Hora de Recomeçar!

9 Um encontro inusitado


9. Um encontro inusitado …


Já havia se passado uma semana desde a chegada das meninas. Depois da recepção, Shunrei, June e Eire foram levadas aos seus respectivos apartamentos para descansarem. Shun e Shiryu já haviam preparado todas as acomodações das garotas, inclusive a matrícula na faculdade onde todos estudavam.
Porém, nenhuma das garotas havia ainda conversado sobre seus sentimentos com seus cavaleiros amados. Na verdade, acreditava-se que se dependesse dos rapazes, as coisas continuariam como estavam, devido a grande timidez que eles sentiam quando o assunto era amor. Seiya e Saori também ainda não conversaram. Por mais que o cavaleiro a procurasse, ela sempre tinha a desculpa de que estava muito ocupada, e adiava a conversa, para desespero de Seiya.
Em um dia normal, como todos os outros, (assim era como Fênix classificava seus dias ... ) Ikki e Shun estavam indo para a faculdade juntos. Conversavam sobre um assunto qualquer, sem muita importância. De repente Ikki viu Pandora se aproximar, e furiosa, sem nenhuma explicação, bater na cara do rapaz, que não entendeu nada daquela situação.
– Pandora, você é louca? – perguntou Ikki já muito furioso com a garota.
– Eu te odeio Ikki, você não presta. É o diabo em forma de gente, o pior homem que já conheci. Você não tem caráter, não vale nada. É um imprestável, desumano, insensível. Você merecia a morte. – Pandora estava realmente muito nervosa.
Shun não estava entendendo nada daquilo que acontecia em sua frente, Ikki, muito menos. Mas o cavalheiro não era muito paciente para esse tipo de escândalos, ainda mais quando viam da parte de Pandora. Shun logo notou a mudança de humor no irmão, que já começava a expressar aquelas características marcantes de seu temperamento. Ikki sempre foi muito explosivo, arrogante, ignorante, impaciente, especialmente com Pandora. E imediatamente voou pra cima da garota com uma vontade enorme de devolver-lhe o tapa. Sorte dele (e dela) Shun ter interrompido o irmão, segurando-o para não espancar a garota.
– Ikki, controle-se. Não faça isso, vai machucá-la.
– Me solta Shun, eu não to nem aí, eu quero mais é matá-la. A tempos que sou obrigado a suportar essa garota, eu não agüento mais isso.
– Você é mesmo um bruto Ikki. Nunca pude esperar qualquer forma de carinho vindo de você. Você é um ignorante, bateria até em uma mulher. – Pandora expressava toda a sua ira.
– Você não é uma mulher que merecesse qualquer tipo de respeito.
– Ah, claro, a única mulher que você reconhece é Esmeralda, não é? Pois bem seu idiota, que isso te corroa por dentro e que sofra para sempre com essa verdade: ela está morta, e não há nada que você possa fazer.
– Vai para o inferno, Pandora. – Ikki tentava se soltar para agredir a garota, que saiu correndo pelos corredores da faculdade, esbravejando o quanto Ikki era um mau caráter e o quanto o odiava.
Shun observou a garota se afastar e logo depois largou os braços do irmão, e ficou analisando-o. Não acreditava no que havia visto, seu próprio irmão com um comportamento anormal. Sabia bem que Ikki nunca foi muito amigável com as pessoas. Sabia de seu comportamento hostil e arrogante. Mas jamais esperou que seu irmão chegasse ao ponto de se tornar agressivo. Shun começou a perceber que Ikki não estava bem, enxergou que em seus olhos brilhava um sentimento estranho, de amargura, ódio, rancor... Ikki estava mesmo com problemas, e precisava de sua ajuda.
– O que fez Pandora agir dessa forma? O que você fez, Ikki ?
– Não me enche o saco tá legal! Ou vai acabar sobrando pra você! (Ikki viu a cara assustada que o irmão fez e percebeu que era melhor falar direito com ele) Olha, Shun, não quero brigar com você. Quando chegar em casa conversamos, tudo bem?
– Tá, como quiser. Mas você vai ficar bem?
– Sim, não se preocupe comigo.
– Já estou preocupado, Niisan.
– Pois não fique, não tem com o que se preocupar – e saiu dali em direção a sua sala de aula, pouco se lixando para as pessoas que o olhavam assustadas.
Shun sabia que alguma coisa muito séria estava acontecendo com Ikki. Não reconhecia o próprio irmão! Logo ele que sempre compreendeu Ikki, que o conhecia tão bem. Agora via em seu irmão um grande enigma, que ele mesmo não sabia desvendar. Também se dirigiu à sua sala, mas com um medo terrível de que algo acontecesse ao seu Niisan. .
Ikki caminhava desconcertado pelos corredores, não olhava para os lados e nem se importava se estava esbarrando em alguém. Sentia um ódio incrível dentro de si, uma vontade louca de desaparecer. Queria ir embora, não dali, do mundo. Sentiu-se amaldiçoado. Sua vida era o próprio purgatório, ou até mesmo o inferno. Naquele momento odiava tudo, todos. Estava a ponto de explodir, e queria uma razão simples para isso. De repente, sem perceber, esbarrou-se tão fortemente em uma garota que arremessou os livros que ela carregava para metros de distância.
– Você não olha por onde anda? – perguntou irado para a garota que, muito sem graça, se abaixava para pegar seus livros.
– Eu sinto muito, é que estava com muita pressa. Me perdoa.
– Droga, eu não acredito que ainda preciso agüentar mais essa. Você está cega? Presta atenção.
– Eu já pedi desculpas – a garota olhava para os lados tentando encontrar uma forma de sair correndo dali, afinal, nem conhecia aquele garoto, e ele já a estava assustando.
– Saia da minha frente ou eu...
Ikki de repente parou de falar, percebeu os olhos amedrontados e já cheios de lágrimas da garota com quem havia trombado no corredor. Sentiu vergonha de si mesmo, afinal de contas, o que estava fazendo? Não se reconhecia mais. Que raiva era aquela que sentia queimar dentro de si? Por que razão estava tão nervoso? Por causa de Pandora? Não. Ikki sabia que não era simplesmente por causa dela. Tinha outro motivo, que ele não sabia ao certo qual era. Tentou pedir desculpas para a garota, mas ela já havia saído correndo dali.

