How To Mend A Broken Heart
14 Capítulo 14
Notas iniciais
Boa leitura!
Os minutos se arrastavam lentamente para Brittany. Depois de se certificar de que Santana tinha realmente ido embora e não iria voltar, ela saiu do seu esconderijo e se jogou na cama que a médica ocupara. Os lençóis já estavam frios, mas o travesseiro ainda guardava o cheiro dos cabelos negros. Brittany o abraçou com força, como se ele fosse um substituto para o corpo pequeno que tinha estado em seus braços momentos antes, e inalou o aroma que ela tinha deixado para trás, querendo ter o máximo de Santana correndo em seu organismo. Era uma mistura de laranja, orvalho e floresta, e Brittany teve certeza de que reconheceria aquele cheiro em qualquer lugar do mundo.
Ainda com o travesseiro contra o corpo, Brittany se sentou na cama e deixou os olhos acompanharem o movimento das cortinas. Ela tentava entender o que tinha acontecido entre ela e Santana. Em um momento, elas pareciam finalmente ter cedido à atração que claramente existia ali. Não, era mais do que atração, pensou Brittany. Ela gostava de Santana de verdade e podia ver nos olhos castanhos que ela tanto gostava que o sentimento era recíproco.
O que quer que existisse ali, por um instante elas deixaram todas as barreiras e toda a bagagem que traziam de lado e se deixaram levar pelo que estava crescendo em seus corações. Para Brittany, tinha sido um momento lindo. Ela ainda podia sentir os lábios de Santana contra os seus e sua pele queimava em todos os lugares que a morena tinha lhe tocado. Se Brittany tivesse que escolher um único segundo de sua vida para se lembrar eternamente, teria sido o exato instante em seus lábios tocaram os de Santana pela primeira vez.
E justo quando elas pareciam ter encontrado um ritmo natural entre elas, e Brittany achava que Santana estava tão entregue ao momento quanto ela, ela pôde sentir todos os músculos da médica congelaram. A mudança no clima do ambiente tinha sido tão repentina que a loura não tinha tido opção a não ser se afastar de Santana e encará-la nos olhos. Eles estavam mais escuros do que o normal, quase negros, com uma miríade de sentimentos atravessados, numa dança sem coreografia. Brittany conseguia distinguir choque, medo, vergonha, mas tinha muito mais coisa ali que ela não conseguia entender e era isso que mais a preocupava.
Ela já tinha percebido que Santana era uma pessoa reservada. Embora ela tivesse levado Brittany para sua casa e tivesse contado uma parte do seu passado para a dançarina, ainda tinha muito que a médica não tinha contado. E isso estaria bem para Brittany, nem todo mundo era tão aberto quanto ela mesma e ela entendia isso. Mas a expressão de repulsa que ela tinha visto de relance nas feições de Santana mais cedo a deixou desnorteada. Ela não conseguia entender de onde aquilo vinha – principalmente em se tratando de alguém tão segura quanto a médica – nem o que significava. Por isso ela tinha ido se refugiar no banheiro. Ela podia perceber que ficar ali, frente a frente com Santana, apenas pioraria as coisas. Ela queria perguntar, entender, e sabia que a última coisa que a médica queria era conversar.
Mas agora ela estava sozinha num quarto de hotel, apenas com lembranças lhe fazendo companhia. Ela repassava mentalmente cada conversa que teve com a médica, cada palavra, cada silêncio, numa tentativa desesperada de entender o que tinha acontecido. Sua memória não ajudava e ela começou a olhar em volta, como se as paredes brancas pudessem trazer alguma informação nova, alguma resposta que ela ainda não tinha alcançado. Mas nada. Nenhuma inspiração, nenhuma epifania, nada. Apenas o eco de perguntas sem resposta em sua cabeça vazia.
Com um suspiro resignado, Brittany se levantou da cama e procurou pelo celular. Ela precisava conversar com alguém, ela precisava que outra pessoa soubesse o que estava acontecendo para ter certeza de que aquilo era real, que não era fruto da sua imaginação sempre fértil. O aparelho prateado estava em cima da bancada que ainda tinha vestígios do café da manhã que ela e a médica tinham compartilhado. Um nó se formou em seu estômago e ela apoiou o corpo na divisória, deliberadamente dando as costas para aquele momento. Ela abriu o celular com um meneio e discou os números que ela sabia de cor.
