How To Mend A Broken Heart
21 Capítulo 21
Notas iniciais
Conversas importantes acontecendo...
Santana Lopez odiava ter folgas nos finais de semana. Quando ainda era casada, não trabalhar nessas datas significava ter que colocar uma roupa que ela não tinha escolhido e participar de algum evento que não lhe interessava. Durante seu casamento com Rafael, seus finais de semana de folga não lhe pertenciam, por pior que tivesse sido o plantão anterior. Como diziam os assessores do marido, mulher de político está sempre linda e bem disposta. Eles diriam loura também, se o seu tom de pele permitisse.
Depois de voltar para Lima como uma mulher viúva, seus finais de semana passaram a ser seus demais. Uma aura familiar inundava a cidade e Santana não conseguia escapar da exibição, em praça pública, do que estava faltando em sua vida. Nos restaurantes, ela podia sentir a pena com que olhavam para ela, almoçando sozinha, em meio a tantas mesas lotadas. Ela quase conseguia ouvir um Tão jovem, coitada ecoando entre as paredes.
O bar do hotel também não era refúgio. Nos finais de semana, o cheiro de desespero que se desprendia das cadeiras e das garrafas aumentava e ela conseguia enxergar a derrota nos olhos vermelhos de cada um dos freqüentadores. Nem toda solidão compartilhada diminui.
Santana Lopez odiava ter folgas nos finais de semana. Mas não neste. Porque neste, ela estava sentada no chão da sala de Brittany, as costas apoiadas no sofá e um prato de macarrão que ela tinha preparado no colo. Brittany a encarava do outro lado da mesa de centro, por cima de duas taças de vinho esquecidas pela metade.
- Isso aqui está maravilhoso, Santana — falou apontando para o próprio prato depois de engolir uma enorme garfada.
- É, até que ficou bom — respondeu escondendo o rosto por trás da taça. — Mas, também, é a única coisa que eu sei fazer na cozinha.
- Bom, acho que essa deve ter sido a primeira vez que o meu fogão foi usado para fazer comida de verdade e não alguma coisa que vem pronta num pacote. Então, eu diria que é um grande avanço.
Aquela não era a primeira vez de Santana na casa da loura desde que Brittany voltara para lá, então, sem precisar de instruções, ela se levantou e caminhou até o banheiro. A médica andava com calma pelos cômodos de Brittany, como se conhecesse o espaço desde sempre. Como se conhecesse sua dona desde sempre.
No caminho de volta, uma foto na estante da sala chamou sua atenção. Na imagem, uma Brittany adolescente, de aparelho nos dentes e uniforme de uma academia de dança, abraçava uma mulher mais velha.
- Foto nova?
Brittany girou no chão para identificar a que foto Santana se referia. Quando identificou de qual se tratava, um enorme sorriso brotou em seu rosto e seus olhos se acenderam como pontos de luz.
- Sim. É a minha tia, Holly Hollyday.
- Holly Hollyday? Isso é sério? — Santana perguntou lutando contra as gargalhadas que ameaçavam fugir de sua garganta. — Desculpa, mas é que...
- Não tem problema. Ninguém leva o nome dela a sério, mesmo. Eu já me acostumei.
Santana encarou a foto mais uma vez antes de se voltar para Brittany com uma sobrancelha arqueada.
- Eu pensei que o seu sobrenome fosse Pierce.
- E é. A Holly não é minha tia de verdade. Ela e a minha mãe são melhores amigas de infância. Eu cresci com ela lá em casa, então é como se ela fosse da família.
- Faz sentido. Eu acho.
Mas a verdade é que Santana não tinha muita certeza. Seus pais nunca tiveram ninguém assim em suas vidas, uma pessoa que, de tão próxima, se tornasse da família. Todas as pessoas que freqüentavam sua casa durante sua infância e adolescência não passavam de conhecidos, a quem ela se referia pelo sobrenome e que costumavam desaparecer depois de algum tempo. Mesmo seus amigos de colégio, nenhum deles havia permanecido em sua vida depois que ela fora para a faculdade. A amiga mais antiga que ela tinha era Quinn e dizer que ela era da família seria um enorme exagero.
- Sabia que foi a Holly que me levou para a minha primeira aula de dança?
- Sério?
