As duas caminhavam de forma despretensiosa, tentando parecer relaxadas em seu passeio matutino. Como era fim de ano, o shopping estava apinhado de gente, todos absortos em suas conversas e compras particulares. Ninguém prestava atenção em Bel e Peggy, que agora apresentava uma barriga saliente à frente. Nenhuma daquelas pessoas poderia saber das preocupações que as moças levavam em seu íntimo, e nem que o motivo que as levara até ali fora uma tentativa de se distraírem, pois os tempos andavam sombrios para ambas.

–Olha Peggy! – chamou Bel, apontando para uma vitrine à frente das duas. – Que coisa mais fofa!

Peggy se aproximou para ver do que se tratava. Era uma loja de roupas de bebês, com infinitos bodys, macacões, conjuntos e vestidos em tons suaves e levemente coloridos. Ela sorriu, tocando no vidro gelado e sonhando com o dia que estaria com o filho nos braços e poderia vesti-lo com todos aqueles primores.

–Sim, é muito lindo mesmo...

Antes que pudesse concluir sua fala, porém, sentiu um arrepio lhe percorrer a espinha, como um mau agouro. Ela então olhou para os lados rapidamente, pensando ter visto algo ou alguém que não deveria estar ali.

–Não quer entrar para comprar algo? – perguntou Bel animada, sem notar a expressão sombria da outra.

Ao se certificar que não havia nada, voltou-se para a amiga:

–Acho melhor não... Você não quer ir comigo até à praça de alimentação?

–O que houve? Não está se sentindo bem? – preocupou-se Bel, acompanhando a outra. – Posso chamar alguém para te levar até o hospital, não deve ser bom para o bebê ficar no meio dessa gente toda...

–Tudo bem, Bel – acalmou-a Peggy. – Foi só um mau pressentimento.

A praça de alimentação estava cheia, mas ao notar que se tratava de uma jovem gestante, um casal de meia idade lhes cedeu gentilmente sua mesa.

–Mau pressentimento? – repetiu Bel de cenho franzido ao ajudar a amiga a se sentar. – O que quer dizer com isso?

–Eu não sei, um sentimento ruim – tentou explicar Peggy enquanto a outra se sentava à sua frente. – Como se alguém estivesse nos seguindo...

–Alguém? – Bel olhou assustada ao seu redor, abaixando a voz em tom confidencial, como se de repente pudesse ser ouvida por outrem. – Acha que pode ser o Chuck?

Peggy a encarou por um instante, tentando se convencer de que não havia motivos para alardes, afinal não poderia viver o resto dos dias à mercê do medo que sentia. Para falar a verdade, Chuck andava bem distante ultimamente. Talvez ele tivesse até desistido de sua obsessão doentia e arrumado uma namorada.

–Não... Foi só uma impressão ruim mesmo, acho que com a gravidez acabei ficando muito sensível...

–Finalmente, aí estão vocês! – disse de repente uma voz logo acima, se sobressaindo às demais.

Bel pulou de susto, enquanto Peggy levava a mão até o peito. Seu coração parecia querer saltar garganta afora. Quando percebeu de quem se tratava, porém, fechou a cara em uma expressão de poucos amigos.

–Pierre? O que faz aqui?

–Sua mãe disse que estaria aqui… — tornou ele, em tom de desculpas.

–Será que não se pode mais nem fazer compras em paz?

–Me desculpe, eu só queria saber como o bebê está…

Bel finalmente havia conseguido se recuperar do susto e se sentou de volta.

–Er… é que você nos assustou chegando assim do nada, Pierre… — disse ela, tentando apaziguar os ânimos.

–Sem essa – cortou Peggy. — Já não basta ir comigo nas consultas? Agora tem que me seguir pra todo lado que eu vá?

–Nós já tivemos essa conversa. Eu tenho direito de acompanhar a vida do meu filho.

–Ele ainda nem nasceu!

–Acho que vocês precisam conversar a sós, se me derem licença… — foi falando Bel, enquanto ia pegando a bolsa para se levantar.

