Hotel California

5 Capítulo 5 - Culpa


Enquanto Mia atirava em um dos fantasma, outro aparecia em seguida. E cada vez que eles reapareciam conseguiam se aproximar mais dela. Até que enquanto ela atirava em um deles, outro surgiu e a empurrou com força. Com isso, Mia foi parar do outro lado do quarto e bateu a cabeça em uma cômoda. Ficou zonza e antes de desmaiar viu os fantasmas se aproximando novamente e ficando à sua volta.

Tudo ficou escuro e quando abriu os olhos novamente Mia se deparou com um lindo céu estrelado. Ficou alguns instantes tentando lembrar onde estava e o que estava acontecendo antes daquele momento. A última coisa que lembrava era dos fantasmas invadindo o seu quarto no hotel Califórnia e a jogando do outro lado do quarto. Mas agora ela não estava mais no hotel. Estava ao ar livre. Passou as mãos sobre a superfície gelada onde estava deitada. Parecia alguma espécie de mármore. Sentou e olhou em volta. E então entendeu onde estava, embora não fizesse o mínimo sentido. Era um cemitério. Olhou para a superfície onde estava sentada e também descobriu o que era. Um túmulo. Se afastou um pouco horrorizada com aquilo, mas parou emocionada ao ver a quem ele pertencia. Instantaneamente sentiu seus olhos úmidos e passou a mão pelas letras que formavam o nome de sua mãe. Desceu do túmulo depois de alguns instantes e olhou o túmulo ao lado. E novamente seus olhos se encheram de lágrimas ao ver o nome do seu pai gravado ali. Só então percebeu que desde que descobriu que os seus pais fizeram um pacto com Crowley e foram mortos por Cães do Inferno, não tinha parado para pensar neles de verdade. Não tinha parado para pensar no que eles passaram e ainda estavam pensando no Inferno. E sentiu-se a pior filha do mundo por ter esquecido deles. Resgatar os seus pais deveria ter sido o seu primeiro caso como caçadora. Como ela pode esquecer deles?

A culpa começou a consumí-la e as lágrimas a venceram por fim.

– Eu sinto muito... — lamentou enquanto olhava para os túmulos.

Enxugou as lágrimas e voltou a pensar que aquilo tudo não fazia o menor sentido. Ela ainda devia estar no hotel. Como conseguiu dormir enquanto fantasmas tentavam matá-la? Precisava acordar.

Começou a se afastar ao ouvir um ruído ao longe e resolveu seguí-lo. Mas enquanto passava entre os túmulos, viu que um deles era do seu amigo Ric e novamente a culpa a consumiu. Caminhou mais um pouco e parou no túmulo de Melissa.

– Não! — gritou inconformada.

Aquilo não podia ser verdade. Melissa estava viva. Kevin, Garth e os Winchester tinham impedido que Crowley machucasse a sua amiga e seus outros colegas em São Francisco há alguns meses. Aquilo não era real. Não podia ser.

– Sammy, você ouviu alguma coisa? — perguntou uma voz familiar ao longe fazendo Mia voltar a seguir o ruído.

– Nós estamos num cemitério, Dean. Provavelmente você ouviu alguma coisa. Mas hoje nós temos que cuidar desta aqui. — respondeu a outra voz familiar.

Mia olhou em volta e só então reconheceu aquele cemitério. Era o mesmo da noite em que conheceu os Winchester. Se escondeu atrás de um dos túmulos e observou Sam e Dean desenterrarem o corpo de Mary Collins. A aluna que matou o seu professor.

Por que estava revendo aquelas coisas? Por que não conseguia acordar? Sentia que sua vida estava em jogo, mas por mais que lutasse contra aquilo, não conseguia acordar. O pior era que sabia que quando acordasse teria que enfrentar outro pesadelo: os fantasmas do Hotel Califórnia. Não entendia como não conseguia acordar, mas pensou que talvez os fantasmas quisessem se divertir um pouco com as suas lembranças. E a torturarem usando a sua própria culpa.

De repente olhou para as suas roupas e viu que eram as mesmas daquela noite. O mesmo casaco e o mesmo spray de pimenta no bolso. E embora já soubesse o que ia acontecer, deu um passo para trás mesmo assim quando Sam e Dean queimaram os ossos de Mary Collins e o fantasma dela apareceu por alguns instantes para se dissipar em seguida. E novamente o seu spray de pimenta fez um barulho enorme quando ela esbarrou no túmulo logo atrás. E novamente ela caiu em uma cova.