A loura assentiu e deixou os olhos desviarem para a janela, se perdendo em lembranças. Seu rosto se suavizou e, quando voltou a falar, sua voz saía impregnada de nostalgia.
- Eu devia ter uns quatro anos, mais ou menos, e, pelo que a minha mãe fala, eu não parava quieta. Meus pais me chamavam de espoletinha.
Brittany sorriu e voltou a encarar Santana, que se perdeu nos oceanos tranqüilos que ela tinha no rosto. Naquele momento, a dançarina tinha uma espécie de suavidade nos olhos que fazia com que a médica tivesse vontade de colocar a cabeça dela em seu colo e enterrar os dedos nos fios louros. Ela poderia ficar ali por horas, só sentindo os fios dourados contra sua pele e ouvindo a voz de Brittany lhe contando histórias.
- E, aí, um dia, a Holly estava tomando conta de mim e ela ligou o rádio. Ela disse que eu simplesmente parei de correr e quebrar coisas e comecei a dançar. Ela diz que parecia que eu estava hipnotizada. Quando meus pais chegaram, eu já estava dormindo e a casa estava de pé. Minha mãe diz que isso era quase um milagre.
Santana sorria ao imaginar uma menininha de cabelos claros e olhos fechados sorrindo e se balançando ao som de uma música qualquer.
- Uma amiga dela era dona de um estúdio de dança. Ela me levou lá um dia e eu não parei mais. Eu até pensei em desistir uma vez, mas ela me convenceu a ficar. Eu devo muita coisa a ela.
- Ela parece ser muito especial.
- Ela é — Brittany já tinha os olhos levemente marejados pelas memórias. — Não tem um aniversário ou um recital em que ela não estivesse presente. Às vezes eu tenho certeza de que ela e a minha mãe foram irmãs em outra vida.
A afirmação arrancou uma risada da morena e serviu para quebrar o clima nostálgico da conversa. Brittany também riu e secou uma lágrima que escapou de seu olho.
- Mas agora chega dessa conversa, né? — Ela se colocou de pé e recolheu os dois pratos. — Quer sobremesa?
- Claro! Deixa eu te ajudar.
- Não precisa. Você já fez o almoço. O mínimo que eu posso fazer é cuidar da sobremesa — Santana lançou um ponto de interrogação na direção de Brittany que sorriu. — É só sorvete. Acho que eu consigo colocar dois potes sem me machucar.
- Se você diz...
Uma gargalhada acompanhou os passos de Brittany até a cozinha e Santana também se viu sorrindo, confortável diante daquela relação tão nova e, ao mesmo tempo, tão antiga. Ela não era mulher de confiar rapidamente nas pessoas. Depois de ter se visto traída por algumas das pessoas em quem achou que podia confiar, Santana se fechou dentro de uma caverna — era escuro e solitário, mas era seguro. Ou, ao menos, era o que ela achava até encontrar Brittany.
Cada célula do corpo de Santana conhecia Brittany, reconhecia no sorriso da loura uma coisa que ela nunca soubera que procurava. Na frente dela, Santana se sentia como um violão há muito desafinado, suas cordas mais tesas do que o necessário. E Brittany, com mais paciência do que ela se julgava merecedora, começava a afiná-la, nota por nota, corda por corda. O processo era lento; a cada acorde, a afinadora esperava que o novo som terminasse de ecoar no ar, que a médica se acostumasse com a nova realidade de suas notas. E Santana se sentia presa, engolida pelo medo de descobrir qual música ela seria capaz de tocar e ansiosa por ouvir suas notas ecoando livremente no peito.
Mas não agir também é um tipo de ação e ela continuava deixando que Brittany a afinasse aos poucos. Se ela seria capaz de mostrar seus novos sons fora da segurança do universo particular que ela e Brittany criavam, só o tempo diria.
Quando Brittany retornou para a sala, ela encontrou Santana encarapitada no sofá e várias folhas de papel espalhadas pela mesinha de centro. Uma ruga de preocupação havia feito moradia na testa morena e ela encarava com atenção os três papeis que tinha em mãos.
- Perdi alguma coisa?
- Oi? — O olhar de Santana encontrou com o de Brittany e ela percebeu que a loura se referia à bagunça que ela criara em poucos minutos. Uma vermelhidão subiu por seu pescoço antes que ela conseguisse responder: — Desculpa, Britt. Eu estava tentando decidir o que fazer sobre o apartamento.
