How To Mend A Broken Heart
26 Capítulo 26
Notas iniciais
Brittany estacionou o carro na frente do prédio e olhou para o lado. Santana tinha se mantido em silêncio durante todo o trajeto, a cabeça jogada no encosto, encarando a cidade que passava a seu lado sem realmente enxergar nada. Ela tinha as mãos no colo, dedos entrelaçados se movendo com a mesma ferocidade que seus pensamentos. No primeiro sinal vermelho em que foi obrigada a parar, Brittany esticou a mão e tomou a de Santana, apertando com força.
Ela suspirou aliviada quando finalmente se viu na sua rua. Durante todo o percurso, Brittany tinha tentado manter o máximo de atenção no caminho, mas seus sentidos estavam todos voltados para a mulher ao seu lado. A cor tinha voltado para o rosto de Santana, mas as mãos dela estavam geladas e a maneira como ela se agarrava à mão que Brittany lhe tinha estendido apertava o coração da dançarina. Ela conseguia ver a batalha que acontecia por trás de olhos castanhos, a força com que a médica travava o maxilar, como o ar que ela respirava mal chegava a seus pulmões antes de ser expulso. Qualquer que fosse o demônio que tivesse acordado dentro de Santana, ele parecia estar vencendo a batalha.
- A gente chegou, San.
A voz de Brittany não passava de um suspiro, mas Santana não se moveu. A loura, então, tomou de volta a mão que enlaçava os dedos da médica, saiu do carro, deu a volta pela frente e abriu a porta do lado do carona. Apenas quando o clique da maçaneta chegou aos seus ouvidos, Santana saiu do seu estado de estupor e pareceu notar onde estava. Ela mal tinha notado que Brittany tinha dirigido pela cidade e que elas estavam paradas agora. Tudo dentro dela se movia depressa demais. Mas agora Brittany estava parada ao lado da sua porta, duas bolsas jogadas no ombro e uma mão estendida na direção da latina.
- Vem, San. A gente já chegou em casa.
Santana tentou sorrir quando se apoiou na mão de Brittany, mas o movimento não alcançou seus olhos. Ela se sentia pequena, frágil, instável; os joelhos pareciam cera quente, prestes a ceder a qualquer momento. Mas mãos fortes a seguravam pela cintura e não a soltaram até que elas estivessem dentro do quarto de Brittany. Os degraus da portaria, o elevador, o corredor, a sala conhecida; tudo não passara de um borrão para Santana. A única coisa, naquele momento, que ela sabia que era real, era o calor do corpo pressionado contra o seu, a mantendo de pé. Era a única coisa que a fazia ter certeza de que não estava dentro de algum tipo de pesadelo muito vívido.
Brittany falava com ela, fazia perguntas bem próximas do seu ouvido, mas Santana não ouvia. Ela tinha ouvidos surdos e olhos cegos. Todos os seus sentidos voltados para o lado de dentro, para o lado que queimava, que doía como se tivesse sido rasgado ao meio. Ela sentia calor, tremia e se arrepiava ao mesmo tempo. Apenas sua pele se mantinha conectada com o mundo exterior e ela sentiu quando braços fortes a envolveram pelos ombros e lábios se demoraram em sua testa. O carinho teria sido bem vindo, se ela conseguisse sentir qualquer coisa.
E enquanto Santana se perdia do lado de dentro dela, Brittany se perdia do lado de fora. Ela olhava para a médica e não tinha a menor idéia do que deveria fazer. Santana parecia congelada, se movendo apenas quando levada pelos movimentos da dançarina. A pele morena estava fria e pegajosa, como depois de um pesadelo. Os ombros caídos, derrotados dentro dos braços de Brittany e os joelhos ligeiramente trêmulos. Sabendo que ela não conseguiria se manter de pé durante muito mais tempo, Brittany caminhou Santana até a beirada da cama. Assim que sentiu o colchão na parte de trás de suas pernas, a médica deixou que a gravidade agisse sobre seu corpo e caiu pesadamente.
O movimento foi o suficiente para colocar Brittany em modo de ação. Se ela não podia ajudar Santana pelo lado de dentro, ela o faria pelo lado de fora. Ela deu um beijo nos fios negros e se ajoelhou na frente da médica. Quando o rosto moreno entrou em seu campo de visão, a loura percebeu que lágrimas quentes haviam queimado duas trilhas por ele. Ela tomou o rosto da médica entre as mãos, secando as gotas que ainda transbordavam de olhos completamente negros. Com os dedos finos, Brittany afastou alguns fios de cabelo que tinham grudado nos lábios de Santana e beijou cada uma das bochechas dela, a ponta de um nariz avermelhado e as pálpebras fortemente cerradas.
Brittany ainda acarinhava de leve as têmporas de Santana quando seus olhos se encontraram novamente. Ela enxergava tanta dor, tanto medo, tanta rejeição dentro daquele olhar que tudo o que a dançarina queria fazer era puxar a morena para dentro dos seus braços e usar o próprio corpo para protegê-la. Mas ela enxergou outra coisa ali. Era como se fosse a primeira vez, desde que saíram do carro, que Santana parecia reconhecer a pessoa que estava a sua frente, que ela pareceu sair do seu vendaval interno. Uma ruga se formou entre sobrancelhas escuras e ela abriu e fechou a boca algumas vezes, como se não tivesse palavras para o que estava entalado. Mas nem precisava. Tudo o que Brittany queria era ter certeza de que Santana não tinha se perdido.
- Shhhh... Tá tudo bem, San. Não precisa falar nada. Não agora.
A voz de Brittany era pequena, mal perturbando a penumbra do quarto, e Santana assentiu fracamente. Ela não tinha força para muito mais. Com um sorriso triste, Brittany se sentou em cima dos calcanhares e descalçou as sandálias da médica. Ela se lembrou da última vez que fizera aquilo, como Santana parecia exausta, e deixou que seus dedos subissem pela barra da calça que ela usava, apertando levemente os calcanhares dela. Com os calçados ao lado da cama, Brittany voltou sua atenção para a mulher que acompanhava seus movimentos fixamente.