–Não ouse sair dessa mesa! — exclamou Peggy, a puxando pelo braço.

–Mas, Peggy…

Na confusão, o celular de Bel saltou bolsa afora, caindo sobre o mármore gélido da mesa. Porém, ele não parou com o impacto.

–Acho que quebrou – lamentou Pierre.

Os três olharam para o aparelho, que continuava a vibrar e começou a tocar uma melodia natalina. Rapidamente, Bel o puxou para si, tocando na tela com agilidade para atender.

–Alô? — disse ela para o outro lado da linha, em tom apreensivo.

Peggy olhou para Pierre em um movimento instintivo, enquanto esperava Bel terminar a ligação. Mas ao perceber que ele a olhava de volta, desviou os seus num átimo de segundo. Não queria que ele a interpretasse de forma errada.

–O que...? — dizia Bel, muito surpresa. — Quando foi isso?… Espere, estou indo pra aí agora mesmo! — e desligou o aparelho, enquanto um sorriso enorme ia se desenhando em seus lábios.

–O que foi, Bel? — quis saber Peggy.

–David vai ser solto! — ela praticamente gritava. — O juiz aceitou o pedido de Habeas Corpus e ele vai responder ao processo em liberdade! — concluiu, guardando o celular e se levantando novamente.

–E você vai encontrá-lo na cadeia? Entendo que esteja feliz por ele, mas não acha melhor esperá-lo em casa enquanto se acalma um pouco?

–Nada disso, eu preciso encontrá-lo agora mesmo! — afirmou, dando a volta na mesa e quase caindo no processo.

Antes, porém, de sair correndo pelo corredor até a entrada do shopping, virou-se para Pierre, que agora se sentava em seu lugar, ignorando os protestos de Peggy:

–E acho que você deveria vir também, Pierre… David ficaria feliz em vê-lo.

Pierre apenas a observou, enquanto ela desaparecia pelo portal envidraçado. Não sabia o que pensar a respeito. Por muitos anos, David fora o seu melhor amigo, e apesar de sua traição, em seu íntimo também não acreditava naquela história de tráfico de drogas. Mas isso não mudava nada. Ou mudava?

Então voltou os olhos para a mesa, encontrando-se com o olhar limpo de Peggy.

–Acha que eu deveria ir?

***

A engrenagem da fechadura deu uma volta completa ao ser acionada pela chave, fazendo um barulho metálico estridente pelo seu pouco uso. Para David, porém, aquele era o sino dos céus. Sua passagem para a tão sonhada liberdade. Apesar da falta de modos dos policiais que o arrastavam para a saída, ele mal conseguia conter o sorriso em sua face. Em poucos instantes, estaria do lado de fora.

Passou pela mesma sala em que deixara seus pertences, para pegá-los de volta. A mesma mulher carrancuda e mal-humorada os devolveu, indicando um quartinho para que ele pudesse trocar de roupa.

Elas estavam imundas e em um estado deplorável, mas David se sentiu incrivelmente bem ao vesti-las.

–Ande logo, estão te esperando do outro lado – ordenou a mulher, o expulsando da sala.

David saiu de bom grado e, ao avistar seu advogado, juntamente de Jeff e Seb, não pôde deixar que lágrimas lhe assaltassem. Finalmente, seu inferno havia acabado.

–Obrigado! Muito obrigado… a todos vocês… — conseguiu dizer, com a voz embargada.

Seb o cumprimentou com um caloroso abraço, seguido de Jeff.

–Não há o que agradecer, para isso servem os amigos – falou Jeff, sorrindo.

O advogado então apertou sua mão, passando o outro braço pelos seus ombros.

–Meu caro rapaz! Nós vencemos a batalha, mas a guerra continua – cumprimentou-o de forma enérgica.

–Não importa, doutor. Tudo que consigo pensar agora é que estou livre!

Os quatro homens caminharam juntos, unidos em sua glória, até a saída do presídio. E David, mais uma vez, mal notou o lugar a sua volta. Entretanto, desta vez, ele tinha um bom motivo para isso.