- São os seus questionários? — ela perguntou enquanto se sentava no sofá e entregava o sorvete a Santana.
- São. Eu já olhei tanto pra eles que estou quase decorando.
A expressão de pânico que tomava os olhos castanhos de Santana era divertida para Brittany, mas ela conhecia a médica o suficiente para saber que não deveria rir daquela situação. Então, ela tirou seu rosto mais sério da gaveta antes de continuar a conversa.
- Você já conseguiu definir os seus preferidos?
- Você quer dizer os menos piores, né? Já, são esses três aqui.
- Posso dar uma olhada?
- Divirta-se!
Santana entregou os papeis para Brittany e se concentrou no sorvete que começava a derreter.
Brittany se lembrava de todos aqueles apartamentos. Ela tinha acompanhado Santana em cada uma das visitas e ajudado a preencher alguns itens do questionário que a médica tinha preparado. Inspecionando melhor os três papeis, Brittany concordava com a escolha de Santana, aquelas eram as três melhores opções. E ela tinha um preferido entre eles — ela sempre teve um preferido sem precisar daqueles papeis todos -, mas a decisão precisava ser de Santana e ela tinha prometido ajudar.
- Se esses são os três melhores, todos são boas opções, certo?
- Acho que sim. São as melhores opções para o que eu preciso, pelo menos.
- Ótimo — Santana quase se engasgou com o sorvete quando viu o sorriso travesso que surgiu nos lábios de Brittany. — Fecha os olhos.
- Como assim, Britt? Fechar os olhos pra quê?
- Confia em mim? — a voz de Santana se perdeu nos olhos azuis que encaravam sua alma e ela apenas assentiu com a cabeça. — Então, fecha os olhos. Eu vou te ajudar a escolher.
Santana engoliu com dificuldade o nó que tinha se formado em sua garganta e obedeceu Brittany. Ela sentia a cabeça leve e a pele parecia explodir com milhões de fogos de artifício em miniatura. Enchendo os pulmões de ar, ela tentou mandar seu coração bater mais devagar dentro do peito antes que seu eco pudesse ser ouvido na sala silenciosa.
Era estranho, estar de olhos fechados, tão próxima de Brittany. De repente, todo seu corpo parecia em sintonia com o dela; um cheiro suave de perfume invadia seus sentidos e ela conseguia ouvir e sentir todos os movimentos que ela fazia a seu lado. Aquilo devia ser algum tipo de tortura e Santana pensou em desistir, mas quando a voz de Brittany invadiu seus ouvidos, a médica se viu congelada, refém dos comandos e das vontades da loura.
- Eu quero que você pense nesses três apartamentos, que você se lembre de como você se sentiu quando você andou dentro deles.
- Britt...
- Por favor, San. Tenta. Só uma vez. Por mim?
Escolher um apartamento não é tarefa fácil e Santana não se sentia exatamente confortável tomando aquela decisão baseada em sensações, mas seus questionários não a tinham levado muito adiante, então ela resolveu dar uma chance ao método de Brittany.
- Tá bom, tá bom. Continua.
- Eba! Se esses três apartamentos são aceitáveis, eu quero que você pense em como você se sentiu neles. Nos quartos, nas salas. Que você se lembre das paredes, de como o sol iluminava os lugares. Tenta se imaginar morando ali.
Enquanto a voz de Brittany ia pintando comandos, a mente de Santana se perdia nas lembranças dos três apartamentos que ela tinha selecionado, obedecendo cegamente aos pedidos da loura. Ela tentava silenciar sua mente analítica e se lembrar apenas das sensações que tinha sentido durante aquelas visitas.
Santana tentava imaginar paredes de outras cores e como os poucos móveis que ainda tinha ficariam naqueles cômodos. Ela se visualizava andando pelos corredores descalça ou chegando cansada depois de mais um plantão. Ela pensava em quais seriam as sombras que o sol da manhã pintaria nas paredes do quarto e nos barulhos da rua que invadiriam suas noites. Mas, mais do que qualquer coisa, ela se lembrava de Brittany dentro daqueles apartamentos. Ela se lembrava da maneira como ela sorrira ao olhar pelas janelas, dos comentários que foram feitos depois, das caretas que ela fazia quando via alguma coisa de que não gostava.