- Eu já volto, tá bom?
Apenas quando Santana pareceu reconhecer o que tinha sido lhe falado é que Brittany se moveu. Ela ficou de pé e caminhou até o armário, no canto do quarto. Seus movimentos eram lentos para não assustar a estátua que ela tinha deixado na cama. Depois de trocar as roupas que usava por uma camiseta larga e um short, ela buscou uma roupa parecida para Santana e voltou a se ajoelhar na frente dela.
- Posso? — Brittany perguntou com as mãos paradas a centímetros do cós da calça que Santana usava.
Uma sombra de sorriso surgiu nos lábios da médica e ela concordou com a cabeça. Brittany, então, tirou a camisa de Santana se dentro do jeans, desabotoou a calça, abriu o zíper e enganchou os dedos nos cós. Ela tentou remover a roupa, mas a médica se sentava pesadamente e a peça mal se moveu.
- Eu preciso que você se levante um pouquinho, San.
Santana obedeceu ao comando e Brittany conseguiu remover a calça. Enquanto desdobrava o short que ela tinha separado, a loura pensava que aquilo deveria ser bem parecido com trocar as roupas de uma criança; ordem e delicadeza combinadas.
Com o short no lugar, Brittany partiu para a camisa. Ela tentava se concentrar no botão que ela tinha entre os dedos e não no pedaço de pele cor de caramelo que se revelava para ela. Aquele não era o momento apropriado. Camisa aberta, ela ajudou Santana a tirar os braços das mangas e sentiu os membros caírem pesadamente ao lado do corpo pequeno.
Santana estava agora apenas de short de dormir e sutiã, mas Brittany achou que seria intromissão demais continuar. Por isso, ela sorriu para a médica, desdobrou a camiseta que estava ao seu lado — a mais macia que ela tinha no armário — e enrolou a barra para que pudesse passar a gola pelo pescoço da médica. Um por vez, Brittany tomou os braços de Santana e os passou pelas mangas, esticando o tecido pelo restante do corpo moreno. Ela tinha as mãos apoiadas nos joelhos da morena ao perguntar:
- Você tira o...?
A voz de Brittany se perdeu e ela não terminou a pergunta, mas Santana entendeu e soltou o fecho que prendia o sutiã às suas costas. Depois de puxar as alças pelos braços, ela removeu a peça pela parte de baixo da blusa e manteve as mãos sobre o colo, dedos enroscados no tecido macio. Brittany cobriu a mão de Santana e sentiu quando seus dedos relaxaram, permitindo que ela descartasse sua última peça de roupa na pilha que se formara ao pé da cama. A loura beijou os joelhos da médica e ficou de pé mais uma vez.
- Deita.
Santana puxou o corpo até a cabeceira da cama e pousou a cabeça num dos travesseiros, se enroscando ao redor de si própria no mesmo momento. Ela tinha se deitado sobre as cobertas e Brittany não teve coragem de pedir que ela se movesse. Ela, então, foi mais uma vez até o armário e trouxe seu cobertor preferido. Depois de se certificar de que todo o corpo de Santana estava protegido, ela deu a volta na cama e se esgueirou para debaixo do cobertor. Ela mantinha os olhos fixos no teto, preocupada demais para adormecer e sem saber se devia se aproximar da mulher que se deitava ao seu lado, de frente para ela.
A decisão foi tomado por Brittany assim que ela ouviu a voz de Santana.
- Britt...
Lágrimas voltavam a descer pelo rosto da médica e arranhavam a sua garganta. Ela estava enrodilhada, os joelhos quase alcançando os seios, o corpo pouco mais que uma bola na cama de casal. E ela tinha uma tristeza tão grande nos olhos que Brittany sentiu seu corpo atraído até o dela como se fossem pólos opostos de um imã.
Brittany se virou de frente para Santana e, com uma das mãos em suas costas, puxou a morena até ela. A médica relaxou um pouco com o movimento e se permitiu se moldar ao corpo de Brittany — ela entrelaçou suas pernas e encaixou a cabeça na curva do pescoço da loura. Ela se agarrava às costas da camiseta da dançarina e pequenos soluços chacoalhavam seu corpo quando ela voltou a chorar. Brittany mantinha uma das mãos na cabeça de Santana, os dedos enterrados nos fios negros, e a outra subia e descia pelas costas dela em movimentos tranqüilizadores. Não havia muito que ela pudesse fazer além de, simplesmente, estar.
***
As horas pareciam se arrastar dentro daquele quarto. Os primeiros raios de sol começavam a lançar sombras pelo chão e Brittany não tinha conseguido dormir até aquele momento.
Logo depois que elas se deitaram, Santana caiu num sono profundo, emocionalmente exausta. Alguns pesadelos perturbaram seu sono, mas, nessas horas, Brittany a puxava mais contra o seu corpo e murmurava algumas coisas em seus ouvidos. Parecia funcionar, porque ela podia sentir o corpo da médica relaxando contra o dela. Mas ela mesma não tinha conseguido relaxar. A noite tinha sido uma espécie de vigília. Ela tinha um dos braços ao redor da cintura de Santana e, com o outro, ela apoiava a cabeça, velando um sono agitado.
Santana ainda tinha o rosto enterrado no pescoço de Brittany e ela sentiu quando a sua respiração mudou; ela estava acordando. A dançarina manteve seus olhos grudados na mulher até que viu quando ela piscou algumas vezes, se acostumando com a luz, e olhou para cima. Brittany lhe sorriu um sorriso pequeno e aumentou apenas uma fração a força com que ela ainda acarinhava as costas da médica. Ela tinha feito aquilo a noite toda.