Olhou para cima e protegeu o rosto quando as luzes das lanternas iluminaram a cova.

– Por favor, não me machuquem. — se ouviu dizendo enquanto Sam e Dean abaixavam as armas.

– Desculpe, Mia. — disse Dean para sua surpresa, já que aquilo não tinha acontecido daquele jeito.

– Desculpe pelo quê? — estranhou ela.

Então Sam olhou para alguma coisa dentro da cova e Mia seguiu o seu olhar. E ficou alguns instantes em choque ao ver o seu próprio corpo ali. Voltou a si quando Dean começou a jogar sal sobre ela. Ou melhor sobre o seu corpo. Sam fez o mesmo.

– Ei! — gritou ela — O que diabos vocês estão fazendo? Sou eu! Eu estou viva! Vocês não podem colocar fogo em mim, gênios... Parem!

– Sinto muito, Mia. — disse Sam — Nós não queríamos que as coisas terminassem assim.

– Mas é isso o que acontece quando você se envolve com os Winchester. Você morre. Mais cedo ou mais tarde. — completou Dean rispidamente — Jo, Ellen, Pamela, Ash... Até o Bobby... Todos eles morreram porque confiaram na gente, trabalharam com a gente... Assim como você. Então não faça essa cara de surpresa. Você sabia dos riscos quando nos seguiu e quando decidiu ser caçadora.

– Uma péssima caçadora por falar nisso. — acrescentou Sam igualmente ríspido.

– Qual o problema de vocês? Por que estão falando assim? — irritou-se Mia — Eu estou viva! Eu estou no Hotel Califórnia! Vocês precisam me encontrar... Vocês precisam me ajudar!

– Ah, nós vamos te ajudar. — garantiu Dean enquanto acendia o isqueiro — Mas não como você gostaria. É hora de dizer adeus pra esse mundo, Mia. Admita, você não se encaixava muito bem nele mesmo.

– É, você era um monstro, na verdade... — disse Sam.

– Eu não sou um monstro... — discordou ela magoada com aquelas duras palavras.

– Certo, você é especial. — corrigiu Sam de um jeito irônico.

– Honestamente, nós nunca entendemos o que tinha de errado com você. — confessou Dean enquanto abria e fechava o isqueiro — Mas eu acho que isso não importa mais. Parece que finalmente vamos nos livrar de você. Sabe, é muito difícil ter que salvar o mundo todos os dias e ainda nos preocupar com uma caçadora atrapalhada e problemática. Sem ofensa.

Sam jogou um líquido inflamável no corpo de Mia que assistia tudo em choque. Por mais que soubesse que aquilo não era real, a forma como Sam e Dean estavam falando a magoava profundamente. Mas no fundo sabia que eles tinham razão. Havia alguma coisa de errada com ela. Sempre houve.

– Vão em frente. — disse ela por fim — Me matem.

– Adeus, Mia. — terminou Dean jogando o isqueiro dentro da cova.

Mia abriu os olhos e novamente estava deitada em cima de um túmulo. Sentou sentindo-se mais confusa. Aquele pesadelo não ia ter fim? De qualquer forma estava aliviada por ter saído do pesadelo anterior bem a tempo. Não estava pronta para ver o seu próprio corpo queimando.

Desceu do túmulo e leu o que estava gravado nele. E para sua surpresa, não era mais o nome da sua mãe. Era o seu. Se afastou assustada ao mesmo tempo em que a tampa se moveu. Deu mais alguns passos para trás e ouviu um latido sair do túmulo.

– Ah não... — murmurou Mia deduzindo o que era aquilo.

A tampa caiu no chão e um enorme Cão do Inferno saiu de dentro da cova e pulou em cima de Mia a derrubando no chão.

A garota tentou proteger o rosto enquanto o cão rasgava as suas roupas e, consequentemente, a sua pele. Mia sentiu uma forte dor quando o animal abriu o ferimento da sua perna. Mia queria matar o Cão do Inferno, como fez há alguns meses, mas sem a faca da Ruby não tinha chance contra ele.