Ao ganhar a calçada, viu uma forma feminina se projetar pela rua. Corria com os cabelos bagunçados pelo vento e um sorriso de fascínio. Poderia parecer uma maluca para quem a visse e não a conhecesse, mas não para David.

–DAVID! — gritava ela a plenos pulmões.

Ele deu um passo à frente, abrindo os braços para recebê-la com um sorriso enorme. Bel completou a distância saltando e agarrando-se a ele, com as pernas em volta de sua cintura. David deu um passo para trás, distribuindo o peso para se equilibrar com ela no colo.

–Não acredito, você está aqui! Você conseguiu, está livre! — disse de uma vez, as palavras se embolando todas.

–É, eu estou… — começou ele, sendo interrompido por um beijo voraz de Bel.

Ela desceu suas pernas para o chão, porém sem soltá-lo de seus braços. David a enlaçou pela cintura, correspondendo ao beijo de forma intensa. Os outros ficaram rindo, observando os dois amantes, enquanto esperavam o término daquele cumprimento caloroso.

Quando finalmente se desgrudaram, David não cabia em si de contentamento.

–Vamos embora daqui – falou ele para os demais. — Estou doido para chegar logo em casa e tomar um banho como se deve.

Todos concordaram.

–E você vem comigo – disse para Bel. — Não quero ter que me separar de você nunca mais.

Ao ouvi-lo, porém, uma sombra passou pelos seus olhos. Bel se lembrou das ameaças de seus pais e seu sorriso murchou, puxando o braço de David para trás e fazendo-o parar por um instante.

–Hã, David? Nós precisamos conversar, tem uma coisa que eu preciso…

–Depois, Bel – cortou ele, selando seus lábios. — Temos todo o tempo do mundo para conversar…

Ela queria lhe dizer que não, que não tinham todo o tempo do mundo, que na verdade estava correndo contra o tempo, mas não teve coragem de estragar aquele momento feliz. Improvisou um sorriso e voltou a andar ao seu lado.

–Hey, esperem! — gritou uma voz familiar atrás deles.

David congelou no lugar, a reconhecendo no mesmo instante.

–Se acha esperto por ter se livrado das grades, David? — insinuou Chuck com seu sorriso cínico.

–Você não tem o direito de estar aqui, Chuck! — revoltou-se Seb.

–E por que não? Não posso cumprimentar um amigo por ter saído da cadeia?

–Nós não somos mais amigos… — disse David em tom baixo, perturbado com a aparição repentina do baterista.

–Como soube que David ia sair? — quis saber Jeff, irritado. — O resultado do Habeas Corpus só saiu há poucas horas!

–Tenho minhas fontes…

–Não tem nada pra você aqui – avisou Bel, postando-se à frente de David. — É melhor ir embora.

–Vai se esconder atrás dessa mulherzinha, David? — riu Chuck.

–Não sou mulherzinha! Sou a namorada dele!

Chuck ria com deboche, deixando todos ainda mais irritados. Seb e Jeff se controlavam para não avançar sobre o ex-companheiro de banda, enquanto David ainda se achava acuado e amedrontado com a postura ameaçadora de Chuck. Porém, ao ouvi-lo se referir à Bel daquela forma, deu um passo à frente.

–O que ainda quer de mim, Chuck? Já não basta tudo o que me fez?

–Na verdade não. Tudo o que fiz ainda é pouco pela sua traição – tornou ele, mergulhado em seu ódio doentio. — Não pense que ganhou só porque saiu da cadeia, eu juro que vou fazer você pagar! Está livre das grades, mas não está livre de mim.

–Eu acho bom você sair agora – interveio uma voz que até então não havia se pronunciado. — Ou será pior pra você!

Chuck olhou surpreso, espantado em vê-lo ali. David, por sua vez, estava paralisado, mal acreditando no que seus olhos estavam vendo.

–Pierre? — conseguiu dizer em um fio de voz.

–Entendi… você veio se juntar ao Davidzinho também – disse Chuck com amargura, o encarando. — Das duas uma, Pierre: ou você tem memória curta, ou sangue de barata para vir até aqui. Seja como for, isso só mostra o quanto você é mole.

