Notas iniciais
Nem preciso dizer o que rola nesse capítulo né? Boa leitura à todos.

Eu conhecia bem o tipo dele. Ele é esperto, não liga para os sentimentos dos outros, não está nem aí se vai ou não magoar, e geralmente só tem uma intenção quanto entra em um relacionamento, e quanto a consegue, finge que nada aconteceu no dia seguinte. Batalha pra conseguir o que quer, é persistente, e principalmente sedutor. Eu sabia como ganha-lo, e também como perde-lo. Bastou um encontro para perceber quem exatamente ele era.

Acordei no dia seguinte com olheiras horríveis, nem ao menos lembrava de como cheguei até minha cama. Corri para o banheiro assim que acordei, uma ducha quente era tudo que eu estava precisando. Deixei que a água quente escorresse sobre meu corpo, enquanto eu relembrava o quanto ver Elliot de cabelo loiro foi engraçado, eu estava começando a gostar da ideia de ser a primeira a partir o coração dele.

Minha pele já estava enrugada, eu estava parecendo uma velha, só lembrei de sair do chuveiro quando fui despertada de meus pensamentos pelo maldito toque do celular. Desliguei o chuveiro as pressas e enrolei uma toalha no corpo, meu cabelo pingava, assim como meu corpo. Sai do banheiro fazendo rastros de aguá por onde eu passava, tudo isso para atender o maldito celular. Quando eu finalmente o alcancei e peguei-o em minhas mãos, vi que era Elliot quem ligava.

– Alô? — Atendi com a voz calma.

– Emma? — Ele perguntou com sua voz sensual.

– Sim?

– O que acha de um cinema hoje? — Ele perguntou nervoso. Tudo que eu conseguia imaginar era ele com o celular grudado na orelha enquanto coça sua cabeça com uma das mãos, como se fosse inexperiente naquilo.

– Cinema? De segunda feira? — Questionei.

– Isso. Não vou aguentar ficar longe de você por uma semana. Vamos, por favor. — Ela insistia.

– Ah, não sei.. — Falei com a voz desinteressada.

– Por favor, eu já pintei meu cabelo de novo. Eu deixou você escolher o filme. — Ele disse tentando me convencer, usando o charme presente em sua voz tão docemente suave ao mesmo tempo que sexy.

– Tudo bem, Elliot. Você me convenceu. A que horas você aparece aqui?

– Que tal as sete?

– Perfeito. Tchau. — Eu disse desligando em sua cara.

Que sensação ótima.

Coloquei um moletom qualquer, tirei Eunice de seu espaço, permitindo que ela enrolasse sem corpo em meu pescoço, e me joguei no sofá. Sem me preocupar com nada e ninguém, mudava de canais constantemente até encontrar um que me agradasse. Já não tinha mais revistas que eu não havia folheado, todas da Vogue, Runway, American Pop, Sweet Me, todas tinham sido lidas. O tédio estava me consumindo aos poucos, nada estava me agradando, as coisas só ficariam interessantes quando o meu segundo encontro com o Elliot começasse. Esse acordo além de permitir que eu realize meu sonho, ainda me diverte.

Emma Morgan's House; 19h00.

O céu já estava escuro e as estrelas presentes naquela noite deixavam-o ainda mais bonito. Eu já estava pronta para o encontro, usava shorts jeans e um cardigã, a brisa gelada fazia com que eu sentisse frio. Eu deixava meu rosto com mais vida, pintava minha boca com o batom, quando a droga da campainha tocou, já mencionei que ela só toca quando estou ocupada? Desta vez eu não iria borrar o batom para atender a porta, quem estivesse lá que esperasse. Terminei de contornar a boca com o batom, e ainda fiz questão de passar mais uma camada de rímel, só para irritar. A campainha não parava de tocar pelo desesperado do outro lado da porta. Desci as escadas calmamente, como se estivesse descendo a escadaria de vestido e salto e sendo recebida por convidados da realeza, eu descia me sentindo uma rainha, eu estava adorando sentir o desespero que a campainha me passava. Quando finalmente atendi, mas que bela surpresa, fui recebida com uma rosa. Sério, é romântico, um gesto bonito, mas ele não poderia renovar um pouco? Talvez lírios, magnólias, jasmins, sei lá, tinha que ser sempre rosas?

– Boa noite. — Eu disse recolhendo a rosa. Ele usava uma jaqueta de couro preta, jeans e um tênis de alguma marca famosa qualquer.

– Boa noite. — Ele respondeu sorrindo. Procurei a chave na bolsa com toda a paciência do mundo, eu realmente não estava afim de ir ao cinema em plena segunda feira, e faria de tudo para atrasar.

Quando finalmente encontrei, tranquei a porta e guardei a chave novamente.

Ele grudou em meu braço e fez questão de me acompanhar até o carro daquele mesmo jeito, abriu a porta feito um cavalheiro, e fechou-a em seguida para poder finalmente dirigir, sempre com aquele seu belo sorriso estampado no rosto. Ao som de bandas alternativas ele dirigia como se estivesse em algum clipe, com seu cabelo voando ao vento. Ele se sentia livre em seu carro, e eu pude perceber isso.