E Santana imaginava Brittany, apenas. Parada, sorrindo para ela, em cada um daqueles apartamentos. Ela tentava imaginar futuro, visualizar presente. Ela pensava em qual daqueles endereços a dançarina melhor se encaixava, porque Santana precisava, desesperadamente, que Brittany se encaixasse em sua vida. Era uma necessidade maior do que ela e, naquele instante, Santana entendeu que só poderia escolher uma das opções. Porque se ela queria presente e futuro, que lugar melhor do que um que já tinha um pouco de passado?
Os olhos de Santana ainda permaneciam fechados, mas Brittany percebeu quando um sorriso calmo encontrou caminho até seus lábios. Ela tinha uma expressão serena e Brittany teve certeza de que a sua tática improvisada tinha dado certo. Santana abriu os olhos devagar e encontrou Brittany com um riso presunçoso no rosto.
- E aí? Decidiu?
- É, decidi, sim.
***
A noite encontrou Santana ainda na casa de Brittany, de pé em frente à janela, observando a cidade abaixo dela. Um forte temporal lavava os vidros e apenas o som dos raios e dos ventos podia ser ouvido. A médica não pretendia ficar tanto tempo, mas não havia condições de ela ir embora no meio daquela tormenta. E, enquanto a natureza se rebelava do lado de fora, as emoções de Santana entravam em choque dentro dela.
Ela e Brittany estavam caminhando para frente, isso era claro para ela. Mas, mesmo depois do último beijo — que ela tinha tomado a iniciativa, sua consciência teimava em repetir -, Santana não tinha certeza se estaria preparada para passar a noite novamente ao lado da loira. As cenas da última noite que elas passaram juntas passavam por sua mente numa repetição sem fim. Ela tinha certeza de que não poderia encarar outra humilhação como aquela. Outra crise de choro talvez fosse o suficiente para que seu corpo se esfarelasse como castelo de areia. Ela havia chorado mais desde que conhecera Brittany do que na sua última década de vida, mas, de alguma maneira, ela sempre se sentia mais leve ao lado da dançarina. A voz de Brittany lhe explicando porque gostava tanto de dançar, que era a sua maneira de gastar seus sentimentos, ecoou na cabeça da médica e ela pensou que, talvez, Brittany fosse a sua dança. Era nela que Santana gastava, entendia, vivia todos os sentimentos que ela nunca tivera coragem ou forças antes.
Esse entendimento alcançou Santana com um tremor em suas costas. Ela ainda não conseguia dar um nome para a força que a unia a Brittany, mas ela já não conseguia negar a força dessa ligação. Porque com Brittany, ela não era a Dra. Santana Lopez. Ela não tinha sido ridicularizada em cadeia nacional por algo que ela não tinha feito. Ela não tinha acabado de enterrar a mãe com quem não falava há muito tempo. Ela e seu pai não eram completos estranhos. Ela não tinha um passado enterrado até dela mesma. Ela não era nada disso e, ao mesmo tempo, tudo isso. O grande presente que Brittany havia lhe dado era a possibilidade de apenas ser. Inspirar e expirar sem toneladas pesando em seu peito.
Mãos delicadas lhe apertaram os ombros, arrancando Santana de seus pensamentos. Brittany sorria para ela pelo reflexo fraco da janela, seus olhos azuis grudados nas esferas ainda mais escuras de Santana àquela hora da noite. Brittany gostava da maneira como as luzes da rua brincavam no rosto moreno, criando sombras pela pele e destacando as bochechas altas.
- Acho que essa chuva não para tão cedo.
- E eu ainda tenho plantão amanhã — um suspiro aproveitou seus lábios entre abertos para escapar. — Eu não queria ter que enfrentar essa chuva, mas acho que é melhor eu ir antes que piore.
- Ou...você podia ficar...
- Britt...
- Não precisa ser nada demais, San — ela fala, deslizando as mãos pelos braços nus de Santana. — Está caindo um temporal e não é seguro você voltar de carro para o hotel agora. Só isso.
- Não sei, Britt.
Santana não conseguiu sustentar o olhar de Brittany pelo reflexo do vidro e fechou os olhos, tentando se concentrar unicamente em sua respiração e não na sensação dos dedos de Brittany contra sua pele. Santana sabia que não era uma boa idéia ela dormir ali. E não por não confiar em Brittany. Santana não confiava em si mesma. Não quando um toque casto como aquele era capaz de fazer sua mente se perder em espirais de pensamentos desconexos. Não quando ainda havia tanto que se conversar.