- Oi — a voz de Santana era fraca e arranhava na garganta.
- Ei — Brittany respondeu com um suspirou e tirou alguns fios de cabelo do rosto de Santana.
- Você já está acordada há muito tempo?
- Eu não dormi.
- Britt...
Mas Brittany não deixou Santana terminar. Ela puxou o corpo pequeno contra o seu e a prendeu num abraço. Ela sabia que, mesmo que tentasse, seria impossível dormir naquele momento, porque o que o seu corpo precisava não era de descanso. Ele precisava estar perto da médica, sentir a respiração dela contra a sua pele, o coração dela batendo contra o seu peito. Devagar, Brittany se virou até que estivesse deitada de costas, o corpo de Santana praticamente em cima do seu. Brittany suspirou e sentiu que o peso que a prendia na cama era a única coisa que prendia sua mente à realidade. Santana estava ali e ela precisava dela e Brittany não tinha tempo de questionar o que tinha acontecido. Quando fosse o momento, ela saberia. A loura afundou o nariz nos fios negros e inspirou profundamente.
Elas permaneceram em silêncio, na mesma posição, por longos momentos. A cidade começava a acordar, mas elas se recusavam a reconhecer que mais um dia tinha começado. Porque reconhecer isso significaria ter que enfrentá-lo. Significaria ter que encarar todas as coisas que se encontravam suspensas no ar.
Santana ergueu o rosto e se perdeu em olhos azuis. Ela podia ver tanto carinho, tanta preocupação, tanto cuidado ali, que seu peito se apertou e se expandiu ao mesmo tempo. Aquele rosto, aqueles olhos, aquele sorriso, tudo aquilo significava segurança para ela. Casa.
Ela baixou o rosto, inspirou o cheiro da pele de Brittany, beijou uma sarda que a loura tinha entre as clavículas e ergueu novamente o olhar.
- Eu quero te levar num lugar.
***
Santana apertou o volante com um pouco mais de força quando sentiu seus dedos tremerem. Elas não haviam trocado nenhuma palavra desde que saíram do apartamento de Brittany e, agora, dentro do carro estacionado na beira do lago que a médica conhecia tão bem, ela não sabia mais o que fazer. Era a primeira vez que ela levava alguém ali, que ela dava a outra pessoa um pedacinho da sua alma, a única coisa que a acalmava. Quando sentiu olhos fazendo furos em sua cabeça, Santana se virou e encontrou Brittany sentada de lado no banco do carona, memorizando cada expressão da latina.
O olhar de Brittany pesava dentro do carro e Santana precisou desviar, encarar qualquer outra coisa que não fosse ela. Seus olhos estavam focados nos tênis da loura quando dedos tomaram o seu queixo e a forçaram a encontrar os olhos da outra mulher. Elas se concentraram uma na outra e Brittany escorregou os dedos pelo rosto de Santana, tomando a pele morena em sua mão. A médica se apoiou no toque por um segundo, antes de virar o rosto e beijar a pele macia da dançarina.
- Vem comigo.
A noite anterior tinha sido fria e o dia tinha amanhecido nebuloso. O caminho até a beira do lago tinha sido fácil, mas elas precisaram caminhar um pouco ao seu redor até achar um espaço mais ou menos seco em que elas pudessem se sentar. Brittany teria se contentado com qualquer lugar, mas Santana continuava caminhando. Nenhum ponto parecia bom o bastante. Ela não tinha tido tempo o suficiente para pensar no que falar. Cada pedra daquele lugar parecia ter mais memórias do que seu corpo parecia suportar. Ela estava quase completando uma volta ao redor do espelho d'água e voltando para o carro quando sentiu dedos se entrelaçando aos seus, escorregando pelos vãos da sua mão e apertando de leve. Ela olhou para Brittany e a gritaria dentro da sua mente pareceu silenciar.
Elas se sentaram lado a lado num pedaço de areia, Brittany com as pernas cruzadas e Santana com os pés plantados no chão, os joelhos puxados contra o corpo numa espécie de escudo. Apenas as folhas se agitando nos galhos perturbavam o silêncio do local.
- Eu nunca soube desse lugar — a voz de Brittany não passava de um sussurro, como se ela estivesse em algum tipo de lugar sagrado e fosse falta de respeito erguer a voz.
- Eu costumava vir aqui com os meus pais, quando eu era pequena. É o meu lugar preferido nessa cidade — Santana deu uma risada amarga e acrescentou: — Acho que é o único lugar nessa cidade que eu gosto.
- Sério?
- O resto todo tem lembranças demais.
Elas permaneceram em silêncio por longos minutos, acompanhando o arco que o sol desenhava por detrás das nuvens. Até que Brittany não conseguiu mais conter a pergunta que borbulhava em seu peito desde o meio da noite:
- San, posso te fazer uma pergunta? — ela olhou para Santana, que assentiu sem encará-la. — Quem é Laura? Você falou esse nome algumas vezes durante a noite.
Santana fechou os olhos e apoiou a testa nos joelhos. Mesmo sentada, ela podia sentir seu corpo tremer. Não havia como escapar. Ela sabia que precisava contar toda a história para Brittany. Ela sempre soubera, sempre tivera certeza. Mas isso não tornava as palavras menos amargas na sua boca. Ela respirou fundo duas vezes, tentando acalmar o coração que batia desesperado dentro do peito, ergueu os olhos para o nada e, quando falou, a voz não parecia estar saindo da sua garganta.
- A Laura foi a minha melhor amiga no colégio. E foi a primeira pessoa por quem eu me apaixonei.
Eu conheci a Laura quando a gente tinha uns cinco ou seis anos, mais ou menos. Eu nem sei como direito, mas a gente logo se tornou inseparável. Onde estava uma, você podia ter certeza de que iria encontrar a outra.