Ele nos levou até o cinema mais próximo, por coincidência era um cinema que nunca dorme, fica aberto vinte e quatro horas. Como eu já previ, estava vazio, havia apenas famílias inteiras, acho que eu e Elliot eramos o único casal presente naquele cinema, em uma segunda-feira. Eu não sabia que filme escolher, nenhum cartaz parecia me agradar, então deixei que ele escolhesse o filme. Felizmente, ele escolheu um terror, meu gênero de filme favorito e uma estratégia perfeita para dar continuidade ao plano.

Não importa o lugar que escolhêssemos, fosse na frente, no meio ou no fundo, o cinema estava vazio e não tinha quase ninguém naquela sala. Ele pediu para que esperasse enquanto ele iria comprar pipoca e doces. Cruzei minha perna direita sobre a esquerda enquanto eu esperava ele voltar, estava impaciente com aquelas propagandas de filmes. Eu pensava sozinha sobre o que eu estava fazendo, relembrando os últimos acontecimentos que me levaram até lá, quando fui interrompida por Elliot, que chegou com pipoca, doces e refrigerante.

– O que eu perdi? — Ele perguntou se sentando no assento ao lado do meu.

– Propagandas de filmes chatos. — Respondi pegando um dos baldes de pipoca.

As luzes se apagaram e o filme finalmente começou. Não tive tempo de prestar atenção no nome que ele carregava, mas parecia ser um filme muito sangrento, já que começou com uma morte. Elliot aproveitou a escuridão para colocar seu braço sobre meu ombro. Eu fingia me assustar nas cenas de suspense e o abraçava. Ele aproximava seu corpo do meu cada vez mais, quando notei estávamos envolvidos um nos braços do outro. Confortei minha cabeça sobre o ombro dele, seus braços envolviam meu corpo e eu procurava manter meus olhos fixados ao máximo no filme, eu sabia que ele tentaria me beijar e eu que desta vez eu não teria como fugir.

Duas horas sofridas depois, as luzes se acenderam e eu finalmente pude tirar minha cabeça do ombro de Elliot, eu já estava sentindo dor no pescoço.

– Se assustou muito com o filme? — Ele perguntou assim que saímos da sala de cinema e a claridade voltou a penetrar nossos olhos.

– Na verdade na- Ah sim, muito. Foi horrível. — Me corrigi a tempo. Não costumo me assustar com filmes de terror, mas foi uma necessidade fingir.

– Sabe aquela casa aonde a Adriane matou a Rebeca? — Ele perguntou.

– Quem? — Perguntei confusa, sem entender sua pergunta. — Quem matou quem?

– No filme...

– Ah sim.. sei. — Não, eu não sei, pensei silenciosa.

– Eu conheço um terreno abandonado que é quase parecido. Tem coragem de ir lá comigo? — Ele perguntou.. ou desafiou?

– É um desafio? — Perguntei interessada. Não resisto a desafios.

– Ah, é melhor não. Não quero que você se assuste mais ainda. — Ele provocou.

– Elliot, não provoque. — Eu disse balançando a cabeça negativamente. — Vamos, você me deixou curiosa. — Aceitei seu desafio.

Ele dirigiu até um terreno abandonado. Em cima do terreno havia uma casa antiga envolvida por teias de aranha, ervas que não eram cortadas a anos e muitas pedras de diversos tamanhos. Ele, segurando em minha mão me levou até a porta da imensa casa abandonada, e com cuidado abriu a porta que rangia de tão velha que estava. Atravessando a porta encontramos mais teias de aranhas, mobilha quebrada, um sofá rasgado, e janelas quebradas. Havia uma enorme escadaria que levaria ao segundo andar da casa. Era realmente assustador, vendo assim, de perto. Eu observava cada canto da casa, cada detalhe, cada sujeira. Eu estava tão envolvida com aquilo, que quase esqueci que Elliot também estava presente na cena. O silêncio da casa foi quebrado por um barulho, que confesso, me assustou.

– O que foi isso? — Eu disse apertando a mão de Elliot com força.

– Está com medo? — Ele disse rindo da minha cara. — Foi só o vento forte. — Ele palpitava. Até então eu estava calma, mas essa serenidade passou quando ouvi o barulho de algo se chocando contra o chão.

– Elliot tem alguém aqui. — Eu disse apertando sua mão com mais força ainda. — Vamos embora. — Eu gritava assustada, e desta vez eu não estava fingindo.

– Calma, Emma. É só uma gato, olha. — Ele disse apontando para um gato preto que entrou pela janela.

– Esse é seu ideal pra um encontro? Uma casa assombrada? — Ironizei aproveitando o momento.

– Não, na verdade eu queria te levar pra outro lugar, mas você quis vir aqui.. — Ele disse ainda rindo do meu pavor.