- Você já me ajudou tanto, San. Me deixa retribuir?
E a vulnerabilidade da voz de Brittany, e a maneira como seus olhos suplicavam que Santana aceitasse, é que finalmente convenceram a médica de que ela deveria ficar. Talvez não fosse a solução mais prudente, mas era a única certa para elas.
Santana apenas assentiu com a cabeça e deixou a cabeça descansar no ombro de Brittany. As mãos que passeavam por braços morenos se fecharam ao redor da cintura de Santana e Brittany se aproximou mais um pouco, colando seu corpo ao da médica, moldando cada curva. É uma posição quase idêntica à que Santana dormiu na última noite que elas passaram juntas no hotel. A diferença é que agora, sem todas as suas emoções consumindo seu corpo ao mesmo tempo, Santana conseguia notar os detalhes e as sutilezas de ter Brittany tão perto. Ela consegue perceber como o braço de Brittany quase dá uma volta completa em torno da sua cintura e como ela se agarra a sua blusa, como se não quisesse soltá-la nunca. Santana consegue perceber como sua cabeça parece encaixar com precisão na curva do pescoço da dançarina e como ela inteira se encaixa no corpo da outra, como peças de um quebra-cabeça. E ela também percebe como, depois de um tempo, suas respirações entram no mesmo ritmo, o coração de Brittany batendo às suas costas em sincronia com o seu.
Depois da eternidade de um minuto, Santana abre os olhos e encara o reflexo que a encara de volta: ela e Brittany abraçadas no meio da sala do apartamento da loura. E Santana entende que nada nunca foi tão certo. Ela pertence àqueles braços. Ela ainda não sabe como pertencer, mas ela sabe que está em casa ali.
Um sorriso lento se abre em seu rosto e Santana nota que Brittany também sorri para ela, um olhar de entendimento brilhando nos oceanos azuis, como se a loura tivesse ouvido todos os pensamentos que tinham passado pela cabeça da médica. Às vezes, Santana acha que Brittany consegue ler seus pensamentos. E, às vezes, ela gostaria que isso fosse verdade.
- Sabe, eu gosto quando você me chama de San.
***
Debaixo de pilhas e pilhas de roupas e papeis, Santana descobriu que havia uma cama de casal no quarto de Brittany. Era uma cama de tamanho comum, mas que parecia ter quilômetros de comprimento, tamanha era a distância que a loura tinha colocado entre elas.
- Você não precisa ficar tão longe, sabia?
Brittany olhava para ela por debaixo dos cílios compridos, um tom de rosa lhe subindo pelo rosto. Depois de Santana aceitar não encarar o temporal que lavava a cidade, uma falta de jeito se instalara entre elas. Apesar de já terem passado a noite no mesmo quarto, e até na mesma cama, essa era a primeira vez em que elas tinham certeza sobre os sentimentos que as ligavam e quão fortes eles poderiam ser.
- Eu não queria invadir seu espaço.
Elas estavam deitadas frente a frente e Santana esticou uma das mãos, tocando o rosto de Brittany com a ponta dos dedos. Ela achou que a loura parecia uma criança pequena, com medo de ser repreendida pelos pais depois de alguma travessura. A imagem colocou um sorriso pequeno no rosto de Santana antes dela responder:
- Acho que sou eu que estou invadindo seu espaço. — A frase saiu como uma pergunta e Brittany ameaçou balançar a cabeça em resposta, mas o dedos de Santana impediram o movimento. — Eu consigo lidar com você um pouco mais perto.
Brittany estudou os olhos de Santana por alguns segundos antes de se mover. Quando ficou satisfeita de que não havia ali nenhuma sombra de dúvida, ela deixou que um enorme sorriso se alojasse em seu rosto e escorregou o corpo pela cama, parando na ponta do travesseiro. Seu corpo estava há menos de um palmo de distância do de Santana, a ponta dos seus narizes quase se tocando, seus pés encontrando abrigo uns nos outros. Elas respiravam o mesmo ar e Brittany se perdia dentro dos olhos de Santana, ainda mais escuros, como buracos negros que sugavam sua razão.