Quando estava quase desistindo, um tipo de força afastou o cão bruscamente de Mia o jogando contra a parede de um dos túmulos. Mia procurou em volta e não viu mais o animal. Então Castiel se aproximou e a ajudou a se levantar.

– Graças a Deus, Cas... — disse o abraçando, depois se afastou e pediu mostrando os ferimentos — Hora de fazer um milagre aqui...

Castiel inclinou a cabeça intrigado e indagou friamente:

– Por que eu deveria curar você se tudo o que eu quero é me livrar de você? E do relacionamento inadequado que nós temos?

– Oh droga... Você não é o Cas de verdade.. — deduziu ela se afastando.

– Não sou? Você prefere acreditar que eu não sou real do que aceitar que nós não deveríamos ficar juntos? — perguntou ele dando um passo em sua direção.

– É, eu prefiro...

– Eu sou um Anjo do Senhor, Mia. E você... Bem, eu nem sei o que você é exatamente. Mas o que eu sei é que isso tem que acabar.

– Isso não é real... — disse Mia para si mesma.

– Eu tentei me enganar e não reconhecer o que estava bem diante dos meus olhos...

– Este não é você...

– Mas agora está tudo claro. Você é um monstro. — disse o anjo colocando a mão na cabeça de Mia.

– Não... Eu não sou... — disse ela entre soluços — Eu te amo...

– E eu tenho vergonha do que sentia por você. Mas, agora acabou e finalmente eu posso fazer o que devia ter feito há muito tempo.

Mia sentiu uma forte dor enquanto Castiel mantinha a mão sobre a sua cabeça. E assim como ela o viu matar demônios algumas vezes, agora ele tentava matá-la da mesma forma. Os olhos dele se iluminaram e Mia fechou os seus.

– Isso não é real. — repetiu para si mesma.

Abriu os olhos esperando o próximo pesadelo, mas para sua surpresa estava de volta ao quarto do hotel. No chão, cercada pelos estilhaços da janela e pelos fantasmas. Rapidamente ela pegou a arma e atirou em todos eles. Ainda respirava ofegantemente quando a voz daquela mulher a fez olhar para a poltrona do outro lado do quarto:

– Sonho ruim?

– Desgraçada... — xingou Mia apontando a arma e disparando na direção dela.

Mas não havia mais balas de sal e o fantasma sorriu perguntando:

– Com o que você estava sonhando?

– Eu acho que você sabe. — respondeu Mia abaixando a arma e se levantando — Então é isso que vocês fazem? Entram na cabeça dos hóspedes e os torturam com seus piores medos? Acredite, você vai precisar se esforçar mais se quiser me convencer a puxar o gatilho.

– Eu vou? — duvidou a mulher — Eu não sei... Você parecia bem assustada. Principalmente com a ideia de ser abandonada por aquele anjo. Ou com o que você sente em relação a si mesma.

– E o que seria? — perguntou ela tentando ganhar tempo enquanto andava pelo quarto olhando cada detalhe.

Precisava encontrar uma coisa. E precisava distrair aquele fantasma ao mesmo tempo.

– Qual é, Mia... Você sabe. Você sabe que tem alguma coisa errada com você. Também o que você esperava? Você é fruto de um pacto de encruzilhada. Você é um monstro...

– Olha quem fala. — rebateu Mia se aproximando da lareira.

– O que você está fazendo? — desconfiou o fantasma.

Mia pegou um lança de ferro puro na lareira e se virou. Deu de cara com o fantasma que a empurrou. Mia caiu do outro lado do quarto e longe da lança de ferro. Então se arrastou para tentar recuperá-la. Mas parou e gritou de dor quando aquela mulher pisou na sua perna bem no local do ferimento causado pelo acidente. Mia esticou o braço e pegou a barra novamente. Num gesto rápido atingiu o fantasma com aquilo e ele se dissipou.

– Son of the bitch... — xingou Mia se apoiando na parede.

Olhou para a sua perna e viu que estava sangrando novamente. E pelo dor que sentia, com certeza tinha quebrado alguma parte do fêmur. Se levantou com esforço e pegou a lança. Saiu do quarto e observou o corredor. E começou a ouvir os sussurros dos fantasmas novamente.

– Bem vinda ao Hotel Califórnia. — repetiam elas.

– Por favor... Calem a boca... — resmungou Mia cansada daquele jogo.