Nossos pais moravam perto, então a gente vivia uma na casa da outra. Era uma amizade normal da idade. A gente estudava na mesma turma e se protegia do resto do mundo. Os pais dela me adoravam e eu amava ir para a casa dela. Eu me sentia tão...confortável lá, que eu nunca queria ir embora. Já a minha mãe, nunca foi muito fã da Laura. Eu nunca soube por que exatamente. Ela tentou afastar a gente algumas vezes, mas o resultado era sempre pior. Um dia ela acabou desistindo.
As coisas começaram a mudar quando a gente tinha uns onze anos, eu acho. Várias meninas da nossa turma já tinham beijado e a gente morria de medo de fazer errado quando chegasse a nossa vez. Então, ela sugeriu que a gente treinasse uma com a outra. Na hora, parecia super lógico, sabe? Ela era a minha melhor amiga e a pessoa em quem eu mais confiava. Foi o meu primeiro beijo e na mesma hora eu tive certeza de que eu não queria mais parar. Eu nunca tinha sentido aquilo antes.
A gente continuou com os nossos treinos por algum tempo, mesmo que a gente não precisasse treinar mais nada. Nós duas já tínhamos ficado com alguns meninos, mas a gente sempre voltava. Era...era a coisa que fazia mais sentido.
Isso durou uns três anos, eu acho, até que ela começou a namorar sério. A gente ainda passava muito tempo juntas e ainda dormia na casa uma da outra com freqüência. Só os beijos é que terminaram. Não era justo com ele, ela falava.
Na mesma época eu também comecei a namorar. Eu nunca gostei muito dele, mas era o menino mais bonito da sala e o melhor amigo do namorado da Laura. A gente começou a passar ainda mais tempo juntas depois disso. Ela sabia tudo sobre a minha vida e eu sabia tudo sobre a vida dela. De quem a gente gostava, quais eram as garotas que a gente detestava, primeiro beijo com um menino, brigas com os pais, coisas de adolescente. Só o que eu nunca tive coragem de contar é que eu gostava mais quando ela me abraçava do que o meu namorado. Eu preferia o beijo dela.
Uma coisa que não mudou quando a gente começou a namorar foi o jeito que a gente dormia junto. Desde que a gente tinha idade suficiente para passar a noite numa casa estranha, eu e a Laura, a gente dividia a cama e sempre terminava a noite abraçadas.
A gente não via nada demais nisso — a gente tinha dormido assim desde sempre -, mas a minha mãe não gostava e quando ela dormia lá em casa a gente tinha que colocar um colchão no chão para ela. Aí, no meio da noite, ela sempre subia para a minha cama e me abraçava até a gente dormir. Eu nunca falava nada, mas eu não conseguia fechar os olhos enquanto ela não estivesse debaixo das minhas cobertas. Eu sempre dormi melhor assim e eu acho que ela sabia. Quando a minha mãe acordava a gente no dia seguinte, ela sempre encontrava a Laura no colchão extra.
Um dia, a gente estava na casa dela. Era o segundo semestre do nosso penúltimo ano de colégio. Ela estava solteira e eu não tinha nada sério com ninguém. No meio da noite, ela me perguntou se eu me lembrava dos nossos beijos de quando a gente era mais nova. Assim, do nada. Eu mal conseguia respirar, mas disse que sim. Acho que meu coração nunca bateu tão rápido enquanto eu esperava ela falar alguma coisa, até que ela disse que ela também. Perfeitamente. A gente deve ter ficado encarando o teto por uns cinco minutos, sem saber o que falar. Eu não agüentei e perguntei se ela queria fazer de novo. Ela virou pra mim, sorriu e fez que sim com a cabeça.
Eu nem consegui dormir naquela noite. Eu nunca tinha me sentido daquela maneira só beijando alguém, como se cada parte do meu corpo estivesse vibrando e como se nunca fosse ser suficiente. Por mais que a gente se beijasse, eu continuava querendo mais. Ela dormiu nos meus braços e eu nunca me senti tão...completa.
Mas não era para ter significado nada, não era para ter mudado nada. Ela continuava sendo a minha melhor amiga e a gente continuava gostando de meninos. Aquilo devia ser só diversão. Mas, quando a gente acordou no dia seguinte, tudo tinha mudado e tudo continuava exatamente igual, sabe? A gente continuava fazendo as mesmas coisas, do mesmo jeito de sempre, mas, quando a gente olhava uma para a outra, tinha um brilho diferente, sei lá, uma certeza de que a gente tinha uma coisa muito especial. Dali, toda vez que a gente ficava sozinha, a gente terminava com as bocas coladas. Eu continuava me dizendo que não significava nada, mas a cada dia era mais difícil de acreditar em mim mesma.
Depois disso, a gente simplesmente não conseguiu mais olhar para o lado. Alguns meninos da turma tentaram nos chamar para sair, mas a resposta era sempre a mesma. Minha mãe ainda tentava me empurrar pra cima de alguns garotos, filhos de amigos do meu pai, mas eu sempre voltava para a Laura. Eu sempre voltava pra ela. Até que, no início das férias, nós duas transamos.
A gente ainda era virgem e, eu acho que, de alguma maneira, a gente sempre soube que a nossa primeira vez ia ser assim. Meu Deus, como a gente não tinha a menor idéia do que estava fazendo! Mas foi bom e, com o tempo, a gente acabou aprendendo uma com a outra. Eu não sei direito em que momento eu me apaixonei por ela, mas naquele dia eu já não conseguia mais negar. Nem ela.