Na claridade prateada que invadia o quarto pela janela, a pele de Brittany parecia feita da mais clara madrepérola, com pequenos traços de cor espalhados, como se ela fosse iluminada por dentro. Santana plantou sua palma contra o rosto de Brittany e aproximou seu rosto do dela. De olhos fechados, primeiro ela tocou o nariz fino da loura com o seu, sentindo o calor que sua pele emanava. Um suspiro escapou dos lábios de Brittany e atingiu Santana, que abriu os olhos para ver a expressão de tranqüilidade no rosto de Brittany. Ela tinha os olhos fechados, nenhum traço de preocupação marcando sua pele. Apenas o prazer de sentir as digitais de Santana em seu rosto. Com um sorriso, Santana fechou os olhos novamente e cerrou o espaço que as separava, plantando seus lábios nos de Brittany.
Foi um beijo casto, pouco mais do que o breve roçar de lábios, mas Brittany sentia todo o seu corpo se acendendo. Ela sabia que aquele beijo era tudo o que Santana podia lhe dar naquele momento, mas havia uma promessa tão grande encerrada naqueles lábios, que ela sentiu o ar sumir de seus pulmões e um nó ser formado em sua garganta. Ela abriu os olhos e encontrou Santana olhando para ela. Mesmo na pouca claridade do quarto, ela podia notar que a médica sorria, ao mesmo tempo em que tinha um ar de convicção nos olhos.
- Eu não quero nunca que você ache que eu quero você longe de mim.
A voz de Brittany sumiu junto com a lágrima que escapou de seu olho e se perdeu no travesseiro. Seu corpo, que parecia paralisado diante do peso daquelas palavras, saiu do estado de estupor quando Santana abriu um sorriso tímido para ela, como que esperando uma resposta. Brittany sorriu de volta e assentiu com a cabeça. Era o máximo que ela conseguia naquele momento. Quando finalmente ganhou controle de seus músculos, ela girou um pouco o corpo e esticou um braço na direção da médica, um convite silencioso para que elas retomassem o abraço que tinham partilhado na sala.
O cheiro de Brittany invadiu as narinas de Santana no mesmo momento em que ela enterrou a cabeça na curva do pescoço da loura. Ela estava deitada em cima de um ombro delgado, com dedos desenhando imagens aleatórias em suas costas e uma mão enterrada em seus cabelos negros. Ela abraçava Brittany pela cintura, contente em se sentir relaxar dentro daquele casulo. Gradualmente, seus corações entraram em sincronia e o único som que podia ser ouvido era o das suas respirações.
- Posso fazer uma pergunta? — A mão de Santana passeava pelo lado do corpo de Brittany quando ela se lembrou de algo que tinha visto quando dividiram a bancada do banheiro. Ao ouvir um som do fundo da garganta da loura, ela continuou: — Foi só impressão minha ou você tem uma tatuagem?
- Tenho. É um floco de neve.
- Floco de neve? Acho que essa eu nunca vi. Algum significado?
- Excesso de álcool — Santana pôde sentir a risada leve de Brittany sob seu braço. — Ou alguma coisa sobre eles serem únicos. Não me lembro muito bem.
- A segunda hipótese parece um pouco melhor.
- Concordo. Foi o que eu disse pra minha mãe, pelo menos.
- Ela não gostou?
- Digamos que ela não ficou muito feliz — Brittany deu um sorriso distante e encarou o teto, lembrando-se do dia que tinha terminado com aquele desenho em seu quadril. — Eu tinha saído para comemorar o meu aniversário com uns amigos. A gente acabou bebendo demais e, quando a gente passou na frente de um estúdio de tatuagem, a minha namorada convenceu todo mundo a entrar. Um dos garotos saiu de lá com uma garrafa de vodka na panturrilha. Então, até que eu não me dei tão mal assim.
Mas Santana tinha parado de escutar depois da palavra namorada. Aquele não era o rumo que aquela conversa devia ter tomado. Ela já tinha baixado suas defesas mais do que estava acostumada, naquele dia, e tudo o que ela queria agora era dormir nos braços de Brittany sem se lembrar de que havia um mundo do lado de fora daquele quarto. Ela não queria que seus pensamentos se espalhassem por sua cabeça como folhas levadas pelo vento. Ela não queria encarar sua vida e suas escolhas novamente. Não depois de anos e camadas de negação.