– Idiota. — Eu exclamei. Ele sorriu em troca. O barulho aterrorizante se fez presente novamente, e desta vez apertar a mão de Elliot não iria me acalmar. Assustada e no calor do momento, agarrei ele forte, como se eu tivesse visto um monstro ou algo do tipo. Ficamos cara a cara, enquanto eu o agarrava, ele envolveu seu braço em meu corpo, eu conseguia sentir sua respiração. Ele olhava em meus olhos, e eu os seus brilhantes olhos azuis.

– Eu não tinha notado como seus olhos são lindos. — Ele disse enquanto olhava em meus olhos. Ele foi aproximando seu rosto cada vez mais e mais do meu, nossas bocas estavam quase coladas uma na outra, ele olhou para baixo, tentando achar meus lábios. Não pude escapar, me rendi aos lábios dele, nossos lábios se selaram cuidadosamente, e quando percebi já tinha ficado mais intenso, estávamos em sincronia. Tudo isso enquanto ele segurava em minha cintura, e eu em sua nuca. O medo de repente passou, e tudo que eu conseguia sentir era a boca de Elliot na minha.

– Tudo bem, vamos embora. — Ele disse parando o beijo. Sua boca estava manchada com o batom que eu usava, e receio que a minha também estava. Ele sorriu, novamente. Segurando minha mão, ele me puxou para fora da casa.

Aguentei ele caçoando da minha cara de assustada enquanto dirigia com a brisa gelada em seu rosto. Eu não sabia se me defendia ou se me sentia uma garotinha de doze anos. Acabei fazendo as duas coisas. Eu fingia que nada tinha acontecido, e que aquele beijo não aconteceu. Que apesar de ter sido um beijo maravilhosamente bom, não aconteceu. Ele também não comentava nada sobre isso, apenas tirava sarro de mim por ter me assustado com o gato.

Quase uma hora da manhã, ele estacionou seu carro em frente minha casa. Me levou até a porta e..

– Foi uma noite incrível. — Ele aproximou seu corpo do meu, fechou seus olhos e fez um bico com seus lábios, eu me segurei ao máximo para não rir do quão engraçado ele ficou. Fechei os olhos e fiz o mesmo que ele, aproximei meu corpo do dele, e novamente nossos lábios voltaram a se envolver intensamente. Tudo estava dando certo, mas eu precisava fazer com que ele se apegasse mais, eu precisava saber se ele realmente estava se envolvendo, se entregando.

– Não quer entrar e tomar algo? — Perguntei enquanto abria a porta.

– Tem certeza que me quer na sua casa de madrugada? — Ele perguntou sorrindo maliciosamente.

– Tenho. Você me trouxe até aqui e deve estar cansado, o mínimo que posso fazer é te oferecer um café para você não dirigir sonolento, não é mesmo? — Eu disse entrando em casa e deixando um espaço para que ele entrasse também.

– Tudo bem então. — Ele disse entrando. Antes de entrar por completo, ele virou seu corpo para porta e acionou o alarme de seu carro de lá mesmo. Eu o guiei até a cozinha, onde ele se sentou á mesa enquanto eu colocava a cafeteira para funcionar.

– Você mora aqui sozinha? — Ele perguntou ao notar o silêncio.

– Aham. — Respondi. — Gosto de ser independente. — Provoquei ao lembrar que ele mora com os pais.

– Você deve ter trazido muitos garotos aqui, não é mesmo? — Ele perguntou tentando descobrir mais sobre meus relacionamentos passados.

– Ah sim. Eu já trouxe vários. Mas só os especiais atravessam a porta do meu quarto. — Eu sorri provocando-o.

– Desafio aceito. — Ele exclamou.

– O que? Você acha que consegue se tornar especial o suficiente para conhecer meu quarto?

– Não só acho, como tenho certeza. Um dia você vai ficar tão bêbada que vai precisar da minha ajuda para chegar em seu quarto.

– Eu não teria tanta certeza assim. — Eu disse me aproximando da cafeteira, que a esse ponto já tinha preparado o café.

Servi café em duas xícaras. Apreciávamos o trabalho da cafeteira enquanto jogávamos conversa fora. Em meio a tudo aquilo, notei que algo nele me lembrava alguém do passado, eu não conseguia decifrar o que era, se era seu jeito de falar, ou se eram seus olhos, eu não conseguia, e aquilo estava me incomodando muito.

– Está tarde, preciso ir. — Ele disse concluindo sua xícara. Levantando-se da cadeira da qual sentava. Me levantei logo em seguida, levando-o até a porta.

– Obrigado pelo café. — Ele sorriu, se aproximou de mim e encerrou aquela noite com um simples beijo. Ele caminhou até seu porsche, enquanto eu permaneci na porta, até que ele sumisse.

A primeira fase estava quase concluída, eu só precisava saber se ele estava realmente se envolvendo comigo, precisava de uma prova concreta de que estava funcionando. Foi aí que tive a brilhante ideia de leva-lo ao aniversário de minha mãe, que seria no fim de semana. Se ele aceitasse ir, seria um bom sinal de que estou quase perto de conquista-lo.

Notas finais
Até a próxima. xoxo, YC