E isso me deixava tão confusa, sabe? Quer dizer, eu sempre tinha gostado de meninos ou, pelo menos, era isso que eu achava. Eu tinha sido criada com apenas essa possibilidade, era a única coisa real na minha família. Desde que eu nasci, o meu caminho já estava mais ou menos traçado: namoro, noivado, casamento, filhos. E era sempre um marido do meu lado. Mas, de repente, lá estava eu, dezessete anos e apaixonada pela minha melhor amiga. Eu queria tanto que não fosse verdade, que fosse só uma fase, uma curiosidade de adolescente. Eu queria tanto poder culpar os meus hormônios ou o que quer que fosse, mas eu não podia. Eu sabia que não podia e eu não tinha ninguém com quem conversar.
Os jantares na minha casa pareciam um festival de preconceito. Minha mãe veio de uma família super tradicional e qualquer coisa que fugisse do que ela via como padrão era tido como um absurdo, uma afronta quase pessoal. Eu me lembro de uma vez, logo no comecinho do verão, em que ela começou a falar sobre uma reportagem que ela tinha lido. Era sobre um garoto, pouca coisa mais velho do que eu, que tinha sido espancado, no meio da rua, por ser gay. Quando ela começou a falar, eu achei que ela fosse condenar os garotos que bateram nele. Mas não. Ela disse que a culpa era do menino — cinco contra um e a culpa era dele. Ela disse que se ele não fosse um pervertido, isso não teria acontecido. Que se os pais dele o tivessem criado direito, nada disso teria acontecido.
Como é que eu podia contar pra ela que eu achava que eu era como o garoto que tinha sido espancado? Que eu achava que eu estava apaixonada pela minha melhor amiga? Que eu também era uma pervertida? Eu não tinha coragem de contar pra ela e o meu pai era quase um fantasma naquela casa. Ele trabalhava tanto que, às vezes, eu achava que ele só ia em casa para dormir e trocar de roupa. E, mesmo quando ele estava lá, era como se não estivesse. Eu era responsabilidade da minha mãe. Ela é quem tinha que lidar comigo.
Aos poucos, eu comecei a viver duas vidas. Em casa, eu era a imagem da perfeição. Quanto mais eu me apaixonava e me envolvia com a Laura, mais eu me esforçava para ser a filha que a minha mãe tanto queria. Porque, talvez, se eu conseguisse ser perfeita em tudo o mais, talvez ela conseguisse me amar, mesmo que eu fosse gay. Porque era só isso que eu queria, que ela me amasse, que ela me visse.
Em compensação, eu passava cada minuto possível com a Laura. Esses eram os únicos momentos em que eu me sentia livre de verdade. Com ela, eu era eu. Eu não precisava me esforçar para ser perfeita, imaculada. Ela me enxergava. E continuava do meu lado.
Mas, quando o início das aulas foi se aproximando, essa vida dupla começou a pesar entre a gente. Algumas pessoas já tinham quase flagrado a gente algumas vezes e a gente não sabia se teria desculpas para dar sobre porque a gente recusava todos os meninos que queriam sair com a gente. Até que a Laura me deu um ultimato: a gente tinha que contar para os nossos pais antes do final das férias. A gente já tinha chegado a conclusão de que estava namorando e ela queria voltar para a escola como um casal. A idéia me apavorava, mas eu acabei concordando. Ela parecia tão animada e eu sempre fiz tudo para vê-la feliz.
A gente combinou que ia contar no mesmo dia, mas eu não consegui. E eu continuei não conseguindo todas as outras vezes. Eu desistia em cima da hora e mandava uma mensagem para ela dizendo que eu não tinha feito. Eu sabia que a Laura estava ficando impaciente e que o tempo estava passando, mas a pressão não ajudava. Então, na última noite das férias, eu não tinha mais saída. Eu me sentia presa entre o ódio cego da minha mãe e o desespero da Laura. E a sensação que eu tinha era de que, não importava qual fosse a minha decisão, eu ia sair perdendo.
Eu me lembro que nesse dia o meu pai estava em casa e nós nos sentamos para jantar juntos. De início eu até achei que fosse melhor, assim eu não precisaria contar duas vezes e meu pai poderia conter a minha mãe se ela ficasse exaltada. Mas o meu estômago estava completamente embrulhado e tinha um nó na minha garganta que mal me deixava comer. Eu ficava olhando de um para o outro, tentando imaginar qual seria a melhor maneira de começar, mas eu não conseguia falar nada. Antes que eu criasse coragem, minha mãe começou a contar a última fofoca da vizinhança. O sr. Green, ele morava um quarteirão depois da gente, tinha visto a filha beijando uma outra menina e colocou a garota pra fora de casa. A própria filha! E a minha mãe contou isso com um sorriso no rosto, sabe? Como se ela tivesse falando do tempo. Pra coroar, ela ainda disse que ele estava coberto de razão. Que ninguém deveria admitir aquele tipo de pouca vergonha debaixo do próprio teto e que, se fosse com ela, ela teria feito a mesma coisa. E ela falou isso olhando pra mim. Foi como se a terra tivesse se aberto embaixo dos meus pés. Meu pai continuava em silêncio e tudo o que eu queria fazer era correr pro meu quarto e nunca mais sair de lá.
Quando eu finalmente pude sair da mesa, eu subi pro meu quarto, mas eu ignorei o meu celular. Eu já sabia o que eu ia encontrar. Eu e a Laura, a gente tinha combinado de dizer como tinham sido as conversas. Mas eu não conseguia falar com ela. Eu tinha certeza que ela tinha contado pros pais e não sabia como dizer que eu era uma covarde, que eu tinha amarelado. Eu sabia que eu tinha decepcionado ela.
No dia seguinte, ela estava me esperando na porta da escola. Eu não tinha como fugir e, assim que ela olhou pra mim, ela soube que eu não tinha conseguido. Ela ficou com tanta raiva. Acho que eu nunca tinha visto a Laura daquele jeito. Ela dizia que os pais dela não estavam falando com ela, mas que eu não tinha cumprido a minha promessa. Eu ainda tentei explicar, mas ela não queria ouvir. E foi aí que ela me deu o segundo ultimato: eu tinha até o final da semana pra contar pra eles, senão estaria tudo terminado entre a gente. Namoro, amizade, tudo.
