Hot&Cold
4 Capitulo três - The Taste of the Chaos
Notas iniciais
POVs Gray
— Tadaiama. – Falei assim que fechei a porta atrás de mim.
— Okaeri! – Meredy apareceu na porta da cozinha segurando uma espátula.
Fui até a cozinha pegar um refrigerante na geladeira e voltei para a sala. Larguei minha mochila em qualquer lugar pelo caminho e me sentei no sofá branco ligando a televisão e pondo meus pés sobre a mesinha de centro. Eu tinha acabado de chegar, fui a Fairy Glitter acabar com os papéis da transferência e amanhã eu já poderia frequentar as aulas.
Derrepente, brotando das profundezas do inferno, Meredy chegou e bateu a espátula na minha perna.
— Maldita... – Segurei a perna e desabei no sofá. Aquela peste tem uma força do cão!
— Tire os pés da mesa, seu mal educado! – Falou de nariz em pé enquanto voltava para a cozinha, que era separada da sala apenas pela bancada de granito que no fim se juntava com o teto, formando uma “porta”.
— Sua pirralha! – Falei alto para ela ouvir. Me levantei para checar se ainda tinha o movimento da perna. – Onde está sua mãe?
— Hmm... Ela ligou e disse que teria de ficar até mais tarde no escritório hoje. – Fez uma expressão de tristeza. – Parece que ela não irá comer conosco hoje de novo...
— Há, pare de reclamar pirralha. Alguém tem que arrumar grana para comprar mais refri! – Levantei a latinha fazendo um “brinde” sozinho.
— Idiota – Falou rindo e foi acaba de cozinhar o jantar.
Meredy era uma garota legal. Era um tanto alta para a idade, tinha doze anos, cabelos cor-de-rosa curtos e olhos verdes. Eu não a achava nada parecida com a mãe fisicamente, mas a personalidade era a mesma! Ela já era bastante responsável por si mesma e até por mim algumas vezes. Ultear, sua mãe, era uma advogada muito requisitada para casos criminais e acabava ficando muito tempo no escritório em reuniões, processos e sabe-se lá mais o que, e acabava tendo que deixar a filha de lado algumas vezes. Na verdade, desde que eu fugi e me refugiei aqui, acho que salvei Ultear muitas vezes como sua “babá” particular.
— O jantar já está quase pronto oji-san! – Meredy gritou da cozinha. – Vá se limpar!
— Hai, hai... – Murmurei e me levantei. – Oe! Meredy me ajude a fechar as janelas da casa, está começando a chover!
Me apressei para ver se todas as janelas estavam fechadas. Se eu deixasse algum cômodo molhar... Não quero nem pensar no soco que Ultear vai me dar!
Aquela mulher... é... Nem sei como explicar!
Acabei de fechar as janelas e fui para o meu quarto esperar até Meredy me chamar.
Eu dividia o quarto com ela. Dormíamos em um beliche eu em cima e ela em baixo. O quarto era confortável e grande o bastante para uma pré-adolescente e um universitário vagabundo dormirem. Nada comparado com o luxo em que eu cresci, mas melhor do que continuar naquela casa sendo humilhado. Na verdade esse cômodo, que deve ser do tamanho do closet que tenho lá, era mais meu lar do que qualquer outro lugar.
Fui até as grandes janelas de correr. A chuva batia fortemente contra o vidro da janela. Um relâmpago cortou os céus com ódio, o que me sobressaltou um pouco. Chuva... Porque sempre em noites assim eu lembrava dela? Aquela vadia...
— Pensando na vida, cérebro congelado? – Alguém falou no meu ouvido.
— Oeee! – Me virei e peguei o primeiro objeto no alcance das minhas mãos e apontei para ela. Ultear só faltava cair no chão de tanto que ria da minha cara.
— Há, eu me rendo á sua escova de cabelo senhor! – Falou dando gargalhadas e pondo as mãos para o alto, fingindo estar sendo rendida.
— Cala a boca, idiota! – Joguei a escova em sua direção, que ela desviou facilmente, e me sentei na cama de Meredy. Seu terno azul marinho e seus cabelos estavam molhados, sua gravata estava afrouxada e ela aparentava cansaço graças as suas olheiras bem marcadas. Mas ainda tinha uma aparência jovial e um corpo invejável apesar dos seus quase trinta e dois anos de idade.
— Sério Gray, o que você tem? Tem andando tão estranho ultimamente...
Passei a mão pelos cabelos, nervoso.
— Não é nada...
— Há, qual é! – Falou rindo. – Você se faz de “pedra de gelo” para as pessoas. Anda por ai com essa expressão indecifrável, finge desinteresse em tudo. Mas você sabe que isso não cola comigo. No dia que você encontrar alguém que possa ler seus sentimentos tão bem quanto eu, quero que me apresente essa criatura! – Dei uma risada sem humor. – Agora vai, fala.
Conheci Ultear quando era pequeno. Ela era filha da minha falecida e querida professora particular. Meus pais não me deixaram ter aulas em escolas como uma criança normal, eles contratavam professores e Ul foi à única que eu realmente cheguei a gostar. Na verdade ela era como uma mãe para mim.
Ul teve uma convença com meus pais certa vez sobre o “quanto era importante minha convivência com outras crianças”, e eles permitiram que ela trouxesse seus filhos algumas vezes para brincar comigo. Eu e Lyon, que tínhamos a mesma idade, vivíamos em pé de guerra. E Ultear, apesar de ser bem mais velha, sempre foi uma moleca e adorava brincar. Eles eram como meus irmãos.
— Argh... – cocei a cabeça. Eu sabia que enrolar Ultear nunca daria certo, então acho melhor ir direto ao ponto... – Eu estou... Preocupado. – Ela assentiu para que eu continuasse. – Não quero me encontrar com aquela vadia mas...
— Se não quisesse não estaria indo para a Fairy Glitter. – Me interronpeu. A olhei surpreso. Ela pegou seu espelho na bolsa e retocou o batom vermelho que usava, e eu já estava ficando impaciente quando ela cruzou as pernas e me encarou de volta. E não disse nada. Nem uma palavra.
— Sabe esse não era o conselho que eu esperava. – Falei com ironia.
— E você queria o que? Que eu esfregasse seus cabelos e dissesse “vai ficar tudo bem, amanhã mesmo vamos lá matá-la para que você nunca mais a veja”? — Disse, sua voz firme como eu só ouvira algumas vezes na vida. — Encare a realidade Gray. Você é um homem agora, não tem mais dezessete anos. Uma parte de você quer resolver essa história e você sabe disso. Eu não dou razão a ela, nunca darei. Mas você devia ouvi-la. – Se levantou, mas deu um suspirou e se agachou. Levantou meu rosto que eu tentava esconder a todo custo e, passando a mão no meu rosto, secou a lágrima solitária que eu tentei esconder dela. – Eu te amo cara, mas você tem que crescer ok? – Beijou minha bochecha e se levantou. – Meredy está te chamando para o jantar. – E saiu do quarto.
— Droga! – Soquei o travesseiro com raiva. O pior de tudo era que eu sabia que Ultear estava certa.
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