How Could This Happen To Me?
26 Obstinação
Notas iniciais
Bel ainda estava com David depois que os outros foram embora. Não queria deixá-lo e ele estava mais que feliz por isso, muito embora não desconfiasse das reais preocupações da namorada. Bel tinha adiado até aquele momento, mas sabia que não poderia adiar mais. Via David sorrindo pela primeira vez em muito tempo e detestava ter que acabar com a festa. Mas era preciso.
Haviam improvisado uma pequena confraternização para comemorar a liberdade de David e sua reconciliação com Pierre. Acharam por bem não tocar no assunto do incidente com Chuck, e a reunião seguiu alegre e animada. Por isso, o apartamento estava de pernas para o ar, com pratos sujos, copos pela metade e a mobília fora do lugar. Sentada no sofá, Bel terminava sua bebida quando David veio se juntar a ela, após se despedir do último convidado e fechar a porta. Estava exausto, mas ainda podia namorar um pouco…
–Enfim sós – disse ele, sentando-se ao seu lado e beijando seu pescoço.
–David… — começou ela, deixando o copo na mesa e o afastando delicadamente com as mãos. — Sobre aquilo que queria te falar hoje mais cedo…
–Você não vai querer conversar agora, vai? Podemos deixar isso para depois…
E voltou a se aproximar, a enlaçando pela cintura e beijando seus lábios. Bel se deixou levar por um instante, inebriada pelo beijo do namorado e pelas mãos que subiam pelas suas costas por baixo da camiseta. No entanto, estava ali com um propósito. Tinha uma tarefa a cumprir.
–David! — conseguiu dizer entre um beijo e outro.
Diante de sua rigidez e da urgência em sua voz, David parou, olhando-a confuso.
–O que foi?
Ela o encarou fixamente.
–O que tenho para dizer é algo muito sério e urgente, não pode ser deixado para depois.
–Você está me assustando… Não vai dizer que se apaixonou por outro cara?
–Não, claro que não!
–O que é então? — exasperou-se ele.
Bel suspirou, abaixando os olhos e tocando uma das mãos de David com a sua.
–Enquanto você esteve preso, meus pais ligaram e disseram que virão me buscar, que vão me levar de volta para os Estados Unidos.
–Mas por que isso?
–Porque ficaram sabendo da sua prisão e estão preocupados com as minhas más influências.
David levantou-se, andando de um lado a outro da sala.
–Eles não podem fazer isso, é só você dizer que não vai.
–Eles podem sim! Eu ainda sou de menor, eles podem me obrigar se quiserem – disse ela, abaixando os olhos novamente. — Não quis te contar antes porque não queria estragar o momento, você estava tão feliz! Mas a verdade é que não poderemos ficar juntos por muito tempo…
Ele continuava a andar, desnorteado.
–Quando eles virão?
–Em duas semanas – disse, pesarosa. — Eu sinto muito, David. Preferiria estar morta a ter que voltar pros Estados Unidos e te deixar, mas é impossível…
De repente ele parou no meio da sala. Bel não pôde ver seu rosto, uma vez que ele estava de costas.
–Há um jeito se você quiser… — falou ele, em tom indecifrável.
–Que jeito, David? Eu não posso fugir, eles vão me encontrar de qualquer forma.
–Não estou falando de fugas… – Ele se virou devagar. Sua expressão não era de desespero ou tristeza. Bel franziu o cenho, confusa. — Você poderia se casar comigo, aí poderia ficar. O casamento tem o poder de emancipar a pessoa, sabe…
Bel congelou no lugar, abrindo a boca devagar enquanto tentava absorver as palavras de David.
–Casar...? Está me pedindo em casamento?
–Estou – disse ele, sério.
–Mas David… Isso é impossível! Não tem como preparar um casamento em menos de duas semanas!
–Tem sim, é só você querer. Aliás… — Ele se aproximou dela, agachando-se e pegando uma de suas mãos. — Você ainda não disse se aceita ou não se casar comigo…
Ele a olhava seriamente, e Bel percebeu a tensão daquele pedido. O medo de uma negativa estava escrito em seus olhos, então ela sorriu, colocando sua mão sobre a dele.
–David… é claro que eu aceito me casar com você…
Ele respirou aliviado, a tomando em seus braços com um beijo apaixonado. Teriam que correr com tudo para que o casamento se realizasse a tempo. Mas não naquele momento. Naquele momento eles só queriam se concentrar um ao outro…
***
Fazia cinco dias que a casa estava uma loucura total. No começo, ele achou que fosse por causa do bebê. Mas as pessoas simplesmente não paravam de chegar, entrar e ir embora logo em seguida, o que o deixava intrigado. Por mais que pensasse, não conseguia encontrar alguma ligação daquela gente toda com o bebê que Peggy esperava. Quando viu uma perua da floricultura encostar, descendo uma infinidade de arranjos, todos muito bem elaborados, não aguentou mais.