Como é que eu podia tomar uma decisão daquelas? Escolher entre a minha mãe e a pessoa por quem eu estava apaixonada. Escolher qual delas eu preferia perder. Mas, com dezessete anos, eu sabia que eu tinha muito mais a perder se a minha mãe me odiasse e me colocasse pra fora de casa, como ela mesma tinha dito que faria. Então eu não contei nada pra ela e a Laura não olhou mais na minha cara. Ninguém entendeu porque a gente se afastou de repente e eu lembro que eu chorava todas as noites antes de dormir. Eu estava dilacerada e eu sabia que só eu poderia fazer alguma coisa pra melhorar, mas eu não conseguia.
Depois disso, eu achei que a minha vida fosse voltar a um mínimo de normalidade. Eu ia terminar o colégio, começaria a faculdade e, quando eu não dependesse mais dos meus pais, eu contaria para eles. Se ainda houvesse o que contar, porque, àquela altura, eu já não tinha mais certeza de nada. Mas a Laura não ficou satisfeita em terminar comigo. Ela ainda estava com muita raiva e ameaçou contar pra escola inteira que eu era lésbica. Acho que ela pensava que, se ela contasse, isso chegaria aos ouvidos dos meus pais e, então, não existiria mais nenhum impedimento entre a gente.
Eu entrei em pânico. Eu andava pela escola me perguntando se as pessoas já sabiam, se eu ia apanhar igual àquele garoto, se eu ia ser humilhada por todo mundo como tantos outros alunos já tinham sido antes de mim. Eu estava em pânico e eu acabei fazendo a única coisa que eu consegui pensar que talvez pudesse me proteger: eu comecei a ficar com todos os garotos do colégio.
Na hora, parecia a alternativa perfeita. Porque, se a Laura contasse, ninguém acreditaria que a garota mais fácil de todas gostava de meninas. Era também uma maneira de me vingar da minha mãe e arranhar a imagem de filha perfeita que ela tanto queria — a cidade inteira sabia o que eu era, mas ninguém falava nada pra ela. Eu podia ver a maneira como olhavam pra ela quando a gente estava na rua e eu me sentia um pouco melhor, vendo a pena que as pessoas sentiam por ela.
E eu pensei que, se eu ficasse com o máximo de caras que eu conseguisse, talvez eu conseguisse encontrar um que me fizesse me sentir da mesma maneira que eu me sentia com a Laura. Era uma questão de estatística. Mas, chegou uma hora que os garotos do colégio acabaram. E os das outras escolas também. E alguns que já tinham passado bastante da adolescência. Foi um deles que me viu ontem, esperando você na porta do Breadsticks. E o pior é que eu mal me lembro de ter ficado com ele. Claro que nenhum deles conseguiu o que eu queria e eu comecei a me sentir cada vez mais infeliz.
A única coisa que me mantinha de pé era a necessidade de sair de Lima. Eu precisava começar uma outra vida longe daqui e criar uma nova Santana. Eu tinha me esforçado tanto pra deixar tudo o que tinha acontecido com a Laura pra trás que, quando eu cheguei na faculdade, eu estava completamente no fundo do armário. Com a porta trancada. Mas eu também tinha decidido que eu não queria mais aquela vida, pulando de cama em cama, transando com todo mundo por nada. Isso era pra ter punido a minha mãe, mas só feriu a mim.
Eu nunca me dediquei aos estudos como naquela época. Eu pensava que, já que eu não tinha conquistado o amor dos meus pais de um jeito, talvez eu conquistasse de outro. Talvez se eu me tornasse tão competente quanto o meu pai, eles me respeitassem, pelo menos. Mas, a cada vez que eu me decepcionava com eles ou que eu me sentia ameaçada por esse meu outro lado que eu insistia em manter preso, eu regredia aos meus velhos hábitos. Eu achava o primeiro bar que eu pudesse, ficava completamente bêbada e dormia com o primeiro cara em que eu colocasse os olhos.
Foi nessa época que eu conheci o Rafa. Eu já tinha desistido de romance antes de começar a faculdade e, tirando essas minhas noites de bebedeira, eu vivia com a cara enfiada nos livros. No início, eu não queria nada com ele, eu não via propósito. Mas a gente era tão parecido, tinha objetivos tão próximos, que parecia natural a gente terminar junto. Além disso, a cada vez que eu falava com os meus pais, eles perguntavam se eu estava namorando. Eu não agüentava mais e o Rafa parecia o genro ideal. A gente era mais amigo do que qualquer coisa, mas eu achava que talvez fosse isso a que eu tinha direito, sabe? Paixão era coisa de cinema, era coisa de adolescente. E eu tinha desperdiçado a minha chance de felicidade, então eu teria que me contentar com ele.
As coisas seguiram o rumo que todo mundo achava natural e, logo, eu me vi casada com um político. Eu me acostumei com aquela vida e não pensava muito se aquilo era realmente o que eu queria pra mim. Era o que todo mundo esperava, então... Eu engolia a seco e seguia em frente.
Mas, de vez em quando, eu acho que um pouquinho da velha Santana ressurgia. Às vezes, quando o Rafa passava muito tempo viajando, eu simplesmente entrava no carro, dirigia até uma cidade vizinha, entrava num bar qualquer, enchia a cara e terminava a noite num motel barato. Sempre com uma menina. Enquanto eu estava com ela, mesmo com todo o álcool, eu me sentia viva, como eu não conseguia me sentir desde a Laura. Mas, assim que eu colocava a cabeça no travesseiro, uma culpa enorme me consumia. Eu tinha aprendido que aquilo era errado. Eu tinha me ensinado que aquilo era errado. Eu não podia querer aquilo. Mais ainda, eu não podia me permitir aquilo. Às vezes eu penso que eu dei muita sorte de ninguém ter descoberto isso na época.