Um toque...dois toques...três toques... À medida que o som de chamada enchia seus ouvidos, o coração de Brittany também era preenchido pela certeza de que o telefone não seria atendido. Com um baque surdo ela deixou o aparelho cair no chão e sentiu os joelhos perderem a força. Logo, ela também estava caída no chão, tremendo com a força dos soluços que tinham encontrado seu caminho de volta à superfície.
Ela tinha tentado ligar para Sarah, a única amiga que ela tinha feito desde que se mudara para a cidade. A amiga que sempre tinha um conselho pronto, ou um abraço apertado, ou uma piada sem graça para aliviar o ambiente. A amiga que caminhava com ela quase todos os dias depois do trabalho e com quem ela jantava pelo menos uma vez por semana. A mesma amiga que tinha sido assassinada apenas alguns dias antes, diante dos seus olhos.
As lembranças atingiram Brittany com a força de um trem. De repente ela se sentiu tão pequena, mesquinha. Sua única amiga tinha sido assassinada, o culpado ainda estava solto por aí e ela estava preocupada com o porquê Santana tinha congelado no meio de um beijo?
Brittany sacudiu a cabeça, secou o rosto e colocou-se novamente de pé. Algumas lágrimas ainda teimavam em rolar enquanto a loura separava sua roupa e caminhava até o chuveiro. Ela tinha um compromisso naquela tarde e estava determinada a não deixar que nada desviasse sua atenção dele. Nem uma certa médica morena que tinha fugido dela sem explicações.
***
A manhã era lenta na emergência do hospital. Nenhum acidente de trânsito, nenhum grupo de adolescentes baderneiros, nenhuma ação policial; nada que pudesse roubar a atenção de Santana para que ela parasse de pensar na loura que ela tinha deixado para trás. Os casos eram simples e escassos demais para que ela se esquecesse do que tinha acontecido.
Depois de liberar seu último paciente, Santana olhou a sua volta, procurando algo que fazer. Duas enfermeiras conversavam animadamente em um canto e um dos médicos falava ao celular com a namorada. Era uma manhã estranhamente tranquila e todos pareciam contentes com aquilo, menos ela.
Sem saber o que fazer com os pensamentos que ganhavam força em sua mente, a médica decidiu sair um pouco do hospital. Talvez o vento gelado ajudasse a colocar certas coisas em perspectiva. No caminho, ela ainda parou na recepção, se certificando de que realmente não havia nenhum novo caso que precisasse da sua atenção. Nada, nem uma unha encravada. Santana olhou para o teto, achando que alguém devia estar se divertindo às custas dela.
Do lado de fora, poucas pessoas se aventuravam a enfrentar o frio. Os poucos que se dispunham a congelar eram os fumantes – esses sempre se dispunham a enfrentar qualquer temperatura. Com um sorriso perverso, Santana se aproximou de um dos poucos médicos que conhecia pelo nome por ali e pediu um cigarro. Ela tinha abandonado o vício ainda na faculdade de medicina, mas ela sabia que fumar a acalmava. E, naquele momento, isso era tudo o que Santana precisava.
O primeiro trago era o pior e o melhor. Depois de tanto tempo, a fumaça descia pela garganta de Santana queimando e arranhando tudo pelo caminho. O gosto amargo conhecido tomou conta de sua boca e, pelo menos naquele instante, ela não conseguia mais sentir o sabor da língua de Brittany. Depois de segurar a fumaça nos pulmões o máximo de tempo possível, a médica exalou lentamente, sentindo o cheiro a transportar para outro momento.
Ela tinha começado a fumar ainda nos tempos de escola. O que era para ser mais um ato de rebeldia contra a pessoa perfeita que seus pais esperavam que ela fosse, se tornou uma maneira de lidar com a pressão e com a ansiedade dos últimos meses naquela cidade. Quando começou a faculdade, Santana fumava um maço por dia, ainda confiando na calma artificial da nicotina para ser uma pessoa minimamente sociável. Logo, ela conheceu outros fumantes da faculdade e o hábito em comum os aproximou. Era uma amizade baseada em isqueiros e tragos, mas era uma amizade.