Desceu do carro, o mesmo que parava ali todos os dias para monitorar a casa e que ninguém reparava, e foi se aproximando sorrateiramente de um dos entregadores, o que lhe parecia mais tonto. Parou ao lado de uma caçamba e, certificando-se de que não havia nenhum rosto conhecido à vista, fez um sinal para que fosse até ele.
–Fala, chefia!
–Eu moro aqui do outro lado da rua e não pude deixar de reparar nos arranjos que acabaram de deixar naquela casa…
–Nem me fale! Cada peça daquelas parece pesar uma tonelada!
–Pois é… Acontece que tenho notado uma grande movimentação ali, e como os vizinhos não comentam nada, você sabe, essa gente esnobe não gosta de se misturar aos outros, acabei ficando curioso. Eles vão dar uma festa?
–Sei bem como é, os meus também são assim… Mas aqui vai ser um casamento. Imagine só que fizeram a encomenda e exigiram que entregássemos em dois dias! Até eu tive que ajudar com os arranjos, estou com calos nas mãos de tanto trabalhar!
–É o que estou dizendo, essa gente não tem consideração… Agora, você disse casamento, sabe se é a moça grávida que vai casar?
–Não, parece que é a amiga dela. Ouvi dizer que tem pressa porque precisa se casar antes que os pais cheguem. Veja se não é coisa de gente maluca!
Ele riu, balançando a cabeça e colocando uma das mãos no ombro do outro homem.
–Totalmente maluca! Mas não vou mais fazê-lo perder tempo com isso, obrigado por sanar minha curiosidade.
–Que isso, patrão! Se todos fossem gente boa assim, o mundo seria um lugar melhor de se viver.
Ele não tirou o sorriso dos lábios. Pacientemente, esperou que a perua passasse por ele, acenando para o seu novo amigo. Então voltou ao carro, subindo o vidro fumê e inclinando-se sobre o banco para que não pudesse ser visto lá dentro. Acionou a alavanca do porta-luvas e remexeu nas coisas por um tempo até encontrar o que queria. Cuidadosamente, retirou uma velha fotografia que levava sempre consigo desde os tempos de colégio. Acariciou o papel amarelado pelo tempo como se fosse uma joia preciosa. Nele, a figura de uma jovem Peggy lhe sorria. Ela vestia o tradicional uniforme escolar, levava os cabelos presos por uma trança de lado e, em seu rosto, algumas espinhas apontavam tímidas.
Chuck sorriu de volta para ela, de um jeito que lhe faria arrepiar a espinha.
–Chegou a hora, Peggy…
***
A sala estava irreconhecível. Para a cerimônia, haviam retirado todos os móveis do lugar e improvisado um pequeno altar ao fundo, onde os noivos oficializariam suas núpcias. Um longo tapete branco e estreito fora colocado ao centro em direção ao altar, e ao seu redor fileiras de cadeiras encontravam-se dispostas esperando pelos convidados. Não seriam muitos, apenas os amigos mais próximos. Diante das circunstâncias, quanto mais simples e menos gente fosse, melhor.
A decoração como um todo ficava a cargo dos arranjos de lírios brancos, estrategicamente posicionados aos lados do tapete, formando um gracioso corredor por onde a noiva passaria. No altar, uma pequena mesa de mogno retangular preenchia o local. Sobre ela, um manto trabalhado em renda branca e um grosso livro de couro e capa dura. A cerimônia, na verdade, seria realizada apenas no civil, por seu peso e sua formalidade perante a sociedade. Teriam tempo para se casar na igreja futuramente.
Os pais de Peggy, que não concordavam com a atitude dos pais de Bel em levá-la embora, em detrimento de seu futuro, cederam gentilmente a casa para que eles pudessem oficializar a união. Além deles, Seb e Jeff já estavam ali, acompanhados de suas namoradas, bem como o advogado que livrara David da cadeia e sua esposa, e mais uma meia dúzia de amigos, dentre eles Pierre.
O juiz de paz aguardava junto à mesa de mogno e David ao pé do altar, não se contendo em si, esperava pela chagada de Bel.