Dean voltou para a sala enquanto Sam continuava tentando descobrir com quem Mia tinha falado nas últimas horas. Castiel andava de um lado pro outro o que deixava Dean irritado. Mas resolveu não dizer nada porque sabia que o anjo estava preocupado com Mia.

– Eu sinto que nós não temos muito tempo. — previu Castiel — Sam, o que você descobriu?

– Só mais um minuto. — pediu ele.

Mia voltou para o quarto e pegou a mochila. Estava decidida a colocar um fim naquele pesadelo. Se os fantasmas estavam fazendo da sua vida um inferno desde que ela teve a infeliz ideia de se hospedar ali, ela ia responder à altura. Sabia onde os corpos estavam. Só precisava entrar nos quartos, salgar os corpos ou o que tinha sobrado deles e queimá-los.

Claro que ao perceberem o plano de Mia, os fantasmas não ficaram muito felizes. E começaram a reaparecer no corredor e nos quartos. Mia se esquivava deles usando a lança de ferro. Queimou o primeiro corpo e um dos fantasmas se dissipou em chamas e cinzas. Jogou um líquido inflamável no segundo corpo e o queimou em seguida. E novamente o fantasma se foi. O terceiro fantasma deu mais trabalho. A temperatura caiu bem no instante em que Mia ia atear fogo no esqueleto e o fantasma apareceu e a empurrou com força. Ela caiu no chão e se esticou para pegar a lança. Acertou o fantasma bem a tempo e colocou fogo nos seus restos mortais. E o fantasma se foi.

E Mia continuou fazendo isso por um longo período. Perdeu as contas de quantos corpos queimou, de quantos fantasmas se desviou e de quantas vezes eles a empurraram e a deixaram ainda mais machucada. Porém, o mais estranho era que aquele processo parecia não ter fim. Quanto mais ela incendiava os corpos, mais corpos apareciam. E mais fantasmas extremamente zangados.

Aquilo não fazia sentido e então Mia começou a entender o que realmente estava acontecendo ali. Lembrou dos pesadelos e começou a juntar as peças. Com dificuldade e puxando a perna, ela desceu a escada. Deixou a mochila no chão e também o ferro. Se aproximou da recepção onde aquela mulher permanecia sentada sem se preocupar com o que Mia estava fazendo até então.

– Já cansou? — perguntou o fantasma com ironia.

Mia a olhou com ódio e respondeu:

– Eu sei quem você é.

Sam olhou incrédulo para o número de telefone que aparecia no histórico de ligações de Mia.

– Eu não entendo como ele consegue fazer isso... — disse ele.

– O que você descobriu, Sammy? — quis saber Dean se aproximando junto com Castiel.

Os três olharam para o número que aparecia na tela.

– 666... — leu Castiel.

– Son of the bitch... — xingou Dean.

O fantasma olhou para Mia e a desafiou:

– Você sabe quem eu sou?

– Sim. — afirmou Mia.

– Eu estou esperando. — provocou o fantasma.

Mia se encheu de coragem e disse com firmeza e ódio ao mesmo tempo:

– Pra começar, nada disso é real. O caminhão que me tirou da estrada não era real. Você mesma falou. Os fantasmas, os corpos, não são reais. Este lugar, este hotel, nada disso é real. Isso tudo só existe na minha cabeça. Você me fez acreditar que era real porque você está na minha cabeça.

– Hummm... Teoria interessante. — reconheceu o fantasma.

– Cala a boca. — ordenou Mia com mais raiva e dando mais um passo em direção a mulher — Você está na minha cabeça desde que eu fiz aquele maldito ritual. Naquela igreja. Eu confesso que não tinha entendido como você não apareceu quando eu te invoquei. Eu achei que não tinha funcionado, mas eu estava errada. Agora eu entendo. Na verdade, funcionou. E você estava lá. Mas não teve coragem de mostrar a sua cara. Como agora.

– Continue. — pediu a mulher se aproximando visivelmente interessada na teoria de Mia.

– Você não é um fantasma. Você é um demônio. Você é ele. Crowley. — revelou Mia ao mesmo tempo que o fantasma sorriu de um jeito maligno — Mostre a sua cara, desgraçado. — desafiou ela.

Notas finais
Acho que amanhã consigo postar mais um capítulo! Bjuuuu