Durante a faculdade de medicina, ela tinha que lidar com os olhares atravessados de alguns colegas e professores. Aparentemente, prejudicar deliberadamente a sua saúde não era uma coisa bem vista por eles. Não que Santana se importasse.
Mas quando ela começou a namorar Rafael e o relacionamento se tornou sério, ele pediu que ela parasse. Segundo ele, não ficaria bem a mulher de um futuro congressista aparecer em fotografias com um cigarro entre os lábios. Parar definitivamente não tinha sido fácil e Santana tinha tido algumas recaídas, mas ela fizera isso por ele e nunca pensara em voltar, nem mesmo após a morte de Rafael. Até Brittany lhe roubar toda a calma.
Santana fumava rápido, puxando longamente o ar e aprisionando a fumaça o máximo que podia. Passado o estranhamento inicial, ela podia começar a sentir seu corpo relaxar. Era esse o momento que ela mais gostava, quando uma sensação de prazer dominava suas células e ela sentia seus problemas diminuírem. Era falso, ela sabia, mas era tão bom.
Passos se aproximavam da médica enquanto ela apagava as últimas brasas com o tênis. Ela sentiu alguém se apoiar na parede ao seu lado e logo reconheceu o perfume da amiga. Santana e Quinn trocaram um olhar que falava mais do que elas normalmente conseguiam. A loura sabia que a latina tinha parado de fumar há muito tempo e que ela só recorria ao antigo vício quando alguma coisa muito séria acontecia. Ela também sabia que Santana só se abria no tempo dela. Por isso, Quinn preferiu ficar em silêncio e esperar Santana iniciar uma conversa.
- Você anda me perseguindo?
- Você sabe que o mundo não gira ao seu redor, né? – Santana sorriu e Quinn finalmente virou o corpo na direção de Santana. – Mas eu tive um compromisso ontem e precisei mudar o meu plantão.
As duas permaneceram em silêncio por mais um tempo, observando as pessoas que entravam e saíam do hospital.
- Aconteceu alguma coisa? Tem tempo que eu não vejo você fumar...
Santana suspirou e encarou a amiga pela primeira vez, pensando se seria seguro contar para Quinn o que estava se passando em sua cabeça. A amiga já conhecia quase todo o seu passado e a morena sabia que podia confiar nela, mas Santana tinha a impressão de que se começasse a falar, ela não conseguiria parar tão cedo. E aquele não era momento nem local para isso. Então, com seu melhor sorriso no rosto, ela mentiu.
- Não, está tudo bem. Só bateu saudade.
Quinn e Santana se observaram por um segundo. A latina esperava que a amiga a acusasse de estar mentindo e pressionasse por mais informações – de alguma maneira, Quinn sempre parecia saber quando Santana não falava a verdade –, mas a médica loura apenas sorriu de volta. O que quer que a amiga estivesse escondendo acabaria encontrando seu caminho até os ouvidos de Quinn. E ela podia esperar.
- Só espero que isso não se torne um hábito, de novo – respondeu com uma piscadela. – Agora, vem. Vamos entrar antes que a gente congele aqui fora.
***
O carro estacionou silenciosamente em frente a um prédio baixo, sólido, de tijolos aparentes e poucas janelas. Ele tinha uma aparência robusta e imponente, e Brittany pensou que era apropriado para uma delegacia. Diversas viaturas iguais a que a tinha levado até lá estavam estacionadas na beira da calçada e o movimento de pessoas entrando e saindo pelas portas de vidro parecia não cessar.
Um dos policias que tinha sido designado para escoltá-la abriu a porta do carro e Brittany apoiou os dois pés no asfalto, temerosa de que eles fossem ceder diante do peso do próprio corpo. Desde a sua crise de choro mais cedo, seus joelhos pareciam não muito estáveis. Com um sorriso vacilante, ela aprumou o corpo, se concentrando apenas em colocar um pé na frente do outro. Aquilo não poderia ser tão difícil, certo? Afinal, ela fazia aquele mesmo movimento sem nem pensar há anos.
A concentração de Brittany nas menores ações era tamanha que ela nem percebeu que era levada e direcionada pelo policial. Somente o movimento dos seus pés e o esforço que ela fazia para manter a respiração lenta mereciam sua atenção. Apenas quando uma voz conhecida ecoou em seus ouvidos, ela conseguiu sair daquele estado de semi-catatonia.
