Horizonte

4 A pior noite do ano... Termina com o melhor dia.


Notas iniciais
Sim eu sei..... esse pessoal gosta mesmo de ir ao cinema.. Mas fazer o que não se escolhem os amigos. Mas depois dessa noite vou pensar duas vezes antes de julgar o livro pela capa.

"Sorte a minha de que ninguém estivesse me olhando naquela hora."

Estávamos esperando o pessoal chegar. Eu, Jane, Paulo, Jonan, e Teodor.

– Nossa mais que atraso deles – disse Jane.

Jane era a menina mais simpática e bonita da classe, ruiva de olhos azuis, a boca sempre tão vermelha quanto o cabelo.

Meu celular tocou.

– Alô?

– Mel? Oi! Sou eu a Layla, não vai dar pra eu ir com vocês eu quebrei a perna, meus pais tiveram que sair, o Gabriel vai ficar tomando conta de mim – ela deu uma risada – me desculpe, e boa diversão! Desculpe mesmo...

Antes que ela continuasse interrompi.

– Não se preocupe. Tudo bem! Melhoras pra você! Tchau, beijos – Desliguei o celular e percebi que todos prestavam atenção em mim, assim pigarreei e comecei – hm, Layla e Gabriel não vão vir, Layla quebrou a perna e Gabriel vai ficar de babá.

– Hm, ok! – disse Jane – então... Vamos?

Fomos a bilheteria do cinema e compramos os ingressos, e foi ai que a pior noite do ano começou.

No começo foi tudo normal, compramos pipoca, e revezamos para ir ao banheiro. Assim fomos escolher nossos lugares, a briga começou. Jane e eu, esse foi o motivo da briga, parece que de uma hora para outra, os meninos começaram a disputar por Jane (eu é que não era mesmo), má sorte deles, Teodor colocou ela entre eu e ele, deixando os outros dois sobrando.

A cena foi engraçada, os dois tentando passar pela muralha que recobria ela, acho que a única pessoa que prestou atenção no filme foi Jane, que não entendeu nada do que estava acontecendo.

– Plofht – caiu minha barra de chocolate, adivinha no pé de quem? Jane.

– Desculpe.

– Deixa que eu pego – disseram em coro, e um barulho de duas rochas se chocando surgiu, ou de duas cabeças duras, Paulo estava jogado em meus pés e Jonan sendo segurado pela gola por Teodor (isso deu medo).

– O que isso gente?! – gritou Jane, jogando a pipoca pelo ar.

É ela ainda não tinha percebido o que estava acontecendo.

Comecei a rir como uma condenada, Teodor deu um sorriso torto enquanto os dois engasgavam e Jane olhava confusa para todos.

– Podemos ver o filme – disse ela.

– Claro.

– Então...

– Sim.

Nos ajeitamos nas poltronas, e riscamos aureolas na cabeça.

Acho que ela ficou uns 15 minutos nos olhando até que desistiu de tentar entender a palhaçada.

Eu nem prestei atenção no filme, fiquei revendo a mesma cena na minha cabeça, caramba... Como Teodor era forte! Segurar o brutamonte do Jonan, o melhor do time de Handball, tinha que ter força, nem flexionou o joelho quando “agarrou” a gola da blusa dele.

Meu pensamento foi interrompido por uma sensação estranha.

– Mel desculpa! Deixa que eu limpo – O refrigerante de Paulo estava todo derramado no meu colo.

Revendo a cena, acho que ele estava babando pela Jane, quando o refrigerante caiu no meu colo pelo santo cotovelo bobo e desajeitado dele.

– Não! Deixa! Eu sei me limpar sozinha – disse irritada – Apenas... Dá pros dois pararem com essa palhaçada?

– ... – Apenas silêncio? Senti minhas bochechas ficando rosa.

– Shhh!!! – Algumas pessoas além de Jane também estavam querendo ver o filme, Okay, agora minha cara inteira estava rosa.

