai ter que sentar no chão mesmo. Tudo bem?

Brittany responde apenas com um sorriso. Ela caminha até a outra ponta da sala e se senta com as costas apoiadas contra a parede. Santana carrega duas latas de tinta para serem usadas como apoio e se senta ao lado da loura.

Elas almoçam em silêncio, apenas apreciando a companhia. Para Santana, estar assim, tão perto de Brittany, era quase uma meditação. Ela podia sentir seu coração desacelerando ao ritmo dos sons da respiração dela e a sua mente se aquietando dentro do calor que emanava do corpo esguio. Mas, a cada vez que ela sentia seus braços tocarem, ou que ela ouvia um gemido satisfeito escapando de lábios rosados, Santana sentia uma onda de eletricidade tomando conta dela, cada centímetro de pele morena arrepiado. Ela era uma constante contradição diante de Brittany.

- Então, o que você está pensando em fazer aqui? — a voz de Brittany arrastou Santana de volta para a realidade.

- Eu pensei em pintar essas duas paredes com o vermelho que a gente comprou. Acho que as outras eu vou deixar brancas mesmo. O que você acha?

- Acho que pode funcionar. — E, se voltando para a médica, continuou: — Vermelho combina com você.

Os olhos de Brittany assumiram um tom escuro e Santana sentiu o ar preso na garganta. Elas estavam próximas e a dançarina podia ver como a morena lutava para encher os pulmões de ar. Num movimento fluido, ela levou a mão à nuca da médica e a puxou para um beijo apaixonado. Santana se segurava aos braços de Brittany como se tivesse medo de cair da enorme altura em que ela se sentia naquele instante.

O beijo se encerrou quando as duas precisaram se separar em busca de ar. Elas mantiveram as mãos nas mesmas posições, testas coladas, joelhos tocando, respirando com dificuldade o mesmo ar. Mais alguns outros beijos, suaves agora, foram trocados, antes que Santana se colocasse de pé e estendesse uma das mãos para Brittany.

- Acho melhor a gente começar, não?

A loura logo assentiu e tomou a mão que lhe era oferecida. Ela entendera o pedido velado de Santana. Ela sabia que a última coisa que a outra mulher queria fazer era pintar paredes, mas ela tinha concordado com os limites dela. Por mais que fosse difícil se manter de pé sobre suas pernas bambas, e por mais que ela quisesse empurrar o corpo pequeno da médica contra a parede e sentir cada pedacinho de pele com seus lábios, Brittany sabia o que precisava fazer. De pé, ela abriu latas de tinta, preparou todos os materiais e, logo, ela e Santana começavam a colocar cor nas paredes do apartamento.

O iPod de Brittany tinha sido colocado num canto da sala e Santana se pegava sorrindo diante do gosto musical da loura. A lista pulava de Katy Perry a Queen como se as faixas fizessem parte do mesmo CD. E tudo era absolutamente Brittany; inesperado e envolvente.

Quando uma música conhecida começou a tocar, Santana acompanhou a letra baixinho. Fazia muito tempo que ela não cantava, mas sua voz se derramava da garganta sem nenhum esforço. Ela movia o pincel e o corpo ao ritmo dos acordes, usando toda a potência de sua voz durante o refrão. Até que braços delgados se enroscaram em sua cintura e ela sentiu uma respiração quente conta a pele sensível do pescoço.

- Eu não sabia que você cantava, San.

- Eu não costumo fazer isso com freqüência.

- Pois devia. A sua voz é linda.

- É? — ela perguntou virando o rosto para encarar Brittany.

- Ahan. Acho que se unicórnios pudessem cantar, ia ser mais ou menos assim.

Santana dá uma sonora gargalhada antes de se virar dentro do abraço de Brittany.

- Unicórnios, Britt?

- Ahan — ela responde seriamente.

- Você é incrível, sabia?

Brittany sorri um sorriso de esguelha e beija Santana lentamente, sugando o lábio inferior dela, antes de responder:

- Sabia.

O queixo de Santana cai um pouquinho diante da presunção brilhando nos olhos azuis e ela se lembra do pincel que ainda segura. Ela cerra os lábios e ergue uma das sobrancelhas.

- Ah, é? — Brittany concorda com um movimento de cabeça e Santana lhe dá um sorriso de banda. — E, será que você continua tão incrível...com o nariz vermelho?

A médica termina a pergunta com o pincel a poucos centímetros do rosto de Brittany. Ela pode ver os olhos da loura ficarem vesgos ao acompanhar a aproximação da tinta, mas ela não faz nenhuma tentativa de se afastar. Quando Santana deixa o braço cair de volta ao lado do próprio corpo, Brittany tem uma listra vermelha em todo o comprimento do nariz. Ela franze o rosto, tentando enxergar o que a latina fez.