No entanto, quem desceu primeiro pelas escadas fora Peggy. Ela usava um vestido longo azul de tecido leve, que caía suavemente sobre sua barriga, já parecendo-lhe enorme. Mas, para seu alívio, as pessoas não estavam muito interessadas em analisar suas formas de grávida. Exceto por uma pessoa.
–Bel já vai descer – anunciou ela com um sorriso nos lábios enquanto descia os últimos degraus.
Todos ficaram de pé, no aguardo da noiva. Peggy, por sua vez, dirigiu-se ao lado de Pierre, que não lhe desgrudara os olhos.
–Ainda não acredito que Bel me obrigou a ser madrinha com você – disse ela em voz baixa ao estender o braço para ele.
–Não é como se ela tivesse várias opções… — ponderou ele, entrelaçando seu braço ao dela.
Logo em seguida, Bel apontou no topo das escadas com um sorriso do tamanho do mundo. Vestia um vestido branco rendado de Peggy, já que não tivera tempo nem dinheiro para encomendar um. Entretanto, a amiga lhe ajudara a improvisar um véu e fazer alguns ajustes, de modo que nem se notava não se tratar de um vestido de noiva. Foi descendo degrau a degrau, com cuidado para não tropeçar e cair. Ao alcançar o corredor e avistar David, seus olhos brilharam. Caminhou até ele ao som suave da marcha nupcial e sob os olhares de admiração dos convidados.
David a recebeu com um beijo em sua testa e, guiando-a pela mão, os dois pararam à frente do juiz. Ele fez um gesto para que todos se sentassem, dando início à cerimônia:
–Estamos aqui hoje para celebrar a união deste jovem casal…
Sorrindo e olhando um para o outro, David e Bel pareciam estar em outro mundo. Entrementes, Peggy tentava ignorar os olhares furtivos de Pierre, incomodada com o contato entre as peles pelo enlace de seus braços. O discurso seguiu o mais breve possível, como haviam solicitado, e após ouvir o “sim” dos noivos, passou-se à assinatura dos padrinhos no livro de registros. Peggy assinou o seu nome e ficou o observando ao lado do de Pierre. Por um instante, passou por sua cabeça que talvez nunca conseguiria deixar de sentir algo por ele.
–Está bem? — disse ele.
–Estou – respondeu seca, afastando-se dele e indo cumprimentar os recém-casados.
Por que seu jeito de preocupado a irritava tanto? A fim de espantar tais pensamentos, balançou a cabeça. Devia ser o casamento que a estava deixando tão sensível…
–Parabéns, Bel. Você ficou uma noiva muito bonita – elogiou ela.
–Obrigada! Você sabe que eu não teria chegado até aqui sem você.
Elas se abraçaram em um gesto de amizade sincera. Outros abraços e cumprimentos vieram, e logo a cerimônia formal se diluiu, dando espaço a uma festa animada, com direito à música ao vivo. O Simple Plan não existia mais, mas David havia convidado um velho amigo para tocar algumas canções românticas em seu violão.
Peggy não estava no clima das canções românticas, mas para não ser indelicada com os noivos não deixou a festa, optando por sentar-se mais ao fundo. Para sua infelicidade, porém, Pierre veio juntar-se a ela.
–Não está gostando da festa?
–Estou um pouco cansada, só isso. Você sabe, a gravidez…
Baixou os olhos, acariciando a barriga com uma das mãos.
–Eu posso tocá-la? — pediu ele.
–Que? Por que? — exasperou-se, erguendo os olhos novamente.
–Para senti-lo… Você querendo ou não, ele é meu filho também…
Peggy suspirou, cansada demais para discutir. Pierre pousou a mão direita sobre o topo de sua barriga, fazendo-a se sentir estranha. Desde que se separaram, era a primeira vez que tinha um contato mais íntimo com ele, e odiava ter que admitir que isso ainda mexia com ela.
Ia afastá-lo quando sentiu que algo a empurrava de dentro para fora em um movimento brusco inesperado. Pierre sorriu, maravilhado.
–Está sentindo isso? Ele está se mexendo!
–Já chega, Pierre – ela retirou sua mão em um único gesto, fazendo seu sorriso morrer.
–Por que é sempre tão dura?
–Porque não quero que ache que está tudo bem quando não está!
