Notas iniciais
Boa leitura à todos.

Família Mclaren’s House; Quarta-feira; 15h36

A casa estava exatamente do mesmo jeito desde que sai de lá, os mesmos móveis, os mesmos quadros, a mesma decoração. Ela só se encontrava fora de ordem por conta da Estela, que fazia bagunça por onde passava. Haviam brinquedos espalhados por onde eu passava, de diversos tipos e tamanho.

– Olá, docinho, que surpresa sua visita. — Minha mãe disse ao me ver. Ela segurava em seus braços Estela, que por sua vez estava apenas de fraldas, com suas pernas e braços gordinhos á mostra. Estela é minha irmãzinha de apenas dois anos de idade. Foi uma surpresa quando descobri que eu deixaria de ser filha única. Ela era um bebê com fofura em exceção, seu cabelo negro como a noite escorria sobre seu rosto, nele sempre um laço rosa. Ela colocou Estela no chão, ela tinha aprendido recentemente a dar seus primeiros passos. Estela caminhou até mim com dificuldade, mas conseguiu chegar. Ela ria, o som de sua risada era maravilhoso, ela mostrava seus dentes recém nascidos quando sorria. Peguei-a em meu colo, o que permitiu que eu sentisse seu cheiro de bebê.

– Como você cresceu, Estela. — Eu disse beijando-a. — E engordou também, o papai deve estar te usando como cobaia pra provar sua comida. — Eu disse ao perceber que ela estava mais pesada.

– Vou preparar algo pra comermos, docinho. — Minha mãe disse tomando a frente, indo até a cozinha. Eu a segui com Estela no colo.

A cozinha era, de longe o comodo mais usado naquela casa por conta da profissão de meu pai. Nunca falta comida, e ninguém dava de conta da louça. Sempre que podia ele testava novos pratos que ele inventava. Eu e minha mãe fomos cobaias durante anos, creio que Estela também vai passar por isso.

Ela colocou uma panela no fogo com aguá, disse que iria preparar macarronada. Quem cozinha naquela casa é meu pai, portanto tudo que ela sabia fazer era massas. Eu brincava com Estela enquanto ela preparava a macarronada, conversávamos mesmo ocupadas.

– E então querida, o que te traz aqui de semana? — Ela perguntava grudada no fogão.

– Ora, vim visitar minha mãe antes de ela se torna um ano mais velha. — Eu disse distraindo Estela com um brinquedo.

– É só isso mesmo? — Ela perguntou fitando-me desconfiada.

– Tá legal, eu queria saber se você não acha um problema eu trazer um rapaz para sua festa. — Confessei.

– Mas é claro que não, Emma. Você sabe que eu não tenho problema algum em conhecer os rapazes com quem sai. — Ela disse enquanto mexia a panela. — Afinal de contas, o que aconteceu com aquele último que conheci, como era mesmo seu nome? — Ela se esforçou para lembrar. — Ah, é mesmo, James. — Ela exclamou satisfeita.

– Terminei com ele. — Eu disse seca.

– Mas porque, querida? Ele era um rapaz tão bonzinho, dava pra ver nos olhos dele que ele estava apaixonado. — Ela disse lamentando pelo término. Mas é normal, ela sempre fazia isso. Toda vez que eu contava que terminei com determinado cara, ele fazia esse drama dizendo que dava pra ver nos olhos dele que ele estava apaixonado.

– Ah, porque ele não era o cara certo pra mim. — E essa era minha resposta de sempre.

Ela já conheceu diversos de meus ex-namorados, e é claro, conheceu o mais recente, James Oliver, que era, ou ainda é, amigo de Caitlin, eles se conheceram na faculdade e ela achou que ele me interessaria, então nos apresentou. Acabou que achei ele interessante, mas simplesmente ele não era o cara certo pra mim.

Cerca de uma hora depois, a macarronada estava pronta. Ajudei a preparar a mesa enquanto Estela brincava sozinha com seu unicórnio de pelúcia. Ela serviu a macarronada, que não nego, estava com um cara ótima. Colocamos Estela em sua cadeira especial, servindo ela também. Continuamos conversando sobre James, e também sobre o rapaz que eu disse que iria levar para festa, enquanto Estela se sujava com o molho e brincava com o macarrão ao invés de come-lo. Era incrível como ela ficava fofa mesmo com o rosto todo sujo. Crianças me deixam boba.

– Sua macarronada estava uma maravilha, mãe. Mas preciso ir. — Eu disse colocando meu prato na pia.

– Mas já, querida? — Ela perguntou pegando Estela em seu colo.