- E então? Fiquei bem de vermelho?

- Linda.

Um momento se passa com as duas perdidas no olhar da outra, respiração difícil. Santana joga os braços ao redor do pescoço de Brittany e sente dedos finos se enterrarem em seus cabelos antes de lábios finos cobrirem os seus. Elas se movimentam lentamente, sentindo cada centímetro do corpo colado ao outro, explorando cada sensação ao máximo. Quando línguas se encontram, Brittany escorrega a mão que ela tinha no pescoço de Santana por toda a extensão do braço da médica até o pincel que ela ainda segurava. Perdida no toque de Brittany, Santana não registra o movimento até que ela sente algo úmido contra a bochecha. Já era tarde demais.

- Britt!

Santana tenta manter a cara amarrada, mas o sorriso de Brittany torna isso impossível.

- Vermelho é, definitivamente, a sua cor, San.

- Não sei, não, Britt. Você até que ficou bem bonitinha de nariz vermelho.

E o que começou como um beijo sensual terminou como uma batalha pelo pincel. Santana se lançou na direção do objeto, mas Brittany era mais alta e era fácil mantê-lo fora do alcance da médica. A loura ria das tentativas frustradas da latina e a segurava com mais força pelas costas, pintando pequenos traços vermelhos pelos braços dela.

A cada vez que Santana jogava o corpo para frente, Brittany era obrigada a dar um passo para trás para tentar manter o equilíbrio. Num desses movimentos desajeitados, a dançarina tropeçou numa das latas espalhadas pela sala e as duas foram ao chão, numa bagunça de braços e pernas. No movimento, o pincel que Brittany segurava voou longe e ela segurava a médica com as duas mãos. Um segundo depois, uma alta gargalhada escapava da garganta de Brittany e ecoava entre as paredes.

- Britt? Britt? Tá tudo bem? Você bateu a cabeça? Você se machucou?

As perguntas de Santana foram entremeadas por uma tentativa de se erguer e verificar o estado da mulher abaixo dela. Mas as mãos que Brittany tinha em suas costas foram mais fortes e ela manteve a médica no lugar. Com uma respiração funda, ela conseguiu controlar as gargalhadas e se concentrou em olhos castanhos assustados.

- Tá tudo bem, San — um beijo silenciou a pergunta que a médica ameaçou fazer. — Eu juro.

A médica concordou e beijou Brittany mais uma vez. Na nova posição, Santana tinha todo o controle. Ela estava deitada sobre o corpo da dançarina, o quadril encaixado entre pernas torneadas, uma das mãos servindo como apoio.

O beijo cresceu naturalmente e, logo, línguas também se encontraram. Brittany mantinha as mãos no meio das costas de Santana, com medo de ultrapassar o limite da médica, mas era difícil fazer isso sentindo o peso do corpo dela em cima do seu. Santana também sentia o corpo em brasa e seu corpo se movia quase à sua revelia. A mão que ela não usava para se manter erguida encontrou a cintura de Brittany abaixo dela, tocando e apertando músculos definidos. Ela continuou em movimentos ascendentes, sentindo o relevo de costelas e engolindo um gemido de Brittany quando seus dedos alcançaram a parte de baixo do seu seio.

Como se fossem um sinal verde, os avanços de Santana descongelaram Brittany. Ela dobrou um dos joelhos, encaixando melhor o corpo da médica contra o seu. Suas mãos tomaram caminhos opostos. Uma se enroscou novamente em fios negros, puxando até arrancar um gemido da morena, e a outra desceu pela coluna até chegar à bunda dela.

Quando precisou respirar, Santana afastou os lábios de Brittany com um estalo e olhou dentro de olhos azuis escuros, um sorriso triste no rosto moreno. A loura entendeu e tomou o rosto dela com as duas mãos. Ela forçou um sorriso pequeno, beijou Santana mais uma vez e deixou que a médica se aninhasse em seu corpo. Ela tinha a cabeça apoiada em um ombro pálido e traçava desenhos aleatórios no braço da loura.

- Desculpa, Britt.

Brittany apertou os braços ao redor de Santana e lhe beijou o topo da cabeça antes de responder.

- Desculpa pelo quê, San?

- Por ficar parando a gente o tempo todo. Eu sei que deve ser difícil...

- Ei, ei. Pode parando por aí. Agora é a minha vez de dizer que você não precisa pedir desculpas por nada.

- Mas, Britt...

- Santana, você foi muito clara com os seus limites e eu aceitei cada um deles, não aceitei? — A médica assentiu contra o corpo de Brittany. — Então, a gente vai fazer isso no seu ritmo. Eu não tô com a menor pressa.