Ao longe Ikki a viu, ainda desconcertada pelo encontro terrível com ele. Não sabia o que pensar. Sentou em um banco que estava a seu lado e colocou a mão sobre o rosto, como se quisesse se esconder do mundo. Quem era aquele cavaleiro? Será que ele era a mesma Ave Fênix de antes? Ikki sabia que não, e precisava entender o que estava sentindo.
O tempo passou sem que Ikki percebesse. Já era hora do intervalo entre as aulas. Pegou seus livros e se dirigiu ao restaurante da faculdade onde provavelmente encontraria seu irmão. Em uma mesa mais ao centro do restaurante estavam Shun, June, Shunrei e Eire. Ikki ainda hesitou em ir ao encontro deles, mas logo Shun o avistou e não pode mais fugir do olhar fuzilante do irmão. Sentou-se a mesa dizendo um seco 'Olá' para todos. Pediu para a garçonete trazer uma grande tigela de açaí com muita castanha, precisava de energia.
– Tudo bem? (Shun perguntou baixo para irmão).
– Sim.
Shun sabia que era melhor não insistir. Voltou-se para as garotas e rapidamente entrou no assunto. Ikki não prestou atenção na conversa. Só pensava na garota com quem havia esbarrado a poucos minutos atrás. Ela tinha olhos tão bonitos, tão especiais. E a imagem deles não saía de sua cabeça. Como pode der tão bruto com ela? Se pudesse ao menos se desculpar...