– Preciso ir a um lugar ainda hoje. — Expliquei.

– Tudo bem. Te vejo no sábado? — Ela perguntou.

– Mas é claro. — Eu me aproximei dele e beijei Estela antes de sair. — Até sábado pequena. — Eu disse à Estela, que respondeu rindo.

Diamondi Jewelry; Quarta-feira; 18h24

Notei que eu ainda precisava comprar um presente para ela. Eu não tinha ideia do que comprar, eu nunca consegui escolher uma roupa que à agradasse, nem sapatos, e acho que ela não iria gostar de ganhar um geladeira de presente por seus trinte e nove anos, não é mesmo? A unica coisa que me veio a cabeça foi uma joia. Eu apreciava as belas jóias daquele lugar, analisava cada uma detalhadamente, mas nenhuma parecia ser o gosto dela. Depois de uma longa batalha pra achar uma, achei um colar de esmeraldas. Verde era sua cor favorita, ela adoraria com certeza. Ao lado do colar de esmeraldas, um outro me chamou atenção, um colar com uma pedra ametista. Foi a joia mais bonita que meus olhos já viram, e a partir daquele momento ela se tornou meu desejo de consumo. Eu não poderia bancar um colar de esmeraldas e aquele ao mesmo tempo, aquele infelizmente teria que esperar.

– Emma? — Uma voz conhecida disse enquanto senti uma mão pesar sobre meu ombro. Virei meu corpo e fiquei surpresa ao ver que Elliot estava em uma joalheria.

– Elliot? O que faz aqui? — Perguntei deixando de admirar o colar.

– Hmm... eu vim... eu vim te convidar pra sair no sábado. — Ele disse depois de muito tempo pensando no que dizer. Eu deveria desconfiar?

– Sinto muito, mas não estou disponível esse sábado. — Eu disse tirando o sorriso de ansiedade de seu rosto.

– Você vai sair com alguém? — Ele perguntou sério.

– Na verdade eu vou para casa de meus pais, será a festa de aniversário de minha mãe. — Eu disse mostrando à ele o colar que pretendia comprar.

– E você.. precisa de companhia para a festa? — Ele perguntou. Meus ouvidos realmente ouviram aquilo? Ele estava perguntando se eu preciso de companhia?

– Na verdade, eu iria te convidar para ir comigo. Mas acho que não é uma boa ideia, talvez você não queria e..

– Eu adoraria ir com você. — Ele disse sorrindo antes que eu pudesse terminar a frase.

– Sério?

– Sério. E então, o que devo comprar de presente para sua mãe? — Ele perguntou olhando os colares.

– Ah, sei lá. Talvez algo que combine com o colar de esmeraldas. — Sugeri.

– Como estes brincos? — Ele apontou o par de brincos de esmeraldas que estavam na vitrine.

– Isso, perfeito. Combinam perfeitamente, ela vai adorar.

Ele comprou os brincos, e eu o colar. A boa notícia é que ela vai adorar, a má é que vou ter que aguentar Elliot em uma festa de família, mas por uma boa causa.

Família Mclaren's House; Sábado; 21h00

Fui obrigada a comprar outro vestido para usar na festa. Desta vez escolhi um mais formal, era vermelho com uma abertura clássica em um dos lados, permitindo que parte de minha perna estivesse a mostra. Elliot foi me buscar em casa para que pudêssemos ir juntos, já que ele não sabia o caminho e era meu convidado. Ele usava uma camisa social azul, e jeans, em seus pés sapatos pretos casuais.

A casa estava preenchida por familiares e amigos. A maioria da idade de minha mãe, ou até mesmo mais velhos. Avistei algumas primas da minha idade, e até alguns vizinhos que eu costumava sair quando ainda morava lá. Uma enorme mesa com petiscos e bebidas chamava a atenção de todos, mas é claro, papai não iria deixar de preparar sua comida na festa de sua esposa.

– Oi, querida. — Minha mãe disse assim que me viu atravessar a porta. Eu a abracei e desejei felicidades por seu dia, em seguida entreguei seu presente escolhido com cautela. Ela usava um vestido longo e dourado que valorizavam seu corpo. Apesar de estar quase na casa dos quarenta, ela tinha um corpo saudável.

– Mãe, este é Elliot. — Eu o apresentei. Ele se aproximou dela e esticou sua mão cumprimentando-a, mas minha mãe insistiu em ser mais íntima e o cumprimentou com um beijo na bochecha. Elliot entregou seu presente a ela e desejou-lhe um feliz aniversário. Ela agradeceu e nos deixou à sós. Foi receber os outros convidados.

– Então é aqui que você cresceu? — Ele perguntou observando o interior da casa.