Uma risada baixa escapou do peito de Santana e elas se mantiveram quase imóveis por alguns minutos. O único movimento vinha da mão de Brittany passeando por toda a extensão das costas de Santana.

- Eu queria poder ficar assim pra sempre — Santana disse com um suspiro.

- Eu também. Mas eu meio que recebi um convite para jantar hoje.

- Preciso ficar com ciúmes?

- Talvez. Quer dizer, eu vou sair com a médica mais incrível da cidade.

Um sorriso enorme apareceu no rosto de Santana e ela mudou de posição para poder ver o rosto de Brittany.

- Médica mais incrível, é? Quantas você conhece aqui em Lima?

- O suficiente para saber que nenhuma delas é mais incrível do que você.

- Srta. Pierce, você está tentando me seduzir?

- Depende. Está funcionando? — Santana assente com a cabeça. — Então, sim.

Santana dá mais um beijo demorado em Brittany e se levanta. Ela oferece ajuda para Brittany e começa a reunir a bagunça espelhada pela sala.

- Acho melhor a gente encerrar por hoje, senão a gente perde a nossa reserva.

- E você vai continuar sem me dizer aonde a gente vai jantar?

- Ahan. Eu já falei. É surpresa.

***

- E então? O que você achou da sua primeira experiência no Breadsticks?

- Eu gostei.

- Bom saber. Acho que eu não poderia mais me encontrar com você se você não tivesse gostado.

Brittany responde com uma risada baixa ao mesmo tempo em que o garçom chega com a conta. Depois de uma longa discussão por todo o caminho até o restaurante, a loura concordara que Santana pagasse pelo jantar. A médica enfiou algumas notas na capa de couro que lhe fora entregue e devolveu ao rapaz parado ao lado da mesa. Ao voltar sua atenção para o outro lado da mesa, ela percebeu que Brittany a encarava com um sorriso.

- Que foi?

- Nada. Só estava tenta do imaginar uma Santana adolescente aqui, nesse restaurante.

- Nem tente. Não foi nada bonito.

O cenho de Brittany se torceu numa pergunta silenciosa, mas Santana não prolongou a explicação. Ela tinha batalhado muito para esquecer a sua versão que freqüentara aquele restaurante por tanto tempo, pendurada nos mais diversos braços, cada semana um diferente. E antes deles, apenas um.

As mesas e cadeiras daquele lugar tinham sido trocadas desde que ela saíra da cidade, mas alguma coisa naquelas paredes ainda traziam lembranças agridoces. Ela tinha sido feliz ali. Ela tinha sido miserável ali. E ela tinha certeza de que Brittany não teria gostado da Santana que seria capaz de recitar o antigo cardápio de olhos fechados. Não inteiramente, pelo menos.

Alguns rostos vagamente familiares se fixaram nela quando as duas caminharam por entre as mesas para sair do restaurante, mas Santana preferiu não se fixar em nenhum deles. Ela não tinha voltado para Lima para reencontrar o seu passado e preferia que ele continuasse guardado numa caixa trancada no fundo da sua cabeça. Era melhor se concentrar na loura que caminhava ao seu lado, com um sorriso enorme e olhando para a médica como se ela fosse a única pessoa no mundo. A única que importava.

- Você ainda não me explicou o que esse restaurante tem de tão especial.

- Ah, não sei, Britt. Eu costumava vir aqui com os meus pais, quando eu era criança. Depois, o dono fez uma reforma e ele foi invadido por todos os adolescentes da cidade. Tem vezes que eu acho que eu passei mais tempo aqui do que na escola.

- Matando aulas, Santana?

- Não. Nada disso — Santana ri baixinho e continua: — Bom, também, mas não com tanta freqüência. O antigo dono era tranquilo e não contava para os meus pais quando eu aparecia aqui no meio do dia. Mas, na maioria das vezes, eu vinha para cá só para fazer os deveres de casa, mesmo. Eu me concentrava melhor aqui do que na minha casa.

As lembranças de tardes inteiras passadas com livros espalhados na mesa dos fundos do restaurante colocaram um sorriso no rosto de Santana. Os funcionários da época já conheciam a adolescente e ela sempre encontrava a sua mesa preferida vazia e o seu pedido de sempre era colocado na sua frente alguns minutos depois de ela se acomodar. Não era exatamente o lugar mais silencioso para estudar, mas era o único em que ela não se sentia pressionada a ser qualquer outra coisa que não fosse ela. O garçom que a atendia sorria genuinamente para ela e o cozinheiro sempre caprichava no bacon do seu sanduíche. Às vezes, quando o dia estava lento, até o dono se sentava com ela por alguns minutos. Eles conversavam sobre escola, qual faculdade a menina queria fazer, o que ela planejava para o seu futuro e Santana se via despejando informações com uma facilidade que ela desconhecia até então. Ele se interessava nela e a futura médica não podia evitar pensar que essas eram as conversas que ela deveria ter com o próprio pai.