- Brittany?
- Detetive Puckerman. Oi.
Ela sorriu e estendeu a mão para o homem, num gesto automático. Noah cumprimentou a loura e percebeu que ela tremia um pouco. Ele já estava acostumado com aquela reação entre vítimas e testemunhas, mas ele sempre sentia pena delas. E era isso que o fazia tão bom em seu trabalho, sua capacidade de se importar com as pessoas por trás dos números.
- Por aqui, por favor.
O detetive usava o seu sorriso mais sincero quando gesticulou para que Brittany o acompanhasse. Ele não queria conversar com ela em sua mesa, era exposto demais. Uma das salas de entrevistas seria um ambiente melhor. Brittany concordou fracamente e seguiu o policial com os olhos grudados no chão.
Depois de se certificar de que Brittany estava bem instalada numa das cadeiras, Puck se sentou de frente para ela. O corpo maciço do detetive estava projetado para frente, toda a sua atenção voltada para cada movimento, cada mudança sutil nas feições da mulher. Ele tinha aprendido que testemunhas nem sempre tinham certeza do que sabiam e cabia a ele ajudá-las no processo difícil de lembrar-se.
- Brittany, eu gostaria de fazer mais algumas perguntas sobre o que você viu, tudo bem?
As palavras pareciam ter fugido da dançarina e tudo o que ela conseguiu fazer foi concordar com a cabeça.
- O homem que você viu. Você já tinha visto antes?
- Não, acho que não – Brittany falava baixo sem encarar o detetive. – Mas eu normalmente fico dentro do estúdio o dia inteiro, quase não vejo quem passa pelo prédio.
- Entendi. E quanto você conhecia a Sarah?
- Ele era a minha melhor amiga na cidade. A única amiga, na verdade. – A lembrança colocou um sorriso tímido no rosto da loura. – A gente se conheceu na minha primeira semana de trabalho e a gente se falava quase todos os dias.
- E alguma vez ela falou alguma coisa sobre algum paciente ter se alterado com ela? Ela tinha medo de alguém?
- Ela nunca falou nada especificamente. Algumas vezes, ela ficava um pouco mexida com a reação de algumas pessoas, mas acho que ela não tinha medo de ninguém. Ela nunca me falou nada, pelo menos.
Noah estudava cada resposta de Brittany com atenção e não achava que ela estivesse mentindo ou omitindo nenhuma informação. Na verdade, ela parecia quase aliviada em poder falar um pouco sobre a amiga, como se a sensação de ajudar a prender seu assassino pudesse melhorar o que se passava dentro dela.
- Antes de você ir, eu queria pedir mais uma coisa – ele esperou que ela concordasse antes de continuar. – Eu quero que você olhe essas fotos e me diga se algum desses homens é o mesmo que você viu no consultório aquela noite.
De dentro de uma pasta o detetive tirou uma folha onde haviam sido impressas as fotos de seis homens. Ele estendeu o papel para Brittany, que o tomou entre as mãos e estudou os rostos que a encaravam. Todos tinham a sua semelhança, mas quando os olhos da dançarina se fixaram no segundo homem da fileira de baixo, ela sentiu o chão sumir de debaixo dos seus pés.
- Esse daqui – ela apontou para uma das imagens, sem nenhuma dúvida na voz de repente firme. – Foi ele que eu vi atirar na Sarah.
O detetive registrou o homem que havia sido identificado e guardou novamente o papel na pasta, sem deixar que nenhuma emoção transparecesse em seu rosto. Todo cuidado era pouco quando se tratava de testemunhas oculares.
- Obrigado, Brittany. Eu vou pedir que um dos policiais leve você de volta para o hotel.
Do lado de fora da sala, Puckerman encontrou um dos oficiais uniformizados e pediu que ele levasse Brittany de volta para o endereço em que ela estava residindo. Ele apertou novamente a mão da loura e voltou para a sua mesa. Ainda havia muito trabalho a ser feito.
Brittany e o outro policial caminharam em silêncio até a viatura dele. O homem abriu a porta de trás para que ela entrasse e assumiu a sua posição atrás do volante. Ela olhava distraidamente pela janela, observando as pessoas na calçada do outro lado da rua enquanto o carro entrava em movimento. Quando o veículo começou a ganhar velocidade, ela tomou consciência de que voltar para o hotel significaria ficar sozinha novamente.
