Horizonte
6 Êxtase
Alguns segundos se passaram e nós continuamos a olhar um para o outro sem dizer nada. Eu já estava ficando preocupada... “O que será que ele está pensando?” era a única coisa que eu me perguntava.
Seus olhos começaram a brilhar como se a qualquer momento ele fosse deixar escapar uma lágrima, mas nada disso aconteceu, pelo contrario, ele deu um sorriso envergonhado e me beijou.
Parece que o tempo passou tão rápido, quando me dei conta já estava em casa esparramada no sofá, mergulhado em pensamentos, meu tênis estava jogado em cima da mesinha da sala, minha mochila na poltrona ao lado. E assistia ao horário eleitoral.
Eu nunca imaginei chegar a esse ponto em toda a minha existência, jogada em um canto da minha casa, suspirando por alguém, sem querer saber de mais nada. Tudo estava perfeito até o horário eleitoral fazia sentido, eu estava empenhada e gostando de assisti-lo!
Foi então que eu ouvi um estrondo vindo da janela da varanda, e tudo o que me cercava desabou, meus sentimentos passaram de felicidade e amor para medo e terror. Pensamentos mais bizarros e pessimistas me rondavam, tudo o que eu menos queria agora estava acontecendo.
Eu havia esquecido o fogo ligado e o macarrão agora virara uma papa, meu tênis estava cheio de lama e estava sujando a mesinha central da sala, meu trabalho de física que acabara de terminar na escola estava amassando na mala, e ainda por cima minha casa poderia estar sendo roubada!
Corri para a despensa onde minha mãe guardava as vassouras e me armei com todas possíveis, uma.
Na volta passei pela cozinha e desliguei o fogo, estava quase chegando no telefone quando ouvi a porta ser escancarada. Me dirigi à sala e encontrei paralisado na frente da porta... Meu pai.
– Calma! Melissa! Sou só eu! Abaixe essa vassoura!
Que cena patética eu toda descabelada na porta da cozinha parecendo o boneco Chuck com uma vassoura de palha na mão.
– Desculpe pai... Eu pensei que fosse um ladrão.
– Não Mel... Eu havia esquecido a chave, pensei que não estava em casa e arrombei a porta – disse meu pai envergonhado – mas por que você não respondeu? Eu gritei umas três vezes!
– Arrombou?! Desculpe estava meio ocupada... E assim que ouvi o barulho corri para o armazém e não ouvi mais nada.
– Tudo bem. Alias aproveite que você já está armada com essa vassoura e arrume essa bagunça, o que passou por aqui? Um furacão?
– Desculpe novamente por isso e pelo jantar... Que agora é uma papa gosmenta... – começamos a rir envergonhados.
Depois do acontecido, a noite passou rápida, antes que minha mãe chegasse, eu arrumei tudo, desamassei meu trabalho e limpei meu tênis.
Meu pai preparou outra coisa rápida para nós jantarmos.
No fim, exausta, fui tomar meu banho e dormir.
Desabei na cama, cansada, mas não conseguia dormir, fiquei rolando de um lado pro outro sem conseguir esvaziar minha mente.
Meu quarto agora estava escuro, iluminado apenas por uma fresta de minha janela, tudo que eu podia enxergar agora jazia frio e sem graça. E mesmo assim eu não conseguia dormir.
Ficava rolando de um lado para o outro da cama, meus lençóis se enroscando nas pernas, meu travesseiro muito quente, nada me deixava adormecer.
Depois de certo tempo desisti de dormir, estava agitada demais, ligue o abajur e fiquei sonhando acordada por alguns instantes.
Olhando para o teto algumas imagens passavam repetidamente por minha mente. Todas sem exceção tinham Angellus, seu perfeito e harmonioso rosto, agora não deixava meus pensamentos.
Não sabia dizer por que precisei que alguém interferisse nesse assunto para eu me tocar do que realmente estava acontecendo
Mais cedo ou mais tarde isso teria acontecido, e pelo acorrido, ele também pensava a mesma coisa.
Senti-me mal por não ter falado nada naquele momento, explicado, o que estava acontecendo desde o primeiro dia, se é que é preciso explicar alguma coisa. Perguntado desde quando ele sentia-se assim também. Uma satisfação inútil, mas que agora me tirava o sono.
Do outro lado do corredor ouviam-se os roncos do meu pai, sinal de que seu sono era pesado e que minha mãe estava acordada. Fui até a escada para confirmar.
A luz da sala estava acesa e a TV ligada baixo. Provavelmente Jasmin não estava conseguindo dormir e foi tomar chá para ficar mais calma e arriscar dormir de novo.
Desci as escadas lentamente fingindo sonolência.
– Ohn... Querida acordou com os roncos de seu pai? – perguntou preocupada.
– Não estou conseguindo dormir... – minha mãe franziu o cenho.