– Até meus dezoito anos, sim.

– É linda. — Ele disse voltando a me olhar. Eu o levei para beber algo, não queria apresenta-lo ao resto da família, estava cansada de sempre apresentar alguém novo. Eu me esforçava para não permitir que ele não conhecesse ninguém mais. A cada hora que passava mais convidados chegavam, e casa enchia mais e mais.

– Olá, querida. Você está linda. — Meu pai disse me abraçando. — Você fica mais linda que o normal de vermelho. — Ele disse observando a cor do meu vestido.

– Como você já sabe, este é Elliot. — Falei olhando para Elliot. Ele se aproximou e cumprimentou meu pai com um aperto de mãos.

– Não pense que deixei de te observar, rapaz. Ainda estou de olho, e se minha doce filha sair magoada dessa história, espero que esteja preparado pra arcar com as consequências. — Ele disse ao Elliot com seriedade. Ele era bastante ciumento, e costuma dizer isso a todo cara que apresento à ele, porém desta vez com Elliot ele disse com mais firmeza.

– Eu... eu juro que ela não vai senhor. — Elliot respondeu nervoso.

– Aproveitem a festa. — Ele disse entusiasmado fingindo que nada aconteceu, em seguida se retirou.

– É, ele realmente não gosta de mim. — Elliot disse assim que ele sumiu de sua vista.

– É, não posso mentir, ele não gosta.

– Nossa, e você diz isso com frieza? Não vai nem tentar me enganar falando que ele é assim com todos?

– Ele é assim com todos. — Falei.

– Menos mal. — Ele riu.

– Quer um pouco de champagne? — Eu perguntei pegando duas taças.

– Aceito. — Ele disse. Coloquei o champagne nas taças, dei uma a Elliot e fiquei com a outra. Bebemos quase toda a garrafa de champagne, fora as outras bebidas alcoólicas que bebemos antes. Eu sabia que estava na hora de parar, caso contrário eu acabaria revelando algo que não deveria à ele, como sempre costumava fazer quando bêbada.

Quase meia noite, meu pai resolveu fazer um brinde à minha mãe, ele pediu para que todos os convidados erguessem suas taças, ou copos e fizessem o brinde. Todos os convidados pararam para fazer isso, inclusive eu e Elliot, o que me deixou sedenta por mais e mais bebidas. Era um problema, quando eu começava, não conseguia parar. Após o brinde, ele colocou uma valsa, e eu pude ver do andar de cima eles dançando aquela música lenta em meio aos convidados. De repente, todos começaram a dançar em casal. Enquanto eu e Elliot estávamos sozinhos observando tudo de cima.

– Quer dançar? — Elliot perguntou me dando sua mão. Assenti com a cabeça aceitando sua proposta.

Colamos nossos corpos um no outro, e dançávamos lentamente ao som daquela valsa. A música parecia não parar, mas enxergando as coisas pelo lado bom, ele era um ótimo dançarino, sabia conduzir. Eramos os únicos naquele andar, o que deixava as coisas mais íntimas. Apesar de ser mais alto, ele me olhava nos olhos durante a dança. Meu rosto estava exatamente á altura de seu pescoço, permitindo que eu sentisse mais do cheiro de seu perfume. Estávamos perto de nos beijar, quando ouvi o choro de Estela vindo de seu quarto, e a música finalmente parou, voltando aos sons agitados.

– Vem — Eu disse puxando-o pelo braço.

– Aonde está me levando? — Ele perguntou deixando se levar por mim.

– Estela está chorando. — Eu respondi.

– Quem é Estela? — Ele perguntou me seguindo.

Ao chegar no quarto dela, Estela estava no berço de pé, chorando para que alguém à tirasse de lá.

– Oh, pequena, você não deveria estar acordada a essa hora. — Eu disse pegando-a no colo. Ela usava um pijama de joaninhas e meias cor de rosa. Estava quentinha e rosada.

– Está é a Estela? — Ele perguntou se aproximando dela.

– Sim, é minha irmã.

– Como ela é fofa, posso segura-la? — Ele perguntou.

– Claro. — Eu respondi permitindo que ele pegasse-a de meu colo. Estela pareceu ter gostado dele, já que começou a rir assim que ele à pegou. Ele balançava ela em seu colo, brincando enquanto dizia seu nome. Era uma cena tão adorável e estranha ao mesmo tempo.

– Ela tem seu olhos. — Ele disse colocando-a no berço. — Seus lindos olhos. — Ele se aproximou de mim colocando meu cabelo atrás da orelha, como fez quando nos conhecemos. Ele pegou em minha cintura, e se aproximava cada vez mais de meu rosto. Quando notei estávamos nos beijando com minha irmãzinha ao lado.