- Quando eu voltei, ele estava fechado. O dono tinha morrido alguns meses antes e isso aqui ficou fechado até resolver os problemas de herança. Acho que reabriu tem algumas semanas.

- Ele não tinha filhos?

- Não. Ele ficou viúvo antes de ter filhos e nunca mais se casou. Acho que ele acabou adotando a molecada toda da cidade, um pouco.

- E como está agora? Como você se lembrava?

Elas estavam na porta e Santana olhou para trás, absorvendo todo o salão, os outros clientes, os funcionários com uniformes elegantes, o bar novo de uma só vez.

- Bem parecido. Mas nunca vai ser a mesma coisa sem o Brad aqui.

Brittany e Santana caminhavam lado a lado pela calçada em frente ao restaurante, na direção em que a médica tinha estacionado o carro, quando uma lufada de vento frio atingiu as duas. Um arrepio subiu pelo corpo de Brittany e ela segurou Santana pelo pulso.

- San, eu esqueci o meu casaco lá dentro. Espera só um minuto eu ir buscar?

- Claro, Britt. Eu te espero na porta.

A porta do restaurante se fechou atrás de Brittany e Santana ficou olhando a dançarina conversar com a hostess pelo vidro transparente. Ela acompanhava os movimentos da mulher quando passos soaram perto dela. Como Santana estava parada na frente da entrada, ela deu dois passos para o lado e ergueu o rosto com um pequeno sorriso de desculpas para a outra pessoa.

O que ela encontrou só poderia ser descrito como uma coincidência sem graça.

- Olha só! E não é que as fofocas eram verdadeiras? A vadia residente do Mackinley High voltou para a cidade.

- O que você quer, Azimio?

- Sabe, Santana, foi um momento muito triste quando você foi embora de Lima. O time de futebol inteiro precisou encher a cara. A gente quase ergueu uma estátua em sua homenagem. De joelhos, é claro. Você ainda é famosa entre os jogadores.

- E como você sabe disso? Por acaso, ainda continua no colégio? Você sempre foi incrivelmente burro, mas nem eu achei que fosse tanto assim.

- Eu sou o novo técnico do time de futebol americano.

- Que bom! Então a escola realmente desistiu de ganhar alguma coisa?

- Sempre engraçadinha, né, Santana? Não foi exatamente isso que você me disse no nosso último ano, foi?

- Azimio, você terminou tão rápido que eu não tive nem tempo de lixar a minha unha do mindinho.

- Sempre há tempo para corrigir um erro do passado. Você devia ter me procurado pra...relembrar os velhos tempos.

Santana cerrou os punhos ao lado do corpo quando ouviu a risada do homem a sua frente. Ela se preparava para responder quando o celular dele apitou e ele se voltou para ela com um sorriso cínico.

- Infelizmente, eu preciso ir. Minha mulher deve estar preocupada. Mas aparece lá no campo de futebol se você quiser matar as saudades. Você ainda lembra aonde fica, né? — ele abriu a porta e riu mais uma vez. — Quem é que eu estou querendo enganar? É claro que você se lembra. Ninguém passou tanto tempo embaixo daquelas arquibancadas quanto você.

O som do sino da porta se fechando ecoou na noite de Lima, mas Santana não escutou. Ela estava perdida em lembranças, em memórias que ela tentava a todo custo esquecer. Ela estava mergulhada numa vergonha que a cobria como se fosse um cobertor no dia mais quente do verão, sufocante. Todo o seu corpo tremia e ela se sentia incapaz de se mover. Sua respiração era curta, superficial, e alguma coisa se revirava em seu estômago, dando um nó nas suas entranhas. Ela sentia como se estivesse sendo tragada por alguma força que ela não conseguia resistir. Talvez, se ela se deixasse ir, tudo o que tinha sido guardado dentro dela não doesse tanto.

Era uma idéia quase tentadora, até que uma mão quente pousou na base das suas costas e Santana se virou para encontrar olhos azuis transbordando preocupação.

- San? Está tudo bem? Aconteceu alguma coisa? Você está branca.

Santana sentia a queimação das primeiras lágrimas no canto dos olhos e uma coisa que tinha se alojado na sua garganta e roubado a sua voz. Apenas quando ela se sentiu engolida pelo abraço de Brittany, a médica conseguiu responder, trêmula:

- Só... Só me tira daqui, Britt. Por favor. Me tira daqui.

Notas finais
;)