– Está agitada, teve um pesadelo ou esta pensando em muitas coisas? – parte do que ela falou estava certo, só que eu estava pensando em uma só coisa.
– É... Dia muito agitado.
Minha mãe olhou-me franzindo o cenho.
– Não vai me contar o que aconteceu?
– Ah... algumas meninas me enchendo, nada de mais – Estava um pouco nervosa, a cada três silabas eu desviava o olhar dela, quase deixei escapar o outro acontecimento umas cinco vezes durante nossa conversa.
– Mel, você quer que eu faça alguma coisa a respeito? – perguntou ela tentando ajudar.
Se ao menos ela pudesse.
– Não, esta tudo bem mesmo mãe.
Não sabia como contar o que tinha acontecido, mas acho que era uma boa hora de começar.
Meu pai estava dormindo aos roncos então isso não deveria ser tão constrangedor assim, tudo bem que no dia seguinte eu já ia estar a parte de tudo.
– Ah... vamos lá mel! Me conte o que esta deixando você tão aflita? – Perguntou minha mãe já com uma Xícara de chá prestes a me oferecer.
Ficamos conversando quase a noite inteira, quando se aproximava das 3h da manhã, comecei a sentir meus olhos pesarem e o cansaço do meu corpo.
Arrumei-me no sofá e foi lá que dormi pelo resto da noite, meu sono era tão pesado que não sonhei, apenas senti minha mãe me cobrir mas não consegui abrir os olhos novamente. Pelo menos me senti mais leve por ter desabafado com ela, e dormi bem.
De manhã fui acordada por minha mãe que me falava varias coisas sem eu estar prestando atenção em alguma delas.
– Calma mãe! Deixa eu acordar... – nesse momento eu senti uma terrível dor nas costas.
Consegui abrir os olhos e olhei em volta confusa, tudo estava mais alto.
– Mel, você caiu do sofá – disse minha mãe rindo.
– Ai! Minhas costas... Meu pé! – Agora eu sentia a pulsação do meu pé torcido, devia ter batido ele na mesinha da sala quando cai.
– Calma mel, não aconteceu nada, mais da próxima vez tente dormir na sua cama, alias... Como você não acordou?
– Sei lá mãe! Que horas são?
– Hora de você ir se trocar ou vai ficar atrasada. Logo-logo Angellus vai chegar – disse ela um sorriso sarcástico no rosto.
– Mãe...
– Okay não vou mais falar nada... Prometo – E fez como se costurasse sua boca.
Levantei-me com um pouco de esforço e fui para meu quarto.
Enquanto separava minha roupa, dei uma espiada por cima dos ombros no relógio do criado mudo, já eram 6:25. Fui correndo para o banheiro, tomei um banho e escovei meus dentes Fiz tudo isso em 7 min, meu tempo recorde.
Arrumei meu material, e fui comer algo antes de sair.
Meu pai e minha mãe tinham acabado de ir para o trabalho, quando escutei a campainha tocar.
Provavelmente algum deles devia ter esquecido a chave. Deixei minhas torradas fazendo e fui abrir a porta.
Dei uma espiada no olho mágico como de costume e levei um susto. Era Angel.
Por alguns segundos fiquei paralisada sem saber o que fazer. Minha mente apenas dizia “abra a porta” e diga “olá”.
Respirei fundo e abri com calma a porta e em seguida encostando meu rosto nela.
– Oi – eu disse sorrindo.
– Oi, er... Eu passei aqui um pouco antes para conversar com você, estou atrapalhando? – disse ele meio nervoso ou envergonhado, não sei bem.
– Não, não, eu já acabei de me trocar, entre – nossa eu realmente estava com a aparência calma, contrariando tudo o que eu estava pensando e sentindo.
Sentei no sofá e dei três tapinhas no acento ao lado, obediente ele se sentou.
– Mel... – Ele parou e franziu o nariz – que cheiro é esse?
Corei imediatamente (não é isso que você deve estar pensando), levantei-me rapidamente e fui a cozinha.
– Minhas torradas! – fiz uma careta.
Enquanto retirava o resto das cinzas da frigideira Angellus se aproximava da cozinha.
Ele parou na porta e ficou me olhando pacientemente por alguns segundos.
– Você deve estar com vontade se rir de mim, tudo bem vai em frente.
Ele deu um sorriso.
– Não, não estou.
– Você mente mal – falei sorrindo.
– Não estou mentindo, agora você vai ficar parcialmente desnutrida – ele riu.
Ri envergonhada.
– Tudo bem, não estou com fome mesmo, o que você queria falar comigo?
– Ahm... Ontem ficou tudo meio confuso... Posso considerar aquele beijou como um pedido de namoro?
– Não – Ele congelou nessa hora, então eu sorri – você vai ter que me pedir formalmente – ele relaxou um pouco mais ainda estava meio assustado – é brincadeira Angel!