–Não, Chuck – discordou Pierre. — Isso mostra que, ao contrário de você, eu ainda tenho caráter. Eu andei refletindo sobre tudo isso que aconteceu nos últimos meses e agora, depois de ver a cena que acabou de fazer, eu tenho certeza. David pode ter feito algumas coisas erradas, mas ele só foi mais uma vítima do seu jogo sujo. Você o usou, sabendo de sua fragilidade, para me atingir, e agora está descontando nele o seu fracasso. Eu tenho pena de você, porque é uma pessoa tão egoísta que não percebe que está fazendo mal para si mesmo.

–Quem disse que fracassei? — enfureceu-se ele.

–Você não tem mais amigos. A cada dia se torna mais desprezível e mais parecido com aquilo que tanto odiava. E eu apenas lamento que as coisas tenham chegado nesse ponto, pois algum dia já o considerei como um irmão.

–Cale a boca, Pierre! — dizia ele, enlouquecido com as palavras do outro e se aproximando ameaçadoramente. — Sempre se achando melhor do que os outros! O bondoso, o generoso! Você não passa de uma grande piada!

O confronto era iminente. Todos podiam ver as faíscas que emanavam dos dois, envolvidos em sua discussão acalorada. Antes que fosse tarde, Jeff e Seb resolveram intervir, emparelhando-se ao lado de Pierre e dando um chega pra lá em Chuck.

–Escute o conselho de Pierre e vá embora daqui – ordenou Jeff.

–É um momento de comemoração, não queremos confusões – arrematou Seb.

Chuck olhou para os três, um por um, detendo seu olhar em Pierre e estreitando os olhos, o fuzilando.

–Eu vou… Mas isso não vai ficar assim, Pierre, pode apostar!

Ele virou as costas, se retirando do local. Pierre se agitou, querendo ir atrás para tirar a limpo a ameaça que acabara de receber, mas foi impedido por Jeff e Seb.

–Não vale a pena, Pierre. Chuck só quer chamar a atenção.

Ele assentiu, concordando em silêncio. Além do que, tinha ido até lá para prestar solidariedade à David, e não para entrar em brigas.

–Pierre… — repetiu David, finalmente se aproximando do outro.

–Olá, David – cumprimentou ele, levando uma das mãos até a nuca em um gesto nervoso. — Eu, hã… fico feliz que tenha saído da cadeia.

–Me desculpe, Pierre. Queria te pedir perdão por tudo o que fiz. Sei que é difícil, que talvez nossa amizade nunca volte a ser como antes, mas queria que soubesse que me arrependo de ter mentido esses anos todos. Eu nunca quis te prejudicar em nada, achava que estava fazendo o certo com Chuck.

Pierre olhava no fundo de seus olhos enquanto ele falava, e percebeu que David estava sendo sincero. Então, pela primeira vez, abriu um meio sorriso, colocando as mãos sobre os ombros do outro e o encarando de forma intensa.

–Eu te perdoo, David. No começo fiquei com muita raiva de você, mas agora percebo que a culpa de tudo sempre foi o Chuck. Ele mentiu para você, assim como fez comigo. Esse é o jogo dele, mentir, manipular. Mas sei que você não é assim e que estava sob a influência dele, por isso eu te perdoo.

David não conseguiu conter as lágrimas. Depois de tudo, estava muito emocionado para dizer algo mais. Pierre então o abraçou, o apertando entre seus braços. Ele retribuiu o gesto, sentindo-se acalentado pelo abraço. Naquele momento, ambos compreenderam que o laço de amizade que os unia era tão forte quanto o mais sólido dos cristais, e que nada, nem ninguém, poderia separá-los novamente.

Quando enfim se separaram, Bel tocou o ombro de Pierre, o saldando.

–Que bom que mudou de ideia – e sorriu como quem sabe das coisas.

Pierre sorriu de volta, piscando em cumplicidade. A garota estava lhe saindo melhor do que a encomenda.