De repente Ikki ouviu uma voz conhecida, uma mulher falava sobre política com um grupo muito bem organizado. Levou um susto quando viu que era a garota com quem havia gritado no corredor. Observou novamente seus olhos, eles tinham algo diferente. Brilhavam. Mas era um brilho doce, singelo. Então analisou a garota, não havia reparado muito nela porque estava muito nervoso. Mas agora ele podia ver: era muito bonita. Morena, olhos verdes bem escuros, seus cabelos eram longos e negros, tão lisos que escorriam livremente até o fim de suas costas. Sua voz era calma e firme, falava de um assunto que aparentemente conhecia muito bem. E pelo visto, o que estava dizendo era muito importante para o grupo que estava ao seu redor, pois lhe davam toda atenção.

Levantou-se da mesa e aproximou-se do grupo para poder escutar melhor. Ela falava inteligentemente de política, economia, questões internacionais e aquilo o surpreendeu. Não conseguiu desviar os olhos dela e ouvia toda aquela palestra que ela aparentemente dava às pessoas ao seu redor. Esperou que terminasse e então se dirigiu até ela. Não sabia o que estava fazendo. Mas sentiu que aquela era sua oportunidade de pedir desculpas e acabar com aquele peso de consciência.
– Olá. (disse Ikki meio sem jeito)
– Oi. (respondeu a garota para Ikki sem perceber quem era ele). Eu conheço você?
– Sim, sou o garoto que esbarrou em você no corredor!
– Ah, claro. (Exclamou a garota que rapidamente se afastou de Ikki). O que você quer agora? Me crucificar por minha falta de atenção?
– Não, na verdade vim pedir desculpas. Vi você aqui e percebi que era uma boa hora para me redimir.
– Nossa, perdoe-me por dizer isso mas, você foi um tanto ignorante, não acha!
– Sim, eu sei. É que havia acabado de enfrentar um grande problema que me deixou desnorteado. Não devia ter descontado minha raiva em você. Será que consegue me perdoar?
– Não tem problema. (disse a garota sorrindo). Eu desculpo você. Meu nome é Ágata e estou cursando Relações Internacionais nesta faculdade.
– Obrigado por me desculpar. Meu nome é Ikki e meu curso é Administração.
– Bom, Ikki, o que deixou você tão nervoso?
– Ah, não é nada de importante. Na verdade eu mesmo gostaria de entender porque tive uma atitude tão explosiva. Acho que perdi um pouco o controle, e acabou sobrando pra você, né!
– É verdade. Mas tudo bem, todos nós, em algum momento de nossas vidas, esquecemos quem somos, e nos tornamos aquilo que não queremos ser... É só um momento de falta de lucidez, mas felizmente voltamos logo a realidade. Assim como você, certo? Quero dizer, esse que veio me pedir desculpa é que é o verdadeiro Ikki, não é?
Ikki estava impressionado com o que ouvira a pouco da garota que mau conhecia. Tão inteligente. Tão calma e sincera. Parecia que o conhecia a muito tempo. E o seu sorriso? Tão puro e meigo. Estava tão encantado com as palavras da garota que mau pode responder.
– É verdade, acho ... acho que você tem razão ... razão quanto ao que disse.
Olha Ikki, preciso voltar a minha aula agora. Depois nos vemos por aí, tá!
– Até logo então.
O cavaleiro simplesmente a observou se distanciando. Nem acreditava naquele encontro tão estranho ... mas tão especial. Passou o restante do seu dia pensando na garota, apesar de não saber porque. Estava até mesmo aéreo no serviço, coisa que jamais acontecia com alguém tão sério como Ikki. À noite, depois do expediente no trabalho, chegou ao apartamento e relatou todos os fatos a Shun, enquanto o caçula preparava algo para comerem.

Shun prestava muita atenção em cada fato, e nas atitudes estranhas de Ikki, principalmente porque reparou que o irmão parecia muito interessado e empolgado ao falar daquela garota. Conversaram um pouco sobre o assunto.
Depois de jantar e de tomar um longo banho, Ikki foi se deitar, mais não dormiu rapidamente, pois seus pensamentos iam longe, viajavam naquele encontro tão inusitado. Por que não conseguia parar de pensar em Ágata? Essa era a pergunta que tomava conta de Ikki. E com aqueles pensamentos estranhos acabou adormecendo, esperando que o dia seguinte chegasse logo para que pudesse reencontrar sua mais nova amiga.


(continua ...)