Esperamos Estela voltar a dormir, e quando isso aconteceu já passava de um hora da manhã. Os convidados da festa ainda estavam animados. Nos despedimos de meus pais e saímos de lá.

Achei que ele fosse me levar para casa, mas fez um caminho completamente oposto. Eu não tinha ideia de onde ele estava me levando, e nem se era coisa boa, mas ele parecia estar tão feliz dirigindo, que não quis interromper. Ele ligou o som no último volume, e dirigia em alta velocidade na estrada deserta daquela madrugada.

– Você não acha isso ótimo? Sentir o vento no rosto enquanto dirige, é uma sensação tão boa de liberdade. — Ele disse enquanto dirigia. Então era isso, ele gostava de dirigir porque se sentia livre. E ele tinha razão quanto a isso, sentir o vento gelado no rosto enquanto se está em um carro causa uma sensação única de liberdade. Eu não sabia o rumo daquele caminho, não sabia se ele estava apenas dirigindo a toa, ou se estava me levando a um lugar, mas eu realmente estava gostando da adrenalina de estar em um carro em alta velocidade.

Eram três da manha e estávamos quase a duas horas de San Diego em uma praia local totalmente deserta, dava para ouvir claramente o barulho das ondas enquanto a lua cheia daquela noite refletia seu reflexo sobre o imenso oceano. Meus saltos estavam em minhas mãos enquanto eu caminhava descalço sobre a areia incrivelmente macia. Elliot me contava histórias de sua infância, e eu ouvia atentamente apesar de querer ouvir apenas o som das ondas agitadas. Ele se abria para mim como se eu fosse uma amiga intima, não se importava em comentar sobre seus micos.

Ele gostava de basquete, mas detestava futebol. Tinha preguiça de frequentar uma academia e de praticar exercícios, mas isso não o impedia de fazer abdominais de vez em quando. Ele detestava dias frios, preferia ver o sol ao sentir a neve. Ele gostava de fugir para aquela praia e observar o mar enquanto reflete. Não gostava de pensar no futuro, preferia viver o presente e esperar pelas consequências sem se preocupar. Também revelou que amava garotas de batom vermelho, mas isso eu já sabia.

Ele deitou seu corpo sobre a areia e pediu para que eu fizesse o mesmo. Aquela noite não estava estrelada, pelo contrário, o céu daquela madrugada estava limpo, nele apenas a lua. Durante um tempo, ele ficou em silêncio olhando para o céu. Depois, do nada, ele correu para o mar, molhando seus pés descalços com a aguá salgada. Ele gritava por mim dizendo que a aguá estava maravilhosa e que eu deveria fazer o mesmo. Convencida pela alegria que ele transmitia enquanto chutava a aguá do mar, eu levantei meu vestido e corri para o mar da mesma forma. E realmente a aguá estava uma maravilha, assim como aquela noite.

Parecíamos duas crianças que estavam conhecendo o mar pela primeira vez, talvez pelo efeito do álcool que ingerimos mais cedo, ou talvez porque algo naquele belo cenário nos deixou daquele jeito.

Meu vestido estava encharcado, pois acabamos caindo com a força de uma onda. Já que estávamos molhados e a temperatura da aguá estava ótima, sentamos a beira do mar, permitindo que ele nos molhasse mesmo assim. Ele continuava se abrindo cada vez mais, até notei que ele citou Shakespeare. Ele elogiava constantemente aquela noite, dizia que nunca viu uma noite tão bela como aquela, que a lua resolveu brilhar mais por que eu estava presente, e que os deuses do mar estavam tentando dizer algo. Eu não sabia se ele estava falando aquilo pelo efeito das bebidas, ou se falava por si.

Sete da manhã e ainda estávamos naquela praia, porém cansados e quase adormecidos. Passamos a noite em claro conversando e nos conhecendo mais. Vimos o sol nascer. Por sorte, encontramos um lanchonete, onde pedimos dois cafés para despertar o sono, o que não foi suficiente. Então pedimos mais dois, e mais dois, e quando notamos, estávamos na quinta xícara. Despertados com a cafeina, voltamos para o carro, onde ele dirigiu de volta para San Diego do jeito que ele tanto gosta: com o vento gelado em seu rosto e o som no último volume.

Notas finais
A Emma está quase lá. E o que posso dizer sobre o Elliot, ah, ele está se entregando. Será que vai terminar em coisa boa? Espero vocês no próximo capítulo. Até logo. xoxo, YC