–Olhe, eu sei que talvez você nunca me perdoe, que o que eu fiz foi errado, que eu me deixei levar, mas as pessoas erram! Não vou tentar jogar a culpa pra cima do Chuck, apesar de saber que ele teve uma grande contribuição para isso, mas as pessoas estão suscetíveis a erros, e isso não significa que elas agirão sempre daquela forma. Eu me arrependi, e já não sei mais o que faço pra você me perdoar! Às vezes parece que você está apenas arranjando uma desculpa para se afastar mais de mim…
–Você não entende… — suspirou ela. — Nós nunca demos certo juntos. Desde o começo, sempre acontecia algo para nos mostrar que não devíamos ficar juntos, que pensávamos diferentes, tínhamos mundos diferentes… Pra que insistir em algo que já se desgastou tanto? Já sabemos que não vai dar certo…
–Como pode ter certeza disso? Me dê mais uma chance! Agora, sem o Chuck nas nossas vidas, tudo pode ser diferente…
Ele olhava-a fundo em seus olhos. Peggy respirava com dificuldades, sentindo-se sufocada com as palavras de Pierre. Não queria admitir a verdade. Não podia.
–Pierre…
–Você sabe que eu estou certo! Eu te amo, e duvido que você não sinta mais nada por mim também.
A situação havia chegado em um nível insuportável. Pierre estava muito próximo dela e antes que pudesse sucumbir, Peggy levantou-se.
–Me dê um tempo, está bem? Eu preciso respirar…
–Pra onde você vai?
–Lá pra fora, e nem pense em me seguir! Eu preciso ficar sozinha um pouco…
–Está bem… — disse ele por fim. Não era bom confrontar uma grávida em estágio utra sensível.
***
Caminhando lentamente, Peggy foi até a velha praça que ficava à esquina de sua casa, a mesma onde costumava brincar com o irmão quando era pequena. Escolheu um dos balanços de corda, sem se importar com o fato de que estava velha demais para eles, e se sentou, projetando suavemente o corpo para frente e para trás enquanto observava as estrelas no céu. Queria fundir-se a elas e esquecer-se de sua pequena existência complicada.
–Eu sabia que viria para cá… — disse uma voz às suas costas, fazendo-a congelar no balanço.
–O que está fazendo aqui? — perguntou ela, sem se virar. Não precisava olhar para saber de quem se tratava.
Escutou o barulho dos sapatos em contato com a grama molhada, se aproximando dela.
–As pessoas costumam cumprimentar os amigos quando eles se casam – disse, encostando-se ao tronco de uma árvore ao lado dos balanços.
–Você não tem nenhum amigo aqui, Chuck – tornou ela, finalmente virando-se para encará-lo. — E nem foi convidado para a festa. É melhor ir embora…
Seus lábios retorceram-se em um sorriso triste, as mãos fechando-se dentro dos bolsos da jaqueta.
–É verdade, não adianta mentir… Eu vim porque precisava te ver…
–Por que? — quis saber ela, desconfiada.
–Porque não consegui acreditar, tinha que ver com meus próprios olhos – disse, cravando os olhos em sua barriga.
Peggy levou as mãos instintivamente sobre ela, em um gesto protetor.
–Como você pôde ficar grávida dele? — retorquiu, a raiva evidente em cada músculo de sua face.
–Não que eu te deva alguma satisfação, mas não foi uma gravidez planejada. Simplesmente aconteceu.
–Não importa, você não podia ter feito isso… Não podia ter feito isso comigo! Eu te venerava! — Sua voz estava alterada e ele começou a se aproximar dela, tirando uma das mãos do bolso e agarrando a corda do balanço com força.
Peggy levantou-se, o encarando com determinação.
–Já chega, Chuck! Eu vou voltar lá pra dentro e você vai embora. Não quero mais te ver por aqui!
Com um misto de incredulidade e apreensão, ela pôs-se a andar em direção à casa, o mais rápido que conseguia. Chuck porém a alcançou em poucos passos, agarrando um de seus braços e puxando-o para trás, a imobilizando.
–Você não vai a lugar algum – avisou ele, tirando a outra mão de dentro do bolso junto a um pano branco molhado, enquanto Peggy se debatia, tentando soltar-se dele. — Você é minha!
Ele pressionou o pano sobre a face de Peggy, forçando-a a respirar o líquido que embebia o tecido. Ela tentou lutar, tentou gritar, mas Chuck era mais forte e estava mais fora de si do que nunca. Impotente e sem ar, ela não pôde evitar aspirar a substância. A última coisa que viu foi o brilho sinistro nos olhos de Chuck, e sua consciência a abandonou…
Sem perder tempo, ele a pegou em seus braços, levando-a até o carro preto estacionado do outro lado da rua. O bairro era calmo e ficava deserto após certa hora da noite, por isso Chuck não teve grandes dificuldades em colocá-la no carro e sair sem que ninguém o visse.
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