- Antes de você me deixar no hotel, será que a gente pode parar em outro lugar primeiro?
***
A porta da capitã Shelby Corcoran estava sempre aberta para todos os detetives e Puck entrou sem esperar resposta a sua batida. A mulher do outro lado da mesa estava no meio de uma conversa telefônica e gesticulou para que ele tomasse uma cadeira e esperasse. Noah tinha um olhar preocupado e Shelby logo encerrou a ligação.
- Novidades sobre o caso?
- Sim. A testemunha, Brittany Pierce, acabou de vir aqui e ela reconheceu o assassino.
- E então?
- É mesmo o ex-policial Sebastian Smythe. As digitais no apartamento dela também batem.
- E a ficha roubada?
- É da mulher dele. A Dra. Berry não pôde entrar em detalhes sobre o conteúdo da ficha, mas ela me deu o endereço da Sra. Smythe. É um abrigo para mulheres que sofreram violência doméstica. Eu estou indo lá agora. Só quis atualizar você antes.
- E essa informação constava na ficha?
- Não. Até onde a Rachel sabe, apenas ela tinha essa informação.
- Nem a Sarah sabia?
- Não.
- Muito bem. Me mantenha atualizada e leve uma patrulha com você. Não quero correr nenhum risco com esse caso.
- Claro.
***
Quando Brittany chegou ao local que tinha indicado ao policial, ela se sentiu insegura de repente. Na saída da delegacia, lhe parecera uma opção perfeita – ela não queria ficar sozinha e ali ela sabia que encontraria uma das poucas pessoas em quem ela confiava. Mas, depois do que acontecera de manhã, ela não sabia se Santana sequer gostaria de vê-la. Com o telefone apertado entre os dedos, ela ocupou uma das cadeiras da recepção, tentando criar coragem para discar os números e completar a ligação.
O corpo da dançarina escorregou pela cadeira de plástico. Ela estava cansada demais para manter a coluna ereta. Brittany fechou os olhos e respirou fundo antes de se colocar novamente de pé. Já que ela não ia conseguir ligar para Santana, era melhor voltar logo para o hotel. Ela já estava perto da porta, quando ouviu alguém atrás dela:
- Brittany?
- Dra. Fabray! – ela de repente se sentiu uma adolescente flagrada pela mãe com um copo de bebida nas mãos.
- Está tudo bem? Você está sentindo alguma coisa?
- Não, não. Está tudo bem – a preocupação na voz da médica era tão evidente que Brittany nem pensou antes de continuar. – Na verdade, eu queria falar com a Dra. Lopez. Ela está por aí?
Quinn analisou o rosto da jovem a sua frente por um momento, antes de responder.
- A Dra. Lopez está com um paciente agora. Acho que deve demorar um pouco.
- Ah...
Brittany se sentiu como se fosse um balão de aniversário esvaziando naquele momento. Desde que chegara no hospital, ela tinha considerado a possibilidade de Santana não querer falar com ela, não de que Santana pudesse estar, realmente, trabalhando. Pela segunda vez no mesmo dia, ela se sente extremamente pequena.
- Acho que eu vou indo embora, então. Obrigada, doutora.
Os olhos de Brittany traíram sua vontade e Quinn pôde perceber que a última coisa que a jovem queria fazer era ir embora.
Alguma coisa em Brittany fascinava Quinn, mas a médica não conseguia determinar bem o quê. Tudo bem, a garota era linda – e Quinn não era exatamente imune a belas mulheres –, mas não era desejo que fazia com que a médica não quisesse que ela fosse embora logo. Com um longo suspiro, ela entendeu: era uma mistura de curiosidade e preocupação. Santana claramente tinha se deixado envolver por ela e Quinn queria entender o que a garota tinha de tão especial para derrubar muralhas que ela nunca tinha visto baixas. Mas, mais do que isso, Santana era sua amiga e ninguém mais do que ela sabia como a morena já tinha sofrido. Então, Quinn se sentia na obrigação de ter certeza de que Brittany não seria mais uma pessoa a deixar o coração da latina em pedaços. Há um limite para quantas vezes uma pessoa pode quebrar a cara antes de desistir completamente.