A mão que Santana tinha nas costelas de Brittany congelou no meio do movimento e a loura conseguiu sentir cada músculo da médica se tensionar ao ouvir a história. Ela nem pensou nas conseqüências que contar aquilo poderias ter, mas Brittany sempre levara uma vida às claras. Ela preferia permitir que Santana conhecesse todos os aspectos da sua vida e permitir que a médica decidisse o que fazer com a informação.
- Santana? Está tudo bem?
Santana esticou o pescoço para olhar Brittany e tentou sorrir, mas o gesto não alcançava seus olhos. Brittany a encarava como se ela fosse um livro escrito em alguma língua estrangeira que ela não compreendia, mas que talvez ela pudesse dar algum sentido se ela olhasse para as palavras estranhas por tempo suficiente. Era difícil permanecer imóvel sob o peso daqueles olhos transformando cada fresta em sua armadura em buracos, por onde seu coração ameaçava escapar a cada batida. Ela baixou novamente a cabeça e se enterrou na pele macia de Brittany, encarando apenas a própria mão que passeava pelo braço da loura.
- Está, sim. — A boca de Santana parecia feita de algodão e ela demorou a encontrar palavras que transformassem seus pensamentos em frases. — Você disse que tinha vindo para a cidade depois de terminar com o seu namorado.
Seu tom de voz se elevou sutilmente ao final da frase, transformando afirmação em pergunta. Santana questionava tudo ao seu redor. Nenhuma das suas certezas permanecia de pé diante do terremoto que se instalara e ela precisava de respostas simples, sim ou não. Qualquer coisa que pusesse terra firme de novo sob seus pés, pelo menos para que ela conseguisse respirar, se equilibrar, dar sentido ao que se descortinava diante dela.
- Sim.
A suavidade com que Brittany observava Santana escapou para sua garganta e cobriu a sua voz. Ela mantinha seus olhos grudados nos dedos da médica, imaginando seus olhos enquanto ela juntava peças em sua mente e montava um quebra-cabeças, sem ter certeza de qual imagem seria formada.
- E você teve uma namorada?
- Tive. Pouco depois que eu terminei o colégio. Não durou muito tempo, mas foi meu primeiro relacionamento sério.
Um sorriso distante se formou no rosto alvo e Brittany se permitiu pensar por segundo na pós-adolescente que ela tinha sido e nas inúmeras descobertas que ela tinha feito ao lado da primeira namorada. De alguma maneira, Santana a lembrava dessa sua outra versão.
Santana se moveu no colchão, músculos tensos e desconfortáveis. Ela ergueu a cabeça e se perdeu novamente nos olhos de Brittany. Eles eram abertos, convidativos como piscina numa manhã quente de verão. Através deles, Brittany colocava toda a sua história à disposição de Santana, como se não houvesse páginas arrancadas ou pedaços rabiscados. Santana se perguntava como seria viver sem editar seu passado numa versão melhor dele mesmo.
- Então, você é... — a palavra que Santana queria dizer passeava em sua boca, pesando toneladas em sua língua, antes de se derramar pelos lábios — bisexual?
Um grão de arroz se chocando contra o piso poderia ter sido ouvido dentro do silêncio que se instalou. Ele durou apenas dois segundos, não mais que três, mas o tempo suficiente para Santana ter certeza de que, dessa vez, ela não queria fugir das perguntas que se formavam em sua cabeça. Ela se sentia fragmentada, mas queria que Brittany recolhesse e juntasse seus pedaços.
Sob o olhar sério da médica, Brittany se lembrava do momento em que ela tinha se feito as mesmas perguntas que Santana fazia agora; as que ganhavam vida e aquelas que ela nem ousava fazer em voz alta. Com um suspiro, Brittany decidiu que o melhor a fazer, por elas duas, seria ser absolutamente honesta com Santana. Nenhuma pergunta deveria ficar sem resposta. Mesmo que as respostas que a médica procurava não existissem dentro da história de outra pessoa além dela mesma.
- Eu não sou muito fã de rótulos, mas acho que, talvez, esse seja o mais próximo. Quer dizer, ...
- O que me rotula, me nega — a voz de Santana saiu de algum lugar perdido e ela voltou a deitar sobre o corpo de Brittany, ouvindo o eco do coração da loura contra seu peito.
- Hmn?
- Desculpa — a latina voltou ao presente e deu um sorriso pra ninguém. — É uma frase que o Rafa costumava repetir. É de algum filósofo, eu acho.