O lanterninha veio dar uma bronca na gente, DÁ PARA FICAR PIOR?

Fomos expulsos do cinema.

Mas essa não foi a pior parte, a pior parte foi ficar sendo fuzilada pelos olhos verdes de Jane a noite inteira.

– Melissa, comigo A-G-O-R-A – disse ela depois que saímos do cinema.

– Sim senhora – tentei quebrar o gelo.

Todos sabiam o que iria acontecer, Teodor me olhou com uma cara de pena, enquanto Paulo e Jonan me olhavam dizendo: “Por favor, não conta! você vai estragar tudo...” e eu retribuía com uma cara de vingança “Ah... Estou torcendo pra estragar mesmo”.

Jane me jogou contra a parede.

– Da para me explicar o que está acontecendo?

– Claro! Por onde você quer que eu comece?

– Que tal... Por que você e Meu irmão estavam estranhos?

– Na verdade... As únicas pessoas que estavam estranhas eram Paulo e Jonan – Ela continuou sem entender nada.

– Ta. Por que o “Da pros dois pararem com essa palhaçada”?

– Sério que você não percebeu nada? – ela continuou olhando brava e confusa – Simplificando Jonan e Paulo estavam te disputando, Teodor te defendendo e eu no meio.

– ah... Então...

Caiu a fixa! Acho que só tinha cabelo naquela cabeça.

– Isso eu tinha sacado... O que tem de ruim nisso? – disse ela com um sorriso malicioso no rosto.

Por dois minutos fiquei encarando ela perplexa. Isso me assustou.

– Jane! – gritei com ela e ela caiu na gargalhada.

Segurei-me para não dar risada também, mas tive que me conter com um olhar de repreensão a ela.

Depois de alguns segundos ela parou de dar risada e enxugou as lagrimas dos olhos.

Ao voltarmos a entrada percebemos que Paulo e Jonan tinham ido embora, talvez Teodor tenha assustado eles ou foram medrosos o suficiente a ponto de fugir de Jane.

Jane se encaminhou ao carro deixando eu e Teodor para traz.

– E aí? – disse Teodor.

– E aí o que?

– Ela brigou muito?

– Nem um pouco, deu até risada.

– Ufa! – disse ele passando a mão na testa.

Dei uma risada e ele retribuiu. Ele correu para alcançar Jane e abrir o carro.

Estava escuro, devia ser por volta de umas nove horas da noite.

Estava me encaminhando ao carro quando não percebi que havia um degrau a minha frente. Tropecei dando uma cambalhota para frente e torcendo o pé.

Os dois vieram correndo me socorrer, eu acho... Só me lembro de ter batido com a cabeça e acordado num quarto branco.

– Mel? Mel? Querida vocês está bem? – disse minha mãe acima de mim.

Eu estava rodeada de gente, reconheci alguns rostos, mas estava muito atordoada. Teodor e Jane, Pai, Mãe e um cara de jaleco (suponho que fosse o médico).

– Hm... Minha cabeça dói...

– Você bateu com a cabeça filha – Disse meu pai.

Estava meio tonta ainda, acho que o efeito dos analgésicos estavam passando, mas a sonolência não. Olhei confusa em direção aos rostos preocupados. Jane logo se apressou a me explicar:

– Não me pergunte como, mas você tropeçou na calçada e conseguiu bater a cabeça, torcer a perna e ralou todo sua barriga.

Descobri a coberta até a barriga e percebi que uns três centímetros a baixo do meu seio havia um montinho a mais de tecido, supus que eram de gases e esparadrapos.

– Argh... – Gemi.

– Você precisa de descanso e cuidados – disse o médico, como qualquer outro, já cansei de ouvir isso. Respondi apenas com um aceno com cabeça.

– Sem esforço físico... – continuou a enfermeira.