E aí, por fora, vida perfeita. Por dentro, eu já nem sabia mais quem eu era.
Até que o Rafa morreu e aconteceu aquilo tudo que eu já te contei. Quando eu não agüentei mais ficar lá, sozinha, eu resolvi aceitar o convite da Quinn. A família dela é de uma cidade próxima e ela trabalha em Lima desde o fim da faculdade. Acho que do pessoal que se formou com a gente, ela é a única com quem eu mantive contato. Eu sempre escondi tanta coisa, sempre tive tanto medo que alguém descobrisse os meus segredos, que era mais fácil manter todo mundo à distância. Mas a Quinn é muito parecida comigo e ela nunca tentou invadir o meu espaço. Ela sempre se manteve à distância que eu permitia, então eu me permiti me aproximar um pouco dela.
Eu voltei pra cá e me enterrei no trabalho, como sempre. Era a minha única distração. E eu já tinha passado tanto tempo afastada dos meus pais, que eu nem pensei em procurar por eles quando eu cheguei. A minha mãe já estava em coma e eu achei que não valia a pena procurar velhos fantasmas.
E foi aí que você entrou na minha vida. E eu me assustei. Eu me assustei tanto. Porque você me olha da mesma maneira que a Laura me olhava antes dessa bagunça toda, como se você conseguisse enxergar o que eu me esforcei tanto pra esconder. É como se você me desse permissão pra ser uma Santana que eu não sou há tanto tempo e que eu acho que eu não sei mais ser. Cada vez que eu olho pra você, eu sinto coisas que eu disse a mim mesma, há muito tempo, que eu não devia sentir. Mas parece tão certo, que eu não consigo mais me lembrar porque era errado. E eu olho pra minha vida, e ela é tão vazia, que eu me pergunto se não fui eu que estive errada esse tempo todo. Mas eu sei que eu não estou pronta pra resposta. E eu não sei se algum dia eu vou estar pronta. Mas aí eu me lembro de quando você foi embora lá do hotel e de que tudo o que eu queria era ter coragem pra ir atrás de você. Porque eu me odiei por muito tempo, Britt, mas eu gosto de quem eu sou quando você está por perto, eu gosto da maneira como você me olha e eu quero tanto, tanto ser a pessoa que você parece enxergar. Mas eu sei que eu ainda não sou. E eu não sei o que a gente está fazendo, nem pra onde a gente vai, nem se eu vou ter coragem pra dar mais algum passo... Mas eu sei que eu preciso ter você na minha vida.
Eu não sei quando eu vou estar pronta, mas se eu tiver você do meu lado, eu sei que um dia eu vou ter coragem pra ser quem eu sou, quem eu sempre deveria ter sido. Mas não é justo te pedir pra esperar por uma coisa que eu não sei quando vai acontecer. Essa bagunça é minha e eu não posso arrastar você pra ela. Então, eu vou entender se você quiser ir embora agora. Se você não quiser se envolver nisso, eu vou entender.
Lágrimas escorriam pelo rosto de Santana quando ela terminou de contar toda a sua história para Brittany. Agora estava tudo ali, completamente exposto, seu coração escancarado de uma maneira que ela nunca tinha permitido. Ela se sentia nua e tinha frio. Puxou as pernas ainda mais contra o corpo e apoiou a testa nos joelhos. Ela não tinha coragem de ver a expressão de Brittany. Ela não queria ver pena nos olhos azuis. Ela não queria ver a dançarina se levantar e dar as costas para ela.
Um soluço sacudiu o corpo de Santana quando ela ouviu o corpo de Brittany se mover. Seu coração despencou dentro do peito e ela nunca se sentiu tão sozinha quanto naquele momento. A única pessoa que ela achou que não fosse abandoná-la estava se levantando para ir embora e não havia nada que ela pudesse fazer para impedir. Mais uma vez. Imagens de Brittany parada, na porta do seu quarto de hotel, inundaram a lembrança de Santana. Ela se lembrava da impotência que sentira naquele dia e como esse sentimento parecia ainda maior agora.
Até que ela sentiu dedos deslizando pela extensão dos braços que ela usava para abraçar as próprias pernas. A respiração de Santana congelou no meio da garganta e ela se manteve imóvel, sem muita certeza se aquilo estava acontecendo mesmo ou se era só a cabeça dela pregando peças.
- San.
Ela ainda não se atrevia a olhar pra cima. A voz de Brittany era trêmula e Santana não tinha coragem de encará-la. Ela não conseguia se forçar a erguer a cabeça, por mais que cada batida do seu coração pedisse por isso. Ela precisava se perder em Brittany, mas seu corpo e sua mente pareciam não conseguir mais trabalhar em sincronia.
Santana sentiu quando as mãos de Brittany escorregaram pelos seus braços até os ombros tensos. Ela as manteve ali, polegares dançando pela lateral do pescoço moreno, enquanto voltava a falar, a voz pouco mais que um sussurro.
- San, olha pra mim. Por favor.
Uma pequeneza na voz de Brittany roubou o ar de Santana. Ela já tinha se acostumado a todas as dores que ela tinha causado a si mesma; ela já tinha se acostumado ao buraco que ela tinha no peito. Mas ouvir isso na voz da loura era mais do que ela podia agüentar. Ela respirou fundo uma vez e ergueu um pouco a cabeça, apoiando o queixo nos joelhos.
A sua frente, Brittany tinha os olhos vermelhos e inchados. Lágrimas grossas ainda escorriam pelo seu rosto, mas ela não fazia qualquer esforço para impedi-las. Ou secá-las. Ela se deixava transbordar. E, apesar disso, ela sorria para Santana. Era um sorriso pequeno, de lábios apertados, que mal estava ali, mas a médica podia vê-lo. Ele era tão real quanto os dedos que agora secavam as trilhas que as lágrimas tinham desenhado em seu rosto. E Santana, que sempre se vangloriava de saber ler as pessoas, não tinha a menor idéia do que aquele sorriso significava.