- Bom, eu não sou muito boa com essas coisas de filosofia, mas eu concordo. Quando alguém me define só com uma palavra, parece que eu sou só aquilo, sabe? — Santana concordou com um movimento e Brittany continuou: — Quer dizer, sim, eu me sinto atraída por homens e mulheres e já tive relacionamentos com os dois. Acho que isso me definiria como bissexual, sim, mas eu não sou só isso.
Santana se mantinha em silêncio, absorvendo as palavras de Brittany e tentando dar um sentido a elas em sua cabeça. Seus pensamentos rodopiavam como tornado e ela se sentia incapaz de pronunciar qualquer frase coerente naquele momento. Ela se permitia apenas ouvir, sentir, a respiração de Brittany controlando a sua própria.
- Mas eu entendo a necessidade que a maioria das pessoas costuma ter de dar nome a tudo — Brittany continuou quando sentiu que Santana não daria continuidade à conversa. — Acho que facilita as coisas. Quer dizer, se eu já me perco no supermercado, imagina se as coisas não tivessem rótulo?
Como sempre, Santana podia contar com a leveza de Brittany para a tirar de dentro de si mesma e de suas preocupações. Ela se aninhou melhor ao corpo da outra e sentiu Brittany a apertar contra si, como se ela quisesse entrar em Santana e arrancar por dentro tudo o que amedrontava a latina.
- Como você teve certeza? — A voz de Santana não passava de um sussurro quebrado.
- Não teve um momento específico. Sempre foi natural, gostar de meninos e meninas. Um dia eu ouvi a palavra num programa de TV e soube que era isso que eu era.
- E seus pais? Como eles reagiram?
- Acho que eu tive muita sorte. — O sorriso de Brittany alcançou sua voz e ela depositou um beijo nos cabelos escuros de Santana. — Eles foram muito tranqüilos. Lembra da Holly?
- Sim.
- Então, ela é gay e as namoradas dela sempre freqüentaram a minha casa. Eu cresci sabendo que isso é normal. Na verdade, a minha mãe foi a primeira pessoa pra quem ela contou e elas dizem que elas ficaram ainda mais amigas depois disso.
As palavras de Brittany forçavam Santana a pensar nos próprios pais e no ambiente em que ela tinha crescido. Na casa dela, não havia o normal. Havia o correto, o adequado, o esperado por todos. Havia um molde que ela devia preencher e todas as partes dela que não coubessem nesse molde, deviam ser dobradas e guardadas bem no fundo, até que elas não existissem mais. Ou até que Santana se esquecesse de que elas existiam.
- Você acha que isso te influenciou? — O estômago de Santana deu um nó ao ouvir a própria pergunta. — Ai, desculpa, é que...
- Tá tudo bem, San — Brittany tocou mais uma vez os cabelos escuros com os lábios e a médica sentiu sua tensão diminuir. — E não me influenciou, não. A minha irmã cresceu vendo as mesmas coisas que eu e ela é tão hétero quanto possível. Acho que só deixou as coisas menos complicadas.
Santana assentiu com a cabeça contra o corpo de Brittany e elas deixaram que o silêncio do quarto as engolisse. Brittany queria saber o que estava se passando na cabeça de Santana, mas ela sabia que precisava permitir que ela caminhasse no seu ritmo, chegando às suas conclusões sozinha. Tudo o que a dançarina podia fazer era se manter próxima e, por enquanto, ela já estava feliz por Santana não ter fugido novamente.
- Desculpa.
A voz de Santana rasgou o silêncio depois do que pareceram horas. O som era tão pequeno que Brittany quase o perdeu na escuridão do quarto.
- Pelo quê?
- Por esse interrogatório todo.
- Não tem problema, San — ela respondeu com um sorriso. — Você pode me perguntar o que você quiser. Sempre.
O calor que se instalou no peito de Santana fez com que suas pálpebras pesassem. Ela se sentia esgotada, como se estivesse saindo de um plantão naquele momento. Mas, antes que ela se permitisse dormir, mais uma coisa precisava ser dita:
- Obrigada por ser tão paciente comigo.
Brittany apenas apertou ainda mais o corpo de Santana contra o seu e as duas se permitiram fechar os olhos e dormir. Cada uma com o peito mais leve e um sorriso no rosto.
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