Me espreguicei se senti minha costela doer, gemi, estava muito sonolenta ainda, fechei os olhos e me arrumei na cama (maca). Ouvi passos esvaziando o quarto e mergulhei na inconsciência.

No dia seguinte, domingo, estava voltando pra casa toda quebrada.

Meu pai me ajudou a subir a escada, mesmo com a imobilização móvel (robofoot) era difícil andar. Deitei na minha cama com uma série de pontadas na costela, e reparei que tinha um cartão e flores sobre o criado mudo. Estendi a mão e agarrei o cartão. Era de Layla:

“Melhoras pra você, De: Layla” sorri por pensar alguns instantes, em nós duas uma apoiada na outra com muletas e sendo chamadas de “perna-de-pau”.

Olhei em volta não tinha nada para fazer, me lembrei de um livro da escola que tinha lido no 9º ano, um livro muito chato que iria servir para a ocasião.

Cavei a gaveta do meu criado mudo procurando livro, tateei algo com a capa empoeirada, era ele, lembrei-me das boas sonecas tiradas enquanto tentava ler ele para a prova.

Winston, meu velho amigo do romance- ficção- suspense.

Na metade da primeira página comemorei no meu perfeito mundo dos sonhos a idéia que dera certo. Agora estava mergulhada na escuridão profunda de minha mente. Consegui depois de alguns instantes (minutos... Ou talvez horas) sonhar algo, não que eu tenha feito algum esforço.

Estava tudo escuro, com apenas uma luz ao centro de uma clareira. De repente ouve um estrondo vindo da luz, e uma nevoa cinza percorreu a relva. Corri para perto tentando descobrir o que estava acontecendo, uma pessoa, ou melhor, algo caiu da luz suavemente sobre a grama orvalhada, a névoa que era cinza se tornou preta e se juntou num único ponto formando... Um anjo! Um anjo de asas negras.

Por um momento não percebi o risco que corria, fiquei maravilhada com a beleza fenomenal da incomum criatura. O outro caído abriu suas asas brancas e lustrosas e levantou-se de costas para mim, sem forças tentou acertar um golpe com a própria mão... sem sucesso, o anjo “mal” segurou seu pulso e girou-o no ar, ele caiu no chão e consegui ver seu rosto.

– Angellus! – gritei.

O anjo negro me olhou nos olhos e deu um sorriso maligno, sua mão deslizou suavemente sob a lateral de seu corpo sacando uma espada dourada.

Não me lembro muito bem dessa parte. O anjo mal ia dar um golpe em Angellus mas eu por algum motivo cai me debruçando sobre ele tentando defende-lo e então tudo ficou branco.

Acordei com o barulho da fechadura da minha porta.

– Acho que ela esta dormindo – disse minha mãe.

Ninguém respondeu.

– Estou acordada mãe.

– Adivinha quem veio te visitar? – ouvi passos perto da porta e me arrumei na cama.

– Oi Mel.

– Angellus! – sorri.

– Só por que eu não estava por perto né? – disse ele se gabando.

– Com certeza – rimos alto, só minha mãe não achou muita graça e riu forçado.

– Vou deixar vocês.

Apenas assinalei com a cabeça.

– E ai? Como você conseguiu esse estrago?

– Truques de uma palhaça, cair e fazer os outros rirem, tudo bem que no caso eu acabei preocupando.

– Ninguém é perfeito, mas acho que você acabou de perder seu contrato com o circo – ele riu.

Ficamos alguns segundos sem falar nada, apenas olhando pela janela o horizonte.

– Eu sonhei com você – disse.

– É? – disse ele meio preocupado – Foi bom ou ruim?

– Primeiro ruim, depois eu te salvei – Ele deu um sorriso.

– Então teve um final feliz.

– Sim.

O sol estava se pondo por traz das montanhas, era tão lindo... Tentei me levantar e senti uma pontada em meu peito, gemi.

Angellus me ajudou a levantar e andamos até a janela.

– Lindo não? – Perguntou-me.

– Muito.