Com o rosto de Santana entre as mãos, Brittany respirou fundo e voltou a falar:
- Eu não vou a lugar nenhum, San. Não tem o que você possa me contar sobre você que vá me assustar. Eu estou aqui e é aqui que eu quero estar.
- Mas...
- Não. Me deixa falar.
Sem tirar as mãos do rosto de Santana, Brittany descruzou as pernas e as apoiou nos lados do corpo da médica, arrastando o próprio corpo até quase se sentar sobre os pés de Santana. Elas estavam a centímetros de distância e respiravam o mesmo ar carregado.
- Você não tem culpa de nada do que aconteceu. Você era uma adolescente e você fez a escolha certa. Se havia uma chance de a sua mãe colocar você pra fora de casa, você fez certo em se proteger. E essa Laura não devia ter te pressionado. Cada um é que sabe o momento certo de se assumir. Ninguém, ouviu? Ninguém tem o direito de apressar isso.
Santana fungou e assentiu. Brittany agora a segurava pelas panturrilhas, apertando de leve seus músculos, e ela se sentia tão ridícula na frente dela, tão indigna de tudo o que ela estava ouvindo e vendo nos olhos azuis que não se desviavam dela, que Santana sentiu uma necessidade enorme de justificar cada erro, de explicar cada decisão. Ela não merecia a compreensão de Brittany e precisava achar qualquer coisa que não fosse aceitável.
- Eu sei. Mas eu não devia ter feito o que eu fiz. Eu nem lembro com quantos caras eu dormi naquele ano.
- Sim, você não devia, mas eu entendo porque você fez. Eu sei o que é querer não ser diferente, o que é fingir ser uma coisa porque a realidade é ainda mais difícil. Eu entendo, San. Eu não vou julgar você por isso. Por nada do que você me contou. Você fez o melhor que você podia com os recursos que você tinha e é só isso que cada um pode fazer.
Ela tinha mostrado cada parte da sua alma. Todas elas. Até as mais escuras, as estilhaçadas. As partes que ela tentava esconder de si mesma. As partes que feriam seu próprio corpo. As partes que a envergonhavam, que se enterravam no fundo da sua pele, que a lembravam constantemente tudo de ruim que já havia acontecido. Santana tinha se mostrado por completo para Brittany, sem a menor esperança de que ela pudesse entender ou ficar. Mas Brittany ainda estava sentada a sua frente, segurando suas mãos entre as delas, sorrindo aquele sorriso que prometia eternidades. Santana, então, começou a sentir seu corpo relaxar, sua respiração voltar ao normal, seu coração bater com mais calma dentro do peito. Brittany ainda estava ali. Brittany ainda estava ali e ia ficar tudo bem.
- Agora, eu acho que o melhor que você tem a fazer é deixar isso tudo pra trás. Já que você não pode mudar o que aconteceu, você pode não permitir que isso determine as suas escolhas de hoje.
- Deixar tudo pra trás é um pouco difícil nessa cidade — Santana disse com um meio sorriso triste.
- Como assim?
- Lembra aquela manhã que eu cheguei de repente na sua casa? Que eu falei que não queria ficar sozinha no hotel? — Quando Brittany assentiu, Santana continuou: — Eu atendi a Laura naquele dia. Ela tinha sofrido um acidente de carro e foi levada para o hospital. Nada grave, mas eu não tive alternativa. Eu fiz um juramento e tive que atendê-la.
- E como foi?
- Estranho. Eu não a via desde o último dia de aula do colégio e, de repente, ela estava em cima de uma maca, sob os meus cuidados. E ela queria conversar sobre o que aconteceu, mas eu... Eu não consegui.
- Vocês nunca conversaram sobre o que aconteceu entre vocês?
- Não. Ela parou de falar comigo no último ano e eu fazia questão de evitar encontrar com ela nas vezes que eu vinha à cidade durante as férias da faculdade. E, desde que eu me mudei de volta, eu não a tinha encontrado.
- Pois eu acho que você devia conversar com ela.
- Eu não sei se eu consigo, Britt.
Santana tinha os olhos arregalados e o corpo rígido, afastado ao máximo de Brittany. A loura sorriu para ela, tomou-lhe as pernas e as passou por cima das suas, uma de cada lado do seu corpo. Com o novo espaço, ela se arrastou até que conseguisse abraçar a médica.
- Eu sei que você consegue. Eu tenho certeza. Você é muito mais forte do que você pensa. E eu acho que pode fazer bem pra você falar pra ela como você se sentiu, porque você tomou as decisões que você tomou. E, também, ouvir o que ela tem a dizer. As pessoas erram e ela também era só uma adolescente, San.
- Mas ela era a minha melhor amiga! Ela não tinha o direito!
- Não, não tinha. Mas a gente costuma ferir mais as pessoas que estão mais próximas a gente.
- É, talvez.
- Então, procura por ela. Eu não estou dizendo que vocês tenham que voltar a ser melhores amigas, mas ouve o que ela tem a dizer. No mínimo, você encerra essa parte da sua história.
- Eu vou pensar.
- Tá.
Brittany sorriu mais uma vez e tomou os lábios de Santana com os seus. Era um beijo lento, terno, uma reafirmação do que ela já tinha falado. Santana correspondeu e enlaçou Brittany pelo pescoço. Quando o ar faltou, a médica enterrou a cabeça na curva do pescoço da loura, o cheiro dela preenchendo seus sentidos. Brittany apertou ainda mais o corpo moreno contra o seu, beijou seu pescoço e falou baixinho:
- Eu não vou a lugar nenhum, San. Não importa o que aconteça, eu não vou a lugar nenhum.
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