- Eu estava indo tomar um café. Quer me acompanhar? – o sorriso de Quinn refletia o convite feito.
- É. Pode ser.
***
O café que Quinn guardava entre as palmas já estava quase no fim e Brittany não devia ter dito mais do que dez palavras para ela. A médica tinha tentado manter uma conversa com a dançarina, mas todas as respostas que conseguia eram monossilábicas ou simples acenos de cabeça. Não que Brittany não estivesse grata pela companhia da médica loira, mas não havia entre elas a mesma facilidade, a mesma sensação de familiaridade que existia com Santana. Na frente de Quinn, Brittany não conseguia se esquecer de que estava dentro de um hospital, conversando com uma pessoa que ela não conhecia, logo depois de sair de uma delegacia. Com Santana, eram apenas as duas.
Quinn estava quase desistindo de manter um diálogo, quando:
- Eu estive na delegacia hoje.
Brittany não sabia de onde tinha saído aquela frase. Ela certamente não pretendia conversar com a médica sobre sua entrevista com o detetive, mesmo depois de Quinn ter dado a entender que já sabia o que tinha acontecido. Não. Brittany não contaria nada para ela. Mas a dançarina precisava conversar com alguém, dar voz ao que estava se passando em sua cabeça, e Quinn a olhava com uma preocupação tão genuína, que, quando Brittany se deu conta, já estava tropeçando em palavras que não tinha imaginado falar.
- E como foi? – Quinn tentava manter a voz neutra para não assustar a garota que finalmente confiava nela.
- Foi... – Brittany se perdeu nas palavras, pensando em como poderia descrever a experiência. – Foi um dos piores dias da minha vida.
Os olhos de Brittany estavam perdidos na parede atrás de Quinn e a médica observava com atenção as emoções que transitavam pelas poças azuis. Ela sabia muito bem qual tinha sido o pior dia da vida de Brittany e, mesmo depois de tanto tempo ouvindo todo tipo de história na sala de emergência de um hospital, ela não sabia como responder àquilo e deixou que um sorriso dançasse em seu rosto até que a mulher do outro lado da mesa continuasse a falar. Às vezes, língua nenhuma tem palavras adequadas.
- Ele me pediu para olhar uma folha e dizer se eu reconhecia alguém e eu acho que reconheci, mas eu não sei se eu falei a coisa certa e eu não consegui perceber nada no rosto dele. E se eu tiver dado a resposta errada? Mas eu realmente acho que era a resposta certa...
- Brittany!
Ela piscou algumas vezes antes de voltar sua atenção para Quinn, envergonhada por ter tagarelado daquele jeito. Quando finalmente tinha a atenção de Brittany novamente, Quinn continuou:
- Você reconheceu algum dos homens que o detetive mostrou?
O movimento de cabeça de Brittany era mínimo, mas Quinn conseguiu perceber que a resposta era afirmativa.
- Então você não fez nada de errado. Agora você precisa esperar que a polícia faça o trabalho dela.
- É, acho que você tem razão – Brittany respondeu com um sorriso fraco nos lábios.
As duas mulheres permaneceram em silêncio por alguns minutos, pensando sobre a conversa que tinham tido, até que a curiosidade de Quinn foi maior do que seu tato.
- Brittany, posso fazer uma pergunta?
O último gole de chocolate quente ainda descia pela garganta da dançarina ao ouvir a pergunta. Ela terminou de engolir, ganhando todo o tempo possível, antes de responder:
- Acho que sim.
- O que aconteceu...
Um som alto soou na cafeteria no meio da frase de Quinn, acelerando o coração das duas mulheres. Por instinto, Quinn lançou a mão até a cintura, puxando o pager até sua linha de visão.
Ela estava sendo chamada de volta à emergência e num movimento fluido ela se colocou de pé e terminou o último gole de café que ainda restava. Brittany a encarava com olhos baços, sem se preocupar muito com o que tinha acontecido para ela se levantar daquele jeito.
- Eu preciso ir, estão me chamando na emergência.
- Claro, claro. Vai lá. Eu não quero atrapalhar o seu trabalho.
- Certo. Foi bom conversar com você, Brittany. Até a próxima.
- Com você também, doutora.
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