Ele sorriu e veio ao meu encontro, seus braços se entrelaçaram em mim, e ele me beijou.
– Melissa quer namorar comigo? – sussurrou ele bem baixinho no meu ouvido.
– Sim.
Continuamos abraçados por um bom tempo, aquilo era tão bom, fisicamente era quase impossível de nós conseguirmos nos separar, algo mais forte nos prendia.
A sensação de tocar sua macia e perfumada pele avermelhada, de ser envolvida por seus braços musculosos e ao mesmo tempo com seu toque delicado, era incondicionalmente a melhor sensação do mundo.
Seus lábios escorregaram por minhas maças do rosto até os meus lábios e me beijaram.
– Acho que a prova da primeira aula não vai esperar por nós – disse ele interrompendo o momento.
Gemi desobediente ao gesto. Pouco a pouco nossos braços foram deslizando e voltando ao lado do tronco. Apenas nossas mãos permaneceram entrelaçadas.
– Vamos então – disse finalmente.
Caminhamos até a porta, peguei minha bolsa que estava pendurada na maçaneta e saímos.
O dia estava com algumas nuvens no céu impedindo o sol, com apenas alguns raios escapando e atingindo a copa das arvores que refletiam num verde incandescente ofuscando a visão.
O vento gélido tocava gentilmente minha face e fazia as folhas bailarem a nossa volta, o asfalto brilhava abaixo de mim molhado pela chuva que caíra de manhã.
Angel correu a minha frente e abriu a porta cavalheiramente, olhei para meus pés e dei uma risadinha.
– O que foi? – sorriu Angel.
– Nada – recolhi a risada e entrei no carro.
– Eu sei que você não gosta... mas vou ter que correr um pouquinho se não vamos chegar atrasados.
– Tudo bem.
Ele acelerou e cantou pneus, prendi a respiração e agarrei-me ao banco.
– Me desculpe – olhou-me Angel preocupado.
– Tudo bem – sorri – esqueceu que parte da culpa de estarmos atrasados é minha?
Seus ombros relaxaram, não sorriu dessa vez, ele tentava manter seu rosto suavemente alegre, mas seus olhos estreitos o delatavam.
– O que foi Angel? – ele suspirou e desviou-se de qualquer pensamento que estivesse tendo.
– Nada, só fiquei preocupado – percebi a mentira por traz de suas palavras e dei de ombros.
Quando chegamos à escola, o pátio e as ruas em volta estavam desertas. Quase todas as vagas de carro preenchidas. Dei uma olhada no relógio, 12:53.
– Okay... Agora podemos correr – disse enquanto saiamos do carro – Temos 7 minutos para chegar a sala.
– Ohn... Desculpe-me mesmo Mel... Devia ter falado sobre isso a caminho – Disse Angel pesaroso.
– Bom... De certa forma, minha casa é parte da sua rota para escola – sorri orgulhosa de meu pensamento.
Ele repuxou o canto dos lábios suavemente antes e agarrar minha mão e começarmos a correr.
Fiquei feliz por perceber que mesmo com o meu pé imobilizado por uma bota, ainda conseguia correr quase tão bem quanto se estivesse normal.
Chegamos a sala com 2 minutos faltando, Sra. Lonai já estava fechando a porta e segurando as provas prontas para serem distribuídas. Enterrei a mão na maçaneta afobada e sem ar, tentei falar algo como “espere” ou “pare” mas só consegui fazer alguns gemidos interrompidos por tosses. A falta de ar me deixou atordoada por alguns instantes, o sangue fugiu do meu rosto me deixando pálida, podia ouvi-lo pulsando no meu ouvido como uma bateria.
– Espere – concluiu Angellus para o Sra. Lonai que no momento estava um pouco preocupado com a situação.
– Melissa! Você está bem? Precisa de algo? – Disse euforicamente.
– Não, estou bem professora, só... – recuperei o fôlego – Apenas deixe-nos fazer a prova.
– Tudo bem, ainda não bateu o sinal, podem-se sentar.
Entrei na sala seguida por Angel enquanto procurava uma carteira vazia. Em dia de prova dificilmente alguém faltava, diferente dos dias normais onde se sobravam de quatro a seis carteiras.
De relance olhei para Jane e Clara que sorriam maliciosamente para mim, senti minhas bochechas rosarem mais a cada olhar que nos seguia.
Sra. Lonai distribuiu as provas de carteira em carteira mostrando uma alternativa com erro de digitação. Tentei esvaziar minha mente dos problemas corriqueiros e me concentrar a prova na minha frente.
Empenhei-me na parte de cálculos primeiro e depois fui fazendo os balanceamentos químicos. De vez em quando dava uma olhada por cima dos ombros na direção de Angellus, no início sua face jazia calma e concentrada, mas depois nossos olhares começaram a se cruzar e ambos estávamos nos segurando para não rir.
"Eu acho que vou me dar mal nessa prova" pensei.
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